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sábado, 1 de janeiro de 2022

Calvino e Seus Comentários Bíblicos em Ordem Cronológica: Romanos

 

                        O reformador genebrino João Calvino é reconhecido com toda justiça como um dos mais proeminentes comentaristas bíblicos em todos os tempos. Seus trabalhos exegéticos bíblicos continuam sendo utilizados ainda hoje, apesar de já se ter passado mais de quinhentos anos desde quando ele os produziu. O conteúdo de seus trabalhos acadêmicos continua sendo utilizados como modelo prático e correto da hermenêutica e exegese bíblica, para orientar e guiar os novos estudantes.

            Minha proposta nesta série de artigos será resgatar e apresentar um pouco do contexto da produção de seus comentários bíblicos, na ordem cronológica que os elaborou, conforme meu artigo anterior - Calvino: Comentários Bíblicos em Ordem Cronológica - indicado abaixo em Artigos Relacionados.

            O convite está feito e espero ter sua companhia neste e nos próximos artigos.

Epístola de Paulo aos Romanos

A primeira questão que precisamos responder é: existe alguma razão peculiar para que seu primeiro comentário seja esta epístola paulina? Calvino era avesso a se fazer qualquer coisa sem objetividade e propósito. Para ele, assim como para Lutero e tantos outros antes e depois dele, está madura exposição do pensamento teológico de Paulo, visto que foi escrita na fase final de sua vida cristã, de maneira que nela se reflete a maturidade dos anos e do aprendizado maturado do velho apostolo, se constitui desta forma na principal porta de entrada para uma ampla exposição das Escrituras que era o objetivo maior de Calvino.

Ao fazer a escolha de produzir seu comentário desta epístola ele tem plena consciência que está diante de um texto que lhe apresenta as doutrinas fundamentais do ensino cristão genuíno que está sendo resgatado pelos reformadores. A exposição desta correspondência paulina fere de morte as tendências do Pelagianismo[1] que não apenas permeava, mas estava inserido (e continua) no tecido teológico do catolicismo romano. Portanto, esse seu primeiro comentário tem objetivo de trazer à luz diversos erros teológicos vigentes em sua época e oferecer uma teologia bíblica correta e saudável para seus leitores e ouvintes (alunos e auditórios de suas aulas e pregações), visto que uma característica peculiar de todos os comentários bíblicos de Calvino era de que primariamente era pregado no púlpito de Genebra e ensinado, discutido na sala de aula da Academia genebrina e somente, após uma última revisão feita por ele, era enviado aos editores para serem publicados, em latim para os acadêmicos e em francês para o publico em geral, uma prática que Calvino manterá em todas as demais edições dos comentários posteriores.

Antes do comentário de Calvino poucos haviam empreendido um trabalho tão amplo e profundo desta epístola. Dos chamados Pais da Igreja não temos nenhum comentário em separado, mas tão somente obras em conjunto das epístolas paulinas, tais como a de Origines (sec. III), Jerônimo, João Crisóstomo e Agostinho (sec. IV), sendo este último abordando apenas capítulos específicos. Mas após o movimento da Reforma no século XVI encontraremos uma produção crescente de comentários sobre Romanos, iniciando por Lutero, Ulrico Zwínglio, em formato de notas e Filipe Melâncton amigo e sucessor de reformador alemão.

Dos contemporâneos de Calvino temos os comentários produzidos por Heinrich Bullinger (1504-1575), reformador de Zurique e o de Martin Bucer de Estrasburgo 1536, onde estava João Calvino após seu exílio de Genebra. O comentário de Calvino será produzido três anos depois (1539) ainda dentro dos cinco anos que permanecer em Estrasburgo e no qual faz uma deferência ao comentário anterior do velho amigo e conselheiro, onde explica a razão que o levou a produzir seu próprio comentário da epístola aos Romanos. Os comentários desta epístola continuaram a serem produzidos ao longo desses quinhentos anos e já ultrapassam números expressivos.

Uma característica peculiar dos comentários produzidos por Calvino, a partir de Romanos, é de que ele evita as discussões longas e cansativas dos aspectos doutrinários derivados dos textos bíblico, as quais ele remete o leitor à leitura das Institutas, onde detalhadamente expõe os temas teológicos, de maneira que a partir de Romanos os comentários funcionaram como guia para o desenvolvimento da síntese teológica nas Institutas. Para muitos historiadores Calvino faz do comentário de Romanos sua espinha dorsal para o desenvolvimento das Institutas, percebido na organização dos tópicos principais, bem como na abundância e distribuição das citações que ele faz desta carta em relação aos demais livros neotestamentário. 

