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segunda-feira, 16 de março de 2020

História da Igreja: Galeria Patrística



            Dois termos semelhantes, mas distintos: Patrologia: Estudo biográfico, crítico e exegético dos líderes da Igreja Cristã após o período apostólico (1º século); Patrística: Estudo do conjunto de escritos primitivos da era cristã, registrando suas experiências, seus ensinamentos, seus rituais e a vida eclesial. Portanto, a nossa Galeria será composta por aqueles líderes que sucederam os apóstolos a partir do final do primeiro século e mais especificamente a partir do segundo século da era cristã.

            O período apostólico encerra-se com a morte do apóstolo João no final dos anos oitenta e inicio dos anos noventa do primeiro século, provavelmente na cidade de Éfeso. Mas o Espírito Santo continuou capacitando novas lideranças para cuidar de sua Igreja. Alguns desses novos líderes começaram a ser denominados carinhosamente de “Pai” em deferência ao amor e zelo que tinham pela igreja e muitos deles vieram a ser martirizados por causa de sua fé cristã.
Não há nenhum problema em se referir a alguém como nosso “pai”, se isso for feito da maneira correta. Aliás, é exatamente isso que Paulo fez em 1Coríntios 4.15, quando disse: “Porque ainda que tenhais dez mil instrutores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais. Pois pelo evangelho eu mesmo vos gerei em Cristo Jesus”. Tanto Paulo quanto João se referiam com frequência a seus convertidos como seus filhos (LITFIN, 2015, p. 21).
            Foi colocada sobre os ombros dessa nova liderança a responsabilidade de preservar e dar continuidade ao ensino deixado pelos apóstolos (2Tm 2.2). Ainda nos dias de Paulo e seus companheiros houve diversas tentativas de se deturpar o ensino evangélico e descaracterizar a igreja cristã, o que podemos apreender da leitura e estudo das epístolas neotestamentárias.            Mas com a expansão do cristianismo por todo o Império Romano e a multiplicação de comunidades torna-se premente que se mantivesse a integridade do ensino evangélico e da própria igreja cristã. Aqui esta a relevância da vida e obra destes líderes que vivenciaram não apenas o desafio das perseguições externas, por parte das autoridades romanas, mas principalmente os embates internos provocados por toda sorte de pseudos ensinos que tentaram se estabelecer nas comunidades cristãs a partir do segundo século.
Os pais da igreja frequentemente são tratados como ancestrais amados no passado, mas esquecidos em nossos dias. Seu mundo é somente uma vaga lembrança; temos consciência da presença deles apenas de modo superficial. Sabemos que houve cristãos famosos que viveram “lá no passado”, mas não conseguimos identificar exatamente quem foram ou o que fizeram. Eles têm alguma relação com ser atirado aos leões, os romanos e todas essas coisas, certo? Mas apesar de nossa indiferença com o mundo deles, estamos inseparavelmente ligados aos pais da igreja. Mal ou bem, são nossos antepassados espirituais. Como ocorre com a árvore genealógica que herdamos, somos descendentes deles, quer gostemos, quer não (LITFIN, 2015, p. 17).
            Apenas como forma didática podemos nominar e classificar a Patrística em quatro grandes períodos: Apostólico (ou subapostólico); Apologistas, Polemistas e Pós-Nicenos. O professor Johannes Quasten, em sua exaustiva obra “Patrology” em quatro volumes estabelece uma cronologia geral “como os autores cristãos desde a época do NT até Isidoro de Sevilha (636 d.C.), no mundo latino, e João Damasceno (749 d.C.), no mundo grego” (1950, v.1, p. 1).
            O estudo e relevância da biblioteca produzida no período patrístico foi redescoberto pelos Reformadores no século XVI que buscaram neles a referência para corroboração de suas teses e exegeses bíblicas e eclesiológicas. Depois somente a partir da década de quarenta do século XX teremos novamente uma renovada busca pela vida e escritos do período patrístico. Mas precisamos evitar o equivoco de que o objetivo deles foi estabelecer uma espécie de teologia sistemática da fé cristã, longe disso, pois cada um deles tinha como propósito propagar a mensagem evangélica de Cristo e através dessa mensagem transformar a vida das pessoas, como tão bem coloca Robert Wilken: “O esforço intelectual da igreja primitiva estava a serviço de um objetivo muito mais nobre do que dar forma conceitual à fé cristã. Sua missão era conquistar o coração e a mente de homens e mulheres e transformar a vida deles” (2003, p. xiv).
            A nossa Galeria não tem nem a pretensão de ser exaustiva e nem abrangente no que tange à referência de todo material produzido por eles, mas creio que possibilitara uma visão consistente da significância destes homens e seus escritos, aos quais somos eternamente devedores.
 Período Pós Apostólico
Foram os mais antigos escritores cristãos. Eles tiveram relação mais ou menos direta com os apóstolos e o material por eles produzido é do final do primeiro e inicio do segundo século. 
Aqueles eram tempos de heroísmo, não de palavras; uma era, não de escritores, mas de soldados; não de quem fala, mas de quem sofre. 
 Clemente de Roma (30-100 D.C.). Um testemunho relevante sobre ele é dado por Irineu de Lyon (202), que declara que Clemente “havia visto os Apóstolos”, ‘”havia se relacionado com eles” e “tinha ouvidos suas pregações” (Adversus haereses, III, 3, 3). Eusébio de Cesaréia, o primeiro historiador da igreja cristã, seguindo o testemunho de Orígenes (cf. In Ioan. 6,36; De Principiis 2,3,3.) o identifica como sendo um cooperador de Paulo: “(...) Anacleto, tinha sido bispo da Igreja dos romanos durante doze anos, foi substituído por Clemente que o Apóstolo [Paulo], em sua carta aos Filipenses [4.3], declara ter sido seu colaborador (…)” (HE, III,15). E o próprio Eusébio de Cesárea, refere-se à carta escrita por Clemente e dirigida à igreja de Corinto, com estas palavras: "Recebemos uma carta de Clemente reconhecida como autêntica, grande e admirável. Foi escrito por ele, em nome da Igreja de Roma, para a Igreja de Corinto... Sabemos que ela é lida há muito tempo e ainda é lida publicamente durante a assembleia dos fiéis" (Hist. Eccl. 3.16). Alguns chegaram a propor a canonicidade desta epístola de Clemente, mas no final acabou ficando fora do Cânon bíblico.

