*Este artigo substitui o anterior [Protestantismo Brasileiro: A Marginalização da Imaginação], para ajustar ao desenvolvimento e ampliação da proposta original.
Pare e
Pense: Por que falar de imaginação? Se a Bíblia está repleta de poesia,
parábolas, sonhos, metáforas e símbolos, por que muitos cristãos passaram a
olhar a imaginação com desconfiança?
À
primeira vista, essa pergunta pode parecer estranha. Afinal, desde o Gênesis
até o Apocalipse, Deus escolheu revelar sua verdade por meio de histórias,
imagens e narrativas que falam não apenas à razão, mas também ao coração. A
imaginação nunca foi um fim em si mesma; ela sempre esteve a serviço da verdade
revelada. Como, então, essa dimensão da fé passou a ocupar um lugar tão
discreto em boa parte do Protestantismo brasileiro?
Essa
pergunta deu origem à série que agora iniciamos.
A
Bíblia e a imaginação
A
revelação bíblica não foi construída apenas por conceitos teológicos. Antes das
grandes formulações doutrinárias, encontramos narrativas, cânticos, provérbios,
parábolas, sonhos e visões.
A
Bíblia nos apresenta um jardim onde Deus caminha com o ser humano, uma escada
que liga a terra ao céu, uma sarça que arde sem se consumir, um vale de ossos
secos que voltam à vida, um pastor que procura uma ovelha perdida, um pai que
recebe de volta o filho arrependido e, por fim, uma nova criação onde corre o
rio da vida.
Essas
imagens não substituem a verdade; elas a tornam visível. Deus fala à
inteligência, mas também alcança a imaginação, permitindo que a verdade seja
contemplada, lembrada e experimentada.
O
próprio Senhor Jesus adotou esse método em seu ministério. Grande parte de seus
ensinamentos foi transmitida por parábolas. O Reino de Deus era comparado a um
grão de mostarda, ao fermento escondido na massa, a uma pérola de grande valor
ou a um tesouro oculto em um campo. Por meio dessas histórias, Cristo conduzia
seus ouvintes à compreensão das verdades do Reino.
Por
que estudar os Inklings?
Ao
longo da história da Igreja, muitos cristãos compreenderam que a imaginação,
quando orientada pela Palavra de Deus, pode tornar-se uma poderosa serva da
verdade.
Entre
eles destaca-se o grupo conhecido como Inklings, formado por escritores
e professores que se reuniam regularmente em Oxford durante o século XX. Nomes
como C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Dorothy L. Sayers, Charles Williams e Owen
Barfield demonstraram que literatura, arte e fé cristã podem caminhar juntas
sem que uma diminua a outra.
Suas
obras continuam sendo lidas por milhões de pessoas porque não oferecem apenas
belas histórias. Elas despertam perguntas profundas sobre o sentido da vida, o
bem e o mal, a esperança, o sacrifício, a redenção e o Reino de Deus.
Mais
do que criar mundos imaginários, os Inklings ajudaram seus leitores a olhar com
novos olhos para a realidade criada por Deus.
Por
que essa série?
Nos
últimos anos, tenho dedicado boa parte deste espaço ao estudo das Escrituras,
da história da Igreja, da Reforma Protestante e de autores que marcaram
profundamente a espiritualidade cristã.
Naturalmente
surgiu uma nova pergunta.
Que
contribuição os Inklings podem oferecer ao Protestantismo brasileiro?
Essa
questão vai muito além da literatura inglesa.
Ela
nos conduz a outra ainda mais ampla:
Como a
imaginação pode voltar a servir à verdade em nossas igrejas, escolas,
universidades e famílias?
Responder
a essa pergunta será o objetivo desta série.
Não
pretendemos transformar a imaginação em um fim em si mesma, nem substituir a
fidelidade bíblica pela fantasia. Nosso propósito é compreender como Deus
utiliza a beleza, a narrativa, a poesia e a arte para comunicar sua verdade e
formar seu povo.
