
James Cooley Fletcher (1823–1901) foi um missionário presbiteriano norte-americano que viveu no Brasil durante parte do século XIX. Sua obra O Brasil e os Brasileiros (1857) nasceu em diálogo com o livro de Daniel P. Kidder, Sketches of Residence and Travels in Brazil (1845). Kidder havia residido no país e oferecido ao público norte-americano uma visão detalhada do Império do Brasil. Fletcher, ao retornar, atualizou e ampliou essas observações, acrescentando conselhos práticos e reflexões voltadas especialmente para viajantes e missionários.
Publicado
originalmente em inglês e traduzido para o português, tornou-se uma referência
para quem desejava compreender melhor o Brasil imperial. A seção “Informações
para quem vai ao Brasil” funciona como um guia de sobrevivência cultural,
reunindo orientações sobre língua, moeda, vestimentas, hospedagem e outros
pontos essenciais. Mais do que simples dicas, essas orientações revelam a
preocupação do autor em preparar o missionário para enfrentar o choque cultural
e se integrar à realidade brasileira.
Nota
inicial
Todos
os trechos citados foram mantidos com a grafia original do século XIX, para
preservar a fidelidade histórica.
Informações
para quem vai ao Brasil
Este
capítulo foi elaborado por Fletcher como um guia prático para viajantes e
missionários que desembarcavam pela primeira vez no país. Mais do que simples
recomendações, ele revela a preocupação em preparar o leitor para lidar com
aspectos concretos da vida cotidiana — desde a língua e a moeda até
vestimentas, hospedagem e serviços públicos.
Um
ponto curioso é a menção à inspeção dos livros importados. No Brasil do século
XIX, essa prática não se limitava à cobrança de impostos: havia também um
controle ideológico. Essa observação mostra como até elementos culturais
estavam sujeitos à vigilância, e ajuda o leitor moderno a compreender a
complexidade do ambiente em que os primeiros missionários protestantes
precisavam se inserir.
|
Interpretação
e contexto |
Texto
original (grafia original) |
|
O
missionário abre sua seção com uma advertência fundamental: a língua
portuguesa é a chave para qualquer comunicação no Brasil. Ele insiste que não
se trata de um dialeto do espanhol, mas de uma língua distinta e nobre, filha
do latim. Essa ênfase revela a intenção de preparar o viajante para o choque
cultural e evitar equívocos comuns entre estrangeiros. Além disso, mostra que
o conhecimento prévio de francês, italiano ou espanhol facilita o
aprendizado, e até comenta sobre a pronúncia de certas terminações,
oferecendo um guia prático para quem chega. |
A
língua portuguesa é a falada em todo o Brasil. Não é um dialeto do espanhol,
porem uma língua distinta: como disse Vieyra, é a filha mais velha do
latim... |
|
O
autor prossegue tratando da moeda corrente. Sua intenção é preparar o
viajante para não se perder nos cálculos e evitar enganos nas transações. Ao
explicar o valor do mil-réis e sua equivalência em dólares e libras, ele
oferece uma verdadeira aula prática de economia cotidiana. |
Um
mil réis vale cerca de 56 centavos, ou 2 shillings e 6 pence em Inglaterra.
As quantias em dinheiro no Brasil são representadas pelo sinal do dólar ($)
depois da palavra mil. Assim, 5$500 significa cinco mil e quinhentos réis. |
|
O
missionário recomenda atenção às vestimentas: roupas leves para o calor
tropical, mas também peças de lã para o frio inesperado em certas regiões. E
lembra que, em ocasiões formais, como visitas ao palácio, uma casaca é
indispensável. Sua intenção é preparar o viajante para a diversidade
climática e social do Brasil. |
As
vestimentas, como é natural, devem ser adaptadas ao clima; mas leve-se sempre
alguma roupa de lã. No interior e ao sul da Bahia, o frio pode surpreender. E
se tiver de ir ao palácio, uma casaca será indispensável. |
|
O
observador alerta sobre a hospedagem: não espere encontrar hotéis como os da
Europa ou dos Estados Unidos. No Rio de Janeiro, os melhores são o Hotel do
Comércio e o Hotel dos Estrangeiros; em Pernambuco, o Hotel Universal. Os
preços são altos e variam conforme o quarto. Sua intenção é orientar o
viajante a não se iludir com expectativas de conforto europeu. |
Os
hotéis no Brasil não se comparam com os da Europa e Estados Unidos. No Rio de
Janeiro, os melhores são o Hotel do Comércio e o Hotel dos Estrangeiros. Em
Pernambuco, o Hotel Universal é uma boa opção. Os preços são altos e variam
conforme o quarto. |
|
O
guia dedica atenção às alfândegas e às patentes. Sua intenção é alertar sobre
a burocracia e a necessidade de respeitar as regras locais, evitando
problemas legais. Além disso, convém lembrar que, no Brasil do século XIX, os
livros importados eram submetidos à inspeção não apenas por questões fiscais,
mas também por motivos políticos e religiosos. O governo imperial buscava
controlar a entrada de obras consideradas subversivas ou contrárias à moral
vigente, além de garantir a cobrança de impostos de importação. Esse controle
refletia a preocupação das autoridades em preservar a ordem social e limitar
a circulação de ideias que pudessem desafiar o regime ou a Igreja Católica,
então religião oficial do Estado. |
As
alfândegas são severas, e convém ao viajante estar prevenido. As patentes
devem ser registradas, e os livros, quando importados, passam por inspeção. |
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O
autor comenta sobre os correios e a comunicação. Sua intenção é mostrar que,
embora existam serviços, eles são lentos e pouco confiáveis, exigindo
paciência do viajante. |
Os
correios funcionam em todas as cidades principais, mas a correspondência é
demorada. Muitas vezes, cartas levam semanas para chegar ao destino. |
|
O
missionário observa ainda sobre livros e cultura. Sua intenção é destacar que
há interesse crescente por obras estrangeiras, mas o acesso é limitado, e o
viajante deve trazer consigo o que julgar necessário. |
Os
livros estrangeiros são procurados, mas nem sempre fáceis de encontrar.
Convém ao viajante trazer os que julgar indispensáveis. |
Conclusão
As
orientações reunidas nesta seção não eram meros conselhos de viagem:
constituíam um verdadeiro manual de adaptação cultural. Ao explicar a língua, a
moeda, as vestimentas, a hospedagem e os serviços disponíveis, Fletcher buscava
preparar seus contemporâneos para enfrentar um ambiente novo e muitas vezes
hostil.
Essas
informações tiveram papel decisivo para os primeiros missionários protestantes
que desembarcavam no Brasil, vindos dos Estados Unidos e da Europa. Ao
encontrar um país de costumes distintos, clima variado e infraestrutura
limitada, eles precisavam de referências seguras para se estabelecer e dar
início às suas atividades religiosas e sociais. O guia oferecia justamente
isso: um mapa prático para reduzir os choques culturais e permitir que a missão
se enraizasse.
Assim,
mais do que simples notas de viagem, este texto se tornou um instrumento de
sobrevivência e de integração, ajudando a abrir caminho para a presença
protestante no Brasil do século XIX.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br
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Bibliografia
da Obra Utilizada
KIDDER,
D. P. e FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros – esboço histórico e
descritivo, v. 1. Brasiliana – Biblioteca Pedagógica Brasileira. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1941 [Tradução da 6ª. edição em inglês - Elias
Dolianiti e Revisão e Notas de Edgard Sussekind de Mendonça].
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