Pelo inicio da correspondência (1.1) é possível data-la durante o período final das perseguições do imperador Domiciano ou imediato à morte deste imperador, em torno do ano 95-96 ou 97-98 D.C. O objetivo da correspondência era minimizar as divergências dentro da igreja de Corinto: “para reconciliá-los em paz, renovar sua fé e anunciar-lhes a tradição que ela recebeu recentemente de Apóstolos "(Adversus haereses, III, 3, 3). Para isso Clemente retoma grande parte do ensino e orientações ministradas pelo apostolo Paulo anteriormente. Uma vez mais temos que apelarmos para o testemunho de Eusébio: “Nesta carta, expõe muitas ideias (tiradas) da carta aos Hebreus e emprega com fórmulas próprias que dela toma” (HE, III, 37-38,1). Portanto, Clemente não tem nenhuma pretensão de originalidade, mas a dê pastoralmente trazer os cristãos de Corinto ao genuíno e único Evangelho, anteriormente anunciado por Paulo e demais apóstolos.
Por causa dessa relação e afinidade com a carta aos Hebreus, que revela um conhecimento amplo do Primeiro Testamento, conclui-se que Clemente seria de origem judaica e muitos estudiosos advogam que seja ele o autor da epístola aos Hebreus.
Estrutura da Carta: pode ser dividida em quatro partes: apresentação, os males da inveja e o bem da humildade, a necessidade de preservar a unidade, uma recapitulação.
Também é atribuído a Clemente um segundo documento conhecido como “Segundo Clemente”, mas que tudo indica não foi escrito por ele. Eusébio (Hist. Eccl., Iii. 38) faz referência a ela, porém sem muito entusiasmo: “Devemos saber que também existe uma segunda Epístola de Clemente. Mas não consideramos que seja igualmente notável como o primeiro, uma vez que não conhecemos nenhum dos antigos que o fizeram”.  Ela foi associada com Clemente pelo fato de estar arrolada no catálogo de manuscritos alexandrino, é encontrada em dois manuscritos gregos e no manuscrito siríaco da Primeira carta, mas não está nas versões latina ou copta (LK). O estilo, tom e pensamento estão em total contraste com a (autêntica) Primeira e que somado à falta de evidências externas temos uma indicação clara de autores distintos.
A datação deste segundo documento estende-se até o inicio do século V, mas não é propriamente uma carta e sim uma homilia (sermão), pois o escritor afirma distintamente (cf. Cap. XIX) que está lendo em voz alta, e implica que o faz em uma reunião de culto religioso, caracterizando o documento mais para uma homilia do que uma carta.
Seus temas principais são a ênfase na cristologia, na vida pura e na fé quanto à ressurreição do corpo. Sua grande preocupação é alertar o leitor contra os falsos mestres, especificamente aqueles que negam a realidade da humanidade de Cristo (cf. 1 João 4: 1–3). Esses falsos mestres estavam levando muitos cristãos a se desviarem, colocando em risco sua salvação; adverte sobre a perseguição e serve como um lembrete para resistir à apostasia.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Primeira Carta de Clemente aos Coríntios

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Referencias Bibliográficas
GEBHARDT, Oscar de, HARNACK, Adolfus and ZAHN, Theodorus. Patrum Apostolicorum Opera. Lipsiae: J.C. Hinrichs, 1877.
HALL, Christopher A. Lendo as Escrituras com os pais da igreja, 2. ed., tradução de Rubens Castilho; Meire Santos. Viçosa: Ultimato, 2007.
LIGHTFOOT, J.B. The Apostolic Fathers. 5 vols. London: Macmillan, 1893. Updated by Holmes, Michael, The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations. 3d rev. ed. Grand Rapids: Baker, 2007.
LITFIN, Bryan M. Conhecendo os Pais da Igreja - uma introdução evangélica. Tradução de Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2015.
QUASTEN, Johannes. Patrology. vol. 1. Westminster: Newman, 1950.
RAMSEY, Boniface. Beginning to read the fathers. Mahwah: Paulist, 1985), p. 4-7
WILKEN, Robert Louis. The spirit of early Christian thought: seeking the face o f God. New Haven: Yale, 2003.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Ecos da Reforma: Martinho Lutero e a Peste Bubônica



