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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

CALVINO - Redescobrindo o Catecismo de Genebra – 2ª Pergunta (João Calvino)

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Mestre – Qual é o principal objetivo da vida humana?

Aluno – Conhecer a Deus, por quem os seres humanos foram criados.

Mestre – Que razão você tem para dizer isso?

Aluno – Porque Ele nos criou e nos colocou neste mundo para ser glorificado em nós. E é realmente correto que a nossa vida, da qual Ele mesmo é o princípio, seja dedicada à Sua glória.

Embora elaborado por João Calvino em 1537, em pleno desenvolvimento do movimento reformado europeu, mais especificamente para a igreja de Genebra, a qual ele pastoreava, o Catecismo de Genebra rapidamente rompeu as barreiras nacionais e tornou-se um instrumento pedagógico para instrução dos novos convertidos em vários países. Ele permanece relevante, ainda no século XXI, porque responde a necessidades permanentes da igreja cristã em todos os lugares e épocas.

O catecismo reafirma a importância do ensino sistemático da fé, integrando doutrina e vida cristã, e combate tanto o intelectualismo frio quanto o emocionalismo superficial. Além disso, destaca a responsabilidade da igreja na formação e na transmissão intergeracional da fé, oferecendo uma identidade confessional clara em meio à pluralidade teológica contemporânea.

Calvino inicia seu catecismo estabelecendo o fundamento da existência: “Qual é o principal objetivo da vida humana?” A resposta deixa claro qual a posição do ser humano diante do Criador – ter comunhão com Deus e glorificá-lo (reconhecimento de quem Ele é). E define a finalidade última da vida não em termos de realização própria, mas em termos de sua relação com Deus.

Na pergunta seguinte o teólogo reformado complementa a primeira: “Que razão você tem para dizer isso?” A questão exige do aluno não um mero assentimento, mas uma justificação reflexiva. A resposta remete ao fato de que Deus não apenas o criou mas também continuamente o sustenta, de maneira que, sua vida só encontra sentido n’Ele.

Essa segunda pergunta funciona como um instrumento pedagógico: não basta saber o fim da vida humana, é preciso compreender a razão teológica que sustenta essa afirmação. Assim, o aluno é levado a fundamentar sua fé na revelação e não em opinião pessoal.

Comentário 2ª pergunta

Calvino une desde o início teleologia (para que vivemos) e teologia da criação (de quem recebemos a vida), mostrando que viver para a glória de Deus é a consequência natural de reconhecer Deus como o princípio de todas as coisas.

A segunda pergunta e resposta do Catecismo de Genebra, nos mostram quatro ideias principais que se completam. Primeiro, aprendemos que Deus nos criou e nos colocou neste mundo. Isso significa que nossa vida não veio de nós mesmos, mas é um presente de Deus, que tem autoridade sobre tudo. Então, entendemos que Ele fez isso para ser glorificado em nós. Ou seja, nossa existência tem um propósito: mostrar, com nossa vida, quem Deus é e dar honra a Ele.

Na sequência, o catecismo nos lembra que é correto e necessário vivermos de maneira a glorificar a Deus. Não se trata tão somente de uma constatação, mas um chamado: viver de acordo com aquilo que Deus espera de nós, em obediência e gratidão. Concluindo a resposta, vemos que a própria vida tem em Deus o seu princípio. Isso quer dizer que não vivemos por nossa própria força, mas dependemos d’Ele a cada instante.

Quando olhamos para as Institutas, Calvino começa justamente afirmando que todo verdadeiro conhecimento nasce de dois pontos: conhecer a Deus e conhecer a nós mesmos. Ele diz que não podemos entender quem somos sem reconhecer que nossa vida vem de Deus e existe para Ele. Isso corresponde exatamente ao que o catecismo ensina: nossa origem está em Deus, e nosso fim é glorificá-Lo.

