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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Protestantismo no Brasil: O Presbiterianismo na Terra de Castro Alves e Maria Quitéria



Quando em 1875 a igreja em Cachoeira (BA) foi organizada pelos missionários Francis Schneider Houston, Cachoeira era um dos cinco ou seis municípios do Estado [da Bahia] mais importante depois da capital. Quando possível, convém situar a das igrejas no contexto em que estão situadas, e assim constatar os vínculos, as atuações das igrejas como sal e luz da terra. Cachoeira possui um currículo que vale a pena conhecer. Situada a cento e vinte quilômetros de Salvador, ostenta o título oficial de “Cidade Monumento Nacional” e o de “Cidade Heroica”, por suas lutas em favor da Independência do Brasil. Tornou-se capital do Estado durante dezesseis meses, na época da Bahia Independente e da Revolta da Sabinada, insurreição encabeçada pelo médico e professor Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, em 1837, contrária ao modelo de independência vigente na menoridade de Dom Pedro II, e visava a separação do Império e a instalação de um governo republicano. Terra de Antônio de Castro Alves, renomado poeta e abolicionista, nascido na fazenda em Curralinho, hoje Castro Alves, comarca de Cachoeira. A fazenda pertencia à localidade de Muritiba, hoje município, onde, na luta pela Independência, o major José Antônio da Silva Castro, avô de Castro Alves, organizou um batalhão de setecentos homens, entre os quais o mais valente era um “disfarçado”; depois descobriram que era uma mulher, Maria Quitéria. Castro Alves pertenceu à terceira geração da poesia romântica ou condoreira. O poeta Manuel Bandeira dizia que Castro Alves tinha a mente borbulhante do gênio, a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira. Cachoeira é ainda terra natal do engenheiro e abolicionista André Rebouças e de Ana Néri, enfermeira que tão relevantes serviços prestou na Guerra do Paraguai.
O evangelho em Cachoeira
Uma das cidades mais desenvolvidas da Bahia, a fama de Cachoeira despertou nos missionários o interesse de levar a mensagem à cidade, ate então dominada totalmente pelo romanismo e fechada para o protestantismo. Não foi possível levantar informes precisos sobre o começo do trabalho em Cachoeira. Fato certo é que já existiam, na cidade, crentes quando os Revs. Francis Schneider e James Houston organizaram a igreja, em setembro de 1875. Não há precisão também quanto ao dia em setembro, nem como foi a organização, primeiros oficiais e outros atos. Uma publicação de aniver­sário da igreja diz: “Infelizmente não temos o livro de atas que registrou a organização da igreja, e isso se dá em razão das constantes cheias do Rio Paraguaçu, que foram responsáveis por perdas irreparáveis de alguns documentos históricos de nossa igreja”. Mediante atas da igreja da Bahia, verificadas pelo presbítero Eudaldo Andrade Costa, sabe-se que, nos pri­meiros anos, eram pastores da igreja de Cachoeira os mesmos da igreja da Bahia. Cachoeira foi, portanto, a segunda igreja fundada na Bahia e também a segunda em toda a extensão do Nordeste e do Norte. Apesar de rejeições e retaliações romanas, várias congregações e igrejas surgiram no Recônca­vo Baiano. Dentre elas as congregações de Engenho Velho da Vitória, São Gonçalo dos Campos, Cruz das Almas, Conceição de Faria, Governador Mangabeira, Santiago do Iguape, Santo Amaro, Morro do Chapéu e Muritiba. Esta última consta existir desde 1934. Informações chegadas da igreja afirmam que ela na verdade tinha começado em São Felix, e que era doze o número de membros que a formaram.