            Lutero sempre foi uma pessoa de posicionamentos muito claros e definidos, por isso tornou-se um instrumento tão precioso nas mãos de Deus para iniciar o grande movimento da Reforma Protestante no século XVI o qual ainda podemos sentir as ondas sísmicas por ela produzidas no século XXI.
             Poucos anos depois de iniciada o processo reformador na Alemanha o país foi tomado uma vez mais pela pandemia bubônica onde porções significativas da população local morreram: pastores realizaram milhares de enterros; alguns enterraram congregações inteiras. Em agosto de 1527 a doença chegou à cidade de Wittenberg onde Lutero e sua família vivia. O Príncipe Eleitor João, em 10 de agosto, transfere a Universidade para a cidade de Jena e posteriormente para Schlieben, próximas de Wittenberg.
            A doença era de fácil propagação: através de animais (ratos) ou mesmo pelo ar (germes). Sua ação era devastadora e violenta: em apenas um dia, os infectados podiam mostrar sinais de febre, delírio, distúrbios da fala e perda de consciência; um indivíduo saudável podia contrair a doença e morrer em três a dez dias. No auge da epidemia, a taxa de mortalidade podia variar de 30% a 90% dos infectados.
            Mesmo aconselhado por muitos amigos e autoridades para que saísse da cidade com sua esposa Catarina e filhos, o reformador alemão permaneceu e ainda abriu sua casa para que pessoas acometidas pela enfermidade pudessem receber um tratamento mínimo, visto que os parcos e limitados hospitais da época eram insuficientes para tão grande desgraça. Sua própria esposa estava grávida e mais duas mulheres na casa; seu filho pequeno Hans ficou três dias sem poder comer; a esposa do capelão George Rorer, também grávida adoeceu e perdeu seus bebês.   A morte não estava diante de todos aqueles que permaneceram cuidando dos infectados. Era um cuidado diurno, sem saber se eles também contrairiam a praga e sucumbiriam até a morte.
            Instigado pelos comentários irônicos de um dominicano em Leipzig, zombando da maneira como os moradores de Wittenberg fugiam da praga e estimulado pela solicitação de seu colega Johann Hess, de uma cidade próxima, para que os orientasse sobre como deveriam proceder nesse momento caótico, Martinho Lutero redige uma carta longa “Whether One May Flee from a Deadly Plague [Se alguém pode fugir de uma praga mortal][1] onde expõe suas convicções, das quais destaco apenas um pequeno paragrafo:
Sim, ninguém ouse deixar [abandonar] seu vizinho, a menos que haja outros que cuidem dos doentes em seu lugar. Nesses casos, devemos obedecer à palavra de Cristo: "Eu estava doente e você não me visitou..." (Mt. 25.41-46). De acordo com esta passagem, estamos ligados um ao outro de tal maneira que ninguém pode abandonar o outro em sua angústia, mas é obrigado a ajudá-lo e ajudá-lo, como ele próprio gostaria de ser ajudado.
            Como mencionado acima, Lutero não apenas permaneceu ao lado dos infectados, como abriu sua própria casa para servir de “enfermaria”, pois entendia que essa é a posição que todo cristão deveria tomar à luz do Evangelho. E mais ainda, ele tinha convicção de que essa era a hora mais oportuna para se pregar o Evangelho da salvação para todas as pessoas, que agora diante da morte corporal tinham sua última oportunidade de salvar a alma:
“porque não temos sido preguiçosos em pregar, ensinar, exortar, consolar, visitar ou em qualquer outra coisa que pertença ao nosso ministério e ofício”.  
            Mas nessa mesma carta Martinho Lutero deixa claro que não se deve menosprezar toda ciência, medicação, tratamento ou prevenções que se fazem útil e necessário. A genuína fé não é ignorante ou imprudente e nem desculpa para desprezar as ferramentas úteis colocadas à disposição pela providência divina.
            Nesses dias em que o mundo inteiro está alarmado com a possibilidade cada vez mais concreta de uma pandemia do corona vírus, o testemunho de Martinho Lutero deve encorajar todo o cristão, em todos os lugares, a permanecerem firmes, não se deixando intimidar ou acovardar diante da possibilidade de morte. E mais ainda, deve ser uma oportunidade para compartilharmos o Evangelho salvador de Jesus Cristo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
Whether One May Flee from a Deadly Plague (1527) Translated by Carl J. Schindler. https://rockrohr.net/wp-content/uploads/2014/03/Luther-WHETHER-ONE-MAY-FLEE-FROM-A-DEADLY-PLAGUE.pdf
DENNIS, Ngien. Lutero como conselheiro espiritual: a interface entre a teologia e a piedade nos escritos devocionais de Lutero. Tradução Rogério Portella. São Paulo: Vida Nova, 2017.


