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sexta-feira, 25 de março de 2016

MARCIÃO: Uma Voz Discordante*


Marcião (85-160 d.C.)
Introdução
         Desde seu gênesis o Cristianismo trouxe em seu bojo paradoxos dos mais variados tipos. Nunca faltaram as grandes polêmicas que se estendiam por anos até que a minoria acabava sendo calada ou extirpada da vida da Igreja.
         Ainda nos primeiros anos vemos as dificuldades cada vez mais crescentes de se manter uma coesão no que concerne a mensagem única do cristianismo. Já nas correspondências paulinas podem se perceber a facilidade com que os princípios e ensinos do evangelho tomavam inúmeras direções, em sua grande maioria contrastante.
         Mas toda esta multiformidade do Cristianismo não é uma característica negativa, ao contrário, é o que tornou o Cristianismo uma religião transcendental em seu alcance multicultural, possibilitando atravessar não apenas as fronteiras geográficas, mas, principalmente, as barreiras temporais. Deste modo, em todos os tempos o Cristianismo teve que enfrentar não apenas seus adversários externos, mas invariavelmente seus embates internos, que o obrigava a periodicamente revisar seus preceitos e dogmas.
         Tudo isto torna a História do Cristianismo algo fascinante e enriquecedor para qualquer um que se disponha a debruçar-se sobre ela. A História do Cristianismo é tudo, menos, sonolenta ou enfadonha. Caminhar na estrada da História do Cristianismo é se surpreender a cada curva, pois sempre acabamos por descobrir novas peculiaridades e nuanças.
         Neste pequeno opúsculo traremos à tona um personagem do segundo século que ousadamente defendeu ideias contraditórias ao consenso da maioria e que por esta razão acabou atiçando a ira dos detentores da verdade cristã. Marcião, ainda que classificado por muitos como herege, fez pelo Cristianismo muito mais do que centenas de outros que apenas repetiram como papagaios os conceitos que lhes foram passados. O posicionamento e questionamento de Marcião possibilitaram ao Cristianismo uma profunda e ampla autoanálise da qual emergiu-se um Cristianismo mais maduro e consistente. 

Origem
         Marcião (81-160) nasceu em Sinope, no Ponto, às margens do Mar Negro, filho do bispo cristão do lugar, o qual o expulsou, ainda que não saibamos o real motivo. Rico dono de muitos navios. Transferiu-se para Roma por volta de 139, filiou-se à congregação romana, destinando uma quantia volumosa em dinheiro às suas obras de benemerência. [1]
         Entretanto, seu esforço no sentido de fazer com que a Igreja romana voltasse ao que ele considerava o Evangelho de Cristo e de Paulo resultaram na sua própria excomunhão, por volta de 144. Tendo a esta altura atraído muitos seguidores, fundou uma igreja separada. [2]
         Relativamente pequeno é nosso conhecimento sobre Marcião visto que seus trabalhos foram destruídos, ou perdidos, ou ambos. O que é conhecido da sua vida, obra e teologia são encontradas nas obras de seus opositores Justino Mártir (110-165), Ireneu (120-202), Epifanio (ca. 315-403) principalmente Tertuliano, [3] que escreveu uma grande obra refutando as teses marcionitas, por volta de 207 d.C., e que se por um lado se reconhece sua grande habilidade e valor retórico, também se percebe um grau acentuado de arcaísmo intransigente. A obra a qual se refere Tertuliano denomina-se “Antíteses” e que possivelmente devia se constituir em duas partes: uma histórica e dogmática, destinada a demonstrar como o autêntico Evangelho havia sido alterado, e outra exegética, para explicar o texto do Novo Testamento.

Epítome de Seus Conceitos
         Marcião foi o mais sério e prático dentre os primeiros críticos do Cristianismo. Cheio de energia e zelo, ainda que inquieto, rude e muitas vezes excêntrico. “Marcião não era o tipo que devia ser considerado respeitador de tradições. Antes valia o contrário a seu respeito”.[4] Ele antecipou em muitos séculos as grandes perguntas relacionadas à moderna crítica bíblica e ao cânon. Ele antecipou a oposição do racionalismo ao Antigo Testamento e às chamadas Epístolas Pastorais e o debate concernente ao Jesus Histórico.
A base das ideias de Marcião é muito semelhante a dos chamados gnósticos, sintetizadas no livro “Antíteses”, onde quis mostrar os contrastes entre o Velho e o Novo Testamento. A sua grande questão foi a de relacionar um com o outro, pois sendo um anti-legalista entendia que o Evangelho tinha sido distorcido, tornando-se necessário recolocá-lo na simplicidade e verdade que Jesus havia anunciado. Marcião insistia que a Igreja havia obscurecido o Evangelho por procurar harmonizá-lo com as idéias do Velho Testamento.
Ele e seus posteriores seguidores afirmavam que Jesus Cristo trouxera uma concepção de um Deus de amor, enquanto que o Deus do Velho Testamento era vingativo, criador de um mundo mal e da lei judaica, portanto devia ser rejeitado pelos cristãos; o Deus de amor nada tinha a ver com a lei, existindo uma diferença absoluta entre justiça e misericórdia, entre ira e graça.
Para ele não era pela fé na morte de Jesus que o homem é salvo, mas pela fé num Deus revelado por Jesus e isso era a negação de um dos aspectos básicos da linha tradicional da Igreja e com certo cunho modalista, afirmava que Jesus Cristo é outro nome do Deus bom. O “deus do Velho Testamento” conseguiu a sua crucificação, só que ele não morreu, tendo havido apenas uma ilusão. Para aqueles que insistem na separação entre alma e corpo, colocando o aspecto físico como mal e o espiritual como bom, é quase inevitável cair numa ideia docetista a respeito da natureza humana de Cristo.
         O que mais encantava Marcião era o espírito de liberdade que ele encontrou nos escritos e ensinos do apóstolo Paulo, sendo que considerava maravilhosa a carta aos Gálatas. A sua concepção do cânon bíblico ficou muito simples: só o Evangelho de Lucas, eliminando dele o relato do nascimento e infância de Jesus, as dez cartas de Paulo sem as pastorais, rejeitando o resto do Novo Testamento e todo o Velho Testamento. [5]
         Ainda que muitos confundem as ideias de Marcião com o movimento Gnóstico, ambos permaneceram como linhas paralelas. [6] A evolução destas suas ideias deu origem ao movimento marcionista que cresceu e perdurou por muitos séculos. Vestígios desse movimento foram encontrados em vários lugares no século sexto, abrangendo uma área geográfica da Mesopotâmia até a França, e o número de livros polêmico mostra quão difundido estavam suas idéias. [7]
Reações e Consequências
          O posicionamento e questionamento de Marcião provocaram por parte da Igreja uma resposta imediata. Esta resposta pode ser vista através de algumas ações alavancadas pelos líderes cristãos e que ainda hoje permanecem inalteradas. [8]
O próprio estabelecimento de um Cânon do Novo Testamento tornou-se indispensável, visto que Marcião havia estabelecido o seu próprio Cânon. Os Evangelhos foram os primeiros a atingir reconhecimento geral. É importante notar que cedo os Cristãos decidiram incluir mais do que um Evangelho em seu Cânon, como uma resposta direta ao desafio de Marcião que incluía apenas Lucas. Pelo fim do segundo século, o núcleo do Cânon estava estabelecido: os quatro Evangelhos, Atos, e as epístolas de Paulo, incluindo as chamadas pastorais, rejeitadas por Marcião. Os livros mais curtos do Cânon, não alcançaram consenso até uma data bem mais tarde. Isto ocorre apenas na segunda metade do quarto século onde um consenso completo foi alcançado sobre quais os livros que deveriam ser incluídos no Novo Testamento. [9] “Historicamente, a decisão da Igreja, de formar o cânone, estabelecendo uma norma para seu ensino e doutrina, determinou o fim da história da Igreja Antiga e o início da história da Igreja Católica Primitiva”. [10]
         Um outro desdobramento direto dos posicionamentos de Marcião é a elaboração do Credo Apostólico. Seu texto básico foi estabelecido, provavelmente em Roma, cerca do ano 150. E foi então chamado de "símbolo de fé."[11]
O símbolo de fé era um meio de reconhecimento, tal como um símbolo que um general dava para um mensageiro de modo que o recipiente podia reconhecer um mensageiro verdadeiro. Igualmente, o "símbolo" estabelecido pelos líderes cristãos deveria distinguir os crentes verdadeiros dos que seguiam outras diretrizes, particularmente o Gnosticismo e Marcionismo.
Um dos principais usos deste símbolo estava no batismo, onde era apresentado ao candidato uma série de três perguntas:
 Você crê que Deus é o onipotente Pai?
 Você crê em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncío Pilatos, e morreu, e ascendeu outra vez no terceiro dia, vivendo de dentre os mortos, e ascendido aos céus, está assentado à direita do Pai, e virá outra vez para  julgar os vivos e os mortos?
Você crê no Espírito Santo, na igreja sagrada, e na ressurreição do corpo?
Uma análise mais de perto claramente mostra que este Credo é direcionado contra os Marcionitas. Primeiro, o pantokrator  é uma palavra Grega, usualmente traduzida como "onipotente", e literalmente como aquele que "tudo controla". A idéia aqui é que Deus controla tanto o mundo espiritual, quanto o mundo material sem qualquer distinção entre eles, que era uma tese de Marcião.
         O parágrafo mais extenso do credo é o procedimento (origem) do Filho. Isto porque era precisamente em sua Cristologia que Marcião se diferenciava mais amplamente da igreja. Primeiro nos é dito que Cristo Jesus é o "Filho de Deus”. Outras versões antigas dizem "Filho do mesmo" ou "Seu Filho." Jesus é o Filho do Deus que controla acima deste mundo e acima de toda realidade. O nascimento "de Maria a virgem" não é primeiramente para acentuar o nascimento virginal, completamente claro, mas para melhor assegurar o fato de que Jesus nasceu e não apenas se fez simplesmente aparecer na terra, como Marcião afirmava. A referência a Poncio Pilatos não é simplesmente para colocar a culpa no governador Romano, mas para melhor datar o evento como que insistindo no fato de que isto foi um fato histórico, um evento datável. E, além disso, era negado que Jesus "foi crucificado… morto, e ascendeu outra vez”. Finalmente, é asseverado que este mesmo Jesus voltará "para julgar", uma noção que Marcião jamais poderia aceitar.
          A "santa igreja" é assegurada porque Cristãos estavam começando a subestimar a autoridade da igreja. E a "ressurreição do corpo" é uma rejeição final a qualquer noção de que a carne é má ou de que não haverá nenhuma conseqüência.
Conclusão
         Dos primeiros movimentos internos do Cristianismo com certeza este protagonizado por Marcião foi um dos maiores em sua repercussão. Separou o Cristianismo de suas raízes históricas de modo radical. Ousou tocar numa doutrina fundamental do Cristianismo, a encarnação real de Jesus; não apenas desautorizou o Antigo Testamento, como teve a ousadia de colocar Deus no banco dos réus.
         Tudo isto pode parecer inverossímil nestes nossos dias, mas em seu contexto histórico próprio havia muitas justificativas para protesto de tal sorte. A voz destoante de Marcião atendia na verdade a um anseio crescente contra toda espécie de legalismo, que estava agonizantemente tentando sobreviver incubado dentro do Cristianismo.
         É muito cômodo “crucificarmos” Marcião, o difícil mesmo é termos a mesma ousadia que ele teve de ir contra a maioria e defender suas idéias. O Cristianismo com certeza não seria o que é e bem provavelmente não chegaria tão longe quanto chegou sem os “Marciãos” que exigem uma auto-depuração continua.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Reflexão Bíblica