Grande luta inicial para conseguir um local de reuniões. Na época era proibido às igrejas acatólicas em todo o território nacional construir casas de cultos cm forma de templo. Ademais, não havia recursos financeiros e a igreja, por algum tempo, reuniu-se em residências. Depois alugou um imó­vel na Rua das Flores, atualmente Prisco Paraíso. Em 1901, a Intendência Municipal doou um terreno, mas o local, às margens do rio Paraguaçu, era muito difícil para se construir, pois havia necessidade de muito material de aterro. Com muito esforço, a igreja construiu e inaugurou o templo em 1903, onde até hoje a igreja se reúne, na Praça Ubaldino de Assis. O Rev. Chamberlain era o pastor da época e o projeto de construção foi elaborado e executado pelo Rev. William Wadell, engenheiro e pastor da igreja da Bahia. Mestre de obras, José Martins Alves, pertencente a uma das mais antigas famílias da igreja da capital. Quando inaugurado o templo, era de noventa e sete o número de membros arrolados. A igreja prosseguiu na luta pela sal­vação de almas, tinha já Mesa Administrativa, correspondente ao Conselho, desde 1895, dirigida pelo Rev. Chamberlain. Os presbíteros Francisco David de Magno, Hermelino Ferreira Silva e Agripino Costa Timbeiro eram primeiro e segundo secretários e tesoureiro, respectivamente.
A igreja ia muito bem, mas o prédio onde se reunia, não. Diversas vezes causou transtornos. Mesmo as melhores estruturas desmoronam ante a corrosão, solapamento, enchentes e vendavais. No dia 26 de outubro de 1906, o templo desabou por inteiro e seis pessoas ficaram feridas e hospitalizadas. O então pastor, Henry John McCall, estava para viajar aos Estados Unidos e adiou a viagem para ajudar na reconstrução do templo. Num período de meses, a igreja reuniu-se na Escola América, em São Félix. Com as periódicas, mas certas enchentes do rio Paraguaçu, outras ocorrências foram registradas e danificaram o templo. Em 1960, o assoalho não resistiu e completamente, e em 1989, contrariando as mais experientes previsões, águas invadiram totalmente o templo e causaram estragos enormes.
Pastores da igreja
Como já dito, os primeiros pastores eram os mesmos da igreja da Bahia, mas a partir de 1901 outros chegaram. O Rev. Chamberlain, após a amarga experiência em Feira de Santana, passou a residir e fazer de São Félix e Cachoeira a sede de seu campo missionário, de 1889 a 1902. Pastoreou a igreja de Cachoeira, mas em 1902 seguiu para os Estados Unidos em busca de cura para o câncer. Não teve jeito e pediu que o trouxessem de volta Brasil onde desejava ser sepultado. À beira da morte, visitou Cachoeira pela última vez, e faleceu na casa do filho Pierce, em Salvador, no dia 31 de julho de 1902. Segundo Alderi Matos, nesse mesmo dia chegou a Cachoeira, para pastorear a igreja, o Rev. John McCall, que permaneceu na cidade ase 1908; em fevereiro de 1903 a Junta de Nova York designou-o para todo o campo com base em Cachoeira. Alderi Matos conta que, ao chegar de viagem pastoral pelo campo, em 1904, McCall encontrou pregando no púlpito de Cachoeira o Rev. Álvaro Reis. Mesmo com traje de viagens, as botas meladas de barro, correu para abraçar o célebre pastor da igreja do Rio de Janeiro.
Além do ministério de pregação, a igreja sempre acudiu com víveres a comunidade carente da cidade. A Escola Presbiteriana, com o nome de Simonton, foi fundada como educandário modelar para crianças e jovens de Cachoeira, com ensino segundo as necessidades de preparo dos alunos para a vida, mas sob a ética dos ensinos de Cristo, para esta vida e para a eternidade.
Pastorearam a igreja, além dos mencionados, os Revs. José Ozias Gonçalves, Salomão Ferraz, Augusto Dourado, Manoel A. da Silva, Sérgio Maranhão, Jerônimo Rocha, Milton Ribeiro, Sebastião Gomes, Rodger V. Perkins, Richard Wadell, Sebastião Elias da Silva, Lafaiete Pereira Rocha. Adalto Magalhães, Joel R. Cavalcante, Geraldo Nobre, Milton Loula Dourado, João Dias de Araújo, Laudionor Vieira, José Walmir Lafene, Vicente Cardoso Péricles Evangelista, Caetano Athaide, Josadak Bezerra, Everaldo Porto e Leandro Souza Cruz de Andrade.