[1] O panfleto de catorze páginas foi publicado por Hans Lufft em 1527 e reimpresso em dezenove edições subsequentes. Desfrutou de uma ampla circulação, principalmente em tempos de pestilência. Uma tradução foi feita para o inglês por Theodore G. Tappert.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Calvino Singularidades: O Motivo Primário Para Escrever as Institutas Cristãs



            Todos os estudiosos do movimento da Reforma Protestante, ocorrido no século XVI, concordam de que a obra teológica produzida por João Calvino (Institutas da Religião Cristã)[1] se constitui em um dos pilares deste movimento que transformou o Cristianismo a partir daquele momento histórico.
            Mas o que levou João Calvino a empreender tamanho esforço na elaboração das Institutas? Quais suas motivações e objetivos? Ficaremos apenas com a resposta para o primeiro e sem dúvida maior de seus objetivos, enquanto construía capítulo a capítulo seu precioso trabalho teológico magno.
            No seu prefácio da edição francesa de 1545, Calvino se preocupa em esclarecer aos seus leitores a razão que o levou a elaborar as Institutas. No terceiro parágrafo ele faz uma colocação primorosa e fundamental para uma compreensão correta desta sua obra:
 Vendo, então, quão necessário era dessa maneira ajudar aqueles que desejam ser instruído na doutrina da salvação, eu me esforcei, de acordo com a capacidade que Deus me deu de empregar-me ao fazê-lo, e com essa visão compôs o presente livro.
            Aqui está a grande razão pela qual Calvino investiu tanto de seu tempo e de sua vida nesta obra – instruir as pessoas, de forma geral, no que concerne a salvação. Mas o calvinismo não conseguiu entender esta proposta simples do reformador e transformou sua obra em uma enciclopédia acadêmica pesada e inacessível para os leitores “meros mortais”. A própria figura de Calvino tornou-se tão grande e intimidadora que afastou o povo dele e de suas obras.
            Mas seu objetivo primário era simplesmente tornar conhecida pelos cristãos a grande e maravilhosa doutrina da salvação:
E primeiro eu escrevi em latim, para que possa ser útil a todas as pessoas estudiosas, de que nação seja qual for; depois, desejando comunicar qualquer fruto que possa estar presente aos meus compatriotas franceses, traduzi-o para a nossa própria língua.
            O Latim naquele momento era como o inglês nos dias atuais, de maneira que uma obra escrita ou traduzida para o Latim alcançava grande parte do mundo e por esta razão abençoou tantas nações. Mas ele não se contentou com isso e seguindo a linha de Lutero e dos humanistas cristãos, reproduz sua obra na língua vernácula francesa tornando-a completamente acessível aos seus contemporâneos em geral. Isso fala muito de sua paixão pela propagação do evangelho e da mensagem de salvação nele contido.
Não ouso prestar um testemunho muito forte a seu favor e declaro quão lucrativa será sua leitura, para que eu não pareça valorizar muito meu próprio trabalho.
            A humildade de Calvino transparece nessa frase prefacial, ainda que quando da última edição muitos anos depois, ele tenha tido uma noção do quanto seu trabalhou significou para tantas pessoas e nacionalidades em todo o mundo. O orgulho e a arrogância são inimigos perniciosos que perseguem todo líder, mas sem dúvida alguma, àqueles que devem conduzir o rebanho do Senhor Jesus. Mas continua ele:
Contudo, posso prometer isso, que será uma espécie de chave que abrirá a todos os filhos de Deus um acesso correto e pronto à compreensão do volume sagrado.
            Quem dera todo escritor cristão tivesse essa mesma motivação; conduzir o povo de Deus para compreender cada vez melhor e corretamente a Bíblia. E Calvino concluiu suas palavras iniciais aos leitores:
Portanto, se nosso Senhor me der doravante os meios e a oportunidade de compor alguns Comentários, usarei a maior brevidade possível, pois não haverá ocasião para fazer longas digressões, visto que deduzi de maneira extensiva todos os artigos que pertencem ao cristianismo.
Deus atendeu o desejo de Calvino e ele escreveu comentários sobre quase todos os livros da Bíblia. Mas segundo ele próprio, a chave para compreender corretamente seus comentários bíblicos é a leitura antecipada das Institutas. E aqui está a grande questão daqueles que desejam serem “calvinistas”, mas que não utilizam a chave mestra para compreender suas obras e pensamentos.
            Portanto, falar de João Calvino sem conhecer, de fato, sua obra magna é no mínimo incoerência. Infelizmente os brasileiros que advogam serem “calvinistas” em sua maioria nunca se querem leu ao menos um dos quatro volumes[2] desta obra preciosa do querido reformador genebrino – o que nos torna contraditórios, pois somos “calvinistas” que não leem a obra magna de Calvino. Indico apenas duas razões para essa lamentável deficiência:
- O protestantismo presbiteriano (calvinista) desembarcou no Brasil no final dos Oitocentos (160 anos) e para vergonha nossa essa obra escrita há quatro séculos somente foi traduzida para o português em sua inteireza a pouco menos de vinte anos, graças ao esforço do Rev. Waldir Luz de Carvalho, que o fez como trabalho acadêmico para seu curso de doutorado na UNICAMP, que é uma Instituição de matriz católica. O vexame não foi maior porque a Editora Presbiteriana encampou o trabalho do erudito presbiteriano e fez a primeira edição em 2006.
- O preço e a tradução gramatical utilizada pelo Rev. Waldir Luz, visto que era um trabalho acadêmico, foram dois fatores negativos, de modo que os leitores leigos não foram alcançados e na verdade, nunca houve essa disposição por parte das denominações calvinistas estabelecidas no país. Essa atitude elitista acadêmica tornou a obra de Calvino algo totalmente desconhecido por 90% dos cristãos calvinistas brasileiros. O que foge em muito da proposta original de Calvino, conforme exposto acima.
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Guedes, Ivan Pereira
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[1] Segundo os estudiosos o termo “Instituição” ou “Instituta” tem o significado de “instrução” ou “manual”. Segundo o Dr. David Calhoun, um estudioso das Institutas, poderíamos traduzir o título em latim como: “Manual de Instrução na Religião Cristã”, ou simplesmente “Instrução Básica na Fé Cristã”.
[2] A primeira edição continha 6 capítulos, editado em formato de livro com 10 por 15 centímetros com 520 páginas. Ao todo foram oito edições em latim e cinco traduções para o francês. A última edição feita por Calvino (1559) se destaca mesmo pela sua nova estrutura e organização, onde o material foi dividido no formato atual de 4 volumes, e os capítulos se tornaram mais concisos, transformando-se agora em 80 capítulos subdivididos em parágrafos, tudo para facilitar a leitura.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Ecos da Reforma: Matinho Lutero e a Importância do Primeiro Testamento



