A
Bíblia aberta com o lema em latim “Nisi Dominus Frustra” (“Se não
for o Senhor, em vão”).
A sarça
ardente acima da Bíblia, acompanhada da cruz dourada — símbolo central da
tradição reformada.
O cardo
azul (flor nacional da Escócia) e a rosa branca, representando identidade e
pureza.
A cruz
de Santo André em escudo azul, ladeada por um báculo pastoral e uma espada.
O lema “Nec tamen consumebatur” (“E
contudo não era consumida”), reforçando a imagem bíblica da sarça ardente.
Quando se pergunta sobre a origem da Igreja Presbiteriana, é
bastante comum encontrarmos duas respostas. A primeira aponta para Genebra,
associando sua origem diretamente a João Calvino. A segunda, especialmente
entre aqueles que conheceram o presbiterianismo a partir de sua presença no
Brasil, imagina que a Igreja Presbiteriana tenha surgido nos Estados Unidos.
As duas associações possuem alguma relação com a história do
presbiterianismo, mas nenhuma delas responde adequadamente à pergunta sobre sua
origem histórica.
A Igreja Presbiteriana, como expressão eclesiástica
historicamente constituída, surgiu na Escócia durante o século XVI.
Essa afirmação, entretanto, precisa ser explicada. Afinal, qual foi
o papel de Calvino? Qual foi a importância de Genebra? Onde entra John Knox? E
por que o ano de 1578 é tão importante nessa história?
Calvino e Genebra: uma influência fundamental
Não é difícil compreender por que Genebra aparece com tanta
frequência quando se fala sobre a origem do presbiterianismo.
João
Calvino (1509–1564) foi uma das figuras mais importantes
da segunda geração da Reforma Protestante. Em Genebra, desenvolveu uma
estrutura teológica e eclesiástica que exerceu enorme influência sobre o mundo
reformado.
A Instituição da Religião Cristã, suas exposições bíblicas,
seus escritos sobre a Igreja e sua atuação pastoral em Genebra contribuíram
para a formação de uma tradição reformada que ultrapassaria rapidamente as
fronteiras da cidade.
A organização da Igreja de Genebra também é particularmente
importante. Calvino defendeu uma estrutura na qual diferentes funções
ministeriais fossem reconhecidas, incluindo pastores, doutores, presbíteros e
diáconos. Os presbíteros tinham responsabilidade
significativa na supervisão da vida e da disciplina da comunidade. Aqui
encontramos elementos que posteriormente seriam importantes para o
desenvolvimento do presbiterianismo.
Mas precisamos fazer uma distinção.
Calvino
não fundou a Igreja Presbiteriana.
Ele foi fundamental para a formação da teologia reformada e
exerceu enorme influência sobre a maneira como diversas Igrejas Reformadas
compreenderam sua doutrina, seu ministério e seu governo eclesiástico. A
organização da Igreja de Genebra, particularmente a participação dos
presbíteros no governo e na disciplina da comunidade, tornou-se uma referência
importante para outros contextos reformados.
Entretanto, essa influência não produziu uma única
denominação.
O pensamento teológico e eclesiástico desenvolvido em Genebra seria
recebido, adaptado e desenvolvido em diferentes regiões da Europa. As Igrejas
Reformadas da Suíça, as Igrejas Reformadas Francesas e as Igrejas Reformadas
dos Países Baixos, entre outras comunidades reformadas, assumiram elementos
da tradição calvinista, mas desenvolveram suas próprias estruturas e
trajetórias históricas.
O caso escocês possui uma particularidade importante.
A Reforma da Escócia recebeu influência significativa de Genebra e de Calvino,
especialmente por meio de John Knox, que conheceu diretamente a
experiência da Igreja genebrina. Entretanto, os escoceses não simplesmente
transplantaram a Igreja de Genebra para a Escócia. Eles desenvolveram, dentro
de seu próprio contexto histórico, uma estrutura de governo eclesiástico que se
tornaria uma das marcas distintivas do presbiterianismo.
Essa distinção é fundamental. Calvino foi um dos principais
arquitetos da tradição teológica reformada, mas não o fundador de todas as
igrejas que posteriormente seriam identificadas com essa tradição.
Seu pensamento exerceu influência sobre diferentes comunidades, que assumiram
formas históricas distintas.
