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sexta-feira, 1 de março de 2019

Resenha: 150 Anos de Paixão Missionária – O presbiterianismo no Brasil



            A implantação e desenvolvimento do protestantismo no Brasil ainda esta por ser pesquisado de forma mais profunda. Somente a partir da década de setenta com inicio de cursos de Ciência da Religião nas Universidades brasileiras as pesquisas acadêmicas sobre o protestantismo no país começaram a serem feitas sistematicamente.
            O professor e pesquisador Caleb Soares ao longo de mais de três décadas tem produzido diversas pesquisas no campo do protestantismo no Brasil conforme abaixo mencionadas, bem como desenvolvido outras atividades interligadas à temática histórico-pedagógico.
            Sua obra aqui evidenciada é uma das mais recentes e de grande envergadura, pois despende um grande esforço para condensar os 150 anos de história do presbiterianismo no Brasil. A proposta é de examinar a luz dos fatos históricos e resgatar a paixão missionária que tanto impulsionou o avanço do presbiterianismo por todo o território brasileiro.
            Evidente que a obra não está isenta de expressões entusiastas, visto que seu autor tem raízes profundas no protestantismo presbiteriano, mas em nada deturpa ou apequena o resultado final de sua pesquisa histórica, ao contrário a vivência nas entranhas do presbiterianismo brasileiro lhe oferece uma vantagem de tratar dos diversos temas propostos com mais acuidade e profundidade.
            Lamenta o autor da tremenda dificuldade em acessar as fontes históricas primárias de atas conciliares e outros documentos que certamente embasariam com muito mais vigor os fatos aqui narrados. A displicência com que os documentos históricos das igrejas locais foram e continuam sendo tratados pelos conselhos e pastores é algo que precisa ser urgentemente corrigido, pois os danos históricos são muitas vezes irreparáveis, como ele registra em que um pastor resolveu simplesmente fazer uma fogueira com os documentos antigos da igreja local. Outra crítica está na má vontade com que as lideranças eclesiásticas presbiterianas tratam seus pesquisadores sonegando-lhes as informações necessárias para o desenvolvimento de suas atividades – dos mais de cento e vinte questionários enviados não se recebeu nem mesmo uma linha de resposta por parte de uma grande maioria. A obra está dividida em três partes sendo que a segunda contém o cerne da pesquisa proposta sobre as igrejas centenárias espalhadas pelo território brasileiro.  Em cada uma das partes o autor faz uma sucinta introdução e posteriormente desenvolve o capítulo subdividindo-o em tópicos com informações específicas de fácil compreensão e assimilação, assim também como uma linguagem narrativa agradável e atrativa sem deixar de ser acadêmica em suas abordagens.
            Na primeira parte o autor resgata os fatores históricos da implantação do protestantismo presbiteriano no Brasil. Passa rapidamente pelas duas tentativas fracassadas dos franceses e holandeses em implantar através da invasão e domínio a religião protestante de cunho calvinista.
            Dois fatos históricos contribuíram imensamente para a efetivação das denominações evangélicas protestantes no país – a vinda da Corte Portuguesa em 1808 e a Independência do Brasil (1822) e promulgação da primeira Constituição Nacional com sua clausula de liberdade religiosa irrestrita. Depois destas duas tentativas limitadas somente após 1808, com a transferência forçada da coroa portuguesa para a colônia brasileira é que o Brasil experimenta suas primeiras aberturas religiosas. Os que mais se aproveitaram dessas aberturas legais foram as denominações estadunidenses, entre as quais os congregacionais, presbiterianos e metodistas e posteriormente os batistas, que enviaram seus missionários.
            O autor destaca dois aspectos interessantes nesse movimento inicial do protestantismo no país: a perspectiva progressista da mensagem evangélica protestante, que se ajusta perfeitamente às aspirações do espírito nacionalista da nova Nação e o trabalho pioneiro e incansável dos colportores missionários e principalmente leigos – homens que desbravaram o território brasileiro levando bíblias (protestantes) e diversas literaturas e folhetos com mensagens evangélicas pela ótica protestante.
            Na segunda parte do livro o autor concentra toda sua ampla pesquisa sobre as origens das Igrejas Centenárias Presbiterianas espalhadas por todo território brasileiro. Ele faz a feliz opção de oferecer aos leitores a implantação dessas igrejas por regiões. A Igreja Presbiteriana nasce na Região Sudeste, primeiramente no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Será a partir desses dois polos fecundantes que o presbiterianismo haverá de alcançar todas as demais regiões do Brasil. Ele oferece aos leitores uma variedade de informações pouco conhecida, mas que enriquece a leitura, citando apenas uma delas é o fato de que as primeiras instalações do presbiterianismo paulista tinha como endereço o mais famoso entroncamento de ruas da cidade de São Paulo – Avenida Ipiranga-São João. É surpreendente como os presbiterianos vão adentrando o interior do Estado paulista e estabelecendo sua denominação em cidades atraindo assim famílias inteiras. Uma de suas estratégias era a ênfase na Educação com a formação de Colégios e Escolas Paroquiais.
            Do Estado de São Paulo o presbiterianismo avança rapidamente em direção ao Estado de Minas Gerais. A primeira Igreja Presbiteriana a ser estabelecida em solo mineiro foi a da cidade Borda da Mata organizada em 1863 pelos missionários Revs. Lenington, Emanuel Pires e Blackford, tendo como base a família Gouvêa. Outras cidades são alcançadas como Areado, Araguari, no Triângulo Mineiro que se constituiu em importante eixo do presbiterianismo nacional. A cidade de Lavras é uma referência histórica no presbiterianismo brasileiro com sua igreja e seu Colégio estabelecido pelo incansável missionário Samuel Gammon e sua família. O Colégio Gammon ainda hoje é um referencial no contexto educacional brasileiro. Aqui se destacam as inúmeras educadoras presbiterianas: Eliza Reed, Miss Chambers, Henriqueta Amstrong e Carlota Kemper – que juntamente com o zelo pedagógico mantiveram sempre o zelo evangelístico.
