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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Calvino: O Comentário sobre Gálatas e a formação da tradição reformada [série].

 

Introdução geral à série

A presente reflexão dá continuidade à série publicada no blog Historiologia Protestante, na qual os comentários bíblicos de João Calvino vêm sendo considerados segundo a ordem cronológica de suas primeiras edições. Depois dos estudos dedicados ao Comentário de Romanos e aos Comentários de 1 e 2 Coríntios, chegamos agora ao volume paulino publicado em Genebra, em 1548, reunindo os comentários sobre Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses (GUEDES, 2022; GUEDES, 2024).

Essa ordem cronológica não é apenas um critério bibliográfico. Ela permite acompanhar o desenvolvimento do trabalho exegético de Calvino em sua relação com o ministério pastoral, com as controvérsias da Reforma e com a consolidação da tradição reformada. No caso de Romanos, vimos Calvino se aproximar daquela epístola que, para ele, abria caminho para os “tesouros escondidos” das Escrituras. Em 1 e 2 Coríntios, observamos como as tensões da comunidade coríntia ofereciam ao reformador um campo fértil para refletir sobre disciplina, ministério, fraqueza pastoral e vida eclesiástica em meio a conflitos (GUEDES, 2022; GUEDES, 2024). Com Gálatas, entramos agora em um terreno ainda mais diretamente ligado ao coração da controvérsia evangélica do século XVI: a justificação pela fé, a liberdade cristã e a suficiência da graça de Cristo.

O comentário de Calvino sobre Gálatas não apareceu inicialmente como obra isolada. Ele foi publicado em Genebra, em 1548, no volume latino Commentarii in quatuor Pauli Epistolas: ad Galatas, ad Ephesios, ad Philippenses, ad Colossenses. No mesmo ano, circulou também a edição francesa, impressa por Jean Girard, com o título Commentaire de M. Jean Calvin sur quatre Epistres de sainct Paul, assavoir aux Galatiens, Ephesiens, Philippiens, Colossiens. A forma editorial original, portanto, preservava a unidade de quatro epístolas paulinas, e essa unidade é teologicamente significativa. Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses não são tratadas por Calvino como peças desconectadas, mas como testemunhos apostólicos complementares sobre a graça, a igreja, a vida cristã e a supremacia de Cristo.

No caso específico de Gálatas, Calvino identifica uma controvérsia que, à primeira vista, poderia parecer restrita às cerimônias judaicas. Contudo, no argumento que antecede o comentário, ele deixa claro que a questão era muito mais profunda. Os adversários de Paulo não apenas defendiam a observância de certos ritos; eles transformavam tais práticas em questão de consciência e, com isso, ameaçavam a própria doutrina da justificação. Por essa razão, para Calvino, Paulo não discute uma questão secundária, mas o próprio modo pelo qual o pecador é aceito diante de Deus. Gálatas, assim, torna-se uma epístola decisiva para a defesa da livre graça de Deus contra qualquer sistema que coloque obras, cerimônias ou tradições humanas como fundamento da salvação.

A data da obra também é importante. Em 1548, Calvino já havia retornado a Genebra e estava envolvido na consolidação doutrinária, pastoral e institucional da Reforma naquela cidade. Seu comentário sobre Gálatas deve ser lido nesse contexto. Calvino escreve como exegeta atento ao texto bíblico, mas também como pastor preocupado com a consciência dos fiéis e como reformador empenhado em proteger a igreja de tudo aquilo que obscurecesse a suficiência de Cristo. Sua exposição de Paulo, portanto, não é meramente acadêmica. Ela nasce da convicção de que a Escritura deve governar a doutrina, o culto, a consciência e a vida da igreja.

A leitura proposta nesta série dialogará também com alguns intérpretes modernos de Calvino e da tradição reformada. Alister McGrath ajuda a situar Calvino como figura cuja influência ultrapassou os limites da teologia estrita, alcançando a formação cultural, política e intelectual do protestantismo ocidental (MCGRATH, 1990). Bruce Gordon, por sua vez, permite perceber o reformador dentro das tensões concretas do século XVI, não como personagem abstrato, mas como homem envolvido nas lutas, ambiguidades, virtudes e limites da Reforma europeia (GORDON, 2009). David W. Hall contribui para considerar a extensão posterior do legado calviniano no mundo reformado, especialmente em sua recepção eclesiástica e cultural (HALL, 2008). Richard A. Muller, por fim, oferece uma advertência metodológica indispensável: Calvino deve ser compreendido em seu próprio contexto, em continuidade e descontinuidade com seus predecessores, contemporâneos e sucessores, sem que toda a tradição reformada posterior seja reduzida simplesmente ao pensamento de um único reformador (MULLER, 2000; MULLER, 2003; MULLER, 2012).

Essa advertência é particularmente necessária. O Comentário de Gálatas será estudado aqui como testemunha decisiva da tradição reformada, mas não como se Calvino, isoladamente, fosse o único arquiteto de todo o calvinismo posterior. A tradição reformada histórica é mais ampla do que Calvino, embora Calvino seja uma de suas vozes centrais. Desse modo, esta série procurará evitar dois extremos: de um lado, reduzir Calvino a mero produto de seu tempo; de outro, transformar todo o desenvolvimento reformado posterior em simples repetição de suas ideias.

