Uma
das razões pelas quais o pensamento teológico de Bonhoeffer é totalmente
ignorado e descartado pelas gerações evangélicas brasileiras encontra sua
explicação no fato de que seu pensamento teológico prático foi amalgamado à
ideologia marxista norteadora da chamada teologia da libertação.
Dessa
forma, quando se quer descartar um conceito, basta associá-lo a algo amplamente
rejeitado; por isso, ao associar a tese de Bonhoeffer à ideologia
latino-americana da libertação, colocou-se um “H” enorme de heresia nas obras
produzidas pelo jovem pastor alemão.
Por
sua vez, aos defensores da ideologia marxista interessou associar, de maneira
indevida e estrategicamente calculada, algumas das teses teológicas de
Bonhoeffer, com o propósito de atrair e iludir lideranças evangélicas,
utilizando-as como escudo diante das críticas que, desde os primórdios, se
levantaram contra essa ideologia, inclusive no interior do próprio catolicismo.
Assim, promoveu-se deliberadamente a confusão de “alhos com bugalhos”, como se
a ortopraxia cristocêntrica de Bonhoeffer legitimasse os pressupostos e as
categorias desenvolvidos no âmbito da chamada teologia da libertação.
Portanto,
em uma confluência de interesses antagônicos Bonhoeffer e sua teologia foram
descartados em defesa da ortodoxia teológica evangélica, ao mesmo tempo que foi
inserida indevidamente pelos teólogos da libertação.
A
ortopraxia cristocêntrica de Bonhoeffer
Seu
ponto de partida está na convicção de que a revelação de Deus não é um conceito
abstrato, mas uma realidade concreta encarnada em Cristo. Para ele, a fé cristã
não se esgota na formulação correta de doutrinas (ortodoxia), mas se manifesta
na obediência concreta ao Senhor vivo que chama seus discípulos ao seguimento (ortopraxia).
Em outras palavras, não há verdadeira ortodoxia sem uma prática correspondente que
reflita, no mundo real, a vida e o caráter de Cristo.
Aqui
temos a total afluência com a epistola de Tiago. Provavelmente o texto bíblico
neotestamentário mais incisivo sobre a inseparabilidade entre fé e prática.
Assim como o apostolo rejeita uma fé meramente intelectual ou verbal,
Bonhoeffer denuncia uma teologia abstrata que não implica em uma transformação
radical de vida, que ele vai denominar de a “graça barata” — que não exige nada
e não produz nada. Desta forma, para ambos, a ortodoxia sem ortopraxia é uma
contradição: não há fé autêntica sem ações que expressem a o caráter de Cristo
no vivencial da realidade da igreja e dos cristãos. Cristianismo é compromisso
de obediência a Cristo.
Em
sua obra Discipulado (Nachfolge, 1937), ele insiste que a fé
verdadeira se manifesta no viver em obediência pratica: “Só quem crê é
obediente, e só quem é obediente crê.” Essa afirmação ressoa diretamente o
ensino de Tiago, que declara: “A fé, se não tiver obras, é morta em si
mesma” (Tg 2:17).
Em
outra de suas obras, Ética (Ethik, 1940-43), o teólogo alemão
desenvolve o conceito de que a ação do cristão deve ser diante de Cristo, mas
também em prol do próximo. Desta forma, sua ética relacional se aproxima da
forte exortação de Tiago sobre a prática da misericórdia e da justiça: “A
religião pura e sem mácula para com nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos
e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg
1:27). Parêntese: assim como Bonhoeffer, o apostolo Tiago também é colocado no
limbo da práxis evangelical do século XXI.
Para
Bonhoeffer, crer em Cristo não pode ser apenas um jargão teológico, pois
constitui o centro normativo da existência cristã. Assim, qualquer reflexão
teológica, estrutura eclesiástica ou atuação pública da igreja deve estar
submetida ao senhorio de Cristo. Essa premissa cristológica torna-se antídoto
contra o reducionismo intelectual da fé, que a confina a conceitos abstratos, bem
como contra sua diluição ideológica, que a submete a sistemas externos de
pensamento. pois a ação cristã nasce do chamado concreto de Cristo à
responsabilidade, ao serviço e ao amor sacrificial.