Desta forma, Calvino inova a maneira de se produzir comentários bíblico. Nos comentários ele se restringe aos aspectos hermenêuticos e exegéticos, explorando todas as possibilidades da tradução e compreensão dos textos e sua aplicabilidade vivencial (área da homilética). Para ele a razão pela qual se deveria produzir qualquer comentário bíblico era o de expor com fidelidade a mensagem contida no texto e sua correspondente aplicação na vida cotidiana dos ouvintes e/ou leitores. As vaidades acadêmicas não deveriam contaminar o trabalho da boa exegese e pregação. Infelizmente o que temos hoje no meio editorial evangélico é uma feira das vaidades, onde se produzem obras de cunhos autorais e mediáticas ou academicista sem inteiração com a realidade cotidiana, que nem mesmo os acadêmicos têm coragem de ler e que ficam amontoadas em bibliotecas nas Universidades. Esse caminho não deu certo no passado e continua não dando certo nos dias atuais.

O sucesso editorial dos comentários produzidos por Calvino é que ele conseguiu conciliar um apurado conteúdo acadêmico em uma linguagem acessível e de fácil assimilação por parte tanto das pessoas que desejavam um aprofundamento textual interpretativo quanto por aqueles que desejavam serem edificados com profundidade através da compreensão devocional das Escrituras. Ainda hoje quando lemos seus comentários bíblicos podemos com facilidade identificarmos esses dois objetivos.

Primeira Edição

            Calvino deu palestras (aulas) sobre Romanos em Genebra entre o outono de 1536 e seu exílio da cidade após a Páscoa de 1538. Imediatamente foi convidado para se estabelecer em Estrasburgo, que naquele momento se constituía no centro intelectual da Reforma. Passou a lecionar na escola de Jean Sturm, recém-inaugurado colégio humanista e aqui em período raro de quietude e sossego Calvino vai concluir a primeira edição de seus Comentários sobre a preciosa Epístola paulina aos Romanos. A dedicatória, que mencionaremos abaixo, foi feita em outubro de 1539, mas a publicação ocorre apenas em inicio de 1540. Uma segunda edição ocorre uma década depois em 1551 dentro do conjunto da primeira edição de todas as epístolas, mas em 1556 ele relança seu comentário de Romanos em uma edição expandida, não sem razão, pois em 1559 será editada a sua última e definitiva versão, igualmente ampliada, das Institutas.

Essa edição primária é provavelmente o material revisado das palestras/aulas que ele havia ministrado em seu primeiro período em Genebra de 1536 a 1538 e que se constituirá no padrão por ele utilizado para as demais obras a serem editadas. No prefácio desta primeira edição Calvino explica a razão de iniciar pela Carta aos Romanos, pois para ele, entendida corretamente, tornava-se um portal que torna acessível todos os tesouros escondidos das Escrituras.

Evidentemente que os comentários de Calvino são limitados e falíveis, mas a sua lucides e poder de concisão tornam seus trabalhos diferenciados. Assim como um mineiro que descobre um veio de ouro e o segue até o fim, assim Calvino ao encontrar um ensino proposto pelo apóstolo Paulo, ele segue o veio até que toda a exposição possa ser claramente compreendida. Muitas vezes em apenas uma frase ele consegue esclarecer toda uma linha de raciocínio do grande apostolo dos gentios. E ainda que arraigado em seu intelecto avesso ao abstrato, ocasionalmente é possível encontrarmos algumas pedras preciosas de sua imaginação e um compartilhar de sua própria experiência pessoal.

No processo do comentário, quando Calvino se depara com as questões hermenêuticas exegéticas mais polêmicas, ele opta sempre pela solução mais simples, o que não significa em hipótese alguma em abrir mão de uma interpretação coerente e verdadeira, mesmo que isso implicasse em contrariar opiniões anteriores (Pais da Igreja), ou contemporâneas (ortodoxia católica) e mesmo de colegas reformadores. Porém, suas discordâncias eram sempre apresentadas com bom senso e discernimento, nunca com arrogância e menosprezo pelo senso interpretativo dos demais.

Distintamente de outros comentaristas do passado e do presente que esmiúçam as Escrituras na ânsia de encontrarem discrepâncias textuais ou aqueles motivados por um sentimento ambicioso por novas descobertas, que mais prejuízo do que lucro tem produzido na edificação da igreja, o desejo de Calvino é encontrar a verdade e explica-la de modo a facilitar o aprendizado deste ensino ao maior numero possível de pessoas.

