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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

VOCABULÁRIO DA REFORMA RELIGIOSA [A]


Cabe aqui uma palavra inicial pelo fato de que diante de um movimento tão amplo e de repercussão que transcende o tempo e espaço, é oportuno tomarmos conhecimento de termos que são fundamentais para se compreender o que estava ocorrendo naquela época e que hoje nem sempre é compreendida da mesma forma, pois a linguagem é dinâmica e evolutiva em seu desenvolvimento. Meu singelo esforço visa apenas destacar os termos que estão mais conectados com o período histórico em que ocorreu a Reforma Religiosa, alavancada por Lutero, Calvino e seus contemporâneos reformadores. Lembrando ainda o fato de este evento é a ruptura entre a Idade Média e a Idade Moderna de maneira que muitos termos tem seu sentido melhor compreendido à luz deste contexto.












Abelardo, Pedro (1079-1142). Frances de origem foi um dos mais celebres entre os teólogos e filósofos da Idade Média. Sua obra notável “Sim e Não” produziu uma influência enorme sobre os jovens estudantes, onde Abelardo enumera cento e cinquenta questões que expõe opiniões contraditórias dos chamados Pais da Igreja sobre temas importantes da teologia e filosofia e nesta obra percebe-se uma primazia da razão sobre a fé, que veio a moldar uma nova forma de se fazer teologia (esta obra tornou-se significativa para o desenvolvimento do método escolástico). Sua forma inovadora de pensar teológico produziu um confronto com o todo poderoso Bernardo de Clairvaux (1090-1158) que o acusou de herege e pelo qual veio a ser condenado no concílio de Sens. Na filosofia sua posição era o conceitualismo (chamado realismo moderado e em certa medida antecipa o conceitualismo de São Tomás de Aquino) que se afastava do pensamento plantonista e se aproximava do pensamento aristotélico. Impedido de lecionar na Universidade de Notre Dame (hoje Universidade de Paris) formou seus próprios centros universitários ao redor de Paris (em Melun e posteriormente Corbeil). Infelizmente ele ficou negativamente marcado pelo seu envolvimento amoroso com uma jovem tutelada chamada Heloisa. Naqueles dias o Docente para poder lecionar na França tinha que fazer um voto de castidade. Os protestantes utilizaram Abelardo seus escritos como um símbolo de tudo o que havia de errado com a teologia medieval, principalmente sua ênfase de que a autoridade da Bíblia era maior do que a tradição da igreja.
Absolutismo. Os historiadores atualmente se referem ao período compreendido entre o século XVI e o século XVIII. O termo "absolutismo" ou “legibus Absolutus” foi cunhado na França na década de 1790 para descrever o princípio, ou o exercício, do poder total e irrestrito de governo, onde o sistema político permite que o governante age livremente, acima de quaisquer leis ou acordos estabelecidos. Esse tipo de governança absoluta termina com a Revolução Francesa (Révolution Française, 1789-1799) e a partir de 1840 essa tradição política desapareceu na Europa central. É possível distinguir períodos ou fases do absolutismo: o marco inicial são os governos de Filipe II da Espanha e Ferdinando II da Áustria; uma segunda fase, barroco, tem como marco Luís XIV da França; em um terceiro momento há o que se denomina de absolutismo esclarecido ou despotismo esclarecido, tendo nas figuras de Maria Teresa e José II da Áustria, Frederico II da Prússia e Catarina II da Rússia seus maiores expoentes. A interpretação quanto ao valor desse período de governantes absolutista também é divergente: alemães e italianos compreendem que o absolutismo foi importante para o desenvolvimento e formação do Estado moderno; os ingleses e franceses são resistentes em aceitar esse tipo de governo como sendo positivo para os parlamentos modernos. Na moderna historiografia o absolutismo está restrito ao período do Renascimento e a Reforma Religiosa/Protestante e o Iluminismo e a Revolução. No contexto da Europa é possível perceber as diversas áreas em que os governos absolutistas imprimiram maior influência: na economia, com o mercantilismo; no campo da cultura, mais acentuadamente no segundo período, na arquitetura, nas