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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Reforma - “1517 – O Ano da Reforma Protestante” - antecedentes da Reforma

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A proposta desta série é uma leitura histórica a partir de três perspectivas que se amalgamam neste evento que rasgou a História da Igreja Cristã. A cada artigo, abordaremos: a preparação histórica e institucional; o desenvolvimento histórico, teológico e político; e o drama espiritual e pessoal de Lutero como representante dos demais reformadores, que eram pessoas comuns, semelhantes a nós, e não super-heróis ou seres angelicais. O Espírito Santo não se utiliza de robôs autômatos, mas de homens e mulheres com todas as suas características humanas, como também se evidencia nos personagens bíblicos, sobretudo nos profetas veterotestamentários. Assim como o véu do templo se rasgou de alto a baixo no momento da crucificação de Cristo (Mateus 27:51), simbolizando o acesso direto a Deus, a Reforma Protestante pode ser compreendida como um evento histórico-teológico que rasgou barreiras institucionais e espirituais, abrindo caminho para uma nova experiência de fé e de relação com as Escrituras.
Conforme a bibliografia utilizada em cada artigo, embora as abordagens sejam distintas, elas convergem na compreensão de que 1517 não se reduz a um mero ponto de ruptura, mas constitui apenas a ponta visível do iceberg de um vasto e imensurável processo providencial de Deus, que frequentemente permanece oculto aos olhos humanos.

Sola Scriptura

Sola Fide

Sola Gratia

Solus Christus

Soli Deo Gloria

 O terreno preparado: antecedentes da Reforma

A Reforma do século XVI não surgiu como um evento abrupto ou isolado na história da Igreja, mas como o desdobramento de um longo processo de tensões morais, institucionais e teológicas que se acumularam ao longo dos séculos finais da Idade Média. De maneira que a Reforma não foi um acontecimento isolado e/ou uma inovação repentina, mas consequência de uma maturação de princípios, protestos e anseios que vinham sendo paulatinamente desenvolvidos no tecido religioso da própria cristandade ocidental (BABINGTON, 1879; OZMENT, 1980). Há um conjunto de movimentos como a decadência institucional, crise de autoridade e renovação intelectual, que conjuntamente criaram as condições necessárias para o surgimento do movimento reformador.

Entre os fatores mais evidentes destacados pelos historiadores, encontra-se a profunda crise moral e institucional da Igreja Cristã medieval. No transcorrer dos séculos XIV e XV, a Igreja foi se amalgamando cada vez mais às instâncias políticas e econômicas, tornando-se uma instituição poderosa, interferindo na dinâmica das nações e até mesmo subjugando-as conforme seus projetos de dominação. Trata-se de algo completamente alheio a quaisquer referências ou inferências bíblicas; ao contrário, Jesus é enfático com os discípulos: “Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

A cúpula clerical vivia em luxo ostensivo e luxúria escancarada, contrastando com o ideal neotestamentário de simplicidade e serviço. Práticas como a simonia, o nepotismo e o pluralismo eclesiástico tornaram-se comuns, enfraquecendo a credibilidade moral da hierarquia religiosa. O historiador Philip Schaff, em sua monumental obra, escreve: “a Igreja, que deveria ser o instrumento da graça, tornou-se, em muitos aspectos, um instrumento de poder mundano” (SCHAFF, 1910, v. VI). Essa discrepância entre o ideal bíblico e a realidade institucional gerou crescente insatisfação interna entre clérigos e externo entre os leigos piedosos, que ansiavam por uma restauração da pureza e simplicidade da fé cristã primitiva. Esse contexto acabou produzindo um ambiente de contestação generalizada, envolvendo não apenas intelectuais e líderes religiosos, mas também comunidades leigas que ansiavam por renovação.

John Wyclif (c. 1328–1384), na Inglaterra, doutor em teologia pela Universidade de Oxford, e John Hus (c. 1369–1415), na Morávia, continuador dos ideais e críticas de Wyclif, ilustram de forma paradigmática a dupla insatisfação que marcou os séculos finais da Idade Média. Os Lollardos, discípulos de Wyclif e os Hussitas, discípulos de Hus são exemplos de mobilização popular que revelavam como a discrepância entre o ideal bíblico e a realidade institucional contribuíram para preparar o terreno para a Reforma (HUDSON, 1988).