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Referências Bibliográficas
Dreher, Martin N. Coleção História da Igreja, v.1, A Igreja no Império Romano, ed. Sinodal, São Leopoldo, 2002.
Boutruche, Robert e Lamerle, Paul. Judaísmo e Cristianismo Antigo de Antíoco Epifânio a Constantino, ed. Pioneira, São Paulo, 1987.
Almeida, Joãozinho Thomaz de, As Marcas de Cristo na História dos Homens, edição do autor, Rio de Janeiro, 1989, pp.79-80.
Walker, Williston. História da Igreja Cristã, v.1, ed. ASTE, São Paulo, 1967.
Harnack, Adolf Von. History of Dogma, v. I, Published by Boston, Little, 1901, pp. 266-281.
Carrigan, Cky J. Marcion and Marcionite Gnosticism, 1996, mídia eletrônica:http://ontruth.com/marcion.html
Bradshaw, Robert I. Marcion: Portrait of a Heretic, 1998, mídia eletrônica:http://www.robibrad.demon.co.uk/Marcion.htm
The Catholic Encyclopedia, Volume IX, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
*Pesquisa apresentada em cumprimento às exigências da disciplina do Prof. Eduardo Hoornaert - de Pós-Graduação Latu Sensu - Formação de Docentes em História do Cristianismo
[1] Segundo Tertuliano ele fez à comunidade Romana uma oferta de duzentos mil sesterces logo depois sua chegada. Esta oferta extraordinária de 1400 libras (7000 dólares), uma soma enorme para aqueles dias, podem ser atribuídos aos primórdios de uma fé entusiástica, entretanto segundo informações o dinheiro foi voltado para ele depois sua ruptura com a Igreja.
[2] “Justino (Apol. 1. 26) em 150 relata que a pregação de Marcião tinha se espalhado em "kata frita genos anthropon" e pelo ano 155, os Marcionitas já eram numerosos em Roma (Iren. III. 34)”. Harnack, Adolf Von. History of Dogma, v. I, Published by Boston, Little, 1901, [nota nº 1], mídia eletrônica: http://www.gnosis.org/library/marcion/hnts.html#1
[3] Quintus Septímius Forens Tertulianus nasceu em Cartago, filho de um centurião, educado na lei romana e nas artes liberais, já importante advogado quando aceitou o cristianismo, não constando que tenha sido ordenado para a vida religiosa mas, mesmo assim, recebeu o encargo de instruir os catecúmenos. Ao utilizar o latim, língua do povo, tornou-se fundamental para a preservação de um cristianismo mais puro. Exerceu grande influência sobre Cipriano e mais tarde suas obras marcariam profundamente Agostinho. Era freqüentemente injusto para com seus oponentes e incoerente consigo mesmo. Apesar disto, o intenso fervor espiritual que demonstrava tornava sempre admirável o que escrevia.
[4] Dreher, Martin N. Coleção História da Igreja, v.1, A Igreja no Império Romano, ed. Sinodal, São Leopoldo, 2002, p.35.
[5] “A criação de um Novo Testamento constitui um fato importante, não apenas porque Marcião conferiu à sua teologia um fundamento enraizado nas Escrituras, mas ainda porque parece ter sido o primeiro a reunir em uma coleção normativa os escritos de origem apostólica”. Boutruche, Robert e Lamerle, Paul.Judaísmo e Cristianismo Antigo de Antíoco Epifânio a Constantino, ed. Pioneira, São Paulo, 1987, p.157.
[6] Harmack afirma: “MARCIÃO não pode ser classificado dentre os Gnósticos no sentido estrito da palavra”. Depois enumera uma série de argumentos que demonstram esta sua afirmativa. Harnack, Adolf Von, Op. cit. “E. Furguson identificado três diferenças significativas entre a teologia de Marcião e do Gnosticismo: Marcião fez da revelação escrita seu padrão para verdade; Ele encorajou a organização da igreja, e ele rejeitou a especulação e alegoria. Furguson, E. "Marcion" in Evangelical Dictionary of Theology, edited by Walter Elwell (Grand Rapids: Baker, 1984), 686.
[7] Os mais evidentes Marcionitas foram: Prepo, Lucanus (Assírio), e Apelles. Eles fundamentaram o sistema do mestre de modo a atenuar a antipatia ao Judaísmo. Ambrosius, um amigo de Origenes também foi um Marcionita, ainda que  posteriormente o renunciou.
Na Itália, Egito, Palestina, Arábia, Síria, Ásia Menor e Pérsia, igrejas Marcionitas se estabeleceram, esplendidamente organizada, com seus próprios bispos e o manual da disciplina eclesiástica, com um culto e serviço da mesma natureza daquelas que subseqüentemente se estabeleceu a Igreja Católica.
[8] Constantino proibiu a liberdade dos cultos público ou particulares dos Marcionitas, por contrariarem os dogmas do Cristianismo, que iniciava sua escalada rumo à religião oficial do Estado. O código de Teodosiano os menciona unicamente uma vez. Mas eles existiram no quinto século quando Theodoret contado vantagem “converter” mais de um mil deles, e o Conselho de Trullan de 692 pensado neles faz provisão à reconciliação dos Marcionitas.
[9] “Floyd Filson escreveu “De todos os eventos que apressaram a formação do cânon do Novo Testamento, nada teve mais influencia do que a ação de Marcião. Não podemos dizer que Marcião criou a idéia de um cânon do Novo Testamento, mas ele teve uma  influência certamente grande." Filson, Floyd V. Which Books Belong in the Bible? (Philadelphia: Westminster, 1956), 113.
[10] Dreher, Martin N. Op. cit., p. 36.
[11] Isto é mantido por estudiosos de que o Credo Apostólico foi elaborado pela Igreja Romana em oposição ao Marcionismo (cf. F. Kattenbusch, "Das Apost. Símbolo.", Leipzig, 1900; A.C. McGiffert, " Credo Do Apóstolo", Nova Iorque, 1902).

