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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Calvino: O Jovem Calvino e os Primórdios dos Trabalhos em Paris

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Período Fora de Sua Cidade

  • 1522–1528: Calvino estudou em Paris, primeiro no Collège de la Marche (onde teve como professor Mathurin Cordier) e depois no Collège Montaigu, recebendo formação em gramática, filosofia e teologia.
  • 1528–1530: Por insistência de seu pai, mudou-se para Orléans para estudar Direito.
  • 1530: Em Bourges, estudou com o jurista Andrea Alciati e teve aulas de grego com Melchior Wolmar, um luterano que exerceu grande influência sobre ele.
  • Retorno a Noyon (1529): Após cerca de seis anos fora.
Podemos bem acreditar que a morte de Berquin ((c. 1490–1529)[1] encheu o coração do jovem Calvino de tristeza, enquanto faz o caminho para sua cidade Noyon. Ele havia estado ausente por seis anos em decorrência de seus estudos em Paris, e depois em Orléans e Bourges, antes de retornar em 1529. Nesse período, recebeu sólida formação humanista e jurídica, além de contato com mestres que o aproximaram das ideias reformistas.[2]
Retorna como um jovem de vinte anos, o mesmo estudante de rosto pálido, mas vitalmente transformado. Foi recebido pelos habitantes da cidade com sentimentos diversos.
A igreja de Pont l’Eveque foi prontamente aberta para ele; e ali, diante daqueles que o haviam conhecido quando menino, expôs as Escrituras. Os resultados foram exatamente como registrados naquelas páginas vivas, verdadeiras em todos os tempos e lugares: “E alguns criam nas coisas que se diziam, mas outros não criam” (Atos 28:24).
Ele mesmo relata desse período que Deus “o conduziu e o fez girar”, de modo a não lhe deixar repouso em lugar algum, até que “me trouxe para a luz e para a ação”. Isso explica por que Calvino permaneceu apenas cerca de dois meses em sua cidade natal. Esta inquietação era decorrente dele encontrar sua genuína vocação pastoral (GORDON, 2009, p. 47). Ele sentia toda a tensão interna mental, sua formação humanista e espiritual amensagem evangélica reformada (WENDEL, 1963, p. 41). Certamente também havia resquícios de seu caráter reservado e até mesmo hesitante, ao mesmo tempo em que sentia o fortalecimento da fé pela ação do Espírito Santo (COTTRET, 2000, p. 52). 
Deus tinha para ele uma esfera maior; e, enquanto Calvino não percebia claramente, Deus desassossegada seu coração e mente. Aqui temos a prova cabal de que até mesmo as circunstâncias contrárias cooperam de formas favoráveis para realizar o que Ele ordena.
As nossas inquietações são tão relevantes quanto nossas convicções.
O jovem Calvino chega então a Paris, sede do governo da França, centro do saber e palco de muitas disputas e contendas sobre a verdade. As doutrinas “antigas” e “novas” fervilhavam em conversas reservadas, mas também, por vezes, em debates acalorados; todos estavam envolvidos, independentemente da classe social. Calvino encontrava-se em um ambiente no qual conhecia ambos os sistemas e estava preparado para participar dos argumentos desses debates, com a vantagem de que agora amadurecia na vida e na fé.
Dotado de uma mente naturalmente argumentativa e lógica, disciplinada pelos estudos jurídicos, agora está sendo capacitado pelo Espírito Santo para compreender e afirmar as verdades imutáveis do Evangelho. Inserido no ambiente tenso e controverso de Paris, o jovem reformador está sendo gradualmente moldado para a grande obra à qual estava sendo conduzido pela Providência.
Ele se hospedou na casa de um comerciante, Etienne (Estêvão) de la Forge, que abraçara o conhecimento da verdade e que, em decorrência de expor sua nova fé, foi queimado por sua fidelidade a ela. Calvino se refere a ele como alguém “cuja memória deve ser abençoada entre os crentes como um santo mártir de Cristo”. Foi nessa casa que Calvino começou a realizar encontros de pregação, primeiro em privado, depois mais abertamente (CRESPIN, 1554; GORDON, 2009, p. 52).