Uma
caminhada em conjunto
Ao
longo dos próximos artigos investigaremos a presença da imaginação nas
Escrituras, percorreremos momentos importantes da história do Protestantismo
brasileiro, conheceremos a contribuição dos Inklings e refletiremos sobre os
desafios e as oportunidades que essa tradição oferece à Igreja contemporânea.
Será
uma caminhada construída passo a passo.
Cada
artigo responderá a uma pergunta e, ao mesmo tempo, abrirá novas possibilidades
de reflexão.
Meu
desejo é que essa jornada nos ajude não apenas a conhecer melhor alguns grandes
escritores cristãos, mas principalmente a redescobrir uma dimensão da própria
fé que sempre esteve presente na revelação bíblica.
Quando
a imaginação é moldada pela Palavra de Deus, ela não obscurece a verdade;
torna-a mais próxima, mais significativa e mais profundamente enraizada no
coração humano.
Se
essa caminhada nos ajudar a contemplar Cristo com maior beleza, a ler as
Escrituras com renovado encanto e a comunicar o Evangelho com fidelidade e
criatividade, então ela terá cumprido seu propósito.
Pergunta
para o próximo artigo
Se a
imaginação ocupa um lugar tão importante na revelação bíblica, surge uma
questão inevitável:
Como
um Protestantismo fundamentado na leitura das Escrituras passou, em muitos
momentos de sua história, a olhar a imaginação com desconfiança?
É essa
investigação que iniciaremos no próximo artigo.
Questões
para Reflexão
Ao ler
as Escrituras, eu:
(a)
Procuro perceber também a riqueza das imagens, das narrativas e das parábolas
utilizadas por Deus para revelar sua verdade.
(b)
Preocupo-me apenas em compreender conceitos e definições, deixando de
contemplar a beleza da narrativa bíblica.
Quando
penso na imaginação, eu:
(a)
Reconheço que ela pode ser um dom de Deus quando orientada pela Palavra.
(b)
Considero que ela sempre representa um perigo para a fé cristã.
Ao
iniciar esta série, minha expectativa é:
(a)
Descobrir como a imaginação pode servir à verdade e enriquecer minha
compreensão das Escrituras.
(b)
Permanecer convencido de que fé, literatura e imaginação pertencem a mundos
completamente separados.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br
Ajude a manter esse ministério ativo
Para
quem deseja continuar a caminhada
BÍBLIA
SAGRADA. Tradução utilizada pelo leitor.
A
principal fonte para compreender a relação entre verdade, narrativa, símbolo e
imaginação. Toda a reflexão desta série nasce da própria forma como Deus
escolheu revelar sua Palavra.
ALTER,
Robert. A arte da narrativa bíblica. São Paulo: Companhia das Letras,
2007.
Uma
obra clássica que demonstra como os recursos narrativos da Bíblia participam da
comunicação da verdade divina. Ajuda o leitor a perceber a riqueza literária
presente nas Escrituras.
LEWIS,
C. S. O peso da glória. São Paulo: Vida, diversas edições.
Coletânea
de ensaios que apresenta a compreensão de Lewis sobre desejo, beleza,
imaginação e transcendência. Um excelente ponto de partida para compreender sua
visão cristã da realidade.
TOLKIEN,
J. R. R. Sobre histórias de fadas. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil,
diversas edições.
Ensaio
fundamental para entender como a fantasia pode servir à verdade sem se afastar
da realidade. Tolkien explica o papel da imaginação na criação literária e na
experiência humana.
CARPENTER,
Humphrey. The Inklings: C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Charles Williams and
Their Friends. Boston: Houghton Mifflin, 1978.
A mais
conhecida história do grupo de Oxford. Apresenta o contexto, as amizades e as
conversas que deram origem a algumas das obras cristãs mais influentes do
século XX.
SCHAEFFER,
Francis A. A arte e a Bíblia. Viçosa: Ultimato, 2010.
Pequena,
mas importante reflexão sobre o lugar da arte na cosmovisão cristã. Schaeffer
mostra que beleza e verdade não são adversárias, mas podem servir juntas ao
Reino de Deus.
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