Utilização livre desde que citando a fonte
Professor Caleb Soares
Historiador
Mestre em Letras
Mestrando em Teologia
Fundador e Presidente do
Instituto de Pedagogia Cristã (IPC)

Referência Bibliográfica
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.

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quarta-feira, 27 de março de 2019

Historia da Igreja: Ascensão do Poder da Igreja de Roma



Desde os finais do século segundo a igreja de Romana vai adquirindo um status diferenciado,[1] pois muitos conflitos eclesiásticos foram mediados por seus bispos. Diferentemente do que ocorria no Oriente, em Roma houve poucas divergências teológicas, portanto, menos divisões eclesiásticas.
Durante os chamados Concílios ecumênicos,[2] o bispo de Roma tinha o mesmo peso e relevância dos demais representantes da igreja cristã. No primeiro grande Concílio de Nicéia (325) em seu sexto cânon confere aos bispos de Roma, Constantinopla, Antioquia e Alexandria, localizadas nos grandes centros de poder do Império, igual e equivalente autoridade, sem qualquer primado, sobre as igrejas nos domínios imperiais.  No Concílio de Sardes (345 ou 347) abre-se uma fresta, que somente se ampliara, onde se delega ao bispo de Roma a função de supervisor ou revisor de processos eclesiásticos que estivessem sobre questionamentos. Aqui começa o conflito que produzira o grande Cisma do Oriente e Ocidente.[3] No Segundo Concílio de Constantinopla (553), convocado pelo imperador Justiniano I, o então bispo de Roma, Virgílio, recusou-se a participar e apoiar as resoluções, e por esta razão foi exilado. Posteriormente, para ratificar a infalibilidade papal, os decretos foram reconhecidos. No Terceiro Concílio de Constantinopla (680), convocado pelo imperador Constantino Pogonato, que inclusive presidiu as sessões, o bispo de Roma, Honório, foi condenado e anatematizado como herege – que havia dado sua aprovação a um documento imperial conhecido como Ectese, que apoiava o monotelismo, uma doutrina condenada, pois afirmava que Jesus não tinha duas vontades (humana e divina), mas apenas a vontade divina. No Quarto Concílio de Constantinopla (692), convocado pelo imperador Justiniano II, reafirma os mesmos privilégios para Constantinopla, daqueles que usufruíam Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, ou seja, isonomia total. Em um caso de tribunal eclesiástico que tratou de um caso disciplinar de um bispo, Cipriano de Cartago chega a declarar que o Bispo de Roma apenas tinha jurisdição na sua jurisdição, pois cada Bispo era autónomo na sua zona geográfica.
Nos três primeiros séculos a igreja romana teve um destaque insignificante no que tange a elaboração teológica, destacando-se apenas os escritos de Hipólito e Novatiano, sendo o primeiro um combatente contumaz dos próprios bispos romanos e o segundo foi posteriormente excomungado por heresias. Todavia, o que lhe faltou no campo teológico buscou no campo administrativo eclesiástico e no tabuleiro político. Soube como poucos ocupar o vácuo de poder imperial deixado após a mudança da Capital do Império para Constantinopla, que passou a ser chamada de nova Roma. Na ausência da figura máxima do Imperador o bispado romano foi expandido sua área de atuação e cativando, quando não comprando, o apoio crescente de autoridades eclesiásticas, imperiais e monárquicas tecendo uma rede cada vez maior de seu poder ascendente.
Apensar de durante sete séculos lhe ter sido negado uma primazia sobre as igrejas cristãs, os romanos não desistiram de seus propósitos. Alguns fatores históricos contribuíram para que os romanos alcançassem seu tão desejado primado, ainda que somente sobre o cristianismo no Ocidente.
§  O grande fator que alimentava esse desejo de supremacia de Roma sobre o a totalidade do cristianismo era o fato de que havia apenas um Imperador sobre todos. Perguntas eram formuladas em todos os lugares: os bispos governavam as igrejas, mas quem iria governar os bispos? O bispo da igreja deve exercer a autoridade que o imperador exercia no império?
§  Inicialmente todos os líderes cristãos eram chamados de Patriarcas, em Roma passou a ser chamado de Papa (papai).
§  Roma reivindicou para si a autoridade apostólica, com base em uma tradição de que o apóstolo Pedro foi o primeiro bispo de Roma e como o chefe dos apóstolos detinha autoridade sobre toda a igreja. Para fundamentarem esta pseudo tradição se utilizaram de dois textos dos Evangelhos "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja[4] e a outra "Apascenta as minhas ovelhas". A aplicação foi que Pedro tendo sido o primeiro cabeça da igreja, outorgou a mesma primazia aos seus sucessores, os papas de Roma, que portanto devem serem investidos da mesma autoridade apostólica.
§  Entre os dois centros do cristianismo, Constantinopla e Roma, a segunda soube melhor impor sua autoridade sobre os demais. Manteve-se mais ortodoxa, enquanto o centro Oriental teve que enfrentar intermináveis embates doutrinários.
§  A Igreja de Roma desenvolveu uma agenda cristã prática. Sempre deu muita atenção aos necessitados, e quando houve período de fome ou peste abriu-se para atender a todos, mesmo os que não professavam a fé cristã. Auxiliava as igrejas mais carentes em outras províncias. Uma das cenas mais emblemática desta postura é a de um oficial pagão em Roma que exigiu que a Igreja mostrasse seus tesouros, o então bispo romano mandou que se reunissem seus membros pobres e disse. "Estes são nossos tesouros."
§  O fato de que Roma havia deixado de ser a capital do Império, em detrimento a Constantinopla, foi mais positivo do que negativo para as pretensões do clero romano. Enquanto na nova capital os imperadores mandavam e desmandavam nas pendências eclesiásticas, em Roma não havia a figura do imperador para ofuscar o poder papal, que estendia seu potentado por toda a região. As lideranças públicas europeias (Ocidente) sempre olharam para Roma com respeito. Com a distância da nova capital e seu Imperador, e com a proximidade do declínio do próprio império, os ratos começam a pular cada vez mais para o navio comandado pelo Pontífice Romano. Tudo está preparado para o ato final desta trágica ópera romana do cristianismo Ocidental.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Reflexão Bíblica

