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domingo, 23 de agosto de 2026

Diário de Simonton — O embarque

Cortes transversais poéticos da partida do navio Banshee

18 de junho de 1859.

A manhã chegou trazendo consigo uma mistura de expectativa e silêncio. Para Ashbel Green Simonton, aquele não era simplesmente mais um dia no movimentado porto de Baltimore. Durante meses, a decisão havia amadurecido em seu coração; agora, finalmente, ela precisava ser colocada em movimento.

O jovem pastor, recém-ordenado, estava prestes a deixar os Estados Unidos - pelo menos sem saber quando ou se voltaria. À sua frente estava o Banshee, uma embarcação mercante à vela que faria a longa travessia até o Rio de Janeiro. Registros da época identificam o navio como uma galera/barca americana, com cerca de quinhentas toneladas e uma tripulação de aproximadamente quatorze homens. Não era um confortável transatlântico dos tempos modernos. Era um navio de madeira, dependente dos ventos, das velas, da experiência dos marinheiros e da providência de Deus.

Mas, antes do navio, havia uma despedida.

Sua mãe e seu irmão John estavam ali, pois haviam acompanhado Simonton até o porto para vê-lo partir. Aquele encontro possuía uma solenidade que nenhuma palavra poderia disfarçar. Não se tratava de uma viagem de algumas semanas.

O destino era outro continente, outro povo, outra língua e uma tarefa cuja duração ninguém poderia prever.

A mãe sabia disso.

Talvez por isso a despedida tenha sido marcada não por discursos, mas por oração. Antes que Simonton subisse definitivamente a bordo, mãe, filho e irmão se reuniram e oraram fervorosamente. Era como se, naquele instante, aquela família estivesse colocando nas mãos de Deus aquilo que já não poderia proteger com as próprias mãos.

A oração terminou.

Simonton respirou fundo, como quem recolhe em silêncio o peso de um instante eterno. Com passos lentos, atravessou o cais e subiu a prancha que o conduzia ao convés do Banshee. Cada passo era uma despedida, cada batida do coração um eco da oração que ainda vibrava no ar.

No convés, o jovem missionário deteve-se por um momento. O porto, ainda próximo, parecia pulsar de vida: vozes, gestos, o aceno da mãe e do irmão que permaneciam à beira da água. O navio, entretanto, começava a mover-se, obediente ao vento e ao comando dos marinheiros. Lentamente, como quem não deseja romper de súbito o laço invisível que o prendia à terra, o Banshee afastava-se.

Simonton permaneceu imóvel, os olhos fixos na figura da mãe que diminuía à medida que a distância crescia. O coração se apertava, mas ao mesmo tempo se abria para o chamado que o aguardava além-mar. O cais tornava-se sombra, o porto dissolvia-se em contornos difusos, e o mar, vasto e insondável, erguia-se diante dele como um horizonte de promessas e provações.

O vento enchia as velas, e o navio avançava. O jovem missionário, agora entregue ao oceano, sentia que sua vida se desprendia das margens conhecidas para se lançar em águas de fé. O porto ficava para trás, mas a oração permanecia dentro dele, como chama acesa que nenhuma distância poderia apagar.

O Banshee seguia pela baía de Chesapeake, deixando Baltimore para trás e avançando em direção ao Atlântico. Naquele tempo, a saída de Baltimore para o oceano fazia-se pelo longo percurso da baía de Chesapeake. O navio ainda teria de vencer aquela extensa via marítima antes de alcançar o mar aberto.

E então veio o silêncio.

Não o silêncio do porto, mas aquele silêncio interior que acontece quando uma decisão finalmente se torna irreversível.

Simonton havia pensado muito sobre aquele momento. Sabia que o chamado não significava apenas ir para algum lugar distante. Significava deixar para trás aquilo que amava para anunciar o Evangelho entre pessoas que ainda não conhecia.

Mais tarde, quando finalmente o Banshee se afastou definitivamente da costa americana e entrou em águas internacionais, Simonton encontrou uma imagem para descrever o que estava acontecendo dentro dele:

havia cruzado o seu Rubicão...

Essa expressão contém uma força poderosa. Júlio César havia atravessado o Rubicão sabendo que, depois daquele passo, não havia retorno possível à situação anterior. Simonton agora compreendia que também havia atravessado uma fronteira. A decisão tomada meses antes estava deixando de ser uma intenção, uma carta à Junta de Missão ou uma possibilidade ministerial...tornava-se realidade.

Atrás dele ficavam Baltimore, a família e a terra conhecida.

À sua frente estavam o Atlântico e o Brasil.

O navio seguia.

E, enquanto as águas começavam a ocupar todo o horizonte, o jovem missionário ainda não sabia exatamente o que encontraria no outro lado. Não sabia quais dificuldades enfrentaria, quantas pessoas conheceria, quais portas se abririam ou quantas lágrimas ainda derramaria.

Sabia apenas uma coisa: Deus o havia chamado para ir.

E agora ele estava indo...

A travessia até o Rio de Janeiro duraria cerca de cinquenta e cinco dias. Durante esse período, o Banshee enfrentaria todas as adversidades deste tipo de travessia marítima: calmarias, ventos contrários, mar agitado e até situações de perigo. Mas aquela primeira manhã já continha, em miniatura, toda a viagem que começava: deixar, confiar e avançar.

O porto desaparecia.

A costa diminuía.

O oceano se abria.

E, sobre aquele navio movido pelo vento, um jovem pastor começava a escrever uma das páginas mais importantes da história do protestantismo no Brasil.


Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Reflexão Bíblica

http://reflexaoipg.blogspot.com.br

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Obra de referência

SIMONTON, Ashbel Green. O diário de Simonton. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2022.

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