É digno de nota que, nesse período inicial, Calvino concluía todas as suas exposições com as palavras: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Podemos inferir dessas palavras que ele tinha plena consciência do alto custo que deveria pagar, mas estava determinado, confiado na força de Deus, a prosseguir no caminho que lhe estava sendo proposto. Mesmos as maiores adversidades irão impedi-lo de impulsionar os princípios reformados de fé.
Um detalhe peculiar vem de um escritor francês da época, notavelmente católico romano, e que em esforço de degradar o jovem reformador, acaba por dar um testemunho idôneo destes momentos iniciais de Calvino:
“Dedicado de outra forma aos seus livros e estudos, era incansavelmente ativo em tudo o que dizia respeito ao avanço de sua seita [protestantismo]. Vimos nossas prisões cheias de pobres desventurados enganados [os que estavam crendo], que ele exortava sem cessar, consolava ou confirmava por cartas; nem faltavam mensageiros, a quem as portas estavam abertas, apesar de toda a vigilância dos carcereiros [autoridades religiosas ou civis]. Assim começou, e assim conquistou, passo a passo, uma parte da nossa França. Prosseguiu até que, após considerável tempo, vendo os ânimos inclinados à sua causa, quis avançar mais rapidamente e enviar-nos ministros, chamados ‘pregadores’, para divulgar sua religião em recantos escondidos, e até mesmo em Paris, onde as fogueiras estavam acesas para consumi-los.”
Em 1532, Calvino publicou sua primeira obra impressa: um Comentário, em latim, sobre o De Clementia de Sêneca. No título da obra, assinou: “Lucius Calvinus civis Romanus”. A partir daí, deixou de lado seu nome francês, Chauvin, e passou a ser conhecido como Johannes Calvinus. Muitos biógrafos se surpreenderam com essa publicação, considerando-a um desvio de sua obra evangélica. Alguns tentaram justificá-la como uma tentativa de induzir o rei a mostrar menos severidade contra os protestantes e mais “clemência” para com o evangelho. Mas o próprio autor nada disse nesse sentido. É mais provável que tenhamos aqui um exemplo de como Deus, invisivelmente, realizava Seus desígnios luminosos a partir da escuridão.[3]
A obra, escrita em latim elegante, trouxe relativa fama ao jovem autor. A atenção voltou-se mais para o estilo literário da obra, do que para o autor, mas foi suficiente para preparar o caminho para o Reformador. Assim como a educação de Paulo muitas vezes lhe garantia audiência como pregador, o Comentário de Calvino sobre Sêneca faria com que, no futuro próximo, sua obra magna e seus Comentários sobre as Escrituras fossem lidos com muita atenção.
Esses dias de semeadura do evangelho foram talvez os mais tranquilos da vida de Calvino. Evitando disputas com os doutores da Sorbonne e levando silenciosamente “o Livro” [Escrituras] de porta em porta, conduzindo muitas pessoas do reino das trevas para o reino da luz e da verdade. Contudo, nuvens sombrias começavam a se formar no horizonte; trovões ressoavam ao longe, sinais de uma tempestade iminente.
Sendo levado pelas circunstâncias de seu provável aprisionamento, Calvino sai apressadamente de Paris, numa jornada que lhe parecia fortuita, mas que, na realidade, estava sendo conduzida pela Providência de Deus. Pernoitando na cidade suíça de Genebra, um reformador chamado Farel o procura e, após uma conversa, percebendo a relutância do jovem Calvino, que preferia o trabalho acadêmico, o velho reformador insta-o com veemência - Se você recusar a se dedicar a esta obra do Senhor, Deus amaldiçoará sua tranquilidade e os estudos que você busca, de modo que ele decide permanecer e cooperar em Genebra. Sabemos o quanto isso se tornou extraordinário, pois seu ministério e produção teológico-literária impactaram centenas e milhares de pessoas e, desde então, continuam a impactar vidas em todo o mundo há cinco séculos.
 
