O comentário sobre Ezequiel ocupa um lugar singular entre os
escritos de Calvino, pois pertence aos seus últimos trabalhos exegéticos e foi
publicado postumamente. A obra permaneceu incompleta em razão de sua morte, encerrando-se
ao final do capítulo 20. Já profundamente debilitado, Calvino prosseguiu em
seus labores de ensino, meditação, revisão e ditado, enquanto seus discípulos
preservavam e editavam suas preleções. Após a última exposição, sua fraqueza o
obrigou a recolher-se ao leito, impedindo-o de continuar a explicação do
profeta.
Abaixo temos a segunda perícope do comentário de João Calvino sobre
Ezequiel, correspondente a Ezequiel 1:4–9. A exposição de Calvino foi
ministrada e posteriormente editada em latim, mas sua versão do texto bíblico
não é mera reprodução da Vulgata: ela reflete o esforço humanista-reformado de
retorno às fontes (ad fontes), isto é, ao texto hebraico do Antigo
Testamento. Por isso, Calvino, em diversos momentos, confrontava a tradução
latina tradicional com o hebraico e, quando julgava encontrar inadequações ou
incoerências textuais, propunha uma renderização latina que considerava mais
fiel ao original.
Vamos orar
com Calvino: “Concede-nos, Senhor, meditar nos mistérios
celestiais da tua sabedoria, com verdadeiro progresso na piedade, para a tua
glória e nossa edificação. Amém”.
Ezequiel 1:4
“Olhei, e eis que vinha do norte um vento tempestuoso, uma grande
nuvem, e um fogo que se revolvia sobre si mesmo; e havia ao redor dele um
resplendor; e do meio dele, como a aparência de âmbar, do meio do fogo.”
Devemos considerar primeiro o propósito desta visão. Não tenho
dúvida de que Deus quis, antes de tudo, revestir seu servo de autoridade e,
depois, inspirar terror no povo. Quando, portanto, uma forma terrível de Deus é
aqui descrita, isso deve ser referido, em primeiro lugar, à reverência devida
ao ensino que seria transmitido; pois, como já observamos e ainda observaremos
adiante, o dever do Profeta era exercido entre um povo endurecido e rebelde.
Sua arrogância precisava ser subjugada, pois, de outro modo, o Profeta teria
falado a surdos. Mas Deus tinha outro fim em vista: deve-se manter uma analogia
ou semelhança entre esta visão e a doutrina do Profeta.
Quanto à visão em si, alguns entendem pelos quatro animais as
quatro estações do ano, pensando que aqui se celebra o poder de Deus no governo
de todo o mundo. Mas esse sentido é forçado. Outros pensam que são
representadas as quatro virtudes: no homem, a justiça; na águia, a prudência;
no leão, a fortaleza; no boi, a perseverança. Embora seja uma conjectura
engenhosa, não tem solidez. Outros ainda entendem o contrário, pensando que
aqui se indicam quatro paixões: medo, esperança, tristeza e alegria. Outros falam
de faculdades da alma. Mas essas conjecturas também são infantis.
Antigamente, era opinião comum que sob essa figura se representavam
os quatro evangelistas: Mateus comparado ao homem, porque começa com a geração
de Cristo; Marcos ao leão, porque começa com a pregação de João; Lucas ao boi,
porque começa mencionando o sacerdócio; João à águia, porque penetra, por assim
dizer, nos segredos do céu. Mas essa ficção não tem firmeza, pois desapareceria
se fosse examinada adequadamente.
Outros pensam que se trata de uma descrição da glória de Deus na
Igreja, tomando os animais como os perfeitos, que já fizeram maior progresso na
fé, e as rodas como os fracos e indisciplinados. Mas depois acumulam muitas
frivolidades, que é melhor sepultar de uma vez, sem gastar tempo refutando-as.
Rejeito, portanto, todas essas interpretações; devemos agora ver o que o
Profeta realmente quer dizer.
Já disse que o plano do Todo-Poderoso, ao dar ordens ao seu
Profeta, era honrá-lo de tal modo que sua doutrina não fosse desprezada. Mas
deve-se considerar a razão especial que mencionei: Deus mostra brevemente, por
meio desse símbolo, com que propósito envia seu Profeta. As visões têm a maior
semelhança possível com a doutrina.