artes e na música; na militarização de seus exércitos. A partir do século XVI até XVIII há uma estreita relação entre o absolutismo e a história das igrejas cristãs da Europa. Com base na teoria do direito divino dos reis eles passaram a exigir completa submissão das igrejas cristãs em seus territórios. Na França adotou-se o conceito do Galicanismo, em que o rei e não o Papa deveria exercer o direito supremo sobre o catolicismo francês (no Brasil esse conceito foi amplamente defendido por Antônio Feijó); na Inglaterra Enrique VIII implanta o Anglicanismo o rei é o chefe da igreja incluindo católicos e protestantes. A reação surge através dos movimentos como o puritanismo na Inglaterra e jansenismo na França (ganhou força no Brasil com as reformas propostas por Pombal). No luteranismo alemão houve divisão entre os que apoiavam o absolutismo e os que o combatiam. Essas lutas pela liberdade religiosa vieram a se tornar o fundamento das futuras revoluções que defendiam a ampla liberdade para os direitos e liberdades pessoais (bandeira das denominações protestantes), tal como vistas na Revolução Francesa e Americana. Todavia, em países como Alemanha e Suécia a igreja permaneceu como uma instituição estatal, onde seus clérigos recebem salário do governo.
Adiáfora (do grego ἀδιάφορα “coisas indiferente”) extraído do conceito filosófico estoico que se referia originalmente às questões que estariam fora da lei moral, ou seja, ações que a moral não exige e nem proíbe. Conforme registro dos evangelistas Jesus é retratado como desafiantes vários costumes religiosos. Por exemplo, ele considerou as leis relacionadas ao sábado como não fundamentais para a salvação (Mateus 12.1-14; Marcos 2.23-28, Lucas 6.1-11). O apóstolo Paulo adotou a mesma atitude em relação a vários assuntos conforme registrado em suas correspondências com as comunidades cristãs: ele trata as tradições relativas à alimentação (Romanos 14.6; 1 Coríntios 8.8), observâncias de dias especiais (Romanos 14.5-6; Colossenses 2.16), e circuncisão (1 Coríntios 7.19; Gálatas 5.6) como como sendo adiáforas. Idéias Adiaforistas permeou todo o desenvolvimento da igreja primitiva. O primeiro teólogo cristão a empregar o termo foi Clemente de Alexandria em  sua obra "Stromata". Numerosas discussões mais exigentes adiaphora também ocorreu durante a Reforma. Os reformadores do século 16 incluíram as questões de fé e práticas que eles consideravam como sendo toleráveis, na medida em que não eram contrárias aos princípios bíblicos (padrão de fé e prática). Evidentemente que nunca houve um consenso único entre os diversos ramos do protestantismo, pois cada um possuía suas próprias do que deveria ser considerado uma “adiáfora” e certamente tornou-se forte empecilho para uma unificação do protestantismo. Claro, vários teólogos tinham concepções diferentes do que era indiferente. A controvérsia adiaforista eclodiu ainda nos primórdios do luteranismo alemão no que ficou conhecido como Leipzig Intermediário (1548) quando Felipe Melancton (teólogo que sistematizou o luteranismo) e seus seguidores haviam se comprometido com as autoridades civis católicos romanos e listou como sendo adiáforas (indiferentes) as doutrinas católicas da confirmação, a Missa (sem transubstanciação), extrema-unção, a confissão auricular, a veneração dos santos e outros rituais. A reação de outros teólogos luteranos foi imediata e contundente e liderada por Mathias Flacius e seus seguidores em Magdeburg, autodenominados de “verdadeiro (gneiso) luteranismo” rejeitaram este acordo, pois entendiam que tais concessões era um simples sincretismo e descaracterizava totalmente a Reforma Religiosa empreendida a partir de Lutero. A controvérsia continuou até a adoção da Fórmula de Concórdia (1577) e homologada pelos estados alemães em 1580, onde os extremos tanto romanos quanto dos reformistas suíços (calvinistas e batistas) foram rejeitados. O risco é minimizar todas as questões adiaforistas sem examinar cuidadosamente seu valor intrínseco. As questões litúrgicas quando não submetidas aos critérios bíblicos podem conduzir a um antropocentrismo de maneira que o adorador se torna o centro do culto e não Deus o adorado.