A história editorial do comentário reforça essa perspectiva. A edição de 1548 situa Calvino no calor da Reforma genebrina. No século XIX, William Pringle traduziu e editou os comentários sobre Gálatas e Efésios para a Calvin Translation Society, transmitindo Calvino ao protestantismo anglófono vitoriano. No século XX, David W. Torrance e Thomas F. Torrance participaram do esforço de tornar os comentários do Novo Testamento de Calvino acessíveis ao leitor moderno. Mais recentemente, a edição crítica de Helmut Feld, publicada pela Librairie Droz, recolocou os comentários sobre Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses no âmbito da pesquisa acadêmica especializada. Cada uma dessas edições interpreta Calvino de alguma maneira: Girard o apresenta no contexto da Reforma do século XVI; Pringle o transmite ao público protestante de língua inglesa do século XIX; os Torrance o tornam legível para o leitor contemporâneo; Feld o reinsere no campo da crítica textual e da investigação histórica.

Portanto, a história do Comentário de Gálatas não se limita ao momento de sua publicação. Trata-se de uma obra que atravessou séculos, foi traduzida, reeditada e apropriada por diferentes gerações da tradição reformada. Seu valor não está apenas no que Calvino diz sobre Paulo, mas também no modo como sua leitura de Paulo ajudou a formar uma consciência reformada sobre o evangelho, a liberdade cristã, a autoridade apostólica, a função da lei e a vida da igreja sob a graça.

Estudar o Comentário de Gálatas de João Calvino é, portanto, entrar em uma das oficinas centrais da Reforma. Ali se vê o intérprete bíblico, o pastor da igreja, o polemista reformado e o teólogo da graça trabalhando juntos. Mais do que uma peça do passado, o comentário permanece como testemunho de uma convicção fundamental da tradição reformada: quando a igreja retorna ao texto apostólico, ela redescobre que sua liberdade, sua doutrina e sua vida dependem inteiramente da graça de Deus em Cristo.

 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Referências bibliográficas

CALVINO, João. Commentarii in quatuor Pauli Epistolas: ad Galatas, ad Ephesios, ad Philippenses, ad Colossenses. Genevae: Ioannes Gerardus, 1548.

CALVINO, João. Commentaire de M. Jean Calvin sur quatre Epistres de sainct Paul, assavoir aux Galatiens, Ephesiens, Philippiens, Colossiens. Genève: Jean Girard, 1548.

CALVIN, John. Commentaries on the Epistles of Paul to the Galatians and Ephesians. Tradução de William Pringle. Edinburgh: Calvin Translation Society, 1854.

CALVIN, John. The Epistles of Paul the Apostle to the Galatians, Ephesians, Philippians and Colossians. Edição de David W. Torrance e Thomas F. Torrance. Grand Rapids: Eerdmans, 1965.

CALVIN, Jean. Commentarius in Epistolas Pauli ad Galatas, ad Ephesios, ad Philippenses, ad Colossenses. Edição de Helmut Feld. Genève: Librairie Droz, 1992.

GORDON, Bruce. Calvin. New Haven: Yale University Press, 2009.

GUEDES, Ivan Pereira. Calvino: Comentários Bíblicos em Ordem Cronológica. Historiologia Protestante, 2020. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2020/07/calvino-comentarios-biblicos-em-ordem.html. Acesso em: 27 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Calvino e seus Comentários Bíblicos em Ordem Cronológica: Romanos. Historiologia Protestante, 2022. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2022/01/. Acesso em: 27 abr. 2026.

GUEDES, Ivan Pereira. Calvino: Comentários Bíblicos em Ordem Cronológica — 1 e 2 Coríntios. Historiologia Protestante, 2024. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2024/05/calvino-comentarios-biblicos-em-ordem.html. Acesso em: 27 abr. 2026.

HALL, David W. The Legacy of John Calvin: His Influence on the Modern World. Phillipsburg: P&R Publishing, 2008.

MCGRATH, Alister E. A Life of John Calvin: A Study in the Shaping of Western Culture. Oxford: Basil Blackwell, 1990.

MULLER, Richard A. The Unaccommodated Calvin: Studies in the Foundation of a Theological Tradition. Oxford: Oxford University Press, 2000.

MULLER, Richard A. After Calvin: Studies in the Development of a Theological Tradition. Oxford: Oxford University Press, 2003.

MULLER, Richard A. Calvin and the Reformed Tradition: On the Work of Christ and the Order of Salvation. Grand Rapids: Baker Academic, 2012.

 

Reforma Protestante: Erasmo e Lutero – Humanismo e Reforma [1º artigo da série]

 

Nota de Apresentação

Estamos iniciando esta série como uma releitura contemporânea inspirada na obra clássica Short Studies on Great Subjects (Vol. I), escrita por James Anthony Froude no século XIX. O capítulo Times of Erasmus and Luther serve como eixo central, ao examinarmos o contexto intelectual e religioso da Reforma e o contraste entre o humanismo de Erasmo e a teologia de Lutero (FROUDE, 1867).

