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sábado, 17 de outubro de 2026

Protestantismo no Brasil: O Brasil e os Brasileiros - Informações para quem vai ao Brasil [leitura comentada]

 

James Cooley Fletcher (1823–1901) foi um missionário presbiteriano norte-americano que viveu no Brasil durante parte do século XIX. Sua obra O Brasil e os Brasileiros (1857) nasceu em diálogo com o livro de Daniel P. Kidder, Sketches of Residence and Travels in Brazil (1845). Kidder havia residido no país e oferecido ao público norte-americano uma visão detalhada do Império do Brasil. Fletcher, ao retornar, atualizou e ampliou essas observações, acrescentando conselhos práticos e reflexões voltadas especialmente para viajantes e missionários.

Publicado originalmente em inglês e traduzido para o português, tornou-se uma referência para quem desejava compreender melhor o Brasil imperial. A seção “Informações para quem vai ao Brasil” funciona como um guia de sobrevivência cultural, reunindo orientações sobre língua, moeda, vestimentas, hospedagem e outros pontos essenciais. Mais do que simples dicas, essas orientações revelam a preocupação do autor em preparar o missionário para enfrentar o choque cultural e se integrar à realidade brasileira.

Nota inicial

Todos os trechos citados foram mantidos com a grafia original do século XIX, para preservar a fidelidade histórica.

Informações para quem vai ao Brasil

Este capítulo foi elaborado por Fletcher como um guia prático para viajantes e missionários que desembarcavam pela primeira vez no país. Mais do que simples recomendações, ele revela a preocupação em preparar o leitor para lidar com aspectos concretos da vida cotidiana — desde a língua e a moeda até vestimentas, hospedagem e serviços públicos.

Um ponto curioso é a menção à inspeção dos livros importados. No Brasil do século XIX, essa prática não se limitava à cobrança de impostos: havia também um controle ideológico. Essa observação mostra como até elementos culturais estavam sujeitos à vigilância, e ajuda o leitor moderno a compreender a complexidade do ambiente em que os primeiros missionários protestantes precisavam se inserir.


Interpretação e contexto

Texto original (grafia original)

O missionário abre sua seção com uma advertência fundamental: a língua portuguesa é a chave para qualquer comunicação no Brasil. Ele insiste que não se trata de um dialeto do espanhol, mas de uma língua distinta e nobre, filha do latim. Essa ênfase revela a intenção de preparar o viajante para o choque cultural e evitar equívocos comuns entre estrangeiros. Além disso, mostra que o conhecimento prévio de francês, italiano ou espanhol facilita o aprendizado, e até comenta sobre a pronúncia de certas terminações, oferecendo um guia prático para quem chega.

A língua portuguesa é a falada em todo o Brasil. Não é um dialeto do espanhol, porem uma língua distinta: como disse Vieyra, é a filha mais velha do latim...

O autor prossegue tratando da moeda corrente. Sua intenção é preparar o viajante para não se perder nos cálculos e evitar enganos nas transações. Ao explicar o valor do mil-réis e sua equivalência em dólares e libras, ele oferece uma verdadeira aula prática de economia cotidiana.

Um mil réis vale cerca de 56 centavos, ou 2 shillings e 6 pence em Inglaterra. As quantias em dinheiro no Brasil são representadas pelo sinal do dólar ($) depois da palavra mil. Assim, 5$500 significa cinco mil e quinhentos réis.

O missionário recomenda atenção às vestimentas: roupas leves para o calor tropical, mas também peças de lã para o frio inesperado em certas regiões. E lembra que, em ocasiões formais, como visitas ao palácio, uma casaca é indispensável. Sua intenção é preparar o viajante para a diversidade climática e social do Brasil.

As vestimentas, como é natural, devem ser adaptadas ao clima; mas leve-se sempre alguma roupa de lã. No interior e ao sul da Bahia, o frio pode surpreender. E se tiver de ir ao palácio, uma casaca será indispensável.

O observador alerta sobre a hospedagem: não espere encontrar hotéis como os da Europa ou dos Estados Unidos. No Rio de Janeiro, os melhores são o Hotel do Comércio e o Hotel dos Estrangeiros; em Pernambuco, o Hotel Universal. Os preços são altos e variam conforme o quarto. Sua intenção é orientar o viajante a não se iludir com expectativas de conforto europeu.