A desvalorização ou subutilização dos escritos contidos no Primeiro Testamento não é decorrente dos dias atuais ou da geração pós-moderna. Nos dias dos Reformadores uma das preocupações era a revalorização das Escrituras em sua totalidade. Para eles a primeira parte das Escrituras é tão fundamental quanto os escritos contidos na segunda parte – para eles não poderia haver qualquer distinção entre os escritos bíblicos, pois cada um deles torna-se parte integrante da Revelação da vontade de Deus para seu povo. O Segundo Testamento é fundamentado no Primeiro, sem esse fundamento ele certamente não permaneceria.
Quando Martinho Lutero empreendeu fazer e publicar sua tradução alemã do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, no ano de 1523, ele entendeu ser necessário escrever um prefácio esclarecendo para seus leitores alemães a significância e a relevância dos escritos da primeira parte da Bíblia.
Esta preocupação do reformador alemão indica claramente que em seus dias, como hoje, existia a tendência por parte dos cristãos e de suas próprias lideranças em minimizar e até mesmo desprezar as escrituras do Primeiro Testamento. Uma das alegações era de que bastavam os ensinos do Segundo Testamento e até mesmo de que o conteúdo do Segundo era mais pura e espiritual do que o conteúdo do Primeiro Testamento. Para corrigir esse pensamento errôneo Lutero escreveu:
Há quem tenha pouca consideração pelo Antigo Testamento. Eles pensam dele como um livro que foi dado apenas ao povo judeu e agora está fora de data, contendo apenas histórias de épocas passadas. . . . Mas Cristo diz em João 5, “Conheçam as Escrituras, pois são elas que testificam de mim.” . . . [As] Escrituras do Antigo Testamento não devem ser desprezadas, mas lidas diligentemente. . . . Portanto, descarte suas próprias opiniões e sentimentos e pense nas Escrituras como a mais alta e nobre das coisas sagradas, como a mais rica das minas que nunca pode ser suficientemente explorada, a fim de que você possa encontrar a sabedoria divina que Deus aqui coloca diante de você de forma tão simples que extingue todo orgulho. Aqui você encontrará o panos e manjedoura na qual Cristo jaz. . . . Simples e humildes são esses panos, mas querido é o tesouro, Cristo, que reside neles (LUTHER, 1960, p. 235–36).
No Brasil por muitas décadas, em prol da evangelização, se publicou e distribuiu apenas o “Novo Testamento”, pois era mais “fácil” para as pessoas entenderem. O resultado negativo é que se criou uma ou mais gerações inteiras de cristãos analfabetos e até mesmo avessos à leitura e estudo do Primeiro Testamento e recuperá-los é uma tarefa árdua e com poucos resultados. Não se ouve nos púlpitos as pregações fundamentadas nas literaturas contidas na primeira parte da Bíblia, a não serem alguns poucos textos selecionados. Se perguntarmos aos evangélicos quais são os livros do Primeiro Testamento, alguns dirão cinco ou seis livros e se interrogarmos quantos deles já leram o Primeiro Testamento inteiro um pequeno e inexpressivo numero de evangélicos se pronunciara positivamente.
Assim como nos dias de Lutero e dos reformadores temos a responsabilidade de resgatarmos o valor inspirativo e autoritativa das Escrituras em sua totalidade; torna-se premente que os atuais evangélicos retornem às fontes primárias das Escrituras e que suas lideranças pastorais possam dizer como o apóstolo Paulo: “nunca deixei de lhes ensinar toda a Escritura”.   
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Referência Bibliográfica
LUTHER, Martin. Preface to the Old Testament. Philadelphia: Muhlenberg, 1960. [ed. E. Theodore ; V. 35 of Luther’s Works]