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

GLOSSÁRIO DE HERESIAS

            Desde os primórdios do cristianismo sempre surgiu ideias e conceitos divergentes que no todo ou em parte deturpavam os princípios bíblicos que ortodoxamente estavam sendo estabelecidos. O processo histórico dos dogmas do cristianismo ou a História dos dogmas é um tema fascinante para percebermos que o cristianismo é algo vivo, dinâmico e que foi sendo forjadas na bigorna dos séculos sob o fogo incandescente das batalhas teológicas.
            As heresias e seus hereges (aqueles que as ensinaram ou defenderam) nem sempre eram pessoas que desejavam destruir o cristianismo ou até mesmo negavam as verdades emanadas da Bíblia, em um número expressivo de casos é justamente o contrário, essas pessoas imbuídas de fortes convicções defendiam suas opiniões, contrastantes, entendendo que contribuíam para uma melhor interpretação das verdades bíblicas e, portanto, contribuíam para uma Igreja Cristã melhor. Todavia, historicamente podemos observar que apesar de toda boa vontade, ou não, essas opiniões divergentes se provaram incoerentes e inconsistentes com o estudo mais amplo e fecundo das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Essas heresias não são privilégio do cristianismo primitivo ou mesmo do cristianismo católico, pois mesmo após a Reforma Protestante e do cristianismo dela emanado, continuam a proliferar aqueles que se posicionam à margem da ortodoxia clássica cristã. 
As heresias, ou seja, as opiniões divergentes em relação ao conjunto de verdades estabelecidas pela Igreja Cristã, podem ser divididas por temas ou áreas:  as relacionadas à Natureza de Deus; as relacionadas à natureza de Jesus; as relacionadas à natureza da Salvação; as relacionadas à natureza humana e as relacionadas à natureza da Igreja.
Esse pequeno glossário, que será paulatinamente ampliado, não tem pretensões maiores do que apenas indicar temáticas que já tem sido exaustivamente abordado em minúcias por uma infinidade de estudiosos ao longo desses XXI séculos de existência do Cristianismo.

ADOCIANISMO [Adopcianismo]: seus propositores declaravam que Jesus não foi realmente Deus, mas apenas um homem que revestido de graças especiais alcançou uma espécie de condição divina quando de seu batismo, no rio Jordão, efetuado por João Batista. Assim, se explica os poderes sobrenaturais e miraculosos de Jesus, bem como sua ressurreição. Essa ideia de que Cristo tinha sido apenas um ser humano que foi "adotado" como filho por Deus provou ser uma heresia persistente. Esse conceito, defendido ardorosamente por Teodoro da Bizantina, foi reiteradamente condenada pelo Papa São Victor I, que excomungou Teodoro. Em duas outras ocasiões 785 e 794 d.C. foi rejeitada pelo então Papa Adriano I. Por fim, quando trazida novamente à tona por Pedro Abelardo, no século XII, o Adocionismo foi novamente condenado pelo Papa Alexandre III em 1177.

ANOMEANISMO: vem da palavra grega anomoios – “dessemelhante” e se constitui em uma variante radical do arianismo. Os seus defensores consideravam que havia uma diferença de essência entre Deus e Cristo, uma vez que segundo eles Deus sempre existiu enquanto Cristo foi criado por Deus, de maneira que negavam a divindade de Jesus e refutavam a consubstancialidade e semelhança com o Pai. Também eram chamados de “aecianos” e “eunomianos” em referência aos nomes de seus dois maiores expoentes: Aécio, era sírio, diácono de Antioquia e estabelece suas teses a partir da dialética da Lógica clássica de Aristóteles, hábil polemista ; e Eunômio, da Capadócia, que se torna seu discípulo, todavia, com pouco tempo eclipsou o mestre por sua personalidade carismática e pela capacidade dialética. O Concílio de Constantinopla (381 d.C.) depôs Aécio do diaconato e pouco tempo depois Eunômio foi exilado. Foi Basílio de Cesaréia um dos que refutaram suas teses em seu tratado “Sobre o Espírito Santo”, de maneira que é possível resgatar a argumentação deles com base nas partículas ou preposições: de quem, por quem e em quem – pelas quais eles concluíram a diversidade de natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo. São denominados também de semi-arianismo e “radicais da segunda geração ariana”.   Apesar de ter constituído uma organização eclesiástica, centrada em Constantinopla, e investido vários bispos, após a morte de Eunômio (394 d.C.) essa comunidade e sua doutrina desapareceram. A maioria dos escritos de Eunômio foram queimados por ordem do imperados Arcádio, mas uma parte deles foram preservados pelos seus discípulos e podem revelar a sutiliza e sagacidade de sua mente lógica.


APOLINARIANISMO: vem do nome de seu mentor, Apolinário (310-390 d.C.), bispo de Laodicéia, na Síria (não confundir com Laodicéia na Ásia Menor), amigo de Atanásio e mestre de Jerônimo. Em seu labor para combater o Arianismo e estabelecer uma clara definição sobre a encarnação de Jesus, ele acaba por extrapolar os arraiais da teologia ortodoxa cristã. Sua doutrina, à semelhança dos teólogos de Alexandria, tem sido chamada de logos-sarx (Verbo-carne) e partindo da interpretação antropológica tricotômica (corpo, alma e espírito) ele concluiu que Cristo tinha um corpo humano, uma alma vivente, mas nenhuma alma racional (o centro da consciência, de tomada de decisões) que fora substituído em Jesus Cristo pelo divino Logos, ou Palavra de Deus. Ainda que seja interessante sua preposição ela esbarra no cerne da questão – Jesus deixa de ser plenamente humano, de maneira que ele não poderia ser o “representante/substituto legal” diante do tribunal da justiça divina. Gregório Nazianzeno argumenta contra a preposição de Apolinário declarando de que se o pecado tivesse contaminado apenas o corpo, esse Jesus seria suficiente para salvar os seres humanos, entretanto, o pecado contamina o ser humano em sua totalidade (corpo e alma) de maneira que o Verbo (Jesus) tinha que assumir a plenitude de nossa humanidade para ser o nosso salvador.  Esta teoria foi condenada nos sínodos romanos em 377 e 381 e pelo Concílio ecuménico de Constantinopla no último ano.

ARIANISMO: um conceito teológico que surgiu no século IV e que negava a divindade de Jesus Cristo. Seu mentor foi Ário (256-336), de onde vem o termo, um padre de Alexandria, que negou haver três Pessoas divinas distintas na Pessoa de Deus. Para ele, havia apenas uma pessoa, o Pai. Segundo a tese de Ario, o Filho foi criado (“Houve um tempo em que ele não era"). Cristo era, portanto, um filho de Deus, não por natureza, mas somente pela graça e adoção. Esta teoria logicamente esvaziava a doutrina da Encarnação de Deus em Cristo: se Deus não se tornou homem, então o mundo não foi redimido e a própria fé, eventualmente se dissolve. Arianismo foi formalmente condenado em 325 d.C. pelo primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, que formulou e promulgou a versão original do Credo de Nicéia; mas o arianismo e semiarianismo, no entanto, continuou a prevalecer na sua forma original em muitas áreas por mais de um século. O Arianismo foi combatida por Atanásio de Alexandria (296-373), entre outros; mas a heresia, no entanto, persistiu, especialmente entre os bárbaros, por vários séculos.

DONATISMO: Surgiu no meio da Igreja Africana do século V e ensinava que a validade dos sacramentos depende do caráter moral do ministro dos sacramentos e que os pecadores não podem ser verdadeiros membros da Igreja ou mesmo tolerada pela Igreja se seus pecados são conhecidos publicamente. Essa interpretação doutrinária teve início quando do movimento cismático em que os rigoristas questionaram que um bispo de Cartago, Caecillian (311), não era um verdadeiro bispo, por ser considerado um traidor ao entregar as Escrituras paras serem queimadas durante a perseguição promovida pelo Imperador Romano Diocleciano e um dos bispos que o ordenou, Felix de Aptonga, também havia sido um traidor. Os donatistas passaram a ordenar os seus próprios bispos, um dos quais era Donatus, de onde emana o nome da doutrina. Para eles o Bispo tinha que ser tão santo quanto seus ofícios. O Donatismo foi condenado pelo Papa Melquíades (311-314) e pelo (local) Conselho de Arles, em 314, mas, no entanto, persistiu no norte da África até a conquista muçulmana no século VII. O Donatismo cresceu a partir dos ensinamentos de Tertuliano e Cipriano e teve em Agostinho (354-430) um opositor ferrenho.