Por isso, em minha opinião, Ezequiel diz: “Eis que um vento
tempestuoso vinha do norte.” O povo já havia experimentado a vingança de
Deus, quando Ele usara primeiro os assírios e depois os babilônios para
castigá-los. Jeconias, como vimos, já havia ido para o exílio voluntário. Os
judeus pensavam que ainda teriam morada tranquila em sua cidade e em sua terra,
e zombavam da simplicidade daqueles que tão prontamente foram para o exílio.
O Profeta, portanto, diz que viu um vento tempestuoso vindo do
norte. Esse ímpeto do vento ou tempestade deve ser referido ao juízo de Deus:
Ele queria aterrorizar os judeus, para que não se entorpecessem em sua
segurança. Depois de falar da tempestade, acrescenta que viu quatro seres
viventes e quatro rodas ligadas entre si, para significar que seu movimento não
se originava do acaso, mas de Deus.
Essas duas coisas devem ser unidas: a tempestade surgiu do norte, e
Deus, autor da tempestade, foi visto sobre seu trono. Entretanto, para que a
majestade de Deus impressionasse os judeus, ele diz que viu quatro seres
viventes e quatro rodas ligadas. Pelos quatro seres viventes ele entende
querubins; não precisamos de outra explicação, pois ele mesmo o explica no
capítulo 10, quando vê Deus no templo: os quatro seres viventes estavam sob
seus pés, e ele diz que são querubins.
Agora devemos ver por que são enumerados quatro animais, quando
apenas dois querubins abraçavam a arca da aliança; e, em seguida, por que ele
atribui quatro cabeças a cada um. Se quisesse acomodar sua linguagem aos ritos
do santuário, por que não colocou apenas dois querubins, como Deus havia
ordenado? A solução está próxima: o Profeta alude ao santuário e, ao mesmo
tempo, adapta seu discurso à rudeza do povo. A religião deles se tornara tão
obsoleta, e seu desprezo pela lei tão grande, que os judeus ignoravam o uso do
santuário. Assim, adoravam a Deus como se Ele estivesse distante deles,
rejeitando inteiramente seu cuidado providencial sobre os assuntos humanos.
Vemos, então, quão grosseiro era o torpor deles: embora muitas
vezes castigados, nunca despertavam. Por isso, foi necessário propor-lhes uma
nova forma. O Profeta toma metade dela do próprio santuário e assume a outra
metade conforme exigia um povo tão rude — embora nada fabricasse de sua própria
mente, pois falo aqui do conselho do Espírito Santo.
Deus, portanto, não quis afastar os judeus do santuário, pois este
era o fundamento de todo correto entendimento da verdade. Mas, vendo que a
forma legal não era suficiente, acrescentou novo auxílio; e, como deu quatro
cabeças a cada querubim, também quis que seu número fosse quatro.
Quanto ao número, não duvido de que Deus quis ensinar que sua
influência se difunde por todas as regiões do mundo; pois sabemos que o mundo é
dividido em quatro partes. Para que o povo soubesse que a providência de Deus
governa por toda parte, foram apresentados quatro querubins.
Também convém repetir que os anjos eram representados por querubins
e serafins; pois aqueles chamados querubins aqui e em Ezequiel 10 são chamados
serafins em Isaías 6. Sabemos que os anjos são chamados principados e
potestades, e que a Escritura os chama, por assim dizer, as próprias mãos de
Deus. Portanto, visto que Deus opera por meio dos anjos e os usa como ministros
de seu poder, quando os anjos são apresentados, ali se torna manifesta a
providência de Deus e seu poder no governo do mundo.
Esta é, então, a razão por que não apenas dois querubins foram
postos diante dos olhos do Profeta, mas quatro: porque a providência de Deus
devia ser evidente nas coisas terrenas. O povo imaginava que Deus estava
confinado ao céu; por isso, o Profeta ensina não apenas que Ele reina no céu,
mas também que governa os assuntos terrenos. Por essa razão, estende seu poder
aos quatro cantos do globo.
Por que, então, cada animal tem quatro cabeças? Respondo que, por
isso, se demonstra que a virtude angelical reside em todos os animais. Todavia,
uma parte é tomada pelo todo, porque Deus, por seus anjos, opera não apenas no
homem e nos demais animais, mas em toda a criação. E, porque as coisas
inanimadas não têm movimento em si mesmas, Deus, querendo instruir um povo rude
e lento, apresenta a imagem de todas as coisas sob a figura dos animais.