Os hotéis no Brasil não se comparam com os da Europa e Estados Unidos. No Rio de Janeiro, os melhores são o Hotel do Comércio e o Hotel dos Estrangeiros. Em Pernambuco, o Hotel Universal é uma boa opção. Os preços são altos e variam conforme o quarto.

O guia dedica atenção às alfândegas e às patentes. Sua intenção é alertar sobre a burocracia e a necessidade de respeitar as regras locais, evitando problemas legais. Além disso, convém lembrar que, no Brasil do século XIX, os livros importados eram submetidos à inspeção não apenas por questões fiscais, mas também por motivos políticos e religiosos. O governo imperial buscava controlar a entrada de obras consideradas subversivas ou contrárias à moral vigente, além de garantir a cobrança de impostos de importação. Esse controle refletia a preocupação das autoridades em preservar a ordem social e limitar a circulação de ideias que pudessem desafiar o regime ou a Igreja Católica, então religião oficial do Estado.

As alfândegas são severas, e convém ao viajante estar prevenido. As patentes devem ser registradas, e os livros, quando importados, passam por inspeção.

O autor comenta sobre os correios e a comunicação. Sua intenção é mostrar que, embora existam serviços, eles são lentos e pouco confiáveis, exigindo paciência do viajante.

Os correios funcionam em todas as cidades principais, mas a correspondência é demorada. Muitas vezes, cartas levam semanas para chegar ao destino.

O missionário observa ainda sobre livros e cultura. Sua intenção é destacar que há interesse crescente por obras estrangeiras, mas o acesso é limitado, e o viajante deve trazer consigo o que julgar necessário.

Os livros estrangeiros são procurados, mas nem sempre fáceis de encontrar. Convém ao viajante trazer os que julgar indispensáveis.

 

Conclusão

As orientações reunidas nesta seção não eram meros conselhos de viagem: constituíam um verdadeiro manual de adaptação cultural. Ao explicar a língua, a moeda, as vestimentas, a hospedagem e os serviços disponíveis, Fletcher buscava preparar seus contemporâneos para enfrentar um ambiente novo e muitas vezes hostil.

Essas informações tiveram papel decisivo para os primeiros missionários protestantes que desembarcavam no Brasil, vindos dos Estados Unidos e da Europa. Ao encontrar um país de costumes distintos, clima variado e infraestrutura limitada, eles precisavam de referências seguras para se estabelecer e dar início às suas atividades religiosas e sociais. O guia oferecia justamente isso: um mapa prático para reduzir os choques culturais e permitir que a missão se enraizasse.

Assim, mais do que simples notas de viagem, este texto se tornou um instrumento de sobrevivência e de integração, ajudando a abrir caminho para a presença protestante no Brasil do século XIX.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia da Obra Utilizada

KIDDER, D. P. e FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros – esboço histórico e descritivo, v. 1. Brasiliana – Biblioteca Pedagógica Brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941 [Tradução da 6ª. edição em inglês - Elias Dolianiti e Revisão e Notas de Edgard Sussekind de Mendonça].

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Protestantismo e Constituição: A Trajetória Progressiva da Liberdade Religiosa no Brasil

O Brasil, historicamente marcado pela presença do catolicismo como religião oficial, vivenciou ao longo dos séculos XIX e XX um processo gradual de abertura legislativa que permitiu a prática de outras confissões religiosas. Embora a Reforma Protestante tenha ocorrido no século XVI, praticamente na mesma época do descobrimento do Brasil, o protestantismo só começou a se implantar de maneira efetiva em território brasileiro na segunda metade do século XIX. Essa defasagem temporal evidencia como o ambiente político e religioso nacional permaneceu fechado por séculos à diversidade confessional, reforçando a hegemonia católica e retardando a presença protestante no país.

A trajetória do protestantismo no Brasil pode ser compreendida a partir da progressividade constitucional que moldou sua prática. A Constituição de 1824, elaborada no contexto do Império, estabeleceu o catolicismo como religião oficial, mas permitiu que outras confissões fossem praticadas em âmbito privado. Essa abertura limitada representou o primeiro reconhecimento jurídico da diversidade religiosa, ainda que restrito à esfera doméstica. Boanerges Ribeiro observa que foi nesse ambiente que os primeiros presbiterianos começaram a se organizar, discretamente, aproveitando as pequenas brechas legais.