Dedicatória

            Calvino faz uma dedicatória desta primeira edição a Simon Grynaeus (1493), em reconhecimento a um de seus primeiros mentores e que tanto contribui para sua formação não apenas acadêmica, mas também como modelo de um cristianismo vivencial e moralmente elevado. Grynaeus foi pró-ativo no processo da Reforma atuando em Wurttenburg (1534) e em Tubingen. Foi coeditor da Primeira Confissão Helvética, mas seu maior legado foi como professor da nova geração de pastores reformados. O jovem Calvino o conheceu em 1534 quando o procurou para aperfeiçoar seu conhecimento da língua hebraica e ficou impactado com o conhecimento e a vida piedosa deste homem.  

            Nas suas palavras ao mentor e amigo podemos ter um pequeno lampejo das preocupações que antecederam o seu trabalho de comentarista bíblico. No caso especifico de Romanos sua grande preocupação é a de encontrar e apreender a mensagem central deste documento maturado do velho apóstolo dos gentios.

            Em suas palavras ao amigo lembra-se das conversas em que discutiam as qualificações que deveria ter um interprete da literatura bíblica ou qualquer outra obra a ser analisada. O grande perigo era de se afastar dos temas centrais do autor e, por conseguinte, conduzir seus leitores para temas periféricos. O comentarista não tem autoridade de impor seus próprios conceitos ao texto analisado, mas de humildemente expor os ensinos estabelecidos pelo autor e para isso é necessário brevidade e lucidez e aqui está a motivação pela qual ele empreende seu trabalho.

            Em momento algum ele menospreza os trabalhos realizados por seus antecessores e contemporâneos, conforme citados acima, mas entende que pode contribuir de alguma forma para “o bem comum da Igreja”. O potencial desta epístola é grande demais e deve ser explorado não apenas por ele, mas por todos quantos se sentirem chamados para fazê-lo. Nem sempre Calvino endossara as opiniões de outros, mas com toda liberdade ele vai apresentar o que convictamente entende ser a melhor exposição daquele texto ou daquela doutrina.

Tema de Romanos

            Norteado por suas duas diretrizes básicas brevidade e lucidez ele se empenha em encontrar a temática central deste escrito paulino aos romanos, pois ele tem consciência de que este documento inspirado é a chave (patefactum habet) para uma compreensão de toda a literatura bíblica.

            O ponto convergente da epístola é que todo aquele que foi, é e será salvo, é tão somente pela fé na justificação por meio do sacrifício de Cristo. Todo o Antigo Testamento, e Paulo insere mais de sessenta citações e tantas outras alusões às literaturas veterotestamentária, bem como a pregação apostólica navegam por este rio da “justificação pela fé”, cuja nascente está na eternidade (antes da fundação do mundo).

            Para Calvino compreender corretamente a epístola aos Romanos é, portanto, apreender e proclamar a genuína mensagem do Evangelho. E esta mensagem evangélica esta centrada na tese da justificação única e exclusivamente pela fé exposta com clareza e objetividade pelo apostolo Paulo desde os primeiros dias da Igreja Cristã. Portanto, qualquer mudança de direção é completamente condenável e deve ser evitada e rejeitada com veemência.  

Síntese da Epistola

            Calvino inicia sua exposição com uma síntese de toda a epístola, o que permite uma visão panorâmica dos principais temas a ser desenvolvido no transcorrer do documento paulino e para aqueles que têm paciência pode se encontrar uma correlação com a organização que ele empreende no desenvolvimento de suas Institutas. Um roteiro desse pedregoso caminho pode ser visto no excelente trabalho realizado por Gary Neal Hansen (cf. EHRENSPERGER, 2008 – capto 5) que vale a pena ser lido. Somente a titulo de exemplo, conforme a tabela por ele elaborada o capítulo oito de Romanos é utilizada 116 vezes sendo distribuídas: Livro 1 (3x); Livro 2 (28x); Livro 3 (78x) e o Livro 4 (7x). A epístola aos Romanos permeia todo o terceiro livro das Institutas, cujo tema central é a justificação pela fé.