Anabatistas (a preposição “ana” significa "novo", assim anabatistas eram aqueles que foram "batizado de novo") e se constitui em uma das tradições que emergiram da Reforma Protestante e/ou Religiosa no século dezesseis. Foram denominados também de Radicais pois desejavam levar ao extremo a distinção em relação ao catolicismo romano. Eles são os “primos pobres” dos movimentos reformistas, uma vez que não foram apadrinhados por poderes políticos ou econômicos, atraindo principalmente os desvalidos periféricos dos demais movimentos reformistas. Como os demais movimentos reformistas entre eles havia toda sorte de ideias e conceitos religiosos: alguns eram panteístas, alguns extremamente místicos, alguns antitrinitários, alguns ensinavam conceitos milenistas extremos, todavia, uma maioria manteve uma teologia bíblica coerente, e zelavam por uma vida cristã espiritual e dedicada a Cristo. Eles receberam a alcunha de “anabatistas” porque não reconheciam como valido o batismo infantil praticado pela Igreja Romana, bem como mantida pelos principais ramos protestantes (ex. luteranos, calvinistas) e exigiam de seus membros que se batizassem novamente. Segundo seus ensinos o verdadeiro batismo exigia uma confissão pública de pecado e fé, de maneira que só poderia ser possível com o exercício adulto do livre arbítrio. Eram radicais também na questão da separação total da Igreja e do Estado e também ensinavam que a igreja representa a comunidade dos salvos. Surgiram na gênese dos movimentos reformistas em Zurique, Suíça (1522), mas rapidamente se espalhou para a região a Moravia e por toda a Alemanha. Por seus aspectos radicais os anabatistas foram perseguidos na Europa, tanto por católicos romanos e por outros grupos protestantes, de maneira que a maioria dos líderes anabatistas foram executados até o final do 16 º século d.C. Mas no norte da Alemanha e dos Países Baixos, um número significativo de anabatistas se reuniram sob a liderança de Menno Simons e sobreviveram à perseguição. Os seguidores de Menno acabaria por formar a tradição Menonita e tornou-se uma tradição anabatista duradoura (outras são: Huteritas, Os Irmãos e os Amish). Os menonitas continuaram a valorizar os ensinamentos de Menno, que incluem pensamentos sobre o pacifismo, espiritualidade e ideias sociais. Anabatistas, através da tradição Menonita, são conhecidos por sua separação do mundo (incluindo a recusa do serviço militar), o pacifismo, o discipulado radical, e simplicidade de vida.