Com a Proclamação da República, a Constituição de 1891 rompeu com o modelo confessional e instituiu a separação entre Igreja e Estado. Pela primeira vez, a liberdade religiosa foi garantida de forma plena, permitindo cultos públicos e a construção de templos protestantes. Esse marco jurídico consolidou o direito de expressão religiosa e abriu espaço para que o protestantismo se organizasse institucionalmente. A Constituição de 1934 manteve a liberdade religiosa e introduziu o ensino religioso facultativo nas escolas públicas, medida que, embora voltada principalmente ao catolicismo, abriu espaço para reivindicações de outras confissões. Já a Constituição de 1946 reafirmou a laicidade do Estado e garantiu maior estabilidade às práticas religiosas diversas, em um período em que o protestantismo já se expandia em várias regiões do país. Finalmente, a Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, consolidou o pluralismo religioso como característica da sociedade brasileira, assegurando igualdade de tratamento entre diferentes confissões e protegendo o livre exercício dos cultos.

Apesar dessas aberturas legislativas, a aceitação social do protestantismo foi lenta. Resistências culturais e preconceitos marcaram sua trajetória, com comunidades protestantes frequentemente vistas como estrangeiras ou desviantes. Ribeiro destaca que, no período monárquico, os protestantes eram identificados como elementos externos à cultura nacional, o que dificultava sua integração. Essa percepção reforçava a ideia de que o Brasil era essencialmente católico, e qualquer outra expressão religiosa era considerada uma ameaça à unidade social.

No entanto, ao longo do século XX, o protestantismo cresceu e se diversificou. Rubem Alves interpreta esse crescimento como um movimento cultural que ultrapassou os limites da religião, tornando-se parte da identidade brasileira. Igrejas presbiterianas, batistas, metodistas e pentecostais passaram a ocupar espaços públicos, construir templos e participar da vida política e educacional. Mariana Seixas ressalta que cada constituição representou um avanço jurídico que, somado à ação missionária e comunitária, consolidou o protestantismo como força social. A Constituição de 1891 foi decisiva para permitir cultos públicos, mas foi a Constituição de 1988 que garantiu definitivamente o pluralismo religioso, assegurando igualdade de tratamento entre diferentes confissões.

A consolidação do protestantismo no Brasil deve ser entendida como resultado de uma dupla dinâmica: de um lado, a progressividade constitucional que criou condições jurídicas para sua prática; de outro, a ação cultural e comunitária das igrejas, que transformaram a percepção social e conquistaram espaço na vida nacional. Essa combinação explica por que, apesar das resistências iniciais, o protestantismo deixou de ser uma prática marginal e se tornou uma das maiores forças religiosas do país, especialmente na vertente presbiteriana, que contribuiu de forma decisiva para a formação de uma identidade protestante nacional.

 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

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Referências Bibliográficas

ALVES, Rubem. Protestantismo e cultura brasileira. São Paulo: Loyola, 1982. → O autor conecta o protestantismo à formação cultural do Brasil, mostrando como a religião se tornou força social transformadora.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. → A obra ajuda a compreender a estrutura histórica e social que condicionou a recepção das novas práticas religiosas.

RIBEIRO, Boanerges. O Brasil Monárquico: História do Protestantismo no Brasil (1824–1889). São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981. → O autor descreve em detalhe como os protestantes, especialmente os presbiterianos, se estabeleceram no Brasil durante o período imperial, enfrentando restrições legais e aproveitando as primeiras brechas constitucionais.

SEIXAS, Mariana Ellen Santos. Aberturas Legislativas para Adeptos do Protestantismo no Brasil. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) – Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2019. → Estudo que analisa os marcos constitucionais e legislativos que permitiram a prática protestante no Brasil, destacando a evolução da liberdade religiosa.

BRASIL. Constituição Política do Império do Brasil de 1824. Rio de Janeiro, 1824.

BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891. Rio de Janeiro, 1891. 

BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934. Rio de Janeiro, 1934. 

BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1946. Rio de Janeiro, 1946. 

