27 de novembro e 13 de dezembro de 1858
Toda viagem começa antes da partida. Antes de cruzar o oceano,
deixar a terra natal ou chegar a um país desconhecido, existe um caminho
interior que precisa ser percorrido. Foi nesse caminho que encontramos Simonton
nas primeiras páginas de seu diário. Ao acompanharmos sua história, descobrimos
que viajar com Simonton através de seu diário significa muito mais do que
seguir os passos de um missionário. Significa entrar em contato com um jovem
que registra suas inquietações, seus pensamentos e as decisões que, pouco a
pouco, vão dando uma nova direção à sua vida.
Agora, nossa caminhada nos conduz a duas datas específicas que
marcam uma mudança decisiva em sua trajetória: 27 de novembro de 1858
e 13 de dezembro de 1858. Entre essas duas datas existe algo
maior do que apenas alguns dias de intervalo. Existe a passagem de uma
possibilidade para uma decisão e, depois, de uma decisão para uma confirmação.
O Brasil ainda está distante. Simonton ainda está nos Estados Unidos. O oceano
ainda não foi atravessado. Mas o caminho começa a se tornar realidade...
27 de novembro de 1858 — O passo decisivo
Há momentos em que uma inquietação interior deixa de ser apenas uma
inquietação. Depois de um longo período de reflexão, oração e discernimento,
chega o momento em que é necessário transformar pensamentos em ações. Para
Simonton, esse momento chegou no final de novembro de 1858.
A questão missionária não era nova para ele. A possibilidade de
dedicar sua vida à obra missionária vinha ocupando seus pensamentos havia algum
tempo. Como estudante de teologia, estava inserido em um ambiente no qual a
expansão do Evangelho para outras regiões do mundo era considerada uma
responsabilidade urgente da Igreja. Mas existe uma diferença entre admirar a
obra missionária e considerar-se pessoalmente chamado a ela. É nesse ponto que
a experiência de Simonton começa a adquirir um novo significado.
A decisão de ser missionário implicava a renúncia de uma trajetória
previsível. Significava deixar para trás a família, os amigos, a terra natal e
uma cultura conhecida. Em aprender uma nova língua, adaptar-se a uma sociedade
completamente diferente e começar uma obra cujo resultado não poderia ser
antecipado. Assim, o Brasil não era apenas um destino geográfico;
era um salto em direção ao desconhecido.
Foi nesse contexto que Simonton tomou a iniciativa de apresentar à Junta
de Missões Estrangeiras sua disposição para o trabalho missionário. A
decisão ainda precisava ser confirmada, mas alguma coisa havia mudado. A
vocação, que permanecia na esfera do espaço íntimo de seus pensamentos, agora
havia atravessado a fronteira entre a intenção e a ação. Ele estava
dando o primeiro passo.
“O passo decisivo foi dado”.
Essa breve expressão resume a importância daquele momento. Simonton
ainda não havia deixado os Estados Unidos. Ainda não conhecia pessoalmente o
país para o qual desejava ser enviado. Mas, ao colocar sua decisão diante da
Junta, uma porta havia sido aberta. E talvez seja justamente isso que torna
essa data tão importante. O missionário ainda não havia partido, nenhum navio
havia deixado o porto e nenhuma despedida havia acontecido.
Mas, em certo sentido, a viagem já havia começado.
Quando o chamado se torna uma decisão
Quando lemos as anotações de Simonton ficamos impressionados com a
delicadeza do processo de seu chamado missionário. Não foi um clarão repentino,
nem uma voz estrondosa que o arrancou de sua rotina. Foi algo mais silencioso,
quase imperceptível, como uma semente que germina aos poucos.
Simonton estava diante desse tipo de momento. Ao escrever à
Junta, não estava proclamando certezas absolutas. Pelo contrário, ainda havia
dúvidas. Mas havia também coragem: a coragem de se colocar nas mãos da
providência de Deus e permitir que a Igreja confirmasse aquilo que ele
discernia como chamado.
Aqui é oportuno fazermos uma reflexão: quantas vezes confundimos
vocação com espetáculo, quando na verdade ela pode ser apenas esse fio discreto
que nos conduz, dia após dia, até o lugar onde nossa vida encontra sentido.
Outro detalhe significativo é que há uma relação importante entre vocação
pessoal e confirmação comunitária. Simonton podia sentir-se chamado,
mas não se enviaria a si mesmo. A missão não seria simplesmente uma aventura
pessoal. Era necessário que a Igreja reconhecesse, examinasse e confirmasse
aquela vocação. E é exatamente isso que encontramos na segunda data do seu
diário.
13 de dezembro de 1858 — A decisão encontra sua confirmação
Pouco mais de duas semanas depois, chega o momento que transforma a
expectativa em realidade. A Junta de Missões Estrangeiras
responde favoravelmente à proposta de Simonton. A possibilidade de partir para
um campo missionário deixa de ser apenas uma disposição pessoal, pois agora
existe uma confirmação, e o campo missionário brasileiro entra definitivamente
no horizonte de sua vida.
A resposta da Junta não representava apenas uma autorização
administrativa. Para Simonton, significava que sua disposição pessoal havia
sido examinada e reconhecida pela Igreja. Aquele chamado que havia amadurecido
em seu coração encontrava agora uma confirmação externa.
A partir daquele momento, uma nova etapa começava.
Simonton ainda precisaria organizar sua vida, preparar-se para o
ministério e enfrentar todas as questões práticas que envolviam uma missão em
outro continente. Mas a pergunta fundamental havia sido respondida: ele iria.
