Foto: Nordmander, 14 de outubro de 1855, p. 153.
Acervo: Biblioteca Nacional da Noruega.
Em 1521, Martinho Lutero foi chamado a comparecer perante a Dieta
de Worms, onde deveria responder por seus escritos e pelas posições que vinha
defendendo. Diante das autoridades reunidas, o reformador não se retratou. Como
consequência, foi promulgado o Edito de Worms, que estabeleceu uma sentença de
banimento contra Lutero e o colocou oficialmente fora da lei.
A medida não atingia apenas o próprio Lutero. O edito também
alcançava seus seguidores, protetores e amigos. Seus escritos deveriam ser
queimados e foi determinada uma censura sobre o material impresso relacionado à
sua causa. Depois do término do período de proteção concedido pelo
salvo-conduto, ninguém deveria oferecer abrigo ao reformador, nem mesmo
fornecer-lhe comida ou água. Ao contrário, Lutero deveria ser capturado e
entregue às autoridades imperiais. Seus apoiadores também poderiam ser presos e
ter seus bens confiscados.
A sentença era, portanto, severa. O Edito de Worms declarou
Martinho Lutero herege e réu de lesa-majestade, colocando-o não apenas
em conflito com a autoridade religiosa, mas também em uma situação de grave
risco diante do poder imperial.
O significado de “heresia”
A palavra heresia possuía uma história anterior às
controvérsias da Reforma. O Easton Illustrated Bible Dictionary,
publicado em 1893, registra entre seus significados a ideia de uma “escolha”
ou de uma “opinião escolhida”.
No contexto de Lutero, entretanto, o termo possuía consequências
muito mais amplas. Chamá-lo de herege significava classificá-lo como alguém que
sustentava posições consideradas contrárias à doutrina e à autoridade
estabelecidas. A acusação, naquele contexto, não era meramente acadêmica ou
teológica: possuía consequências jurídicas e políticas.
De condenado a tradutor
Apesar da sentença, Lutero não foi imediatamente capturado. Quando
deixou Worms, o príncipe Frederico da Saxônia[1]
tomou providências para garantir sua segurança. Seus soldados encontraram o
reformador pelo caminho e o conduziram secretamente ao Castelo de Wartburgo.[2]
Foi nesse lugar, aparentemente afastado dos acontecimentos, que
Lutero realizou uma das tarefas que mais marcariam sua trajetória. Durante os
meses que permaneceu escondido, traduziu o Novo Testamento para o alemão,
trabalho publicado em 1522, já em Wittenberg.
Quando Lutero iniciou seu trabalho em Wartburgo, não partia do
zero. Tinha à sua disposição a Vulgata latina, o texto grego do Novo
Testamento e os recursos oferecidos pelas edições de Erasmo de Roterdã.
O trabalho de Erasmo representava uma importante contribuição do humanismo
cristão de seu tempo, colocando à disposição dos estudiosos o texto grego, uma
tradução latina revista e comentários filológicos.
Lutero soube utilizar esses instrumentos. Entretanto, isso não
significa que tenha simplesmente seguido Erasmo – tipo cópia e cola – o reformador
aproveitou ferramentas fornecidas pelo humanismo de Erasmo, mas não adotou
simplesmente a teologia humanista de Erasmo. Suas próprias
convicções sobre a Escritura, a justificação e a mensagem central do Evangelho permearam
todas suas decisões tradutórias.
Essa distinção é importante. A tradução de Lutero não foi uma
simples transferência para o alemão da tradução latina de Erasmo. Ele trabalhou
comparando os textos disponíveis, recorrendo ao grego, à tradição latina e ao
seu próprio conhecimento das Escrituras e da língua alemã. Posteriormente,
estudiosos de Wittenberg, entre eles Philipp Melanchthon,[3]
também participaram do processo de revisão e aperfeiçoamento.
As convergências e distinções entre o trabalho de Erasmo e o de
Lutero merecem, entretanto, uma análise própria, pois revelam como filologia,
tradução e teologia se encontravam no ambiente intelectual da Reforma.[4]
Além disso, embora a tradução tenha sido conduzida por Lutero
durante sua permanência em Wartburgo, ela não deve ser imaginada como o
trabalho de um homem completamente isolado. O ambiente intelectual de
Wittenberg contava com estudiosos como Philipp Melanchthon, conhecedor do
grego, e outros colaboradores que participaram da revisão e do aperfeiçoamento
do texto. Assim, a tradução estava ligada tanto ao trabalho pessoal de Lutero
quanto ao ambiente acadêmico que o cercava.