EBIONISTAS: vem do hebraico e significa "pobre") eram judeu-cristãos, que floresceu na Palestina nos séculos II a IV d.C., que insistiam que além da fé em Jesus Cristo era necessário a observância da lei e dos costumes judaicos (circuncisão, observância do sábado), mas rejeitavam os sacrifícios. Rejeitaram as cartas do apóstolo Paulo, porque em suas epístolas ele defendia que os gentios convertidos estavam isentos das questões judaicas. Consideravam a pobreza um princípio básico do cristianismo e seus bens eram de propriedade comum. A maior parte deles viviam na Transjordânia e na Síria Oriental. Os ebionitas foram rejeitados tanto pelos judeus quanto gentios-cristãos. Mas foram diminuindo gradualmente seu numero e influência a partir do segundo século.

GNOSTICISMO: a proposta teológica deles é que a salvação vem através de algum tipo especial de conhecimento, geralmente alcançado por um grupo de elite especial. A ideias primárias de um embrionário gnosticismo já existia antes do cristianismo, e muitos advogam que posteriormente, na medida em que a mensagem cristã foi alcançando largas dimensões, os gnósticos começaram a se apropriar dos conceitos evangélicos e adaptá-los em seus próprios pontos de vista e para os seus próprios fins, inclusive produzindo pseudos-evangelhos, através dos quais divulgavam seus conceitos e penetravam nos círculos cristãos.  O gnosticismo nega pontos essenciais das doutrinas cristãs e são descritos "entusiastas especulativos" partindo de seus fundamentos platônicos e orientais. Os gnósticos como uma seita organizado ou corpo de crenças tem sido extintos, mas as ideias gnósticas persisti, permeando praticamente todas as formas de desvios da fé cristã, manifestada em todas as formas sincretistas de amalgamar o cristianismo bíblico com as demais expressões de religiosidade vigente nas sociedades.


MANIQUEUS: eram de origem persa e foram chamados por esse nome em razão de seu fundador ter o nome de Mani, o qual foi morto no ano 276, por ordem do governo persa. Os maniqueus davam ênfase e ensinavam uma vertente dualista: "O universo compõe-se do reino das trevas e do reino da luz e ambos lutam pelo domínio da natureza e do próprio homem." Recusavam o Jesus humano, porém criam em um "Cristo celestial". Eram severos quanto à obediência ao ascetismo, e renunciavam ao casamento. Os maniqueus foram perseguidos tanto por imperadores pagãos, como também pelos cristãos. Agostinho, um dos grandes teólogo da igreja, era maniqueu, antes de se converter. O espírito ascético e celibatário deles permeou por séculos muitos pensadores cristãos.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
BERNARD SESBOUE, SJ (Direção). O Deus da Salvação – séculos I a VIII. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 2ª ed. [História dos Dogmas, Tomo 1].
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006. [v. 1].
GONZÁLES, Justo (Ed.). Dicionário ilustrado dos interpretes da fé. Tradução Reginaldo Gomes de Araujo. Santo André (SP): Editora Academia Cristã Ltda., 2005.


SCHULER, Arnaldo. Dicionário enciclopédico de teologia. Canoas (RS): Ed. ULBRA, 2002. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

VERBETE – ANGLICANISMO



O termo "anglicano" se refere aos dogmas teológicos, estrutura eclesiástica e práticas da Igreja da Inglaterra. A Igreja Anglicana alega sucessão apostólica dos primeiros seguidores de Jesus para a ordenação do primeiro Arcebispo de Cantuária, St. Agostinho,[1] no século VI. Mas historicamente, a formação de uma igreja nacional inglesa distinta da Igreja Católica Romana ocorreu no século XVI, na década de 1530, entre as convulsões causadas pela Reforma Religiosa e/ou Reforma Protestante. Entre outras razões estava o fato de que o rei Henry VIII estava determinado a buscar a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, mas como a Igreja Católica Romana estava resistindo ele assina o chamado Ato de Supremacia, tornando-se o chefe da Igreja da Inglaterra.
O Henrique VIII nunca deixou de ser católico, apenas se utilizou do movimento Reformado para alcançar sua autonomia eclesiástica. No entanto, a sua teologia e prática começou a tomar um rumo mais protestante, sob a liderança de Thomas Cranmer, a quem Henrique havia nomeado arcebispo de Cantuária em 1533. Sob Cranmer, o celibato do sacerdócio foi abolido, bem como a doutrina da transubstanciação. Após a morte de Henrique VIII, seu filho Eduardo VI, que teve um breve reinado, orientado por Cranmer e outros continuou a direcionar a igreja em uma direção protestante calvinista e produziu o Livro de Oração Comum (1549,1552), que não só estabelecia a liturgia da igreja, mas servia como manual de fé e prática de vida cristã Anglicana. Com a precoce morte de Eduardo, o Anglicanismo foi abolido durante o reinado da rainha Maria I (1553-58), que retorna às origens católicas romanas, mas quando a rainha Elizabete I a sucede no trono inglês, ela não apenas restaura a Igreja da Inglaterra, como a estabelece definitivamente, nos moldes que permanecem até hoje.
Em seu longo e complexo reinado Elizabete enfrentou as reivindicações radicais dos dissidentes puritanos, que esperavam reformar a igreja no modelo Presbiteriano, e simultaneamente os clérigos católicos que buscavam uma restauração da Igreja Católica como a igreja nacional. Diante destes dois extremos irreconciliáveis ela propôs uma via média, conhecido como o Acordo Isabelino, oferecendo um caminho novo entre essas forças antagônicas.
Resumidamente ela propôs que a Igreja Anglicana continuaria a ser um episcopado; ou seja, ele continuaria a ser regida por arcebispos e bispos. Todos os cultos seguiriam uma forma litúrgica fixa estabelecida no Livro de Oração Comum, mantendo alguns dos elementos tradicionais da liturgia Católica, incluindo ajoelhar, genuflexão, e o uso de vestimentas e roupas clericais pelo padre. Por outro lado, a igreja não permitiria que os seus membros cressem em qualquer coisa contrária às Escrituras. Evidentemente que nenhum dos extremos ficaram satisfeitos, mas o povo aprovou estas reformas e a Igreja da Inglaterra permaneceu. Os princípios de fé e práticas religiosas básicas do Anglicanismo foram estabelecidos em três documentos fundamentais: os Trinta e Nove Artigos, O Ato de Supremacia, e o Ato de Uniformidade.
Sob Tiago I e Charles I, a Igreja Anglicana permaneceu a igreja nacional da Inglaterra e foi mantido de forma ténue seu caminho intermediário entre o catolicismo e puritanismo. Durante o reinado de Carlos I, as políticas restritivas do arcebispo de Cantuária William Laud[2] acabaram atiçando os puritanos, o que desembocou em uma guerra civil/religiosa inglesa. Durante o Interregnum, o Partido dos Puritanos assumiu o poder e efetivamente aboliu o anglicanismo como a igreja nacional. Mas a restauração da monarquia em 1660 também trouxe a restauração da Igreja Anglicana. O Ato da Uniformidade, em 1662, bem como outras ordenanças, produziu milhares de ministros dissidentes. Somente com a aprovação da Lei de Tolerância em 1690 a Igreja Anglicana começa a assumir sua forma atual, ainda a igreja nacional, mas não a única igreja exclusiva da Inglaterra.


