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sábado, 4 de abril de 2026

História Igreja – A carta de Petrarca contra o papado em Avinhão (documento)

 

Comentário Histórico

Petrarca (1304–1374), poeta e humanista, viveu parte de sua vida em Avinhão,[1] onde a corte papal estava instalada desde 1309. Sua permanência na cidade permitiu-lhe testemunhar diretamente a riqueza, o luxo e a corrupção do meio eclesiástico, em franco contraste com a simplicidade que caracterizara os primeiros apóstolos e discípulos oriundos da região pobre da Galileia.

Ao chamar Avinhão de “Babilônia do Ocidente”, Petrarca recorre a uma imagem fortemente simbólica para denunciar o que via como a corrupção moral da Igreja de seu tempo. A referência bíblica à Babilônia não é casual: ela representa um espaço de decadência, pecado e afastamento dos valores sagrados. Com isso, Petrarca critica o fato de a Igreja ter se distanciado de sua origem humilde, ligada aos “pescadores da Galileia”, isto é, à simplicidade e à pobreza associadas aos primeiros discípulos de Cristo. Além disso, ele condena o uso da autoridade papal por meio de documentos, bulas e selos como instrumentos de exploração espiritual e financeira, mostrando que a fé havia sido, em certa medida, subordinada a interesses materiais. Por fim, o autor destaca o contraste entre a vida modesta dos apóstolos e o luxo excessivo em que viviam papas e cardeais, reforçando a ideia de que a Igreja de Avinhão havia traído sua missão original e se tornado um símbolo de ostentação e desvio moral.

Essa carta de Petrarca é um exemplo precoce do movimento de crítica à Igreja que se avolumava e que desembocaria com toda sua pujança no século XVI na Reforma Protestante. Entre outros aspectos, havia um esforço de retorno às fontes evangélicas (bíblicas) e à simplicidade dos primeiros cristãos e comunidades.

Ainda que sua carta não tenha a força teológica e eclesiológica dos escritos de John Wycliffe ou Jan Hus, Petrarca cooperou de maneira significativa para criar um clima intelectual de crítica que preparou o terreno para a futura Reforma. Como diz o profeta Zacarias: “Não despreze os pequenos começos” (Zacarias 4:10).

Todos os grandes movimentos na História da Igreja iniciam-se com pequenos focos de renovação. O avivamento inglês do século XVIII, por exemplo, começou com alguns jovens seminaristas como João Wesley e George Whitefield, que pregavam nas entradas das minas de carvão e acabaram provocando um dos maiores avivamentos espirituais da época.

Relevância

Mais do que uma simples denuncia circunstancial, esse documento de Petrarca tem grande relevância histórica porque revela, com rara clareza, que já no século XIV existia uma consciência crítica bastante aguda em relação à Igreja institucional. Seu valor está justamente em mostrar que o mal-estar diante do luxo da cúria, da politização do papado e do afastamento do ideal apostólico não surgiu apenas com os reformadores do século XVI, mas já era percebido e denunciado por um dos grandes intelectuais do humanismo nascente. Ao mesmo tempo, trata-se de um texto ainda pouco conhecido fora dos estudos especializados, o que torna sua leitura ainda mais importante: ele permite compreender, de forma precoce e intensa, a formação de uma crítica religiosa e moral que antecipava tensões decisivas da história da Igreja no fim da Idade Média.

Tradução do Texto (original nas referências bibliografas)

“Agora vivo na França, na Babilônia do Ocidente. O sol em suas viagens não vê nada mais horrível do que este lugar às margens do selvagem Ródano, que lembra os rios infernais Cocito e Aqueronte. Aqui reinam os sucessores dos pobres pescadores da Galileia; eles estranhamente esqueceram sua origem. Fico espantado, ao recordar seus predecessores, de ver estes homens carregados de ouro e vestidos de púrpura, vangloriando-se dos despojos de príncipes e nações; de ver palácios luxuosos e fortalezas, em vez de um simples barco virado para abrigo.

