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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bonhoeffer: A Estupidez como Ignorância Voluntária [Bonhoeffer e Răpcianu em Perspectiva]

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Dietrich Bonhoeffer, em suas Cartas da Prisão, alertou que a estupidez é mais perigosa que o mal. Não se trata de mera falta de inteligência, mas de uma escolha consciente pela ignorância, uma recusa deliberada em enxergar a verdade. Contra esse tipo de irracionalidade, argumentos racionais e morais tornam-se inúteis. O primeiro passo do mal, dizia Bonhoeffer, é tornar as pessoas estúpidas, convencendo-as de que não precisam pensar seriamente ou questionar suas próprias suposições.

Essa análise ganha nova força no século XXI com Ilie Răpcianu, em seu artigo “The Power of the One Needs the Stupidity of the Other” (2024). Para ele, o poder de um indivíduo ou grupo dominante só se sustenta porque existe uma massa disposta a abdicar do pensamento crítico. Em outras palavras, o poder de um precisa da estupidez do outro. Essa leitura atualiza Bonhoeffer: governos corruptos e seus governantes, mesmo sob a capa de “democracia”, dependem da passividade intelectual e moral das multidões.

No Brasil, esse fenômeno é ainda mais visível. O ditado popular “me engana que eu gosto” revela uma mentalidade coletiva que prefere ser iludida a encarar a verdade. O lema tantas vezes repetido em nossa história, “rouba mas faz”, tornou-se símbolo dessa cultura: a aceitação da corrupção como preço por obras e benefícios. Essa lógica mostra como a estupidez social não apenas tolera, mas legitima a corrupção, perpetuando o ciclo de poder e manipulação.

William James já havia notado: “Muitas pessoas pensam que estão pensando quando apenas reorganizam seus preconceitos.” O antídoto, segundo Bonhoeffer e reforçado por Răpcianu, é a humildade diante da realidade de Deus: “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução” (Provérbios 1:7). Pensar corretamente começa com o reconhecimento da vida como dom e da verdade como fundamento.

Negar a existência da verdade é, paradoxalmente, uma afirmação de verdade. Essa incoerência revela irracionalismo e fuga da responsabilidade moral. A cultura atual, marcada por distrações, fake news e entretenimento vazio, mostra como a “ignorância voluntária” continua sendo o terreno fértil para manipulação. Bonhoeffer identificou o problema; Răpcianu mostra que ele permanece vivo e talvez mais presente do que nunca.

Conclusão

A estupidez não é apenas uma falha intelectual, mas uma escolha moral e social. Ela floresce em ambientes coletivos e se fortalece quando a verdade é relativizada. Bonhoeffer nos lembra que a verdadeira sabedoria começa no reconhecimento da realidade divina; Răpcianu acrescenta que, sem essa consciência, o poder sempre encontrará apoio na passividade das massas. No Brasil, ditados como “me engana que eu gosto” e “rouba mas faz” revelam como essa mentalidade está enraizada culturalmente, perpetuando governos corruptos que sobrevivem graças à complacência popular. O caminho para superá-la é a humildade diante de Deus e a coragem de pensar de forma independente, mesmo contra a corrente.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Bibliografia e Leituras Complementares

Bonhoeffer, Dietrich. Letters and Papers from Prison. Fortress Press, 2010.
Onde Bonhoeffer afirma que a estupidez é mais perigosa que o mal, pois legitima a tirania.

Bonhoeffer, Dietrich. Ethics. Simon & Schuster, 1995.
Reflexões sobre responsabilidade e verdade, fundamentais para enfrentar a manipulação política.

Răpcianu, Ilie. The Power of the One Needs the Stupidity of the Other. RES, 2024.
Atualiza Bonhoeffer mostrando que governos corruptos sobrevivem porque a massa prefere ser enganada — como no lema brasileiro “rouba mas faz”.

James, William. The Principles of Psychology. Harvard University Press, 1890.
Origem da frase: “Muitas pessoas pensam que estão pensando quando apenas reorganizam seus preconceitos.”

Arendt, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal. Companhia das Letras, 1999.
Mostra como a falta de pensamento crítico pode normalizar atrocidades.

Ortega y Gasset, José. A Rebelião das Massas. Martins Fontes, 2007.
Analisa como a mentalidade coletiva sufoca a responsabilidade individual.

Le Bon, Gustave. A Psicologia das Multidões. Martins Fontes, 2001.
Estudo clássico sobre como multidões podem ser manipuladas pela emoção e pela irracionalidade.

Fromm, Erich. O Medo à Liberdade. Paz e Terra, 2006.
Explica por que muitos preferem se refugiar em sistemas corruptos para evitar a responsabilidade da liberdade.

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