Teólogos como Orígenes, Crisóstomo,
Agostinho e João Calvino utilizaram o conceito de acomodação para explicar como
Deus se revela à humanidade. A Bíblia apresenta, por exemplo, Deus como Pai,
Mestre e Médico. Essas imagens não significam que Deus seja literalmente um ser
humano, mas que ele utiliza formas de linguagem que nos são familiares para nos
ajudar a compreender quem ele é e como age.
Calvino expressa essa ideia de
maneira muito sugestiva ao afirmar que é como se Deus “balbuciasse” conosco,
acomodando o conhecimento que temos dele à nossa limitada capacidade de
compreensão (Institutas 1.13.1). A ideia é semelhante à maneira como um
adulto conversa com uma criança pequena: ele não muda a verdade do que está
dizendo, mas adapta sua maneira de falar para que a criança possa compreender.
Nesse sentido, toda a revelação de
Deus é, de alguma maneira, uma revelação acomodada. Deus escolheu comunicar-se
conosco levando em consideração nossas limitações humanas. Isso não torna a
revelação menos verdadeira. Pelo contrário, demonstra a graça de Deus, que se
inclina para alcançar seres humanos limitados e pecadores.
A Escritura é um dos principais
exemplos dessa acomodação. A Palavra de Deus foi comunicada por meio de autores
humanos, utilizando linguagem humana, diferentes estilos literários, contextos
históricos e formas de expressão compreensíveis às pessoas. Deus, portanto, não
revelou sua verdade de uma maneira inacessível à humanidade, mas utilizou
instrumentos humanos para comunicar sua mensagem divina.
Outros exemplos dessa acomodação
podem ser encontrados na Lei de Deus (Institutas 2.11.13), na Oração do
Senhor (Institutas 3.20.34) e nos sacramentos (Institutas 4.1.1).
Entretanto, o exemplo máximo da
acomodação divina é Jesus Cristo. Na encarnação, o Filho eterno de Deus
assumiu a natureza humana e entrou na história. Em Cristo, Deus se revela de
maneira suprema e pessoal. Calvino afirma que, em Cristo, Deus “se faz
pequeno”, por assim dizer, para descer ao nível da nossa capacidade (Comentário
de 1 Pedro 1.20).
Assim, a acomodação divina nos
ensina que Deus, em sua graça, se dá a conhecer de maneira que possamos
compreender. O Deus infinito se comunica com criaturas finitas; o Deus
transcendente entra em nossa história; e o Deus invisível se revela por meio de
palavras, imagens, sinais e, de modo supremo, na pessoa de Jesus Cristo.
A acomodação, portanto, não
significa que Deus diminua ou distorça a verdade. Significa que, em sua
condescendência e graça, Deus ajusta a forma de sua revelação à nossa
capacidade limitada, sem deixar de ser verdadeiro em tudo aquilo que revela.
Acho que esta versão se aproxima
mais do estilo que você vem utilizando: teologicamente sólida, mas didática
e progressiva, permitindo que o leitor compreenda primeiro o conceito e
depois perceba sua relação com a Escritura e, finalmente, com a encarnação
de Cristo.
Utilização
livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan
Pereira
Mestre em
Ciências da Religião.
Universidade
Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Bíblica
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