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sábado, 8 de agosto de 2026

Inklings e o Protestantismo Brasileiro: Imaginação a Serviço da Verdade [Artigo 2]


A Marginalização da Imaginação no Protestantismo Brasileiro

Pergunta de abertura

Como um Protestantismo fundamentado na leitura de uma Bíblia repleta de poesia, parábolas, sonhos e símbolos passou, em muitos momentos de sua história, a olhar a imaginação com desconfiança? 

Essa pergunta será a nossa bússola nesta caminhada pela história do protestantismo no Brasil. Mas antes, é necessário entendermos o contexto em que esta série se insere. Afinal, não se trata apenas de estudar um grupo de escritores ingleses (os Inklings), mas de refletir sobre um processo histórico que moldou profundamente a maneira como muitos protestantes brasileiros passaram a enxergar a relação entre fé, cultura, literatura e arte. Ao empreendermos esta jornada, seremos convidados a redescobrir que a imaginação, longe de ser inimiga da fé, é um dom precioso de Deus. Ela nos ajuda a contemplar Sua beleza, a perceber novas dimensões da verdade revelada e a viver de forma mais plena o discipulado em Cristo, com mente e coração abertos para a obra criativa do Espírito.

A imaginação pertence à própria revelação bíblica

É muito interessante perceber que, quando nos familiarizamos com a leitura das Escrituras, Deus comunica a sua verdade por meio de narrativas, imagens e símbolos.

Ao lermos o livro de Juízes, nos deparamos com a história parabólica das árvores que procuram um rei, e Jotão — filho de Gideão, não reconhecido como profeta oficial, mas usado por Deus como voz de denúncia — utiliza essa parábola para expor a corrupção política de seu tempo. Os salmistas transformam experiências humanas em poesia e oração. Provérbios ensina por meio de comparações extraídas da vida cotidiana. E o escritor do livro de Cantares celebra o amor através da riqueza literária e da beleza simbólica.

Os profetas ampliam ainda mais esse universo. Isaías contempla o Senhor assentado em seu alto e sublime trono; Ezequiel descreve rodas cheias de olhos, um vale de ossos secos e um rio que brota do templo; Daniel registra sonhos e visões que moldaram profundamente o imaginário bíblico.

Toda essa tradição desemboca no ministério de Jesus.

Em vez de recorrer apenas a definições conceituais, Cristo anuncia o Reino de Deus por meio de parábolas. Um semeador, uma ovelha perdida, um pai que espera o filho, um grão de mostarda, um tesouro escondido — imagens simples tornam-se veículos das mais profundas verdades espirituais.

Na Bíblia, portanto, a imaginação nunca aparece como inimiga da verdade, mas ela é uma de suas servas.

Um contraste histórico

Quando estudamos a história do cristianismo é perceptível que essa dimensão imaginativa nunca desapareceu completamente. Ela encontrou espaço na poesia, na música, na arquitetura, na pintura, na literatura devocional e, mais recentemente, na produção de escritores como os Inklings.

Entretanto, no contexto brasileiro, desenvolveu-se um Protestantismo extremamente cauteloso com as artes e com a imaginação. Mas essa perspectiva não ocorreu de maneira repentina, nem pode ser atribuída a uma única causa. Ela resultou de um conjunto de fatores históricos, culturais, educacionais e teológicos que, ao longo do tempo, favoreceram uma espiritualidade predominantemente racional e funcional.

Gradualmente, a imaginação passou a ser vista por muitos como algo secundário ou até potencialmente perigoso para a vida cristã.

A universidade e a formação do imaginário

Essa tendência fica evidenciada na formação acadêmica. As universidades protestantes brasileiras desempenharam papel fundamental na educação nacional e contribuíram significativamente para a formação de profissionais em diversas áreas do conhecimento. Entretanto, desde seus primórdios, concentraram grande parte de seus investimentos em cursos ligados às profissões liberais — como Direito, Engenharia, Economia, Administração e Pedagogia — enquanto as Artes, a Literatura e outras áreas voltadas à formação estética permaneceram praticamente ausentes de seus projetos institucionais.