            Depois de Minas Gerais o autor nos transporta para os primórdios do presbiterianismo no Estado do Espírito Santo que ocorre a partir do Leste de Minas Gerais e da igreja do Alto Jequitibá. Aqui temos um detalhe histórico muito interessante da cooperação denominacional entre os presbiterianos e os luteranos, sendo os primeiros originados da imigração suíça e que foram pastoreados por luteranos de 1858 até 1909, quando finalmente os presbiterianos assumiram o pastoreio desta comunidade na cidade Rio Novo do Sul.
            Agora somos levados pelo autor para a região Centro-Oeste, onde pioneiramente o trabalho incansável dos colportores em cidades do Mato Grosso e Goiás. A implantação da Igreja Presbiteriana na cidade de Santa Luzia com suas famílias engajadas na evangelização tornou-se uma referência para toda a região e se multiplicou rapidamente como as cidades de Pirapitinga e Descoberto.
            Chegamos ao Nordeste. Na cidade de Salvador, naquele tempo chamava-se Bahia (que posteriormente nominou o Estado) desembarca o missionário Rev. Franscis Joseph C. Schneider (1872) que com determinação e entusiasmo inicia suas atividades que extrapolam a cidade sede e espalha-se por todo o Estado baiano, como Cachoeira, Miguel Calmon, Canavieiras, Campo Formoso e Wagner (chamada antes de Ponte Nova). Em Salvador atuaram diversos missionários pioneiros como Blackford, Chamberlain (iniciador do Colégio Mackenzie em SP), Kolb e Wadell, demonstrando a relevância da cidade e da região nordestina para o projeto missionário presbiteriano. Aqui nascem projetos missionários e instituições que ainda hoje fazem parte da organização eclesiástica presbiteriana: a organização da primeira Sociedade Presbiteriana Feminina (SAF) em 1905, originalmente denominada de Sociedade de Senhoras; União de Mocidade Presbiteriana em 1946. Através dessa igreja baiana surgiram Presbitérios e Sínodos (atualmente em número de quatro). O presbiterianismo foi implantado também na cidade de Cachoeira a cento e vinte quilômetros de Salvador, muito conhecida por ser a terra de Castro Alves o poeta e abolicionista, mas historicamente por ter sido o grande centro de lutas pela Independência do Brasil e foi capital do Estado durante dezesseis meses na época da Bahia Independente e da Revolta da Sabinada. O autor conduz seus leitores pelo sertão baiano até o litoral de Canavieiras, quarta organizada no Estado baiano (1906). Aqui surge a primeira escola paroquial protestante com o nome de Colégio Doutor Antônio Salustiano Viana, que iniciou em 1928 e perdurou até 1945, sendo reiniciada algumas vezes posteriormente. A partir da Igreja de Canavieiras nesses mais de cem anos o presbiterianismo expande-se ao sul da Bahia em cidades como Itabuna, Ilhéus, Itamaraju, Camacan, Vitória da Conquista, Pau Brasil, Belmonte, Porto Seguro, Coaraci e outras.
            No Estado de Pernambuco a pioneira é a Igreja Presbiteriana do Recife. Aqui estiveram por um período prolongado os invasores holandeses que deixaram suas marcas protestantes pela cidade. O trabalho inicial coube ao missionário Rev. John Rockwell Smith, após uma longa viagem de 33 dias desembarca na cidade. Apesar de um “frágil começo” a persistência de Smith alcançou êxito. Uma família que abraçou o evangelho protestante foi a Lens César. O trabalho protestante foi duramente combatido pelas lideranças católicas romanas, mas apensar de tantas lutas “permaneceram firmes...apesar das pedradas, dos insultos”. Essa igreja prosperou e em seus primeiros cinquenta anos alcançou perto de mil e cem membros. Seguindo a recém inaugurada estrada de ferro surgem novas igrejas: Canhotinho, Garanhuns, Gileá e Palmares (Zona da Mata), cabendo a de Garanhuns a alcunha de  “Antioquia do Nordeste”, visto que tornou-se ponte de lança para a evangelização pernambucana e além.
            O protestantismo presbiteriano no Estado de Sergipe é resultante das duas atividades fecundantes os colportores advindos de Pernambuco e os obreiros que vieram via Bahia que a partir da cidade de Laranjeiras, cuja relevância cultural e econômica na época a reportava como mais importante do Estado. Coube ao incansável missionário pioneiro Rev. Alexander Latimer Blackford a organização da primeira igreja em 1884. Posteriormente pastoreou aquela igreja o missionário Rev. John Benjamim Kolb que fundou o Colégio Americano que posteriormente foi transferido para Aracaju. O trabalho de Kolb foi profícuo e surgiram igrejas presbiterianas em muitas cidades da região sergipana incluindo a capital Aracaju.
            Na Paraíba o trabalho inicia-se com dois colportores advindos de Pernambuco e que percorrem todo o território paraibano distribuído bíblias e livretos evangélicos, chegando inclusive na região do Pará. Coube ao missionário pioneiro Rev. Smith a honra de pregar e iniciar a primeira igreja no Estado paraibano (1884).
            Finalmente alcançamos a região Norte no Pará e na Amazônia, cujas capitais foram alcançadas pelo avanço missionário presbiteriano em Belém do Pará e Manaus (1904). Esses trabalhos se iniciaram pela presença dos migrantes de outras regiões do país e que ali chegando fecundaram suas convicções protestantes presbiterianas. Uma das características da igreja de Manaus é sua atuação junto aos povos ribeirinhos e os vilarejos no interior amazônico.
            Na terceira parte do livro o autor sintetiza algumas lições retiradas de toda essa trajetória histórica, o qual ele poderia ter se prolongado algumas páginas mais.
            Mas nem somente de presbiterianismo se forma esse livro, pois o autor vai pontilhando ao longo de todo o texto uma constelação de informações sobre outros ramos do protestantismo que concomitantemente se desenvolveram nesse período histórico em solo brasileiro. Os congregacionais, os luteranos, os metodistas, os batistas e assembleianos surgem como fortes afluentes do rio profícuo do presbiterianismo nacional.  
            Além do que foi aqui destacado há inumeráveis pérolas históricas da implantação e desenvolvimento do protestantismo presbiteriano no vasto território brasileiro, para aqueles que persistentemente se dispor a mergulhar nesta literatura. A linguagem do autor é professoral e agradável, despertando sempre o interesse do leitor e fazendo dessa leitura um momento saudável de reflexão histórica.
            Para aqueles que pouco conhece da História do Presbiterianismo brasileiro esse volume do professor Caleb Soares é indispensável e para aqueles que arduamente pesquisam o desenvolvimento do protestantismo no Brasil a leitura desta obra é fundamental, pois está cravejada de citações e fontes primárias e boas referências bibliográficas sobre o tema pesquisado.

SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

Professor Caleb Soares
Autor de Januário Antônio dos pés formosos, Banks ainda hoje, Antioquia do Vale e Bandeirantes da Reforma. Fundador e presidente do instituto de Pedagogia Cristã, diretor do Farol Cristão, mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do RS. Mestrando em Teologia de Missão Urbana pelo Seminário Teológico Servo de Cristo, de São Paulo. Em preparo: Curso para evangelistas, O rosto e as entranhas da violência e As três dimensões da educação.

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terça-feira, 19 de junho de 2018

Resenha: Do Baú do Enos Pai (compartilhando a História do Protestantismo Brasileiro)



            Poucos sãos as pessoas que tem a oportunidade de escrever sua própria história. O velho diário, como a da menina judia Anne Frank e o do missionário presbiteriano A. G. Simonton foi e ainda continua sendo uma ferramenta preciosa para se registrar os acontecimentos marcantes da vida, mas os brasileiros não incorporaram essa cultura e raríssimos entre nós tem esse zelo literário. A nossa tradição histórica sempre foi a transmissão oral, de maneira que ouvimos e repassamos o nosso conhecimento histórico através dos “causos” que avós e pais nos relatam ao redor da mesa, a televisão já tinha roubado grande parte dessa cultura e com a “inclusão (invasão) digital” perdemos definitivamente essa extraordinária cultura oral e caímos no silêncio da ignorância. Os brasileiros correm seriamente o risco de se tornarem pessoas sem história.
            A importância do livro de Enos Moura (pai) como ele gosta de frisar, é uma dessas raras oportunidades de adquirirmos conhecimento histórico através dos “causos” por ele compartilhado, graças a Deus na forma escrita, ainda que passar horas conversando com ele seja algo além de prazeroso bastante interessante e instrutivo para aqueles que são apaixonados pela história de forma geral e em particular do protestantismo no Brasil.
Enos é uma testemunha ocular viva de quase cem anos da história protestante brasileira e por sua origem nordestina ele nos proporciona uma rara oportunidade de tomarmos conhecimento de fatos e personagens do protestantismo pioneiro, ou seja, na sua implantação e consolidação no país. O seu amigo e historiador Alderi de Matos sintetiza na orelha a importância desse livro: “É palpitante acompanhar a caminhada de sua família por várias gerações, desde os bisavôs já distantes no tempo, passando pelo avô e pelo pai pastores e por uma infinidade de outros personagens que marcaram, e marcam ainda hoje, a sua peregrinação”.
Sublinhei a expressão “infinidade de outros personagens” porque realmente expressa a riqueza do conteúdo deste Baú crônico-historiográfico. Em cada uma de suas crônicas o autor vai abrindo o leque e nos apresentando os mais diversos personagens que demarcaram a historiografia protestante brasileira nos últimos oitenta anos. Ele teve contato pessoal desde missionários pioneiros como o Rev. John Rockwell Smith até aqueles que ainda hoje continuam influenciando a história do presbiterianismo brasileiro como o Rev. Roberto Brasileiro, atual presidente do Supremo Concilio.
Enos é privilegiado, pois participou indireta e diretamente dos grandes movimentos intestinos do presbiterianismo brasileiro. Apesar de serem em forma de crônicas, curtas bem ao gosto popular brasileiro, ele polvilha em cada uma delas informações precisas e vivenciais destes movimentos. Não se omite em expressar suas opiniões e contestações dos fatos por ele registradas, pois esse sempre foi seu jeito de vivenciar sua fé e defender seus pontos de vistas, mas que torna a leitura dos textos instigante e reflexivos.
Outro aspecto peculiar é o fato de que grande parte de sua vida e, portanto dos textos aqui apresentados é pela ótica do leigo, visto que sua ordenação, que merece um adendo à parte, ocorre apenas em 1980 aos 36 anos de idade, de maneira que trabalhando em diversas empresas, sendo que por 25 anos na EMPETUR (Empresa de Turismo de Pernambuco) e tendo a oportunidade de viajar por diversos países adquiriu uma cosmovisão muito além de uma eclesiologia feudal, o que lhe proporcionou a capacidade de interagir de forma positiva com os mais diversos segmentos social-político-eclesiástico do período histórico por ele aqui abordado.