Na Escócia, essa influência encontrou as
circunstâncias específicas da Reforma conduzida por John Knox e seus
companheiros e, posteriormente, o trabalho de uma nova geração de líderes,
entre os quais se destacou Andrew Melville. Foi nesse processo que a
concepção de governo por meio de presbíteros, assembleias e outros oficiais da
Igreja adquiriu sua configuração propriamente presbiteriana.
Por isso, precisamos distinguir três coisas que muitas vezes são
colocadas indevidamente no mesmo nível:
Calvino
e Genebra — formação e desenvolvimento da tradição
teológica reformada;
Reforma
da Escócia — desenvolvimento histórico da Igreja
presbiteriana;
Estados
Unidos — posterior expansão e organização do presbiterianismo em outro
contexto histórico.
Assim, a pergunta não deve ser simplesmente “quem
fundou o presbiterianismo?”. É mais adequado perguntar como uma
tradição teológica reformada, influenciada por Calvino e recebida em diferentes
regiões, adquiriu na Escócia uma forma específica de
governo eclesiástico que passou a ser conhecida como presbiterianismo.
É justamente nesse processo que 1578 ganha sua importância.
Da Genebra de Calvino à Escócia de Knox
Um dos principais responsáveis pela ligação entre a experiência
reformada de Genebra e a Reforma escocesa foi John Knox (c. 1514–1572).
Ele esteve em Genebra durante seu exílio e conheceu de perto a organização da
Igreja reformada daquela cidade. Sua permanência em Genebra foi importante para
sua formação e para sua compreensão de como uma Igreja reformada poderia ser
organizada. Ao retornar à Escócia, Knox tornou-se uma das principais figuras da
Reforma escocesa.
Em 1560, o Parlamento escocês rompeu oficialmente
com a autoridade papal e aprovou a Confissão Escocesa, preparada por
Knox e outros reformadores. A Reforma, entretanto, não poderia limitar-se à
elaboração de uma confissão de fé. Era necessário responder a outra pergunta:
Como deveria ser organizada a Igreja reformada da
Escócia?
Essa questão conduziu à elaboração do First Book of
Discipline, ou Primeiro Livro de Disciplina, também em 1560.
Esse documento estabelecia princípios para a organização da Igreja, a formação
de ministros, o culto, a disciplina e a administração dos recursos
eclesiásticos. Portanto, já encontramos em 1560 algo muito importante:
a Reforma escocesa estava construindo uma Igreja com
identidade própria.
A Reforma escocesa depois de Knox
John Knox morreu em 1572, mas a Reforma escocesa estava apenas
começando uma nova etapa. A geração seguinte precisaria defender e aprofundar
aquilo que havia sido iniciado.
Entre os principais nomes desse período estava Andrew Melville
(1545–1622).
Melville havia estudado na Europa continental e estivera em
Genebra. Essa estadia o convenceu de que
os princípios bíblicos do sistema eclesiástico que haviam sido desenvolvidos
e praticados por Calvino e a Companhia dos Pastores, era o único
sistema de governo eclesiástico sancionado biblicamente, e ele começou então a
dedicar todos os seus esforços para estabelecer tal sistema bíblico na
Escócia.
Sua formação o colocou em
contato com o ambiente intelectual e teológico da Reforma europeia. Ao retornar
à Escócia, em 1574, tornou-se uma das figuras mais importantes na defesa
de uma Igreja reformada independente da interferência direta da Coroa.
Sua atuação não pode ser compreendida simplesmente como uma
continuação pessoal de Knox. Melville pertencia a uma nova geração e enfrentava
problemas diferentes. A questão central agora era consolidar a estrutura da
Igreja reformada e definir claramente a natureza de sua autoridade.
É nesse contexto que chegamos a 1578.
1578 — o Segundo Livro de Disciplina
Este ano tornou-se fundamental pois, a Assembleia Geral da
Igreja da Escócia aprovou o documento que ficou conhecido como Second
Book of Discipline (Segundo Livro de Disciplina).
Este é um dos marcos decisivos para a história do
presbiterianismo.
O documento estabelecia de maneira muito mais precisa a estrutura e
o governo da Igreja. Sua preocupação não era apenas doutrinária, mas também
institucional: quem deveria governar a Igreja? Qual seria a autoridade dos
ministros? Qual seria a função dos presbíteros? Qual seria o papel dos
diáconos? Qual deveria ser a relação entre Igreja e magistratura civil?
A resposta estava fundamentada em uma convicção central:
Cristo é o único Cabeça da Igreja.