Nos comentários bíblicos, Calvino reforça essa mesma ideia. Por exemplo, em Romanos 11:36 (“Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas”), ele explica que tudo o que existe aponta para a glória de Deus, e que o ser humano deve reconhecer isso em sua vida. No Salmo 100:3 (“Foi ele quem nos fez, e dele somos”), Calvino lembra que nossa identidade está enraizada na criação divina, e por isso devemos viver em gratidão e obediência. E em João 17:4, comentando sobre Cristo que glorifica o Pai cumprindo sua missão, Calvino mostra que Jesus é o modelo perfeito: toda a vida dedicada à glória de Deus.

Assim, o catecismo, as Institutas e os comentários bíblicos se unem em uma mesma linha: a vida humana é dom de Deus, tem como propósito glorificá-Lo, deve ser vivida em obediência e gratidão, e depende totalmente d’Ele.

O teólogo genebrino começa por estas questões porque se constituem no fundamento de toda a sua teologia.

 

Sem reconhecer que viemos de Deus e existimos para a Sua glória, todo o resto da fé cristã perde o sentido.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
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Referências Bibliográficas

COLUMBIA SERIES IN REFORMED THEOLOGY Calvin’s First Catechism A Commentary I. JOHN HESSELINK Featuring Ford Lewis Battles’s translation of the 1538 Catechism.

CALVINO, João. Catecismo da Igreja de Genebra: um plano para instruir as crianças na doutrina de Cristo. Genebra, 1542.

CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Trad. de Odair Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2 v.

SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. v. 8: Modern Christianity: The Swiss Reformation. New York: Charles Scribner’s Sons, 1893. Disponível em: Internet Archive. Acesso em: 3 nov. 2025.

WARFIELD, Benjamin B. Calvin and Calvinism. New York: Oxford University Press, 1931. Disponível em: Monergism. Acesso em: 3 nov. 2025.

SELDERHUIS, Herman J. John Calvin: A Pilgrim’s Life. Downers Grove, IL: IVP Academic, 2009. Disponível em: Archive.org. Acesso em: 3 nov. 2025.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

CALVINO em Cinco Minutos – Ilustrações Bíblicas do Efeito do Conhecimento de Deus

 Resultado da fotomontagem

Calvino inicia suas Institutas pelo tema do conhecimento de Deus e do homem porque este constitui o fundamento de toda a sua teologia: somente à luz da majestade divina é possível compreender, de modo verdadeiro, quem somos. As tendências das chamadas ciências, em muitos casos, procuram ofuscar ou mesmo eliminar Deus de sua perspectiva, deslocando o ser humano para o centro. A História, entretanto, tem demonstrado o completo fracasso dessa inversão antropocêntrica.

Toda a teologia e os comentários bíblicos de Calvino se estruturam sobre a premissa de que apenas o conhecimento de Deus pode conduzir o ser humano à genuína humildade, à fé autêntica e à obediência sincera.

Para Calvino, toda adoração verdadeira é teocêntrica e deve expressar exclusivamente a glória de Deus. Além disso, para além das expressões cúlticas, todas as esferas da vida cotidiana devem ser vividas coram Deo — diante da face de Deus.

Observação: Para enriquecer a leitura, incluí algumas perguntas para reflexão ao final de cada artigo desta série.


Vamos ouvir João Calvino!

LIVRO 1 – (18 capítulos)

O CONHECIMENTO DE DEUS E O CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS SÃO COISAS CORRELATAS E SE INTER-RELACIONAM

O Conhecimento de nós mesmos nos conduz ao conhecimento de Deus

O conhecimento de Deus, humilha nosso orgulho, desvenda nossa hipocrisia, demonstra as perfeições absolutas de Deus e nosso próprio desamparo.