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Referências Bibliográficas
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VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
VOS, Howard Frederic. Exploring Church History. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1994. 



[1] A ideia de que a Igreja Romana é a Ecclesia principalis, ou seja, a mais antiga, a primogênita, aparece já no final do século II. Em texto redigido por volta de 180, santo Irineu, bispo de Lyon, sustenta que todas as Igrejas devem por-se de acordo com a Igreja de Roma, em consequência da principalitas desta. A Igreja de Roma, diz ele, é a maior, a mais antiga, conhecida de todos. A ela devem ligar-se todos os fiéis, em virtude do seu principado mais poderoso — propter potentiorem principalitem.
[2] "Concílio Geral" ou "Ecumênico" é a reunião dos bispos do mundo inteiro sob a presidência do Papa ou de seus legados, tendo em vista definir ou esclarecer algum tema debatido. Ecumênico, no caso, quer dizer, "universal"; vem do grego oikoumene (a terra habitada, o mundo inteiro). Todos eles foram convocados pelos respectivos imperadores romanos do período.
[3] O primeiro Concílio de Constantinopla (381), ainda nos dias do imperador Teodósio havia declarado: “Que o bispo de Constantinopla tenha autoridade inferior somente à do de Roma, por ser Constantinopla a nova Roma” (Labbe e Cossart, 1671, p. 497).
[4] Estas palavras podem ser vista ainda hoje em letras gigantes escritas em latim em torno da cúpula da Igreja de São Pedro em Roma.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Protestantismo no Brasil: Italianos Presbiterianos