Dentre todas as suas múltiplas atividades eclesiásticas ao longo de sua vida, certamente sua atuação na e junto a juventude presbiteriana é a mais marcante. Desde seus doze anos (1956) ele participa efetivamente da caminhada da mocidade presbiteriana (União de Mocidade Presbiteriana-UMP). Participou do apogeu do trabalho da juventude presbiteriana, sofreu terrivelmente com o fechamento da Confederação Nacional pelo Supremo Concílio (maio de 1960 – portanto, antecedendo o Golpe Militar no país) e pela qual gastou e se deixou gastar pela reorganização da Nacional dos jovens presbiterianos que somente veio a ocorrer em 1986 com a realização do “X Congresso Nacional da Mocidade Presbiteriana”, ou seja, 26 anos depois.  Durante esses anos e ainda hoje na maturidade de seus mais de setenta anos, Enos continua interagindo com a Mocidade Presbiteriana. Ele compartilha conosco nessas crônicas todos esses movimentos internos da juventude presbiteriana e proporcionando uma oportunidade para refletirmos sobre o que fomos e o quanto estamos longe de sermos aquilo que já fomos um dia.
A questão de sua ordenação na IPB ocupa três crônicas e realça a forma retrógada do pensamento presbiteriano no período pós-regime militar. Ele havia concluído o curso teológico, iniciado no Seminário Teológico Presbiteriano de Recife, mas concluído em São Paulo na Faculdade de Teologia da Igreja Episcopal do Brasil em 1969. Foi encaminhado pelo Conselho da IPB Ebenézer ao Presbitério Norte de São Paulo, que se reuniria em um sítio em Mogi das Cruzes. No transcorrer da reunião conciliar um bilhete assinado por dois “conceituados” pastores cujo teor era “Não ordenem esse rapaz, ele é perigoso” e essa alcunha foi suficiente para impedir sua ordenação na IPB. Em 1980, em um encontro com o Rev. Mozart Noronha então moderador da Assembleia Geral da Igreja Cristã de Confissão Reformada, com sede no Rio de janeiro, foi convidado por este para se apresentar como candidato e ser ordenado por essa denominação protestante. Após cumprir todos os requisitos eclesiásticos exigidos pelo Concílio sendo aprovado foi ordenado no sábado dia 23 de novembro de 1980, tendo a parênese pelo Rev. Jonas Neves Rezende, tendo o templo da Igreja Cristã de Ipanema repleta como testemunha e tendo o Rev. Rubem Alves participando da cerimônia colocando-lhe a Estola Sacerdotal. Pouco tempo após foi recebido por transferência na IPB através do Presbitério de Pernambuco e foi fazer parte do colegiado de pastores da IPB das Graças, após longos onze anos entre a formação teológica e a ordenação.
Minhas duas últimas observações sobre esse “Baú” é que as crônicas são concisas e em uma linguagem extremamente agradável tanto para aqueles que não são da área de história, mas certamente preciosa e bastante útil para todos aqueles que estudam a história do protestantismo brasileiro e particularmente aos presbiterianos, que haverão de adquirir um vasto conhecimento da intimidade dessa denominação do protestantismo histórico nacional. Quem dera os pastores e membros da IPB lessem esse “Baú” e fizessem um exercício de reflexão histórica aprendendo com seus erros e acertos para virmos a ser uma igreja melhor e mais coerente com os princípios evangélicos que teoricamente tanto zelamos (lembrando que os fariseus e escribas eram os zeladores da Torá nos dias de Jesus).
Minha última nota e propositalmente deixei para o final são as dezenas e provavelmente uma centena de fotos e imagens preciosas para qualquer historiador ou curioso dos fatos concorridos no protestantismo brasileiro ao longo de quase um século. De todas destaco apenas duas fotos que são bastante representativos da relevância de todas as demais imagens contidas nesse precioso “Baú do Enos”. A primeira esta na página 177 e trás o cinquentagenário Rev. Harold Cook examinando com uma lupa se a secretária havia marcado corretamente o seu voo de retorno, após participar do Supremo Concílio reunido em Recife em julho de 1978. A segunda imagem é o momento de sua ordenação quando o então excluído do rol de membros da IPB e exilado político Rev. Rubem Alves lhe coloca a Estola Sacerdotal em 1980 (p. 193).
E para aqueles que desejam conhecer o desenvolvimento das atividades da juventude presbiteriana, principalmente após a reativação da sua Confederação Nacional, encontrará nesse “Baú” preciosas informações de quem não apenas ouviu falar, mas por alguém que vivenciou e continua vivenciando intensamente as atividades da juventude presbiteriana no Brasil.