            Em seu esboço, que é denominado de argumento, Calvino entende que nos cinco primeiros capítulos Paulo trata da principal tese da epístola que é a justificação pela fé: “O assunto, então, desses capítulos pode ser declarado assim, — que a única justiça do homem é através da misericórdia de Deus em  Cristo, que está sendo oferecido pelo Evangelho é apreendido pela fé”. Então o apostolo prossegue no sexto capítulo tratando sobre a santificação somente possível por estarmos em Cristo. No sétimo capítulo Paulo vai tratar da questão do cristão diante da Lei, estabelecida na antiga aliança, que deve ser observada uma vez que em Cristo somos habilitados para vivencia-la, ainda que imperfeitamente, uma vez que a nova e a velha natureza (tipificada no espírito e carne), disputam o controle da vida cristã. No oitavado capítulo o apostolo anima seus leitores romanos, pois o Espírito Santo que efetua a regeneração é o mesmo que santifica e sustenta o cristão até o final, de maneira que é possível viver na certeza da salvação, pois tanto Satanás quanto a natureza pecaminosa estão submetidos ao poder do Espírito Santo. No nono e décimo capítulo Paulo vai tratar da questão dos judeus e gentios e a posição de cada um deles diante de Cristo. Pelo fato de ser judeu não garante a salvação, pois Deus mesmo escolheu Jacó e rejeitou Esaú, de maneira que a salvação repousa tão somente na misericórdia de Deus e não em qualquer qualificação étnica hereditária. E a rejeição dos judeus e a inclusão dos gentios é o cumprimento das mensagens dos Profetas, aos quais Paulo exemplifica com Moisés e Isaías, o primeiro declarando a inclusão dos gentios e o segundo profetizando o endurecimento dos judeus. Então o apóstolo deixa claro aos crentes gentios que não há méritos neles por crerem, em relação aos judeus que rejeitaram a mensagem evangélica, pois eles foram enxertados na figueira pela fé que somente é possível mediante a graça de Deus. Nos três capítulos subsequentes Paulo faz uma série de admoestações: no capítulo doze preceitos gerais sobre a vida cristã; no capítulo treze trata das autoridades civis como sendo estabelecidas por Deus, de maneira que o cristão deve respeitá-las e que na opinião de Calvino deve ser feito por amor e não por temor. O apostolo passa a tratar então sobre os ritos mosaicos e como o cristão deve considera-los, não com menosprezo, mas com moderação e respeito e que a liberdade cristã se guia por dois parâmetros – o amor e a edificação. No décimo quinto capítulo Paulo retorna ao argumento geral – de que os fortes dever usar sua força para suportar e confirmar os fracos e jamais para oprimir ou humilhar. Para Paulo toda e quaisquer discussão entre judeus e gentios devem desaparecer, visto que a salvação de ambos repousa na misericórdia de Deus e não em méritos próprios, de maneira eles devem abandonar qualquer pensamento elevado de si mesmos e viverem em comunhão, usufruindo a esperança da mesma fé e herança. Ele mesmo humildemente deseja compartilhar com eles o que tem aprendido e aprender com eles e que somente não fez isso antes porque fora impedido por acontecimentos alheios ao seu desejo. No último capítulo Paulo aproveita para saudar diversos irmãos, comum a ele e aos destinatários da carta, algumas últimas recomendações e uma notável oração final.

            Calvino empreende então seu comentário sempre utilizado sua própria tradução do texto grego e do latim, apresentando as perícopes (parágrafos) e explorando todo o potencial hermenêutico-exegético que os textos possibilitam, bem como suas aplicações vivenciais (homilética).

            Nas referências bibliográficas indico duas versões do comentário de Romanos por Calvino, uma em inglês feita por John Owen (1849) e a outra em português realizado por Valter Graciano Martins (1997), um dos pioneiros em versar os comentários de Calvino para a língua portuguesa, inicialmente através da editora Paracletos e atualmente este trabalho tem sido empreendido pela editora Fiel. Nós demoramos “apenas” 450 anos para oferecermos aos leitores brasileiros uma versão em português deste comentário de Calvino da epístola aos Romanos.

 

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas Comentadas

CALVINO, João. Comentário aos Romanos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Paracletos (1997) e São José dos Campos: Fiel (2014). Nas páginas 19-25 temos a dedicação ao amigo e mentor Simon Grynaeus onde entre outros assuntos Calvino compartilha seu método hermenêutico-exegético na elaboração de seus comentários, resultante das longas conversas que ambos tiveram em tempos passados, bem como tece pequenos comentários críticos sobre obras contemporâneas anteriormente produzidas sobre a epístola aos Romanos e a motivação para que empreendesse a elaboração deste comentário. Em ambas as edições há um precioso prefácio para a edição em português escrito pelo Dr. Hermisten Maia Pereira da Costa (pastor presbiteriano, teólogo calvinista e escritor) que apresenta interessantes aspectos da forma com que Calvino elaborou seu comentário.