Luiz ou Luigi Bemini, 40 anos, está a bordo do “Rio Pardo”, cruza o Atlântico e chega a Santos, em companhia da esposa, Anjola (Ângela), e os filhos Arnaldo, Armando e Chencia, adolescentes. A família desembarca em Santos e, após breve permanência na Hospedaria dos Imigrantes, rumou para a capital, onde se estabeleceu na Rua 24 de Maio. Ao contrário de muitos de seus compatriotas, que permaneciam na Hospedaria muitos dias, até serem recrutados para fazendas de café no interior de São Paulo. Pelo jeito, Bernini tinha rumo e atividades certas, embora sua ficha de imigrante fosse de “trabalhador”. Esse italiano pertencia à Igreja Valdense da Itália. Descendia do grande arquiteto e escultor Gian Lorenzo Bemini, autor de obras arquitetônicas em arte, trabalhou para oito papas na elaboração de obras no entorno da Basílica de São Pedro, e como autor de outras espalhadas em Roma, entre as quais várias fontes. Chegado a São Paulo, logo se filiou à Igreja Presbiteriana juntamente com a esposa e os filhos, todos batizados pelo Rev. George Chamberlain. Como não portava documento de sua filiação à Igreja Valdense, Bemini professou a fé e foi batizado por Chamberlain no dia 13 de março de 1881.
Há um episódio grave, registrado por Themudo Lessa, nas págs. 233- 234, sobre um padre de São Bernardo do Campo a quem Luigi foi pedir permissão para sepultar um filhinho. O padre naquele tempo era a autoridade que concedia permissão para se enterrar pessoas no cemitério. Mesmo com a alegação de que o menino era batizado e que a lei reservava lugar para não católicos nos cemitérios, o vigário disse que a autoridade máxima era a da sua igreja. “Aonde vou então enterrar meu filho?”, indagou Luigi. “No mato”, respondeu o padre. Sendo assim, o enlutado italiano levou, num cesto, o corpinho do filho e o sepultou em São Paulo. É de notar como a colônia italiana demorou a aderir ao presbiterianismo. Fundada em 1865, a Igreja Presbiteriana de São Paulo, em 1867 aderiu a ela Bartholomeu Revíglio, o primeiro italiano. Conforme Lessa, na pág. 197, a família Bemini é a segunda turma. Em 1900, a Igreja Unida de São Paulo designou o então licenciado Júlio Sanguinetti para trabalhar com um grupo de crentes italianos e, ao mesmo tempo, evangelizar outros.
A igreja nasceu na casa do italiano
Luigi Bemini e a família estão agora no município de Tietê. Após vinte e dois anos como membro da igreja em São Paulo, os Bemini foram recebidos por jurisdição na Igreja Presbiteriana de Tietê, na data de 30 de outubro de 1904. Adquiriu um sítio, naquela época uma verdadeira fazenda. O Rev. João Ribeiro de Carvalho Braga pastoreava naquele ano a igreja de Tietê. Luigi Bemini, assim como Bartolomeu Revíglio, seu compatriota, tinha sido colportor e gostava de evangelizar. Tinha lá no sítio uns empregados e vizinhos, a quem costumava falar do evangelho e convidar para reuniões em sua casa. Aliás, casarão. Ali começou um ponto de pregação e em pouco tempo foi considerada congregação autônoma. Chegou, em agosto de 1905, o Rev. Júlio Sanguinetti, como pastor da igreja de Tietê. A vinda desse seu patrício parece ter aumentado o alento de Luigi. Um ano e três meses depois de recebido como membro, Luigi fundou a igreja no chamado casarão onde morava, e no dia 6 de janeiro de 1906 é organizada igreja, pelo Rev. Júlio Sanguinetti, que começou a pastorear as duas. Passou a chamar- se em alusão ao nome do lugar, “Igreja Presbiteriana de Cruz das Almas”. Constam como fundadores os nomes de Luigi Bemini; sua segunda esposa, Elíza Pereira Bemini; Chencia Bemini e Armando Bemini, filhos de Luigi; Benedicto João de Campos; Joaquim J. de Campos; Joaquim Manoel de Campos; Amélio de Souza Lara; Izabelina de Campos Lara; Ignácio Soares remandes; Manoel Soares Fernandes; Isabel Maria de Lima; Anna Mana ie Moraes; Salvador Alves Ribeiro; Maria Eugênia de Camargo; e Ürsula Leopoldina do Amaral. A grande maioria era de irmãos transferidos da igreja ie Tietê na mesma data da inauguração da igreja de Cruz das Almas.
