Conforme a bibliografia utilizada em cada artigo, embora as abordagens sejam distintas, elas convergem na compreensão de que 1517 não se reduz a um mero ponto de ruptura, mas constitui apenas a ponta visível do iceberg de um vasto e imensurável processo providencial de Deus, que frequentemente permanece oculto aos olhos humanos.
Sola
Scriptura
Sola
Fide
Sola
Gratia
Solus
Christus
Soli
Deo Gloria
O terreno preparado: antecedentes da Reforma
A Reforma do século XVI não surgiu como um evento abrupto ou
isolado na história da Igreja, mas como o desdobramento de um longo processo de
tensões morais, institucionais e teológicas que se acumularam ao longo dos
séculos finais da Idade Média. De maneira que a Reforma não foi um
acontecimento isolado e/ou uma inovação repentina, mas consequência de uma maturação
de princípios, protestos e anseios que vinham sendo paulatinamente
desenvolvidos no tecido religioso da própria cristandade ocidental (BABINGTON, 1879;
OZMENT, 1980). Há um conjunto de movimentos como a decadência institucional,
crise de autoridade e renovação intelectual, que conjuntamente criaram as
condições necessárias para o surgimento do movimento reformador.
Entre os fatores mais evidentes destacados pelos historiadores,
encontra-se a profunda crise moral e institucional da Igreja Cristã medieval.
No transcorrer dos séculos XIV e XV, a Igreja foi se amalgamando cada vez mais
às instâncias políticas e econômicas, tornando-se uma instituição poderosa,
interferindo na dinâmica das nações e até mesmo subjugando-as conforme seus
projetos de dominação. Trata-se de algo completamente alheio a quaisquer
referências ou inferências bíblicas; ao contrário, Jesus é enfático com os
discípulos: “Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
A cúpula clerical vivia em luxo ostensivo e luxúria escancarada,
contrastando com o ideal neotestamentário de simplicidade e serviço. Práticas
como a simonia, o nepotismo e o pluralismo eclesiástico tornaram-se comuns,
enfraquecendo a credibilidade moral da hierarquia religiosa. O historiador
Philip Schaff, em sua monumental obra, escreve: “a Igreja, que deveria ser o
instrumento da graça, tornou-se, em muitos aspectos, um instrumento de poder
mundano” (SCHAFF, 1910, v. VI). Essa discrepância entre o ideal bíblico e a
realidade institucional gerou crescente insatisfação interna entre clérigos e externo
entre os leigos piedosos, que ansiavam por uma restauração da pureza e
simplicidade da fé cristã primitiva. Esse contexto acabou produzindo um
ambiente de contestação generalizada, envolvendo não apenas intelectuais e
líderes religiosos, mas também comunidades leigas que ansiavam por renovação.
John Wyclif (c. 1328–1384), na Inglaterra, doutor em teologia pela
Universidade de Oxford, e John Hus (c. 1369–1415), na Morávia, continuador dos
ideais e críticas de Wyclif, ilustram de forma paradigmática a dupla
insatisfação que marcou os séculos finais da Idade Média. Os Lollardos,
discípulos de Wyclif e os Hussitas, discípulos de Hus são exemplos de mobilização
popular que revelavam como a discrepância entre o ideal bíblico e a realidade
institucional contribuíram para preparar o terreno para a Reforma (HUDSON, 1988).
O agravamento desse quadro degradante ocorre no chamado Cativeiro
Babilônico da Igreja (1309–1377), também conhecido como Papado de Avinhão. Foi
um período em que sete papas sucessivos residiram na cidade de Avinhão, na
França, em vez de Roma. E todos os sete papas deste período eram de origem
francesa, rompendo a falsa aura de universalidade e independência do papado,
pois, estava claro que os pontífices estavam subordinados ao poder secular
francês.
A situação tornou-se ainda mais grave com o Grande Cisma do
Ocidente (1378–1417),[1]
quando dois, e posteriormente três, papas rivais reivindicaram simultaneamente
a autoridade legítima e cada um excomungava o outro mutuamente, desconstruído
por completo a legitimidade do sistema papal e reforçando um profundo descrédito
por parte da comunidade cristã. (Bainton, 1950; RENOUARD, Yves, 1970; ULLMANN,
Walter, 1948). O papado, que havia reivindicado supremacia absoluta, agora está
completamente vulnerável, fragmentado e politicamente condicionado.
Paralelamente a essa crise institucional, surgiram figuras, como as
citadas acima, que anteciparam muitas das ênfases teológicas que seriam
utilizadas pelos reformadores na grande Reforma do século XVI. John Wyclif
criticou abertamente a riqueza da Igreja e defendeu a supremacia das Escrituras
sobre a tradição eclesiástica. Ele argumentava que a Bíblia, e não o papa,
era a autoridade final em matéria de fé. Além disso, promoveu a tradução das
Escrituras para o inglês, tornando-as acessíveis ao povo comum. Nas palavras de
Babington, Wyclif lançou “as sementes de princípios que, embora reprimidos
em sua época, floresceriam plenamente no século XVI” (Babington, 1879).
Jan Hus, profundamente influenciado pelas críticas bem
fundamentadas de Wyclif, transplantou esses ideais para a Boêmia, denunciando a
corrupção clerical e proclamando a autoridade suprema de Cristo como cabeça da
Igreja. Enfatizava a necessidade de santidade moral no clero e a centralidade
da Palavra de Deus. Sua recusa em retratar-se levou à sua condenação e execução
no Concílio de Constança, em 1415. Sua execução, apesar de possuir um indulto
do imperador e em pleno andamento do Concílio, tornou-se um marco simbólico da
tensão entre autoridade eclesiástica e consciência individual, sendo
posteriormente interpretada como um testemunho da fidelidade à verdade e como
um dos precedentes diretos da Reforma Protestante.