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Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
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[1] Agostinho de Cantuária (Roma, primeiro terço do século VI – Cantuária, provavelmente em 26 de maio de 604) foi um monge beneditino que se tornou o primeiro arcebispo de Cantuária em 597. Ele é considerado o "Apóstolo dos ingleses" e o fundador da Igreja da Inglaterra.
[2] Em 1633, William Laud assumiu o cargo de arcebispo de Cantuária e foi executado em 1645 como traidor, após processo de impeachment em que foi acusado de tentar introduzir o papismo na Inglaterra.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

PRIMEIRO CURSO TEOLÓGICO PROTESTANTE NO BRASIL


[Artigo Revisado em 2505/2019]
Nestes dias em que presenciamos uma multiplicidade de cursos teológicos protestantes (evangélicos) proliferando por todo país, inclusive dentro das Universidades não confessionais, é difícil pensar que o Brasil, desde quando foi inserido no contexto mundial em 1500 pelos portugueses, demorou quase quatro séculos, exatamente 367 anos para que o primeiro curso teológico protestante fosse iniciado no país[1].
            Coube então ao jovem missionário estadunidense Rev. Ashbel G. Simonton (1833-1867), que aqui chegara em 1859 para implantar a denominação presbiteriana,[2] um dos ramos histórico do protestantismo, e que apesar da brevidade de suas atividades missionárias, “como que prevendo a brevidade de suas atividades missionárias que seria tolhida por sua morte precoce aos 34 anos” (GUEDES, 2013, p. 29), deixou uma herança de valor incalculável para o desenvolvimento do presbiterianismo no país, entre as quais a instalação do primeiro seminário protestante no país.
            A educação sempre foi uma das vertentes primordiais do protestantismo desde seu início. É com Martinho Lutero e Calvino, assim como os demais líderes reformistas que o ensino público obrigatório passou a ser inserido nas pautas governamentais.[3] Os centros acadêmicos protestantes tornaram-se fecundos e fecundantes dos ideais e propostas alavancadas pelo movimento reformador. A “Academia de Genebra” (Suíça) implantada por João Calvino tornou popular o sistema teológico por ele elaborado e esboçado em sua obra mor – As “Institutas da Religião Cristã”, assim como o sistema de governo eclesiástico representativo presbiteriano, onde as igrejas elegem seus pastores, presbíteros e diáconos, com tempo do exercício de suas funções preestabelecidos. Através da Academia Genebrina, esse conjunto teológico-eclesiástico se disseminou por toda a Europa[4] e posteriormente atravessou o Oceano Atlântico para ser implantado primeiramente na América do Norte, através dos imigrantes advindos da Grã-Bretanha, e no final dos oitocentos começou a ser transmigrado e/ou transplantado para a América do Sul através de missionários estadunidense chegando deste modo ao Brasil.
            Como acima referido o Rev. Simonton traz em seu bojo missionário o alto conceito protestante de uma educação eficiente. Naquele momento o Brasil é um país de analfabetos conforme pode ser visto no resultado do primeiro Censo brasileiro, em 1872, que atesta uma taxa de analfabetismo para o conjunto do País de 82,3% para as pessoas de 5 anos ou mais, situação que não se altera quando da realização do segundo Censo, realizado dezoito anos depois em 1890 (82,6%), no início da República.[5] Diante de um quadro tão tenebroso o jovem missionário coloca como prioritário em sua agenda – a escola. Em seu diário registra: “O plano de uma escola protestante aqui, de grau elevado, para ingleses e os brasileiros que quisessem frequentá-las, tem ocupado muito dos meus pensamentos ultimamente” (SIMONTON, 1982, p.158).[6] O mais rapidamente possível inicia uma pequena e singela escola primária para meninos no mesmo local onde funciona a iniciante Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, em um edifício alugado no antigo Campo de Santana, hoje a Praça da República, a partir de 1867 e posteriormente inicia também uma escola de alfabetização para adultos à noite.
O reverendo Simonton havia sido professor de meninos em sua terra natal e tinha claro que a conversão passava pela leitura da bíblia, o que era inviável para uma população com alto índice de analfabetismo. Para ele, criar escolas era condição mais do que necessária para levar a bom termo a propagação da fé religiosa e para a evangelização do país que lhe dera acolhida. A cada grupo convertido nas vilas do interior, solicitava à missão que enviasse um professor ou pagasse o salário de algum mestre ali radicado que pudesse formar uma classe de primeiras letras.
A abertura de escolas em lugares distantes da igreja, também foi uma maneira de atingir uma parcela da população que se espalhava em pequenas vilas interioranas de difícil acesso e onde os representantes do clero não costumavam chegar. Para essa população, colocada em orfandade católica, a religião era bem-vinda e possibilitava casamentos e batizados, além da devoção cotidiana. Ainda mais, o que dizer de uma escola que ensinasse as primeiras letras às crianças até então completamente afastadas da educação quer fosse pública ou religiosa? Desta forma os missionários dedicados à educação passaram a constitur uma missão à parte, conforme pensamento da Junta de New York, e em suas mãos repousava o primeiro caminho para levar a palavra do Senhor à população ignorante (ALMEIDA, 2000, s/p).
O Rev. Alexander L. Blackdord em sua carta-relatório reafirma esta opção pela implantação de escola como caminho eficiente para o desenvolvimento do projeto missionário:
Rio de Janeiro – Inauguramos uma escola diária para meninos e meninas ... a mesa administrativa em Nova York já nomeou uma mestra para a escola (Miss. Mary P. Dascomb) ... Miss Dascomb já havia morado no Rio, aonde viera em 1866, para ser preceptora dos filhos do Cônsul norte-americano. Nessa época, encontrou-se com Simonton e fez amizade com ele” (1968).  
Essas pequenas escolas umbilicadas com as igrejas foram estabelecidas em diversas locais, tendo no Rev. João Fernandes Dagama (1830-1906) um de seus mais entusiastas fomentadores, permitindo assim que crianças e adultos fossem alfabetizados e pudessem ler por si mesmos a Bíblia (RIBEIRO, 1981, p. 183-198). Apesar da precariedade dos locais e sem carteiras, lousas e material didático apropriado as escolas iniciadas por Dagama conseguia proporcionar um ensino de boa qualidade, pois suas professoras eram altamente qualificadas,[7] atendendo assim os filhos dos imigrantes e da população mais carente.
            Todo esforço de Simonton e seus companheiros missionários centra-se no binômio – educação e religião,[8] pois diante do quadro de analfabetismo da grande maioria da população e o fato de que a mensagem evangélica protestante que desejam comunicar está centrada no livro (Doutrina, Culto, Hinos), somente lhes restam uma alternativa – educar para salvar, de maneira que a educação (escolas) e a comunicação da mensagem (pregação) tornam-se as duas faces de uma mesma moeda.[9]
            Paralelamente à necessidade premente da educação básica, Simonton começa a sonhar com a preparação acadêmica teológica dos primeiros pastores presbiterianos brasileiro. Intuitivamente ele sabe que somente com a formação de um ministério bem preparado de pastores nacionais, para assumirem a liderança da igreja em formação, seria possível uma expansão permanente. Sabia por experiência própria que os missionários encontravam no aprendizado da língua e na adaptação cultural uma enorme limitação para uma comunicação eficaz da mensagem, tornando o desenvolvimento da missão moroso, de maneira que um crescente número de pastores nacionais bem capacitados asseguraria não apenas o dinamismo como também a consolidação de todo trabalho realizado (SHAULL, 1959, p.111). Sem tempo para maiores reflexões Simonton vai utilizar-se das estruturas protestantes importadas dos americanos, que inicialmente será positivo, mas que ao longo do tempo se constituirá em uma camisa de força, inibindo o surgimento de um protestantismo autóctone e mais identificado com a cultura nacional, criando um fosso cada vez maior entre a proposta evangélica protestante e a sociedade brasileira – que perdura ainda no século XXI[10]
Tal sonho parecia ser mais, um desvario de um jovem missionário empolgado, do que uma realidade, visto que o presbiterianismo é naquele momento totalmente incipiente no Brasil. Mas, de uma possibilidade futura remota começa-se a se esboçar uma necessidade premente, pois com a ordenação do ex-padre José Manoel da Conceição, a expansão presbiteriana toma forma desproporcional[11] e a necessidade de pastores torna-se a cada dia mais urgente. Nas correspondências de Simonton e seus companheiros missionários multiplicam-se os rogos por mais pastores, mas as respostas da junta missionária matriz são morosas e insuficientes. Só há uma forma de se resolver esta equação – iniciar um seminário no Brasil[12].
Seminário Primitivo[13]
            Como referido anteriormente Simonton autorizado pela Missão aluga um pequeno prédio no centro do Rio de Janeiro, localizado no número 39 da Praça da República, que tinha na época o nome de Campo Sant’ana, posteriormente Praça da Aclamação (FERREIRA, 1952, p. 59; LESSA, 1938, p. 111; RIBEIRO, 1981, p. 258).
            O pequeno edifício composto de três andares[14] haveria de abrigar diversas atividades da missão: o primeiro andar foi reservado para ser o espaço da igreja, utilizando o amplo salão da frente, que poderia receber até quatrocentas pessoas e onde se celebravam os cultos e estudos bíblicos; em um salão ao fundo funcionava a escola paroquial iniciada por Simonton, e um quarto ao centro foi reservado para depósito de bíblias, livros e tratados religiosos. No terceiro andar foi instalada a família do poeta Santos [Sanctos] Neves,[15] cuja esposa, D. Gervasia exercia as funções de organista da igreja e diretora da escola paroquial, que chegou a ter uma frequência de mais de 70 alunos, conforme registro do Rev. Antonio Trajano em seu artigo “Esboço Histórico da Egreja Evangelica Presbyteriana” (apud, REIS, p. 16). O segundo andar fora ocupado exclusivamente pelo seminário; os estudantes foram ali acomodados, bem como espaço para ministração das respectivas matérias letivas. Logo os membros da pequena comunidade presbiteriana se referiam ao segundo andar como o “seminário”. No dia 14 de maio de 1867, iniciam-se as aulas do primeiro seminário presbiteriano (protestante) no Brasil, tendo como professores e respectivas matérias: Rev. A.G. Simonton, que ensinava Teologia; Rev. Charles [Carlos] Wagner,[16] lecionava Grego e História Eclesiástica e o Rev. F.J.C. Schneider, Ciências e Matemática.
            O Rev. Antônio Trajano, relembrando aqueles primeiros dias de seminarista registra em um longo artigo, que será citado em pequenos extratos: “Foi aí, finalmente, que se organizou e se estabeleceu o primitivo seminário presbiteriano do Brasil, o qual deu as primícias do ministério que já saía da Igreja nascente”.
