Quando
a missão sai das mãos dos missionários
A
chegada de Ashbel Green Simonton ao Brasil, em 1859, marcou o início de uma
nova etapa na história do protestantismo presbiteriano. O jovem missionário
trazia consigo uma convicção clara acerca de sua vocação: anunciar o evangelho
e estabelecer uma igreja em território brasileiro. Mas havia uma questão: será
que apenas o trabalho dos missionários seria suficiente para alcançar um país
continental como o Brasil?
A
resposta não será encontrada apenas nos púlpitos, nos primeiros templos ou nas
decisões dos concílios. Ela deve ser procurada nas casas, nas famílias, nas
escolas, nas viagens e na vida daqueles que, alcançados pela mensagem,
começaram a participar ativamente da expansão da fé.
É
nesse ponto que o capítulo “A força dos leigos”, de Caleb Soares, ganha
uma importância especial. O autor nos ajuda a perceber que o crescimento do
presbiterianismo brasileiro não ocorreu simplesmente pela multiplicação de
missionários. Houve um momento em que a missão começou a se expandir pelo empenho e dedicação de pessoas que não
haviam atravessado o oceano para evangelizar o Brasil, mas que haviam sido
alcançadas pelo evangelho e passaram a considerar a obra como sua.
O
missionário não podia estar em todos os lugares
Os
primeiros anos da missão presbiteriana revelam uma realidade bastante simples: havia
um território enorme e poucos trabalhadores.
Simonton
estava no Rio de Janeiro. Blackford se deslocou para São Paulo e ali inicia um
trabalho fundante. Mesmo com Chamberlain
e outros missionários assumindo diferentes frentes de trabalho o Brasil era
muito maior que a capacidade de deslocamento desses missionários pioneiros.
A
distância torna-se um obstáculo concreto.
As
viagens eram longas e demoradas- cavalos, mulas e barcos. As comunicações eram
difíceis. Os recursos eram limitados. Não havia uma estrutura missionária capaz
de alcançar rapidamente as diferentes regiões do país.
Nesse
contexto, a participação dos brasileiros deixou de ser apenas desejável e
tornou-se necessária. O evangelho precisava viajar por outros caminhos. E um
desses caminhos eram as próprias pessoas.
A casa
como espaço de missão
Antes
de existirem grandes templos, muitas comunidades cristãs inicialmente surgiram em
casas e espaços alugados. Essa característica pode parecer pequena quando
observada a partir da história posterior da igreja, mas é fundamental para
compreender como o presbiterianismo conseguiu criar raízes.
Uma
casa oferecia algo que o missionário não possuía em quantidade suficiente: presença
local. Ali era possível reunir pessoas, ensinar, conversar, orar e
estabelecer vínculos. A casa não era simplesmente um lugar onde uma reunião
acontecia. Ela se tornava um ponto de contato entre a mensagem protestante e a
sociedade brasileira.
A
experiência dos Blackford em São Paulo é particularmente significativa. A
residência da família tornou-se espaço de encontro e acolhimento da comunidade
presbiteriana. A história posterior da igreja paulista não pode ser
compreendida sem considerar esses pequenos espaços nos quais a fé foi
inicialmente compartilhada.
O
templo viria décadas depois. Primeiro veio a casa.
A
missão também tinha rosto de família
Esse
aspecto nos conduz a uma dimensão frequentemente esquecida da história
missionária: a família.
A
missão protestante do século XIX não era realizada apenas por indivíduos
isolados. Famílias inteiras acabavam envolvidas no cotidiano da obra. A esposa
do missionário, os filhos, pessoas hospedadas, professores e convertidos
participavam, cada qual de maneira diferente, da formação daquela primeira
comunidade.
Aqui
temos que destacar Elizabeth Blackford, pois reduzir sua participação à
condição de esposa de um missionário seria perder uma parte importante da
história. Sua presença em São Paulo, seu relacionamento com os primeiros
convertidos e sua atuação no ambiente doméstico demonstram que havia formas de
serviço cristão que não dependiam da ordenação pastoral.