Ao longo dos textos, utilizaremos a expressão “teologia da Reforma”, especialmente em sua expressão luterana inicial, para evitar confusões com outras vertentes surgidas a partir do grande movimento reformador, no qual muitos acabaram levando suas posições a extremos muito além da proposta teológica de Lutero. Essa cautela terminológica é importante, pois expressões como “reforma”, “protestante”, “luterano” e “reformado” assumiram sentidos distintos no desenvolvimento histórico do movimento reformador (GUEDES, 2014).

A cada artigo buscaremos traduzir o olhar de Froude para o momento contemporâneo, conectando seus insights históricos às questões culturais e espirituais que ainda ressoam nos dias atuais. Não se trata de uma reprodução literal da obra, mas de uma interpretação que procura tornar acessível ao leitor contemporâneo os dilemas que marcaram o início da Reforma e que continuam a ecoar em nossa civilização: razão e fé, reforma gradual e ruptura radical.

Nesse percurso, Froude será nosso ponto de partida, mas não nosso único interlocutor. Autores como Jacob Burckhardt, Johan Huizinga, Roland Bainton e Diarmaid MacCulloch ajudam a ampliar o quadro histórico, seja destacando o espírito do Renascimento, seja lembrando a permanência de elementos medievais, seja analisando a Reforma como fenômeno religioso, cultural e político (BURCKHARDT, 1860; HUIZINGA, 1919; BAINTON, 1950; MACCULLOCH, 2003).

Europa no início do século XVI

No alvorecer do século XVI, a Europa vivia um momento de transição. O Renascimento havia despertado uma nova confiança na razão e na dignidade humana, enquanto a Igreja Católica, instituição central da vida espiritual e política, enfrentava críticas crescentes.

Jacob Burckhardt, ao interpretar o Renascimento, destaca justamente essa emergência de uma nova consciência do indivíduo e de sua relação com o mundo. Essa leitura ajuda a compreender por que o ambiente intelectual europeu se tornava mais sensível à crítica, à investigação das fontes e à necessidade de renovação cultural (BURCKHARDT, 1860).

Ao mesmo tempo, como lembra Johan Huizinga, esse período ainda carregava profundamente as marcas da espiritualidade medieval. A Europa do início do século XVI não era simplesmente moderna; era uma sociedade em transição, na qual antigas formas religiosas, políticas e simbólicas ainda permaneciam vivas (HUIZINGA, 1919).

A venda de indulgências, a corrupção clerical e o distanciamento entre a hierarquia e os fiéis criavam um ambiente de descontentamento. Esse cenário dialoga com os antecedentes históricos da Reforma, especialmente com as críticas à corrupção e aos desvios teológicos acumulados nos séculos finais da Idade Média (GUEDES, 2017; 2026a).

Froude percebe esse cenário como um momento em que a autoridade espiritual da Igreja começava a ser questionada não apenas por rebeldia, mas por uma inquietação moral mais profunda. A crise que se anunciava não era apenas institucional, mas também espiritual e civilizacional (FROUDE, 1867).

A força das ideias

A invenção da imprensa por Gutenberg, poucas décadas antes, foi decisiva. Textos que antes circulavam apenas em círculos restritos passaram a alcançar públicos mais amplos. Obras clássicas, traduções da Bíblia e tratados teológicos tornaram-se acessíveis, permitindo que o debate religioso e filosófico se expandisse para além das universidades e mosteiros.

Esse ponto pode ser compreendido à luz da relação entre Bíblia, Renascença e imprensa. A tipografia não apenas multiplicou livros; ela transformou as condições de circulação do conhecimento, tornando possível que textos bíblicos, panfletos, comentários e tratados reformadores alcançassem um público cada vez mais amplo (GUEDES, 2016a; 2026c).

Nesse ponto, a leitura de Froude dialoga bem com historiadores posteriores da Reforma. Diarmaid MacCulloch, por exemplo, mostra que a Reforma não pode ser compreendida apenas como uma disputa doutrinária, mas também como um fenômeno de comunicação, circulação de ideias e transformação cultural. A imprensa deu velocidade e alcance a debates que, em outra época, talvez permanecessem restritos ao ambiente acadêmico ou clerical (MACCULLOCH, 2003).

A força das ideias, portanto, não estava apenas em seu conteúdo, mas também em sua nova capacidade de circulação. O que antes poderia ser controlado por autoridades locais passou a escapar mais facilmente ao domínio institucional.

Tensões espirituais e sociais

A espiritualidade popular buscava autenticidade e proximidade com Deus, enquanto intelectuais humanistas defendiam uma reforma moral e cultural dentro da Igreja. Ao mesmo tempo, príncipes e governantes viam na crise religiosa uma oportunidade de afirmar sua autonomia frente ao poder papal. Assim, a Reforma não foi apenas um movimento espiritual, mas também político e social.

