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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Lutero: Edito de Worms - A sentença de Martinho Lutero (1483-1546)

 

Foto: Nordmander, 14 de outubro de 1855, p. 153.
Acervo: Biblioteca Nacional da Noruega.

Em 1521, Martinho Lutero foi chamado a comparecer perante a Dieta de Worms, onde deveria responder por seus escritos e pelas posições que vinha defendendo. Diante das autoridades reunidas, o reformador não se retratou. Como consequência, foi promulgado o Edito de Worms, que estabeleceu uma sentença de banimento contra Lutero e o colocou oficialmente fora da lei.

A medida não atingia apenas o próprio Lutero. O edito também alcançava seus seguidores, protetores e amigos. Seus escritos deveriam ser queimados e foi determinada uma censura sobre o material impresso relacionado à sua causa. Depois do término do período de proteção concedido pelo salvo-conduto, ninguém deveria oferecer abrigo ao reformador, nem mesmo fornecer-lhe comida ou água. Ao contrário, Lutero deveria ser capturado e entregue às autoridades imperiais. Seus apoiadores também poderiam ser presos e ter seus bens confiscados.

A sentença era, portanto, severa. O Edito de Worms declarou Martinho Lutero herege e réu de lesa-majestade, colocando-o não apenas em conflito com a autoridade religiosa, mas também em uma situação de grave risco diante do poder imperial.

O significado de “heresia”

A palavra heresia possuía uma história anterior às controvérsias da Reforma. O Easton Illustrated Bible Dictionary, publicado em 1893, registra entre seus significados a ideia de uma “escolha” ou de uma “opinião escolhida”.

No contexto de Lutero, entretanto, o termo possuía consequências muito mais amplas. Chamá-lo de herege significava classificá-lo como alguém que sustentava posições consideradas contrárias à doutrina e à autoridade estabelecidas. A acusação, naquele contexto, não era meramente acadêmica ou teológica: possuía consequências jurídicas e políticas.

De condenado a tradutor

Apesar da sentença, Lutero não foi imediatamente capturado. Quando deixou Worms, o príncipe Frederico da Saxônia[1] tomou providências para garantir sua segurança. Seus soldados encontraram o reformador pelo caminho e o conduziram secretamente ao Castelo de Wartburgo.[2]

Foi nesse lugar, aparentemente afastado dos acontecimentos, que Lutero realizou uma das tarefas que mais marcariam sua trajetória. Durante os meses que permaneceu escondido, traduziu o Novo Testamento para o alemão, trabalho publicado em 1522, já em Wittenberg.

Quando Lutero iniciou seu trabalho em Wartburgo, não partia do zero. Tinha à sua disposição a Vulgata latina, o texto grego do Novo Testamento e os recursos oferecidos pelas edições de Erasmo de Roterdã. O trabalho de Erasmo representava uma importante contribuição do humanismo cristão de seu tempo, colocando à disposição dos estudiosos o texto grego, uma tradução latina revista e comentários filológicos.

Lutero soube utilizar esses instrumentos. Entretanto, isso não significa que tenha simplesmente seguido Erasmo – tipo cópia e cola – o reformador aproveitou ferramentas fornecidas pelo humanismo de Erasmo, mas não adotou simplesmente a teologia humanista de Erasmo. Suas próprias convicções sobre a Escritura, a justificação e a mensagem central do Evangelho permearam todas suas decisões tradutórias.

Essa distinção é importante. A tradução de Lutero não foi uma simples transferência para o alemão da tradução latina de Erasmo. Ele trabalhou comparando os textos disponíveis, recorrendo ao grego, à tradição latina e ao seu próprio conhecimento das Escrituras e da língua alemã. Posteriormente, estudiosos de Wittenberg, entre eles Philipp Melanchthon,[3] também participaram do processo de revisão e aperfeiçoamento.

As convergências e distinções entre o trabalho de Erasmo e o de Lutero merecem, entretanto, uma análise própria, pois revelam como filologia, tradução e teologia se encontravam no ambiente intelectual da Reforma.[4]

Além disso, embora a tradução tenha sido conduzida por Lutero durante sua permanência em Wartburgo, ela não deve ser imaginada como o trabalho de um homem completamente isolado. O ambiente intelectual de Wittenberg contava com estudiosos como Philipp Melanchthon, conhecedor do grego, e outros colaboradores que participaram da revisão e do aperfeiçoamento do texto. Assim, a tradução estava ligada tanto ao trabalho pessoal de Lutero quanto ao ambiente acadêmico que o cercava.

