Desde os primeiros livros da Bíblia, a revelação divina se manifesta por meio da imaginação. Em Juízes, encontramos a parábola do espinheiro convidado a reinar sobre a floresta, uma narrativa simbólica que traduz tensões políticas em imagens vivas. Nos Salmos, a poesia se torna oração, transformando a experiência humana em metáforas que atravessam gerações. Em Provérbios, a sabedoria se veste de linguagem figurada, ensinando por comparações e imagens cotidianas. No Cântico dos Cânticos, o maior romance da Bíblia, o amor é celebrado em versos que unem espiritualidade e beleza literária.
Os profetas, por sua vez, são mestres da imaginação. Ezequiel
descreve rodas cheias de olhos, ossos secos que ganham vida, rios que fluem do
templo — imagens que não apenas comunicam, mas moldam o imaginário de um povo.
Esse rio caudaloso desemboca em Jesus, que faz da parábola o coração de seu
ensino. O Reino de Deus é como um grão de mostarda, como fermento na massa,
como um tesouro escondido. Jesus fala ao coração das crianças e à mente dos
doutores, mas os fariseus e escribas, presos à letra e ao racionalismo
jurídico, não compreendem o poder da imaginação e rejeitam seu método. Assim, a
fé cristã nasce e se desenvolve em diálogo profundo com o imaginário.
Os Inklings, grupo literário formado por C.S.
Lewis, J.R.R. Tolkien e outros em Oxford, mostraram que a fé cristã pode
florescer por meio da imaginação. Suas obras criaram mundos simbólicos que
dialogaram com a cultura, moldando gerações e ampliando o alcance da mensagem
cristã. No Brasil, entretanto, o Protestantismo seguiu outro caminho. As
universidades protestantes, desde seus primórdios, abandonaram
sistematicamente as Artes e a Literatura, optando por currículos centrados em
Direito, Engenharia, Economia, Administração e Pedagogia. Essa escolha não foi
neutra: refletiu uma lógica pragmática que orientou os currículos, priorizando
a funcionalidade e a profissionalização, e relegando a imaginação ao
esquecimento.
A marginalização institucional da imaginação se tornou evidente. Ao
não criar departamentos de Artes ou Literatura, as universidades protestantes
brasileiras sufocaram a possibilidade de formar escritores, artistas e
pensadores criativos dentro de um ambiente de fé protestante.
Essa marginalização teve também um impacto cultural profundo. Sem
literatura protestante, a fé não dialogou com o imaginário nacional. Enquanto o
catolicismo moldava festas populares, arte sacra e símbolos que penetravam no
cotidiano, o Protestantismo brasileiro permaneceu restrito ao espaço
eclesiástico e acadêmico. A espiritualidade tornou-se funcional, voltada para a
prática e não para o imaginário, e isso atrofiou a criatividade protestante.
Escritores como Rubem Alves, que ousaram cultivar a imaginação e a poesia,
foram vistos como dissidentes, marginalizados pelo pensamento predominante. Sua
trajetória revela que havia potencial criativo dentro do Protestantismo
brasileiro, mas sem apoio institucional esse potencial não floresceu.
A marginalização teológica reforçou esse processo. A arte foi
frequentemente vista como supérflua ou perigosa, algo que desviava da
“seriedade” da fé. Essa postura bloqueou a possibilidade de que a imaginação
fosse reconhecida como um veículo legítimo da verdade, como já havia sido nas
parábolas de Jesus, que falavam tanto ao coração das crianças quanto à mente
dos doutores da lei. Ao contrário dos Inklings, que mostraram o poder da
narrativa e da fantasia para comunicar verdades profundas, nossas universidades
sufocaram a criatividade e perderam a chance de moldar o imaginário nacional.
A marginalização da imaginação não é apenas um detalhe histórico,
mas uma falha estrutural. Recuperar esse espaço é urgente. É preciso criar
departamentos de Artes e Literatura, incentivar escritores e artistas, e formar
comunidades criativas que dialoguem com a cultura contemporânea. Somente assim
o Protestantismo brasileiro poderá reencontrar sua relevância cultural e
espiritual no século XXI.
Curiosamente, o Protestantismo brasileiro não nasceu sem moldura
cultural. Como já discutimos em outro estudo (cf. Artigos Relacionados), sua
implantação ocorreu dentro da moldura do movimento romântico, que valorizava
a literatura e a imaginação. O que se observa, portanto, é um processo de
perda: da abertura inicial para a cultura à marginalização posterior da
imaginação. Este artigo, como prólogo, aponta para essa trajetória e prepara o
terreno para uma análise mais ampla e profunda.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Bibliografia
ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Campinas: Papirus, 1984.
Obra que mostra como a imaginação e a poesia podem ser caminhos legítimos para
compreender a fé, representando a ruptura de Alves com o pragmatismo
protestante.
SHAULL, Richard. O Cristianismo e a Revolução Social. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1965. Livro que despertou uma geração de jovens
presbiterianos para o diálogo entre fé e cultura, mas que foi rejeitado pelas
lideranças pragmatizadas do presbiterianismo brasileiro.
LEWIS, C. S. O Cristianismo Puro e Simples. São Paulo:
Martins Fontes, 2002. Exemplo da clareza literária dos Inklings, mostrando como
a imaginação e a razão podem se unir para comunicar a fé cristã.
TOLKIEN, J. R. R. Sobre Histórias. São Paulo: WMF Martins
Fontes, 2010. Reflexão sobre o papel da fantasia e da narrativa como meios de
revelar verdades profundas, ilustrando a visão dos Inklings sobre literatura e
fé.
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992. Análise da formação cultural brasileira, útil para
compreender como o Romantismo moldou símbolos nacionais e ofereceu uma moldura
inicial ao Protestantismo.
CUNHA, Magali do Nascimento. A Explosão Gospel: um olhar das
ciências humanas sobre o fenômeno religioso. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.
Estudo que mostra como a cultura protestante brasileira se desenvolveu em
moldes pragmáticos e funcionais, sem espaço para a imaginação literária.
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