Esse quadro mais amplo ajuda a compreender por que a Reforma ocorreu justamente no século XVI. Ela não surgiu de uma causa única, mas da convergência entre crise religiosa, transformações culturais, interesses políticos, expansão da leitura e busca por renovação espiritual (GUEDES, 2013; 2026b).

Roland Bainton, ao tratar de Lutero, ajuda a compreender também a dimensão existencial da Reforma. Lutero não aparece apenas como reformador institucional, mas como alguém profundamente marcado pela pergunta sobre salvação, culpa, graça e consciência diante de Deus. Isso permite perceber que a Reforma não nasceu somente de abusos externos, mas também de angústias espirituais internas (BAINTON, 1950).

O terreno preparado

Nesse cenário, duas figuras se destacaram: Erasmo de Roterdã, com sua proposta de renovação gradual e racional, e Martinho Lutero, que transformou a crítica em ruptura radical. O encontro — e o desencontro — entre suas ideias seria decisivo para o rumo da cristandade.

Froude interpreta esse contraste como um dos grandes dramas espirituais do século XVI. Erasmo aparece como o homem da inteligência refinada, da prudência e da crítica moderada; Lutero, como o homem da convicção, da coragem pública e da ruptura inevitável. Essa oposição será um dos fios condutores de nossa série (FROUDE, 1867).

Ao mesmo tempo, será importante ler Froude criticamente. Sua admiração por Lutero às vezes o leva a julgar Erasmo com severidade excessiva, como se a moderação fosse necessariamente fraqueza. Outros autores permitem relativizar essa conclusão, mostrando que Erasmo também respondia a uma crise real: o medo de que a reforma se transformasse em divisão, violência e desordem.

Assim, o terreno da Reforma estava preparado por múltiplas forças: a crítica humanista, a crise moral da Igreja, a circulação impressa das ideias, a busca popular por uma fé mais autêntica e os interesses políticos dos governantes. A partir desse ponto, Erasmo e Lutero deixam de ser apenas personagens históricos e passam a representar duas possibilidades permanentes diante de toda crise espiritual: reformar por dentro ou romper em nome da verdade.

 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Referências Bibliográficas

BAINTON, Roland H. Here I Stand: A Life of Martin Luther. Nashville: Abingdon Press, 1950. Obra clássica sobre Lutero, útil para compreender a dimensão espiritual, existencial e teológica da Reforma, especialmente a crise de consciência que marca a trajetória do reformador alemão.

BURCKHARDT, Jacob. Die Kultur der Renaissance in Italien. Basel: Schweighauser, 1860. Referência importante para compreender o Renascimento como momento de afirmação da individualidade, da cultura clássica e de uma nova consciência histórica e humana.

FROUDE, James Anthony. Short Studies on Great Subjects. Vol. I. London: Longmans, Green, and Co., 1867. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/20755/20755-h/20755-h.htm. Acesso em: 27 abr. 2026. Obra-base desta série. O capítulo Times of Erasmus and Luther oferece o eixo interpretativo do contraste entre Erasmo e Lutero, especialmente entre reforma gradual e ruptura religiosa.

GUEDES, Ivan Pereira. Reforma Religiosa: Por que ocorreu no século XVI. Historiologia Protestante, 13 out. 2013. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2013/10/reforma-religiosa-por-que-ocorreu-no.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Utilizado para reforçar a compreensão da Reforma como fenômeno de múltiplas causas, envolvendo fatores espirituais, culturais, sociais e políticos.

GUEDES, Ivan Pereira. Contexto da Reforma Protestante: entendendo corretamente os termos. Historiologia Protestante, 30 out. 2014. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2014/10/contexto-da-reforma-protestante.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Referência usada para justificar a cautela terminológica em torno de expressões como “Reforma”, “protestante”, “luterano” e “reformado”.

GUEDES, Ivan Pereira. A Bíblia, a Renascença e a Imprensa. Historiologia Protestante, 31 dez. 2016a. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2016/12/a-biblia-renascenca-e-imprensa.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Utilizado para reforçar a importância da imprensa, da circulação bíblica e do ambiente renascentista na formação do cenário intelectual da Reforma.

GUEDES, Ivan Pereira. Antes da Reforma Protestante – Corrupção e Desvios Teológicos. Historiologia Protestante, 26 jul. 2017. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2017/07/antes-da-reforma-protestante-corrupcao.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Auxilia na contextualização dos abusos eclesiásticos, da corrupção clerical, das indulgências e das tensões religiosas anteriores à Reforma.

GUEDES, Ivan Pereira. Reforma – “1517 – O Ano da Reforma Protestante” – antecedentes da Reforma. Historiologia Protestante, 24 fev. 2026a. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2026/02/reforma-1517-o-ano-da-reforma.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Referência central para o tratamento dos antecedentes históricos da Reforma, mostrando que 1517 deve ser compreendido como resultado de tensões acumuladas e não como evento isolado.

GUEDES, Ivan Pereira. A Era da Reforma – introdução [série]. Historiologia Protestante, 16 abr. 2026b. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2026/04/a-era-da-reforma-introducao-serie.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Serve como ponte temática para esta nova série, situando a Reforma em um quadro amplo de transformações culturais, políticas, sociais e religiosas.