Efeitos do conhecimento de Deus ilustrados pelos exemplos bíblico

Daí aquele temor e assombro com que, como a Escritura uniformemente relata, os homens santos foram atingidos e sobrepujados sempre que contemplavam a presença de Deus. Quando vemos aqueles que antes estavam firmes e seguros tremerem de terror, a ponto de serem dominados pelo medo da morte — ou melhor, de serem, de certo modo, engolidos e aniquilados — a conclusão a ser tirada é que os homens nunca são devidamente tocados e impressionados com a convicção de sua insignificância até que se comparem com a majestade de Deus. Exemplos frequentes dessa consternação ocorrem tanto no Livro dos Juízes quanto nos Escritos Proféticos; tanto que era uma expressão comum entre o povo de Deus: ‘Morreremos, porque vimos o Senhor.’ Assim também o Livro de Jó, ao humilhar os homens sob a convicção de sua tolice, fraqueza e impureza, sempre deriva seu principal argumento das descrições da sabedoria, virtude e pureza divinas. E não sem razão: pois vemos Abraão prontamente reconhecer-se como pó e cinza quanto mais se aproxima da glória do Senhor, e Elias incapaz de esperar com o rosto descoberto pela Sua aproximação; tão terrível é a visão. E o que pode o homem fazer — homem que não passa de podridão e verme — quando até os próprios Querubins devem velar seus rostos em grande temor? A isso, sem dúvida, o profeta Isaías se refere quando diz (Isaías 24:23): ‘A lua se envergonhará, e o sol se confundirá, quando o Senhor dos Exércitos reinar’; isto é, quando Ele manifestar seu esplendor e conceder uma visão mais próxima dele, até os objetos mais brilhantes, em comparação, serão cobertos de trevas.

Mas embora o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos estejam ligados por um vínculo mútuo, a devida ordem exige que tratemos primeiro do conhecimento de Deus e depois descendamos ao de nós mesmos.

Questões Para Reflexão

1. De que maneira o contraste entre a majestade de Deus e a fragilidade humana nos conduz a uma verdadeira humildade?

2. Por que Calvino insiste que o conhecimento de Deus deve preceder o conhecimento de nós mesmos?

3. Como essa percepção da santidade de Deus e da miséria humana deve moldar nossa adoração e nossa vida cotidiana coram Deo?

 

João Calvino

Institutas da Religião Cristã

1559

 

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Referências Bibliográficas

CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã, edição clássica, em quatro volumes, tradução de Waldyr Carvalho Luz, com base na edição de 1559 em latim. São Paulo: Editora Cultura Cristã, Primeira Edição, 1984.
___________. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã (da edição original francesa de 1541). Tradução e leitura de provas Odayr Olivetti; revisão e notas de estudo e pesquisa Herminsen Maia Pereira da Costa. 1ª edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.
___________. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã, em dois volumes, tradução de Carlos Eduardo de Oliveira [vol 1], Omayr J. de Moraes Jr. e Elaine C. Sartorelli [vol 2], com base na edição de 1559 em latim. São Paulo: Editora da UNESP, 2008 [vol 1] e 2009 [vol 2].
CALVINO, João. O Livro dos Salmos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1.
D'AUBIGNÉ, J. H. Merle. The Reformation in Europe in the time of Calvin. Vol. VIII. Translated William L. R. Cates. New York: Robert Carter and Brothers, 1879.
FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: vida, influência e teologia. Campinas, SP: Edição de Luz Para o Caminho, 1985.
HALL, David W. e LILLBACK, Peter A. (Eds.). A Theological Guide to Calvin's Institutes – essays and analysis. Phillipsburg, New Jersey, P & R Publishing, 2008. [PACKER, J. I, Prefácio, p. xiii].
WILEMAN, Willian. John Calvin: his life, his teaching, and his influence. London: Robert Banks and Son.

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Bonhoeffer - Quem Sou eu? Diálogo entre Paulo e Bonhoeffer

 Imagem em preto e branco de homem sentado com livro na mão

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Romanos 7.14–25

Bonhoeffer – Quem sou eu? (poema)

(Wer bin ich? – Dietrich Bonhoeffer, 18 de julho de 1944)

Sabemos: a lei é espiritual,
eu, porém, sou carnal,
vendido ao pecado.

Não entendo o que faço:
não faço o que quero,
mas o que detesto, isso pratico.

