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quarta-feira, 4 de março de 2026

Confissão de Fé Belga – Carta ao rei Filipe II

 

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Está foi uma da primeiras confissões de fé protestante. Foi preparada pelo pastor Guido de Brès em 1561, que viveu intensamente os conflitos religiosos da época e acabou por ser martirizado (1567).

Junto à Confissão Guido de Brès elabora uma carta endereçada ao rei Felipe II da Espanha, então governante dos países baixos (Holanda). Ele enfatiza que os reformados não tinham propósito de fazer uma revolta política, mas apenas buscavam a liberdade para servir a Deus conforme a Escritura. A linguagem do texto é pontilhada por humildade e submissão, pedindo que o rei reconhecesse sua fé como legítima e não como ameaça à ordem pública. Uma cópia da Confissão, bem como da carta, foram lançadas por sobre o muro do castelo de Doornik, mas não se sabe se o rei chegou a ler a confissão.

O documento em si, juntamente com a carta, revela o esforço dos reformados em se apresentarem como súditos leais, ao mesmo tempo em que afirmavam sua convicção religiosa. Esse equilíbrio entre submissão civil e fidelidade espiritual tornou a Confissão de Fé Belga um marco da identidade reformada em meio à perseguição. O gesto de Guido de Brès encontra paralelo na atitude de João Calvino, que, ao publicar sua obra Institutas da Religião Cristã em 1536, endereçou uma carta ao rei Francisco I da França. Assim como Brès, o reformador franco-genebrino buscava defender os protestantes franceses das acusações de heresia e rebeldia, apresentando-os como fiéis seguidores de Cristo e súditos obedientes, injustamente perseguidos.

Dessa forma, tanto a Confissão de Fé Belga quanto as Institutas de Calvino compartilham o mesmo propósito: demonstrar que a fé reformada não constituía uma ameaça política, mas sim uma expressão legítima do cristianismo, fundamentada na Escritura e orientada pela busca de fidelidade a Deus em meio às adversidades históricas.

Carta ao Rei Filipe II

A Vossa Majestade, nosso gracioso senhor,

Nós, que confessamos ser cristãos e pertencermos ao Reino de nosso Senhor Jesus Cristo, desejamos viver em toda piedade, paz e honestidade, em obediência a Deus e sob o governo de Vossa Majestade. Por essa razão, dobramos nossos joelhos diante de Deus e oramos para que Ele conceda a Vossa Majestade uma vida longa e próspera, com todo bem e honra, e que o Senhor o faça reinar com justiça e equidade sobre seus súditos.

Suplicamos humildemente a Vossa Majestade que se digne considerar que não somos, como nossos inimigos nos acusam falsamente, rebeldes, sediciosos ou perturbadores da ordem pública. Pelo contrário, somos pessoas que desejam viver em toda boa consciência diante de Deus e dos homens, rendendo a cada um o que lhe é devido: a Deus, a honra e a obediência; e ao rei, o tributo, a honra e a submissão que lhe pertencem.

Estamos prontos para obedecer a Vossa Majestade em todas as coisas que não sejam contrárias à Palavra de Deus, e para sofrer pacientemente qualquer tribulação, punição ou perseguição, antes do que negar a verdade de Deus e abandonar a fé que confessamos. Pois sabemos que devemos obedecer a Deus acima de todas as coisas, mesmo que isso nos custe nossas vidas.

Não recusamos pagar impostos, tributos e qualquer outro dever civil. Oramos continuamente a Deus pela prosperidade de Vossa Majestade, para que Ele o guarde em todos os seus caminhos e o dirija segundo sua santa vontade.

Mas é com grande tristeza que vemos que somos perseguidos, oprimidos e tratados como inimigos, não por termos cometido qualquer crime, mas unicamente por desejarmos viver segundo o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos de nós foram presos, torturados, exilados e mortos, e tudo isso não por rebelião, mas por causa da confissão da verdade.

Ainda assim, não deixamos de orar por aqueles que nos perseguem e de desejar o bem do reino. Nosso maior desejo é viver em paz e servir a Deus com pureza de consciência, sob o governo e a proteção de Vossa Majestade.

Por essa razão, apresentamos a Vossa Majestade esta confissão de nossa fé, para que possa conhecer aquilo em que cremos e compreender que nossa doutrina não é contrária às Santas Escrituras, mas está de acordo com a verdade do evangelho e com a fé cristã histórica.

Estamos prontos para confirmar esta confissão não apenas com palavras, mas também com nossas próprias vidas, se necessário, oferecendo nossos corpos ao sofrimento, certos de que Deus é fiel e não abandonará aqueles que confiam nele.

Que o Senhor Deus conceda a Vossa Majestade sabedoria, justiça e misericórdia em todas as coisas.

Seus humildes e obedientes súditos,

Os cristãos que confessam o evangelho nos Países Baixos

Ano do Senhor, 1561

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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