CAMPBELL, William S., HAWKINS, Peter S. and SCHILGEN, Brenda. (Ed.)  Medieval readings of Romans. New York: T&T Clark International, 2007.  [Romans through history & culture ; 6]. Um precioso resgate dos comentários da epístola aos Romanos antes do período da Reforma. Começa no século XII com Abelardo; século XIII com Tomás de Aquino e um artigo interessante sobre Dante e a epístola aos Romanos; e no quarto capítulo intitulado às Véspera da Reforma, Nicolau de Lyra e diversos comentários na parte final da Idade Media. Todos os artigos principais são replicados por outros autores, ampliando em muito as discussões em torno desta preciosa epístola.

EHRENSPERGER, Kathy and HOLDER, R. Ward (Editores). Reformation readings of Romans. New York: T&T Clark International, 2008. [Romans Through and Cultures Series; 8]. O capítulo cinco escrito por Gary Neal Hansen [Door and Passageway: Calvin’s Use of Romans as Hermeneutical and Theological Guide] é de grande valia para uma compreensão mais ampla de como Calvino produzia seus comentários bíblicos e de como ele os amalgamava com sua obra teológica das Institutas. Desde seu inicio o projeto do reformador genebrino era que os comentários e as Institutas fossem as duas faces da mesma moeda, de maneira que um completasse o outro.

McKIM, Donald K. (Ed.). Calvin and the Bible. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. O capítulo nove escrito por R. Ward Holder chapter 9

[Calvin as commentator on the Pauline epistles – especialmente pp. 226–28, e 231–32] argumenta as razões pelas quais Calvino optou por iniciar sua série de comentários pelo conjunto canônico das epistolas paulinas.

CALVIN, John. Commentaries on the Epistles of Paul to the Romans, trans. from the original Latin by the Rev. John Owen. Edinburgh: Calvin Translation Society, 1849.

CALVINO, JOÃO. Institución de Ia Religión Cristiana. Países Bajos: FELiRé, 1986. O obra Magna de Calvino e foi elaborada por ele para serem lida e estuda em harmonia com os comentários bíblicos. Essa é uma experiência enriquecedora.

FELD, Helmut (Ed) loannis Calvinoi Opera Omnia. 12 vols. Geneva: Droz, 1992. Este projeto esta atualizando a Calvinoi Opera do século XIX [1863-1877]. Estudiosos reconhecidos acrescentam novas notas e informações bibliográficas para cada um dos escritos de Calvino. Uma mina de ouro para os que pesquisam tanto Calvino quanto seu amplo acervo de obras, incluindo as menos conhecidas e suas preciosas cartas, cujas algumas são verdadeiros tratos teológicos.  

GREEF, Wulfert. The Writings of John Calvino: An Introductory Guide. Trans. L. D. Bierma. Grand Rapids: Baker, 1989. Um trabalho relevante e que certamente contribuirá muito com aqueles que estejam pesquisa e estudando Calvino e suas obras.

McKIM, Donald K. (Ed). The Cambridge Companion to John Calvino. Cambridge University Press, 2004. O editor Dr. Donald K. McKim reúne uma série internacional de grandes estudiosos de Calvino para considerar as fases do pensamento teológico de Calvino e sua influência. Cada artigo contribui para montar um precioso mosaico de Calvino e suas obras e revelam a razão pela qual eles continuam sendo relevantes ainda hoje no século XXI. Os capítulos servem como guias para seus tópicos e fornecem leituras adicionais para estudo mais amplo.

OWEN, John. Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Romans. By John Calvin. Translated and edited by the Rev. John Owen. [With the text in Latin and English.]. Edinburgh: Calvin Translation Society, 1849. Este trabalho de Owen perdurou e continua sendo uma das melhores traduções em inglês desta epistola paulina e que fez parte de um projeto mais amplo envolvendo a tradução de todos os demais comentários do proeminente reformador genebrino.

PARKER, Thomas Hnry Louis. Calvino's Old Testament Commentaries. Westminster John Knox Press, 1993. Indispensável para se conhecer o trabalho hermenêutico-exegético de Calvino. O trabalho realizado por Parker é de fato de excelência e deve ser consultado antes de se empreender qualquer estudo sobre os comentários do reformador genebrino.