Há uma forte tradição segundo a qual Jan Hus, pouco antes de ser
executado em 1415, teria declarado que, embora queimassem um “ganso” (já que Hus
significa “ganso” em tcheco), dentro de cem anos surgiria um “cisne” que
não poderia ser silenciado. Desta forma, muitos historiadores posteriores,
especialmente dentre os reformadores protestantes, entenderam essa frase como
uma espécie de profecia antecipando o surgimento de Martinho Lutero, que em 1517 — pouco
mais de cem anos depois — iniciou a Reforma Protestante com suas 95 teses.
|
Continuidade Histórica John Wyclif (1320–1384) → precursor
intelectual, crítico da riqueza da Igreja e defensor da supremacia das
Escrituras. Jan Hus (1369–1415) → mártir e
catalisador, transplantou as ideias de Wyclif para a Boêmia, denunciando a
corrupção clerical e afirmando Cristo como cabeça da Igreja. Martinho
Lutero (1483–1546) → líder que
concretizou a Reforma, com as 95 Teses em 1517 e a defesa da justificação
pela fé. |
A genuinidade das palavras pode ser questionada; todavia, como tão
bem observa Schaff, “Hus foi um precursor direto de Lutero, tanto em sua
teologia quanto em seu testemunho” (Schaff, 1910).
Outro elemento decisivo na preparação do terreno para a Reforma foi
o humanismo renascentista, um movimento intelectual que promoveu o retorno às
fontes clássicas (ad fontes). Em contraste com o escolasticismo
medieval, que dependia fortemente dos comentários e tradições dos chamados
Padres da Igreja e da versão bíblica em latim, denominada de Vulgata, os
humanistas tinham como objetivo primário buscar os textos originais da
Antiguidade, incluindo as Escrituras em suas línguas originais.
Não se pode deixar de destacar o trabalho precioso de Erasmo de
Rotterdam (1466–1536), cuja edição crítica do Novo Testamento grego[2],
publicada em 1516, tornou-se uma ferramenta fundamental para os reformadores.
Embora não tivesse a intenção de romper com a Igreja Romana, sua ênfase no
retorno às Escrituras e sua crítica às superstições e abusos clericais
contribuíram significativamente para a atmosfera intelectual que fomentava a
necessidade premente de uma Reforma ampla e profunda da Igreja.
Apesar de Erasmo e Lutero, contemporâneos, situarem-se em posições
distintas, a relevância da obra de tradução de Erasmo foi notada por
historiadores, como sintetiza Roland H. Bainton: “Erasmo colocou nas
mãos de Lutero a espada que Lutero usaria” (BAINTON, 1950).
Portanto, à luz dessas considerações, torna-se evidente que a
Reforma foi precedida por um longo período de maturação e preparação
providencial. Os diversos fatores citados foram se acumulando: a decadência
moral da Igreja gerou anseio por renovação; a crise do papado enfraqueceu a
estrutura de autoridade tradicional; os pré-reformadores proclamaram princípios
fundamentais que desafiavam o sistema vigente; e o humanismo forneceu os
elementos instrumentais e intelectuais necessários para o retorno às Escrituras.
Conforme conclui Babington, a Reforma não foi uma ruptura arbitrária, mas a
resposta histórica a uma necessidade espiritual profunda, sendo, em última
análise, um movimento de retorno às origens apostólicas da fé cristã
(BABINGTON, 1879).
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências bibliográficas
BABINGTON, Churchill The English Reformation London: Religious Tract Society, 1879
BAINTON, Roland H. Here I Stand: A Life of Martin Luther Nashville: Abingdon Press, 1950
CHADWICK, Henry. The Church in the Ancient World. Oxford: Oxford University Press, 1993.
ERASMO DE ROTTERDAM Novum Instrumentum Omne Basel, 1516
HILLERBRAND, Hans J. The Division of Christendom: Christianity in the Sixteenth Century New York: Westminster Press, 1971
HUDSON, Anne. The Premature Reformation: Wyclifite Texts and Lollard History. Oxford: Clarendon Press, 1988.
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LAHEY, Stephen E. John Wyclif. Oxford: Oxford University Press, 2009.
OZMENT, Steven The Age of Reform 1250–1550 New Haven: Yale University Press, 1980
RENOUARD, Yves The Avignon Papacy, 1305–1403 London: Faber and Faber, 1970
SCHAFF, Philip History of the Christian Church Vol. VI. Grand Rapids: Eerdmans, 1910
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SCHAFF, Philip History of the Christian Church Vol. VI. Grand Rapids: Eerdmans, 1910
TIERNEY, Brian The Crisis of Church and State, 1050–1300 Toronto: University of Toronto Press, 1988.
[1] Não confundir com o posterior Grande Cisma do Oriente (1054) que corresponde à ruptura definitiva entre a Igreja Católica Romana [Ocidente] e a Igreja Ortodoxa [Oriente], motivada por divergências teológicas, litúrgicas e é claro, de autoridade eclesiástica. Em todo cisma religioso a questão é sempre “quem manda”, as demais questões é para justificar está primeira (CHADWICK, Henry, 1993; TIERNEY, Brian; 1988).
[2] Ele acreditava que a Vulgata latina, usada oficialmente pela Igreja, continha imprecisões [literárias e não teológicas] acumuladas ao longo dos séculos. Seu objetivo era oferecer aos estudiosos e pregadores um texto mais fiel ao grego do Novo Testamento, acompanhado de uma tradução latina revisada, para que a Escritura pudesse ser lida com maior clareza e autenticidade. Todavia, o efeito imediato foi muito além de suas expectativas e seu trabalho acabou por alavancar ainda mais o movimento Reformado.


