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terça-feira, 3 de março de 2026

A ortopraxia de Bonhoeffer X ideologia marxista da teologia da libertação

 

Uma das razões pelas quais o pensamento teológico de Bonhoeffer é totalmente ignorado e descartado pelas gerações evangélicas brasileiras encontra sua explicação no fato de que seu pensamento teológico prático foi amalgamado à ideologia marxista norteadora da chamada teologia da libertação.
Dessa forma, quando se quer descartar um conceito, basta associá-lo a algo amplamente rejeitado; por isso, ao associar a tese de Bonhoeffer à ideologia latino-americana da libertação, colocou-se um “H” enorme de heresia nas obras produzidas pelo jovem pastor alemão.
Por sua vez, aos defensores da ideologia marxista interessou associar, de maneira indevida e estrategicamente calculada, algumas das teses teológicas de Bonhoeffer, com o propósito de atrair e iludir lideranças evangélicas, utilizando-as como escudo diante das críticas que, desde os primórdios, se levantaram contra essa ideologia, inclusive no interior do próprio catolicismo. Assim, promoveu-se deliberadamente a confusão de “alhos com bugalhos”, como se a ortopraxia cristocêntrica de Bonhoeffer legitimasse os pressupostos e as categorias desenvolvidos no âmbito da chamada teologia da libertação.
Portanto, em uma confluência de interesses antagônicos Bonhoeffer e sua teologia foram descartados em defesa da ortodoxia teológica evangélica, ao mesmo tempo que foi inserida indevidamente pelos teólogos da libertação.
A ortopraxia cristocêntrica de Bonhoeffer
Seu ponto de partida está na convicção de que a revelação de Deus não é um conceito abstrato, mas uma realidade concreta encarnada em Cristo. Para ele, a fé cristã não se esgota na formulação correta de doutrinas (ortodoxia), mas se manifesta na obediência concreta ao Senhor vivo que chama seus discípulos ao seguimento (ortopraxia). Em outras palavras, não há verdadeira ortodoxia sem uma prática correspondente que reflita, no mundo real, a vida e o caráter de Cristo.
Aqui temos a total afluência com a epistola de Tiago. Provavelmente o texto bíblico neotestamentário mais incisivo sobre a inseparabilidade entre fé e prática. Assim como o apostolo rejeita uma fé meramente intelectual ou verbal, Bonhoeffer denuncia uma teologia abstrata que não implica em uma transformação radical de vida, que ele vai denominar de a “graça barata” — que não exige nada e não produz nada. Desta forma, para ambos, a ortodoxia sem ortopraxia é uma contradição: não há fé autêntica sem ações que expressem a o caráter de Cristo no vivencial da realidade da igreja e dos cristãos. Cristianismo é compromisso de obediência a Cristo.
Em sua obra Discipulado (Nachfolge, 1937), ele insiste que a fé verdadeira se manifesta no viver em obediência pratica: “Só quem crê é obediente, e só quem é obediente crê.” Essa afirmação ressoa diretamente o ensino de Tiago, que declara: “A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tg 2:17).
Em outra de suas obras, Ética (Ethik, 1940-43), o teólogo alemão desenvolve o conceito de que a ação do cristão deve ser diante de Cristo, mas também em prol do próximo. Desta forma, sua ética relacional se aproxima da forte exortação de Tiago sobre a prática da misericórdia e da justiça: “A religião pura e sem mácula para com nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1:27). Parêntese: assim como Bonhoeffer, o apostolo Tiago também é colocado no limbo da práxis evangelical do século XXI.
Para Bonhoeffer, crer em Cristo não pode ser apenas um jargão teológico, pois constitui o centro normativo da existência cristã. Assim, qualquer reflexão teológica, estrutura eclesiástica ou atuação pública da igreja deve estar submetida ao senhorio de Cristo. Essa premissa cristológica torna-se antídoto contra o reducionismo intelectual da fé, que a confina a conceitos abstratos, bem como contra sua diluição ideológica, que a submete a sistemas externos de pensamento. pois a ação cristã nasce do chamado concreto de Cristo à responsabilidade, ao serviço e ao amor sacrificial.
Aqui temos uma conexão direta com o Senhor Jesus ao chamar seus discípulos: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. E, no mesmo instante [imediatamente], eles deixaram tudo e o seguiram” (Mc 1:17-18). Bonhoeffer entende que o seguimento exige ruptura com a segurança anterior e entrega radical ao senhorio de Cristo.
A fé, portanto, não é apenas assentimento doutrinal, mas resposta prática ao chamado vivo de Jesus. Em Lucas, ao enviar os doze, Jesus os envia sem nada: “Nada leveis para o caminho…” (Lc 9:3) — sem bordão, sem alforje, sem pão, sem dinheiro, sem duas túnicas. Nesse gesto, Jesus estabelece um princípio espiritual: a missão deve ser realizada em dependência total de Deus. Isso não deve ser confundido com um voto de pobreza, mas com a confiança radical na providência divina.
Bonhoeffer entende que o crer/seguir exige ruptura com a segurança anterior e entrega radical ao senhorio de Cristo. Em sua perspectiva, a fé não é apenas um verbete teológico-doutrinal, mas uma resposta prática — sem garantias humanas — ao chamado vivo de Jesus.
Bonhoeffer viveu essa convicção ao se posicionar abertamente contra o nazismo, mesmo sabendo que sua ação poderia ser considerada “culpada” aos olhos humanos. Para ele, a obediência ao Cristo vivo exigia assumir riscos concretos em favor da vida e da justiça — exatamente o que Tiago descreve como “ser cumpridor da palavra, e não apenas ouvinte” (Tg 1:22).
Em sua obra já referida acima – Ética - Bonhoeffer argumenta que a responsabilidade cristã não pode ser reduzida a princípios abstratos, mas deve ser discernida na relação viva com Cristo e na resposta às necessidades do próximo. Nas cartas escritas na prisão de Tegel, Bonhoeffer insiste que Cristo age no mundo não pela força, mas pela fraqueza e pelo sofrimento. Essa convicção o levou a se engajar em ações arriscadas contra o nazismo, mesmo sabendo que poderiam ser vistas como “culposas” aos olhos humanos. Para ele, a obediência ao Cristo vivo exigia assumir riscos concretos em favor da vida e da justiça.