________________________. Calvino's New Testament Commentaries. Westminster John Knox Press, 1993. Este precioso volume complementa a extensa pesquisa do volume sobre os livros do Antigo Testamento. Parker mantém o mesmo nível de excelência e se torna indispensável para qualquer pesquisador e estudante dos comentários produzidos por João Calvino.

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[1] O Pelagianismo surgiu no século V, na Inglaterra, a partir das ideias de Pelágio de Bretanha (350-423). O Pelagianismo leva o nome do monge britânico Pelágio, que motivou uma escola de pensamento que negou várias doutrinas cristãs fundamentais, incluindo o pecado original, a queda do homem, a salvação pela graça, a predestinação e a soberania de Deus. O Pelagianismo foi vigorosamente oposto por Santo Agostinho de Hipopótamo, um contemporâneo de Pelágio. Armínio e os arminianos percorrem essa estrada aberta por Pelágio onde eles defendem ardorosamente o “livre arbítrio” humano no processo da salvação.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O Protestantismo Entre as Matrizes Religiosa do Brasil[1]

 

O Brasil é um país extremamente religioso – mas quais são suas Matrizes religiosas? Como essa religiosidade foi formada? Qual a influência disso na Sociedade brasileira atual? Essas e outras questões serão levantadas aqui durante o nosso Simpósio.

A Religião foi e continua sendo um modelador do perfil social de um povo.

Max Weber e milhares de outros estudiosos se debruçaram sobre esta questão e constataram a RELEVÂNCIA da RELIGIÃO sobre todas as Sociedades.

PORTANTO, essa temática é sempre atual e relevante para todos aqueles que desejam compreender melhor o que está acontecendo na Sociedade brasileira.

O nosso desejo é que ao final do nosso Simpósio tenhamos uma visão mais clara e profunda da importância da Teologia/Religião nas nossas vidas e da nossa Sociedade.

OS PROTESTANTISMO NO BRASIL

Alguns esclarecimentos:

A ordem Cronológica mais correta seria: Religiões Indígenas, Religião Católicas, Religiões Afro e Religião Protestantes.

Por que a utilização do PLURAL???

Por que cada uma dessas expressões religiosas não é única, mas dentro de cada uma delas há uma DIVERSIDADE e em alguns casos até CONFLITANTES sobre a forma de expressar sua religiosidade.

Exemplo: O Catolicismo que chega no Brasil não é exatamente o mesmo Catolicismo Europeu.

                  O Protestantismo que chega ao Brasil já vem expressado em suas diversas DENOMINAÇÕES e cada uma delas com características distintas.

                     Assim acontece com a religião indígena e afro.

O nosso Tema Nesta Noite é: O PROTESTANTISMO NO BRASIL

TÚNEL NO TEMPO (quem assistiu essa Série?? – Estamos velhinhos.....)

Algumas Datas Significativas – para entendermos o Protestantismo que chegou no Brasil.

1500 – O Brasil entra no Mapa Mundial

1517 -  31 de Outubro – Na Alemanha Lutero afixa na porta da igreja do castelo de Wittenberg as 95 Teses.

1519  - Simultaneamente começa  na Suíça outro movimento reformador dirigido por Ulrich Zwingli (1484-1531).

1531 - Henrique VIII rompe com a Igreja Romana e torna-se o Cabeça (Papa) da Igreja Anglicana (Inglaterra)

1536 João Calvino chega em Genebra, e foi induzido por Farel a ajudar na Refor

1541. JOÃO CALVINO finalmente introduz a Reforma em Genebra.

1588 – Fundação da Academia Teológica de Genebra, influenciou muitos países da Europa.

1560, sob a liderança de Knox, o Parlamento renunciou ao catolicismo e adotou a fé reformada para a Escócia – Estabelecimento da Igreja no sistema Presbiteriano.

ENQUANTO TUDO ISSO ACONTECE NA EUROPA – O BRASIL CONTINUA TRANQUILO E SOSSEGADO.

Pegaremos uma Nova Rota Cronológica

1531 - Henrique VIII rompe com a Igreja Romana e torna-se o Cabeça (Papa) da Igreja Anglicana (Inglaterra)

- Henrique VIII nunca deixou de ser “católico romano”, portanto ele faz na verdade uma Reforma pró forme – muda tudo para não mudar nada.

- Dentro do Anglicanismo surgem diversos segmentos – debaixo do Guarda Chuva do PURITANISMO – que desejavam reformas mais radicais.