O agravamento desse quadro degradante ocorre no chamado Cativeiro Babilônico da Igreja (1309–1377), também conhecido como Papado de Avinhão. Foi um período em que sete papas sucessivos residiram na cidade de Avinhão, na França, em vez de Roma. E todos os sete papas deste período eram de origem francesa, rompendo a falsa aura de universalidade e independência do papado, pois, estava claro que os pontífices estavam subordinados ao poder secular francês.

A situação tornou-se ainda mais grave com o Grande Cisma do Ocidente (1378–1417),[1] quando dois, e posteriormente três, papas rivais reivindicaram simultaneamente a autoridade legítima e cada um excomungava o outro mutuamente, desconstruído por completo a legitimidade do sistema papal e reforçando um profundo descrédito por parte da comunidade cristã. (Bainton, 1950; RENOUARD, Yves, 1970; ULLMANN, Walter, 1948). O papado, que havia reivindicado supremacia absoluta, agora está completamente vulnerável, fragmentado e politicamente condicionado.

Paralelamente a essa crise institucional, surgiram figuras, como as citadas acima, que anteciparam muitas das ênfases teológicas que seriam utilizadas pelos reformadores na grande Reforma do século XVI. John Wyclif criticou abertamente a riqueza da Igreja e defendeu a supremacia das Escrituras sobre a tradição eclesiástica. Ele argumentava que a Bíblia, e não o papa, era a autoridade final em matéria de fé. Além disso, promoveu a tradução das Escrituras para o inglês, tornando-as acessíveis ao povo comum. Nas palavras de Babington, Wyclif lançou “as sementes de princípios que, embora reprimidos em sua época, floresceriam plenamente no século XVI” (Babington, 1879).

Jan Hus, profundamente influenciado pelas críticas bem fundamentadas de Wyclif, transplantou esses ideais para a Boêmia, denunciando a corrupção clerical e proclamando a autoridade suprema de Cristo como cabeça da Igreja. Enfatizava a necessidade de santidade moral no clero e a centralidade da Palavra de Deus. Sua recusa em retratar-se levou à sua condenação e execução no Concílio de Constança, em 1415. Sua execução, apesar de possuir um indulto do imperador e em pleno andamento do Concílio, tornou-se um marco simbólico da tensão entre autoridade eclesiástica e consciência individual, sendo posteriormente interpretada como um testemunho da fidelidade à verdade e como um dos precedentes diretos da Reforma Protestante.

Há uma forte tradição segundo a qual Jan Hus, pouco antes de ser executado em 1415, teria declarado que, embora queimassem um “ganso” (já que Hus significa “ganso” em tcheco), dentro de cem anos surgiria um “cisne” que não poderia ser silenciado. Desta forma, muitos historiadores posteriores, especialmente dentre os reformadores protestantes, entenderam essa frase como uma espécie de profecia antecipando o surgimento de Martinho Lutero, que em 1517pouco mais de cem anos depois — iniciou a Reforma Protestante com suas 95 teses.

Continuidade Histórica

John Wyclif (1320–1384) → precursor intelectual, crítico da riqueza da Igreja e defensor da supremacia das Escrituras.

Jan Hus (1369–1415) → mártir e catalisador, transplantou as ideias de Wyclif para a Boêmia, denunciando a corrupção clerical e afirmando Cristo como cabeça da Igreja.

Martinho Lutero (1483–1546) → líder que concretizou a Reforma, com as 95 Teses em 1517 e a defesa da justificação pela fé.

A genuinidade das palavras pode ser questionada; todavia, como tão bem observa Schaff, “Hus foi um precursor direto de Lutero, tanto em sua teologia quanto em seu testemunho” (Schaff, 1910).

Outro elemento decisivo na preparação do terreno para a Reforma foi o humanismo renascentista, um movimento intelectual que promoveu o retorno às fontes clássicas (ad fontes). Em contraste com o escolasticismo medieval, que dependia fortemente dos comentários e tradições dos chamados Padres da Igreja e da versão bíblica em latim, denominada de Vulgata, os humanistas tinham como objetivo primário buscar os textos originais da Antiguidade, incluindo as Escrituras em suas línguas originais.