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, 1988.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

SIMONTON – A Viagem: do Atlântico à Baía de Guanabara - Viajando com Simonton através de seu Diário [série]

 

12 de agosto de 1859

A viagem do Banshee havia começado em 18 de junho de 1859. Mas quando lemos seu diário, percebemos que aquela não foi simplesmente uma longa travessia entre dois continentes. Para ele, o próprio navio se constituía em um pequeno campo de missão, uma escola de fé e, em determinados momentos, um lugar onde sua própria vida esteve por um grande perigo.

Entre o embarque e desembarque se passaram 56 dias entre o céu e o mar.

E Simonton não passou esses dias de braços cruzados. Durante a travessia, ele procurou conhecer os homens que compunham a tripulação, conversou com os marinheiros sobre suas vidas e encontrou oportunidades para falar-lhes das Escrituras. Organizou inclusive uma espécie de Escola Dominical entre eles. Mesmo quando o capitão demonstrava pouca simpatia por manifestações religiosas mais formais, não permitindo a realização de cultos dominicais, Simonton encontrou maneiras de conversar, ensinar e dar testemunho.

É interessante observar essa dinâmica. Ele ainda não havia chegado ao Brasil, mas já estava fazendo aquilo para o que havia sido enviado ao Brasil. Seu campo missionário começava no próprio convés do Banshee.

A viagem também lhe ofereceu tempo para ler, refletir, escrever e observar. O jovem pastor anotava as mudanças do céu, os ventos, as correntes, os movimentos da embarcação, a alimentação, o comportamento dos marinheiros e até as dificuldades práticas da vida no mar. Em determinado momento, chegou a brincar com as próprias tentativas de remendar as roupas, depois de tantos dias de uso.

Pouco a pouco, porém, a paisagem começou a mudar. Em suas anotações  de 28 de julho, ele registra a despedida da estrela polar, como indicativo de que está deixando definitivamente para trás o céu familiar do hemisfério norte. Dois dias depois, em 30 de julho, avista Fernando de Noronha. Depois de 36 dias de mar aberto, aquelas rochas que surgiam no horizonte representavam muito mais do que uma ilha: eram um sinal concreto de que o Brasil estava se aproximando.

Mas o mar ainda guardava uma última advertência.

Na noite de 4 de agosto, o Banshee viveu um dos momentos mais perigosos de toda a viagem. O dia havia sido chuvoso. A atmosfera estava pesada e o vento havia aumentado. Simonton conversava com Sampson quando o capitão, no convés, ordenou que as velas fossem recolhidas.

Então veio o grito do vigia: “Barco pela proa!”

Em questão de segundos, todos perceberam o perigo.

Um grande navio surgiu repentinamente da escuridão, navegando em alta velocidade, com todas as velas abertas. Sua proa vinha diretamente na direção do Banshee — justamente para a parte da embarcação onde Simonton se encontrava. A reação do experiente capitão foi imediata: virar o leme.

Em uma questão de segundos...o outro navio passou tão próximo que Simonton compreendeu, depois do perigo, o que poderia ter acontecido.

Se aquele encontro tivesse acontecido apenas alguns segundos antes, o Banshee teria sido atingido exatamente onde ele estava.

O navio teria sido cortado em dois. E, segundo suas próprias palavras, dadas as condições daquela noite, provavelmente ninguém teria sobrevivido para contar a história. Mas aqui temos muito revelador na maneira como Simonton descreve o episódio. Ele não transforma o acontecimento em uma aventura heroica. Não atribui a própria serenidade à coragem pessoal. Sua primeira reação é espiritual:

“Desde o princípio entreguei meus caminhos a Deus.”

Para Simonton, aquele quase desastre não era apenas um incidente marítimo. Era uma experiência concreta da providência.

O perigo passou.

E ele desceu ao camarote.

Mas não para continuar simplesmente a viagem.

Primeiro, para agradecer a Deus pela providência e entregar novamente a sua vida nas mãos daquele que o havia chamado.

Depois, dormiu profundamente.

Na manhã seguinte, ouviu dos velhos marinheiros algo que tornava o episódio ainda mais impressionante: eles mesmos diziam nunca ter estado em tamanho perigo...é difícil não perceber a força desse momento.

Meses antes, Simonton havia colocado sua vida à disposição da obra missionária. Agora, em alto-mar, ele aprende que entregar a vida ao serviço do Evangelho implica em aprender a descansar na providência daquele que a sustenta.