Já não encontramos as redes simples que outrora serviam para obter sustento frugal no lago da Galileia, e com as quais, após uma noite de trabalho infrutífero, os apóstolos pescaram ao amanhecer uma multidão de peixes em nome de Jesus. Hoje ficamos atônitos ao ouvir línguas mentirosas e ver pergaminhos inúteis transformados, por um selo de chumbo, em redes usadas em nome de Cristo, mas pelas artes de Belial, para capturar hordas de cristãos incautos. Esses peixes são então lançados nas brasas da ansiedade antes de saciar a insaciável boca de seus captores.

Em vez da santa solidão, encontramos uma hoste criminosa e multidões de infames satélites; em vez de sobriedade, banquetes licenciosos; em vez de piedosas peregrinações, preguiça vil e antinatural; em vez dos pés descalços dos apóstolos, os corcéis nevados dos salteadores passam velozes, adornados de ouro e alimentados com ouro, logo a serem ferrados com ouro, se o Senhor não frear este luxo servil. Em suma, parece que estamos entre reis persas ou partos, diante dos quais devemos nos prostrar e oferecer presentes. Ó velhos desgrenhados e emaciados, foi para isso que vocês trabalharam? Foi para isso que semearam o campo do Senhor e o regaram com vosso sangue santo? Mas deixemos o assunto.

Estou tão deprimido e abatido que o peso da alma passou ao corpo, de modo que estou realmente enfermo e só consigo dar voz a suspiros e gemidos.”

Apêndice – Linha do Tempo

  • 1340–1353 – Petrarca: crítica humanista ao papado em Avinhão.
  • 1395 – Wycliffe/Lollardos: defesa da Bíblia contra abusos da Igreja.
  • 1415 – Jan Hus: martírio em Constança, precursor da Reforma.
  • 1438 – Carlos VII (França): Sanção Pragmática de Bourges, autonomia parcial frente a Roma.
  • 1511 – Erasmo: Elogio da Loucura, crítica humanista à teologia escolástica.
  • 1517 – Lutero: 95 Teses, início da Reforma Protestante.
  • 1534 – Henrique VIII (Inglaterra): Ato de Supremacia, ruptura institucional com Roma.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Referências Bibliográficas

PETRARCH, Francesco. Letter Criticizing the Avignon Papacy (Letter to a Friend, 1340–1353). In: Internet History Sourcebooks Project – Medieval Sourcebook. Fordham University. Disponível em: https://sourcebooks.fordham.edu/source/petrarch-avignon.asp (sourcebooks.fordham.edu in Bing). Acesso em: 04 abr. 2026.

Fontes Secundárias

PETRARCA, Francesco. Familiar Letters; Seniles. Tradução e edição de Aldo S. Bernardo. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1982.

PETRARCA, Francesco. Letters of Old Age (Seniles). Tradução de Aldo S. Bernardo, Saul Levin. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1992.

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[1] Avinhão, no sul da França, foi a sede do papado entre 1309 e 1377, período conhecido como Papado de Avinhão, quando os papas passaram a residir nessa cidade do sul da França.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Presbiterianismo no Brasil: A Formação do Primeiro Sínodo Presbiteriano no Brasil - Contexto e Impacto

 

A implantação do presbiterianismo no Brasil remonta a 1859, com a chegada do missionário norte-americano Ashbel Green Simonton ao Rio de Janeiro. Seu trabalho resultou na organização da primeira Igreja Presbiteriana em 1862 e, posteriormente, na criação do Presbitério do Rio de Janeiro em 1865, marco inicial da estrutura conciliar no país [Ferreira, 2024]. Esse período foi caracterizado pela forte influência missionária estrangeira, mas também pela emergência de lideranças nacionais que dariam novo rumo à expansão da denominação.

Entre essas lideranças, destaca-se o Rev. José Manoel da Conceição, primeiro pastor presbiteriano brasileiro ordenado em 1865. Ex-sacerdote católico convertido ao protestantismo, Conceição desempenhou papel fundamental na difusão da fé reformada no interior paulista, percorrendo longas distâncias e organizando comunidades locais [Chaves, 2008]. Sua atuação representou não apenas a expansão territorial da igreja, mas também a afirmação de uma liderança nacional capaz de dialogar com a realidade cultural e social brasileira. Ao lado dele, missionários como Alexander Blackford e, posteriormente, Eduardo Carlos Pereira, consolidaram a presença presbiteriana em São Paulo e Minas Gerais, ampliando o alcance da obra missionária [Corrêa, 1983].