Não se pode deixar de destacar o trabalho precioso de Erasmo de Rotterdam (1466–1536), cuja edição crítica do Novo Testamento grego[2], publicada em 1516, tornou-se uma ferramenta fundamental para os reformadores. Embora não tivesse a intenção de romper com a Igreja Romana, sua ênfase no retorno às Escrituras e sua crítica às superstições e abusos clericais contribuíram significativamente para a atmosfera intelectual que fomentava a necessidade premente de uma Reforma ampla e profunda da Igreja.

Apesar de Erasmo e Lutero, contemporâneos, situarem-se em posições distintas, a relevância da obra de tradução de Erasmo foi notada por historiadores, como sintetiza Roland H. Bainton: “Erasmo colocou nas mãos de Lutero a espada que Lutero usaria” (BAINTON, 1950).

Portanto, à luz dessas considerações, torna-se evidente que a Reforma foi precedida por um longo período de maturação e preparação providencial. Os diversos fatores citados foram se acumulando: a decadência moral da Igreja gerou anseio por renovação; a crise do papado enfraqueceu a estrutura de autoridade tradicional; os pré-reformadores proclamaram princípios fundamentais que desafiavam o sistema vigente; e o humanismo forneceu os elementos instrumentais e intelectuais necessários para o retorno às Escrituras. Conforme conclui Babington, a Reforma não foi uma ruptura arbitrária, mas a resposta histórica a uma necessidade espiritual profunda, sendo, em última análise, um movimento de retorno às origens apostólicas da fé cristã (BABINGTON, 1879).

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Referências bibliográficas
BABINGTON, Churchill The English Reformation London: Religious Tract Society, 1879
BAINTON, Roland H. Here I Stand: A Life of Martin Luther Nashville: Abingdon Press, 1950
CHADWICK, Henry. The Church in the Ancient World. Oxford: Oxford University Press, 1993.
ERASMO DE ROTTERDAM Novum Instrumentum Omne Basel, 1516
HILLERBRAND, Hans J. The Division of Christendom: Christianity in the Sixteenth Century New York: Westminster Press, 1971
HUDSON, Anne. The Premature Reformation: Wyclifite Texts and Lollard History. Oxford: Clarendon Press, 1988.
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HUDSON, Anne. The Premature Reformation: Wyclifite Texts and Lollard History. Oxford: Clarendon Press, 1988.
LAHEY, Stephen E. John Wyclif. Oxford: Oxford University Press, 2009.
LEVY, Ian Christopher (Ed.). On the Truth of Holy Scripture. Kalamazoo: Medieval Institute Publications, 2001.
MCGRATH, Alister E. Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought Oxford: Blackwell, 1998
OZMENT, Steven The Age of Reform 1250–1550 New Haven: Yale University Press, 1980
RENOUARD, Yves The Avignon Papacy, 1305–1403 London: Faber and Faber, 1970
SCHAFF, Philip History of the Christian Church Vol. VI. Grand Rapids: Eerdmans, 1910
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RENOUARD, Yves The Avignon Papacy, 1305–1403 London: Faber and Faber, 1970
SCHAFF, Philip History of the Christian Church Vol. VI. Grand Rapids: Eerdmans, 1910
TIERNEY, Brian The Crisis of Church and State, 1050–1300 Toronto: University of Toronto Press, 1988.
ULLMANN, Walter The Origins of the Great Schism London: Burns & Oates, 1948
 
[1] Não confundir com o posterior Grande Cisma do Oriente (1054) que corresponde à ruptura definitiva entre a Igreja Católica Romana [Ocidente] e a Igreja Ortodoxa [Oriente], motivada por divergências teológicas, litúrgicas e é claro, de autoridade eclesiástica. Em todo cisma religioso a questão é sempre “quem manda”, as demais questões é para justificar está primeira (CHADWICK, Henry, 1993; TIERNEY, Brian; 1988).
[2] Ele acreditava que a Vulgata latina, usada oficialmente pela Igreja, continha imprecisões [literárias e não teológicas] acumuladas ao longo dos séculos. Seu objetivo era oferecer aos estudiosos e pregadores um texto mais fiel ao grego do Novo Testamento, acompanhado de uma tradução latina revisada, para que a Escritura pudesse ser lida com maior clareza e autenticidade. Todavia, o efeito imediato foi muito além de suas expectativas e seu trabalho acabou por alavancar ainda mais o movimento Reformado.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Calvino: O Jovem Calvino e os Primórdios dos Trabalhos em Paris