MOURA, Enos. Do baú do Enos pai. 1ª ed. São Paulo: PoloBooks, 2018. 364p.




Bibliografia do Autor
MOURA, Enos. Do baú do Enos pai. 1ª ed. São Paulo: PoloBooks, 2018. 364p.
____________. Do amor por uma Tocha. Edição do autor, 2016.
SILVA, Hélerson, MOURA, Enos e MORAES, Mônica. Eu faço parte desta história. São Paulo: CEP, 2002. [Secretaria de Cultura – Comissão de História da Mocidade – da Confederação Nacional da Mocidade da Igreja Presbiteriana do Brasil].

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sexta-feira, 20 de abril de 2018

RESENHA: Léonard, É.-G. O Protestantismo brasileiro



            Tirando as duas tentativas frustradas de se estabelecer alguma forma de protestantismo no Brasil através da invasão e domínio, a primeira de curtíssima duração pelos franceses (1555-1567) e a segundo mais longa dos holandeses (1630-1654), os diversos ramos derivados da Reforma Protestante iniciaram definitivamente sua inserção no país no final dos oitocentos, com a chegada de diversos missionários de origem estadunidenses enviados pelas denominações evangélicas americanas.
            Entretanto, apesar da presença permanente e crescente destes ramos protestantes a mais de cento e cinquenta anos, sua presença e atuação na sociedade brasileira continuam sendo ignorada completamente pelos livros didáticos de História do Brasil. A culpa deste fato facilmente comprovado não é apenas daqueles que produzem o material didático, mas também dos próprios protestantes que optaram desde suas origens tupiniquins a manterem uma equidistância da sociedade em que eles vivem e quando chamados para assumirem um papel de protagonista dos eventos sociais contentaram-se em permanecerem como meros coadjuvantes da história nacional. Esta opção ao longo do tempo tornou a presença protestante invisível aos olhos da sociedade brasileira.
            Os pioneiros do estudo sociológico e antropológico no Brasil não fizeram ou fizeram poucas referências ao protestantismo brasileiro nascente, para citar apenas alguns exemplos temos Oliveira Vianna (1920), Alceu Amoroso Lima (1931) e Gilberto Freyre (1933) que ao fazerem pequenas inserções em seus textos sobre os protestantes nacionais, o fazem de forma folclórica, como simples curiosidade.
A presença e influência dos protestantes em suas respectivas denominações começaram a serem pesquisadas mais precisamente após o grande crescimento das chamadas denominações pentecostais e mais especificamente os chamados neopentecostais (Universal e seus derivados) na sociedade brasileira e sua grande visibilidade na mídia e participação na política regional e nacional,[1] forçando os centros acadêmicos a dar-lhes atenção como campo crescente de pesquisa sociológica, antropológica e religiosa. Mas o protestantismo histórico ainda permaneceu incubado e somente lentamente foi saindo dos casulos acadêmicos.
Um fator que alavancou a pesquisa no campo do protestantismo histórico foi a criação dos cursos de pós-graduação e mais especificamente os da área de Ciências da Religião. Na medida em que estes polos foram se multiplicando no Brasil a produção acadêmica tomou um novo e continuo impulso.
Uma das primeiras e provavelmente pioneira produção acadêmica dentro das normas da pesquisa cientifica sobre o protestantismo no Brasil foi a do professor Leonard “O protestantismo brasileiro, estudo de eclesiologia e historia social”, cujo subtítulo revela o escopo e a orientação do autor, onde ele procura relacionar o crescimento do protestantismo no Brasil com diversos fenômenos sociológicos brasileiros e desta forma caracterizar algumas das funções sociais do protestantismo e de suas variadas modalidades.
O historiador francês Guillaume Jules Émile Léonard,[2] nome completo, mas conhecido amplamente na historiografia protestante brasileira como Émile Léonard, chega ao Brasil no final da década de 1940 a convite da Universidade de São Paulo (USP), recomendado por Lucien Febvre e Fernand Braudel para lecionar História da Civilização Moderna e Contemporânea, ocupando a cadeira de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e letras de 1948 a 1950, cadeira ocupada anteriormente por Fernand Braudel, que aqui estivera em seu segundo período de maio a dezembro de 1947. Tinha ele uma motivação pessoal para atravessar o grande Atlântico em direção ao sul, pois desejava conhecer o protestantismo brasileiro para aprofundar suas pesquisas sobre a expansão da Reforma nas diferentes partes do mundo.
E o protestantismo brasileiro não lhe oferecia apenas um tema de investigação, um campo relativamente virgem de pesquisa. Oferecia-lhe algo mais: oferecia-lhe uma espécie de viveiro de experimentação, um flagrante, por assim dizer, do processo histórico. Desde 1921 — como se deduz da lista de publicações suas — vinha êle reunindo elementos para realizar uma grande interpretação da Reforma na França. O panorama atual do protestantismo francês, distante quatro séculos do ambiente da Reforma, oferecer-lhe-ia problemas constantes de interpretação dos fatos. A introdução do protestantismo no Brasil é de ontem: a obra congregacionalista data de 1855, a presbiteriana, de 1859. O catolicismo brasileiro do fim do século passado assemelhava-se ao europeu do século XVI. Ainda hoje, em muitos pontos do Brasil, se vivem e se reproduzem os choques, as polémicas, as reações, as perseguições religiosas, da segunda metade do século passado. Êsse ambiente seria muito parecido com aquêle em que se operou a Reforma do século XVI (Prefâcio da primeira edição de 1965-ASTE).