A equidistância ainda que seja apresentada como uma postura de prudência ou preservação da unidade, na prática acaba se constituindo em uma forma de omissão diante da injustiça. A igreja, como instituição, ao evitar o engajamento profético, corre o risco de diluir a fé bíblica em abstrações teológicas e de se afastar da responsabilidade concreta que o Evangelho exige.
Assim, a ortopraxia cristocêntrica em Bonhoeffer não significa ativismo religioso inconsequente, mas discipulado responsável. Trata-se de viver “diante de Deus e com Deus no mundo”, assumindo as implicações éticas do evangelho na história concreta. A prática cristã, portanto, não é um acréscimo à fé, mas sua expressão necessária — a evidência visível de que Cristo reina não apenas na confissão dos lábios, mas na realidade da vida.
Esse posicionamento dele não está isolado; ao contrário, está amalgamado a toda a História do Cristianismo, começando pelos primeiros cristãos que escolheram morrer no Coliseu Romano a negar o Senhorio de Cristo (Ἰησοῦς Χριστὸς Κύριος), perpassando pelos reformadores do século XVI que confrontaram reis e imperadores em defesa de seus princípios de fé. Creio que as palavras de Martinho Lutero na Dieta de Worms (1521), diante do imperador Carlos V e dos representantes do papa Leão X, são ilustrativas aqui:
“A menos que seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por razões claras e evidentes, não posso me retratar, porque minha consciência é refém da Palavra de Deus. Não posso nem quero me retratar de nada, pois não é seguro agir contra a consciência. Aqui estou, não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude. Amém.”
A ideologia marxista da teologia da libertação
Surge no contexto latino-americano das décadas de 1960 e 1970, um contexto de grandes turbulências sociais, autoritarismo e um clamor por justiça. Seu marco inicial costuma ser a obra de Gustavo Gutiérrez, Teología de la liberación (1971). Outros nomes relevantes incluem Leonardo Boff e Jon Sobrino.
Suas fontes e categorias analíticas provém da leitura das obras de Karl Marx, que passaram a ser a “bíblia” destes pensadores ideológicos, que se tornou instrumental para leitura da realidade social (luta de classes, estrutura de opressão, alienação etc.). Ainda que nem todos os teólogos da libertação foram marxistas no sentido ideológico pleno, o movimento amplo se serviu do pensamento marxista como mediação sociológica e, em alguns casos, como estrutura interpretativa dominante.
Assim, a libertação deixou de ser apenas categoria soteriológicos (libertação do pecado) e passou a ser compreendida também — e por vezes prioritariamente — como libertação histórico-política das estruturas de opressão. Mesmo que para isso criassem outras estruturas de opressão ideológicas e físicas.
Enquanto para Dietrich Bonhoeffer, o fator iniciante fundamental é a revelação concreta de Deus em Cristo. Na vertente marxista da Teologia da Libertação, o ponto de partida tende a ser a análise estrutural da realidade histórica. De maneira que a práxis deles nasce da leitura sociopolítica da opressão, e a cristologia é frequentemente reinterpretada a partir dessa leitura.
Bonhoeffer entende libertação como consequência do chamado (conversão) e decorrente do discipulado sob à sombra cruz — implicando na participação efetiva do sofrimento de Cristo em favor do próximo.
Por sua vez, a Teologia da Libertação, fortemente marcada pela ideologia marxista, tende a compreender libertação em termos estruturais e coletivos, com ênfase na transformação socioeconômica.
Em momento algum Bonhoeffer nega a responsabilidade histórica, mas não a absolutiza. Para ele a centralidade é indissoluvelmente cristológica, não estrutural. Assim, ao escrever Ética afirma categoricamente que a ação cristã é sempre “diante de Cristo” e “em favor do próximo”. A ética é relacional, não ideológica. De maneira que sua resistência ao nazismo não foi fruto de adesão a um sistema político alternativo, mas da obediência concreta ao Cristo vivo.
Na visão marxista, a ética não é só sobre “o que é certo ou errado”, não implica em mudança de vida e/ou nem mesmo se a pessoa é um ateu ou em no que ele crê. O objetivo maior é a mudança da sociedade. Ou seja, transformar as estruturas injustas e construir uma nova realidade social.
O marxismo e Bonhoeffer convergem na ideia de que ética é instrumental de transformação, mas divergem no ponto de partida: enquanto os marxistas olham para as estruturas sociais, Bonhoeffer contempla o senhorio de Cristo.
A Teologia da Libertação entende que a estrutura social precisa ser transformada, enquanto Bonhoeffer entende que a fé, originária da conversão, exige ser vivida de forma responsável. A diferença está no ponto de partida: o marxismo olha para as condições materiais, Bonhoeffer olha para o senhorio de Cristo.
Enquanto para os teólogos marxistas da teologia da libertação o critério tende a ser: o que a análise histórica exige para superar a opressão? Para Bonhoeffer, o pressuposto fundamental é: o que Cristo ensina aqui e agora?
Desta forma, Quando categorias marxistas deixam de ser apenas ferramentas analíticas e se tornam moldura hermenêutica dominante, corre-se o risco de subordinar a teologia a um sistema externo, de reduzir o cristianismo a uma ideologia política ou sociológica, deslocando o senhorio de Cristo para a periferia. Nesse ponto surge a discrepância fundamental com a ortopraxia cristocêntrica defendida por Bonhoeffer.
Concluindo
Há um ponto convergente: fé sem prática é morta (eco evidente de Tiago). Mas o ponto de ruptura está no fundamento normativo da prática.
Bonhoeffer permanece fundamentado na confissão: Jesus Cristo é Senhor (Ἰησοῦς Χριστὸς Κύριος) — e toda práxis deriva dessa submissão.
Quando a práxis é fundamentada primariamente em categorias histórico-ideológicas, mesmo que bem-intencionadas, mormente acaba-se por deslocar o centro da revelação — de Cristo para a estrutura social.
Em termos simples:
Para Bonhoeffer, a igreja age porque Cristo chama.
Para a vertente marxista da Teologia da Libertação, a igreja age porque a história exige.