A igreja cresceu e os irmãos sentiram a necessidade de construírem seu primeiro templo, e isso foi possível com a doação do terreno por um dos fundadores, Benedito João de Campos, sete anos depois de organizada a igreja, em 1913. A propriedade situava-se perto do município de Porto Feliz, a dezesseis quilômetros do centro de Tiete. A construção foi concluída em
1927. De maneira que, por muitos anos, a propriedade dos Bemini abrigou a igreja. A primeira esposa de Luigi faleceu em 1884, e do segundo casamento com Elisa Pereira nasceram outros filhos. Em 1926, Luigi Bemini faleceu e foi sepultado logo na entrada do Cemitério do Redentor, na Avenida Doutor Arnaldo esquina com a Rua Cardeal Arcoverde, em São Paulo. Elisa faleceu em Tietê, em 1935.
Pastores nas lutas e vitórias
Aconteceu o que é comum à história de outras igrejas. Como diz o ditado popular, “nem tudo são flores”. O caminho da igreja é muitas vezes pontilhado de espinhos. Há muita luta para se cumprir a missão. Problemas de toda a sorte aparecem. Escassez de recursos, de gente para trabalhar, de liderança, muito tempo sem oficiais, sem Conselho, falta de fidelidade. Esses os mais comuns problemas. Não foi diferente com a igreja de Cruz das Almas. Porém há também flores pelo caminho, e a igreja conta vitórias após lutas. Luiz Bemini, com visão, abriu um curso de alfabetização para os moradores da região. Vários descendentes seus tocaram a obra. Um dos descendentes é o pastor Marcos Bemini. Outros reforços chegaram, entre os quais os da família Almeida. Leonor, uma das filhas de Luiz, casou-se com João Pedro de Almeida, pai do Rev. João de Almeida, por muitos anos pastor da igreja de Itapeva e das igrejas de Itapetininga e de Torre Pedra; e avô dos presbíteros Heber José de Almeida e João de Almeida Junior. O Rev Edson Fernando de Almeida descende dessa mesma família Almeida. João Pedro de Almeida tomou-se presbítero, um dos sustentáculos da igreja. Certa ocasião teve de enfrentar um invasor do templo em plena escola dominical. Tão estranho senhor, provavelmente por conta própria, entrou armado e ordenou que todos se encolhessem num canto e ficassem quietinhos, enquanto ameaçava de morte o presbítero, caso não encerrasse definitivamente as reuniões da igreja. Os irmãos  estão contidos, mas oravam e pediam por livramento, enquanto o refém administrava a crise com sabedoria, paciência e palavras de consolo e esperança. Ate que aquela criatura desistiu de seu intento. Parece que era meio louco.
A igreja desenvolveu, ao longo do tempo, ministérios diversos, e um deles parece ter gerado simpatia nas autoridades: evangelização e cuidado de crianças no Jardim Santa Cruz. Em 1989, Wilma Pantojo de Souza e Maria Luiza Moreira Camargo iniciaram esse trabalho na residência de Olinda Camargo Jacinto, e depois numa sala da Escola “Professora Lyria de Toledo Pasquale”. Era a classe “Boas Novas”. Esse trabalho prosperou de tal maneira que a igreja decidiu comprar um terreno no bairro, e foi para lá que se mudou, depois da construção do templo, em 1993 A propriedade antiga funciona, desde então, como acampamento. As entidades internas são a UMP, desde 1969; a SAF, desde 1974; e a UPH, desde 2001. Nesses cento e três anos a igreja tem sido pastoreada pelos Revs. Júlio Sanginetti, João Ribeiro de Carvalho Braga, james Porter Smith, William Cleary Kerr, Uriel Antunes de Moura, Manoel Alves de Brito, Waldemar W. Wey, Pedro Albero Rodrigues, Renato Fiúza Teles, Lázaro M. Camargo, José Constantino Ramos, Lázaro Lopes de Arruda, Felipe Manoel de Campos, Jackson Macedo de Souza, Paulo Edson Petreca, Cézar Palmeira, Antônio Francisco de Souza, Ezequiel Fernandes de Camargo, Joel Rodrigues Cavalcanti, Antônio Jorge de Souza, Roberto Pontes Oliveira, José Correa Cardoso, Joani Correa Prestes, Leocádio Carpiné, Osvandi Pedroso e Airton Williams Vasconcelos Barbosa e Amauri Bella Rodrigues.