            Os quatro estudantes iniciantes foram: Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa, Antônio Bandeira Trajano, Antônio Pedro de Cerqueira Leite e Miguel Gonçalves Torres. Todos completaram seus estudos e oportunamente foram devidamente examinados pelo Presbitério e ordenados como pastores brasileiros pioneiros da Igreja Presbiteriana do Brasil.
            Eles não eram jovens desprovidos de preparo, pois eram estudantes que traziam em seus bojos algum conhecimento preliminar: Carvalhosa havia sido aluno em colégio interno; Trajano havia feito estudos preparatórios por quase dois anos em São Paulo; Antônio Pedro era versado em gramatica portuguesa e latim (que havia aperfeiçoado com o então Padre José Manoel da Conceição); e Miguel Torres dedicara suas preciosas horas em estudos autodidatas, que muito lhe valeram no transcorrer do curso superior.
            No período de férias acadêmicas participavam das atividades missionárias, de maneira que dois permaneciam no Rio de Janeiro, enquanto os outros dois eram enviados para os diversos campos que estavam sendo abertos e careciam de assistência.
            Ao retornarem para o segundo ano, a grade curricular fora acrescida de novas matérias: introdução ao grego, matemática avançada e exercício de declamação, para melhorar a oratória. Ficará ausente do currículo acadêmico deles a matéria da língua hebraica e dos quais foram dispensados quando de seus exames para ordenação. Também foram convidados para auxiliarem na Escola Paroquial que estava em pleno funcionamento, de maneira que cada seminarista assumiu respectivas matérias: Modesto lecionava inglês; Antônio Pedro, música; Trajano, geografia e aritmética e Miguel Torres, gramática. A Escola Paroquial toma um novo impulso e desenvolvimento.
            As correspondências do jovem estudante Antônio Pedro tornam-se janelas preciosas para expiarmos a dinâmica deste primeiro Seminário. Em uma de suas correspondências dirigidas à sua mãe, ele nos permite um destes olhar:
O sr. Schneider é nosso mestre. Ele já me passou para álgebra, onde me acho atolado desde os pés até a cabeça. A álgebra quase me deixa sem miolos. Daqui a quinze dias tem de haver uma discussão entre os senhores Modesto e Miguel acerca de um ponto da Escritura marcado pelo sr. Blackford. Participo-lhe que já houve a grande discussão sobre a tradição. Em primeiro lugar falei eu afirmando que ela fazia parte da nossa regra de fé. Negou depois de mim em um discurso o sr. Modesto. Falou em terceiro lugar o sr. Trajano, meu companheiro, reafirmando o que eu tinha sustentado, e em último lugar o sr. Miguel. Sou parte suspeita para dizer alguma qualquer coisa acerca desta discussão; mas apelo para o Sr. Chamberlain, que acabado tudo, disse ao Sr. Blackford que não achava termos a verdade do nosso lado (FERREIRA, 1950, p. 21).
            Em outra correspondência comenta sobre a saúde dos estudantes e professores:
Graças a Deus vou passando com saúde, e por ora contente, embora tenha sofrido e sofra muito com a separação. Os estudantes passam bem; o sr. Modesto e o sr. Trajano estão gordos, e o sr. Miguel, posto que ainda sofra da sua tosse, contudo vai indo também sofrivelmente.
E continua ele em outra correspondência: “Estamos debruçados sobre os livros. O senhor Trajano voltou de Lorena e chegou gordo e corado. O sr. Miguel tem tido uma tosse há muito tempo, da qual ainda não está bom, e acha-se um pouco pálido”. No caso deste último estava acometido da tuberculose e posteriormente foi transportado para a cidade de Caldas, com clima mais adequado ao seu tratamento.
Desses quatro seminaristas pioneiros, dois fizeram parte da formação da primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo: Miguel Torres e Antônio Trajano. Em cinco de março de 1865 o Rev. Blackford recebia por profissão de fé, em culto público, os primeiros seis membros da nascente igreja: Manoel Lopes Braga, Miguel Gonçalves TorresAntônio Trajano, José Maria Barbosa da Silva, Ana Barbosa da Silva e Olímpia Maria da Silva. Os outros dois seminaristas Modestos Perestrello (25 de março de 1866) e Antônio Pedro (30 de dezembro de 1866) ingressariam no ano seguinte.
            Trajano havia sido levado ao conhecimento do evangelho protestante através de José Maria Barbosa da Silva (Barbosinha) e por sua vez trouxe o jovem amigo Miguel Torres à conversão evangélica. Ambos trabalhavam em comércios colocados frente a frente, mas que pertencia ao mesmo proprietário, à Rua da Quitanda e compartilharam o mesmo dormitório nesta época.
            Essa primeira experiência acadêmica teológica foi abreviada ainda em sua primeira turma, pelo falecimento precoce de seu mentor Rev. Simonton. Apesar de ser substituído pelo Rev. Blackford na direção, outros fatores como a retirada do Rev. Carlos Wagner (luterano) para a Suíça, e a concomitante transferência do Rev. Schneider para a cidade da Bahia, e pela impossibilidade de se formar em curto prazo um novo corpo docente, o Seminário encerra suas aulas.
            Concluo esse sucinto relato com as informações oferecidas pelo Rev. Herculano de Gouvêa (1922, p. 486), quando faz uma pequena homenagem aos quatro primeiros formandos e ordenados pastores presbiterianos, onde destaca alguns detalhes de cada um deles.
            Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa: foi o primeiro dos seminaristas a ser ordenado em 20 de julho de 1871, assumindo o pastorado da IPB de Lorena. Desenvolveu atividades pastorais nas cidades de Campos (RJ), por dez anos e que fora organizada por ele e o Rev. Blackford, também no Rio de Janeiro, Curitiba por cinco anos, São Paulo (foi auxiliar do Rev. George Chamberlain) e posteriormente assumiu o pastorado da Segunda IPB de São Paulo, que após a junção com a pequena IPB Filadelfa tornou-se a Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo. Desenvolveu atividades literárias seja escrevendo ou traduzindo obras entre as quais: Compendio de Doutrina Cristã; Livro de Ordem; Compendio Elementar de Escrituração Mercantil (utilizada no currículo do Mackenzie College); na área litúrgica fez uma adaptação do Diretório do Culto Público de Westminster, que foi inserido na Constituição da IPB; preparou um Manual de Culto voltado para s lideranças leigas, bem como sermões e artigos religiosos.
            Rev. Antônio Bandeira Trajano: apesar de estar atuando como licenciado desde 1870, sua ordenação somente ocorre cinco anos mais tarde, no dia 10 de agosto de 1875, na cidade de Rio Claro. Assume o pastorado de Brotas (terceira IPB e a primeira iniciada por José Manoel da Conceição) e concomitantemente as igrejas de Rio Novo e dois Córregos. Também atuou no pastorado em São Paulo e durante 15 anos pastoreou a IPB do Rio de Janeiro, sendo o primeiro pastor nacional a assumir a primeira IPB do Brasil. Foi nomeado o primeiro historiador da IPB e em 1902 publica o “Esboço do presbiterianismo no Brasil”, e em 1902 outra obra “Esboço Histórico da Igreja Evangélica Presbiteriana” em comemoração aos 40 anos da IPB do Rio de Janeiro. Produziu obras na área pedagógica: Aritmética Primária, Aritmética Elementar Ilustrada,[17] Aritmética Progressiva; Álgebra Elementar, obras que foram utilizadas em muitas escolas por todo o Brasil, sempre recomendadas pelos melhores especialista da área. Ainda escreveu a obra Estudos da Língua Vernácula. Na área religiosa produziu: duas séries de sermões sob o tema a Luz Messiânica; diversos históricos do evangelismo nacional; sermões avulsos e artigos em jornais e revistas.
            Rev. Miguel Gonçalves Torres: foi ordenado juntamente com seu colega Trajano, em 10 de agosto de 1875, assumindo os pastorados da IPB de Caldas, Machado e Borda da Mata. Posteriormente organizou diversas igrejas na região sul de Minas Gerais. Excelente polemista suas obras reproduzem essa habilidade: A Igreja Romana à Barra do Evangelho e da História,[18] foi escrito no contexto da maior crise religiosa no Brasil Império conhecida como “Questão Religiosa” que culminou com a queda da Monarquia e início da República; Vida de Jesus, uma obra homônima do racionalista francês J. Ernest Renan (1823-1892); A Religião Evangélica Perante o Público, por uma solicitação do Presbitério do Rio de Janeiro, foi publicado pela Junta de Publicações da Igreja do Norte (PCUSA); bem como diversos sermões e artigos. Excelente professor, atuou sempre na área educacional, tendo entre seus alunos mais ilustres o então futuro cientista Vital Brasil.[19]
            Rev. Antônio Pedro de Cerqueira Leite:[20] sua ordenação foi no dia 08 de agosto de 1876 e assume o pastorado da IPB de Sorocaba e Faxina. Mas seu campo certamente foi um dos mais extensos, incluindo: Tietê, Tauí, Itapetininga, Guareí, Lençois, Paranapanema (divisa com Mato Grosso), Rio Novo, Capão Bonito e Apiaí. Além de sermões e artigos publicou o livro “As Bíblias Falsificadas, resposta a uma Velha Pastoral”, resultante de uma série de artigos para o jornal “Imprensa Evangélica” de grande interesse e valor. Morreu ainda jovem com apenas 38 anos e apenas 07 de ministério ordenado. Músico de primeira qualidade organizou na cidade de Sorocaba o primeiro coral presbiteriano do Brasil (1876), que veio a ser conhecido apreciado por todo o país.
            Desta forma, apesar da brevidade desse “Seminário Primitivo”, imitando seu mentor Rev. Simonton, esta pioneira iniciativa perpetuou o cuidado que a Igreja Presbiteriana manteve sempre com relação à preparação de seus ministros. Realçando uma vez mais a crítica já referida acima, de que o enclausuramento nas instituições teológicas contribuíram em muito para um crescente academicismo e a consequente alienação dos seminaristas em relação a sociedade com quem eles teriam que interagir.
Esta situação vai ser exposta de forma mais veemente na década de cinquenta e início de sessenta, quando instigados pela presença carismática do Rev. Richard Shaull, os estudantes de teologia protestantes descem as pontes levadiças de suas instituições teológicas e eclesiásticas, em um esforço de inteiração entre a teologia e a prática social, mas que foi totalmente amputada por suas lideranças eclesiásticas, de maneira que esta inteiração não apenas deixou de avançar, como retroagiu e enrijeceu ainda mais os limites teológicos acadêmicos.
A junção perfeita entre o ministério interativo do Rev. José Manoel da Conceição e o ensino teológico institucional é a grande utopia do protestantismo brasileiro. Se isto tivesse sido buscado com maior empenho e menos fobia, certamente o protestantismo haveria de ter produzido um impacto muito mais intenso e frutífero no desenvolvimento de uma sociedade mais equilibrada e sadia.
Com o alienamento teológico, a sociedade brasileira ficou à mercê de toda sorte de ideários e ilogismos, perpetuando toda sorte de sentimentos doentios inerentes às consequências do pecado humano, que hoje se veem escancaradamente em todas as instâncias sociais e estampadas em todos os meios de comunicação. Por esse prisma podemos concluir que o protestantismo brasileiro com pela postura equidistante fóbica torna-se parte responsável pelo caos social que vivemos hoje na sociedade brasileira.