O Brasil começa a aparecer no horizonte

Depois do episódio de 4 de agosto, há uma crescente expectativa da chegada.

No dia 9, Simonton realiza sua última aula bíblica com os marinheiros. Ele já começa a pensar na separação daqueles homens com quem havia convivido durante quase dois meses. Ao mesmo tempo, em suas anotações há uma visão realista, pois observa que os compromissos de mudança feitas por eles, não perduraram. Conhecia suas histórias e sabia que algumas resoluções tomadas no mar poderiam desaparecer assim que voltassem à terra.

Essas anotações realistas revelam que Simonton não é um jovem ingênuo que atravessou o oceano movido por uma resolução romântica em relação à natureza humana. Toda conversão genuína é uma ação soberana do Espírito Santo e não uma mera comoção emotiva passageira.

No dia 11 de agosto, o horizonte finalmente lhe entrega o primeiro grande sinal de que a viagem estava chegando ao fim.

Cabo Frio.

O promontório — aquela ponta de terra elevada que avança sobre o mar — surgiu diante do navio como um marco silencioso de chegada. Para Simonton, a visão lembrava as colinas de Neversink, que anunciavam a proximidade do porto de Nova York. Agora, porém, o horizonte era outro: tropical, distante e carregado de promessa.

Mais tarde, naquela mesma noite, a cena ganhou um tom quase cinematográfico. O Banshee permanecia imóvel, sem vento, próximo à entrada do porto. A lua, alta e serena, derramava sua luz sobre o mar, transformando o silêncio em expectativa.

Baía de Guanabara

Ao longe, surgem o Pão de Açúcar e o Corcovado, imponentes contra o horizonte. O som das ondas quebrando nas pedras preenche o silêncio da noite, como se fosse uma música própria daquele lugar.

Simonton sobe a uma das vergas do navio e contempla o crepúsculo repousando sobre o Corcovado. E então, algo acontece dentro dele. Aquela paisagem, que até então existia apenas em gravuras de livros e relatos de viajantes, agora se revelava diante de seus olhos. A viagem chegara ao fim. O Brasil estava ali.

Mas sua reação não se resume à alegria. Um turbilhão se forma em seu interior: o contentamento pelo final feliz da longa travessia mistura-se ao temor diante da grande responsabilidade e das dificuldades que o aguardavam. Era o início de uma missão que haveria de exigir cada gota de coragem e fé.

Essa talvez seja uma das melhores imagens para compreender Simonton.

Ele estava feliz por chegar, mas não estava despreocupado.

Sabia que chegar ao Brasil não era o fim da missão...Era apenas o começo.

12 de agosto de 1859 — O desembarque

Simonton desperta às quatro da manhã. Não consegue simplesmente dormir enquanto o navio se prepara para entrar no porto. Observa cada manobra, pois o Banshee precisa avançar contra o vento e a maré.

Às 9h30, registra sua primeira grande impressão do Brasil. Suas palavras revelam o impacto visual: lindo, singular, impressionante. Jamais imaginara encontrar uma baía daquela natureza.

A visão da Baía de Guanabara é ao mesmo tempo majestosa e acolhedora: cercada por ilhas rochosas, montanhas, fortalezas e elevações que formam um anfiteatro natural. A entrada do porto é estreita, protegida de um lado pela Fortaleza de Santa Cruz e, do outro, pelo Pão de Açúcar.

O olhar de Simonton percorre tudo:

as ilhas,

as pedras,

as fortificações,

as montanhas.

E, finalmente, o que mais o impressiona: a cidade do Rio de Janeiro surgindo entre vales e montanhas, brilhando ao sol com suas paredes caiadas de branco.

Para alguém vindo dos Estados Unidos, aquela paisagem parecia quase irreal. Depois de semanas vendo apenas o horizonte infinito do Atlântico, agora havia uma cidade inteira diante dele.

Mas não era uma cidade qualquer. Era o seu novo lar. Era o seu novo campo de trabalho. Era o lugar para o qual deixara sua família.

Era o lugar para o qual Deus o havia enviado.

O Banshee continuava avançando... e a cada mudança de curso, Simonton observava a entrada do porto, ora mais próxima da Fortaleza de Santa Cruz, ora do Pão de Açúcar. E então chega uma pequena cena que, embora simples, possui grande força narrativa...Simonton começa a preparar-se para descer.