Tendo na última quarta-feira recebido resposta da Junta dizendo
que tinha sido nomeado missionário, ponho em prática um plano feito meses
atrás, de passar algumas semanas na Virgínia, pregando e recrutando, enquanto
preparo a partida para o campo estrangeiro [13 de dezembro de 1858].
O Brasil no horizonte
É importante lembrar que, em 1858, o Brasil era uma realidade
distante para um jovem norte-americano. A viagem entre os Estados Unidos e o
Brasil exigia semanas de navegação, as comunicações eram lentas e as
informações sobre o país circulavam principalmente por relatos de viajantes,
comerciantes, diplomatas e missionários.
Para Simonton, portanto, escolher o Brasil significava aceitar uma
missão em um lugar que ele ainda não conhecia pessoalmente. Ele precisaria
aprender a língua, conhecer os costumes, compreender a sociedade e descobrir
como comunicar a mensagem do Evangelho em um contexto cultural diferente
daquele em que havia sido formado. A missão exigiria muito mais do que
atravessar uma fronteira geográfica; seria necessário atravessar também uma
fronteira cultural. E isso começaria muito antes de sua chegada, começaria com
a disposição de aprender.
Uma decisão que mudaria sua vida
Quando olhamos retrospectivamente para a história do
presbiterianismo no Brasil, é fácil perceber a importância daqueles
acontecimentos. Sabemos o que viria depois. Sabemos que Simonton chegaria ao
Brasil, que iniciaria uma obra missionária e que sua atuação contribuiria para
o estabelecimento de uma igreja que atravessaria gerações. Mas Simonton não
possuía esse conhecimento.
Naqueles dias de novembro e dezembro de 1858, ele não podia
enxergar o futuro. Não sabia quantas pessoas encontraria, quais seriam suas
maiores dificuldades, como seria viver longe da família, quanto tempo
permaneceria no Brasil ou sequer tudo o que aquela decisão lhe custaria
pessoalmente.
Ele conhecia apenas o próximo passo, e foi esse passo
que deu.
Essa talvez seja uma das características mais marcantes da fé: Deus
raramente revela toda a estrada antes que o primeiro passo seja dado.
Simonton não recebeu um mapa completo de sua vida. Recebeu uma direção e
decidiu caminhar.
A missão começa antes da partida
Há uma tendência natural de imaginar que a missão de Simonton
começou quando ele chegou ao Brasil. Historicamente, porém, sua missão
começou muito antes.
Começou no momento em que a vocação deixou de ser apenas uma
possibilidade e passou a orientar concretamente suas escolhas.
Começou
quando ele colocou sua decisão diante da Igreja e aceitou que o chamado
precisaria ser confirmado e reconhecido.
Começou
quando o Brasil deixou de ser apenas um nome distante e passou a representar o
lugar para o qual sua vida estava sendo direcionada.
A missão começou antes do navio, antes do oceano e antes
do desembarque. Começou antes mesmo da despedida. Começou naquele momento
silencioso em que um jovem estudante tomou nas mãos uma decisão que mudaria
completamente o rumo de sua vida.
Agora restava aguardar o tempo da partida...
Entre 27 de novembro e 13 de dezembro de 1858, uma
transformação havia acontecido. Primeiro, Simonton tomou a decisão de
oferecer-se para o trabalho missionário; depois, recebeu a confirmação da
Junta. O chamado havia encontrado sua direção e a decisão havia encontrado sua
confirmação. O Brasil estava diante dele. Mas ainda havia uma distância imensa
entre decidir partir e efetivamente partir.
Há uma beleza nesse tempo de espera. É como se Deus tivesse
preparado um espaço entre a decisão e a partida para que a alma se
fortalecesse, para que a confiança amadurecesse. Simonton não estava apenas
indo a outro país; estava entregando sua vida a uma missão que o ultrapassava.
E penso comigo: quantas vezes também vivemos esses intervalos, quando já sabemos a direção, mas precisamos esperar o tempo certo. Talvez seja justamente nesse silêncio que a fé se aprofunda e a coragem se consolida.
O próximo capítulo dessa história não seria escrito em uma sala de
estudos, nem em uma reunião da Junta. Seria escrito em um porto. Ali, entre
familiares e amigos, entre lágrimas e despedidas, Simonton enfrentaria o
momento em que uma decisão interior se transformaria em uma separação visível.
Então, os cabos seriam desamarrados e o jovem missionário, finalmente,
começaria a atravessar o oceano.
A viagem que começara no coração agora começaria sobre
as águas.
Continue viajando...
Na próxima etapa de nossa jornada, deixaremos por um momento as
páginas da decisão e nos aproximaremos do porto de Baltimore. Ali encontraremos
Simonton diante do Banshee, sua família ao lado e o desconhecido à sua
frente. Veremos os últimos momentos em terra, acompanharemos o navio
afastando-se lentamente e observaremos, através das páginas do diário, as
silhuetas daqueles que ficaram para trás desaparecendo pouco a pouco.
Então ouviremos a voz de Simonton:
“Estou
só.”
Mas isso será assunto para a nossa próxima viagem...
Convite
Junte-se a nós nesta leitura: seremos companheiros de viagem de Simonton, partilhando suas esperanças, desafios e conquistas ao longo de sua jornada.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br
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Obra de referência
SIMONTON, Ashbel Green. O diário de Simonton. São Paulo:
Editora Cultura Cristã, 2022.
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