12 de agosto de 1859
A viagem do Banshee havia começado em 18 de junho de 1859. Mas
quando lemos seu diário, percebemos que aquela não foi simplesmente uma longa
travessia entre dois continentes. Para ele, o próprio navio se constituía em um
pequeno campo de missão, uma escola de fé e, em determinados momentos, um lugar
onde sua própria vida esteve por um grande perigo.
Entre o embarque e desembarque se passaram 56 dias entre o
céu e o mar.
E Simonton não passou esses dias de braços cruzados. Durante a
travessia, ele procurou conhecer os homens que compunham a tripulação,
conversou com os marinheiros sobre suas vidas e encontrou oportunidades para
falar-lhes das Escrituras. Organizou inclusive uma espécie de Escola Dominical
entre eles. Mesmo quando o capitão demonstrava pouca simpatia por manifestações
religiosas mais formais, não permitindo a realização de cultos dominicais,
Simonton encontrou maneiras de conversar, ensinar e dar testemunho.
É interessante observar essa dinâmica. Ele ainda não havia chegado
ao Brasil, mas já estava fazendo aquilo para o que havia sido enviado ao
Brasil. Seu campo missionário começava no próprio convés do Banshee.
A viagem também lhe ofereceu tempo para ler, refletir, escrever e
observar. O jovem pastor anotava as mudanças do céu, os ventos, as correntes,
os movimentos da embarcação, a alimentação, o comportamento dos marinheiros e
até as dificuldades práticas da vida no mar. Em determinado momento, chegou a
brincar com as próprias tentativas de remendar as roupas, depois de tantos dias
de uso.
Pouco a pouco, porém, a paisagem começou a mudar. Em suas anotações
de 28 de julho, ele registra a
despedida da estrela polar, como indicativo de que está deixando definitivamente
para trás o céu familiar do hemisfério norte. Dois dias depois, em 30 de
julho, avista Fernando de Noronha. Depois de 36 dias de
mar aberto, aquelas rochas que surgiam no horizonte representavam muito mais do
que uma ilha: eram um sinal concreto de que o Brasil estava se aproximando.
Mas o
mar ainda guardava uma última advertência.
Na noite de 4 de agosto, o Banshee viveu um dos
momentos mais perigosos de toda a viagem. O dia havia sido chuvoso. A atmosfera
estava pesada e o vento havia aumentado. Simonton conversava com Sampson quando
o capitão, no convés, ordenou que as velas fossem recolhidas.
Então veio o grito do vigia: “Barco pela proa!”
Em
questão de segundos, todos perceberam o perigo.
Um grande navio surgiu repentinamente da escuridão, navegando em
alta velocidade, com todas as velas abertas. Sua proa vinha diretamente na
direção do Banshee — justamente para a parte da embarcação onde Simonton
se encontrava. A reação do experiente capitão foi imediata: virar o
leme.
Em uma questão de segundos...o outro navio passou tão próximo que
Simonton compreendeu, depois do perigo, o que poderia ter acontecido.
Se aquele encontro tivesse acontecido apenas alguns
segundos antes, o Banshee teria sido atingido exatamente onde ele
estava.
O navio teria sido cortado em dois. E, segundo suas próprias
palavras, dadas as condições daquela noite, provavelmente ninguém teria
sobrevivido para contar a história. Mas aqui temos muito revelador na maneira
como Simonton descreve o episódio. Ele não transforma o acontecimento em uma
aventura heroica. Não atribui a própria serenidade à coragem pessoal. Sua
primeira reação é espiritual:
“Desde o princípio entreguei meus caminhos a Deus.”
Para Simonton, aquele quase desastre não era apenas um incidente
marítimo. Era uma experiência concreta da providência.
O perigo passou.
E
ele desceu ao camarote.
Mas
não para continuar simplesmente a viagem.
Primeiro, para agradecer a Deus pela providência e entregar
novamente a sua vida nas mãos daquele que o havia chamado.
Depois, dormiu profundamente.
Na manhã seguinte, ouviu dos velhos marinheiros algo que tornava o
episódio ainda mais impressionante: eles mesmos diziam nunca ter estado em
tamanho perigo...é difícil não perceber a força desse momento.
Meses antes, Simonton havia colocado sua vida à disposição da obra
missionária. Agora, em alto-mar, ele aprende que entregar a vida ao serviço do
Evangelho implica em aprender a descansar na providência daquele que a sustenta.
O Brasil começa a aparecer no horizonte
Depois do episódio de 4 de agosto, há uma crescente expectativa da
chegada.