A década de 1870 e os anos seguintes testemunharam a multiplicação de presbitérios, como o de São Paulo e, mais tarde, o de Pernambuco em 1888, evidenciando que o presbiterianismo já havia se enraizado em diferentes regiões do país [Arnold, 2012]. Essa expansão, contudo, exigia maior coesão institucional.

É neste contexto que, em 1888, se estabeleceu o primeiro Sínodo Presbiteriano do Brasil, reunindo os presbitérios existentes sob uma instância superior. O sínodo passou a exercer, na prática, o papel de uma assembleia geral nacional, assegurando autonomia frente às igrejas presbiterianas dos Estados Unidos, que até então supervisionavam o trabalho missionário [Soares, 2009].

A criação do sínodo representou um marco de maturidade eclesiástica. Ele garantiu:

  • Autonomia organizacional, permitindo que decisões doutrinárias e administrativas fossem tomadas no Brasil;
  • Unidade e coesão, evitando a fragmentação regional e fortalecendo a identidade da igreja;
  • Protagonismo nacional, consolidando a liderança de pastores brasileiros como José Manoel da Conceição e Eduardo Carlos Pereira [Eigenheer & Harper, 2014];
  • Preparação institucional, abrindo caminho para a criação da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana do Brasil em 1910, que se tornaria o órgão supremo da denominação [Araújo, 2020].

Em síntese, o percurso iniciado com Simonton em 1859 percorreu etapas de implantação, expansão e organização, culminando na criação do sínodo em 1888. Esse passo foi decisivo para que o presbiterianismo deixasse de ser apenas uma extensão da missão norte-americana e se tornasse uma igreja brasileira, autônoma e enraizada, capaz de dialogar com os desafios sociais e culturais do país. A participação de líderes como José Manoel da Conceição, Blackford e Pereira demonstra que a autonomia institucional foi acompanhada de uma crescente afirmação de lideranças nacionais, elemento essencial para a consolidação da identidade presbiteriana no Brasil.

Eleição do Primeiro Moderador do Sínodo Presbiteriano do Brasil (1888)

Neste momento histórico único estavam reunidos os presbitérios do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. Na ocasião, foi realizada a eleição da primeira mesa diretora, e o escolhido para moderador foi o Rev. Alexander Latimer Blackford, missionário norte-americano que havia desempenhado papel fundamental na expansão do presbiterianismo em São Paulo e Minas Gerais [Ferreira, 2024].

Blackford já era uma figura de grande prestígio, pois havia assumido o pastorado da primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro após o falecimento precoce de Ashbel Green Simonton em 1867, garantindo a continuidade da obra missionária [Arnold, 2012]. Como moderador, presidiu os trabalhos inaugurais do sínodo, conduzindo as deliberações que dariam forma à nova instância máxima da igreja no Brasil.

Embora seja certo que a mesa diretora incluía também secretários e oficiais responsáveis pela redação das atas e pela administração financeira, os registros mais difundidos mencionam apenas o nome de Blackford como moderador. Os demais integrantes permanecem preservados principalmente nas atas originais do sínodo e nos arquivos históricos da Igreja Presbiteriana do Brasil [Arnold, 2012].

A eleição de Blackford como moderador da primeira mesa diretora teve um significado simbólico: representava a continuidade da influência missionária norte-americana, mas também a transição para uma igreja cada vez mais nacional, já contando com líderes brasileiros como José Manoel da Conceição e Eduardo Carlos Pereira [Chaves, 2008]. Assim, a mesa diretora de 1888 não apenas organizou os trabalhos do sínodo, mas também inaugurou uma nova fase de autonomia e identidade para o presbiterianismo no Brasil.

A Função do Moderador no Sistema Presbiteriano

No sistema de governo presbiteriano, o moderador é a figura responsável por presidir as reuniões dos concílios — sejam eles sessões, presbitérios, sínodos ou assembleias gerais. Sua função não é a de um dirigente permanente, mas sim a de um presidente eleito para conduzir os trabalhos de forma ordenada e imparcial.