Inicialmente, essa opção respondia a demandas legítimas da sociedade brasileira. Entretanto, com o passar dos anos, acabou por produzir e perpetuar efeitos colaterais que não apenas minimizaram o impacto do protestantismo na sociedade, mas também o desconectaram da própria realidade que buscava transformar. Assim, grande parte da população permaneceu alienada da mensagem pujante e renovadora do Evangelho pela ótica protestante.

Sem espaços consistentes para a formação de escritores, artistas e pensadores cristãos, a imaginação perdeu um ambiente privilegiado de desenvolvimento dentro do universo protestante e, por consequência, da própria sociedade brasileira. Esse vazio tornou-se terreno fértil para o surgimento e fortalecimento de ideologias antibíblicas e anticristãs, que hoje, em pleno século XXI, moldam as mentes juvenis e corroem silenciosamente o tecido sociocultural do Brasil. É um alerta urgente: quando a fé se desconecta da dimensão criativa e estética, abre-se espaço para que outras narrativas ocupem o coração e a mente das novas gerações.

Consequências para a cultura protestante

As consequências dessa trajetória ultrapassaram o ambiente universitário. A produção literária protestante permaneceu relativamente modesta quando comparada à riqueza da tradição anglo-saxônica, especialmente em suas matrizes inglesas e norte-americanas, profundamente marcadas pela influência cultural, literária e estética. No Brasil, entretanto, essa herança foi em grande parte ignorada, e o protestantismo acabou se refugiando em um “mosteiro religioso”, afastando-se do diálogo criativo com a sociedade. A presença evangélica nas artes visuais, na ficção, no teatro e na crítica cultural também se mostrou limitada, reforçando a desconexão entre fé e cultura.

Mas isso não significa ausência completa de criatividade. Pelo contrário, diversos escritores, músicos e artistas surgiram ao longo desse período. Entretanto, muitos desenvolveram seus trabalhos mais por iniciativas pessoais do que como fruto de um projeto institucional consistente. Essa realidade confirma que, embora houvesse lampejos criativos e manifestações artísticas dentro do protestantismo brasileiro, faltou uma visão mais ampla e estruturada que pudesse integrar fé e cultura de maneira orgânica. O resultado foi uma produção fragmentada, que não conseguiu ocupar plenamente o espaço cultural e estético da sociedade, reforçando a desconexão já mencionada entre o protestantismo e o ambiente artístico e intelectual nacional.

Talvez o escritor e pedagogo Rubem Alves seja um dos exemplos mais conhecidos dessa tensão. Sua escrita poética revelou o potencial criativo existente no protestantismo brasileiro, mas também evidenciou as dificuldades enfrentadas por autores que buscavam dialogar com a literatura e a imaginação em um ambiente fortemente marcado pelo pragmatismo. Nesse sentido, sua trajetória ilustra como, mesmo diante da ausência de projetos institucionais consistentes, a criatividade individual conseguiu florescer, ainda que de forma isolada, apontando tanto para as possibilidades quanto para os limites da presença protestante na cultura nacional.

Uma constatação, não uma condenação

Seria injusto atribuir essa realidade apenas ao protestantismo brasileiro. Diversos movimentos cristãos, em diferentes épocas, também manifestaram desconfiança em relação às artes e à imaginação. Além disso, o próprio protestantismo prestou contribuições extraordinárias à educação, à tradução da Bíblia, à formação teológica, à ação social e à evangelização.

Reconhecer essas contribuições não impede, porém, de identificar uma lacuna.

Quando a imaginação perde espaço, a Igreja corre o risco de comunicar verdades profundas apenas por conceitos, esquecendo que o próprio Deus escolheu revelar grande parte de sua Palavra por meio de histórias, poemas, símbolos e parábolas.

Conclusão

A proposta deste artigo não é apontar culpados, mas identificar um fenômeno histórico. Se existe hoje certo distanciamento entre o protestantismo brasileiro e algumas expressões da cultura, talvez uma das explicações esteja justamente na maneira como a imaginação foi sendo progressivamente marginalizada em diversos ambientes eclesiásticos e educacionais. Compreender esse processo é o primeiro passo para refletirmos sobre caminhos de recuperação.

