Quando pensamos no extraordinário movimento da Reforma Protestante ocorrido no século XVI, ficamos muitas vezes limitados a alguns personagens, como Lutero, Calvino e Zwínglio; mas, na verdade, esse rio é muito mais caudaloso e possui um número expressivo de afluentes. Nossa intenção primária é trazer ao conhecimento geral os nomes daqueles reformadores que, apesar de suas contribuições, ficaram restritos ao conhecimento de historiadores. Um desses personagens é Guido de Brès, cuja grafia do nome apresenta algumas variantes (Guy de Bray, Guido de Bray), sobre o qual traremos algumas informações acerca de sua pessoa e de sua participação nesse importante movimento que interagiu intensamente com a História da Igreja Cristã, e cujos reflexos sísmicos continuam sendo sentidos ainda hoje.
Uma síntese para visualização rápida e, depois, uma sucinta
apresentação de sua vida e trabalho.
·
Nascimento: 1522, em Mons (Bergen), no Condado de Hainaut, atual Bélgica.
·
Morte: Executado em 31 de maio de 1567, em Valenciennes, devido à
perseguição religiosa.
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Formação: Estudou teologia em Genebra e Lausanne, sob influência de João
Calvino e Teodoro de Beza.
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Conversão: Inicialmente católico, aproximou-se do protestantismo durante sua
juventude, especialmente após contato com grupos reformados e estudo intenso da
Bíblia.
·
Exílios: Fugiu diversas vezes da perseguição religiosa, vivendo na
Inglaterra, França, Alemanha e Suíça.
·
Obra
principal: Autor da Confissão Belga (Confessio
Belgica), escrita em 1561, que continua sendo um dos documentos
fundamentais das Igrejas Reformadas na Bélgica, Holanda e em várias partes do
mundo.
Guido de Brès nasceu em 1522, em Bergen (Valônia), sob o nome
francês Guy de Bray. Nos primeiros anos, sustentava-se como artista de vitrais,
ofício herdado do pai, que exige paciência, precisão e sensibilidade —
características que, mais tarde, também marcariam sua vocação teológica e
pastoral.
Sua cidade de origem estava localizada na região dos Países Baixos
do Sul (atual Bélgica), território então sob domínio da Monarquia Espanhola de
Carlos V (1500–1558) e, posteriormente, de seu filho Filipe II (1527–1598).
Esse contexto político foi marcado por forte repressão ao protestantismo,
sobretudo às comunidades reformadas de matriz calvinista, vistas como ameaça
tanto à unidade religiosa quanto à estabilidade imperial.
Em meados de 1547 ele adota
os princípios da fé reformada cujo princípio fundamental estava na redescoberta
reverente da supremacia das Escrituras e da centralidade do evangelho da graça.
Quando as perseguições religiosas eclodiram em sua cidade natal, De Brès
foi buscar refúgio na Inglaterra em 1548. Ali, durante o curto reinado de Eduardo
VI, marcantemente reformado, ele passa a conviver com outros refugiados
oriundos de várias regiões dos Países Baixos e certamente teve contato direto
com grandes expoentes da Reforma, como Martin Bucer [1]
e Petrus Martyr Vermigli, [2]
que, desfrutavam de significativa liberdade para o ensino e a reflexão
teológica. Esse
período foi decisivo para a formação espiritual e intelectual de De Brès.
Convencido de que a verdade do evangelho exigia entrega total,
consagrou sua vida à pregação da Palavra em tempo integral, disposto a servir a
Cristo mesmo em meio ao risco, ao sofrimento e, se necessário, ao martírio.
Uma terceira fase de sua formação acadêmica ocorreu em centros de
forte influência calvinista, como Genebra e Lausanne, outro importante reduto
acadêmico reformado. Apesar de não constar nenhum registro oficial de que tenha
sido aluno regular da Academia de Genebra nem discípulo direto de Calvino, há
provas circunstanciais suficientes para afirmar que estiveram em contato
pessoal.
Naquele momento, a Academia de Genebra já se constituía como um
centro formativo do pensamento e da teologia reformada e recebia pregadores em
formação que ficavam sob supervisão direta ou indireta de Calvino, Beza e
outros. Muitos autores entendem que a expressão “estudar em Genebra” não
implicava necessariamente matrícula formal, mas frequentar aulas, disputas
teológicas e preleções, lembrando que De Brès já havia recebido base sólida
enquanto estava na Inglaterra.
A partir de seu retorno, entre 1552 e 1559, ele passou a exercer um
ministério itinerante e clandestino como pregador reformado, movendo-se
sobretudo pelas regiões de Flandres, Hainaut e Lille (Rijssel), sob constante
risco de prisão. Sua atuação exigia deslocamentos frequentes para escapar da
vigilância e da repressão. Os cultos eram realizados em casas particulares ou
em locais afastados, sempre sob ameaça de prisão. Sua insistência em servir às
igrejas perseguidas acabou por levá-lo à prisão.
Seu ministério não é marcadamente
polemista, mas, acima de tudo, pastoral, pois seu objetivo é estabelecer
igrejas com fundamentos sólidos nas Escrituras e, para isso, é necessário
construir uma estrutura teológica consistente. A busca incansável desse objetivo
contribuiu para a consolidação de uma identidade reformada madura, capaz de
resistir tanto à repressão externa (religiosa e política) quanto às contínuas
distorções internas, como, por exemplo, as dos anabatistas, sempre sob a
convicção de que a verdadeira Igreja subsiste pela Palavra fielmente pregada e
corretamente administrada.