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terça-feira, 3 de março de 2020

Calvino e Sua Relação com os Pais da Igreja



            O reformador de Genebra foi um dos mais relevantes e profícuo escritor e exegeta da Reforma Protestante desenvolvida no século XVI. Sua obra magna “Institutas da Religião Cristã” tornou-se livro texto para reformadores em toda a Europa e muito além, incluindo o Novo Mundo – no Brasil temos inúmeras denominações evangélicas que tem nas obras de Calvino o embasamento de suas teologias.
            Quais foram as fontes onde Calvino saciou sua sede de conhecimento teológico exegético? Como filho do movimento humanista de sua época ele aprendeu a valorizar as fontes primárias, não apenas das Escrituras do Primeiro e Segundo Testamento, mas também teve acesso aos mais variados escritos produzidos nos séculos anteriores a ele. Essa literatura abundante escritas em grego e latim foi produzida pelos chamados “Pais da Igreja”, ou seja, aquela geração pós-apostólica que teve sobre seus ombros a responsabilidade de continuar a expansão e orientação do movimento cristão.
Calvino manteve-se particularmente interessado nos primeiros cinco séculos da História da Igreja, pois entendia que neste período a Igreja ainda se manteve dentro da influência bíblico-exegética. Seu argumento era de que no período da chamada Igreja Primitiva encontrava-se a ressonância para as propostas dos reformadores de seus dias. Mas como Lutero, ele rejeitou o período patrístico como normativo, pois tinha plena consciência dos equívocos involuntários ou até mesmo voluntários de muitos dos escritores antigos. Sua regra de fé e prática era tão somente as Escrituras e todas as demais formulações permaneciam ou eram repudiadas quando confrontadas com os princípios emanados da fonte suprema – a Palavra de Deus.
            A questão crucial é: até onde Calvino foi influenciado pela literatura produzida pelos Pais da Igreja?  Aqui temos duas abordagens distintas: a minimalista onde se busca constatar onde de fato há evidência consistente de que Calvino foi influenciado por aquele teólogo patrístico e a maximalista, que parte do pressuposto, sem qualquer evidência comprovatória, de que o reformador genebrino usou indiscriminadamente da literatura patrística.
            Deve-se levar em conta o fato inequívoco de que Calvino tinha pleno conhecimento desta vasta literatura patrística e de que sofreu como qualquer outro a influência destes teólogos na formulação de sua própria elaboração teológica ou teríamos que admitir que os escritos de Calvino fossem “inspirados” e teríamos que anexar suas literaturas ao cânon bíblico. A. M Hunter faz uma observação interessante: “nenhum [dos reformadores]... estudaram os Padres mais de perto do que ele ou assimilaram mais completamente sua doutrina” (1950. p.38). E o historiador Johannes van Oort resume: “Não há dúvida de que, de acordo com o princípio humanista de ad fontes, o reformador do século XVI, João Calvino, leu amplamente nos Pais” (p. 697-98).
            Mas o fato de que Calvino tivesse amplo acesso e até mesmo fosse influenciado pelo pensamento patrístico não nos autoriza afirmar que ele os endossou indiscriminadamente. Ele seguia fielmente a orientação bíblica de que se deve conhecer tudo e reter apenas e tão somente aquilo que edifica. Ainda que os Pais da Igreja tenham escrito muitas coisas úteis e edificantes, eles também produziram muitas coisas nocivas à genuína exegese bíblica e muitas deformações teológicas que vieram a contribuir negativamente para a vida da Igreja Cristã. Na Idade Média a Igreja sofre as consequências desse uso indiscriminado, mas em muitos casos muito bem pensado, dos ensinos espúrios produzidos, nem sempre propositalmente, pelas gerações anteriores.
            Calvino tinha plena consciência dessa realidade e sempre utilizou um filtro no que concerne à utilização do material patrístico. Ele jamais menosprezou o trabalho de seus antecessores, ao contrário, sempre manifestou seu apreço pelo esforço deles em manter as estruturas teológicas da Igreja.
            O estudioso Johnannes van Oort em seu abrangente trabalho sobre Calvino e os Pais da Igreja, nomeia em ordem cronológica as referências que o reformador fez dos escritores antigos. Ainda muito jovem, 22 anos, em seu primeiro escrito “Comentário sobre a De Clementia, de Sêneca” (1532) ele faz referências a alguns autores patrístico como Cipriano, Lactâncio, Jerônimo e Gregório Magno e ainda cedo o seu preferido sempre foi Agostinho, que neste opúsculo humanista é o mais referenciado, mas é preciso realçar que o jovem Calvino não tem pretensões teológicas nesse momento.
            Avançando Oort destaca o prefácio de Calvino à tradução da Bíblia em francês por seu primo Robert Olivétan, onde cita Jerônimo, Crisóstomo e Agostinho e o elogio de Eusébio a Panfílio de Cesaréia, em sua argumentação sobre a relevância de se colocar a Bíblia à disposição do povo como antídoto para os falsos ensinos e as heresias. Aqui Calvino faz uso apologético-teológico dos ensinos provindos dos referidos autores.