Entre suas atribuições destacam-se:

  • Conduzir as reuniões: abrir, dirigir e encerrar as sessões, garantindo que a ordem regimental seja seguida.
  • Garantir a imparcialidade: o moderador não decide sozinho, mas assegura que todos os membros tenham voz e que as deliberações sejam tomadas coletivamente.
  • Representar o concílio: em atos oficiais, o moderador é quem fala em nome do concílio, simbolizando sua unidade.
  • Facilitar o processo decisório: organiza a pauta, coloca questões em votação e proclama os resultados.

No caso do primeiro Sínodo Presbiteriano do Brasil (1888), a eleição do Rev. Alexander Latimer Blackford como moderador teve um significado especial. Ele não apenas presidiu os trabalhos inaugurais, mas também representou a continuidade da obra missionária iniciada por Simonton, já que havia assumido o pastorado da primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro após o falecimento precoce do fundador [Ferreira, 2024; Soares, 2009].

Assim, o moderador simboliza a autoridade colegiada e a unidade institucional da igreja, sendo peça-chave na dinâmica eclesiástica presbiteriana.

Função do Moderador no Sistema Presbiteriano

No sistema presbiteriano, o moderador é eleito para presidir os trabalhos de um concílio (sessão, presbitério, sínodo ou assembleia geral) por um período limitado, geralmente correspondente à duração da reunião ou ao intervalo entre reuniões ordinárias. Ele pode ser reconduzido em nova eleição, mas não exerce mandato vitalício nem contínuo.

O moderador pode ser reconduzido em nova eleição, caso o concílio assim decida, mas a prática comum é a alternância, para evitar personalismos e garantir que diferentes líderes tenham oportunidade de servir. Sua função é essencialmente de presidir e representar: ele abre e conduz as sessões, organiza a pauta, coloca questões em votação, proclama os resultados e fala em nome do concílio em atos oficiais. Não governa sozinho, mas simboliza a unidade e a ordem do corpo eclesiástico.

No caso do primeiro Sínodo Presbiteriano do Brasil em 1888, o Rev. Alexander Latimer Blackford foi eleito moderador para conduzir os trabalhos inaugurais. Sua escolha teve grande significado, pois além de ser missionário experiente, já havia assumido o pastorado da primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro após o falecimento precoce de Ashbel Green Simonton em 1867, garantindo a continuidade da obra missionária. Assim, sua eleição como moderador não apenas organizou o novo concílio, mas também simbolizou a transição para uma igreja autônoma e cada vez mais nacional [Soares, 2009; Ferreira, 2024].

Dessa forma, o moderador no presbiterianismo é uma figura de autoridade temporária e representativa, cuja importância está em assegurar a ordem e a unidade dos trabalhos, sem exercer poder permanente.

 

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Guedes, Ivan Pereira

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Referências Bibliográficas

        ARNOLD, Frank L. Uma longa jornada missionária: a história das missões presbiterianas norte-americanas no Brasil. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

        ARAÚJO, João Dias de. Inquisição sem fogueiras: vinte anos de história da Igreja Presbiteriana do Brasil, 1954–1974. Resistência Reformada, 2020.

        CHAVES, Maria de Melo. Bandeirantes da fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

        CORRÊA, Adolpho Machado. Eduardo Carlos Pereira: seu apostolado no Brasil. São Paulo, 1983.

        EIGENHEER, Emílio Maciel; HARPER JR., Charles Roy. Instituto José Manoel da Conceição: tradição e inovação. Rio de Janeiro: In-Fólio, 2014.

        FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil. 2 vols. 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2024.

        SOARES, Caleb. 150 Anos de Paixão Missionária – O Presbiterianismo no Brasil. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

História da Igreja: A Comunidade de Reinos no Medievo

 

O longo período de mil anos, entre os séculos V e XV, é o palco da ascensão e da queda da Comunidade Medieval Europeia. Como vimos, o caos causado pela queda do Império Romano proporcionou à Igreja Cristã ascender ao topo do poder. Na mesma proporção em que os povos bárbaros conquistadores foram sendo cristianizados, a Igreja foi moldando todo o Ocidente à imagem e semelhança dos ideais cristãos — não necessariamente de Jesus Cristo — na vida comum das pessoas. Sobre os escombros do desaparecido Império Romano, o cristianismo foi construindo uma nova ordem social e uma política civilizadora, um “mundo único” cristão, no qual a unidade dos homens no Corpo de Cristo se expressava em dois aspectos: o espiritual, na Igreja universal, e o material ou temporal, no Império medieval.