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Resenha: Léonard, É.-G. O Protestantismo brasileiro
O Protestantismo na América Latina: Implantação
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OLIVEIRA, Marcus Aldenisson de. Antônio Bandeira Trajano e o método intuitivo para o ensino de Arithmetica (1879-1954). Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Tiradentes, Aracaju, 2013. [Orientadora: Ilka Miglio de Mesquita].
PILLETI, N. História da Educação no Brasil, 6ª ed. São Paulo: Ática, 1996.
PIERSON, Paul Everett. A Younger Church in search of maturiry - presbyterianism in Brazil from 1910 to 1959. San Antonio (Texas): Trinity University Press, 1974. 
POMBO, R. História do Brasil, v. 5. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores, 1959.
RAMALHO, J.P. Prática educativa e sociedade. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976.
REIS, Álvaro (ed.) Almanak Historico do O Puritano.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo e cultura brasileira - aspectos culturais da implantação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981.
SHAULL, Richard. Ashbel Green Simonton, a Calvinist in Brazil, in Sons of the prophets. Princeton: Theological Seminary, 1959.
SIMONTON, Ashbel Green. Diário, 1852-1867, trad. D. R. de Moraes Barros. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982.
SILVA, Geoval Jacinto da. Educação teológica e pietismo – a influência na formação pastoral no Brasil, 1930-1980. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, Editeo, 2010.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004.