GUEDES, Ivan Pereira. A Bíblia de Gutenberg – significado e relevância [1]. Historiologia Protestante, 2026c. Disponível em: https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2026/04/a-biblia-de-gutenberg-significado-e.html. Acesso em: 27 abr. 2026. Referência usada para aprofundar o papel da imprensa e da Bíblia de Gutenberg como elementos decisivos na transformação da cultura escrita europeia.

HUIZINGA, Johan. Herfsttij der Middeleeuwen. Haarlem: H. D. Tjeenk Willink, 1919. Obra importante para contrabalançar uma leitura excessivamente moderna do século XVI, lembrando a permanência da sensibilidade medieval na passagem para a modernidade.

MACCULLOCH, Diarmaid. Reformation: Europe’s House Divided, 1490–1700. London: Allen Lane, 2003. Referência historiográfica contemporânea para compreender a Reforma como fenômeno amplo, envolvendo religião, política, cultura, comunicação, poder e identidade europeia.

domingo, 26 de abril de 2026

Calvino: Muito Mais do que Teses Teológicas

 

Quando pensamos em João Calvino, muitas vezes a imagem que surge é a de um teólogo sistemático, associado quase exclusivamente à doutrina da predestinação. No entanto, reduzir Calvino a um dogma, seja qual for, é perder de vista sua verdadeira vocação: ser um pastor e intérprete da Escritura (WENDEL, 1963; GUEDES, 2020).

Sua teologia não decorre de especulação abstrata, mas da necessidade premente de edificar a Igreja, instruir os fiéis e conduzi-los ao conhecimento de Deus por meio da Palavra. Desta forma, sua obra teológica (Institutas) ou comentários bíblicos não devem ser lidos apenas pela perspectiva de dogmas doutrinários, mas como expressão de uma profunda preocupação pastoral, na qual exegese bíblica, reflexão teológica e vida eclesial se entrelaçam de forma inseparável (GUEDES, 2026a).

Essa perspectiva é confirmada por estudos importantes da recepção contemporânea de Calvino. Em John Calvin’s Ideas (HELM, 2004), evidencia-se a coerência interna do pensamento calviniano, mostrando que suas doutrinas não aparecem como peças autônomas, mas como elementos de uma visão teológica unificada, centrada na glória de Deus, na autoridade das Escrituras e na formação da vida cristã. Richard A. Muller, em The Unaccommodated Calvin (2000), insiste na necessidade de ler Calvino em seus próprios termos, evitando caricaturas que o reduzam a fórmulas dogmáticas isoladas. Anthony N. S. Lane, em John Calvin: Student of the Church Fathers (1999), demonstra que sua leitura bíblica se desenvolve em diálogo crítico com a tradição patrística, enquanto Bruce Gordon, em Calvin (2009), situa sua produção intelectual no interior das demandas concretas do ministério, da pregação e do governo eclesiástico.

Desse modo, torna-se metodologicamente perigoso destacar “teses teológicas” de Calvino como se elas pudessem ser compreendidas de forma independente do conjunto de sua elaboração teológica. Quando uma doutrina é separada do tecido bíblico, pastoral e eclesial no qual foi formulada, corre-se o risco de transformá-la em slogan, abstração ou caricatura (GUEDES, 2026b). Em Calvino, nenhum tema relevante deve ser lido isoladamente, porque cada formulação doutrinária recebe seu sentido do todo maior de sua teologia bíblica. A predestinação, por exemplo, perde sua função propriamente cristã quando arrancada do horizonte da união com Cristo, da certeza da salvação, da soberania divina e do consolo do crente (GUEDES, 2020; 2026a).

Isolada, ela endurece; integrada, ela edifica.

Por isso, as Institutas e os comentários bíblicos de Calvino não devem ser abordados como um conjunto teológico de enunciados dogmáticos dispersos, mas como partes de um mesmo esforço de interagir, expor e aplicar a Palavra de Deus à vida da Igreja. Para Calvino, Deus não é uma abstração metafísica, mas o Deus vivo que se comunica através das Escrituras, governa com sabedoria e chama seu povo à fé, à obediência e à perseverança. Ler Calvino adequada e corretamente, portanto, exige resistir à tentação de fragmentá-lo em teses célebres para sustentar esta ou aquela eclesiologia e reconhecer a unidade profunda entre sua exegese, sua dogmática e sua intenção pastoral.

 

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Guedes, Ivan Pereira

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Referências Bibliográficas (citadas no texto)

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Calvino – Profeta Ezequiel o "Canto do Cisne Inacabado de Calvino" (perícope 1:4-9 – 1ª parte)

 

O comentário sobre Ezequiel ocupa um lugar singular entre os escritos de Calvino, pois pertence aos seus últimos trabalhos exegéticos e foi publicado postumamente. A obra permaneceu incompleta em razão de sua morte, encerrando-se ao final do capítulo 20. Já profundamente debilitado, Calvino prosseguiu em seus labores de ensino, meditação, revisão e ditado, enquanto seus discípulos preservavam e editavam suas preleções. Após a última exposição, sua fraqueza o obrigou a recolher-se ao leito, impedindo-o de continuar a explicação do profeta.