- O PURITANISMOS tem suas subdivisões: Congregacionais, Presbiterianos, Metodistas e Batistas – soa familiar esses nomes??

1629 – Depois de muitas guerras internas e perseguições de ambas as partes – Os Puritanos resolveram atravessar o Oceano e se estabelecerem na América do Norte, conhecido por alguns como Estados Unidos da América.

 O objetivo deles é ter uma Nação em que possam expressar sua religião protestante livre da opressão do Governo.

Cada um dos ramos protestantes inglês se estabelecem, constroem Igrejas, cidades, Universidades e Industria.

ENQUANTO ISSO NO BRASIL – Continuamos totalmente alienados –

Colônia Extrativista e unicamente Católicos.

PROTESTANTISMOS NO BRASIL

Tentativas Frustradas

FRANCESES - 1555 e 1560 – Invasão e Conquista

- Nicolau Durand de Villegaignon (católico carola - Ordem de Malta) associa-se ao rei francês Henrique II (católico) e ao Almirante Gaspar de Coligny (reformado) para estabelecer a FRANÇA ANTARTICA – como refúgio do Huguenotes (reformados) franceses.  

Fracassou - Mas deixou algumas referências: 

Primeiro Culto e Ceia Reformada no Brasil (21 de março de 1557)

Primeiros Protestantes mortos no Brasil 

HOLANDESES - 1630 e 1654 Outra tentativa de Invasão e Conquista

- Os invasores pertenciam à Companhia das Índias OcidentaisFOCO PRINCIPAL controlar as Usinas de açúcar do Brasil.

- Por permanecerem mais tempo no Brasil os holandeses deixaram marcas mais profundas no Brasil:

- Locais: Salvador, Olinda, Recife – Maranhão e Sergipe

- Figura Proeminente – Conde Mauricio de Nassau

- Tolerância Religiosa: em Recife havia uma Igreja Anglicana (ingleses) e uma Igreja Francesa, bem como sinagogas (judeus) e católicos romanos (com suas missas e festas) livremente manifestavam suas expressões religiosas sem restrição ou perseguição mais acentuada.

- Com a saída de Nassau o domínio holandês entra em declínio rapidamente e as forças portuguesas e brasileiras reconquistam os territórios invadidos e expulsam os invasores, definitivamente em 1649.

RESULTADOS DAS TENTATIVAS FRACASSADAS

- Imediatamente a Igreja Católica Romana restabelece a hegemonia religiosa, proibindo toda e qualquer outra manifestação de fé, implantando de forma implacável a cartilha da horrenda Inquisição Religiosa.

- O Brasil fica totalmente isolado de todos os movimentos religiosos, sociais e políticos que estão influenciando e transformando o mundo Europeu e posteriormente o Americano.

- Após repelir estes dois grupos invasores anticatólicos, tudo e todos estrangeiros com qualquer resquício de religião protestante passaram a serem vistos como invasores e deveriam ser imediatamente combatidos e extirpados, de maneira que toda estruturada religiosa protestante foi extinta, e o catolicismo retoma com força total sua catequese e assim permaneceria até as últimas décadas do século XIX.

Mas dois acontecimentos históricos de suma importância para o Brasil e os brasileiros trarão uma luz no final do túnel da implantação definitiva do protestantismo tupiniquim:

PRIMEIRAS ABERTURAS OFICIAIS PARA IMPLANTAÇÃO DO PROTESTANTISMO NO BRASIL

- A transferência da Família Real Portuguesa para o Brasil (1808)

- Fugindo do francês Napoleão Bonaparte

- Escoltados pelos navios de guerra Ingleses

- a carta régia de abertura dos portos brasileiros ao comércio de todas as nações amigas (leia-se Ingleses).

- os ingleses passaram a ter garantia legal para expressar sua religião protestante, podendo inclusive construir seus próprios templos religiosos, com a ressalva de que não se assemelhassem aos templos católicos e não tocassem sinos, que serviam para anunciar os horários de reuniões e cultos, bem como restringia qualquer esforço de proselitismo entre os brasileiros católicos romanos, na linguagem mais protestante, estava proibido qualquer esforço em evangelizar católicos brasileiros.

- E ousadamente, medida as proporções e repercussões históricas, afirmo: com a chegada da corte à Baia de Todos os Santos começava o último ato do Brasil de monopólio católico romano e o primeiro ato do Brasil protestanizado, através de suas mais diversas ramificações, que em breve haveriam de serem transplantadas no país.