Esse detalhe é importante porque ajuda a compreender a dimensão da obra sem minimizar a relevância de Lutero. O reformador possuía a formação, a experiência e o domínio das línguas necessários para realizar o trabalho. Em cartas a Spalatin,[5] afirmou que lia regularmente as Escrituras nos idiomas originais, que havia conseguido manter consigo. Durante o período em Wartburgo, contou com recursos filológicos limitados — como a edição grega de Erasmo e a Vulgata —, sem dispor de um aparato sistemático de dicionários e léxicos. No entanto, nas revisões posteriores já em Wittenberg, pôde acessar esse aparato lexical e contou com interlocutores capazes de contribuir, entre eles Melanchthon e o próprio Spalatin.

O resultado foi publicado em 1522 e tornou-se conhecido como o Novo Testamento de Setembro. Foi publicado a tempo da Feira de Frankfurt, o mercado editorial bianual que oferece um alcance maior do que a feira regional de Leipzig. Dizer que foi um sucesso de vendas seria um eufemismo. Em poucos dias todas as cópias se esgotaram, espalhando-se rapidamente e consolidando a Reforma.

Uma sentença que não foi cumprida

O homem que havia sido condenado em Worms encontrava-se agora trabalhando para tornar o texto bíblico acessível aos leitores de língua alemã. O Edito de Worms havia determinado que Lutero fosse capturado. Entretanto, a sentença nunca foi efetivamente cumprida. A proteção recebida de Frederico da Saxônia e as circunstâncias políticas do Sacro Império impediram que o reformador fosse entregue às autoridades imperiais.

O episódio revela uma dimensão particularmente significativa daquele momento da Reforma. Em Worms, Lutero havia sido oficialmente condenado e colocado fora da lei. Em Wartburgo, porém, continuou trabalhando. A tentativa de silenciá-lo coincidiu com um período em que ele se dedicou a uma tarefa que ampliaria ainda mais o alcance de suas ideias: a tradução das Escrituras.

A história apresenta, assim, uma situação paradoxal. O Edito destinado a silenciar Martinho Lutero não conseguiu impedir que sua voz continuasse sendo ouvida — e, por meio da tradução das Escrituras, alcançasse um público ainda maior.

Foto: Sondagen i Hjemmet, 11 de agosto de 1878, p. 133.
Acervo: Biblioteca Nacional da Noruega.

 

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

Universidade Presbiteriana Mackenzie

me.ivanguedes@gmail.com

Outro Blog

Reflexão Bíblica

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Bibliografia

ERASMO DE ROTERDÃ. Novum Testamentum. Basileia: Johann Froben, 1519.
Edição do Novo Testamento grego e latino que integra o contexto textual e humanista utilizado por Lutero em seu trabalho de tradução.

LUTERO, Martinho. Bíblia Sagrada: Novo Testamento. Wittenberg: 1522.
Primeira edição do Novo Testamento traduzido por Lutero para o alemão, realizada durante sua permanência no Castelo de Wartburgo.

ZIMMERMANN, William. A popular history of Germany: from the earliest period to the present day. New York: A. S. Barnes & Co., 1878.     
Fonte utilizada no texto para a transcrição das disposições do Edito de Worms contra Lutero, seus escritos e seus apoiadores.

EASTON, Matthew George. Easton's Illustrated Bible Dictionary. New York: Harper & Brothers, 1893. 
Referência utilizada para a definição histórica do termo “heresia”, mencionada no documento-base.

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[1] Frederico da Saxônia, príncipe-eleitor, protegeu Lutero após Worms e o levou a Wartburgo, garantindo sua sobrevivência. A Saxônia, com a Universidade de Wittenberg fundada em 1502, já era um centro intelectual e tornou-se o berço da Reforma. Essa combinação de poder político e ambiente acadêmico permitiu que Lutero traduzisse a Bíblia e difundisse suas ideias, consolidando o movimento reformador.

[2] O Castelo de Wartburgo foi escolhido porque era uma fortaleza segura sob domínio de Frederico da Saxônia, afastada das pressões imperiais e papais. Ali Lutero permaneceu cerca de dez meses (1521–1522), vivendo disfarçado como “Junker Jörg” (um pseudônimo). Esse nome e mudança de aparência faziam parte da estratégia de Frederico da Saxônia para mantê-lo em segurança, enquanto Lutero trabalhava na tradução do Novo Testamento para o alemão. Esses detalhes mostram como a proteção de Frederico foi cuidadosamente planejada: não apenas esconder Lutero, mas criar uma identidade alternativa que o tornasse invisível aos olhos de seus perseguidores.

[3] Humanista e teólogo, Melanchthon foi colega de Lutero na Universidade de Wittenberg e um dos principais sistematizadores da Reforma. Conhecido como “Professor da Alemanha”, destacou-se por sua habilidade em organizar a teologia protestante e por sua atuação conciliadora, que ajudou a difundir e consolidar o movimento reformador.

[4] A Tradução de Lutero e a Tradução de Erasmo: convergências e distinções...serão tratadas em artigo próprio.

[5] Georg Burkhardt, conhecido como Spalatin, humanista e conselheiro de Frederico, o Sábio.