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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Protestantismo Brasileiro: A Marginalização da Imaginação

Desde os primeiros livros da Bíblia, a revelação divina se manifesta por meio da imaginação. Em Juízes, encontramos a parábola do espinheiro convidado a reinar sobre a floresta, uma narrativa simbólica que traduz tensões políticas em imagens vivas. Nos Salmos, a poesia se torna oração, transformando a experiência humana em metáforas que atravessam gerações. Em Provérbios, a sabedoria se veste de linguagem figurada, ensinando por comparações e imagens cotidianas. No Cântico dos Cânticos, o maior romance da Bíblia, o amor é celebrado em versos que unem espiritualidade e beleza literária.

Os profetas, por sua vez, são mestres da imaginação. Ezequiel descreve rodas cheias de olhos, ossos secos que ganham vida, rios que fluem do templo — imagens que não apenas comunicam, mas moldam o imaginário de um povo. Esse rio caudaloso desemboca em Jesus, que faz da parábola o coração de seu ensino. O Reino de Deus é como um grão de mostarda, como fermento na massa, como um tesouro escondido. Jesus fala ao coração das crianças e à mente dos doutores, mas os fariseus e escribas, presos à letra e ao racionalismo jurídico, não compreendem o poder da imaginação e rejeitam seu método. Assim, a fé cristã nasce e se desenvolve em diálogo profundo com o imaginário.

Os Inklings, grupo literário formado por C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien e outros em Oxford, mostraram que a fé cristã pode florescer por meio da imaginação. Suas obras criaram mundos simbólicos que dialogaram com a cultura, moldando gerações e ampliando o alcance da mensagem cristã. No Brasil, entretanto, o Protestantismo seguiu outro caminho. As universidades protestantes, desde seus primórdios, abandonaram sistematicamente as Artes e a Literatura, optando por currículos centrados em Direito, Engenharia, Economia, Administração e Pedagogia. Essa escolha não foi neutra: refletiu uma lógica pragmática que orientou os currículos, priorizando a funcionalidade e a profissionalização, e relegando a imaginação ao esquecimento.

A marginalização institucional da imaginação se tornou evidente. Ao não criar departamentos de Artes ou Literatura, as universidades protestantes brasileiras sufocaram a possibilidade de formar escritores, artistas e pensadores criativos dentro de um ambiente de fé protestante.

Essa marginalização teve também um impacto cultural profundo. Sem literatura protestante, a fé não dialogou com o imaginário nacional. Enquanto o catolicismo moldava festas populares, arte sacra e símbolos que penetravam no cotidiano, o Protestantismo brasileiro permaneceu restrito ao espaço eclesiástico e acadêmico. A espiritualidade tornou-se funcional, voltada para a prática e não para o imaginário, e isso atrofiou a criatividade protestante. Escritores como Rubem Alves, que ousaram cultivar a imaginação e a poesia, foram vistos como dissidentes, marginalizados pelo pensamento predominante. Sua trajetória revela que havia potencial criativo dentro do Protestantismo brasileiro, mas sem apoio institucional esse potencial não floresceu.

A marginalização teológica reforçou esse processo. A arte foi frequentemente vista como supérflua ou perigosa, algo que desviava da “seriedade” da fé. Essa postura bloqueou a possibilidade de que a imaginação fosse reconhecida como um veículo legítimo da verdade, como já havia sido nas parábolas de Jesus, que falavam tanto ao coração das crianças quanto à mente dos doutores da lei. Ao contrário dos Inklings, que mostraram o poder da narrativa e da fantasia para comunicar verdades profundas, nossas universidades sufocaram a criatividade e perderam a chance de moldar o imaginário nacional.

A marginalização da imaginação não é apenas um detalhe histórico, mas uma falha estrutural. Recuperar esse espaço é urgente. É preciso criar departamentos de Artes e Literatura, incentivar escritores e artistas, e formar comunidades criativas que dialoguem com a cultura contemporânea. Somente assim o Protestantismo brasileiro poderá reencontrar sua relevância cultural e espiritual no século XXI.

Curiosamente, o Protestantismo brasileiro não nasceu sem moldura cultural. Como já discutimos em outro estudo (cf. Artigos Relacionados), sua implantação ocorreu dentro da moldura do movimento romântico, que valorizava a literatura e a imaginação. O que se observa, portanto, é um processo de perda: da abertura inicial para a cultura à marginalização posterior da imaginação. Este artigo, como prólogo, aponta para essa trajetória e prepara o terreno para uma análise mais ampla e profunda.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia

ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Campinas: Papirus, 1984. Obra que mostra como a imaginação e a poesia podem ser caminhos legítimos para compreender a fé, representando a ruptura de Alves com o pragmatismo protestante.

SHAULL, Richard. O Cristianismo e a Revolução Social. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1965. Livro que despertou uma geração de jovens presbiterianos para o diálogo entre fé e cultura, mas que foi rejeitado pelas lideranças pragmatizadas do presbiterianismo brasileiro.

LEWIS, C. S. O Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Exemplo da clareza literária dos Inklings, mostrando como a imaginação e a razão podem se unir para comunicar a fé cristã.

TOLKIEN, J. R. R. Sobre Histórias. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. Reflexão sobre o papel da fantasia e da narrativa como meios de revelar verdades profundas, ilustrando a visão dos Inklings sobre literatura e fé.

BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. Análise da formação cultural brasileira, útil para compreender como o Romantismo moldou símbolos nacionais e ofereceu uma moldura inicial ao Protestantismo.

CUNHA, Magali do Nascimento. A Explosão Gospel: um olhar das ciências humanas sobre o fenômeno religioso. Rio de Janeiro: Mauad, 2007. Estudo que mostra como a cultura protestante brasileira se desenvolveu em moldes pragmáticos e funcionais, sem espaço para a imaginação literária.

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