Se faço o que não quero,
reconheço que a lei é boa.
Já não sou eu quem faz,
mas o pecado que habita em mim.

Eu sei: em minha carne
não habita bem algum;
o querer o bem está em mim,
mas não consigo realizá-lo.

Não faço o bem que quero,
mas o mal que não quero,
esse pratico.

Se faço o que não quero,

já não sou eu quem faz,

mas o pecado que habita em mim.

Acho, então, esta lei:

quando quero fazer o bem,

o mal está comigo.

Segundo o homem interior,

tenho prazer na lei de Deus;

mas vejo em meus membros outra lei,

que guerreia contra a minha mente

e me faz prisioneiro

da lei do pecado.

Miserável homem que sou!

Quem me livrará

do corpo desta morte?

Graças a Deus

por Jesus Cristo, nosso Senhor!

Assim, eu mesmo, com a mente,

sirvo à lei de Deus,

mas, com a carne,

à lei do pecado.

Quem sou eu? Frequentemente me dizem
que saio da minha cela
sereno, alegre e firme,
como um senhor de terras de seu castelo.
Quem sou eu? Frequentemente me dizem
que falo com meus guardas
livremente, amistosamente e com clareza,
como alguém que tem autoridade.
Quem sou eu? Dizem-me também
que suporto os dias de infortúnio
com tranquilidade, sorridente e confiante,
como alguém acostumado a vencer.
Sou eu realmente aquilo que os outros dizem de mim?
Ou sou apenas aquilo que eu mesmo sei de mim?
Inquieto, saudoso, doente, como um pássaro na gaiola,
lutando por fôlego, como se mãos apertassem minha garganta,
ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
sedento por palavras bondosas, por proximidade humana,
tremendo de indignação diante da arbitrariedade e das menores ofensas,
atormentado pela espera de grandes acontecimentos,
ansioso e impotente pelos amigos em distância infinita,
cansado e vazio para orar, pensar e agir,
abatido e pronto para despedir-me de tudo?
Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã outro?
Sou ambos ao mesmo tempo?
Diante dos outros, um hipócrita,
e diante de mim mesmo, um fraco desprezível e queixoso?
Ou aquilo que ainda vive em mim
assemelha-se a um exército derrotado,
que foge em desordem diante de uma vitória já alcançada?
Quem sou eu? Essas perguntas solitárias zombam de mim.
Quem quer que eu seja, Tu me conheces;
Teu sou eu, ó Deus!

Prelúdio

Este artigo está propondo um diálogo entre o testemunho de Paulo em Romanos 7.14–25 e o poema de Dietrich Bonhoeffer Quem sou eu? que contém uma profunda convergência existencial. Apesar de estarem separados por séculos no espaço-tempo, e terem vivido em contextos históricos distintos, ambos expõem a mesma tensão interior: a luta entre aquilo que se deseja ser e aquilo que de fato se é. O apóstolo Paulo revela seu conflito entre o desejo sincero de fazer o bem e a prática do mal, concluindo que mesmo após sua conversão ele ainda carrega uma natureza pecaminosa.  Bonhoeffer, em sua cela, expõe está fazendo a mesma confissão, ainda que por outro viés, o da imagem que os outros têm dele e sua realidade íntima de fragilidade, angústia e contradição.

Creio que a relevância desse diálogo está em demostrar que os conflitos interiores não é apenas uma questão pessoal ou circunstancial, mas universal e atemporal. Tanto Paulo quanto Bonhoeffer concluem que a verdadeira identidade e libertação não se encontram neles próprios ou na capacidade deles em tratarem desta questão, mas unicamente em Deus. Em Cristo, Paulo encontra a resposta para sua miséria; semelhantemente, Bonhoeffer encontra a certeza de ser conhecido e pertencente a Cristo. Desta forma, o encontro desses textos nos ilumina e aponta para uma mesma esperança: somente na graça divina a luta interior encontra sentido e resolução.

