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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Calvino: Institutas da Religião Cristã – Introdução Rev. John Murray

 

AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ

Por João Calvino

Uma Nova Tradução por Henry Beveridge.

A Instituição da Religião Cristã, escrita em latim pelo mestre João Calvino, e traduzida para o inglês de acordo com a última edição do autor. Visto e aprovado segundo a ordem estabelecida nas injunções das determinações de sua majestade.

Introdução por John Murray (Professor de Teologia)[1]

Lançar mais uma edição do livro mais importante de teologia cristã em inglês[2] é motivo de muita alegria. Mesmo com a perda de interesse por assuntos espirituais no mundo de hoje — especialmente quando se fala de fé e teologia —, a editora acredita que ainda existem pessoas interessadas nessa leitura. Se isso for verdade, temos muito a agradecer a Deus. Afinal, quer sinal melhor de um novo recomeço espiritual do que ver as pessoas voltando a estudar a Bíblia com dedicação e lendo com atenção As Institutas da Religião Cristã?

O Dr. B. B. Warfield,[3] em um excelente artigo sobre a história deste livro, resumiu bem o que os maiores especialistas pensam sobre Calvino. Entre todos os elogios, o do estudioso Joseph Scaliger[4] foi o mais direto e certeiro: "Entre os teólogos, Calvino é único."

Seria pretencioso tentar listar todos os motivos que fazem de Calvino uma figura tão marcante na história da teologia. Por graça e providência de Deus, vários fatores se juntaram na vida dele. Um deles merece destaque: Calvino entendia a Bíblia e sua aplicação como poucos. Nada o preparou melhor para escrever sua grande obra (que ganhou sua versão definitiva em 1559) do que o seu estudo profundo do texto bíblico.

O respeito que Calvino tinha pela Bíblia e a forma como ele a explicava ficam muito claros no prefácio do seu primeiro comentário (epístola aos Romanos).[5] Ele escreveu: "Devemos ter um respeito tão grande pela Palavra de Deus que não deveríamos alterá-la de forma alguma por meio de interpretações variadas. Afinal, a majestade da Bíblia é diminuída quando não é explicada com muito cuidado e sobriedade. Se já é um grande mal profanar qualquer coisa dedicada a Deus, com certeza não se pode aceitar quem manuseia o que há de mais sagrado na terra com mãos impuras ou despreparadas. Portanto, é uma audácia muito próxima do sacrilégio torcer a Escritura para onde bem entendermos e dar asas à nossa imaginação como se fosse um jogo — algo que muitos fizeram no passado."

Foi Calvino, acima de tudo, quem ensinou a manter os pés no chão na hora de ler a Bíblia, evitando interpretações simbólicas e exageradas que distorcem o texto. A dívida que temos com ele por ensinar a ler a Bíblia com responsabilidade é gigante. Pena que, muitas vezes, as igrejas hoje não usam esses mesmos princípios tão bem organizados por ele.

Outro ponto forte de Calvino era olhar a Bíblia como um todo. Ele sempre tomava o cuidado de ver se uma passagem combinava com o restante das Escrituras. Ele não cometia o erro de isolar um versículo e ignorar o contexto geral. Para ele, a interpretação bíblica e a teologia andavam juntas.

Por mais que o talento de Calvino para explicar a Bíblia fosse impressionante, o maior dom dele era a teologia sistemática — a capacidade de organizar as ideias. Foi esse talento organizador que permitiu a criação desta obra-prima.

Mas atenção: quando dizemos que ele era um grande teólogo, não pense em alguém que ficava criando teorias complicadas no ar. Ninguém criticava mais as "especulações vazias e sem sentido" do que Calvino. Ele tinha total consciência de que o papel do teólogo é ser, antes de tudo, um simples aluno da Bíblia. Ele dizia: "Ninguém consegue entender a verdadeira doutrina sem antes se tornar um estudante da Bíblia. A verdadeira sabedoria nasce quando aceitamos com respeito o que Deus disse sobre si mesmo. Obedecer a Deus é o ponto de partida para ter uma fé sólida e um conhecimento correto sobre Ele."[6]

Como disse o historiador William Cunningham: "Na teologia não existe espaço para 'inventar moda', porque tudo o que precisamos já está na Palavra de Deus. O melhor teólogo é aquele que entende com mais exatidão o que a Bíblia diz, conecta os pontos de forma correta, organiza essas verdades para que as pessoas possam entender e aceitar, e consegue defender essas ideias contra críticas... Calvino não tinha o interesse bobo de criar novidades ou se fazer de descobridor de ideias inéditas." (CUNNINGHAM, 1862, p. 296).

Ao começarmos a ler As Institutas, percebemos rapidamente três coisas no autor: um respeito profundo pela grandeza de Deus, amor pela Bíblia e um cuidado enorme para não distorcer a verdade. Por isso, o livro transmite um calor de fé genuína. As Institutas não são apenas um livro acadêmico; são um guia de vida com Deus. O objetivo de Calvino era incentivar uma "religião pura de verdade", feita de fé com respeito a Deus — um respeito voluntário que leva à prática sincera do que Ele pede.

Esta edição usa a tradução feita por Henry Beveridge em 1845. Você pode ter certeza de que o conteúdo é fiel a Calvino, mas lembre-se: nenhuma tradução é 100% perfeita em relação ao idioma original. Vale dizer que o ideal seria, no futuro, termos edições com notas explicativas indicando onde o latim é difícil de traduzir e mostrando onde Calvino fala sobre os mesmos assuntos em outros livros dele. Isso daria um trabalho gigantesco e exigiria especialistas muito qualificados, mas torcemos para que este trabalho inspire projetos assim no futuro.

JOHN MURRAY

Professor de Teologia Sistemática

Filadélfia, Pensilvânia

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia

CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion. Translated by Henry Beveridge. Edinburgh: The Calvin Translation Society, 1845

CUNNINGHAM, William. The Reformers and the Theology of the Reformation. Edinburgh: T. & T. Clark, 1862, p. 296

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[1] A tradução eletrônica do texto do Dr. Murray foi elaborada pensando nos leitores pouco familiarizados com a preciosa obra de Calvino. Mas em momento algum o texto foi modificado em seu conteúdo.

[2] E podemos acrescentar sem qualquer dúvida, que em qualquer outra língua, incluído nosso português.

[3] Warfield, professor em Princeton e um dos grandes teólogos reformados do século XX, escreveu três ensaios sobre Calvino em 1909 — reunidos sob o título “The Theology of Calvin”. Neles, ele apresenta Calvino como o coração do pensamento reformado, não por criar um sistema novo, mas por reavivar a consciência da soberania de Deus e da dependência total da criatura.

[4] Joseph Justus Scaliger foi um dos maiores eruditos do Renascimento, conhecido por sua crítica histórica e filológica. A famosa frase sobre Calvino — “Entre os teólogos, Calvino é único” — aparece em seus comentários sobre os teólogos de sua época, destacando a singularidade de Calvino como exegeta bíblico.

[5] Epístola Dedicatória (Prefácio) — endereçada ao humanista e teólogo Simon Grynaeus, 1539 (Estrasburgo)

[6] As Institutas da Religião Cristã (Livro 1, Capítulo 6, Seção 2).