Está foi uma da primeiras confissões de
fé protestante. Foi preparada pelo pastor Guido de Brès em
1561, que viveu intensamente os conflitos religiosos da época e acabou por ser
martirizado (1567).
Junto à Confissão Guido de Brès elabora uma carta endereçada
ao rei Felipe II da Espanha, então governante dos países baixos (Holanda). Ele enfatiza
que os reformados não tinham propósito de fazer uma revolta política, mas
apenas buscavam a liberdade para servir a Deus conforme a Escritura. A
linguagem do texto é pontilhada por humildade e submissão, pedindo que o rei
reconhecesse sua fé como legítima e não como ameaça à ordem pública. Uma cópia
da Confissão, bem como da carta, foram lançadas por sobre o muro do castelo de
Doornik, mas não se sabe se o rei chegou a ler a confissão.
O documento em si, juntamente com a carta, revela o esforço
dos reformados em se apresentarem como súditos leais, ao mesmo tempo em que
afirmavam sua convicção religiosa. Esse equilíbrio entre submissão civil e
fidelidade espiritual tornou a Confissão de Fé Belga um marco da
identidade reformada em meio à perseguição. O gesto de Guido de Brès encontra
paralelo na atitude de João Calvino, que, ao publicar sua obra Institutas
da Religião Cristã em 1536, endereçou uma carta ao rei Francisco I da
França. Assim como Brès, o reformador franco-genebrino buscava defender os
protestantes franceses das acusações de heresia e rebeldia, apresentando-os
como fiéis seguidores de Cristo e súditos obedientes, injustamente perseguidos.
Dessa forma, tanto a Confissão de Fé Belga quanto as Institutas
de Calvino compartilham o mesmo propósito: demonstrar que a fé reformada não
constituía uma ameaça política, mas sim uma expressão legítima do cristianismo,
fundamentada na Escritura e orientada pela busca de fidelidade a Deus em meio
às adversidades históricas.
Carta ao Rei Filipe II
A Vossa Majestade, nosso gracioso
senhor,
Nós, que confessamos ser cristãos e
pertencermos ao Reino de nosso Senhor Jesus Cristo, desejamos viver em toda
piedade, paz e honestidade, em obediência a Deus e sob o governo de Vossa
Majestade. Por essa razão, dobramos nossos joelhos diante de Deus e oramos para
que Ele conceda a Vossa Majestade uma vida longa e próspera, com todo bem e
honra, e que o Senhor o faça reinar com justiça e equidade sobre seus súditos.
Suplicamos humildemente a Vossa
Majestade que se digne considerar que não somos, como nossos inimigos nos
acusam falsamente, rebeldes, sediciosos ou perturbadores da ordem pública. Pelo
contrário, somos pessoas que desejam viver em toda boa consciência diante de
Deus e dos homens, rendendo a cada um o que lhe é devido: a Deus, a honra e a
obediência; e ao rei, o tributo, a honra e a submissão que lhe pertencem.
Estamos prontos para obedecer a Vossa
Majestade em todas as coisas que não sejam contrárias à Palavra de Deus, e para
sofrer pacientemente qualquer tribulação, punição ou perseguição, antes do que
negar a verdade de Deus e abandonar a fé que confessamos. Pois sabemos que
devemos obedecer a Deus acima de todas as coisas, mesmo que isso nos custe
nossas vidas.
Não recusamos pagar impostos, tributos e
qualquer outro dever civil. Oramos continuamente a Deus pela prosperidade de
Vossa Majestade, para que Ele o guarde em todos os seus caminhos e o dirija
segundo sua santa vontade.
Mas é com grande tristeza que vemos que
somos perseguidos, oprimidos e tratados como inimigos, não por termos cometido
qualquer crime, mas unicamente por desejarmos viver segundo o evangelho de
nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos de nós foram presos, torturados, exilados e
mortos, e tudo isso não por rebelião, mas por causa da confissão da verdade.
Ainda assim, não deixamos de orar por
aqueles que nos perseguem e de desejar o bem do reino. Nosso maior desejo é
viver em paz e servir a Deus com pureza de consciência, sob o governo e a
proteção de Vossa Majestade.
Por essa razão, apresentamos a Vossa
Majestade esta confissão de nossa fé, para que possa conhecer aquilo em que
cremos e compreender que nossa doutrina não é contrária às Santas Escrituras,
mas está de acordo com a verdade do evangelho e com a fé cristã histórica.
Estamos prontos para confirmar esta
confissão não apenas com palavras, mas também com nossas próprias vidas, se
necessário, oferecendo nossos corpos ao sofrimento, certos de que Deus é fiel e
não abandonará aqueles que confiam nele.
Que o Senhor Deus conceda a Vossa
Majestade sabedoria, justiça e misericórdia em todas as coisas.
Seus humildes e obedientes súditos,
Os cristãos que confessam o evangelho
nos Países Baixos
Ano do Senhor, 1561
Guido de Brès (1522–1567) Contexto, Ministério e Legado [Galeria da Reforma]
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Confissão de Fé Belga: Origem e Conteúdo https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2026/02/confissao-de-fe-belga-origem-e-conteudo.html?spref=tw
Calvino - Prefácio das Institutas: Carta ao rei Francisco I
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Galeria da Reforma: Louis de Berquin (1490-1529)
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Reforma Protestante: Por que Ocorreu no Século XVI
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Cronologia Comentada da Reforma Protestante Séc. XVI
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Boêmia a Terra Fecundadora das Reformas Religiosas
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As Sessenta e Sete Teses [Artigos] de Urich Zwínglio
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