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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas [citadas no texto]
COTTRET, Bernard. Calvino. São Paulo: Loyola, 2000.
CRESPIN, Jean. Actes des Martyrs. Genebra, 1554.
GORDON, Bruce. Calvin. New Haven: Yale University Press, 2009.
WENDEL, François. Calvino: Sua Teologia e Sua Influência. São Paulo: ASTE, 1963.
Outras Obras de Referência
MCGRATH, Alister E. A Life of John Calvin. Oxford: Blackwell, 1990.
NICHOLS, Stephen J. Calvino: O Reformador de Genebra. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
SELDERHUIS, Herman J. John Calvin: A Pilgrim’s Life. Downers Grove: InterVarsity Press, 2009.
PIPER, John. O Legado de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2010.
STEINMETZ, David C. Calvin in Context. Oxford: Oxford University Press, 1995.
 
[1] Louis de Berquin foi um advogado e humanista francês, próximo de Erasmo e Lefèvre d’Étaples. Tradutor e defensor das ideias reformistas, tornou-se alvo da repressão católica e foi executado em Paris, em 17 de abril de 1529, acusado de heresia. Considerado o primeiro mártir protestante da França, sua morte não decorreu de contato direto com Calvino, mas exerceu forte influência simbólica sobre o jovem reformador, que sentia cada vez mais a atmosfera da perseguição religiosa ao retornar a Noyon (GORDON, 2009, p. 45; COTTRET, 1995, p. 62).
[2] Entre outros - Mathurin Cordier (c. 1479–1564), reconhecido pedagogo humanista, mais tarde abraçou a Reforma e se tornou colaborador de Calvino em Genebra; Melchior Wolmar (1497–1561), humanista alemão e luterano, professor de grego em Bourges, sendo um dos primeiros contatos diretos de Calvino com o pensamento reformado, incentivando o jovem estudante a ler as Escrituras em grego e tomar contato com as ideias reformistas de Lutero.
[3] Todavia, do De Clementia (1532), em que Calvino transita da esfera jurídica para reflexões sobre a justiça, às Institutas (1536), onde a Justiça de Deus é sistematizada, e ao Comentário de Romanos (1539), que a aplica exegética e pastoralmente, é possível ver uma progressiva maturação de sua teologia reformada.
 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Confissão de Fé Belga: Origem e Conteúdo

Confissão de Fé Belga: Origem e Conteúdo

A Confissão de Fé Belga surgiu no contexto das severas perseguições contra os protestantes reformados nos Países Baixos, então governados pela monarquia católica espanhola de Filipe II. Seu principal autor foi Guido de Brès (1522–1567), pastor e teólogo reformado [cf. artigo específico abaixo referenciado], auxiliado por outros líderes, como Adrien de Saravia e Herman Moded. Escrita originalmente em francês, em 1561, a Confissão teve um propósito claramente apologético e pastoral: demonstrar às autoridades civis que os reformados não eram rebeldes políticos, mas cristãos fiéis às Escrituras. Nesse sentido, o documento foi inclusive lançado sobre os muros do castelo de Tournai, acompanhado de uma carta ao rei, solicitando tolerância religiosa e afirmando a legitimidade bíblica da fé reformada. Assim, sua origem está diretamente ligada à perseguição, à necessidade de definir publicamente a fé e à defesa da identidade das igrejas reformadas.

A autoria de Guido de Brès confere à Confissão não apenas valor teológico, mas também profundo significado histórico e espiritual, pois ele confirmou seu testemunho com o próprio martírio, em 1567. A Confissão apresenta, de forma sistemática, as principais doutrinas da teologia reformada, abordando a autoridade das Escrituras, a doutrina de Deus, a pessoa e a obra de Cristo, a salvação pela graça, a natureza da igreja, os sacramentos e a relação com as autoridades civis. Embora não tenha sido a primeira confissão da Reforma, ela ocupa um lugar de primazia entre os documentos confessionais reformados, por sua clareza, maturidade e equilíbrio, podendo ser colocada ao lado de documentos como a Confissão de Augsburgo, no contexto luterano, e o Catecismo de Heidelberg, no contexto reformado, distinguindo-se especialmente por sua forte ênfase na doutrina da igreja.Sua importância foi oficialmente reconhecida no Sínodo de Dordrecht (1618–1619)[1] [Sínodo de Dort, forma abrevia e bastante comum], quando foi adotada como um dos padrões doutrinários das Igrejas Reformadas,[2] tornando-se parte das chamadas Três Formas de Unidade: Confissão Belga (1561); Catecismo de Heidelberg (1563) e os Cânones de Dort (1618–1619).