[1] Os jesuítas, segundo Piletti, haviam construído uma ampla rede teológico-educacional no país, ainda nos quinhentos, conforme seu registro: 36 missões, escolas de ler e escrever em quase todas as povoações e aldeias ... além de dezoitos estabelecimentos de ensino secundário, entre colégios e seminários, localizados nos pontos mais importantes do Brasil: Bahia, São Vicente, Rio de Janeiro, Olinda, Espírito Santo, São Paulo, São Luiz, Ilhéus, Recife, Paraíba, Santos, Pará, Colônia do Sacramento, Florianópolis, Desterro, Paranaguá, Porto Seguro, Fortaleza, Alcântara e Vigia. Mas a reforma promovida pelo Marquês de Pombal (SILVA, 2010, p. 36).
[2] Ele foi enviado pelo Board of Foreign Missions (Junta de Missões Estrangeiras), de Nova Iorque, da Igreja Presbiteriana do Norte, passando a ser identificada simplesmente por Board.
[3] Podemos perceber esse ethos protestante permeando os processos reformados difundidos na Europa oitocentista em que a bandeira tremulante é a Educação para todos. Ainda no século XVII temos a figura de Comênio, que elabora sua normatização didático-pedagógica e participa efetivamente da organização de todo sistema escolar básico na Europa reformada. E Jacqueline Gautherin (2006, p. 91) em sua análise da influência protestante na educação francesa e europeia conclui: “... a pequena minoria protestante exerceu uma influência notável sobre a pedagogia universitária e sobre a Ciência da Educação”.
[4] Calvino em 1559 fundou a Academia Genebrina - Universidade de Genebra. Perseguidos em seus países um grande número de cristãos críticos da Igreja Romana encontrava refúgio em Genebra e ingressavam na Academia e posteriormente regressaram aos seus países de origem: França, Países Baixos, Inglaterra, Escócia, Alemanha e Itália.
[5] A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, se fez presente no Brasil desde 1549 com o padre Manoel da Nóbrega e José de Anchieta que estabelecem uma rede composta por igrejas, seminários e escolas, de maneira que passaram a exercer uma forte influência em todos os estratos da população, por um longo período de 210 anos (LIMA, 2001, p. 31-46; POMBO, 1959, v.1, p. 178-188; PILETTI, 1996, p. 38). Somente com a reforma promovida por Pombal esta rede jesuíta foi desmantelada, o que acabou deixando o país sem qualquer projeto educacional, que viria a se constituir em um amplo campo de atuação dos futuros ramos protestantes que aqui chegaram.
[6] Simonton convida um de seus irmãos, James, para que viesse abrir uma escola voltada para os filhos das elites. James aceitou a proposta chegando no Brasil em junho de 1861, mas a escola não saiu do projeto, mesmo assim ele permaneceu lecionando num colégio em Vassouras, por alguns anos (SIMONTON, 1982, p. 162, 172, 176 e 197).
[7] Jane Soares de Almeida (2000, s/p) destaca que as “mulheres eram as principais trabalhadoras nas escolas, de acordo com o ideal educativo norte-americano de alocar às professoras a responsabilidade de ensinar crianças, desde os anos iniciais dos oitocentos”. E complementa que apesar das preocupações com a segurança dessas professoras nos campos mais distantes no interior do país, elas tornavam-se indispensáveis no projeto missionário, e destaca que a força matriz que as impulsionavam a continuarem firmes era a “concepção de trabalho como vocação e de glorificação da palavra divina, de acordo com a ascese protestante”, tão bem exposta por Max Weber em seu trabalho de análise do protestantismo (2004), de maneira que qualquer impedimento para que elas realizassem sua vocação “ao contrário do espírito religioso católico, e ainda atrelado ao colonialismo lusitano que via o trabalho feminino como desairoso, seria, para os protestantes, impedir a exposição da vontade divina e as missionárias se constituíram nas principais educadoras das pequenas escolas paroquias erigidas nas vilas ao lado das igrejas e também nas escolas maiores fundadas pelos missionários com verba da Junta dos Estados Unidos”.
[8] O estudioso do protestantismo brasileiro, Paul Pierson, examinando as atas da Missão Sul, identifica ao menos cinco alvos explícitos das instituições educacionais missionárias: Auxiliar na propagação do evangelho, especialmente entre as classes superiores; preparar os crentes para viverem em um nível econômico mais elevado, o que lhes permitiria sustentar a igreja e exercer maior influência na sociedade; proporcionar um ambiente educacional de nível espiritual e moral mais elevado do que o encontrado nas escolas públicas e católicas; preparar líderes para a igreja; e contribuir de maneira geral para a cultura e o progresso da nação ensinando os alunos a usarem seus recursos de modo mais eficiente (1974, p. 108 e p. 31; apud, MATOS s/d, s/p).
[9] Ramalho (1976, p. 81) elenca algumas escolas de origem presbiteriana: Instituto Gammon (Lavras, 1869), Mackenzie College (São Paulo,1870), Ginásio Evangélico Agnes Erskine (Recife,1904), Instituto Ponte Nova (Wagner,1906), Colégio Quinze de Novembro (Garanhuns,1907), Instituto Cristão (Castro,1915), Colégio Evangélico do Alto Jequitibá (Presidente Soares,1923), Colégio Evangélico de Buriti (Buriti, 1924), Instituto José Manoel da Conceição (Jandira,1928) e Colégio Dois de Julho (Salvador,1928).
[10] Uma rara oportunidade de que algo novo pudesse vingar no protestantismo nacional foi quando os primeiros candidatos brasileiros ao ministério pastoral foram colocados para acompanhar o Rev. José Manoel da Conceição em seu ministério itinerante, que tendo vivido asfixiado pela rígida estrutura do catolicismo romano, almejava experimentar uma plena liberdade para interagir com o povo, comunicando a mensagem evangélica com mais profundidade e cujo resultado podia ser facilmente percebido na rápida expansão por todo o interior do país. Mas infelizmente os jovens candidatos foram abduzidos para dentro da instituição acadêmica do Seminário, perdendo paulatinamente contato com a dinâmica da sociedade, na qual deveriam estar interagindo permanentemente (FARIA, 2002, p. 168-169).
[11] “A mudança radical e que impulsionou de fato o presbiterianismo no solo brasileiro foi a inserção do ex-padre José Manoel da Conceição. Sua profissão de fé acontece no dia 23 de outubro de 1864 e sua ordenação como pastor presbiteriano ocorre em 17 de dezembro de 1865, pelo recém-formado Presbitério do Rio de Janeiro, que então era composto pelas igrejas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brotas, tendo a última resultada de seu trabalho evangelístico juntamente com Rev. Blackford. ... Ele por conta própria, sem se deixar amarrar por qualquer fobia eclesiástica ou teológica, empreende viagens intermitentes pelo interior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná estabelecendo núcleos presbiterianos, que posteriormente se transformariam em igrejas organizadas. Os resultados expressivos alcançados por Conceição acabaram animando e despertando outros missionários e pastores de que a melhor estratégia de evangelização era sair dos grandes centros urbanos e focar nas cidades menores onde as pessoas eram mais acessíveis e estavam marginalizadas em relação a assistência religiosa católica” (GUEDES, 2013, p. 33-34).
[12] Segundo Mendonça e Velasques Filho cada denominação evangélico-protestante que foi implantado no país logo cedo percebia a real necessidade de iniciar sua própria formação teológica para capacitar suas lideranças em decorrência à demanda crescente (1990, p. 31-59; ver também a excelente obra de SILVA, 2010, p. 53-62).
[13] A maior parte das informações aqui é extraída do livro biográfico sobre a vida do Rev. Miguel Gonçalves Torres, um dos primeiros seminaristas presbiterianos, escrito pelo Rev. Julio Andrade Ferreira, então historiador oficial da IPB, conforme indicação nas referências bibliográficas.
[14] No piso térreo funcionava uma fábrica de cerveja (cf. Álvaro Reis, ed. Almanak Historico do O Puritano, p. 87).
[15] Carinhosamente foi chamado por Themudo Lessa, de “o cisne presbiteriano” (1938, p. 118).
[16] Carlos Wagner foi enviado pela Missão de Basiléia, Suíça, para ser pastor em Santa Isabel (SC), a partir de 1861, e Rio de Janeiro (RJ), a partir de 1865. Colaborou no Seminário Presbiteriano de 1866 a 1871, quando retornou à Europa, sendo pastor em Lausanne (Suíça) e depois Glasgow (Escócia). Wagner lecionou História da Igreja e escreveu durante os anos de 1866 a 1871, a coluna sobre História do Cristianismo no jornal Imprensa Evangélica, mesmo que seu nome não tenha sido impresso. Ele o relata nas cartas enviadas ao inspetor Josenhans, da Missão de Basiléia. Falta escrever uma história da colaboração entre ambas as igrejas (bem como entre as demais igrejas evangélicas) no século XIX. O reino de Deus estava acima do divisionismo denominacional, típico da nossa época! (mrfluck9 de fevereiro de 2016). Nesse momento Wagner estava em tramites para transferir-se para a Igreja Presbiteriana tendo forte apoio do Rev. Blackford (cf. Relatório de Blackford apresentado ao Presbitério do Rio de Janeiro, Sessão de 18/08/1869, apud, Coleção Carvalhosa – Relatórios Pastorais, 1866-1875 (Fonte manuscrita) e Atas do Presbitério do Rio de Janeiro. (Original manuscrito).
[17] Esta obra visava o ensino de Aritmética nas escolas de primeiras letras, que passou a ser denominada de ensino elementar. Alcançou reconhecimento nacional e recebeu uma premiação em 1883, na Exposição Pedagógica ocorrida no Rio de Janeiro, e teve a sua aprovação e adoção pela Instrução Pública em vários estados do Brasil, a partir do ano de 1893. Conforme Oliveira esse livro “teve aproximadamente nove décadas de publicação, pois ficou sabido que sua primeira edição foi publicada na segunda metade do século XIX, precisamente no ano de 1879, chegando a 138ª edição disseminada no ano de 1960” (2013, p. 19).
[18] O nome completo da obra: “A Igreja Romana à Barra do Evangelho e a da história na pessoa de seu campeão o Bispo do Pará ou Analyse e refutação do Catechismo sobre a Igreja Cathólica de D. Antônio de Macedo Costa por M. G. Torres Ministro do Santo Evangelho” [grafia original]. O referido bispo católico elaborara um catecismo atacando os protestantes e suas doutrinas e o Rev. Miguel Torres sente-se na obrigação de responder enunciando uma a uma as inverdades teológicas e os equívocos históricos do material católico. A resposta do pastor presbiteriano foi editada em 1879, ainda nos primórdios do presbiterianismo; vinte anos após a chegada de Simonton; dez anos depois da Missão Sul estabelecer-se em Campinas, com Revs George Nash Norton e Edward Lane; seis anos desde que o Commitee de Nashville colocara em Recife o Dr. John Rockwell Smith, então pioneiro nordestino. As igrejas anglicanas e luteranas aqui estabelecidas voltavam-se exclusivamente para inglês e alemães no país; os metodistas depois de uma grande vacância ameaçava estabelecer-se novamente; ao Dr. Kalley e seus colportores (congregacionais) faltava-lhes embasamento teológico e acadêmico para tal empreendimento; os batistas e episcopais ainda não haviam se estabelecido no país e os missionários americanos esbarravam na questão linguística nacional. Coube esta árdua responsabilidade ao jovem e destemido pastor presbiteriano Miguel Gonçalves Torres.
[19] O educador, Miguel G. Torres e pastor protestante, mantinha uma escola, com método de ensino americano na Vila de Caldas, a qual o menino Vital Brasil frequentava. Foi seu instrutor, e através dele recebeu os toques, que vieram influenciar seu caráter e sua mentalidade. Vital Brazil (Vital Brasil), tem seu nome ligado ao surgimento do soro antiofídico.
[20] O único brasileiro nato, pois os seus colegas eram de origem portuguesa.