O Poema  

Temos uma pequena edição de obras de Bonhoeffer em português e algumas também em espanhol. A maioria infelizmente permanecem em alemão e inglês. Mas este poema é algo significativo em meio suas demais literaturas. Aqui ele escreve de forma explicita (um pássaro na gaiola etc.) sua situação pessoal como prisioneiro. Desde as primeiras linhas de sua composição poética é possível identificar uma tensão premente entre a uma percepção interior e a percepção exterior.

Ainda que não admitamos, ou o fazemos raramente, esse confronto com a própria imagem externa é um desafio inevitável para todos nós que expressamos em frases tais como: sou mais do que aparento ser ou sou mal compreendido e subestimado. Entretanto Bonhoeffer faz uma inversão neste quesito: aparento (externa) ser mais do que realmente sou interiormente diante de mim mesmo. Como se colocando diante de um espelho capaz de refletir seu eu interior e o lhe permitindo sem artificio ou ilusão confrontar-se com seu eu exterior.

Nas três primeiras estrofes curtas, forma-se a imagem de uma pessoa marcada por serenidade soberana e liberdade interior, resumida sempre na terceira linha com qualidades de forte irradiação positiva. Entretanto, na quarta estrofe, não sem razão a mais longa, esse reflexo é confrontado com a autopercepção interior.

O que lhe é refletido pelos outros — grandeza, firmeza, serenidade — não o seduz a ponto de se iludir com aquilo que ele sabe que é interiormente. A percepção externa positiva não consegue ocultar o fato de que o eu lírico[1] não se reconhece nesta imagem. A pergunta Quem sou eu? O leva a uma reflexão profunda e ao conflito inevitável consigo mesmo.

Aquilo que aparento ser seria um papel que estou desempenhando? Tenho sido diante das pessoas um hipócrita? Essa tensão entre percepção interna e externa é passível de ser resolvida em algum momento? Não — pois o reflexo externo não é resultante de uma encenação deliberada.

A percepção de Bonhoeffer é de que a questão da identidade pessoal não pode ser respondida diretamente. Nem seu reflexo externo pode ser simplesmente descartada como irrelevante, como também ela não pode substituir a sua realidade interior.

Mas ele não é um existencialista mórbido. Na sua breve sexta estrofe, a reflexão assume uma virada espiritual: Teu sou eu, ó Deus! Mas isso não resolve simplesmente a questão da identidade. A frase não faz evaporar o conflito. Aqui está o paradoxo - nem a visão interna nem a externa recebem uma resposta direta de Deus, todavia, continuam sendo validas. Mas Deus continua sendo o balizador indispensável, e ao mesmo tempo, o capacitador para lidar com esse conflito.

Quem sou eu? O conflito pode ser tratado, ainda que se mantém como uma realidade, porque é inserido em um novo contexto. O relacionamento com Deus não elimina a fragilidade da própria existência; ele a relativiza de maneira salutar — a razão pela qual o conflito se torna suportável.

O “Tu me conheces” não elimina a relevância de olharmos para dentro de nós mesmo, mas cria um espaço seguro para dialogarmos com Deus sem máscaras. As nossas atitudes e expressões religiosas externas não precisam serem descartadas ou até mesmo rejeitadas como se fossem apenas teatro diante de uma realidade interior amedrontada e insegura. Somos livres para admitirmos nossas fraquezas e expor nossa limitações. Mas aqui está o cerne da questão – os conflitos interiores não precisam ser a voz final. A identidade não é algo rígido ou que se possa guardar como propriedade. Ela se revela aos poucos, se experimenta e se expressa, mas nunca se controla por completo. Nesse aspecto, lembra o próprio mistério de Deus – que pode ser conhecido, mas jamais controlado. Em momentos anteriores de sua trajetória, Bonhoeffer declara que costumava valorizar mais a objetividade da fé, deixando em segundo plano a dimensão subjetiva — como as emoções, a psicologia e até mesmo a comunhão afetiva.