Dessa forma, a Confissão Belga consolidou a identidade das igrejas reformadas continentais,[3] promoveu unidade doutrinária em meio à perseguição e estabeleceu uma clara definição da fé reformada em contraste com o catolicismo romano e outros movimentos. Seu legado permanece até hoje, sendo considerada um dos mais importantes documentos confessionais do protestantismo reformado, não apenas por sua antiguidade, mas por sua fidelidade às Escrituras, sua profundidade teológica e seu testemunho nascido em meio ao sofrimento. Preservando sua doutrina e servindo como referência teológica para a igreja ao longo dos séculos. 

Resumo da Confissão Belga

A Confissão possui 37 artigos, que tratam de temas centrais da fé reformada:

·        Deus e Escritura:

o   Afirma a autoridade suprema da Bíblia como Palavra de Deus.

o   Defende a Trindade e a soberania divina.

·        Cristo e Salvação:

o   Enfatiza a obra redentora de Cristo e a justificação pela fé.

o   Rejeita méritos humanos como meio de salvação.

·        Igreja:

o   Define a verdadeira Igreja como aquela que prega fielmente o evangelho, administra corretamente os sacramentos e pratica a disciplina eclesiástica.

o   Reconhece a necessidade de unidade e rejeita abusos clericais.

·        Sacramentos:

o   Reconhece apenas dois sacramentos: Batismo e Ceia do Senhor.

o   Rejeita a transubstanciação e práticas consideradas não bíblicas.

·        Autoridade civil:

o   Afirma que os cristãos devem respeitar as autoridades, desde que não contrariem a Palavra de Deus.

o   Essa parte foi crucial para mostrar que os reformados não eram revolucionários políticos.

 

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Guedes, Ivan Pereira

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VERBETE – Arminianismo

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[1] Assembleia internacional da Igreja Reformada Holandesa, convocada para resolver a controvérsia arminiana. Rejeitou as doutrinas arminianas e estabeleceu os Cinco Pontos do Calvinismo, consolidando a teologia reformada e reconhecendo oficialmente a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort como padrões doutrinários das Igrejas Reformadas.

 [2] Enquanto as Igrejas Presbiterianas seguiram a Confissão de Westminster juntamente com os Catecismos de Westminster [elaboradas posteriormente em (1646-1647]. Desta forma as Igrejas Reformadas e as Igreja Presbiterianas pertencem à tradição calvinista, mas cada uma consolidou sua identidade em torno de diferentes documentos confessionais.

[3] Indicando que essas igrejas surgiram no continente europeu [Suíça, França, Países Baixos, Alemanha, Hungria, etc.], não nos países Britânicos [Inglaterra – Presbiterianos e Congregacionais].


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Apologia [Verbete]