Afinal, recuperar a imaginação não significa abandonar a fidelidade às Escrituras, mas permitir que ela volte a ocupar o lugar que sempre teve na própria revelação bíblica: o de serva da verdade.

É nesse reencontro entre e imaginação que a Igreja poderá reenraizar sua mensagem no coração da cultura, comunicando o Evangelho não apenas como conceito, mas como vida, beleza e transformação.

Para Pensar...

Mas será que o Protestantismo brasileiro sempre foi assim?

Ou será que, em sua origem, existia uma relação mais aberta com a literatura, a cultura e a imaginação?

Essa será a questão que investigaremos no próximo artigo.

Questões para Reflexão

Ao observar a história do Protestantismo brasileiro, eu:

(a) Reconheço que podemos aprender com nossa própria trajetória, valorizando tanto nossas contribuições quanto nossas limitações.

(b) Acredito que não há nada a ser revisto em nossa história ou em nossa forma de dialogar com a cultura.

Quando penso na imaginação, eu:

(a) Entendo que ela pode ser educada pela Palavra de Deus e colocada a serviço do Evangelho.

(b) Considero que toda expressão artística representa um afastamento da fidelidade bíblica.

Ao refletir sobre a relação entre fé e cultura, eu:

(a) Desejo que a Igreja comunique a verdade bíblica também por meio da beleza, da literatura e das artes.

(b) Penso que essas áreas são irrelevantes para a missão cristã.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia

BARFIELD, Owen. Poetic Diction. Middletown: Wesleyan University Press, 1973.

LEWIS, C. S. An Experiment in Criticism. Cambridge: Cambridge University Press, 1961.

SAYERS, Dorothy L. The Mind of the Maker. London: Methuen, 1941.

WALSH, Chad. The Literary Legacy of C. S. Lewis. New York: Harcourt Brace, 1969.

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

SIMONTON – Viajando com Simonton através de seu Diário [série] – A decisão de partir

 

27 de novembro e 13 de dezembro de 1858

Toda viagem começa antes da partida. Antes de cruzar o oceano, deixar a terra natal ou chegar a um país desconhecido, existe um caminho interior que precisa ser percorrido. Foi nesse caminho que encontramos Simonton nas primeiras páginas de seu diário. Ao acompanharmos sua história, descobrimos que viajar com Simonton através de seu diário significa muito mais do que seguir os passos de um missionário. Significa entrar em contato com um jovem que registra suas inquietações, seus pensamentos e as decisões que, pouco a pouco, vão dando uma nova direção à sua vida.

Agora, nossa caminhada nos conduz a duas datas específicas que marcam uma mudança decisiva em sua trajetória: 27 de novembro de 1858 e 13 de dezembro de 1858. Entre essas duas datas existe algo maior do que apenas alguns dias de intervalo. Existe a passagem de uma possibilidade para uma decisão e, depois, de uma decisão para uma confirmação. O Brasil ainda está distante. Simonton ainda está nos Estados Unidos. O oceano ainda não foi atravessado. Mas o caminho começa a se tornar realidade...

27 de novembro de 1858 — O passo decisivo

Há momentos em que uma inquietação interior deixa de ser apenas uma inquietação. Depois de um longo período de reflexão, oração e discernimento, chega o momento em que é necessário transformar pensamentos em ações. Para Simonton, esse momento chegou no final de novembro de 1858.

A questão missionária não era nova para ele. A possibilidade de dedicar sua vida à obra missionária vinha ocupando seus pensamentos havia algum tempo. Como estudante de teologia, estava inserido em um ambiente no qual a expansão do Evangelho para outras regiões do mundo era considerada uma responsabilidade urgente da Igreja. Mas existe uma diferença entre admirar a obra missionária e considerar-se pessoalmente chamado a ela. É nesse ponto que a experiência de Simonton começa a adquirir um novo significado.

