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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Protestantismo Presbiteriano - Onde Nasceu a Igreja Presbiteriana?

Símbolo Igreja Presbiteriana da Escócia

A Bíblia aberta com o lema em latim “Nisi Dominus Frustra” (“Se não for o Senhor, em vão”).
A sarça ardente acima da Bíblia, acompanhada da cruz dourada — símbolo central da tradição reformada.
O cardo azul (flor nacional da Escócia) e a rosa branca, representando identidade e pureza.
A cruz de Santo André em escudo azul, ladeada por um báculo pastoral e uma espada.
 O lema “Nec tamen consumebatur” (“E contudo não era consumida”), reforçando a imagem bíblica da sarça ardente. 

Quando se pergunta sobre a origem da Igreja Presbiteriana, é bastante comum encontrarmos duas respostas. A primeira aponta para Genebra, associando sua origem diretamente a João Calvino. A segunda, especialmente entre aqueles que conheceram o presbiterianismo a partir de sua presença no Brasil, imagina que a Igreja Presbiteriana tenha surgido nos Estados Unidos.

As duas associações possuem alguma relação com a história do presbiterianismo, mas nenhuma delas responde adequadamente à pergunta sobre sua origem histórica.

A Igreja Presbiteriana, como expressão eclesiástica historicamente constituída, surgiu na Escócia durante o século XVI.

Essa afirmação, entretanto, precisa ser explicada. Afinal, qual foi o papel de Calvino? Qual foi a importância de Genebra? Onde entra John Knox? E por que o ano de 1578 é tão importante nessa história?

Calvino e Genebra: uma influência fundamental

Não é difícil compreender por que Genebra aparece com tanta frequência quando se fala sobre a origem do presbiterianismo.

João Calvino (1509–1564) foi uma das figuras mais importantes da segunda geração da Reforma Protestante. Em Genebra, desenvolveu uma estrutura teológica e eclesiástica que exerceu enorme influência sobre o mundo reformado.

A Instituição da Religião Cristã, suas exposições bíblicas, seus escritos sobre a Igreja e sua atuação pastoral em Genebra contribuíram para a formação de uma tradição reformada que ultrapassaria rapidamente as fronteiras da cidade.

A organização da Igreja de Genebra também é particularmente importante. Calvino defendeu uma estrutura na qual diferentes funções ministeriais fossem reconhecidas, incluindo pastores, doutores, presbíteros e diáconos. Os presbíteros tinham responsabilidade significativa na supervisão da vida e da disciplina da comunidade. Aqui encontramos elementos que posteriormente seriam importantes para o desenvolvimento do presbiterianismo.

Mas precisamos fazer uma distinção.

Calvino não fundou a Igreja Presbiteriana.

Ele foi fundamental para a formação da teologia reformada e exerceu enorme influência sobre a maneira como diversas Igrejas Reformadas compreenderam sua doutrina, seu ministério e seu governo eclesiástico. A organização da Igreja de Genebra, particularmente a participação dos presbíteros no governo e na disciplina da comunidade, tornou-se uma referência importante para outros contextos reformados.

Entretanto, essa influência não produziu uma única denominação.

O pensamento teológico e eclesiástico desenvolvido em Genebra seria recebido, adaptado e desenvolvido em diferentes regiões da Europa. As Igrejas Reformadas da Suíça, as Igrejas Reformadas Francesas e as Igrejas Reformadas dos Países Baixos, entre outras comunidades reformadas, assumiram elementos da tradição calvinista, mas desenvolveram suas próprias estruturas e trajetórias históricas.

O caso escocês possui uma particularidade importante. A Reforma da Escócia recebeu influência significativa de Genebra e de Calvino, especialmente por meio de John Knox, que conheceu diretamente a experiência da Igreja genebrina. Entretanto, os escoceses não simplesmente transplantaram a Igreja de Genebra para a Escócia. Eles desenvolveram, dentro de seu próprio contexto histórico, uma estrutura de governo eclesiástico que se tornaria uma das marcas distintivas do presbiterianismo.

Essa distinção é fundamental. Calvino foi um dos principais arquitetos da tradição teológica reformada, mas não o fundador de todas as igrejas que posteriormente seriam identificadas com essa tradição. Seu pensamento exerceu influência sobre diferentes comunidades, que assumiram formas históricas distintas.