 Teclado de computador

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APOLOGIA. É de origem grega (ἀπολογία), que significa “defesa” de um determinado ponto de vista em relação aos pensamentos diferentes e/ou contrários. Especificamente o termo pode designar a exposição fundamentada da fé cristã diante de questionamentos e acusações. Este termo aparece na Primeira carte de Pedro (3:15) onde ele declara: “antes, santificai a Cristo como Senhor em vosso coração, estando sempre preparados para responder (apología) a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor”. A apologia cristã se fundamenta, portanto, da soberania de Cristo no coração e se expressa com firmeza doutrinária (mente, raciocínio) e postura ética adequada.
Já no Novo Testamento, Paulo realiza defesas públicas da fé (At 22–26), demonstrando que o evangelho pode ser articulado racionalmente perante autoridades civis e culturais. A partir do século II, surgem apologistas que defendem o cristianismo contra acusações de ateísmo, imoralidade e deslealdade ao Império. Abaixo alguns exemplos de apologistas:
Justino Mártir († c. 165)
Filósofo convertido ao cristianismo, Justino apresenta o evangelho como a verdadeira filosofia. Em sua Primeira Apologia, afirma:
“Tudo o que de verdadeiro foi dito por qualquer homem pertence a nós, cristãos.” (Primeira Apologia, 13)
Aqui, Justino desenvolve a ideia do logos spermatikós (sementes do Logos), segundo a qual traços de verdade encontrados na filosofia pagã encontram sua plenitude em Cristo, o Logos encarnado. A apologia, portanto, não rejeita toda razão filosófica, mas a subordina à revelação plena em Cristo.
Tertuliano († c. 220)
Jurista norte-africano, Tertuliano escreve o Apologeticum em defesa dos cristãos perseguidos. Ele denuncia a injustiça das acusações contra os crentes:
“Somos acusados de crimes que nunca são provados; somos condenados pelo nome apenas.” (Apologeticum, 2)
E formula sua célebre declaração:
“O sangue dos mártires é semente.” (Apologeticum, 50)
Sua apologia enfatiza a integridade moral dos cristãos e expõe a incoerência jurídica das perseguições. Para Tertuliano, a própria perseverança da Igreja sob perseguição é evidência do poder da verdade cristã.
Orígenes († c. 254)
Em Contra Celso, Orígenes responde sistematicamente às críticas do filósofo pagão Celso. Ele defende a racionalidade da fé cristã e sua coerência histórica:
“Nada do que ensinamos é contrário à razão, mas está de acordo com a mais elevada compreensão da verdade.” (Contra Celso, I.9)
Orígenes argumenta que o cristianismo não é superstição irracional, mas revelação divina que pode dialogar com as categorias intelectuais do mundo helenístico.
No século XVI irrompe a denominada Reforma Protestante e a apologia assume novo contexto diante das controvérsias com Roma e dos desafios do ceticismo emergente. Em suas Institutas, João Calvino (1509–1564) afirma que as Escrituras possuem marcas objetivas de divindade, mas que a certeza última de sua autoridade procede do testemunho interior do Espírito Santo:
“A mesma Palavra encontrará plena credibilidade em nossos corações quando for selada pelo testemunho interior do Espírito.”
(Institutas, I.7.4)
Calvino não rejeita evidências externas — como a antiguidade da Escritura, seu cumprimento profético ou sua coerência interna —, mas sustenta que tais argumentos confirmam a fé, não a produzem. A apologia reformada, assim, permanece fiel ao princípio de 1 Pedro 3.15: oferecer razões para a esperança cristã, mas reconhecendo que a fé é dom de Deus, não resultado da razão autônoma.
Portanto, a apologia cristã é serviço à verdade revelada em Cristo. Ela não substitui a obra regeneradora do Espírito, mas coopera com o testemunho público da igreja. É defesa humilde, testemunho público e proclamação confiante da esperança do evangelho.
Historicamente, seus dois eixos permaneceram firmes:
  1. Racionalidade da fé — o cristianismo pode e deve ser articulado de modo coerente.
  1. Dependência da revelação — a convicção salvadora provém da ação soberana de Deus.
A apologia cristã não é um exercício acadêmico, mas expressão de amor à verdade, cuidado pastoral e compromisso missionário. Onde há evangelho proclamado, haverá necessidade de explicá-lo, defendê-lo e demonstrar sua coerência — não para substituir a fé, mas para honrar Aquele que é a Verdade.
 
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Referências Bibliográficas
AGOSTINHO. A cidade de Deus. Tradução de Oscar Paes Leme. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1996.
ANSELMO DE CANTUÁRIA. Proslogion. Tradução de José Rosa. São Paulo: Abril Cultural, 1988. (Coleção Os Pensadores).
BAVINCK, Herman. Dogmática reformada. v. 1. Tradução de Vários tradutores. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
CALVINO, João. As institutas da religião cristã. 2 v. Tradução de Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
JUSTINO MÁRTIR. Primeira apologia; Segunda apologia; Diálogo com Trifão. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 1995. (Coleção Patrística).
ORÍGENES. Contra Celso. Tradução de Orlando dos Reis. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Patrística).
TERTULIANO. Apologeticum. In: ______. Apologia; De spectaculis. Tradução de Paulo Matos Peixoto. São Paulo: Paulus, 1997. (Coleção Patrística).
MCGRATH, Alister E. Teologia histórica: uma introdução à história do pensamento cristão. Tradução de Susana Klassen. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.