Aqui
temos uma conexão direta com o Senhor Jesus ao chamar seus discípulos: “Vinde
após mim, e eu vos farei pescadores de homens. E, no mesmo instante [imediatamente],
eles deixaram tudo e o seguiram” (Mc 1:17-18). Bonhoeffer entende que o
seguimento exige ruptura com a segurança anterior e entrega radical ao senhorio
de Cristo.
A
fé, portanto, não é apenas assentimento doutrinal, mas resposta prática ao
chamado vivo de Jesus. Em Lucas, ao enviar os doze, Jesus os envia sem nada: “Nada
leveis para o caminho…” (Lc 9:3) — sem bordão, sem alforje, sem pão, sem
dinheiro, sem duas túnicas. Nesse gesto, Jesus estabelece um princípio
espiritual: a missão deve ser realizada em dependência total de Deus. Isso não
deve ser confundido com um voto de pobreza, mas com a confiança radical na
providência divina.
Bonhoeffer
entende que o crer/seguir exige ruptura com a segurança anterior e entrega
radical ao senhorio de Cristo. Em sua perspectiva, a fé não é apenas um verbete
teológico-doutrinal, mas uma resposta prática — sem garantias humanas — ao
chamado vivo de Jesus.
Bonhoeffer
viveu essa convicção ao se posicionar abertamente contra o nazismo, mesmo
sabendo que sua ação poderia ser considerada “culpada” aos olhos humanos. Para
ele, a obediência ao Cristo vivo exigia assumir riscos concretos em favor da
vida e da justiça — exatamente o que Tiago descreve como “ser cumpridor da
palavra, e não apenas ouvinte” (Tg 1:22).
Em
sua obra já referida acima – Ética - Bonhoeffer argumenta que a
responsabilidade cristã não pode ser reduzida a princípios abstratos, mas deve
ser discernida na relação viva com Cristo e na resposta às necessidades do
próximo. Nas cartas escritas na prisão de Tegel, Bonhoeffer insiste que Cristo
age no mundo não pela força, mas pela fraqueza e pelo sofrimento. Essa
convicção o levou a se engajar em ações arriscadas contra o nazismo, mesmo
sabendo que poderiam ser vistas como “culposas” aos olhos humanos. Para ele, a
obediência ao Cristo vivo exigia assumir riscos concretos em favor da vida e da
justiça.
A
equidistância ainda que seja apresentada como uma postura de prudência ou
preservação da unidade, na prática acaba se constituindo em uma forma de
omissão diante da injustiça. A igreja, como instituição, ao evitar o
engajamento profético, corre o risco de diluir a fé bíblica em abstrações
teológicas e de se afastar da responsabilidade concreta que o Evangelho exige.
Assim,
a ortopraxia cristocêntrica em Bonhoeffer não significa ativismo religioso
inconsequente, mas discipulado responsável. Trata-se de viver “diante de
Deus e com Deus no mundo”, assumindo as implicações éticas do evangelho na
história concreta. A prática cristã, portanto, não é um acréscimo à fé, mas sua
expressão necessária — a evidência visível de que Cristo reina não apenas na
confissão dos lábios, mas na realidade da vida.
Esse
posicionamento dele não está isolado; ao contrário, está amalgamado a toda a
História do Cristianismo, começando pelos primeiros cristãos que escolheram
morrer no Coliseu Romano a negar o Senhorio de Cristo (Ἰησοῦς Χριστὸς Κύριος),
perpassando pelos reformadores do século XVI que confrontaram reis e
imperadores em defesa de seus princípios de fé. Creio que as palavras de
Martinho Lutero na Dieta de Worms (1521), diante do imperador Carlos V e
dos representantes do papa Leão X, são ilustrativas aqui:
“A menos que seja convencido pelo testemunho das Escrituras
ou por razões claras e evidentes, não posso me retratar, porque minha
consciência é refém da Palavra de Deus. Não posso nem quero me retratar de
nada, pois não é seguro agir contra a consciência. Aqui estou, não posso fazer
outra coisa. Que Deus me ajude. Amém.”
A
ideologia marxista da teologia da libertação
Surge
no contexto latino-americano das décadas de 1960 e 1970, um contexto de grandes
turbulências sociais, autoritarismo e um clamor por justiça. Seu marco inicial
costuma ser a obra de Gustavo Gutiérrez, Teología de la liberación
(1971). Outros nomes relevantes incluem Leonardo Boff e Jon Sobrino.