No dia 9, Simonton realiza sua última aula bíblica com os
marinheiros. Ele já começa a pensar na separação daqueles homens com quem havia
convivido durante quase dois meses. Ao mesmo tempo, em suas anotações há
uma visão realista, pois observa que os compromissos de mudança feitas por eles,
não perduraram. Conhecia suas histórias e sabia que algumas resoluções tomadas
no mar poderiam desaparecer assim que voltassem à terra.
Essas anotações realistas revelam que Simonton não é um jovem ingênuo
que atravessou o oceano movido por uma resolução romântica em relação à
natureza humana. Toda conversão genuína é uma ação soberana do Espírito Santo e
não uma mera comoção emotiva passageira.
No dia 11 de agosto, o horizonte finalmente lhe entrega o
primeiro grande sinal de que a viagem estava chegando ao fim.
Cabo Frio.
O promontório — aquela ponta de terra elevada que avança sobre o
mar — surgiu diante do navio como um marco silencioso de chegada. Para
Simonton, a visão lembrava as colinas de Neversink, que anunciavam a
proximidade do porto de Nova York. Agora, porém, o horizonte era outro:
tropical, distante e carregado de promessa.
Mais tarde, naquela mesma noite, a cena ganhou um tom quase
cinematográfico. O Banshee permanecia imóvel, sem vento, próximo à
entrada do porto. A lua, alta e serena, derramava sua luz sobre o mar,
transformando o silêncio em expectativa.
Baía de Guanabara
Ao longe, surgem o Pão de Açúcar e o Corcovado,
imponentes contra o horizonte. O som das ondas quebrando nas pedras preenche o
silêncio da noite, como se fosse uma música própria daquele lugar.
Simonton sobe a uma das vergas do navio e contempla o crepúsculo
repousando sobre o Corcovado. E então, algo acontece dentro dele. Aquela
paisagem, que até então existia apenas em gravuras de livros e relatos de
viajantes, agora se revelava diante de seus olhos. A viagem chegara ao fim. O
Brasil estava ali.
Mas sua reação não se resume à alegria. Um turbilhão se
forma em seu interior: o contentamento pelo final feliz da longa
travessia mistura-se ao temor diante da grande responsabilidade e das
dificuldades que o aguardavam. Era o início de uma missão que haveria de exigir
cada gota de coragem e fé.
Essa talvez seja uma das melhores imagens para compreender
Simonton.
Ele estava feliz por chegar, mas não estava
despreocupado.
Sabia que chegar ao Brasil não era o fim da missão...Era apenas
o começo.
12 de agosto de 1859 — o desembarque
Aqui está o trecho revisado e suavizado em tom de diário, com a
gramática corrigida e ritmo mais fluido:
📖 12 de agosto de 1859 — O desembarque
Simonton desperta às quatro da manhã. Não consegue simplesmente
dormir enquanto o navio se prepara para entrar no porto. Observa cada manobra,
pois o Banshee precisa avançar contra o vento e a maré.
Às 9h30, registra sua primeira grande impressão do Brasil.
Suas palavras revelam o impacto visual: lindo, singular, impressionante.
Jamais imaginara encontrar uma baía daquela natureza.
A visão da Baía de Guanabara é ao mesmo tempo majestosa e
acolhedora: cercada por ilhas rochosas, montanhas, fortalezas e elevações que
formam um anfiteatro natural. A entrada do porto é estreita, protegida de um
lado pela Fortaleza de Santa Cruz e, do outro, pelo Pão de Açúcar.
O olhar de Simonton percorre tudo:
as ilhas,
as
pedras,
as
fortificações,
as
montanhas.
E, finalmente, o que mais o impressiona: a
cidade do Rio de Janeiro surgindo entre vales e montanhas, brilhando ao
sol com suas paredes caiadas de branco.
Para alguém vindo dos Estados Unidos, aquela paisagem parecia quase
irreal. Depois de semanas vendo apenas o horizonte infinito do Atlântico, agora
havia uma cidade inteira diante dele.
Mas não era uma cidade qualquer. Era o
seu novo lar. Era o seu novo campo de trabalho. Era o lugar para
o qual deixara sua família.
Era o lugar para o
qual Deus o havia enviado.
O Banshee continuava avançando... e a cada mudança de curso,
Simonton observava a entrada do porto, ora mais próxima da Fortaleza de Santa
Cruz, ora do Pão de Açúcar. E então chega uma pequena cena que, embora simples,
possui grande força narrativa...Simonton começa a preparar-se para descer.