A casa
podia ser um espaço de evangelização.
A
hospitalidade podia ser uma forma de missão.
A
educação podia tornar-se instrumento de evangelização.
O
cuidado pessoal podia abrir portas que nenhuma instituição conseguiria abrir
naquele momento. O historiador do protestantismo presbiteriano Caleb Soares
recupera personagens como Elizabeth justamente porque eles ajudam a enxergar
essas dimensões menos visíveis da expansão presbiteriana.
Quando
o convertido se transforma em testemunha
Existe
uma transformação silenciosa na história da missão. Inicialmente são
missionários que vem de longe para anunciar. Depois temos aquelas pessoas que
ouvem. Em seguida, essa pessoa começa a contar a outros. Esta mudança simples,
faz toda a diferença, pois o convertido deixa de ser apenas receptor e torna-se
testemunha.
Essa
dinâmica aparece já nos primeiros relatos da obra de Simonton. Em seu registro
sobre os primeiros trabalhos, Blackford mostra como pequenas reuniões foram
crescendo à medida que novas pessoas eram convidadas e passavam a participar.
Se não
encontramos ainda uma estrutura poderosa, encontramos uma cadeia de
relacionamentos. Uma pessoa conhece outra. Uma família recebe alguém. Um amigo
convida outro amigo. Uma conversa conduz a outra conversa. Assim, a expansão
acontece de maneira quase orgânica.
A
missão começa a extrapolas a esfera de atuação dos missionários.
A
força da literatura
É
necessário destacar outro instrumento importante dessa expansão - a literatura.
A imprensa protestante e a distribuição de Bíblias, folhetos e outros materiais
permitiram que a mensagem chegasse a lugares onde o missionário não estava
presente. O trabalho dos colportores tornou-se, portanto, uma das
expressões mais importantes dessa descentralização da missão.
O
colportor não precisava necessariamente de um púlpito. Seu trabalho era quase
que totalmente itinerante. Multiplicavam seus contatos através do diálogo
franco e aberto. Estabeleciam uma rede de contatos. Divulgavam e popularizam
toda sorte de literatura protestante, de bíblias a livros e panfletos. Estas
literaturas eram semeaduras que haveriam de germinar e produzir frutos e uma
copiosa colheita.
Pessoas
que em sua grande maioria permanecem desconhecidas. O avanço do
presbiterianismo não aconteceu somente por meio daqueles que escreveram
livros ou organizaram instituições, mas também por meio daqueles que os
carregaram de uma cidade para outra.
A
página impressa tornou-se companheira da estrada.
Educação:
outra porta aberta pela missão
Desde
os primórdios da Reforma Protestante no século XVI a educação passoua a ocupar
um instrumento estratégico da comunicação da mensagem evangélica e no Brasil
não foi diferente.
Desde
os primeiros anos, os missionários presbiterianos perceberam que o trabalho
educacional poderia criar oportunidades de conexão com a sociedade brasileira. Escolas não eram
apenas instituições de ensino. Tornavam-se espaços de formação, convivência e
testemunho cristão.
É
nesse contexto que nomes como Maria Antônia da Silva Ramos ganham
relevância. A história da Escola Americana e posteriormente do Mackenzie
demonstra que a missão presbiteriana foi adquirindo uma presença que
ultrapassava os limites da eclesiologia. A educação permitia alcançar crianças,
jovens e famílias, estabelecendo relações duradouras.
A
missão, portanto, não caminhava apenas pela pregação, mas caminhava também pelas
salas de aulas. E, novamente, os leigos tornam-se prementes.
O recurso
financeiro também conta uma história
Existe
uma dimensão da história missionária que nem sempre recebe atenção: os
recursos financeiros. Todo trabalho missionário precisa de recursos para
viajar, publicar, ensinar, construir, manter escolas e sustentar trabalhadores.