Abaixo temos a segunda perícope do comentário de João Calvino sobre Ezequiel, correspondente a Ezequiel 1:4–9. A exposição de Calvino foi ministrada e posteriormente editada em latim, mas sua versão do texto bíblico não é mera reprodução da Vulgata: ela reflete o esforço humanista-reformado de retorno às fontes (ad fontes), isto é, ao texto hebraico do Antigo Testamento. Por isso, Calvino, em diversos momentos, confrontava a tradução latina tradicional com o hebraico e, quando julgava encontrar inadequações ou incoerências textuais, propunha uma renderização latina que considerava mais fiel ao original.

Vamos orar com Calvino:Concede-nos, Senhor, meditar nos mistérios celestiais da tua sabedoria, com verdadeiro progresso na piedade, para a tua glória e nossa edificação. Amém”.

Ezequiel 1:4

“Olhei, e eis que vinha do norte um vento tempestuoso, uma grande nuvem, e um fogo que se revolvia sobre si mesmo; e havia ao redor dele um resplendor; e do meio dele, como a aparência de âmbar, do meio do fogo.”

Devemos considerar primeiro o propósito desta visão. Não tenho dúvida de que Deus quis, antes de tudo, revestir seu servo de autoridade e, depois, inspirar terror no povo. Quando, portanto, uma forma terrível de Deus é aqui descrita, isso deve ser referido, em primeiro lugar, à reverência devida ao ensino que seria transmitido; pois, como já observamos e ainda observaremos adiante, o dever do Profeta era exercido entre um povo endurecido e rebelde. Sua arrogância precisava ser subjugada, pois, de outro modo, o Profeta teria falado a surdos. Mas Deus tinha outro fim em vista: deve-se manter uma analogia ou semelhança entre esta visão e a doutrina do Profeta.

Quanto à visão em si, alguns entendem pelos quatro animais as quatro estações do ano, pensando que aqui se celebra o poder de Deus no governo de todo o mundo. Mas esse sentido é forçado. Outros pensam que são representadas as quatro virtudes: no homem, a justiça; na águia, a prudência; no leão, a fortaleza; no boi, a perseverança. Embora seja uma conjectura engenhosa, não tem solidez. Outros ainda entendem o contrário, pensando que aqui se indicam quatro paixões: medo, esperança, tristeza e alegria. Outros falam de faculdades da alma. Mas essas conjecturas também são infantis.

Antigamente, era opinião comum que sob essa figura se representavam os quatro evangelistas: Mateus comparado ao homem, porque começa com a geração de Cristo; Marcos ao leão, porque começa com a pregação de João; Lucas ao boi, porque começa mencionando o sacerdócio; João à águia, porque penetra, por assim dizer, nos segredos do céu. Mas essa ficção não tem firmeza, pois desapareceria se fosse examinada adequadamente.

Outros pensam que se trata de uma descrição da glória de Deus na Igreja, tomando os animais como os perfeitos, que já fizeram maior progresso na fé, e as rodas como os fracos e indisciplinados. Mas depois acumulam muitas frivolidades, que é melhor sepultar de uma vez, sem gastar tempo refutando-as. Rejeito, portanto, todas essas interpretações; devemos agora ver o que o Profeta realmente quer dizer.

Já disse que o plano do Todo-Poderoso, ao dar ordens ao seu Profeta, era honrá-lo de tal modo que sua doutrina não fosse desprezada. Mas deve-se considerar a razão especial que mencionei: Deus mostra brevemente, por meio desse símbolo, com que propósito envia seu Profeta. As visões têm a maior semelhança possível com a doutrina.

Por isso, em minha opinião, Ezequiel diz: “Eis que um vento tempestuoso vinha do norte.” O povo já havia experimentado a vingança de Deus, quando Ele usara primeiro os assírios e depois os babilônios para castigá-los. Jeconias, como vimos, já havia ido para o exílio voluntário. Os judeus pensavam que ainda teriam morada tranquila em sua cidade e em sua terra, e zombavam da simplicidade daqueles que tão prontamente foram para o exílio.

O Profeta, portanto, diz que viu um vento tempestuoso vindo do norte. Esse ímpeto do vento ou tempestade deve ser referido ao juízo de Deus: Ele queria aterrorizar os judeus, para que não se entorpecessem em sua segurança. Depois de falar da tempestade, acrescenta que viu quatro seres viventes e quatro rodas ligadas entre si, para significar que seu movimento não se originava do acaso, mas de Deus.

Essas duas coisas devem ser unidas: a tempestade surgiu do norte, e Deus, autor da tempestade, foi visto sobre seu trono. Entretanto, para que a majestade de Deus impressionasse os judeus, ele diz que viu quatro seres viventes e quatro rodas ligadas. Pelos quatro seres viventes ele entende querubins; não precisamos de outra explicação, pois ele mesmo o explica no capítulo 10, quando vê Deus no templo: os quatro seres viventes estavam sob seus pés, e ele diz que são querubins.