Esse detalhe é importante porque ajuda a compreender a dimensão da
obra sem minimizar a relevância de Lutero. O reformador possuía a formação, a
experiência e o domínio das línguas necessários para realizar o trabalho. Em
cartas a Spalatin,[5]
afirmou que lia regularmente as Escrituras nos idiomas originais, que havia
conseguido manter consigo. Durante o período em Wartburgo, contou com recursos
filológicos limitados — como a edição grega de Erasmo e a Vulgata —, sem dispor
de um aparato sistemático de dicionários e léxicos. No entanto, nas revisões
posteriores já em Wittenberg, pôde acessar esse aparato lexical e contou com
interlocutores capazes de contribuir, entre eles Melanchthon e o próprio
Spalatin.
O resultado foi publicado em 1522 e tornou-se conhecido como o Novo Testamento de
Setembro. Foi publicado a tempo da Feira de Frankfurt, o mercado
editorial bianual que oferece um alcance maior do que a feira regional de
Leipzig. Dizer que foi um sucesso de vendas seria um eufemismo. Em poucos dias
todas as cópias se esgotaram, espalhando-se rapidamente e consolidando a
Reforma.
Uma sentença que não foi cumprida
O homem que havia sido condenado em Worms encontrava-se agora
trabalhando para tornar o texto bíblico acessível aos leitores de língua alemã.
O Edito de Worms havia determinado que Lutero fosse capturado.
Entretanto, a sentença nunca foi efetivamente cumprida. A proteção recebida de
Frederico da Saxônia e as circunstâncias políticas do Sacro Império impediram
que o reformador fosse entregue às autoridades imperiais.
O episódio revela uma dimensão particularmente significativa
daquele momento da Reforma. Em Worms, Lutero havia sido oficialmente condenado
e colocado fora da lei. Em Wartburgo, porém, continuou trabalhando. A tentativa
de silenciá-lo coincidiu com um período em que ele se dedicou a uma tarefa que
ampliaria ainda mais o alcance de suas ideias: a tradução das Escrituras.
A história apresenta, assim, uma situação paradoxal. O Edito
destinado a silenciar Martinho Lutero não conseguiu impedir que sua voz
continuasse sendo ouvida — e, por meio da tradução das Escrituras, alcançasse
um público ainda maior.
Foto: Sondagen i Hjemmet, 11 de agosto de 1878, p. 133.
Acervo: Biblioteca Nacional da Noruega.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
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Bibliografia
ERASMO DE ROTERDÃ. Novum
Testamentum. Basileia: Johann Froben, 1519.
Edição do Novo Testamento grego e latino que integra o contexto textual e
humanista utilizado por Lutero em seu trabalho de tradução.
LUTERO, Martinho. Bíblia
Sagrada: Novo Testamento. Wittenberg: 1522.
Primeira edição do Novo Testamento traduzido por Lutero para o alemão,
realizada durante sua permanência no Castelo de Wartburgo.
ZIMMERMANN, William. A popular
history of Germany: from the earliest period to the present day. New York:
A. S. Barnes & Co., 1878.
Fonte utilizada no texto para a transcrição das disposições do Edito de Worms
contra Lutero, seus escritos e seus apoiadores.
EASTON, Matthew George. Easton's
Illustrated Bible Dictionary. New York: Harper & Brothers, 1893.
Referência utilizada para a definição histórica do termo “heresia”, mencionada
no documento-base.
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https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2013/10/reforma-religiosa-por-que-ocorreu-no.html
[1]
Frederico da Saxônia, príncipe-eleitor, protegeu Lutero após Worms e o levou a
Wartburgo, garantindo sua sobrevivência. A Saxônia, com a Universidade de
Wittenberg fundada em 1502, já era um centro intelectual e tornou-se o berço da
Reforma. Essa combinação de poder político e ambiente acadêmico permitiu que
Lutero traduzisse a Bíblia e difundisse suas ideias, consolidando o movimento
reformador.
[2] O Castelo de Wartburgo foi escolhido porque era uma fortaleza segura sob domínio de Frederico da Saxônia, afastada das pressões imperiais e papais. Ali Lutero permaneceu cerca de dez meses (1521–1522), vivendo disfarçado como “Junker Jörg” (um pseudônimo). Esse nome e mudança de aparência faziam parte da estratégia de Frederico da Saxônia para mantê-lo em segurança, enquanto Lutero trabalhava na tradução do Novo Testamento para o alemão. Esses detalhes mostram como a proteção de Frederico foi cuidadosamente planejada: não apenas esconder Lutero, mas criar uma identidade alternativa que o tornasse invisível aos olhos de seus perseguidores.
[3] Humanista
e teólogo, Melanchthon foi colega de Lutero na Universidade de Wittenberg e um
dos principais sistematizadores da Reforma. Conhecido como “Professor da
Alemanha”, destacou-se por sua habilidade em organizar a teologia protestante e
por sua atuação conciliadora, que ajudou a difundir e consolidar o movimento
reformador.
[4] A Tradução
de Lutero e a Tradução de Erasmo: convergências e distinções...serão tratadas
em artigo próprio.
[5] Georg
Burkhardt, conhecido como Spalatin, humanista e conselheiro de Frederico, o
Sábio.