            Em sua carta dirigida ao rei Francisco, quando da primeira edição das “Institutas” (1536), Calvino faz uso dos patrístico como contra ponto às criticas produzidas pelos eruditos católicos de que os ensinos dos protestantes era algo novo e que eles desprezavam toda a herança bíblico-teológica dos Pais da Igreja. O teólogo genebrino destaca que o testemunho dos antigos era favorável aos protestantes, mas refutava sistematicamente as heresias romanas, por esta razão faz citações de Acácio de Amida, Ambrósio, Serapião de Tmuis, Agostinho, Epifânio, Cipriano, Apolônio. Ele explica esta sua posição:
Tínhamos que remover a acusação de novidade que eles, de maneira insidiosa e injusta, trouxeram contra nós; não era impróprio produzir passagens de escritores piedosos para mostrar que a doutrina que agora entregamos não é outra senão a que era recebida antigamente sem controvérsia (Tracts and Treatises., II, p. 434, apud BUEHRER, 1967, p. 14).
Então Oort passa um pente fino nas “Institutas” e destaca as muitas referências, de cunho apologético e teológico que Calvino faz dos diversos patrísticos, de forma mais acentuada de Agostinho, para enfatizar seus próprios argumentos. Por sua vez Leroy Nixon quantifica as referências dos Pais na ultima edição das Institutas (1559) por Calvino: “Agostinho 228 vezes, Gregório, o Grande, 39 vezes, e Crisóstomo 27 vezes, juntamente com vários outros antigos” (1963, p. 15, apud, BUEHRER, 1967, p. 11). Mas estas citações dos escritos patrísticos, nas Institutas, são minimizadas quando as contrapõe em relação às citações que Calvino faz das Escrituras na sua obra teológica magna: citou o Antigo Testamento 2351 vezes e o Novo Testamento 3998 (McNEILL, 1959, p. 135, apud BUEHRER, 1967, p. 12).
Mas é importante reforçar que o conhecimento e uso de Calvino da literatura patrística não foi no sentido de copiar e colar o que aqueles estudiosos fizeram, mas de examinar e utilizar desta vasta biblioteca tão somente aquilo que permanecia fiel ao pensamento teológico-exegético defendido por ele e seus colegas reformadores. O fato de Calvino ter citado inúmeras vezes Agostinho não significou que ele endossava indiscriminadamente todo o pensamento agostiniano.
Seu senso crítico sempre prevaleceu não somente quanto aos Pais da Igreja, mas de quaisquer outros autores contemporâneos dele. Seu lema era de que todo o conhecimento dos antigos ou contemporâneos era como servos e não senhores, pois o único Senhor é Cristo, a quem se deve submeter em todas as coisas sem exceção.
Ele insistentemente advertia seus ouvintes e leitores para que tomassem cuidado com interpretações equivocadas dos pais, fossem não intencional ou proposital. A estima de Calvino em relação a qualquer dos Pais em particular dependia da interpretação que este fazia das Escrituras. Esse posicionamento não era novo, mas parece ter sido uma prática comum, pois Wycliffe destacou nessa base Agostinho, Ambrósio, Jerônimo, Gregório e Bernard (MALLARD, 1961, p. 51-52, apud BUEHRER, 1967, p. 18).
            Desta forma, os dois extremos devem ser contestados: Calvino rejeitou todo vasto conhecimento patrístico e Calvino endossou ou foi indiscriminadamente influenciado pelos conceitos teológicos dos períodos anteriores. Tratando sobre esta questão Irena Backus (1991, p. 437) concluiu de forma sensata:
1. Calvino parece maravilhosamente preciso em seu conhecimento e uso dos Padres, por um lado, mas altamente seletivo por outro.
2. O uso dos pais por Calvino é uma tentativa impressionante de relacionar o protestantismo do século 16 com a igreja dos primeiros séculos.
Anthony Lane, partindo do fato que Calvino possuía uma formação jurídica, conclui que ele “cita os pais principalmente como testemunhas da defesa, como autoridades às quais apelar. Por esse motivo, há muito mais referências nos escritos de Calvino aos pais do que a figuras do final da Idade Média ou do século XVI” (1999, p.3). Isto não significa que Calvino deixasse de ler os patrísticos para edificação pessoal ou que fizesse citações deles fora do contexto polemista.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
BUEHRER, Richard Lyle. John Calvin’s use of historical argument. The University of Arizona, 1967.
CALVIN, Juan. Last Admonition to Jachim W estphall, Tracts and Treatises., II, apud  434.
HUNTER, A. Mitchell. The Teaching of Calvin. London: James Clarke & Co., 1950.
LANE, Anthony N. S. John Calvin Student of Church Fathers. Edinburgh: A&C Black, 1999.
MALLARD, William. John Wyclif and the Tradition of Biblical Authority. Church History, 30, 1961.
McNEILL, John T. The Significance of the Word of God for Calvin. Church Historv 28 (June), 1959.
VAN OORT, Johnannes. John Calvin and the Church Fathers. In: BACKUS, Irena (Ed.). The Reception of the Church Fathers in the West: From the Carolingians to the Maurists. V. 1. Leiden, New York: Koln, 1997.