Agora devemos ver por que são enumerados quatro animais, quando apenas dois querubins abraçavam a arca da aliança; e, em seguida, por que ele atribui quatro cabeças a cada um. Se quisesse acomodar sua linguagem aos ritos do santuário, por que não colocou apenas dois querubins, como Deus havia ordenado? A solução está próxima: o Profeta alude ao santuário e, ao mesmo tempo, adapta seu discurso à rudeza do povo. A religião deles se tornara tão obsoleta, e seu desprezo pela lei tão grande, que os judeus ignoravam o uso do santuário. Assim, adoravam a Deus como se Ele estivesse distante deles, rejeitando inteiramente seu cuidado providencial sobre os assuntos humanos.

Vemos, então, quão grosseiro era o torpor deles: embora muitas vezes castigados, nunca despertavam. Por isso, foi necessário propor-lhes uma nova forma. O Profeta toma metade dela do próprio santuário e assume a outra metade conforme exigia um povo tão rude — embora nada fabricasse de sua própria mente, pois falo aqui do conselho do Espírito Santo.

Deus, portanto, não quis afastar os judeus do santuário, pois este era o fundamento de todo correto entendimento da verdade. Mas, vendo que a forma legal não era suficiente, acrescentou novo auxílio; e, como deu quatro cabeças a cada querubim, também quis que seu número fosse quatro.

Quanto ao número, não duvido de que Deus quis ensinar que sua influência se difunde por todas as regiões do mundo; pois sabemos que o mundo é dividido em quatro partes. Para que o povo soubesse que a providência de Deus governa por toda parte, foram apresentados quatro querubins.

Também convém repetir que os anjos eram representados por querubins e serafins; pois aqueles chamados querubins aqui e em Ezequiel 10 são chamados serafins em Isaías 6. Sabemos que os anjos são chamados principados e potestades, e que a Escritura os chama, por assim dizer, as próprias mãos de Deus. Portanto, visto que Deus opera por meio dos anjos e os usa como ministros de seu poder, quando os anjos são apresentados, ali se torna manifesta a providência de Deus e seu poder no governo do mundo.

Esta é, então, a razão por que não apenas dois querubins foram postos diante dos olhos do Profeta, mas quatro: porque a providência de Deus devia ser evidente nas coisas terrenas. O povo imaginava que Deus estava confinado ao céu; por isso, o Profeta ensina não apenas que Ele reina no céu, mas também que governa os assuntos terrenos. Por essa razão, estende seu poder aos quatro cantos do globo.

Por que, então, cada animal tem quatro cabeças? Respondo que, por isso, se demonstra que a virtude angelical reside em todos os animais. Todavia, uma parte é tomada pelo todo, porque Deus, por seus anjos, opera não apenas no homem e nos demais animais, mas em toda a criação. E, porque as coisas inanimadas não têm movimento em si mesmas, Deus, querendo instruir um povo rude e lento, apresenta a imagem de todas as coisas sob a figura dos animais.

Quanto aos seres viventes: o homem ocupa o primeiro lugar, porque foi formado à imagem de Deus; o leão reina sobre os animais selvagens; o boi, por ser muito útil, representa todos os animais domésticos ou mansos; e, como a águia é ave régia, todas as aves são compreendidas sob esse nome. Aqui não estou fabricando alegorias, mas apenas explicando o sentido literal; pois me parece suficientemente claro que Deus significa a inspiração angelical pelos quatro querubins e a estende às quatro regiões da terra.

Ora, como é igualmente claro que nenhuma criatura se move por si mesma, mas que todos os movimentos vêm do secreto impulso de Deus, cada querubim tem quatro cabeças, como se fosse dito que os anjos administram o império de Deus não apenas em uma parte do mundo, mas em toda parte; e, além disso, que todas as criaturas são movidas como se estivessem unidas aos próprios anjos.

O Profeta, então, atribui quatro cabeças a cada um, porque, se confiarmos em nossos olhos ao observar o modo pelo qual Deus governa o mundo, a virtude angelical aparecerá em cada movimento. É como se os anjos tivessem as cabeças de todos os animais, isto é, compreendessem em si mesmos, aberta e visivelmente, todos os elementos e todas as partes do mundo.

Quanto às quatro rodas, não duvido de que significam aquelas mudanças que costumamos chamar de revoluções. Vemos o mundo continuamente mudando e assumindo, por assim dizer, novas faces, cada uma representada por uma nova revolução da roda, efetuada por impulso próprio ou externo. Como não existe condição fixa do mundo, mas se discernem mudanças contínuas, o Profeta une as rodas aos anjos, como se afirmasse que nenhuma mudança ocorre por acaso, mas depende de uma agência: a dos anjos; não que eles movam as coisas por poder inerente, mas porque são, como dissemos, as mãos de Deus.

E, porque essas mudanças são realmente contorções, o Profeta diz: “vi uma roda dentro de outra roda.” O curso das coisas não é contínuo; quando Deus começa a fazer algo, parece, como veremos novamente, recuar. Então muitas coisas concorrem mutuamente, de onde os estoicos imaginaram que o destino surgia daquilo que chamavam de conexão de causas.