Na Escócia, essa influência encontrou as circunstâncias específicas da Reforma conduzida por John Knox e seus companheiros e, posteriormente, o trabalho de uma nova geração de líderes, entre os quais se destacou Andrew Melville. Foi nesse processo que a concepção de governo por meio de presbíteros, assembleias e outros oficiais da Igreja adquiriu sua configuração propriamente presbiteriana.

Por isso, precisamos distinguir três coisas que muitas vezes são colocadas indevidamente no mesmo nível:

Calvino e Genebra — formação e desenvolvimento da tradição teológica reformada;

Reforma da Escócia — desenvolvimento histórico da Igreja presbiteriana;

Estados Unidos — posterior expansão e organização do presbiterianismo em outro contexto histórico.

Assim, a pergunta não deve ser simplesmente “quem fundou o presbiterianismo?”. É mais adequado perguntar como uma tradição teológica reformada, influenciada por Calvino e recebida em diferentes regiões, adquiriu na Escócia uma forma específica de governo eclesiástico que passou a ser conhecida como presbiterianismo. É justamente nesse processo que 1578 ganha sua importância.

Da Genebra de Calvino à Escócia de Knox

Um dos principais responsáveis pela ligação entre a experiência reformada de Genebra e a Reforma escocesa foi John Knox (c. 1514–1572). Ele esteve em Genebra durante seu exílio e conheceu de perto a organização da Igreja reformada daquela cidade. Sua permanência em Genebra foi importante para sua formação e para sua compreensão de como uma Igreja reformada poderia ser organizada. Ao retornar à Escócia, Knox tornou-se uma das principais figuras da Reforma escocesa.

Em 1560, o Parlamento escocês rompeu oficialmente com a autoridade papal e aprovou a Confissão Escocesa, preparada por Knox e outros reformadores. A Reforma, entretanto, não poderia limitar-se à elaboração de uma confissão de fé. Era necessário responder a outra pergunta:

Como deveria ser organizada a Igreja reformada da Escócia?

Essa questão conduziu à elaboração do First Book of Discipline, ou Primeiro Livro de Disciplina, também em 1560. Esse documento estabelecia princípios para a organização da Igreja, a formação de ministros, o culto, a disciplina e a administração dos recursos eclesiásticos. Portanto, já encontramos em 1560 algo muito importante:

a Reforma escocesa estava construindo uma Igreja com identidade própria.

A Reforma escocesa depois de Knox

John Knox morreu em 1572, mas a Reforma escocesa estava apenas começando uma nova etapa. A geração seguinte precisaria defender e aprofundar aquilo que havia sido iniciado.

Entre os principais nomes desse período estava Andrew Melville (1545–1622).

Melville havia estudado na Europa continental e estivera em Genebra.  Essa estadia o convenceu  de que os princípios bíblicos do sistema eclesiástico que haviam sido desenvolvidos e praticados por Calvino e a Companhia dos Pastores, era o único sistema de governo eclesiástico sancionado biblicamente, e ele começou então a dedicar todos os seus esforços para estabelecer tal sistema bíblico na Escócia. 

 Sua formação o colocou em contato com o ambiente intelectual e teológico da Reforma europeia. Ao retornar à Escócia, em 1574, tornou-se uma das figuras mais importantes na defesa de uma Igreja reformada independente da interferência direta da Coroa.

Sua atuação não pode ser compreendida simplesmente como uma continuação pessoal de Knox. Melville pertencia a uma nova geração e enfrentava problemas diferentes. A questão central agora era consolidar a estrutura da Igreja reformada e definir claramente a natureza de sua autoridade.

É nesse contexto que chegamos a 1578.

1578 — o Segundo Livro de Disciplina

Este ano tornou-se fundamental pois, a Assembleia Geral da Igreja da Escócia aprovou o documento que ficou conhecido como Second Book of Discipline (Segundo Livro de Disciplina).

Este é um dos marcos decisivos para a história do presbiterianismo.

O documento estabelecia de maneira muito mais precisa a estrutura e o governo da Igreja. Sua preocupação não era apenas doutrinária, mas também institucional: quem deveria governar a Igreja? Qual seria a autoridade dos ministros? Qual seria a função dos presbíteros? Qual seria o papel dos diáconos? Qual deveria ser a relação entre Igreja e magistratura civil?

A resposta estava fundamentada em uma convicção central:

Cristo é o único Cabeça da Igreja.