Suas
fontes e categorias analíticas provém da leitura das obras de Karl Marx, que
passaram a ser a “bíblia” destes pensadores ideológicos, que se tornou
instrumental para leitura da realidade social (luta de classes, estrutura de
opressão, alienação etc.). Ainda que nem todos os teólogos da libertação foram
marxistas no sentido ideológico pleno, o movimento amplo se serviu do
pensamento marxista como mediação sociológica e, em alguns casos, como
estrutura interpretativa dominante.
Assim,
a libertação deixou de ser apenas categoria soteriológicos (libertação do
pecado) e passou a ser compreendida também — e por vezes prioritariamente —
como libertação histórico-política das estruturas de opressão. Mesmo que para
isso criassem outras estruturas de opressão ideológicas e físicas.
Enquanto
para Dietrich Bonhoeffer, o fator iniciante fundamental é a revelação concreta
de Deus em Cristo. Na vertente marxista da Teologia da Libertação, o ponto de
partida tende a ser a análise estrutural da realidade histórica. De maneira que
a práxis deles nasce da leitura sociopolítica da opressão, e a cristologia é
frequentemente reinterpretada a partir dessa leitura.
Bonhoeffer
entende libertação como consequência do chamado (conversão) e decorrente do discipulado
sob à sombra cruz — implicando na participação efetiva do sofrimento de Cristo
em favor do próximo.
Por
sua vez, a Teologia da Libertação, fortemente marcada pela ideologia marxista,
tende a compreender libertação em termos estruturais e coletivos, com ênfase na
transformação socioeconômica.
Em
momento algum Bonhoeffer nega a responsabilidade histórica, mas não a
absolutiza. Para ele a centralidade é indissoluvelmente cristológica, não
estrutural. Assim, ao escrever Ética afirma categoricamente que a ação cristã é sempre “diante de
Cristo” e “em favor do próximo”. A ética é relacional, não
ideológica. De maneira que sua resistência ao nazismo não foi fruto de
adesão a um sistema político alternativo, mas da obediência concreta ao
Cristo vivo.
Na
visão marxista, a ética não é só sobre “o que é certo ou errado”, não implica
em mudança de vida e/ou nem mesmo se a pessoa é um ateu ou em no que ele crê. O
objetivo maior é a mudança da sociedade. Ou seja, transformar as estruturas
injustas e construir uma nova realidade social.
O
marxismo e Bonhoeffer convergem na ideia de que ética é instrumental de
transformação, mas divergem no ponto de partida: enquanto os
marxistas olham para as estruturas sociais, Bonhoeffer contempla o senhorio de
Cristo.
A
Teologia da Libertação entende que a estrutura social precisa ser transformada,
enquanto Bonhoeffer entende que a fé, originária da conversão, exige ser vivida
de forma responsável. A diferença está no ponto de partida: o marxismo
olha para as condições materiais, Bonhoeffer olha para o senhorio de Cristo.
Enquanto para os teólogos marxistas da teologia da libertação o
critério tende a ser: o que a análise histórica exige para superar a
opressão? Para Bonhoeffer, o pressuposto fundamental é: o que Cristo
ensina aqui e agora?
Desta forma, Quando categorias marxistas deixam de ser apenas ferramentas
analíticas e se tornam moldura hermenêutica dominante, corre-se o risco
de subordinar a teologia a um sistema externo, de reduzir o cristianismo a uma
ideologia política ou sociológica, deslocando o senhorio de Cristo para a
periferia. Nesse ponto surge a discrepância fundamental com a ortopraxia
cristocêntrica defendida por Bonhoeffer.
Concluindo
Há um ponto convergente: fé sem prática é morta (eco
evidente de Tiago). Mas o ponto de ruptura está no fundamento normativo
da prática.
Bonhoeffer permanece fundamentado na confissão: Jesus Cristo é
Senhor (Ἰησοῦς Χριστὸς Κύριος) — e toda práxis deriva dessa submissão.
Quando a práxis é fundamentada primariamente em
categorias histórico-ideológicas, mesmo que bem-intencionadas, mormente
acaba-se por deslocar o centro da revelação — de Cristo para a estrutura
social.
Em termos simples:
Para
Bonhoeffer, a igreja age porque Cristo chama.
Para
a vertente marxista da Teologia da Libertação, a igreja age porque a história
exige.
E aí está a divergência decisiva.
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