A decisão de ser missionário implicava a renúncia de uma trajetória previsível. Significava deixar para trás a família, os amigos, a terra natal e uma cultura conhecida. Em aprender uma nova língua, adaptar-se a uma sociedade completamente diferente e começar uma obra cujo resultado não poderia ser antecipado. Assim, o Brasil não era apenas um destino geográfico; era um salto em direção ao desconhecido.

Foi nesse contexto que Simonton tomou a iniciativa de apresentar à Junta de Missões Estrangeiras sua disposição para o trabalho missionário. A decisão ainda precisava ser confirmada, mas alguma coisa havia mudado. A vocação, que permanecia na esfera do espaço íntimo de seus pensamentos, agora havia atravessado a fronteira entre a intenção e a ação. Ele estava dando o primeiro passo.

“O passo decisivo foi dado”.

Essa breve expressão resume a importância daquele momento. Simonton ainda não havia deixado os Estados Unidos. Ainda não conhecia pessoalmente o país para o qual desejava ser enviado. Mas, ao colocar sua decisão diante da Junta, uma porta havia sido aberta. E talvez seja justamente isso que torna essa data tão importante. O missionário ainda não havia partido, nenhum navio havia deixado o porto e nenhuma despedida havia acontecido.

Mas, em certo sentido, a viagem já havia começado.

Quando o chamado se torna uma decisão

Quando lemos as anotações de Simonton ficamos impressionados com a delicadeza do processo de seu chamado missionário. Não foi um clarão repentino, nem uma voz estrondosa que o arrancou de sua rotina. Foi algo mais silencioso, quase imperceptível, como uma semente que germina aos poucos.

Simonton estava diante desse tipo de momento. Ao escrever à Junta, não estava proclamando certezas absolutas. Pelo contrário, ainda havia dúvidas. Mas havia também coragem: a coragem de se colocar nas mãos da providência de Deus e permitir que a Igreja confirmasse aquilo que ele discernia como chamado.

Aqui é oportuno fazermos uma reflexão: quantas vezes confundimos vocação com espetáculo, quando na verdade ela pode ser apenas esse fio discreto que nos conduz, dia após dia, até o lugar onde nossa vida encontra sentido.

Outro detalhe significativo é que há uma relação importante entre vocação pessoal e confirmação comunitária. Simonton podia sentir-se chamado, mas não se enviaria a si mesmo. A missão não seria simplesmente uma aventura pessoal. Era necessário que a Igreja reconhecesse, examinasse e confirmasse aquela vocação. E é exatamente isso que encontramos na segunda data do seu diário.

13 de dezembro de 1858 — A decisão encontra sua confirmação

Pouco mais de duas semanas depois, chega o momento que transforma a expectativa em realidade. A Junta de Missões Estrangeiras responde favoravelmente à proposta de Simonton. A possibilidade de partir para um campo missionário deixa de ser apenas uma disposição pessoal, pois agora existe uma confirmação, e o campo missionário brasileiro entra definitivamente no horizonte de sua vida.

A resposta da Junta não representava apenas uma autorização administrativa. Para Simonton, significava que sua disposição pessoal havia sido examinada e reconhecida pela Igreja. Aquele chamado que havia amadurecido em seu coração encontrava agora uma confirmação externa.

A partir daquele momento, uma nova etapa começava.

Simonton ainda precisaria organizar sua vida, preparar-se para o ministério e enfrentar todas as questões práticas que envolviam uma missão em outro continente. Mas a pergunta fundamental havia sido respondida: ele iria.

Tendo na última quarta-feira recebido resposta da Junta dizendo que tinha sido nomeado missionário, ponho em prática um plano feito meses atrás, de passar algumas semanas na Virgínia, pregando e recrutando, enquanto preparo a partida para o campo estrangeiro [13 de dezembro de 1858].

O Brasil no horizonte

É importante lembrar que, em 1858, o Brasil era uma realidade distante para um jovem norte-americano. A viagem entre os Estados Unidos e o Brasil exigia semanas de navegação, as comunicações eram lentas e as informações sobre o país circulavam principalmente por relatos de viajantes, comerciantes, diplomatas e missionários.