O Segundo Livro de Disciplina afirmava:

“Esta potência e política eclesiástica flui imediatamente de Deus, e do Mediador Jesus Cristo, e é espiritual, não tendo uma cabeça temporal na terra, mas somente Cristo, o único Rei espiritual e Governador da sua Igreja.”

Essa afirmação tinha profundas implicações. Se Cristo era o único Cabeça da Igreja, nenhum homem poderia ocupar essa posição. Nem o papa, evidentemente, mas também nenhum rei.

A questão era particularmente delicada na Escócia porque os monarcas procuravam exercer influência crescente sobre a Igreja.

Assim, a Reforma escocesa estava estabelecendo não apenas uma teologia reformada, mas também uma concepção específica de governo da Igreja.

O governo presbiteriano

O Segundo Livro de Disciplina apresenta uma estrutura formada por diferentes ofícios e instâncias de governo.

Os ministros tinham a responsabilidade pela pregação e pelo ensino da Palavra. Os presbíteros participavam do governo e da disciplina da Igreja.

Os diáconos estavam relacionados especialmente à administração dos recursos destinados ao serviço cristão e à assistência aos necessitados.

O aspecto fundamental era que o governo não deveria ficar concentrado em uma única pessoa. A Igreja deveria ser governada de maneira colegiada, por meio de ministros e presbíteros reunidos em diferentes níveis de responsabilidade.

É daí que vem o termo presbiteriano: do grego presbyteros, “presbítero”, “ancião”.

Não significa que os presbíteros substituíram os ministros, mas que o governo da Igreja seria exercido de maneira conjunta, dentro de uma estrutura organizada de conselhos e assembleias.

Essa estrutura se tornaria uma das marcas distintivas do presbiterianismo:

Uma Igreja sem “senhores”

O Segundo Livro de Disciplina também rejeitava uma concepção de liderança baseada no domínio pessoal. Os líderes da Igreja deveriam ser ministros e servos, seguindo o exemplo de Cristo. A ideia estava em profunda sintonia com a advertência apostólica: “Nem como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pedro 5.3). O princípio era fundamentalmente importante porque estabelecia uma diferença entre autoridade e dominação.

O presbítero possuía autoridade, mas essa autoridade não deveria ser exercida como propriedade pessoal. O ministro possuía autoridade espiritual, mas não era um senhor absoluto da congregação.

A autoridade deveria ser exercida dentro da Palavra de Deus e em comunhão com os demais oficiais da Igreja. Essa concepção permaneceria como uma das marcas distintivas do pensamento presbiteriano.

A escolha dos líderes

Outro elemento significativo estava relacionado à escolha dos oficiais.

O Segundo Livro de Disciplina rejeitava a prática de simplesmente impor alguém a uma congregação contra sua vontade. A eleição deveria envolver a própria comunidade e os responsáveis pelo governo da Igreja. Não podemos incorrer em erro interpretando isso como se fosse uma democracia moderna transportada para o século XVI. Pois, a sociedade daquele período possuía estruturas políticas, sociais e religiosas muito diferentes das nossas.

O que encontramos é algo mais específico: um modelo eclesiástico no qual a autoridade era distribuída, exercida colegialmente e submetida à comunidade da Igreja e à Palavra de Deus. Esse princípio teria consequências profundas na história posterior do presbiterianismo.

1578 não foi um acontecimento isolado

Por isso, é importante não transformar 1578 em uma espécie de “data de nascimento” isolada. A história foi gradual. Podemos visualizar esse processo:

1560 — Reforma da Igreja da Escócia e Primeiro Livro de Disciplina.

1572 — morte de John Knox.

1574 — retorno de Andrew Melville à Escócia.

1578 — Segundo Livro de Disciplina, aprofundando a estrutura presbiteriana.

1592 — reconhecimento legal decisivo do sistema presbiteriano pelo Parlamento escocês.

Essa sequência é muito mais significativa do que simplesmente afirmar que “a Igreja Presbiteriana nasceu em 1578”.

Evidente que 1578 representa um marco decisivo na formulação da ordem presbiteriana, enquanto sua consolidação jurídica ocorreu posteriormente.

Agora podemos retornar à pergunta inicial. Então, onde nasceu a Igreja Presbiteriana?

Foi em Genebra?