Depois de 56 dias de viagem, ele finalmente se desfaz de sua roupa de viagem, entregando ao cabineiro como agradecimento pelos serviços prestados durante a travessia. Então registra uma frase simples, mas reveladora:

“Estou pronto para desembarcar.”

Há aqui uma imagem que vale a pena preservar na narrativa. Imagine a cena:

Um jovem pastor de 26 anos deixa o navio carregando sua pequena bagagem, depois de quase dois meses de viagem. Vinha de Baltimore, onde havia deixado para trás o clima ameno do verão norte-americano, trazendo consigo as roupas preparadas para uma longa viagem marítima e para um ambiente muito diferente daquele que encontraria no Brasil. Sente pela primeira vez o calor, a luminosidade da paisagem tropical do Rio de Janeiro...O contraste é brutal.

A roupa que havia servido para protegê-lo durante a viagem já não fazia sentido naquele ambiente.

E ele a deixa para trás.

É quase uma metáfora involuntária.

Simonton desce...

Não desce apenas de uma embarcação. Desce de um mundo conhecido para entrar em outro completamente desconhecido.

Aos 26 anos, com uma mala, algumas roupas, cartas de apresentação e uma convicção profunda de que Deus havia dirigido seus passos, ele finalmente pisa em solo brasileiro.

O jovem que deixara Baltimore em 18 de junho agora estava no Rio de Janeiro.

A travessia havia terminado.

Mas a missão apenas começava.

Ele havia cruzado o Atlântico.

Havia cruzado o seu Rubicão.

Havia sobrevivido ao perigo do mar.

Havia contemplado, pela primeira vez, a Baía de Guanabara.

Agora precisava descobrir como anunciar o Evangelho em uma terra cuja língua, cultura, religião e costumes ainda lhe eram estranhos.

O mar ficava para trás.

O Brasil estava diante dele.

E, sem que Simonton pudesse imaginar naquele momento, aquela manhã de 12 de agosto de 1859 haveria de ser lembrada como um dos momentos decisivos da história do protestantismo brasileiro.

Do cais às ruas do Rio

Ele havia imaginado aquele momento muitas vezes durante a travessia. Mas nenhuma imaginação poderia reproduzir a experiência de estar ali.

O ar era diferente.

A luz era diferente.

A paisagem era diferente.

Os sons eram diferentes.

Ao redor, o porto do Rio de Janeiro fervilhava de atividade. Homens movimentavam cargas, embarcações chegavam e partiam, comerciantes negociavam, carregadores transitavam pelo cais, e uma multidão de pessoas dava ao lugar um movimento completamente estranho aos olhos daquele jovem pastor estrangeiro.

Simonton caminhava observando tudo. Agora havia uma cidade diante dele.

E havia uma pequena caminhada a fazer. Com sua bagagem, ele deixou a área do porto e tomou o caminho em direção à Casa de Comércio Wright, onde deveria apresentar-se e encontrar os primeiros contatos que o ajudariam a estabelecer-se na cidade.

A cena é quase prosaica...Um homem caminhando com uma mala.

Mas, historicamente, aquele homem carregava muito mais do que seus pertences.

Carregava uma decisão tomada meses antes.

Carregava as orações de sua mãe.

Carregava as expectativas da Junta de Missões Presbiteriana.

Carregava uma mensagem a ser proclamada.

Sobre seus jovens ombros a responsabilidade de iniciar, praticamente sozinho, uma obra missionária em um país onde o presbiterianismo ainda não possuía uma presença organizada.

Atrás dele ficava o Banshee.

À sua frente, o Rio de Janeiro.

Certamente Simonton ainda não podia compreender a dimensão daquele momento.

Para os habitantes do Rio, ele era apenas mais um jovem estrangeiro que acabava de desembarcar.

Para a história, porém, aquele homem que caminhava carregando sua mala estava dando os primeiros passos de uma obra que ultrapassaria em muito sua própria existência.

O desembarque havia terminado.

Mas sua caminhada estava apenas começando...

Simonton acabava de dar seus primeiros passos pelas ruas da futura história do presbiterianismo brasileiro.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Obra de referência

SIMONTON, Ashbel Green. O diário de Simonton. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2022.

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