Comentário Histórico
Petrarca (1304–1374), poeta e humanista, viveu parte de sua vida em
Avinhão,[1]
onde a corte papal estava instalada desde 1309. Sua permanência na cidade
permitiu-lhe testemunhar diretamente a riqueza, o luxo e a corrupção do meio
eclesiástico, em franco contraste com a simplicidade que caracterizara os
primeiros apóstolos e discípulos oriundos da região pobre da Galileia.
Ao chamar Avinhão de “Babilônia do Ocidente”, Petrarca
recorre a uma imagem fortemente simbólica para denunciar o que via como a
corrupção moral da Igreja de seu tempo. A referência bíblica à Babilônia não é
casual: ela representa um espaço de decadência, pecado e afastamento dos
valores sagrados. Com isso, Petrarca critica o fato de a Igreja ter se
distanciado de sua origem humilde, ligada aos “pescadores da Galileia”, isto é,
à simplicidade e à pobreza associadas aos primeiros discípulos de Cristo. Além
disso, ele condena o uso da autoridade papal por meio de documentos, bulas e
selos como instrumentos de exploração espiritual e financeira, mostrando que a
fé havia sido, em certa medida, subordinada a interesses materiais. Por fim, o
autor destaca o contraste entre a vida modesta dos apóstolos e o luxo excessivo
em que viviam papas e cardeais, reforçando a ideia de que a Igreja de Avinhão
havia traído sua missão original e se tornado um símbolo de ostentação e desvio
moral.
Essa carta de Petrarca é um exemplo precoce do movimento de crítica
à Igreja que se avolumava e que desembocaria com toda sua pujança no século XVI
na Reforma Protestante. Entre outros aspectos, havia um esforço de retorno às
fontes evangélicas (bíblicas) e à simplicidade dos primeiros cristãos e
comunidades.
Ainda que sua carta não tenha a força teológica e eclesiológica dos
escritos de John Wycliffe ou Jan Hus, Petrarca cooperou de maneira
significativa para criar um clima intelectual de crítica que preparou o terreno
para a futura Reforma. Como diz o profeta Zacarias: “Não despreze
os pequenos começos” (Zacarias 4:10).
Todos os grandes movimentos na História da Igreja iniciam-se com
pequenos focos de renovação. O avivamento inglês do século XVIII, por exemplo,
começou com alguns jovens seminaristas como João Wesley e George Whitefield,
que pregavam nas entradas das minas de carvão e acabaram provocando um dos
maiores avivamentos espirituais da época.
Relevância
Mais do que uma simples denuncia circunstancial, esse documento de
Petrarca tem grande relevância histórica porque revela, com rara clareza, que
já no século XIV existia uma consciência crítica
bastante aguda em relação à Igreja institucional. Seu valor está justamente em
mostrar que o mal-estar diante do luxo da cúria, da politização do papado e do
afastamento do ideal apostólico não surgiu apenas com os reformadores do século
XVI, mas já era percebido e denunciado por um dos grandes intelectuais do
humanismo nascente. Ao mesmo tempo, trata-se de um texto ainda pouco conhecido
fora dos estudos especializados, o que torna sua leitura ainda mais importante:
ele permite compreender, de forma precoce e intensa, a formação de uma crítica
religiosa e moral que antecipava tensões decisivas da história da Igreja no fim
da Idade Média.
Tradução do Texto (original nas
referências bibliografas)
“Agora vivo na França, na Babilônia do Ocidente. O sol em suas
viagens não vê nada mais horrível do que este lugar às margens do selvagem
Ródano, que lembra os rios infernais Cocito e Aqueronte. Aqui reinam os
sucessores dos pobres pescadores da Galileia; eles estranhamente esqueceram sua
origem. Fico espantado, ao recordar seus predecessores, de ver estes homens
carregados de ouro e vestidos de púrpura, vangloriando-se dos despojos de
príncipes e nações; de ver palácios luxuosos e fortalezas, em vez de um simples
barco virado para abrigo.
Já não encontramos as redes simples que outrora serviam para obter
sustento frugal no lago da Galileia, e com as quais, após uma noite de trabalho
infrutífero, os apóstolos pescaram ao amanhecer uma multidão de peixes em nome
de Jesus. Hoje ficamos atônitos ao ouvir línguas mentirosas e ver pergaminhos
inúteis transformados, por um selo de chumbo, em redes usadas em nome de
Cristo, mas pelas artes de Belial, para capturar hordas de cristãos incautos.
Esses peixes são então lançados nas brasas da ansiedade antes de saciar a
insaciável boca de seus captores.
Em vez da santa solidão, encontramos uma hoste criminosa e
multidões de infames satélites; em vez de sobriedade, banquetes licenciosos; em
vez de piedosas peregrinações, preguiça vil e antinatural; em vez dos pés
descalços dos apóstolos, os corcéis nevados dos salteadores passam velozes,
adornados de ouro e alimentados com ouro, logo a serem ferrados com ouro, se o
Senhor não frear este luxo servil. Em suma, parece que estamos entre reis
persas ou partos, diante dos quais devemos nos prostrar e oferecer presentes. Ó
velhos desgrenhados e emaciados, foi para isso que vocês trabalharam? Foi para
isso que semearam o campo do Senhor e o regaram com vosso sangue santo? Mas
deixemos o assunto.
Estou tão deprimido e abatido que o peso da alma passou ao corpo,
de modo que estou realmente enfermo e só consigo dar voz a suspiros e gemidos.”
Apêndice
– Linha do Tempo
- 1340–1353 –
Petrarca: crítica humanista
ao papado em Avinhão.
- 1395 – Wycliffe/Lollardos: defesa da Bíblia contra abusos da Igreja.
- 1415 – Jan Hus: martírio em Constança, precursor da
Reforma.
- 1438 – Carlos VII (França): Sanção Pragmática de Bourges, autonomia
parcial frente a Roma.
- 1511 – Erasmo: Elogio da Loucura, crítica
humanista à teologia escolástica.
- 1517 – Lutero: 95 Teses, início da Reforma Protestante.
- 1534 – Henrique VIII
(Inglaterra): Ato de Supremacia, ruptura
institucional com Roma.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br
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Referências
Bibliográficas
PETRARCH, Francesco. Letter
Criticizing the Avignon Papacy (Letter to a Friend, 1340–1353). In:
Internet History Sourcebooks Project – Medieval Sourcebook. Fordham University.
Disponível em: https://sourcebooks.fordham.edu/source/petrarch-avignon.asp
(sourcebooks.fordham.edu in Bing). Acesso em: 04 abr. 2026.
Fontes
Secundárias
PETRARCA, Francesco. Familiar Letters; Seniles. Tradução e edição de Aldo S. Bernardo. Baltimore:
Johns Hopkins University Press, 1982.
PETRARCA, Francesco. Letters of
Old Age (Seniles). Tradução de Aldo S. Bernardo, Saul Levin. Baltimore:
Johns Hopkins University Press, 1992.
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[1] Avinhão,
no sul da França, foi a sede do papado entre 1309 e 1377, período conhecido
como Papado de Avinhão, quando os papas passaram a residir nessa cidade do sul
da França.