Não exatamente. Genebra foi fundamental para a formação da tradição reformada. Calvino desenvolveu ali uma importante teologia da Igreja e uma estrutura eclesiástica que influenciaria profundamente outras comunidades reformadas. John Knox também recebeu importante influência da experiência genebrina. Mas o presbiterianismo não nasceu simplesmente como uma extensão da Igreja de Genebra.

Foi nos Estados Unidos?

Também não. O presbiterianismo chegou posteriormente à América do Norte, onde encontraria terreno fértil para sua expansão e desenvolvimento institucional. A tradição americana se tornaria extremamente importante na história mundial do presbiterianismo, mas sua origem é anterior à formação das igrejas presbiterianas norte-americanas.

Então, onde devemos situar seu nascimento histórico?

Na Escócia do século XVI, no processo iniciado pela Reforma de 1560 e desenvolvido nas décadas seguintes, particularmente com a formulação do Segundo Livro de Disciplina em 1578 e sua posterior consolidação. Por isso, seja melhor falar não de um único “dia do nascimento”, mas de um processo de formação do presbiterianismo escocês.

Uma herança que ultrapassaria a Escócia

A importância desse processo seria enorme. A tradição presbiteriana ultrapassaria as fronteiras escocesas e se espalharia pelas Ilhas Britânicas e, posteriormente, por outros continentes.

Mas essa é outra etapa da história. Por enquanto, precisamos guardar uma distinção fundamental:

Calvino não fundou a Igreja Presbiteriana.

Genebra não foi a sede de nascimento do presbiterianismo.

Os Estados Unidos não foram sua origem.

A tradição eclesiástica presbiteriana nasceu historicamente no contexto da Reforma da Escócia, recebendo importantes influências do mundo reformado europeu e desenvolvendo ali uma forma própria de governo eclesiástico.

Genebra forneceu importantes elementos teológicos e eclesiásticos. Knox ajudou a introduzir e adaptar a experiência reformada no contexto escocês. Melville e a geração seguinte contribuíram para sua consolidação. O Segundo Livro de Disciplina deu forma mais definida à estrutura presbiteriana.

E assim, em 1578, a Igreja da Escócia deu um passo decisivo na construção daquela tradição que, nos séculos seguintes, seria conhecida em diferentes partes do mundo como presbiterianismo.

A caminhada continua...

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Reflexão Bíblica

http://reflexaoipg.blogspot.com.br 

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Bibliografia

CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.
Obra fundamental para compreender a teologia reformada de Calvino e sua concepção da Igreja, especialmente importante para distinguir sua influência sobre o presbiterianismo de uma suposta fundação da Igreja Presbiteriana.

CAMERON, Euan. John Knox and Andrew Melville. In: FERGUSSON, David; ELLIOTT, Mark W. (eds.). The History of Scottish Theology. Oxford: Oxford University Press, 2019.    
Analisa a passagem da primeira geração da Reforma escocesa, representada por Knox, para a geração de Melville e o desenvolvimento posterior da Igreja reformada.

HAZLETT, Ian (ed.). A Companion to the Reformation in Scotland, c.1525–1638: Frameworks of Change and Development. Leiden: Brill, 2021.       
Obra abrangente para compreender a Reforma escocesa em seu contexto religioso, político e institucional, evitando reduzi-la à atuação de uma única personalidade.

KIRK, James (ed.). The Second Book of Discipline. Edinburgh: St Andrew Press, 1980.
Fonte essencial para o estudo do documento de 1578 e da organização do governo presbiteriano escocês.

KNOX, John. The Works of John Knox. Edinburgh: The Bannatyne Club.
Coleção importante para compreender a Reforma escocesa a partir dos próprios escritos de seu principal reformador.

REID, Steven J.; MASON, Roger A. (eds.). Andrew Melville (1545–1622): Writings, Reception, and Reputation. Farnham: Ashgate, 2014.     
Reúne estudos sobre Andrew Melville, sua formação, seus escritos e sua importância no desenvolvimento da Igreja presbiteriana escocesa.

RYRIE, Alec. The Origins of the Scottish Reformation. Manchester: Manchester University Press, 2006.    
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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Ansiedade Que Moldou a Idade Média

 

Quando falamos em Idade Média, precisamos lembrar que estamos diante de um período histórico extraordinariamente longo e complexo. São cerca de mil anos de história, marcados por profundas transformações políticas, sociais, culturais e religiosas. Entretanto, especialmente entre nós, evangélicos, é comum que toda essa longa trajetória seja apresentada quase exclusivamente como o cenário que antecedeu a Reforma Protestante.