E aí está a divergência decisiva.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

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Referências Bibliográficas

BONHOEFFER, Dietrich. Widerstand und Ergebung: Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft. München: Chr. Kaiser Verlag, 1951. [obra original em alemão].

BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal/ASTE, 2021. [tradução integral do texto alemão].

BARTH, Karl A Declaração Teológica de Barmen São Leopoldo: Sinodal, 1988

BOFF, Leonardo Jesus Cristo Libertador Petrópolis: Vozes, 1972

BONHOEFFER, Dietrich Discipulado São Leopoldo: Sinodal, 2004

BONHOEFFER, Dietrich Ética São Leopoldo: Sinodal, 2005

DUMAS, André. Una teologia de Ia realidad: Dietrich Bonhoeffer. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1971. (Nueva Biblioteca de Teologia; 15).

GUTIÉRREZ, Gustavo Teologia da Libertação: Perspectivas Petrópolis: Vozes, 1975

MARX, Karl O Capital: Crítica da Economia Política São Paulo: Boitempo, 2013

MOLTMANN, Jürgen O Deus Crucificado Petrópolis: Vozes, 1974

SOBRINO, Jon Cristologia a partir da América Latina Petrópolis: Vozes, 1983

LUTERO, Martinho Da Liberdade Cristã São Leopoldo: Sinodal, 1998

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