Apesar do exímio tempo que permaneceu no país o eminente professor empreende uma ampla pesquisa de campo e em arquivos nas denominações protestantes, bem como a leitura bibliográfica da história do Brasil e do protestantismo aqui estabelecido, de modo a estabelecer os subsídios necessários para elaborar sua obra acima referida. Inicialmente sua pesquisa foi editada e publicada em oito números da Revista de História da USP (nºs 5 a 12),[3] de janeiro de 1951 a dezembro de 1952 e somente reunido em livro no ano de 1963 (dois anos após a morte dele).[4]
Ele inicia seu trabalho delimitando suas fontes, discorrendo pelo estabelecimento das primeiras missões estrangeiras, passando pelas reações dentro do catolicismo hegemônico até então vigente no Brasil, sem deixar de expor os problemas eclesiásticos ocorridos no interior do próprio protestantismo estabelecido aqui em forma das múltiplas denominações exportadas de suas matrizes americanas.
Como mencionado o pioneirismo de seu trabalho esta no fato de que ele evita as narrativas hagiográficas até então vigentes na historiografia protestante brasileira e municia-se de uma rigorosa pesquisa documental e da aplicação de um método de investigação histórico próprio a um trabalho científico.
Como estrangeiro, francês, e ligado a uma instituição acadêmica não confessional (USP), portanto sem vínculo denominacional, Leonard estava completamente livre para empreender não apenas uma mera reconstituição da implantação e expansão do protestantismo no Brasil, mas também para fazer uma análise de seus aspectos positivos e negativos.
A multiplicidade de denominações evangélicas, com suas estratégias e atividades distintas, antes de ser um aspecto positivo, acabam por se torna um problema a ser administrado permanentemente, pois os atritos tornam-se inevitáveis na prática missionária. Um exemplo é o fato de que os presbiterianos possuem duas agências missionárias atuando simultaneamente no país, uma de origem sulista e outra de origem nortista e que em diversas ocasiões expõem as diferenças de suas missões pátrias advindas da chamada Guerra de Secessão.
A formação da membresia dessas comunidades protestantes iniciais é formada não apenas pelas camadas sociais menos favorecidas, mas também atraem intelectuais e aristocratas. Ele percebeu também dado as dimensões continentais e desproporcionais do país, somados ao numero defasado de missionários e pastores, que foram surgindo ao longo dos anos diversas comunidades evangélicas autônomas sem qualquer influência das lideranças das igrejas estabelecidas.
Especifica algumas das crises internas e cisões das jovens denominações protestantes (como a divisão da igreja presbiteriana em virtude do debate a respeito da questão da maçonaria); visitou e observou com muita atenção a Igreja Evangélica Brasileira (IEB), decorrente da ruptura de uma liderança presbiteriana, Miguel Vieira Ferreira, então presbítero dessa igreja, mas que acabou fundando uma nova tradição religiosa, que naquele momento de sua pesquisa estava em processo de reinterpretação de suas origens; expõe a contínua reação católica, sobretudo na República, tendo como propósito salvaguardar seu espaço de atuação e sua posição de religião hegemônica; por fim tece algumas considerações sobre o pentecostalismo que ainda estava iniciando sua expansão nos grandes centros urbanos brasileiro.
A obra de Léonard, portanto, permanece um referencial a pesquisadores do tema, tanto pelas preciosas informações que contém como também, conforme ressaltado, pelo seu pioneirismo enquanto projeto historiográfico sobre o protestantismo.


LÉONARD, Émile-Guillaume. O protestantismo brasileiro:
estudo de eclesiologia e de história social .
Tradução de Camargo Schützer,
2ª edição. Rio de Janeiro e São Paulo, JUERP/ASTE, 1981. 354 p.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
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[1] Desde os anos 50, o Pentecostalismo cresce muito no Brasil. Mas sua expansão acelera-se acentuadamente a partir da década de 1980, momento em que esse movimento religioso passa a conquistar igualmente crescente visibilidade pública, espaço na tevê e poder político partidário. Segundo os Censos Demográficos do IBGE, havia 3,9 milhões de pentecostais no Brasil em 1980, 8,8 milhões em 1991 e 17,7 milhões em 2000.
[2] A família de Léonard vem da forte tradição huguenote e seus antepassados constam nos arquivos de Genebra – que, no século 18, recebeu muitos refugiados franceses.
[3] O Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula abriu-lhe as páginas da Revista; o Prof. Lineu de Camargo Schiitzer deu-se ao trabalho de traduzir as 315 páginas em que se converteu o seu original, distribuídos ao longo das oito edições consecutivas.
[4] Sua monumental obra histórica do protestantismo - Histoire Générale du Protestantisme (Paris, 1961-1964; reeditada em 1988), perfazem quatro volumes que totalizam 1937 páginas. Torna-se imprescindível ao estudo do protestantismo, uma obra amadurecida ao longo de mais de vinte anos de uma carreira dedicada à pesquisa e ao recolhimento de material sobre o protestantismo em diferentes partes do mundo. Suas fontes pesquisadas incluem textos em inglês, espanhol, português, italiano, holandês, alemão e latim, tendo sido traduzida para o inglês, espanhol e italiano, lamentavelmente nunca para o português.

terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil (1859-1900)



            Esse livro elaborado pelo eminente Dr. Alderi S. Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil e também um profundo pesquisador do protestantismo no Brasil, contribui de forma relevante para se preencher uma enorme lacuna da história do presbiterianismo no Brasil.
            A historiografia protestante nacional somente tomou a forma acadêmica após as décadas de setenta e oitenta, quando começaram a emergia nos grandes centros acadêmicos brasileiros os cursos de pós graduação e mais especificamente de mestrado em Ciências da Religião.
Ainda que haja diversos textos produzidos em períodos anteriores, estas obras possuíam um ranço eclesiástico, uma vez que seu alvo primário eram as próprias denominações, que as financiavam, e a defesa de suas respectivas posições históricas e teológicas. Outra característica desta literatura era enaltecer o esforço dos ―heróis da fé, ou seja, aqueles líderes ou pioneiros que implantaram trabalhos denominacionais em determinado lugar ou região.
Nas palavras de Júlio Andrade Ferreira, historiador presbiteriano, a historiografia protestante brasileira ainda que a partir de 1950 fosse quantitativamente crescente, no que tangia a qualidade tornava-se angustiante para os que pretendiam um estudo mais acadêmico, pois segundo ele ―a um simples exame se apercebem do caráter apologético e pouco cientifico, pueril às vezes, da maior parte dessa imensa produção literária.
Um dos raros trabalhos de cunho acadêmico produzido sobre o protestantismo brasileiro é a do eminente professor Émile-G. Léonard, francês que este atuando como docente na Universidade São Paulo e que durante os poucos anos que aqui esteve produziu seu “O protestantismo brasileiro, estudo de eclesiologia e historia social” cujos capítulos foram sendo editados na revista desta universidade e posteriormente editados em formato de livro em meados de 1963 e depois pelas JUERP/ASTE (1981).  O subtítulo revela o escopo e a orientação do autor, onde ele procura relacionar o crescimento do protestantismo no Brasil com diversos fenômenos sociológicos brasileiros e desta forma caracterizar algumas das funções sociais do protestantismo e de suas variadas modalidades.
A obra de Matos supracitada está dentro deste formato acadêmico de produção literária e acadêmica. Ainda que ele seja um historiador oficial da denominação presbiteriana ao qual pertence, seus trabalhos tem sido demarcados pela profunda pesquisa e informações documentais de fontes primárias. Apesar de tratar de vultos eminentes do presbiterianismo pioneiro, o pesquisador consegue produzir textos sóbrios e de interesse para todos aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre a implantação do protestantismo no Brasil através de seu viés presbiteriano.
Nas primeiras linhas de sua introdução Matos esclarece a razão da produção deste volume: “a dificuldade de encontrar em um mesmo volume informações biográficas detalhadas sobre os pioneiros da obra presbiteriana no Brasil”. Ele também explica a razão da delimitação temporal da pesquisa produzida: “por causa da preocupação de abrangência, incluindo-se todos os personagens relevantes, foi preciso limitar o período abordado aos anos de 1859 a 1900, ou seja, o século 19”.
Inclui a guisa de introdução um sucinto resumo da implantação inicial do presbiterianismo no Brasil e inclui dois interessantes gráficos sobre as Missões Presbiterianas Norte-Americanas que foram responsáveis pelo envio desses missionários pioneiros a Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA) através de sua Junta de Missões de Nova York e a Igreja Presbiteriana do Sul (PCUS) através de seu Comitê de Missões de Nashville, bem como as suas respectivas atuações no campo missionário brasileiro, destacando que a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) está diretamente vinculada à Junta nortista. O segundo gráfico visualiza a evolução histórica da implantação do presbiterianismo no país através da formação de seus primeiros Concílios nacionais, cujo primeiro Presbitério foi estabelecido no Rio de Janeiro, pela razão histórica de que a primeira igreja foi estabelecida na então capital brasileira, mas que era composta pelas duas igrejas estabelecidas na cidade de São Paulo (capital) e Brotas (interior).
O pesquisador inclui igualmente a participação das mulheres no esforço missionário pioneiro presbiteriano. Oferece preciosas informações sobre o papel relevante que as missionárias presbiterianas desempenharam na implantação desta denominação protestante no país. Coloca nome nas “mulheres sem nome” dos pastores missionários que igualmente deram seus melhores anos e algumas a própria vida em prol da evangelização de cunho evangélico protestante em todos os rincões deste continente brasileiro, assim como aquelas missionárias solteiras que igualmente desembarcaram em nossos portos imbuídas de um objetivo claro e definido – estabelecer no Brasil uma denominação presbiteriana forte e irradiadora da mensagem simples do Evangelho de Jesus Cristo. O papel educacional desenvolvido por essas missionárias, aqui apenas mencionados, tem sido motivo de ampla pesquisa acadêmica por diversos vertentes na área da educação no Brasil.