Mas Deus ensina aqui seu povo de modo muito diferente: as mudanças do mundo são ligadas entre si de tal modo que todo movimento depende dos anjos, a quem Ele guia segundo sua vontade. Por isso, as rodas são ditas cheias de olhos. Penso que Deus opôs essa forma das rodas à opinião tola dos homens, pois os homens imaginam a Fortuna como cega, e que todas as coisas rolam numa confusão turbulenta. Deus, então, ao comparar as mudanças do mundo a rodas, chama-as “cheias de olhos”, para mostrar que nada é feito precipitadamente ou por impulso cego da fortuna.

Essa imaginação certamente nasce de nossa cegueira: somos cegos em meio à luz, e, portanto, quando Deus opera, pensamos que Ele vira todas as coisas de cabeça para baixo. E, porque não ousamos proferir blasfêmia tão grosseira contra Ele, dizemos que a Fortuna age sem consideração; mas, nesse meio-tempo, transferimos o império de Deus para a própria Fortuna. Esta é nossa condição: somos cegos, e ainda queremos lançar a causa de nossa cegueira sobre Deus. Por isso, o Profeta diz que as rodas têm olhos.

Agora entendemos o escopo da visão, e devemos nos aproximar de suas partes. Depois de dizer que um vento surgiu do norte e uma grande nuvem, acrescenta que havia também fogo envolvendo-se a si mesmo. Moisés usa a mesma palavra em Êxodo 9, ao falar da tempestade que Deus causou no Egito: havia fogo envolvido ou entrelaçado, e o esplendor do fogo.

Alguns explicam habilmente esse esplendor do fogo como se os juízos de Deus não fossem obscuros, mas expostos aos olhos de todos. Não concordo com esse sentido, nem o considero correto. Aqui, a majestade de Deus nos é descrita segundo o método usual das Escrituras. Ele diz que o fogo era esplêndido ao redor, e que havia como que a aparência de “Hasmal” no meio do fogo. Muitos pensam que Hasmal seja um anjo ou algum fantasma desconhecido, mas, em minha opinião, sem razão, pois Hasmal parece-me ser uma cor.

Jerônimo, seguindo o grego, usa a palavra electrum, mas me surpreende ao dizer que é mais precioso que ouro ou prata; pois o electrum é composto de ouro com uma quinta parte de prata, e, portanto, não excede ambos em valor. Mas, fosse electrum ou alguma cor extraordinária, ela retratava tão claramente ao Profeta a majestade de Deus que ele devia ser tomado de admiração, embora a visão não lhe fosse oferecida apenas para si pessoalmente, mas, como já disse, para toda a Igreja. A cor diferia da do fogo, para que o Profeta entendesse que o fogo era celestial e, como símbolo da glória de Deus, tinha forma diferente do fogo comum.

Ezequiel 1:5

“Também do meio dela saiu a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham semelhança de homem.”

Já expliquei por que Deus mostrou ao seu Profeta quatro anjos sob a forma de quatro animais. Era necessário afastar-se um pouco do santuário, visto que todo o culto legal se tornara desprezível aos profanos.

Deus, portanto, desce, por assim dizer, do céu e aparece familiarmente sobre a terra, como se dissesse que não reinava somente lá em cima entre seus anjos, mas que exercia seu poder aqui, porque os anjos estão envolvidos na terra e ligados a todas as regiões do globo. A conclusão é que a providência de Deus está difundida em toda parte.

Ele diz que esses animais tinham a semelhança de homem, o que não parece concordar com o restante do contexto. Logo dirá que cada animal tinha quatro cabeças, e depois que seus pés eram redondos ou semelhantes aos de um bezerro, como alguns interpretam. Mas aqui diz que tinham forma de homem. A solução é que seus pés, em primeiro lugar, eram semelhantes aos de homem, embora em alguns aspectos diferentes; e não há dúvida de que os querubins foram vistos pelo Profeta como anjos de Deus.

As asas também não convêm à natureza humana; mas ele quer dizer que tinham a estatura humana usual. Embora não fossem inteiramente semelhantes aos seres humanos, havia muita semelhança em sua aparência geral. Agora entendemos por que se diz que a semelhança era humana. [1]


OBS.: Calvino orava ao final de cada aula: “Deus Todo-Poderoso, visto que, por nossa lentidão, estamos tão presos à terra que, quando estendes a tua mão para nós, não conseguimos nos elevar até ti, concede-nos que, despertados pelo teu Espírito, aprendamos a erguer nossos afetos a ti e a lutar contra a nossa preguiça, até que, por uma aproximação mais íntima, tu te tornes tão familiarmente conhecido por nós, que finalmente cheguemos à fruição da plena e perfeita glória reservada para nós no céu, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

Utilização desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Referência Bibliográfica

CALVIN, John. Commentary on Ezekiel - Volume 1. www.reformedontheweb.com/home/.html (Reformed on the Web)



[1] Em razão do espaço limitado do blog, a exposição desta segunda perícope será dividida em duas partes, sendo a continuação apresentada na postagem seguinte.