 Desenho de uma pessoa

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Período Fora de Sua Cidade

  • 1522–1528: Calvino estudou em Paris, primeiro no Collège de la Marche (onde teve como professor Mathurin Cordier) e depois no Collège Montaigu, recebendo formação em gramática, filosofia e teologia.
  • 1528–1530: Por insistência de seu pai, mudou-se para Orléans para estudar Direito.
  • 1530: Em Bourges, estudou com o jurista Andrea Alciati e teve aulas de grego com Melchior Wolmar, um luterano que exerceu grande influência sobre ele.
  • Retorno a Noyon (1529): Após cerca de seis anos fora.
Podemos bem acreditar que a morte de Berquin ((c. 1490–1529)[1] encheu o coração do jovem Calvino de tristeza, enquanto faz o caminho para sua cidade Noyon. Ele havia estado ausente por seis anos em decorrência de seus estudos em Paris, e depois em Orléans e Bourges, antes de retornar em 1529. Nesse período, recebeu sólida formação humanista e jurídica, além de contato com mestres que o aproximaram das ideias reformistas.[2]
Retorna como um jovem de vinte anos, o mesmo estudante de rosto pálido, mas vitalmente transformado. Foi recebido pelos habitantes da cidade com sentimentos diversos.
A igreja de Pont l’Eveque foi prontamente aberta para ele; e ali, diante daqueles que o haviam conhecido quando menino, expôs as Escrituras. Os resultados foram exatamente como registrados naquelas páginas vivas, verdadeiras em todos os tempos e lugares: “E alguns criam nas coisas que se diziam, mas outros não criam” (Atos 28:24).
Ele mesmo relata desse período que Deus “o conduziu e o fez girar”, de modo a não lhe deixar repouso em lugar algum, até que “me trouxe para a luz e para a ação”. Isso explica por que Calvino permaneceu apenas cerca de dois meses em sua cidade natal. Esta inquietação era decorrente dele encontrar sua genuína vocação pastoral (GORDON, 2009, p. 47). Ele sentia toda a tensão interna mental, sua formação humanista e espiritual amensagem evangélica reformada (WENDEL, 1963, p. 41). Certamente também havia resquícios de seu caráter reservado e até mesmo hesitante, ao mesmo tempo em que sentia o fortalecimento da fé pela ação do Espírito Santo (COTTRET, 2000, p. 52). 
Deus tinha para ele uma esfera maior; e, enquanto Calvino não percebia claramente, Deus desassossegada seu coração e mente. Aqui temos a prova cabal de que até mesmo as circunstâncias contrárias cooperam de formas favoráveis para realizar o que Ele ordena.
As nossas inquietações são tão relevantes quanto nossas convicções.
O jovem Calvino chega então a Paris, sede do governo da França, centro do saber e palco de muitas disputas e contendas sobre a verdade. As doutrinas “antigas” e “novas” fervilhavam em conversas reservadas, mas também, por vezes, em debates acalorados; todos estavam envolvidos, independentemente da classe social. Calvino encontrava-se em um ambiente no qual conhecia ambos os sistemas e estava preparado para participar dos argumentos desses debates, com a vantagem de que agora amadurecia na vida e na fé.
Dotado de uma mente naturalmente argumentativa e lógica, disciplinada pelos estudos jurídicos, agora está sendo capacitado pelo Espírito Santo para compreender e afirmar as verdades imutáveis do Evangelho. Inserido no ambiente tenso e controverso de Paris, o jovem reformador está sendo gradualmente moldado para a grande obra à qual estava sendo conduzido pela Providência.
Ele se hospedou na casa de um comerciante, Etienne (Estêvão) de la Forge, que abraçara o conhecimento da verdade e que, em decorrência de expor sua nova fé, foi queimado por sua fidelidade a ela. Calvino se refere a ele como alguém “cuja memória deve ser abençoada entre os crentes como um santo mártir de Cristo”. Foi nessa casa que Calvino começou a realizar encontros de pregação, primeiro em privado, depois mais abertamente (CRESPIN, 1554; GORDON, 2009, p. 52).