O poema Quem sou eu? representa uma inversão. Sim, a relação com Deus relativiza a pergunta sobre si mesmo — mas o faz de maneira curativa, permitindo que essa pergunta seja feita. Porque a identidade não tem significado último, ela pode ser levada a sério de forma penúltima.

A fé cristã não se reduz ao que alguém pode afirmar sobre si mesmo como autêntico. A relação com Deus liberta para uma autenticidade finita. A relação com Deus não exclui a liberdade de ser quem se é; antes, ela a fundamenta.

Aqui ele toca um dos pontos fundamentais de sua teologia existencial em que enfatiza que a fé cristã não é uma ideia abstrata, mas uma experiência vivida na relação com Cristo, marcada pelo seguimento, pela responsabilidade ética e pela autenticidade diante de Deus.

Paulo e o conflito interior: a identidade sob a Lei (Romanos 7.14–25)

Em Romanos 7, o apóstolo Paulo descreve com impressionante honestidade a experiência do ser humano diante da Lei de Deus. Longe de apresentar um discurso abstrato, ele fala na primeira pessoa, expondo o drama interior daquele que conhece a vontade divina, mas se percebe incapaz de cumpri-la plenamente. O conflito não reside no conhecimento do bem, mas na incapacidade prática de realizá-lo: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).

Essa tensão revela uma antropologia profundamente realista. O apostolo não nega em momento algum a bondade da Lei, nem cobre o fracasso moral com os mantos da sociologia ou quaisquer outras “ciências humanas” e nem mesmo o manto da ignorância. O cerne do problema está no pecado que é inerente na raça humana e que efetua uma divisão interior. O “eu” que deseja obedecer a Deus não coincide plenamente com o “eu” que age. Assim, a identidade humana aparece fragmentada: há um querer regenerado e um agir ainda marcado pela carne.

A exclamação “miserável homem que sou!” não é um grito de autocomiseração, mas o reconhecimento de que o ser humano não pode fundamentar sua identidade nem sua obediência em suas próprias forças. A pergunta que segue — “quem me livrará do corpo desta morte?” — desloca a questão da identidade do campo da introspecção para o campo da redenção. A resposta não vem de um novo método, mas de uma pessoa: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7.25).

Paulo, portanto, não resolve o conflito negando-o, mas situando-o dentro da esfera da graça. A identidade do cristão permanece marcada pela luta, mas não é definida por ela. O “quem sou eu?” de Paulo encontra seu eixo não na vitória moral imediata, mas na libertação prometida em Cristo.

Confluência entre Paulo e Bonhoeffer

Para ambos o conflito estabelecido não uma condição de hipocrisia, mas uma condição relacionada com queda da raça humana.

Paulo antecipa uma possível acusação: “Sou então um hipócrita?” A resposta paulina é decisiva: “Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.20). O apostolo não está fugindo da responsabilidade de seus atos, apenas realiza um diagnóstico teológico. O “eu” verdadeiro toma conhecimento de sua realidade pela lei e pela graça, mas ainda vive sob os efeitos de uma natureza pecaminosa.

Bonhoeffer expressa uma percepção semelhante quando pergunta:

Sou eu então apenas um hipócrita diante dos outros,
e diante de mim mesmo um fraco desprezível?

Ambos recusam reduzir o conflito interior a falsidade moral, pois entendem que trata-se da condição do ser humano regenerado, porém ainda não glorificado. Todo aquele que nasce de novo pela ação sobrenatural do Espírito Santo manifesta este conflito, em menor ou maior grau, no transcorrer de sua caminhada até alcançar a plenitude da salvação na eternidade.

Aspecto Crucial da Questão

Tanto Paulo quanto Bonhoeffer chegam a um impasse.

Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24)

Bonhoeffer: “Quem sou eu? Este ou aquele?”

Eles não propõem resolve a questão por meio de introspecção, disciplina moral ou autoafirmação. A questão da identidade humana não se esclarece plenamente a partir do próprio eu. O ensino bíblico não oferece uma identidade autônoma, mas relacional.

