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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Uma Igreja Evangélica Brasileira Autóctone: Congregação Cristã no Brasil


            Uma das características peculiares do protestantismo implantados no Brasil, a partir do final dos oitocentos e inicio dos novecentos é que eles têm suas origens em outros países, em particular dos Estados Unidos da América do Norte. O anglicanismo inglês e o luteranismo alemão aqui chegaram antes das denominações estadunidenses, mas não demonstraram nenhuma intensão de nacionalizarem suas concepções religiosas de viés protestante. Os anglicanos até detém a honra de terem construído o primeiro templo,[1] com torres, o que era proibido por lei, mas foi mais um ato de demarcação do nacionalismo inglês, do que propriamente uma ação evangelizadora.
            Por sua vez as chamadas denominações protestantes históricas, que perfazem esse primeiro movimento missionário de origem estadunidense tem como característica o fato de que eram financiados totalmente por suas matrizes no país de origem, as quais financiaram por muitos anos as atividades destes missionários no Brasil, bem como a construção dos primeiros templos de suas denominações. A dependência destes recursos financeiros externos perdurou aos menos nos cinquenta primeiros anos da implantação dos trabalhos protestantes no Brasil e de forma indireta, em forma de cooperação, por mais cinquenta anos.
            A primeira denominação de viés protestante evangélica autóctone que surgiu no Brasil, na primeira década dos novecentos, foi a Congregação Cristã do Brasil e que ainda hoje continuam atuando em todo o território nacional e nesta última década tem se expandido além do território nacional. Ela nunca esteve ligada a qualquer organização externa e nunca recebeu qualquer ajuda financeira de outras fontes que não aquelas advindas de suas próprias comunidades.
Ela surge em meio ao êxodo de imigrantes italianos que chegam ao Brasil à procura de dias melhores e que vão constituir uma forte colônia italiana na cidade de São Paulo e no interior paulista e posteriormente em diversas cidades do Paraná seguindo a trilha do café, algodão e outras agriculturas que tinham uma grande demanda de mão de obra. Famílias inteiras desembarcaram com suas heranças religiosas e o sonho de um reinício de suas histórias.
            As pesquisas acadêmicas sobre esta igreja brasileira é, mormente incluída no campo do pentecostalismo, uma forma acadêmica de desvincula-la do contexto do protestantismo histórico, que a renega, mas que se constitui um anacronismo histórico, visto que ela surge no mesmo período em que as demais denominações protestantes estão iniciando suas atividades.
Todavia, as origens e expansão, bem como as implicações do surgimento desta denominação evangélica autóctone brasileira é um tema ainda incipiente em termos de pesquisa acadêmica, mas se constitui em um veio rico para ser pacientemente explorado para que se venha ter uma compreensão mais ampla do desenvolvimento religioso protestante no país.
O campo religioso brasileiro
            Por ser um campo de pesquisa acadêmica ainda recente, efetivamente a partir da década de setenta do século XX, no que tange aos conceitos e/ou procedimentos encontramos uma pluralidade que muitas vezes dificulta a própria pesquisa a ser desenvolvida. Essa falta de uma homogeneidade de conceitos definidos na questão de agrupamentos, classificação e sistematização acabam por colocar o resultado do trabalho na dependência da área do conhecimento e ótica de cada pesquisador.
            Após as duas experiências frustradas primeiramente os franceses (1555-1560) e posteriormente os holandeses (1630-1654), o governo português proibiu toda e qualquer expressão religiosa divergente da religião oficial – o Catolicismo Romano. O Brasil ficou completamente fechado para as influências religiosas, fora do catolicismo, por praticamente trezentos anos. As raras tentativas de se quebrar essa hegemonia romana foram inibidas pela força da lei e pelas ações eclesiásticas romanas “Inquisição”. A proibição de máquinas de impressa no território brasileiro inibiu que qualquer pensamento religioso divergente pudesse ser divulgado; as alfandegas eram cuidadosamente vigiadas para que nenhuma literatura sem o selo “selo” religioso pudesse chegar às mãos da população no Brasil. E por fim, todo e qualquer estrangeiro que desembarcasse nos portos brasileiros e se dispusesse a viajar pelo território nacional eram observados atentamente e quaisquer tentativa de abordagem religiosa distinta eram imediatamente abortada e o viajante convidado a se retirar do país.