Quanto aos seres viventes: o homem ocupa o primeiro lugar, porque
foi formado à imagem de Deus; o leão reina sobre os animais selvagens; o boi,
por ser muito útil, representa todos os animais domésticos ou mansos; e, como a
águia é ave régia, todas as aves são compreendidas sob esse nome. Aqui não
estou fabricando alegorias, mas apenas explicando o sentido literal; pois me
parece suficientemente claro que Deus significa a inspiração angelical pelos
quatro querubins e a estende às quatro regiões da terra.
Ora, como é igualmente claro que nenhuma criatura se move por si
mesma, mas que todos os movimentos vêm do secreto impulso de Deus, cada
querubim tem quatro cabeças, como se fosse dito que os anjos administram o
império de Deus não apenas em uma parte do mundo, mas em toda parte; e, além
disso, que todas as criaturas são movidas como se estivessem unidas aos
próprios anjos.
O Profeta, então, atribui quatro cabeças a cada um, porque, se
confiarmos em nossos olhos ao observar o modo pelo qual Deus governa o mundo, a
virtude angelical aparecerá em cada movimento. É como se os anjos tivessem as
cabeças de todos os animais, isto é, compreendessem em si mesmos, aberta e
visivelmente, todos os elementos e todas as partes do mundo.
Quanto às quatro rodas, não duvido de que significam aquelas
mudanças que costumamos chamar de revoluções. Vemos o mundo continuamente
mudando e assumindo, por assim dizer, novas faces, cada uma representada por
uma nova revolução da roda, efetuada por impulso próprio ou externo. Como não
existe condição fixa do mundo, mas se discernem mudanças contínuas, o Profeta
une as rodas aos anjos, como se afirmasse que nenhuma mudança ocorre por acaso,
mas depende de uma agência: a dos anjos; não que eles movam as coisas por poder
inerente, mas porque são, como dissemos, as mãos de Deus.
E, porque essas mudanças são realmente contorções, o Profeta diz: “vi
uma roda dentro de outra roda.” O curso das coisas não é contínuo; quando
Deus começa a fazer algo, parece, como veremos novamente, recuar. Então muitas
coisas concorrem mutuamente, de onde os estoicos imaginaram que o destino
surgia daquilo que chamavam de conexão de causas.
Mas Deus ensina aqui seu povo de modo muito diferente: as mudanças
do mundo são ligadas entre si de tal modo que todo movimento depende dos anjos,
a quem Ele guia segundo sua vontade. Por isso, as rodas são ditas cheias de
olhos. Penso que Deus opôs essa forma das rodas à opinião tola dos homens, pois
os homens imaginam a Fortuna como cega, e que todas as coisas rolam numa
confusão turbulenta. Deus, então, ao comparar as mudanças do mundo a rodas,
chama-as “cheias de olhos”, para mostrar que nada é feito precipitadamente ou
por impulso cego da fortuna.
Essa imaginação certamente nasce de nossa cegueira: somos cegos em
meio à luz, e, portanto, quando Deus opera, pensamos que Ele vira todas as
coisas de cabeça para baixo. E, porque não ousamos proferir blasfêmia tão
grosseira contra Ele, dizemos que a Fortuna age sem consideração; mas, nesse
meio-tempo, transferimos o império de Deus para a própria Fortuna. Esta é nossa
condição: somos cegos, e ainda queremos lançar a causa de nossa cegueira sobre
Deus. Por isso, o Profeta diz que as rodas têm olhos.
Agora entendemos o escopo da visão, e devemos nos aproximar de suas
partes. Depois de dizer que um vento surgiu do norte e uma grande nuvem,
acrescenta que havia também fogo envolvendo-se a si mesmo. Moisés usa a mesma
palavra em Êxodo 9, ao falar da tempestade que Deus causou no Egito: havia fogo
envolvido ou entrelaçado, e o esplendor do fogo.