Por trás de cada empreendimento existem pessoas que contribuíram
financeiramente ou colocaram à disposição aquilo que possuíam.
Essa
realidade não diminui a dimensão espiritual da obra, ao contrário, revela que a
convicção religiosa podia transformar-se em compromisso concreto. Quando alguém
contribui está dizendo, com seus recursos, que acredita naquela missão. Assim, a
história financeira da igreja também pode ser uma história da fé.
O
professor Caleb Soares percebe isso ao recuperar personagens que participaram
da construção da obra de maneiras que não aparecem necessariamente nos
registros dos púlpitos. Se a obra missionário precisava de pregadores.
Igualmente precisava também daqueles que tornavam possível que os pregadores
continuassem pregando.
De
colaboradores a protagonistas
Estamos
apenas revelando a ponto do iceberg dos primórdios da obra missionária no
Brasil. Quando os brasileiros começam a participar mais intensamente da obra,
ocorre uma transformação ainda mais profunda: eles começam a assumir
responsabilidades que antes pertenciam quase exclusivamente aos missionários.
Essa
mudança pode ser observada no desenvolvimento da liderança nacional.
O
chamado Seminário Primitivo, iniciado por Simonton, representa um passo
decisivo. A formação de homens como Modesto Carvalhosa, Antônio Trajano,
Antônio Pedro de Cerqueira Leite e Miguel Gonçalves Torres mostrava
que a igreja não poderia permanecer indefinidamente dependente de pastores
estrangeiros.
Simonton
e seus companheiros entenderam rapidamente que precisavam formar pastores. E
estes pastores nacionais haveriam de produzir novos pastores. A obra começava,
assim, a reproduzir-se. O evangelho recebido começava a ser transmitido e a igreja
começava a produzir suas próprias lideranças.
A
nacionalização não aconteceu de repente
Esta
transição de uma missão estrangeira para uma igreja brasileira não aconteceu de
maneira instantânea. Foi um processo a médio e longo prazo. Ainda por muitas
décadas os missionários estrangeiros continuaram exercendo papel fundamental.
Eles ensinavam, pregavam, organizavam, supervisionavam e formavam novos
líderes. Mas, paralelamente, havia uma crescente participação brasileira cada
vez mais significativa.
É
nesse processo a força efetiva dos leigos precisa ser destacada. Eles
constituíram uma espécie de ponte entre a missão estrangeira e a igreja
nacional.
Receberam
a mensagem, participaram da comunidade, ajudaram a sustentar a obra e, em
muitos casos, prepararam o terreno para que novos ministros brasileiros
assumissem responsabilidades.
A
missão começava a criar raízes.
Uma
rede que se espalhava
Quando
olhamos para esse processo em conjunto, percebemos que a expansão presbiteriana
foi menos parecida com uma linha reta e mais semelhante a uma rede.
Do Rio
de Janeiro para São Paulo.
De
São Paulo para outras localidades.
De
uma igreja para outra.
De
uma família para outra.
De
uma escola para outra.
De
um leitor para outro.
De um
pregador para outro.
Essa
rede não era formada apenas por instituições, mas principalmente por
relacionamentos. E talvez seja exatamente isso que torna a história dos leigos
tão importante.
Instituições
deixam registros oficiais. Redes humanas muitas vezes deixam apenas vestígios. Uma
assinatura em uma ata, uma correspondência, uma fotografia. Lembranças
familiares, uma casa, uma escola, um nome mencionado em uma lista... por trás
de cada vestígio pode existir uma história.
O
mérito do professor e historiador Caleb Soares está justamente em chamar nossa
atenção para essas pessoas. Ao dedicar um capítulo da sua preciosa obra à “força
dos leigos”, ele nos convida a ampliar nossa compreensão da história do
presbiterianismo. Não se trata de diminuir os grandes missionários. Pelo
contrário. Trata-se de perceber a dimensão da obra que eles iniciaram.