O Segundo Livro de Disciplina afirmava:
“Esta
potência e política eclesiástica flui imediatamente de Deus, e do Mediador
Jesus Cristo, e é espiritual, não tendo uma cabeça temporal na terra, mas
somente Cristo, o único Rei espiritual e Governador da sua Igreja.”
Essa afirmação tinha profundas implicações. Se Cristo era o único
Cabeça da Igreja, nenhum homem poderia ocupar essa posição. Nem o papa,
evidentemente, mas também nenhum rei.
A questão era particularmente delicada na Escócia porque os
monarcas procuravam exercer influência crescente sobre a Igreja.
Assim, a Reforma escocesa estava estabelecendo não apenas uma
teologia reformada, mas também uma concepção específica de governo da Igreja.
O governo presbiteriano
O Segundo Livro de Disciplina apresenta uma estrutura formada por
diferentes ofícios e instâncias de governo.
Os ministros
tinham a responsabilidade pela pregação e pelo ensino da Palavra. Os presbíteros
participavam do governo e da disciplina da Igreja.
Os diáconos
estavam relacionados especialmente à administração dos recursos destinados ao
serviço cristão e à assistência aos necessitados.
O aspecto fundamental era que o governo não deveria ficar
concentrado em uma única pessoa. A Igreja deveria ser governada de maneira colegiada,
por meio de ministros e presbíteros reunidos em diferentes níveis
de responsabilidade.
É daí
que vem o termo presbiteriano: do grego presbyteros,
“presbítero”, “ancião”.
Não significa que os presbíteros substituíram os ministros, mas que
o governo da Igreja seria exercido de maneira conjunta, dentro de uma estrutura
organizada de conselhos e assembleias.
Essa estrutura se tornaria uma das marcas distintivas do
presbiterianismo:
Uma Igreja sem “senhores”
O Segundo Livro de Disciplina também rejeitava uma concepção de
liderança baseada no domínio pessoal. Os líderes da Igreja deveriam ser ministros
e servos, seguindo o exemplo de Cristo. A ideia estava em profunda
sintonia com a advertência apostólica: “Nem como dominadores dos que vos
foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pedro 5.3). O
princípio era fundamentalmente importante porque estabelecia uma diferença
entre autoridade e dominação.
O presbítero possuía autoridade, mas essa autoridade não
deveria ser exercida como propriedade pessoal. O ministro possuía
autoridade espiritual, mas não era um senhor absoluto da congregação.
A autoridade deveria ser exercida dentro da Palavra de Deus e em
comunhão com os demais oficiais da Igreja. Essa concepção permaneceria como uma
das marcas distintivas do pensamento presbiteriano.
A escolha dos líderes
Outro elemento significativo estava relacionado à escolha dos
oficiais.
O Segundo Livro de Disciplina rejeitava a prática de simplesmente
impor alguém a uma congregação contra sua vontade. A eleição deveria envolver a
própria comunidade e os responsáveis pelo governo da Igreja. Não podemos
incorrer em erro interpretando isso como se fosse uma democracia moderna
transportada para o século XVI. Pois, a sociedade daquele período possuía
estruturas políticas, sociais e religiosas muito diferentes das nossas.
O que encontramos é algo mais específico: um modelo
eclesiástico no qual a autoridade era distribuída, exercida colegialmente e
submetida à comunidade da Igreja e à Palavra de Deus. Esse princípio
teria consequências profundas na história posterior do presbiterianismo.
1578 não foi um acontecimento isolado
Por isso, é importante não transformar 1578 em uma espécie de “data
de nascimento” isolada. A história foi gradual. Podemos visualizar esse
processo:
1560 —
Reforma da Igreja da Escócia e Primeiro Livro de Disciplina.
1572 — morte de John Knox.
1574 —
retorno de Andrew Melville à Escócia.
1578 — Segundo Livro de Disciplina, aprofundando a estrutura
presbiteriana.
1592 —
reconhecimento legal decisivo do sistema presbiteriano pelo Parlamento escocês.
Essa sequência é muito mais significativa do que simplesmente
afirmar que “a Igreja Presbiteriana nasceu em 1578”.
Evidente que 1578 representa um marco decisivo na formulação da
ordem presbiteriana, enquanto sua consolidação jurídica ocorreu
posteriormente.
Agora podemos retornar à pergunta inicial. Então, onde
nasceu a Igreja Presbiteriana?
Foi em Genebra?