Utilização livre desde que citando a fonte
Professor Caleb Soares
Historiador
Mestre em Letras
Mestrando em Teologia
Fundador e Presidente do
Instituto de Pedagogia Cristã (IPC)

Referência Bibliográfica
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.

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quarta-feira, 13 de março de 2019

História da Igreja Cristã: Teodósio, o primeiro imperador cristão



            Depois da morte de Juliano (363), todos os imperadores romanos adotaram o cristianismo e antes de encerrar o quarto século, a religião cristã torna-se oficialmente religião do império – Constantino legalizou o cristianismo e interrompeu as perseguições oficiais (313), mas ao final desse mesmo século, outro imperador, Teodósio, oficializou a Igreja Católica (ano 380), tornando-a a única religião admitida no império, o que atraiu toda sorte de “interessados” e uma multidão de “convertido”, principalmente das camadas mais elitizadas, que como camaleões vestem as cores do poder em vigor. O que antes era motivo de temor e morte - o ser cristão - passou a ser status quo.
            O imperador (Flávio) Teodósio I O Grande (379-395)[1] é considerado o primeiro imperador ortodoxo, ou seja, que defendia a religião cristã e seus dogmas. Ele ascendeu ao trono do Oriente, compartilhando o Império Romano com Graciano (359-383), imperador do Ocidente, em 19 de janeiro de 379, aos 32 anos de idade. Mas a partir de 394, tornou-se o único governante do Império, até 17 de janeiro de 395, data de seu falecimento. Tendo recebido o título de “O Grande”[2] por autores posteriores a sua época, foi um governante que soube ler com antecedência os movimentos do tabuleiro politico-religioso que vivia e paulatinamente vai se tornando um devotado defensor da ortodoxia cristã. Ainda em seu primeiro ano de governo ele faz publicar, em 28 de fevereiro de 380, um Edito religioso, nominado de Édito de Tessalônica,[3] também conhecido como Cunctos Populos (ou seja, todos os povos) ou De Fide Catolica (a fé universal) no qual era decretada a unidade religiosa do Império:
Queremos que as diversas nações sujeitas à nossa Clemência e Moderação continuem professando a religião legada aos romanos pelo apóstolo Pedro, tal como a preservou a tradição fiel e tal como é presentemente observada pelo pontífice Dâmaso e por Pedro, Bispo de Alexandria e varão de santidade apostólica. De conformidade com a doutrina dos apóstolos e o ensino do Evangelho, creiamos, pois, na única divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo em igual majestade e em Trindade santa. Autorizamos os seguidores dessa lei a tomarem o título de Cristãos Católicos. Referentemente aos outros que julgamos loucos, cheios de tolices, queremos que sejam estigmatizados com o nome ignominioso de hereges, e que não se atrevam a dar a seus conventículos o nome de Igrejas. Estes sofrerão, em primeiro lugar, o castigo da divina condenação e, em segundo lugar, a punição que nossa autoridade, de acordo com a vontade do céu, decida inflingir-lhes (Cf. DREHER, 2004).
Nesse Edito há diversos aspectos que precisam ser compreendidos à luz do momento histórico em que foi criado, mas o espaço nos limita: o bispo romano Atanásio[4] havia falecido em 373 e seu sucessor foi o bispo Dâmaso e que no documento é associado diretamente ao apóstolo Pedro como garantidores da idoneidade ortodoxa da fé cristã. Contém também a formulação confessional da Trindade que havia sido estabelecida pela nova geração de teólogos conhecidos como os grandes capadócios: Basílio de Cesaréia (329-379), Gregório de Nissa (335-394), e Gregório de Nazianzo (329-390); a elaboração teológica final dessa geração está estabelecida no Credo Niceno-Constantinopolitano, aprovado no grande Concílio de 381 na cidade de Constantinopla:[5]
Cremos em um Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós seres humanos e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne do Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se humano, e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim; e no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas; e na Igreja una, santa, católica e apostólica; confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro.
Teodósio acometido de grave doença, contraída em Tessalônica, submete-se ao batismo cristão e desta forma tornando-se o primeiro imperador romano que exerceu o poder estando batizado. Dentro desta nova perspectiva ele foi o primeiro imperador a recusar oficialmente o título de Pontifex  Maximus, em tradução livre - Supremo Guardião – protetor maior nos cultos romanos.
Conseguiu que o Senado Romano reconhecesse o Cristianismo como religião oficial formatando definitivamente a Igreja Imperial. Por lei proibia-se o retorno de qualquer expressão religiosa pagã, ou seja, que não se ajustasse ao padrão ortodoxo cristão acima mencionado. 
Na esteira das mudanças o imperador Teodósio determinou a entrega à Igreja Oficial de todos os bens das igrejas não ortodoxas, como a Ariana, a Macedoniana e a Donatista, que estavam proibidas de realizarem qualquer serviço de culto. Outro decreto proibia que se falasse ou escrevesse contra a religião cristã, e determinou-se que todos os livros contrários fossem queimados (HURLBUT, 1979, p.97). Esse reconhecimento legal incitou lideranças cristãs a promoverem atos violentos contra qualquer templo religioso considerado pagão. Em seguida começaram as perseguições, em que os hereges eram torturados e alguns executados. A Igreja perseguida ainda nos princípios do século IV tornou-se Igreja perseguidora, em 392, ano em que foi promulgada uma lei de proibição geral de cultos e sacrifícios pagãos, sob pena de castigo máximo (morte). Tão longe se estava, então, dos tempos de Nero, de Décio e de Valeriano e das duras perseguições de Diocleciano e de Galério.
Desta forma oficialmente o cristianismo foi vitorioso, todavia, as comunidades (igrejas locais) perderam sua autonomia e foram totalmente submetidas à autoridade do bispo, que por sua vez eram tutelados pelo Estado, como afirma Dreher (2004) o “regime de Cristandade se completava”. Mas era tarde de mais, pois muitos dos conceitos pagãos já haviam sido inoculados no organismo da igreja cristã.
O mundo superou a igreja, tanto quanto a igreja venceu o mundo, e o ganho temporal do cristianismo foi, em muitos aspectos, anulado pela perda espiritual. Multidões foram batizadas apenas com água, não com o Espírito e fogo do Evangelho, e amalgamavam-se costumes e práticas pagãs para a liturgia cristã sob um novo nome. A apropriação da Cruz com o estandarte militar por Constantino foi um presságio do que viria a se constituir uma infeliz mistura dos poderes temporais e espirituais, o reino que é da terra e o Reino que é do céu. O estabelecimento dessa unidade foi em si uma fonte prolífica de erros e veementes lutas sobre jurisdição, que se estendem por toda a Idade Média.
A Igreja Cristã jamais retornara à simplicidade de seus primeiros séculos antes de Constantino. Deste ponto em diante a Igreja caminhara firme para seu período mais decadente e que depois de inúmeras tentativas de reforma ou restauração eclodira na denominada Reforma Protestante no século XVI.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
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CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica - os primeiros quatro séculos da Igreja Cristã. 7ª ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2007.
DREHER, Martin.N. A Igreja no Império Romano. São Leopoldo: SINODAL, 2004. [Coleção História da Igreja, volume 1. 5.ed.].
HURLBUT, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. São Paulo: Editora Vida, 1979.
Matos, Alderi Souza de. A caminhada cristã na história: A Bíblia, a igreja e a sociedade ontem e hoje. Viçosa, MG: Ultimato, 2005.
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______________. Dicionário ilustrado dos interpretes da fé. Tradução Reginaldo Gomes de Araujo. Santo André (SP): Editora Academia Cristã Ltda., 2005.
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LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.
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VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.