É digno de nota que, nesse período inicial, Calvino concluía todas as suas exposições com as palavras: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Podemos inferir dessas palavras que ele tinha plena consciência do alto custo que deveria pagar, mas estava determinado, confiado na força de Deus, a prosseguir no caminho que lhe estava sendo proposto. Mesmos as maiores adversidades irão impedi-lo de impulsionar os princípios reformados de fé.
Um detalhe peculiar vem de um escritor francês da época, notavelmente católico romano, e que em esforço de degradar o jovem reformador, acaba por dar um testemunho idôneo destes momentos iniciais de Calvino:
“Dedicado de outra forma aos seus livros e estudos, era incansavelmente ativo em tudo o que dizia respeito ao avanço de sua seita [protestantismo]. Vimos nossas prisões cheias de pobres desventurados enganados [os que estavam crendo], que ele exortava sem cessar, consolava ou confirmava por cartas; nem faltavam mensageiros, a quem as portas estavam abertas, apesar de toda a vigilância dos carcereiros [autoridades religiosas ou civis]. Assim começou, e assim conquistou, passo a passo, uma parte da nossa França. Prosseguiu até que, após considerável tempo, vendo os ânimos inclinados à sua causa, quis avançar mais rapidamente e enviar-nos ministros, chamados ‘pregadores’, para divulgar sua religião em recantos escondidos, e até mesmo em Paris, onde as fogueiras estavam acesas para consumi-los.”
Em 1532, Calvino publicou sua primeira obra impressa: um Comentário, em latim, sobre o De Clementia de Sêneca. No título da obra, assinou: “Lucius Calvinus civis Romanus”. A partir daí, deixou de lado seu nome francês, Chauvin, e passou a ser conhecido como Johannes Calvinus. Muitos biógrafos se surpreenderam com essa publicação, considerando-a um desvio de sua obra evangélica. Alguns tentaram justificá-la como uma tentativa de induzir o rei a mostrar menos severidade contra os protestantes e mais “clemência” para com o evangelho. Mas o próprio autor nada disse nesse sentido. É mais provável que tenhamos aqui um exemplo de como Deus, invisivelmente, realizava Seus desígnios luminosos a partir da escuridão.[3]
A obra, escrita em latim elegante, trouxe relativa fama ao jovem autor. A atenção voltou-se mais para o estilo literário da obra, do que para o autor, mas foi suficiente para preparar o caminho para o Reformador. Assim como a educação de Paulo muitas vezes lhe garantia audiência como pregador, o Comentário de Calvino sobre Sêneca faria com que, no futuro próximo, sua obra magna e seus Comentários sobre as Escrituras fossem lidos com muita atenção.
Esses dias de semeadura do evangelho foram talvez os mais tranquilos da vida de Calvino. Evitando disputas com os doutores da Sorbonne e levando silenciosamente “o Livro” [Escrituras] de porta em porta, conduzindo muitas pessoas do reino das trevas para o reino da luz e da verdade. Contudo, nuvens sombrias começavam a se formar no horizonte; trovões ressoavam ao longe, sinais de uma tempestade iminente.
Sendo levado pelas circunstâncias de seu provável aprisionamento, Calvino sai apressadamente de Paris, numa jornada que lhe parecia fortuita, mas que, na realidade, estava sendo conduzida pela Providência de Deus. Pernoitando na cidade suíça de Genebra, um reformador chamado Farel o procura e, após uma conversa, percebendo a relutância do jovem Calvino, que preferia o trabalho acadêmico, o velho reformador insta-o com veemência - Se você recusar a se dedicar a esta obra do Senhor, Deus amaldiçoará sua tranquilidade e os estudos que você busca, de modo que ele decide permanecer e cooperar em Genebra. Sabemos o quanto isso se tornou extraordinário, pois seu ministério e produção teológico-literária impactaram centenas e milhares de pessoas e, desde então, continuam a impactar vidas em todo o mundo há cinco séculos.
 
