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quinta-feira, 2 de abril de 2026

História da Igreja: A Comunidade de Reinos no Medievo

 

O longo período de mil anos, entre os séculos V e XV, é o palco da ascensão e da queda da Comunidade Medieval Europeia. Como vimos, o caos causado pela queda do Império Romano proporcionou à Igreja Cristã ascender ao topo do poder. Na mesma proporção em que os povos bárbaros conquistadores foram sendo cristianizados, a Igreja foi moldando todo o Ocidente à imagem e semelhança dos ideais cristãos — não necessariamente de Jesus Cristo — na vida comum das pessoas. Sobre os escombros do desaparecido Império Romano, o cristianismo foi construindo uma nova ordem social e uma política civilizadora, um “mundo único” cristão, no qual a unidade dos homens no Corpo de Cristo se expressava em dois aspectos: o espiritual, na Igreja universal, e o material ou temporal, no Império medieval.

Ainda que a Idade Média tenha recebido o triste apelido pejorativo de “Idade das Trevas” e, de fato, do meio para o fim desse período suas instituições tenham entrado em convulsões morais e espirituais que acabaram desembocando no grande movimento da Reforma Protestante, nos dias de sua grandeza nenhuma época produziu um senso mais elevado de dever e maior disposição para o sacrifício, nem uma concepção mais refinada da fraternidade comum entre as pessoas sob uma única ordem mundial cristã.

Liderança Cristã em um Mundo em Transformação

Os fundamentos sobre os quais a nova Europa haveria de ser construída seriam estabelecidos pelos arquitetos da Comunidade Medieval: os líderes cristãos dos séculos IV e V. Dois personagens tornam‑se representativos desse momento crucial e formativo, pois, no pensamento e na ação, construíram a ponte pela qual o mundo antigo passou para a Idade Média.

Ambrósio de Milão (339–397): governador vigoroso e hábil da cidade, exegeta bíblico, teórico político, mestre da eloquência latina, músico e professor; em todos esses papéis, ele falava a respeito de Cristo.

Embora o poder e a independência crescentes da Igreja, na época de Ambrósio, fossem reforçados pela legislação imperial, foi o trabalho de homens como ele que fez da organização cristã a única instituição estável na cena em transformação.

Ambrósio foi firme nas questões concernentes às práticas pagãs; foi implacável em relação ao arianismo, que havia avançado bastante; e, coroando sua postura singular, enfrentou o imperador Teodósio I, o último imperador forte do Ocidente. Foi nesse embate entre os dois maiores poderes daquele momento que Ambrósio apresentou os princípios da relação entre Igreja e Estado que se constituiriam na bússola norteadora do pensamento medieval.

Em 390 d.C., Teodósio ordenou um massacre de sete mil moradores de Tessalônica, horrorizando todo o mundo mediterrâneo. Depois disso, o imperador foi à basílica de Milão, mas foi impedido pelo bispo Ambrósio de participar dos sacramentos até que houvesse demonstrado arrependimento. Nesse momento, a Igreja e o Estado pararam. O imperador, contudo, acatou a autoridade da Igreja e se retirou, submetendo‑se à pena que lhe foi imposta pelo bispo.

Na concepção ambrosiana das relações entre Igreja e Estado, ambos constituem esferas de poder distintas, embora interdependentes. À Igreja compete o domínio espiritual, enquanto ao Estado cabe a ordem temporal (WALKER, 1967). Incumbe ao governante cristão a proteção da Igreja, a garantia da observância das decisões conciliares e a elaboração de leis em conformidade com os princípios morais do cristianismo, sem, todavia, interferir nas atribuições próprias da autoridade eclesiástica. Essa concepção exerceu influência decisiva tanto na estruturação da Cristandade medieval quanto na formulação da teoria ocidental acerca das relações entre os dois poderes (LATOURETTE, 2007).

Essa proposta foi ampliando a lacuna entre a Igreja Ocidental e a Oriental, onde prevaleceu a noção de symphonía[1] entre Igreja e Império, baseada em uma cooperação institucional mais estreita entre autoridade espiritual e poder civil (MEYENDORFF, 1989; DAGRON, 2003).

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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http://reflexaoipg.blogspot.com.br

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Referências Bibliográficas (citadas no texto)

CROSS, F. L.; LIVINGSTONE, E. A. (eds.). The Oxford dictionary of the Christian Church. 3. ed. rev. Oxford: Oxford University Press, 2005. Verbete: Symphonia.

DAGRON, Gilbert. Emperor and priest: the imperial office in Byzantium. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.

MEYENDORFF, John. Byzantine theology: historical trends and doctrinal themes. New York: Fordham University Press, 1989.

WALKER, Williston. A history of the Christian Church. New York: Scribner, 1967.

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[1] Ideal bizantino de harmonia funcional entre Igreja e poder imperial, distintos, porém cooperantes, na condução da ordem cristã (CROSS; LIVINGSTONE, 2005).

 

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