De não menor relevância a obra oferece uma ampla coleção de imagens, algumas raríssimas, destes personagens pioneiros do presbiterianismo tupiniquim, bem como de seus edifícios e templos religiosos e demais monumentos iniciais, tais como uma foto do Rev. Alexander L. Blackford e os quatro primeiros seminaristas do chamado “Seminário Primitivo”, que posteriormente seriam ordenados como pastores desta denominação. Além das imagens alocadas nos diversos capítulos que compõe o livro, o autor ao final vai disponibilizar uma ampla "Galeria de Imagens" de qualidade um tanto rudimentar, mas que possibilita ao leitor uma visibilização interessante sobre o desenvolvimento do presbiterianismo no Brasil.
O autor divide sua pesquisa de forma pedagógica e não meritória apresentando inicialmente os missionários americanos do Norte (PCUSA) e depois os do Sul (PCUS), pelas razões de que foram os nortistas que chegaram primeiro e de que a IPB a eles estão vinculados em sua organização eclesiástica primária; posteriormente são biografados os pastores nacionais, abrindo esse capítulo o Rev. José Manoel da Conceição que foi o primeiro brasileiro ordenado como pastor protestante no Brasil, fato completamente inédito na história brasileira, em que até então havia atuando aqui apenas missionários estrangeiros.
Em um capítulo especifico o pesquisador abarca as denominadas “Missionárias educadoras” onde resgata o mínimo de informações sobre ao menos quinze mulheres que aqui desembarcaram e deixaram suas marcas na reestruturação pedagógica na busca de um ensino nacional relevante e de alto nível.
Neste mesmo capítulo o autor inclui o papel indispensável dos chamados leigos, aqueles que não foram investidos como missionários ou pastores. Entre os vinte e quatro nomes disponibilizados estão de homens e de mulheres que participaram de forma efetiva na construção de uma denominação presbiteriana pujante na amplitude do território brasileiro.    Abre essa sessão do livro a figura de Maria Antônia da Silva Ramos (nome de uma rua no centro de São Paulo), figura eminente da aristocracia paulistana e que labutou por décadas nas plêiades presbiterianas e também contribuiu para a fomentação do que viria a ser a Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao vender parte de uma chácara na Consolação ao Rev. George W. Chamberlain e sua esposa Mary, que ali iniciariam a Escola Americana embrionária do futuro Mackenzie College e atual Universidade, no coração da maior cidade do Brasil.
Oferece também o pesquisador uma selecionada bibliografia sobre o presbiterianismo pioneiro no país, que possibilita aos interessados em adentrar às pesuisas sobre essa denominação ou mesmo ao protestantismo de forma mais ampla.
Por fim, o autor acrescenta diversos apêndices que contribuem de forma positiva para a pesquisa da obra por ele elaborada. Os dois primeiros abrangem uma lista com os missionários da Igreja do Norte e do Sul com suas respectivas esposas e seus respectivos períodos de atuação no Brasil; no apêndice três lista igualmente os pastores nacionais e suas esposas delimitando apenas a data das respectivas ordenações pastorais; no apêndice numero quatro enumera todos os Concílios Superiores da IPB e seus respectivos Moderadores (Presidentes), extrapolando o período até 1937; no apêndice cinco dispõe uma lista cronológica das primeiras igrejas Presbiterianas estabelecidas no Brasil; no apêndice numero seis oferece uma cronologia básica da história presbiteriana no Brasil abrangendo o ano de 1859 a 1921. Para facilitar a pesquisa dentro da obra o pesquisador elaborou dois índices sendo o primeiro de Personagens biografados e o segundo por assuntos abordados ao longo do livro.
As limitações de uma obra tão vasta como essa estão justamente no fato de que faltam em diversos biografados maiores informações, visto que no período demarcado pouco valor se dava à preservação de tais informações; também se recente a obra de um aprofundamento maior em determinados temas mencionados, mas que certamente tornaria a obra inviável editorialmente.
Atualmente não temos ou se foi produzido não tomei conhecimento outro trabalho de cunho histórico-acadêmico que ofereça igual, ou melhor, fonte de informação e pesquisa do que este livro do Rev. Alderi S. Matos, sobre a implantação e desenvolvimento do protestantismo, pelo viés presbiteriano, no Brasil.
O presbiteriano de forma especifica e os protestantes evangélicos de forma geral deveriam tomar conhecimento desta obra para que pudessem adquirir uma visão mais ampla desta monumental obra missionária que foi a implantação do protestantismo no nosso país. Na História do Brasil os protestantes praticamente são inexistentes, mas a culpa é nossa mesma, pois nem os próprios evangélicos tem interesse e valorizam suas próprias origens históricas e porque os demais o fariam.

MATOS, Alderi Souza de. Os pioneiros presbiterianos do Brasil (1859-1900). São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 592 p.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
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