[1] Nasce em 346 em Cauca, atual Coca (Segóvia, Espanha) com o nome de Flávio Teodósio, filho de Thermantia e de Flávio Honório Teodósio, o velho; seu pai foi lugar-tenente hispano e um dos generais mais prestigiosos de Valentiniano I, sendo conclamado como dux efficacisimus [chefe, ou general, altamente eficaz].
[2] Juntamente com Constantino, também intitulado “O Grande” – estão entre os mais citados imperadores cristãos.
[3] Esse Edito foi assinado por Teodósio, em conjunto com seus colegas da parte ocidental do Império, Graciano e Valentiniano II.
[4] Atanásio não presenciou o resultado final de seu longo e custoso debate ariano, cujo resultado foi a elaboração do Credo Niceno-Constantinopolitano que estabelece a doutrina da Trindade e que foi fruto de sua perseverança.
[5] Este Concílio foi convocado por ordem do próprio imperador Teodósio, com a finalidade de colocar um ponto final na controvérsia Ariana que vinha se arrastando a muitos anos e trazendo transtornos político-eclesiástico ao Império. Nesse Concílio o arianismo foi condenado e seus seguidores classificados como hereges, assim como os macedonianos semi-arianos, os apolinaristas e outras expressões religiosas que não se ajustassem ao novo Credo.