Simonton
não poderia estar em todos os lugares.
Blackford
não poderia acompanhar todas as comunidades.
Chamberlain
não poderia ensinar todas as crianças.
Nenhum
missionário conseguiria realizar sozinho aquilo que, posteriormente, se
transformaria em uma ampla rede de igrejas. A missão precisava ser
compartilhada. E foi.
A
missão que se torna da igreja
Talvez
aqui esteja o ponto central. Enquanto a missão permanece concentrada em poucos
indivíduos, ela depende deles. Quando a comunidade assume a missão, ela começa
a adquirir continuidade.
Essa
transição pode ser percebida na história do presbiterianismo brasileiro.
Primeiro,
a missão veio de fora.
Depois,
encontrou pessoas dentro do país.
Essas
pessoas foram alcançadas.
Algumas
tornaram-se colaboradores.
Outras
tornaram-se líderes.
E,
pouco a pouco, a missão tornou-se responsabilidade da própria igreja.
Essa
é a verdadeira força dos leigos.
Não
simplesmente ajudar o pastor.
Não
apenas participar das atividades da igreja. Mas compreender que a missão
recebida é uma responsabilidade compartilhada por todo o povo de Deus.
A
história continua nas pequenas coisas
Talvez
seja necessário olhar novamente para aquelas pequenas cenas que aparecem
dispersas nos documentos históricos.
Uma
mulher abrindo sua casa. Uma família que recepciona e hospeda um pregador. Um
viajante que transporta sua literatura e vai passando pequenas cidades, vilas e
fazendas. Uma professora ensinando uma criança. Um convertido compartilhando
sua descoberta com um vizinho.
Alguém
que voluntariamente oferecendo ajuda financeira para a continuidade de um
trabalho iniciante. Um jovem que sente uma vocação ministerial. Isoladamente, nenhuma
dessas cenas parece extraordinária por si só. Mas, quando contempladas pela
perspectiva histórica, elas explicam como uma pequena missão estrangeira pôde
transformar-se em uma igreja brasileira. Pois, a história, muitas vezes,
acontece assim... não apenas nos grandes acontecimentos, mas na soma de
pequenas e quase imperceptíveis fidelidades.
Quando
a missão encontra um povo
A
chegada de Simonton ao Brasil foi um acontecimento missionário. A transformação
daquela missão em uma igreja brasileira foi um processo histórico muito mais
amplo.E nesse processo os leigos tiveram papel decisivo.
Eles
foram os que receberam os missionários, ouviram sua mensagem, abriram suas
casas, participaram das escolas, distribuíram literatura, contribuíram com
recursos, acompanharam os novos convertidos e ajudaram a estabelecer
comunidades.
Por
isso, talvez seja mais adequado dizer que o presbiterianismo não simplesmente foi
implantado no Brasil. Ele foi sendo enraizado. E como em toda
planta, essas raízes se aprofundam e nutrem de maneira silenciosa. Elas crescem
longe dos olhos, mas sustentam aquilo que aparece acima do solo.
Os
missionários trouxeram a semente. Muitos brasileiros ajudaram a fazê-la criar
raízes. Essa é uma das histórias que Caleb Soares nos convida a recuperar. E,
ao recuperá-la, percebemos que a história do presbiterianismo brasileiro é
também a história de homens e mulheres que compreenderam que a fé não deveria
permanecer restrita ao espaço da igreja.
Ela
precisava caminhar.
E
caminhou.
Utilização
livre desde que citando a fonte
Guedes,
Ivan Pereira
Mestre
em Ciências da Religião.
Universidade
Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro
Blog
Reflexão
Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br
Ajude a
manter esse ministério ativo
Referências Bibliográficas
SOARES, Caleb. 150
anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos
(SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.
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