domingo, 1 de março de 2020

VERBETE - A Bíblia de Genebra


            A cidade de Genebra, na Suíça, foi um dos maiores polos irradiadores do movimento da Reforma do Século XVI.  Um dos responsáveis por isso foi o teólogo-exegeta João Calvino, que elaborou uma das primeiras obras teológicas reformada. Sua aptidão e determinação fizeram de Genebra o centro acadêmico dos reformados e através de sua Academia milhares de pessoas, refugiados de seus países por causa da perseguição implacável das autoridades que se mantiveram católicas romanas, puderam estudar e posteriormente repassarem esse conhecimento aos seus contemporâneos na medida em que retornavam aos seus países de origem.
            Uma das obras mais extraordinárias e perenes que foi produzida em Genebra foi a tradução das Escrituras para o inglês denominada popularmente como a “Bíblia de Genebra”. Esteve envolvido nesse projeto o próprio Calvino, John Knox o reformador escocês, Myles Coverdale o primeiro a imprimir uma bíblia completa em inglês, John Foxe o puritano editor e autor do “Livro dos Mártires” e outros refugiados ingleses em Genebra... fugindo da perseguição sanguinária da rainha católica romana Mary Stuart na Inglaterra, que não tolerava a Bíblia protestante de Genebra, que ensinava explicitamente em suas notas de comentários que o papa era o "anticristo".  Porém, a maior parte do trabalho foi realizada por William Whittingham, um dos pastores da Igreja de Genebra e um amigo querido de João Calvino.
            O Novo Testamento de Genebra foi editado em 1558 e somente depois de dois anos, 1560, saiu a primeira impressão da Bíblia completa, traduzida de acordo com o hebraico e o grego, e conferida com as melhores traduções em diversas línguas. As traduções inglesas anteriores não tinham alcançado os leitores de forma geral, mas a Bíblia de Genebra foi instantaneamente popular. Entre 1560 e 1644, pelo menos 144 edições foram produzidas. Também conhecida como a “Bíblia da Reforma Protestante” tornou-se rapidamente a mais popular versão na língua inglesa, superando e sobrevivendo à “Grande Bíblia” (1539) que foi a primeira edição autorizada da Bíblia em inglês e permitida pelo rei Henrique VIII da Inglaterra a ser lida em voz alta nos cultos da Igreja da Inglaterra e a “Bíblia dos Bispos” (1568), uma tradução em inglês da Bíblia produzida sob a autoridade da Igreja da Inglaterra (Anglicana) e cuja edição de 1602 foi prescrita como o texto base da Bíblia King James.  Mesmo quarenta anos após a publicação da Bíblia King James, versão oficial da Igreja Anglicana para neutralizar os efeitos da versão de Genebra e, portanto a única lida nos cultos oficiais, a Bíblia de Genebra continuou sendo a Bíblia do lar, da família e principalmente dos grupos dissidentes: presbiterianos, congregacionais, metodistas e batistas.
            E de fato há muitas razões para esse sucesso editorial dela:
- Seu custo baixo, inferior a um salario semanal, possibilitava a compra por um número maior de leitores. A Bíblia original de Genebra de 1560 devolveu a Palavra de Deus ao povo.
- Sua tradução foi feita para o inglês popular e assim alcançar com mais facilidade a população em geral, seguindo o padrão utilizado por Martinho Lutero na Alemanha.
- Foi a primeira versão da Bíblia para o inglês feita a partir dos textos em hebraico e grego diretamente, mormente as traduções eram feitas a partir da versão oficial Vulgata Latina.
- Foi a primeira Bíblia a ser impressa na Escócia após sua Reforma liderada por John Knox.
- Foi a Bíblia utilizada pelos Puritanos e posteriormente levada pelos Peregrinos quando atravessaram o mar e se estabeleceram na Nova América (Estados Unidos) em 1620. Foi a Bíblia na qual a América foi fundada, uma vez que a maioria dos Peregrinos estava fugindo da opressão religiosa da Igreja Anglicana (Igreja da Inglaterra) e não queriam nada com sua Bíblia oficial “King James”.
- Foi a versão citada centenas de vezes por William Shakespeare em suas peças.
- Editorialmente ela foi a primeira versão a utilizar o tipo “Romano”, mais fácil de ler, do que o tipo de “Estilo Gótico”, usado até aquele momento;
- Foi a primeira Bíblia em inglês a adicionar versículos numerados a cada capítulo;
- Tornou-se a primeira “Bíblia de Estudo”, com extensas notas de comentários nas margens, em torno de 6500; a fazer uma tradução literal de mais de 700 palavras difíceis do hebraico e do grego; a fazer uma introdução de cada livro; a utilizar mapas e gráficos; ilustrações como da arca Noé, do Tabernáculo, do templo de Salomão e da visão de Ezequiel, das tribos de Israel e das jornadas do apóstolo Paulo.  
            Essa versão da Bíblia popularizou os conceitos teológicos de Calvino e dos reformadores a partir de Genebra.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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