            Por quatro séculos o catolicismo romano se constituiu na única expressão de cristianismo permitida no Brasil. Essa situação começa a ser alterada no inicio dos oitocentos quando por questões políticas as leis concernentes ao comercio e à religião foram modificadas.
            Em 1808 a Corte Portuguesa foi obrigada a se deslocar para sua Colônia brasileira. Nesse deslocamento foi inserida a primeira abertura portuária no Brasil e simultaneamente a primeira abertura religiosa desde o domínio português. Os primeiros a usufruírem de ambas as aberturas foram os ingleses, então parceiros de primeira ordem do governo português.
            Apenas quatorze anos depois, 1822, temos a Independência do Brasil e a elaboração de sua primeira Constituição, onde foi estabelecida de forma especifica uma abertura ampla de liberdade religiosa. Da metade para o fim do século XIX temos um afluxo grande de expressões religiosas de cunho protestante aportando no país. Esse primeiro grande movimento, comumente denominado de protestantismo histórico, representados pelos Congregacionais, Presbiterianos, Metodistas, Batistas, Assembleianos juntamente com aquelas denominações protestantes amalgamadas com o movimento imigratório como os alemães (Luteranos) e suíços (Reformados).
            É nesse período de grande efervescência religiosa no Brasil que surge a Congregação Cristã do Brasil distintamente das demais acima mencionadas por sua característica eminentemente nacional, pois nunca esteve ligada a quaisquer outros organismos internacionais. Distinta até mesmo da Assembléia de Deus que inicia suas atividades no mesmo período histórico, ainda que, mormente classificadas no mesmo grupo de pentecostais devido suas ênfases doutrinárias nas manifestações do Espírito Santo. A Congregação Cristã inicia suas atividades em 1910, nos Estados de São Paulo e Paraná e a Assembléia de Deus tem seu marco fundante em 1911 no Estado do Pará.
            Os pesquisadores ainda mencionam dois outros grandes movimentos no campo religioso evangélico brasileiro.[2] O segundo ocorre na década de cinquenta, amalgamado com o aceleramento da industrialização e a consequente urbanização produzindo centros populacionais cada vez maiores. Ao menos três denominações evangélicas surgem vigorosamente nesse período a Igreja do Evangelho Quadrangular, em 1951, a Igreja Brasil para Cristo, em 1956, e a Igreja Deus é Amor, em 1962, que perfazem juntamente com outras o chamado “pentecostalismo clássico”.
            Um terceiro grupo denominado de neopentecostalismo inicia-se na década de setenta e solidifica-se na década seguinte, ainda na esteira do desenvolvimento urbano desenfreado desencadeado pelo êxodo rural. Seus expoentes são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977), Internacional da Graça (1980), Renascer em Cristo (1986) e Sara Nossa Terra (1990). Se no segundo grupo a ênfase estava nos dons do Espírito Santo e na cura miraculosa, nesse terceiro grupo a ênfase será inicialmente na guerra espiritual (exorcismo), teologia da prosperidade e um forte investimento na mídia televisiva com técnicas empresariais e marketing, bem como um projeto politico.  
Imigração Italiana
            O inicio dos novecentos demarca o que ficou denominada de a “grande imigração”, onde mais de três milhões e meio de imigrantes desembarcaram no Brasil acentuadamente nas regiões Sudeste e Sul do país. Um característico singular e relevante para nosso estudo é que segundo alguns especialistas 60% destes imigrantes são de origem italiana. A cidade de São Paulo tornou-se um referencial urbano dos imigrantes italianos de maneira que surgem bairros inteiros onde eles predominam, visto que dominam diversas atividades industriais, artífices e comerciais. Desta forma rapidamente se inserem no tecido social industrial e comercial da cidade. E será entre as diversas colônias italianas espalhadas no Sul-Sudeste que surgira essa nova denominação evangélica – Congregação Cristã do Brasil.