Mas, acima de qualquer outra
contribuição, destaca-se sua elaboração da denominada Confissão de Fé Belga (Confessio
Belgica), em 1561. Não era um manifesto revolucionário, mas, tão somente,
uma declaração pública de fé cristã reformada ortodoxa. Seu propósito primário
era demonstrar às autoridades civis que os reformados não eram anarquistas nem
rebeldes políticos, mas cristãos fiéis às Escrituras, comprometidos com a ordem
civil. A Confissão foi lançada por cima do muro do castelo de Tournai,
acompanhada de uma carta explicativa — um gesto simbólico que revela tanto a
coragem quanto a intenção pastoral e apologética de De Brès.
E aqui temos uma ligação umbilical
com a mesma proposta de Calvino ao elaborar sua obra magna, as Institutas da
Religião Cristã, cuja primeira edição (1536) foi dedicada ao rei (imperador
eleito do Sacro Império) Carlos V.
Ele foi preso em abril de 1567, na
cidade de Valenciennes, então sob domínio espanhol. Havia servido ali como
pastor da igreja reformada local, já relativamente estruturada, mas ainda
oficialmente ilegal. A acusação formal era de que ele havia ministrado a Ceia
sem autorização das autoridades católicas romanas. O responsável pela repressão
era o duque de Alba, enviado por Filipe II para restaurar a autoridade católica
e reprimir o protestantismo.
Mas, mesmo aprisionado, ele escreveu
cartas pastorais marcadas por serenidade, esperança escatológica e confiança na
soberania de Deus.
“Estou
plenamente satisfeito em meu coração e considero-me feliz por suportar tudo
isso pela causa de Cristo. Pois sei que minha vida está nas mãos de Deus, e que
não há nada que me possa acontecer sem sua vontade. Portanto, descanso em sua
bondade, esperando o cumprimento de suas promessas.”
Na eminência de sua morte, a sentença seria executada às seis horas,
ele se dirige aos companheiros que continuavam presos e então os exortou a
terem bom ânimo. “A morte não é nada”, disse-lhes:
“Oh, quão bem-aventurados são os mortos que morrem no Senhor!
Cuidai para não fazerdes nada contra a vossa consciência, pois vejo que os
inimigos do Evangelho usarão de astúcia para vos fazer vacilar, para que vos
desvieis da verdade. Vigiai, pois se o fizerdes, tereis um inferno contínuo em
vossa consciência. Oh, irmãos, como é agradável ter uma boa consciência!”
De Brès foi enforcado em 31 de maio de 1567 por causa de sua fé,
depois de permanecer várias semanas na parte mais imunda e insalubre da prisão
chamada Brunain, localizada em Valenciennes, que hoje faz parte da França. Sua
cela era o lugar onde desembocava o esgoto da prisão.
Dessa forma, este pequeno extrato de uma entre tantas
correspondências desse período de aprisionamento revela muito de sua fé e
convicção:
· Exorta os fiéis a permanecerem firmes na fé, mesmo sob perseguição.
·
Expressa
esperança escatológica, lembrando que o sofrimento terreno
é passageiro diante da glória futura.
·
Afirma
a soberania divina, mostrando confiança de que sua
morte não seria em vão, mas parte do plano de Deus para fortalecer a Igreja.
Sua morte consolidou sua autoridade
moral e espiritual entre os reformados, reforçando o vínculo entre confissão
de fé e fidelidade até o fim.
“Em nossos
dias, o martírio e a perseguição ainda são fatos dolorosos para muitos crentes
em todo o mundo. Apesar do grande mal perpetrado, Deus ainda faz com que essas
coisas terríveis cooperem para o bem do Seu povo. Podemos ler e ouvir histórias
atuais de mártires e ser grandemente encorajados em nosso andar com Deus.
Também podemos olhar para trás, para a década de 1560, um tempo terrível de
derramamento de sangue, e ser igualmente encorajados pelo testemunho de nossos
pais. Na verdade, louvado seja Deus por Seu fiel servo Guido de Brès e por
inúmeros outros como ele!”
(Dr.
Wes Bredenhof).
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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BOEKESTEIN, William. Who was Guido de Brès? Ligonier Ministries, Orlando, s.d. Disponível em: https://www.ligonier.org/. Acesso em: 11 fev. 2026.
GIHONBRON, Stichting de. Guido de Brès: opsteller van de Nederlandse Geloofsbelijdenis in zijn leven en sterven en enige brieven. Middelburg: Stichting de Gihonbron, 2004.
Galeria da Reforma: Louis de Berquin (1490-1529)
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Protestantismo: A Reforma na Inglaterra – Eduardo VI e Maria Tudor https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2014/01/protestantismo-reforma-na-inglaterra_29.html?spref=tw
[1] Martin Bucer (1491–1551) esteve na Inglaterra durante o reinado de Eduardo VI (1547–1553), período de abertura às ideias reformadas. Nesse contexto, exerceu influência teológica e pastoral significativa sobre refugiados continentais e sobre os rumos iniciais da Reforma inglesa.
[2] Petrus Martyr Vermigli (1499–1562) esteve na Inglaterra durante o reinado de Eduardo VI (1547–1553), período de consolidação da Reforma. Atuando como professor em Oxford, exerceu influência decisiva na formação teológica reformada, especialmente em questões doutrinárias centrais, impactando clérigos ingleses e refugiados continentais, como De Brés.

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