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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas [citadas no texto]
COTTRET, Bernard. Calvino. São Paulo: Loyola, 2000.
CRESPIN, Jean. Actes des Martyrs. Genebra, 1554.
GORDON, Bruce. Calvin. New Haven: Yale University Press, 2009.
WENDEL, François. Calvino: Sua Teologia e Sua Influência. São Paulo: ASTE, 1963.
Outras Obras de Referência
MCGRATH, Alister E. A Life of John Calvin. Oxford: Blackwell, 1990.
NICHOLS, Stephen J. Calvino: O Reformador de Genebra. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
SELDERHUIS, Herman J. John Calvin: A Pilgrim’s Life. Downers Grove: InterVarsity Press, 2009.
PIPER, John. O Legado de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2010.
STEINMETZ, David C. Calvin in Context. Oxford: Oxford University Press, 1995.
 
[1] Louis de Berquin foi um advogado e humanista francês, próximo de Erasmo e Lefèvre d’Étaples. Tradutor e defensor das ideias reformistas, tornou-se alvo da repressão católica e foi executado em Paris, em 17 de abril de 1529, acusado de heresia. Considerado o primeiro mártir protestante da França, sua morte não decorreu de contato direto com Calvino, mas exerceu forte influência simbólica sobre o jovem reformador, que sentia cada vez mais a atmosfera da perseguição religiosa ao retornar a Noyon (GORDON, 2009, p. 45; COTTRET, 1995, p. 62).
[2] Entre outros - Mathurin Cordier (c. 1479–1564), reconhecido pedagogo humanista, mais tarde abraçou a Reforma e se tornou colaborador de Calvino em Genebra; Melchior Wolmar (1497–1561), humanista alemão e luterano, professor de grego em Bourges, sendo um dos primeiros contatos diretos de Calvino com o pensamento reformado, incentivando o jovem estudante a ler as Escrituras em grego e tomar contato com as ideias reformistas de Lutero.
[3] Todavia, do De Clementia (1532), em que Calvino transita da esfera jurídica para reflexões sobre a justiça, às Institutas (1536), onde a Justiça de Deus é sistematizada, e ao Comentário de Romanos (1539), que a aplica exegética e pastoralmente, é possível ver uma progressiva maturação de sua teologia reformada.
 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Confissão de Fé Belga: Origem e Conteúdo

Confissão de Fé Belga: Origem e Conteúdo

A Confissão de Fé Belga surgiu no contexto das severas perseguições contra os protestantes reformados nos Países Baixos, então governados pela monarquia católica espanhola de Filipe II. Seu principal autor foi Guido de Brès (1522–1567), pastor e teólogo reformado [cf. artigo específico abaixo referenciado], auxiliado por outros líderes, como Adrien de Saravia e Herman Moded. Escrita originalmente em francês, em 1561, a Confissão teve um propósito claramente apologético e pastoral: demonstrar às autoridades civis que os reformados não eram rebeldes políticos, mas cristãos fiéis às Escrituras. Nesse sentido, o documento foi inclusive lançado sobre os muros do castelo de Tournai, acompanhado de uma carta ao rei, solicitando tolerância religiosa e afirmando a legitimidade bíblica da fé reformada. Assim, sua origem está diretamente ligada à perseguição, à necessidade de definir publicamente a fé e à defesa da identidade das igrejas reformadas.