Não exatamente. Genebra foi fundamental para a formação da tradição
reformada. Calvino desenvolveu ali uma importante teologia da Igreja e uma
estrutura eclesiástica que influenciaria profundamente outras comunidades
reformadas. John Knox também recebeu importante influência da experiência
genebrina. Mas o presbiterianismo não nasceu simplesmente como uma extensão da
Igreja de Genebra.
Foi nos Estados Unidos?
Também não. O presbiterianismo chegou posteriormente à América do
Norte, onde encontraria terreno fértil para sua expansão e desenvolvimento
institucional. A tradição americana se tornaria extremamente importante na
história mundial do presbiterianismo, mas sua origem é anterior à formação das
igrejas presbiterianas norte-americanas.
Então, onde devemos situar seu nascimento histórico?
Na Escócia do século XVI, no processo iniciado
pela Reforma de 1560 e desenvolvido nas décadas seguintes, particularmente com
a formulação do Segundo Livro de Disciplina em 1578 e sua posterior
consolidação. Por isso, seja melhor falar não de um único “dia do nascimento”,
mas de um processo de formação do presbiterianismo escocês.
Uma herança que ultrapassaria a Escócia
A importância desse processo seria enorme. A tradição presbiteriana
ultrapassaria as fronteiras escocesas e se espalharia pelas Ilhas Britânicas e,
posteriormente, por outros continentes.
Mas essa é outra etapa da história. Por enquanto, precisamos
guardar uma distinção fundamental:
Calvino
não fundou a Igreja Presbiteriana.
Genebra não foi a sede de nascimento do presbiterianismo.
Os
Estados Unidos não foram sua origem.
A tradição eclesiástica presbiteriana nasceu historicamente no
contexto da Reforma da Escócia, recebendo importantes
influências do mundo reformado europeu e desenvolvendo ali uma forma própria de
governo eclesiástico.
Genebra forneceu importantes elementos teológicos e eclesiásticos.
Knox ajudou a introduzir e adaptar a experiência reformada no contexto escocês.
Melville e a geração seguinte contribuíram para sua consolidação. O Segundo
Livro de Disciplina deu forma mais definida à estrutura presbiteriana.
E assim, em 1578, a Igreja da Escócia deu um passo decisivo na
construção daquela tradição que, nos séculos seguintes, seria conhecida em
diferentes partes do mundo como presbiterianismo.
A caminhada continua...
Utilização
livre desde que citando a fonte
Guedes,
Ivan Pereira
Mestre
em Ciências da Religião.
Universidade
Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro
Blog
Reflexão
Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br
Ajude a
manter esse ministério ativo
Bibliografia
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã.
São Paulo: Cultura Cristã.
Obra fundamental para compreender a teologia reformada de Calvino e sua
concepção da Igreja, especialmente importante para distinguir sua influência
sobre o presbiterianismo de uma suposta fundação da Igreja Presbiteriana.
CAMERON, Euan. John Knox and Andrew Melville. In:
FERGUSSON, David; ELLIOTT, Mark W. (eds.). The History of Scottish Theology.
Oxford: Oxford University Press, 2019.
Analisa a passagem da primeira geração da Reforma escocesa, representada por
Knox, para a geração de Melville e o desenvolvimento posterior da Igreja
reformada.
HAZLETT, Ian (ed.). A Companion
to the Reformation in Scotland, c.1525–1638: Frameworks of Change and
Development. Leiden: Brill, 2021.
Obra abrangente para compreender a Reforma escocesa em seu contexto religioso,
político e institucional, evitando reduzi-la à atuação de uma única
personalidade.
KIRK, James (ed.). The Second
Book of Discipline. Edinburgh: St Andrew Press, 1980.
Fonte essencial para o estudo do documento de 1578 e da organização do governo
presbiteriano escocês.
KNOX, John. The Works of John Knox.
Edinburgh: The Bannatyne Club.
Coleção importante para compreender a Reforma escocesa a partir dos próprios
escritos de seu principal reformador.
REID, Steven J.; MASON, Roger A. (eds.). Andrew Melville (1545–1622): Writings, Reception, and
Reputation. Farnham: Ashgate, 2014.
Reúne estudos sobre Andrew Melville, sua formação, seus escritos e sua
importância no desenvolvimento da Igreja presbiteriana escocesa.
RYRIE, Alec. The Origins of the Scottish
Reformation. Manchester: Manchester University Press, 2006.
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esteve em Genebra nessa condição de refugiado).
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