Anglicana, Igreja. É a Igreja oficial da Inglaterra (anglo = inglês) que foi estabelecida pelo rei Henrique VIII em (1534) através do “Ato de Supremacia” e diferentemente de outros lugares onde a ruptura com a Igreja Católica Romana ocorreu primariamente por questões teológicas, na Inglaterra as razões serão eminentemente politicas. Henrique VIII nunca se distanciou das doutrinas católicas romanas, pelo qual ele havia recebido do próprio Papa Leão X o título de “Defensor da Fé” por seu escrito “Os Sete Sacramentos da Doutrina Ortodoxa” em resposta ao escrito de Lutero “O Cativeiro da Babilônia”. Mas as razões nacionalistas e politicas acabaram por colocar o rei e a igreja romana em oposição. Henrique VIII tinha uma verdadeira obsessão em ter um herdeiro masculino para o trono mantendo a dinástica Tudors, o que sua primeira esposa Catarina de Aragão não conseguiu lhe proporcionar. Assim, o rei resolve solicitar o divórcio junto à Igreja o que lhe é negado pelo Papa Clemente VII; depois de reiterada solicitação Henrique VIII resolve romper com a Igreja Romana e estabelecer uma Igreja da Inglaterra, subordinada ao trono inglês. O simples desejo do rei em se casar novamente não seria suficiente para uma decisão tão traumática como esta, aliados do desejo dinástico de Henrique VIII foi o crescente espírito nacionalista dos ingleses e o caudaloso rio humanista que a mais de um século fluía suas águas na Inglaterra representada na figura de John Wiclef e seus discípulos que receberam a alcunha por parte dos católicos romanos de lolardos (lollards) significando “semeadores de joio” conforme o termo latim “lolium”. A Igreja Anglicana optou com Elisabeth I, resgatando ideal de seu pai Henrique VIII, por uma terceira via reformista: adotou alguns princípios teológicos reformados (luteranismo e calvinismo), mas manteve quase que intocada a liturgia romana, suas vestimentas e estrutura episcopal de governo eclesiástico. Este meio termo desgostou tanto os radicais católicos quanto os reformistas. Em decorrência disso diversos grupos religiosos separatistas surgiram na Inglaterra entre eles os presbiterianos, congregacionais, metodistas e batistas que tem suas denominações estabelecidas no Brasil, via trabalho missionário americano realizado no final do século XIX. Além do fato que a Igreja Anglicana é a primeira a se estabelecer no Brasil e a primeira a construir um templo não católico no país.
Ato de Supremacia (1534). Este foi o ato legal que estabeleceu o rei da Inglaterra (Henrique VIII) como "o único chefe supremo da Igreja na Inglaterra (Anglicana)”. Em seu afã em se divorciar da primeira esposa e casar-se novamente Henrique VIII acaba rompendo com o Papa (Clemente VII) e a Igreja Romana que se constituía em empecilho aos seus propósitos e estabelece uma Igreja da Inglaterra que estaria debaixo da autoridade do rei inglês e não mais do Papa romano, de maneira que esta nova ruptura dentro do cristianismo europeu ocidental é chamada por historiadores como a “Segunda Reforma”. Após sua morte, durante o curto período da regência de sua filha Maria Tudor este Ato foi suspenso (1555) e o catolicismo papal foi restaurado, mas com sua morte precoce e a ascensão de Elizabeth I ao trono o Ato de Supremacia foi restaurado (1559) e ela politicamente amenizou o titulo de “Chefe Supremo” para “Governador Supremo” que vigora até hoje. Na Igreja da Inglaterra e/ou Anglicana o rei tem a autoridade temporal da igreja e nomeia seus dirigentes (bispos, padres) e eles são sustentados pelo Estado.

Ato de Uniformidade (1549, 1552, 1559, 1662) Em decorrência direta da ruptura com o catolicismo a Igreja da Inglaterra teve que definir seus princípios de fé e liturgia o que não era tão simples, pois muitos desejavam manter a doutrina e liturgia romana e outros desejavam uma ruptura total com o romanismo, como ocorria nos países predominantemente reformados (como a Suíça de Zwinglio e Calvino). Os reis através do Parlamento irão impor sucessivas normas litúrgicas à Igreja Anglicana, conforme suas concepções e/ou influências católicas ou reformadas: o primeiro Ato foi promulgado em 1549, no reinado de Eduardo VI, sucessor de Henrique VIII, com influência reformada; o segundo foi promulgado em 1552 , no reinado de Maria Tudor que retorna aos princípios católicos romanos; o terceiro em 1559 , após a ascensão de Elizabeth I que restaura a edição de 1552 e acrescenta algumas formas primitivas de culto e o diferencial é que sofre uma maior influência do calvinismo do que do luteranismo; o quarto Ato efetuado em 1662, após a restauração da monarquia inglesa com Charles II, resgata os princípios originais de 1549; em 1706 na união dos parlamentos da Inglaterra e Escócia (calvinista) o Ato de Uniformidade é bastante modificado e atualmente pouco resta dos Atos originários mediante o processo contínuo de remoção de discriminações religiosas e sociais.





Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião
ivanpgds@gmail.com
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