A autoria de Guido de Brès confere à Confissão não apenas valor teológico, mas também profundo significado histórico e espiritual, pois ele confirmou seu testemunho com o próprio martírio, em 1567. A Confissão apresenta, de forma sistemática, as principais doutrinas da teologia reformada, abordando a autoridade das Escrituras, a doutrina de Deus, a pessoa e a obra de Cristo, a salvação pela graça, a natureza da igreja, os sacramentos e a relação com as autoridades civis. Embora não tenha sido a primeira confissão da Reforma, ela ocupa um lugar de primazia entre os documentos confessionais reformados, por sua clareza, maturidade e equilíbrio, podendo ser colocada ao lado de documentos como a Confissão de Augsburgo, no contexto luterano, e o Catecismo de Heidelberg, no contexto reformado, distinguindo-se especialmente por sua forte ênfase na doutrina da igreja.Sua importância foi oficialmente reconhecida no Sínodo de Dordrecht (1618–1619)[1] [Sínodo de Dort, forma abrevia e bastante comum], quando foi adotada como um dos padrões doutrinários das Igrejas Reformadas,[2] tornando-se parte das chamadas Três Formas de Unidade: Confissão Belga (1561); Catecismo de Heidelberg (1563) e os Cânones de Dort (1618–1619).

Dessa forma, a Confissão Belga consolidou a identidade das igrejas reformadas continentais,[3] promoveu unidade doutrinária em meio à perseguição e estabeleceu uma clara definição da fé reformada em contraste com o catolicismo romano e outros movimentos. Seu legado permanece até hoje, sendo considerada um dos mais importantes documentos confessionais do protestantismo reformado, não apenas por sua antiguidade, mas por sua fidelidade às Escrituras, sua profundidade teológica e seu testemunho nascido em meio ao sofrimento. Preservando sua doutrina e servindo como referência teológica para a igreja ao longo dos séculos. 

Resumo da Confissão Belga

A Confissão possui 37 artigos, que tratam de temas centrais da fé reformada:

·        Deus e Escritura:

o   Afirma a autoridade suprema da Bíblia como Palavra de Deus.

o   Defende a Trindade e a soberania divina.

·        Cristo e Salvação:

o   Enfatiza a obra redentora de Cristo e a justificação pela fé.

o   Rejeita méritos humanos como meio de salvação.

·        Igreja:

o   Define a verdadeira Igreja como aquela que prega fielmente o evangelho, administra corretamente os sacramentos e pratica a disciplina eclesiástica.

o   Reconhece a necessidade de unidade e rejeita abusos clericais.

·        Sacramentos:

o   Reconhece apenas dois sacramentos: Batismo e Ceia do Senhor.

o   Rejeita a transubstanciação e práticas consideradas não bíblicas.

·        Autoridade civil:

o   Afirma que os cristãos devem respeitar as autoridades, desde que não contrariem a Palavra de Deus.

o   Essa parte foi crucial para mostrar que os reformados não eram revolucionários políticos.

 

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Guedes, Ivan Pereira

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Galeria da Reforma: Louis de Berquin (1490-1529)    
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Reforma Protestante: Por que Ocorreu no Século XVI
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Cronologia Comentada da Reforma Protestante Séc. XVI     
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Boêmia a Terra Fecundadora das Reformas Religiosas
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As Dez Teses de Berna

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As Sessenta e Sete Teses [Artigos] de Urich Zwínglio

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Protestantismo: Os Quatro João (John) da Reforma   
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Protestantismo: A Reforma na Inglaterra – Eduardo VI e Maria Tudor

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VERBETE – Protestantismo

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VERBETE – Calvinismo

https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2014/01/verbete-calvinismo.html

VERBETE – Anglicanismo

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VERBETE – Arminianismo

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[1] Assembleia internacional da Igreja Reformada Holandesa, convocada para resolver a controvérsia arminiana. Rejeitou as doutrinas arminianas e estabeleceu os Cinco Pontos do Calvinismo, consolidando a teologia reformada e reconhecendo oficialmente a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort como padrões doutrinários das Igrejas Reformadas.

 [2] Enquanto as Igrejas Presbiterianas seguiram a Confissão de Westminster juntamente com os Catecismos de Westminster [elaboradas posteriormente em (1646-1647]. Desta forma as Igrejas Reformadas e as Igreja Presbiterianas pertencem à tradição calvinista, mas cada uma consolidou sua identidade em torno de diferentes documentos confessionais.

[3] Indicando que essas igrejas surgiram no continente europeu [Suíça, França, Países Baixos, Alemanha, Hungria, etc.], não nos países Britânicos [Inglaterra – Presbiterianos e Congregacionais].