18 de
junho de 1859.
A manhã chegou trazendo consigo uma mistura de expectativa e
silêncio. Para Ashbel Green Simonton, aquele não era simplesmente mais um dia
no movimentado porto de Baltimore. Durante meses, a decisão havia
amadurecido em seu coração; agora, finalmente, ela precisava ser colocada em
movimento.
O jovem pastor, recém-ordenado, estava prestes a deixar os Estados
Unidos - pelo menos sem saber quando ou se voltaria. À sua frente estava
o Banshee, uma embarcação mercante à vela que faria a longa travessia
até o Rio de Janeiro. Registros da época identificam o navio como uma
galera/barca americana, com cerca de quinhentas toneladas e uma tripulação de
aproximadamente quatorze homens. Não era um confortável transatlântico dos
tempos modernos. Era um navio de madeira, dependente dos ventos, das velas, da
experiência dos marinheiros e da providência de Deus.
Mas, antes do navio, havia uma despedida.
Sua mãe e
seu irmão John estavam ali, pois haviam acompanhado Simonton até o porto
para vê-lo partir. Aquele encontro possuía uma solenidade que nenhuma palavra
poderia disfarçar. Não se tratava de uma viagem de algumas semanas.
O destino era outro continente, outro povo, outra língua e uma
tarefa cuja duração ninguém poderia prever.
A mãe sabia disso.
Talvez por isso a despedida tenha sido marcada não por discursos,
mas por oração. Antes que Simonton subisse definitivamente a bordo, mãe,
filho e irmão se reuniram e oraram fervorosamente. Era como se, naquele
instante, aquela família estivesse colocando nas mãos de Deus aquilo que já não
poderia proteger com as próprias mãos.
A
oração terminou.
Simonton respirou fundo, como quem recolhe em silêncio o peso de um
instante eterno. Com passos lentos, atravessou o cais e subiu a prancha que o
conduzia ao convés do Banshee. Cada passo era uma despedida, cada batida
do coração um eco da oração que ainda vibrava no ar.
No convés, o jovem missionário deteve-se por um momento. O porto,
ainda próximo, parecia pulsar de vida: vozes, gestos, o aceno da mãe e do irmão
que permaneciam à beira da água. O navio, entretanto, começava a mover-se,
obediente ao vento e ao comando dos marinheiros. Lentamente, como quem não
deseja romper de súbito o laço invisível que o prendia à terra, o Banshee
afastava-se.
Simonton permaneceu imóvel, os olhos fixos na figura da mãe que
diminuía à medida que a distância crescia. O coração se apertava, mas ao mesmo
tempo se abria para o chamado que o aguardava além-mar. O cais tornava-se
sombra, o porto dissolvia-se em contornos difusos, e o mar, vasto e insondável,
erguia-se diante dele como um horizonte de promessas e provações.
O vento enchia as velas, e o navio avançava. O jovem missionário,
agora entregue ao oceano, sentia que sua vida se desprendia das margens
conhecidas para se lançar em águas de fé. O porto ficava para trás, mas a
oração permanecia dentro dele, como chama acesa que nenhuma distância poderia
apagar.
O Banshee seguia pela baía de Chesapeake, deixando Baltimore
para trás e avançando em direção ao Atlântico. Naquele tempo, a saída de
Baltimore para o oceano fazia-se pelo longo percurso da baía de Chesapeake. O
navio ainda teria de vencer aquela extensa via marítima antes de alcançar o mar
aberto.
E então
veio o silêncio.
Não o silêncio do porto, mas aquele silêncio interior que acontece
quando uma decisão finalmente se torna irreversível.
Simonton havia pensado muito sobre aquele momento. Sabia que o
chamado não significava apenas ir para algum lugar distante. Significava deixar
para trás aquilo que amava para anunciar o Evangelho entre pessoas que ainda
não conhecia.
Mais tarde, quando finalmente o Banshee se afastou
definitivamente da costa americana e entrou em águas internacionais, Simonton
encontrou uma imagem para descrever o que estava acontecendo dentro dele:
havia cruzado o seu Rubicão...
Essa expressão contém uma força poderosa. Júlio César havia
atravessado o Rubicão sabendo que, depois daquele passo, não havia
retorno possível à situação anterior. Simonton agora compreendia que também
havia atravessado uma fronteira. A decisão tomada meses antes estava deixando de
ser uma intenção, uma carta à Junta de Missão ou uma possibilidade ministerial...tornava-se
realidade.
Atrás dele ficavam Baltimore, a família e a terra conhecida.
À sua frente estavam o Atlântico e o Brasil.
O navio
seguia.
E, enquanto as águas começavam a ocupar todo o horizonte, o jovem
missionário ainda não sabia exatamente o que encontraria no outro lado. Não
sabia quais dificuldades enfrentaria, quantas pessoas conheceria, quais portas
se abririam ou quantas lágrimas ainda derramaria.
Sabia apenas uma coisa: Deus o havia chamado para ir.
E agora
ele estava indo...
A travessia até o Rio de Janeiro duraria cerca de cinquenta e cinco
dias. Durante esse período, o Banshee enfrentaria todas as adversidades
deste tipo de travessia marítima: calmarias, ventos contrários, mar agitado e
até situações de perigo. Mas aquela primeira manhã já continha, em miniatura,
toda a viagem que começava: deixar, confiar e avançar.
O porto desaparecia.
A costa diminuía.
O oceano se abria.
E, sobre aquele navio movido pelo vento, um jovem pastor começava a
escrever uma das páginas mais importantes da história do protestantismo no
Brasil.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Obra de referência
SIMONTON, Ashbel Green. O diário de Simonton. São Paulo:
Editora Cultura Cristã, 2022.
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