A resposta que vem de fora do eu é decisiva. Paulo, diante da luta interior descrita em Romanos 7, não se detém em si mesmo, mas responde imediatamente: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.25). Bonhoeffer, em sua reflexão existencial, conclui de modo semelhante: “Seja quem for eu, Tu me conheces; Teu sou eu, ó Deus!”.

Em ambos a questão da identidade não é satisfatoriamente resolvida, mas permanece ancorada em Deus. Não há eliminação da tensão existencial, mas sim a sua redenção: a luta e a incerteza não desaparecem, mas são amalgamadas pela confiança. Tanto Paulo quanto Bonhoeffer confessam que não sabem inteiramente quem são, mas sabem a quem pertencem.

Assim, a questão da identidade não encontra resposta definitiva no interior do sujeito, mas na relação com o Cristo absoluto.

É nesse deslocamento — da busca por uma essência própria para a entrega confiante — que se revela a liberdade cristã: não a de possuir uma identidade absoluta, mas a de viver uma autenticidade finita, sustentada pela graça.

Convergência Teológica Central

O aspecto teológico central que emerge de Romanos 7 e do poema Quem sou eu? convergem: a identidade cristã se constrói no espaço tenso proporcionado pelo e o ainda não. O cristão vive nesse intervalo escatológico, onde a realidade da redenção foi iniciada em Cristo, mas ainda não se realizou em toda sua plenitude.

Desta forma, o conflito interior não é sinal de incredulidade e/ou hipocrisia, mas de autenticidade da fé. A experiência da contradição entre querer o bem e não realizá-lo, não invalida a fé; ao contrário, confirma que ela é vivida de modo real e honesto diante de Deus e das pessoas.

A segurança do cristão, portanto, não repousa na coerência psicológica ou na capacidade de manter uma identidade estável e transparente a si mesma. A âncora fundamental última está na fidelidade de Deus, que conhece e sustenta o ser humano em sua fragilidade.

Assim, a identidade cristã não pode ser reduzida à fórmula: “sou aquilo que consigo ser”. Essa definição está fadada ao fracasso total, pois é limitada e instável, dependente das forças e fracassos do próprio eu. A verdadeira identidade é confessada de outra forma: “sou conhecido e possuído por Deus”. É nessa pertença que se encontra a genuína liberdade, e a fé que autêntica e dá sustentação a verdadeira esperança.

Implicações Pessoais

1.     Minha luta interior não é sinal de incredulidade, mas de discernimento espiritual.

2.     Meu desejo e busca permanente por uma vida em santificação, não elimina o conflito, ao contrário, me torna mais consciente da dependência de Deus.

3.     Minha identidade cristã não se fundamenta em meu desempenho, mas na graça que opera continuamente em mim.

4.     Posso tranquilamente declarar com Paulo e Bonhoeffer:

o   sou fraco,

o   sou dividido,

o   mas sou do Senhor.

 

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Referências Bibliográficas

BONHOEFFER, Dietrich. Widerstand und Ergebung: Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft. München: Chr. Kaiser Verlag, 1951. [obra original em alemão].

BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal/ASTE, 2021. [tradução integral do texto alemão].

BONHOEFFER, Dietrich. Letters and Papers from Prison. Edited by Eberhard Bethge. Translated by Reginald H. Fuller. London: SCM Press; New York: Macmillan, 1971.

BONHOEFFER, Dietrich. Letters and Papers from Prison: Reader's Edition. Edited by Clifford J. Green. Minneapolis: Fortress Press, 2015.

DUMAS, André. Una teologia de Ia realidad: Dietrich Bonhoeffer. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1971. (Nueva Biblioteca de Teologia; 15).

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[1] Eu lírico é a voz que se manifesta em um poema, expressando sentimentos, pensamentos ou reflexões. Não deve ser confundido com o autor real, pois funciona como uma figura poética ou personagem que fala dentro do texto. No caso de Bonhoeffer, embora o poema reflita sua experiência pessoal de prisão, tecnicamente quem fala é o eu lírico — a voz poética que traduz sua condição interior.