Para Simonton, portanto, escolher o Brasil significava aceitar uma missão em um lugar que ele ainda não conhecia pessoalmente. Ele precisaria aprender a língua, conhecer os costumes, compreender a sociedade e descobrir como comunicar a mensagem do Evangelho em um contexto cultural diferente daquele em que havia sido formado. A missão exigiria muito mais do que atravessar uma fronteira geográfica; seria necessário atravessar também uma fronteira cultural. E isso começaria muito antes de sua chegada, começaria com a disposição de aprender.

Uma decisão que mudaria sua vida

Quando olhamos retrospectivamente para a história do presbiterianismo no Brasil, é fácil perceber a importância daqueles acontecimentos. Sabemos o que viria depois. Sabemos que Simonton chegaria ao Brasil, que iniciaria uma obra missionária e que sua atuação contribuiria para o estabelecimento de uma igreja que atravessaria gerações. Mas Simonton não possuía esse conhecimento.

Naqueles dias de novembro e dezembro de 1858, ele não podia enxergar o futuro. Não sabia quantas pessoas encontraria, quais seriam suas maiores dificuldades, como seria viver longe da família, quanto tempo permaneceria no Brasil ou sequer tudo o que aquela decisão lhe custaria pessoalmente.

Ele conhecia apenas o próximo passo, e foi esse passo que deu.

Essa talvez seja uma das características mais marcantes da fé: Deus raramente revela toda a estrada antes que o primeiro passo seja dado. Simonton não recebeu um mapa completo de sua vida. Recebeu uma direção e decidiu caminhar.

A missão começa antes da partida

Há uma tendência natural de imaginar que a missão de Simonton começou quando ele chegou ao Brasil. Historicamente, porém, sua missão começou muito antes.

Começou no momento em que a vocação deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a orientar concretamente suas escolhas.

Começou quando ele colocou sua decisão diante da Igreja e aceitou que o chamado precisaria ser confirmado e reconhecido.

Começou quando o Brasil deixou de ser apenas um nome distante e passou a representar o lugar para o qual sua vida estava sendo direcionada.

A missão começou antes do navio, antes do oceano e antes do desembarque. Começou antes mesmo da despedida. Começou naquele momento silencioso em que um jovem estudante tomou nas mãos uma decisão que mudaria completamente o rumo de sua vida.

Agora restava aguardar o tempo da partida...

Entre 27 de novembro e 13 de dezembro de 1858, uma transformação havia acontecido. Primeiro, Simonton tomou a decisão de oferecer-se para o trabalho missionário; depois, recebeu a confirmação da Junta. O chamado havia encontrado sua direção e a decisão havia encontrado sua confirmação. O Brasil estava diante dele. Mas ainda havia uma distância imensa entre decidir partir e efetivamente partir.

Há uma beleza nesse tempo de espera. É como se Deus tivesse preparado um espaço entre a decisão e a partida para que a alma se fortalecesse, para que a confiança amadurecesse. Simonton não estava apenas indo a outro país; estava entregando sua vida a uma missão que o ultrapassava.

E penso comigo: quantas vezes também vivemos esses intervalos, quando já sabemos a direção, mas precisamos esperar o tempo certo. Talvez seja justamente nesse silêncio que a fé se aprofunda e a coragem se consolida.

O próximo capítulo dessa história não seria escrito em uma sala de estudos, nem em uma reunião da Junta. Seria escrito em um porto. Ali, entre familiares e amigos, entre lágrimas e despedidas, Simonton enfrentaria o momento em que uma decisão interior se transformaria em uma separação visível. Então, os cabos seriam desamarrados e o jovem missionário, finalmente, começaria a atravessar o oceano.

A viagem que começara no coração agora começaria sobre as águas.

Continue viajando...