A Independência do Brasil e a Primeira Constituição Brasileira

1822 – Apenas 14 Anos depois, o Brasil torna-se Independente;

- Sem dinheiro, D. Pedro I renova o Acordo Comercial com os ingleses;

1824 – Promulga-se a primeira Constituição brasileira, em 25 de março, que será uma das mais inovadoras entre todas elaboradas na época, com exceção da americana e a mais duradoura de todas que foram elaboradas no Brasil posteriormente, e que foi substituída somente 1891 pela primeira, das muitas, constituição republicana.

Uma das maiores novidades contida nesta primeira Constituição brasileira era a clausula referente à liberdade de culto.

É com D. Pedro I que plena liberdade religiosa vai de fato ser estabelecida. Ele teve o cuidado de manter o catolicismo como a religião oficial do novo Império, mas de forma pioneira, desde o descobrimento do Brasil, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas e adeptos de quaisquer outras expressões religiosas poderiam professar livremente sua fé. E mais ainda, assegurava-se constitucionalmente, a plena liberdade de imprensa e de opinião, de modo que ninguém poderia ser preso sem processo formal e sem amplo direito de defesa.

Nenhum grupo religioso soube aproveitar ao máximo este artigo constitucional como os protestantes.

Eles não apenas começam a se instalarem no país, como iram aproveitar todos os meios de comunicação da época, preferencialmente os jornais e revistas, para a divulgação de suas mensagens evangélicas de conteúdo protestante.

PRIMEIRA IGREJA PROTESTANTE PARA BRASILEIROS

- O primeiro a fazer uso desta recente liberdade religiosa foi o Médico e Rev. Robert Kalley

Em 19 de agosto de 1855, em Petrópolis – RJ, o Sr. Robert Kalley fundou a primeira Escola Dominical, dando assim origem a igreja Congregacional Fluminense, de fato a primeira protestante tendo membros brasileiros.

Depois de alguns anos no Brasil e tendo recebido como membros de sua denominação duas senhoras da alta sociedade – foi coagido a parar ou seria retirado do país.

Diante desta situação, o Dr. Kelley resolve fazer uma consulta a três dos mais eminentes juristas do Império: Dr. José Nabuco Tomáz de Araujo, então Ministro da Justiça, Dr. Urbano Sabino Pessoa Mello, magistrado e político e Dr. Caetano Alberto Soares, ex-sacerdote católico romano, magistrado e político - solicitando seus pareceres legais e por escrito, conforme um questionário contendo onze pontos relacionados à questão da tolerância e liberdade religiosa no Brasil.

Os pareceres dos juristas foram amplamente favoráveis à causa de Kelley e lhe deram fundamentação legal e constitucional para que continuasse a desenvolver suas atividades religiosas.

“Os pareceres dos juristas e a resolução governamental foram a jurisprudência necessária para que se tornasse mais efetiva a implantação permanente do protestantismo no Brasil, servindo de referência aos demais grupos que começaram a chegar ao país. [...].

Com um culto realizado a 27 de julho de 1845 a Igreja Luterana dava início às suas atividades no Brasil (para os imigrantes alemães e suíços).

 No dia 12 de janeiro de 1862, no Rio de Janeiro, o jovem missionário estadunidense reverendo Ashbel Green Simonton, oficializa as atividades da primeira igreja Presbiteriana do Brasil na língua portuguesa.  

No ano de 1881, chegaram ao Brasil, os primeiros missionários batistas, William Bagby, e Z.C. Taylor, que no ano seguinte, ou seja, em 15 de outubro de 1882, fundaram a Igreja Batista em Salvador – BA.

Com a liderança de Gunnar Vingren e Daniel Berg, no dia 18 de junho de 1911, na cidade de Belém do Pará, foi iniciada a primeira Igreja Assembleia de Deus no Brasil.

HOJE o termo Protestante ficou restrito às Academias, pois todos os demais ramos do cristianismo não Católicos foram englobados no termo EVANGÉLICOS. E como EVANGÉLICOS se aproximam dos 30% da POPULAÇÃO brasileira – o que não é pouco.

Muito se poderia falar das contribuições do Protestantismo no Brasil, mas a areia da Ampulheta está acabando. Meu desejo é que essas informações possam ter contribuído para uma melhor compreensão dos primórdios do Protestantismo no Brasil

Sou grato a todos que pacientemente me ouviram.

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Reflexão Bíblica

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Referências Bibliográficas

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