Nessa leitura simplificada, a história parece caminhar diretamente para 1517: a Igreja medieval, Martinho Lutero, as 95 Teses e, finalmente, a Reforma Protestante. Como se durante séculos a história estivesse apenas aguardando o aparecimento do Reformador.

Mas a realidade foi muito mais complexa.

Lutero não surgiu fora da Idade Média. Ele nasceu em 1483, no final daquele período histórico, e foi profundamente formado pelo mundo medieval. Antes de se tornar o Reformador que conhecemos, foi criança, estudante, monge, sacerdote e professor dentro de uma sociedade marcada por séculos de tradição cristã. É justamente por isso que Lutero pode ser compreendido como uma figura de transição: formado no mundo medieval, mas participante de profundas transformações que conduziriam a uma nova configuração da sociedade europeia.

O mesmo princípio vale, guardadas as proporções, para outros personagens da Reforma. Calvino e Zwínglio também receberam sua formação dentro de um mundo que não havia simplesmente desaparecido quando a Reforma começou. Eles carregavam consigo perguntas, conceitos, preocupações e experiências provenientes de uma longa tradição cristã.

Isso nos conduz a uma pergunta que considero fundamental: como era viver naquele mundo?

Como homens e mulheres medievais compreendiam a existência? O que significava nascer, viver, adoecer e morrer em uma sociedade na qual a perspectiva eternidade ocupava um lugar tão importante? Como o pecado era compreendido? Como uma pessoa poderia ter segurança diante de Deus? E o que acontecia quando as respostas religiosas oferecidas pela sociedade não conseguiam tranquilizar a consciência?

É a partir dessas perguntas que nasce esta pequena investigação.

Não pretendemos escrever uma história geral da Idade Média. Tampouco seria possível fazê-lo em um único artigo. Nosso objetivo é muito mais específico: observar uma dimensão da experiência medieval que pode nos ajudar a compreender melhor o mundo no qual a Reforma Protestante nasceu.

Estou chamando essa dimensão de ansiedade.

Precisamos, entretanto, estabelecer desde o início o que queremos dizer com essa palavra. Não estamos falando de ansiedade no sentido clínico contemporâneo, nem pretendemos aplicar diagnósticos psicológicos modernos a homens e mulheres que viveram há séculos. Estamos utilizando o termo para descrever uma experiência humana marcada pela insegurança, pelo medo, pela consciência da fragilidade, pela culpa e pela necessidade de encontrar respostas diante das grandes questões da existência.

É nesse ponto que a reflexão de Paul Tillich nos oferece uma ferramenta conceitual interessante. Em The Courage to Be, publicado em 1952, ele distingue três formas fundamentais de ansiedade: aquela relacionada à morte e ao destino, aquela relacionada à culpa e à condenação e aquela relacionada ao vazio e à falta de sentido.

Não faremos, porém, uma leitura da Idade Média simplesmente através de Tillich. Ele não será nosso historiador medieval. Sua contribuição será outra.

Tillich nos fornece a lente; os historiadores nos fornecem o cenário; os Reformadores nos fornecem as respostas teológicas.

Essa será a bússola metodológica de nossa caminhada.

Para compreender o mundo medieval, recorreremos à historiografia e às fontes históricas. Quando chegarmos aos Reformadores, procuraremos ouvir os próprios textos de Lutero, Calvino e Zwínglio, juntamente com os estudos daqueles que os interpretaram. Dessa maneira, procuraremos evitar tanto o anacronismo quanto a tentação de explicar a Reforma a partir de uma única causa. Mas também precisamos evitar outra simplificação, pois não podemos afirmar que a Idade Média foi uma época dominada exclusivamente pelo medo. 

Havia medo da morte, certamente, mas havia também esperança.

Havia consciência do pecado, mas havia igualmente confiança na misericórdia de Deus.

Havia sofrimento, mas também alegria, celebração, amizade, trabalho, arte, fé e expectativa de salvação.

Por isso, a palavra “ansiedade” não pretende resumir toda a experiência medieval. Ela será apenas uma chave para observar algumas das tensões mais profundas que permeavam a vida cotidiana de milhões de pessoas.

Nossa investigação estará organizada em torno de três grandes dimensões: a sombra da morte, o peso da culpa e a busca pelo sentido da vida.