Na próxima etapa de nossa jornada, deixaremos por um momento as páginas da decisão e nos aproximaremos do porto de Baltimore. Ali encontraremos Simonton diante do Banshee, sua família ao lado e o desconhecido à sua frente. Veremos os últimos momentos em terra, acompanharemos o navio afastando-se lentamente e observaremos, através das páginas do diário, as silhuetas daqueles que ficaram para trás desaparecendo pouco a pouco.

Então ouviremos a voz de Simonton:

Estou só.”

Mas isso será assunto para a nossa próxima viagem...

Convite

Junte-se a nós nesta leitura: seremos companheiros de viagem de Simonton, partilhando suas esperanças, desafios e conquistas ao longo de sua jornada.


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Guedes, Ivan Pereira

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Obra de referência

SIMONTON, Ashbel Green. O diário de Simonton. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2022.

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domingo, 2 de agosto de 2026

Verbete - Acomodação (lat. accommodatio)

A acomodação divina é a maneira pela qual Deus adapta sua comunicação à capacidade limitada dos seres humanos. Deus, em sua infinita grandeza, conhece perfeitamente a nossa condição e, por isso, comunica-se conosco de uma forma que podemos compreender.

Teólogos como Orígenes, Crisóstomo, Agostinho e João Calvino utilizaram o conceito de acomodação para explicar como Deus se revela à humanidade. A Bíblia apresenta, por exemplo, Deus como Pai, Mestre e Médico. Essas imagens não significam que Deus seja literalmente um ser humano, mas que ele utiliza formas de linguagem que nos são familiares para nos ajudar a compreender quem ele é e como age.

Calvino expressa essa ideia de maneira muito sugestiva ao afirmar que é como se Deus “balbuciasse” conosco, acomodando o conhecimento que temos dele à nossa limitada capacidade de compreensão (Institutas 1.13.1). A ideia é semelhante à maneira como um adulto conversa com uma criança pequena: ele não muda a verdade do que está dizendo, mas adapta sua maneira de falar para que a criança possa compreender.

Nesse sentido, toda a revelação de Deus é, de alguma maneira, uma revelação acomodada. Deus escolheu comunicar-se conosco levando em consideração nossas limitações humanas. Isso não torna a revelação menos verdadeira. Pelo contrário, demonstra a graça de Deus, que se inclina para alcançar seres humanos limitados e pecadores.

A Escritura é um dos principais exemplos dessa acomodação. A Palavra de Deus foi comunicada por meio de autores humanos, utilizando linguagem humana, diferentes estilos literários, contextos históricos e formas de expressão compreensíveis às pessoas. Deus, portanto, não revelou sua verdade de uma maneira inacessível à humanidade, mas utilizou instrumentos humanos para comunicar sua mensagem divina.

Outros exemplos dessa acomodação podem ser encontrados na Lei de Deus (Institutas 2.11.13), na Oração do Senhor (Institutas 3.20.34) e nos sacramentos (Institutas 4.1.1).

Entretanto, o exemplo máximo da acomodação divina é Jesus Cristo. Na encarnação, o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana e entrou na história. Em Cristo, Deus se revela de maneira suprema e pessoal. Calvino afirma que, em Cristo, Deus “se faz pequeno”, por assim dizer, para descer ao nível da nossa capacidade (Comentário de 1 Pedro 1.20).

Assim, a acomodação divina nos ensina que Deus, em sua graça, se dá a conhecer de maneira que possamos compreender. O Deus infinito se comunica com criaturas finitas; o Deus transcendente entra em nossa história; e o Deus invisível se revela por meio de palavras, imagens, sinais e, de modo supremo, na pessoa de Jesus Cristo.

A acomodação, portanto, não significa que Deus diminua ou distorça a verdade. Significa que, em sua condescendência e graça, Deus ajusta a forma de sua revelação à nossa capacidade limitada, sem deixar de ser verdadeiro em tudo aquilo que revela.

Acho que esta versão se aproxima mais do estilo que você vem utilizando: teologicamente sólida, mas didática e progressiva, permitindo que o leitor compreenda primeiro o conceito e depois perceba sua relação com a Escritura e, finalmente, com a encarnação de Cristo.

 

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