Alguns explicam habilmente esse esplendor do fogo como se os juízos
de Deus não fossem obscuros, mas expostos aos olhos de todos. Não concordo com
esse sentido, nem o considero correto. Aqui, a majestade de Deus nos é descrita
segundo o método usual das Escrituras. Ele diz que o fogo era esplêndido ao
redor, e que havia como que a aparência de “Hasmal” no meio do fogo. Muitos
pensam que Hasmal seja um anjo ou algum fantasma desconhecido, mas, em minha
opinião, sem razão, pois Hasmal parece-me ser uma cor.
Jerônimo, seguindo o grego, usa a palavra electrum, mas me
surpreende ao dizer que é mais precioso que ouro ou prata; pois o electrum
é composto de ouro com uma quinta parte de prata, e, portanto, não excede ambos
em valor. Mas, fosse electrum ou alguma cor extraordinária, ela
retratava tão claramente ao Profeta a majestade de Deus que ele devia ser
tomado de admiração, embora a visão não lhe fosse oferecida apenas para si
pessoalmente, mas, como já disse, para toda a Igreja. A cor diferia da do fogo,
para que o Profeta entendesse que o fogo era celestial e, como símbolo da
glória de Deus, tinha forma diferente do fogo comum.
Ezequiel 1:5
“Também do meio dela saiu a semelhança de quatro seres viventes. E
esta era a sua aparência: tinham semelhança de homem.”
Já expliquei por que Deus mostrou ao seu Profeta quatro anjos sob a
forma de quatro animais. Era necessário afastar-se um pouco do santuário, visto
que todo o culto legal se tornara desprezível aos profanos.
Deus, portanto, desce, por assim dizer, do céu e aparece
familiarmente sobre a terra, como se dissesse que não reinava somente lá em
cima entre seus anjos, mas que exercia seu poder aqui, porque os anjos estão
envolvidos na terra e ligados a todas as regiões do globo. A conclusão é que a
providência de Deus está difundida em toda parte.
Ele diz que esses animais tinham a semelhança de homem, o que não
parece concordar com o restante do contexto. Logo dirá que cada animal tinha
quatro cabeças, e depois que seus pés eram redondos ou semelhantes aos de um
bezerro, como alguns interpretam. Mas aqui diz que tinham forma de homem. A
solução é que seus pés, em primeiro lugar, eram semelhantes aos de homem,
embora em alguns aspectos diferentes; e não há dúvida de que os querubins foram
vistos pelo Profeta como anjos de Deus.
As asas também não convêm à natureza humana; mas ele quer dizer que
tinham a estatura humana usual. Embora não fossem inteiramente semelhantes aos
seres humanos, havia muita semelhança em sua aparência geral. Agora entendemos
por que se diz que a semelhança era humana. [1]
OBS.:
Calvino orava ao final de cada aula: “Deus Todo-Poderoso, visto que, por nossa
lentidão, estamos tão presos à terra que, quando estendes a tua mão para nós,
não conseguimos nos elevar até ti, concede-nos que, despertados pelo teu
Espírito, aprendamos a erguer nossos afetos a ti e a lutar contra a nossa
preguiça, até que, por uma aproximação mais íntima, tu te tornes tão familiarmente
conhecido por nós, que finalmente cheguemos à fruição da plena e perfeita
glória reservada para nós no céu, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.
Utilização desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/
Contribua para a manutenção deste blog
Artigos
Relacionados
Calvino – Profeta Ezequiel o "Canto do Cisne Inacabado de
Calvino" (perícope 1:1-3)
Calvino: Comentários Bíblicos em Ordem Cronológica
CALVINO em Cinco Minutos - O Que Devemos Conhecer de Deus
Calvino e Suas Institutas – Uma Leitura: Introdução
Calvino - Prefácio das Institutas: Carta ao rei Francisco I
João Calvino – As Institutas da Religião Cristã e seus Temas
Principais
Calvino: Academia de Genebra
https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2020/06/calvino-academia-de-genebra.html?spref=tw
Calvino e a Importância da Música (1ª Parte)
https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2020/05/Calvino-e-importancia-da-musica-1-parte.html?spref=tw
Referência
Bibliográfica
CALVIN, John. Commentary on Ezekiel -
Volume 1. www.reformedontheweb.com/home/.html (Reformed on the Web)
[1] Em
razão do espaço limitado do blog, a exposição desta segunda perícope será
dividida em duas partes, sendo a continuação apresentada na postagem seguinte.