Depois de 56 dias de viagem, ele finalmente se desfaz de
sua roupa de viagem, entregando ao cabineiro como agradecimento pelos serviços
prestados durante a travessia. Então registra uma frase simples, mas
reveladora:
“Estou pronto para desembarcar.”
Há aqui uma imagem que vale a pena preservar na narrativa. Imagine
a cena:
Um jovem pastor de 26 anos deixa o navio carregando sua pequena
bagagem, depois de quase dois meses de viagem. Vinha de Baltimore, onde havia
deixado para trás o clima ameno do verão norte-americano, trazendo consigo as
roupas preparadas para uma longa viagem marítima e para um ambiente muito
diferente daquele que encontraria no Brasil. Sente pela primeira vez o calor, a
luminosidade da paisagem tropical do Rio de Janeiro...O contraste é brutal.
A roupa que havia servido para protegê-lo durante a viagem já não
fazia sentido naquele ambiente.
E ele a deixa para trás.
É quase uma metáfora involuntária.
Simonton desce...
Não desce apenas de uma embarcação. Desce de um mundo conhecido
para entrar em outro completamente desconhecido.
Aos 26 anos, com uma mala, algumas roupas, cartas de apresentação e
uma convicção profunda de que Deus havia dirigido seus passos, ele
finalmente pisa em solo brasileiro.
O jovem que deixara Baltimore em 18 de junho agora estava no Rio de
Janeiro.
A travessia havia terminado.
Mas
a missão apenas começava.
Ele
havia cruzado o Atlântico.
Havia cruzado o seu Rubicão.
Havia sobrevivido ao perigo do mar.
Havia contemplado, pela primeira vez, a Baía de Guanabara.
Agora precisava descobrir como anunciar o
Evangelho em uma terra cuja língua, cultura, religião e costumes
ainda lhe eram estranhos.
O mar
ficava para trás.
O Brasil estava diante dele.
E, sem que Simonton pudesse imaginar naquele momento, aquela manhã
de 12 de agosto de 1859 haveria de ser lembrada como um dos momentos decisivos
da história do protestantismo brasileiro.
Do cais às ruas do Rio
Ele havia imaginado aquele momento muitas vezes durante a
travessia. Mas nenhuma imaginação poderia reproduzir a experiência de estar
ali.
O ar era diferente.
A
luz era diferente.
A
paisagem era diferente.
Os sons eram diferentes.
Ao redor, o porto do Rio de Janeiro fervilhava de atividade. Homens
movimentavam cargas, embarcações chegavam e partiam, comerciantes negociavam,
carregadores transitavam pelo cais, e uma multidão de pessoas dava ao lugar um
movimento completamente estranho aos olhos daquele jovem pastor estrangeiro.
Simonton caminhava observando tudo. Agora havia uma cidade diante
dele.
E havia uma pequena caminhada a fazer. Com sua bagagem, ele deixou
a área do porto e tomou o caminho em direção à Casa de Comércio Wright,
onde deveria apresentar-se e encontrar os primeiros contatos que o ajudariam a
estabelecer-se na cidade.
A cena é quase prosaica...Um homem caminhando com uma mala.
Mas, historicamente, aquele homem carregava muito mais do que seus
pertences.
Carregava uma decisão tomada meses antes.
Carregava
as orações de sua mãe.
Carregava
as expectativas da Junta de Missões Presbiteriana.
Carregava uma mensagem a ser proclamada.
Sobre seus jovens ombros a responsabilidade de iniciar,
praticamente sozinho, uma obra missionária em um país onde o presbiterianismo
ainda não possuía uma presença organizada.
Atrás dele ficava o Banshee.
À sua
frente, o Rio de Janeiro.
Certamente Simonton ainda não podia compreender a dimensão daquele
momento.
Para os habitantes do Rio, ele era apenas mais um jovem estrangeiro
que acabava de desembarcar.
Para a história, porém, aquele homem que
caminhava carregando sua mala estava dando os primeiros passos de uma obra que
ultrapassaria em muito sua própria existência.
O
desembarque havia terminado.
Mas sua caminhada estava apenas começando...
Simonton acabava de dar seus primeiros passos
pelas ruas da futura história do presbiterianismo brasileiro.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Reflexão Bíblica
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Obra de referência
SIMONTON, Ashbel Green. O diário de Simonton. São
Paulo: Editora Cultura Cristã, 2022.
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