AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ
Por João Calvino
Uma Nova Tradução por Henry Beveridge.
A Instituição da Religião Cristã, escrita em latim pelo mestre João
Calvino, e traduzida para o inglês de acordo com a última edição do autor.
Visto e aprovado segundo a ordem estabelecida nas injunções das determinações
de sua majestade.
Introdução por John Murray (Professor
de Teologia)[1]
Lançar mais uma edição do livro mais importante de teologia cristã
em inglês[2] é
motivo de muita alegria. Mesmo com a perda de interesse por assuntos
espirituais no mundo de hoje — especialmente quando se fala de fé e teologia —,
a editora acredita que ainda existem pessoas interessadas nessa leitura. Se
isso for verdade, temos muito a agradecer a Deus. Afinal, quer sinal melhor de
um novo recomeço espiritual do que ver as pessoas voltando a estudar a Bíblia
com dedicação e lendo com atenção As Institutas da Religião Cristã?
O Dr. B. B. Warfield,[3] em
um excelente artigo sobre a história deste livro, resumiu bem o que os maiores
especialistas pensam sobre Calvino. Entre todos os elogios, o do estudioso
Joseph Scaliger[4]
foi o mais direto e certeiro: "Entre os teólogos, Calvino é
único."
Seria pretencioso tentar listar todos os motivos que fazem de
Calvino uma figura tão marcante na história da teologia. Por graça e
providência de Deus, vários fatores se juntaram na vida dele. Um deles merece
destaque: Calvino entendia a Bíblia e sua aplicação como poucos. Nada o
preparou melhor para escrever sua grande obra (que ganhou sua versão definitiva
em 1559) do que o seu estudo profundo do texto bíblico.
O respeito que Calvino tinha pela Bíblia e a forma como ele a
explicava ficam muito claros no prefácio do seu primeiro comentário (epístola
aos Romanos).[5]
Ele escreveu: "Devemos ter um respeito tão grande pela Palavra de Deus
que não deveríamos alterá-la de forma alguma por meio de interpretações
variadas. Afinal, a majestade da Bíblia é diminuída quando não é explicada com
muito cuidado e sobriedade. Se já é um grande mal profanar qualquer coisa
dedicada a Deus, com certeza não se pode aceitar quem manuseia o que há de mais
sagrado na terra com mãos impuras ou despreparadas. Portanto, é uma audácia
muito próxima do sacrilégio torcer a Escritura para onde bem entendermos e dar
asas à nossa imaginação como se fosse um jogo — algo que muitos fizeram no
passado."
Foi Calvino, acima de tudo, quem ensinou a manter os pés no chão na
hora de ler a Bíblia, evitando interpretações simbólicas e exageradas que
distorcem o texto. A dívida que temos com ele por ensinar a ler a Bíblia com
responsabilidade é gigante. Pena que, muitas vezes, as igrejas hoje não usam
esses mesmos princípios tão bem organizados por ele.
Outro ponto forte de Calvino era olhar a Bíblia como um todo. Ele
sempre tomava o cuidado de ver se uma passagem combinava com o restante das
Escrituras. Ele não cometia o erro de isolar um versículo e ignorar o contexto
geral. Para ele, a interpretação bíblica e a teologia andavam juntas.
Por mais que o talento de Calvino para explicar a Bíblia fosse
impressionante, o maior dom dele era a teologia sistemática — a capacidade de
organizar as ideias. Foi esse talento organizador que permitiu a criação desta
obra-prima.
Mas atenção: quando dizemos que ele era um grande teólogo, não
pense em alguém que ficava criando teorias complicadas no ar. Ninguém criticava
mais as "especulações vazias e sem sentido" do que Calvino. Ele tinha
total consciência de que o papel do teólogo é ser, antes de tudo, um simples
aluno da Bíblia. Ele dizia: "Ninguém consegue entender a verdadeira
doutrina sem antes se tornar um estudante da Bíblia. A verdadeira sabedoria
nasce quando aceitamos com respeito o que Deus disse sobre si mesmo. Obedecer a
Deus é o ponto de partida para ter uma fé sólida e um conhecimento correto
sobre Ele."[6]
Como disse o historiador William Cunningham: "Na teologia
não existe espaço para 'inventar moda', porque tudo o que precisamos já está na
Palavra de Deus. O melhor teólogo é aquele que entende com mais exatidão o que
a Bíblia diz, conecta os pontos de forma correta, organiza essas verdades para
que as pessoas possam entender e aceitar, e consegue defender essas ideias
contra críticas... Calvino não tinha o interesse bobo de criar novidades ou se
fazer de descobridor de ideias inéditas." (CUNNINGHAM, 1862, p. 296).
Ao começarmos a ler As Institutas, percebemos rapidamente
três coisas no autor: um respeito profundo pela grandeza de Deus, amor pela
Bíblia e um cuidado enorme para não distorcer a verdade. Por isso, o livro
transmite um calor de fé genuína. As Institutas não são apenas um livro
acadêmico; são um guia de vida com Deus. O objetivo de Calvino era incentivar
uma "religião pura de verdade", feita de fé com respeito a Deus — um
respeito voluntário que leva à prática sincera do que Ele pede.
Esta edição usa a tradução feita por Henry Beveridge em 1845. Você
pode ter certeza de que o conteúdo é fiel a Calvino, mas lembre-se: nenhuma
tradução é 100% perfeita em relação ao idioma original. Vale dizer que o ideal
seria, no futuro, termos edições com notas explicativas indicando onde o latim
é difícil de traduzir e mostrando onde Calvino fala sobre os mesmos assuntos em
outros livros dele. Isso daria um trabalho gigantesco e exigiria especialistas
muito qualificados, mas torcemos para que este trabalho inspire projetos assim
no futuro.
JOHN MURRAY
Professor de Teologia Sistemática
Filadélfia, Pensilvânia
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
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Bibliografia
CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion.
Translated by Henry Beveridge. Edinburgh: The Calvin
Translation Society, 1845
CUNNINGHAM, William. The Reformers and the Theology of the
Reformation. Edinburgh: T. & T. Clark, 1862, p. 296
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(John Knox esteve em Genebra nessa condição de refugiado).
[1]
A tradução eletrônica do texto do Dr. Murray foi elaborada pensando nos leitores
pouco familiarizados com a preciosa obra de Calvino. Mas em momento algum o
texto foi modificado em seu conteúdo.
[2]
E podemos acrescentar sem qualquer dúvida, que em qualquer outra língua, incluído
nosso português.
[3]
Warfield, professor em Princeton e um dos grandes teólogos reformados do
século XX, escreveu três ensaios sobre Calvino em 1909 — reunidos sob o título “The
Theology of Calvin”. Neles, ele apresenta Calvino como o coração do
pensamento reformado, não por criar um sistema novo, mas por reavivar a
consciência da soberania de Deus e da dependência total da criatura.
[4]
Joseph Justus Scaliger foi um dos maiores eruditos do Renascimento, conhecido
por sua crítica histórica e filológica. A famosa frase sobre Calvino — “Entre
os teólogos, Calvino é único” — aparece em seus comentários sobre os teólogos
de sua época, destacando a singularidade de Calvino como exegeta bíblico.
[5]
Epístola Dedicatória (Prefácio) — endereçada ao humanista e teólogo Simon
Grynaeus, 1539 (Estrasburgo)
[6] As
Institutas da Religião Cristã (Livro 1, Capítulo 6, Seção 2).