A morte lembrava constantemente a fragilidade da existência. A culpa colocava diante da consciência a realidade do pecado e do julgamento. E a busca pelo sentido levava homens e mulheres a perguntar pelo propósito da vida, pela relação com Deus e pelo destino eterno.

Essas três dimensões não estavam separadas mas amalgamadas ou seja elas estavam entrelaçadas na mente e coração de todas as pessoas, fossem reis ou vassalos, cultos ou ignorantes, ricos ou pobres.

Assim temos uma sequência: a morte conduzia à pergunta sobre o julgamento; o julgamento conduzia à consciência do pecado e a consciência do pecado conduzia à busca de segurança diante de Deus. E essa busca por segurança estava relacionada à maneira como cada pessoa compreendia a salvação.

É justamente nesse ponto que a história da Reforma começa a se aproximar do nosso tema.

Mas não estamos afirmarmando que a Reforma Protestante foi simplesmente uma resposta à ansiedade medieval. Seria reduzir um movimento histórico extraordinariamente complexo a uma única causa. A Reforma envolveu uma gama de questões: bíblicas, teológicas, eclesiásticas, culturais, políticas, sociais e intelectuais.

Então podemos partir de uma pergunta diferente: de que maneira as inquietações daquele mundo ajudaram a formar as perguntas às quais os Reformadores procuraram responder?

É uma pergunta reducionista, mas historicamente significativa. E o professor Timothy George, em sua Teologia dos Reformadores, segue uma direção particularmente útil para nossa proposta. Antes de apresentar Lutero, Zwínglio e Calvino, dedica uma parte inicial à teologia e à vida espiritual do final da Idade Média, estabelecendo o ambiente no qual esses Reformadores foram formados. É justamente esse movimento que pretendemos acompanhar, ainda que de maneira muito mais modesta.

Lutero, Calvino e Zwínglio não eram homens deslocados de seu tempo. Eram homens de carne e osso, formados em uma sociedade concreta, com suas virtudes, limitações, conhecimentos, medos e esperanças. Não eram anjos que chegaram à história trazendo respostas prontas. Eram seres humanos vivendo diante de Deus e procurando compreender as grandes questões da fé cristã. É por isso que devemos caminhar primeiro pelo cenário antes de chegar aos Reformadores.

Começaremos pela sombra da morte. Depois examinaremos o peso da culpa e a busca pelo sentido. Somente então voltaremos nossos olhos para Lutero, Calvino e Zwínglio, procurando perceber como suas teologias dialogaram, cada uma à sua maneira, com as grandes inquietações de seu tempo.

E, ao final, faremos uma última pergunta: Se aquelas pessoas viveram cercadas por perguntas sobre morte, culpa, segurança e sentido, será que essas perguntas desapareceram?

Mudaram as circunstâncias. Mudaram a ciência, a medicina, a tecnologia, as formas de comunicação e a própria organização da sociedade. Vivemos em um mundo muito diferente daquele dos séculos medievais.

Mas talvez algumas perguntas tenham permanecido.

A morte continua diante de nós. 

A culpa continua fazendo parte da experiência humana.

E a pergunta pelo sentido da existência continua atravessando o coração de homens e mulheres.

Talvez seja justamente por isso que olhar para a ansiedade que marcou a Idade Média não seja apenas um exercício acadêmico de história. Mas torna-se também uma maneira de compreender algumas das inquietações que continuam acompanhando o ser humano.

É será por essa porta que começaremos nossa caminhada...

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia Relacionada a Introdução

GEORGE, TIMOTHY. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.

Obra fundamental para esta série. George inicia sua exposição situando a teologia e a vida espiritual no final da Idade Média e, a partir desse cenário, apresenta Lutero, Zwínglio e Calvino.

TILLICH, PAUL. The Courage to Be. New Haven: Yale University Press, 1952.

Utilizada nesta série principalmente como referência conceitual para a compreensão das três formas de ansiedade: morte e destino; culpa e condenação; vazio e falta de sentido.

Bibliografia Geral da Série

CALVINO, JOÃO. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.

GONZÁLEZ, JUSTO L. The Story of Christianity. Vol. 1. New York: HarperOne.

LUTERO, MARTINHO. Da Liberdade Cristã.

MCGRATH, ALISTER E. Reformation Thought: An Introduction. Chichester: Wiley-Blackwell.

ZWÍNGLIO, ULDRICO. A Liberdade Cristã.

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