Ainda que a Idade Média tenha recebido o triste apelido pejorativo de “Idade das Trevas” e, de fato, do meio para o fim desse período suas instituições tenham entrado em convulsões morais e espirituais que acabaram desembocando no grande movimento da Reforma Protestante, nos dias de sua grandeza nenhuma época produziu um senso mais elevado de dever e maior disposição para o sacrifício, nem uma concepção mais refinada da fraternidade comum entre as pessoas sob uma única ordem mundial cristã.

Liderança Cristã em um Mundo em Transformação

Os fundamentos sobre os quais a nova Europa haveria de ser construída seriam estabelecidos pelos arquitetos da Comunidade Medieval: os líderes cristãos dos séculos IV e V. Dois personagens tornam‑se representativos desse momento crucial e formativo, pois, no pensamento e na ação, construíram a ponte pela qual o mundo antigo passou para a Idade Média.

Ambrósio de Milão (339–397): governador vigoroso e hábil da cidade, exegeta bíblico, teórico político, mestre da eloquência latina, músico e professor; em todos esses papéis, ele falava a respeito de Cristo.

Embora o poder e a independência crescentes da Igreja, na época de Ambrósio, fossem reforçados pela legislação imperial, foi o trabalho de homens como ele que fez da organização cristã a única instituição estável na cena em transformação.

Ambrósio foi firme nas questões concernentes às práticas pagãs; foi implacável em relação ao arianismo, que havia avançado bastante; e, coroando sua postura singular, enfrentou o imperador Teodósio I, o último imperador forte do Ocidente. Foi nesse embate entre os dois maiores poderes daquele momento que Ambrósio apresentou os princípios da relação entre Igreja e Estado que se constituiriam na bússola norteadora do pensamento medieval.

Em 390 d.C., Teodósio ordenou um massacre de sete mil moradores de Tessalônica, horrorizando todo o mundo mediterrâneo. Depois disso, o imperador foi à basílica de Milão, mas foi impedido pelo bispo Ambrósio de participar dos sacramentos até que houvesse demonstrado arrependimento. Nesse momento, a Igreja e o Estado pararam. O imperador, contudo, acatou a autoridade da Igreja e se retirou, submetendo‑se à pena que lhe foi imposta pelo bispo.

Na concepção ambrosiana das relações entre Igreja e Estado, ambos constituem esferas de poder distintas, embora interdependentes. À Igreja compete o domínio espiritual, enquanto ao Estado cabe a ordem temporal (WALKER, 1967). Incumbe ao governante cristão a proteção da Igreja, a garantia da observância das decisões conciliares e a elaboração de leis em conformidade com os princípios morais do cristianismo, sem, todavia, interferir nas atribuições próprias da autoridade eclesiástica. Essa concepção exerceu influência decisiva tanto na estruturação da Cristandade medieval quanto na formulação da teoria ocidental acerca das relações entre os dois poderes (LATOURETTE, 2007).

Essa proposta foi ampliando a lacuna entre a Igreja Ocidental e a Oriental, onde prevaleceu a noção de symphonía[1] entre Igreja e Império, baseada em uma cooperação institucional mais estreita entre autoridade espiritual e poder civil (MEYENDORFF, 1989; DAGRON, 2003).

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Referências Bibliográficas (citadas no texto)

CROSS, F. L.; LIVINGSTONE, E. A. (eds.). The Oxford dictionary of the Christian Church. 3. ed. rev. Oxford: Oxford University Press, 2005. Verbete: Symphonia.

DAGRON, Gilbert. Emperor and priest: the imperial office in Byzantium. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.

MEYENDORFF, John. Byzantine theology: historical trends and doctrinal themes. New York: Fordham University Press, 1989.

WALKER, Williston. A history of the Christian Church. New York: Scribner, 1967.

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[1] Ideal bizantino de harmonia funcional entre Igreja e poder imperial, distintos, porém cooperantes, na condução da ordem cristã (CROSS; LIVINGSTONE, 2005).