As Experiências Religiosas de Louis Francescon nos Estados Unidos
A figura histórica fundante é Louis Francesco,[3] filho de Pietro Francescon e Maria Lovisa, de origem italiana, nasceu em 29 de março de 1866 em Cavasso Nuova, província de Udine, Itália,[4] mas que imigrou ainda jovem, 24 anos, para os Estados Unidos.[5] Foi morar na cidade de Chicago (março de 1890) que abrigava uma numerosa colônia italiana. Aqui começa a ouvir as pregações de Michele Nardi (1850-1914) e após um ano (1891) ele professa a fé em Jesus Cristo, deixando seu catolicismo nominal.  Aproxima-se de uma comunidade cristã de origem Valdense[6] (Railroand YMCA Hall) e juntos estabeleceram uma Igreja nos moldes Presbiterianos (First Italian Presbyterian Church) em 1892. Foi eleito um dos diáconos da nova igreja e posteriormente exerceu a função de ancião (presbítero)[7]. Em Janeiro de 1895, casou-se com Rosina Balzano,[8] também comungante da mesma Igreja Presbiteriana. Essa convivência com os presbiterianos explica seu contato inicial com a Igreja Presbiteriana do Brás, de origem italiana, quando de sua chegada à cidade de São Paulo.
Na primeira década do século XX o evangelicalismo americano experimentara um forte movimento interno conhecido como Movimento Pentecostal[9] e que rapidamente se expandira por todo o território americano e suas denominações evangélicas. Assim como ocorreu com outras experiências religiosas americanas, posteriormente esse movimento será exportado para o restante do globo terrestre[10].
Os locais e datas mais conhecidas dos primórdios deste movimento pentecostal são 1901 (Topeka, Kansas), 1906 (Los Angeles) e 1907 (Chicago), sendo este último significativo para o Brasil, pois a partir dele se iniciara o movimento pentecostal brasileiro.
            Um pastor batista William H. Durham, tendo participado das reuniões pentecostais promovidas na Azuza Street[11] (Los Angeles), adotou as linhas básicas do movimento em sua igreja na cidade de Chicago[12]. Será a partir desta igreja de Durham, localizada na W. North Avenue, 943, que surgem dois personagens Louis Francescon e Daniel Berg os quais ao virem para o Brasil haverão de iniciarem as atividades que darão origem à Congregação Cristã do Brasil e a Assembleia de Deus.
            A questão do batismo por imersão sempre foi um tema conflitante para Francescon, visto que a Igreja Presbiteriana pratica o batismo por aspersão. Enquanto realizava atividades na cidade de Elgin (1903), a 64 quilômetros encontra um membro de sua igreja que havia se submetido ao (re)batismo por imersão de Chicago na Church of Brethren. Então o convence a batizá-lo também por imersão e marca para o dia 7 de setembro, um feriado; anuncia em sua igreja e convida a todos para assistirem no Lake-front, de Chicago. Dos que se fizeram presentes 18 se (re)batizaram por imersão. Essa questão do batismo por imersão produz seu rompimento com a Igreja Presbiteriana, de onde saiu em 1903, juntamente com um pequeno grupo e passaram a se reunirem nas casas uns dos outros.
Em agosto de 1907 Francescon frequenta primeiramente sozinho e depois com seu grupo, os cultos pentecostais realizados pelo pastor de origem batista, William H. Durham, na Missão da Avenida Norte, onde recebe manifestações do Espírito Santo. O próprio Durham profetiza que Francescon deveria ser o mensageiro pentecostal para o povo italiano. Em 1907 ele estabelece a primeira igreja pentecostal ítalo-americana (Assemblea Cristiana). Empreende viagens a diversas cidades americanas (Los Angeles, Philadelphia, St. Louis) onde implanta igrejas pentecostais nas comunidades de origem italiana [13].
Antes de chegar ao Brasil Francescon e dois irmãos, Giácomo Lombardi y Lucia Menna, partiram dos Estados Unidos, Chicago (setembro de 1909) em direção à Argentina, onde havia um numero expressivo de italianos entre os quais alguns familiares de Lucia. Chegando começaram a compartilharem suas experiências religiosas e Lucia foi para Tres Arroyos, uma Provincia de Buenos Aires, onde moravam seus familiares, enquanto ele e Giácomo permaneceram na capital Argentina. Em pouco tempo havia um numero expressivo de pessoas arroladas nas atividades religiosas e os espaços ficaram pequenos (FRODSHAM, 1943, p. 53-54) e o movimento pentecostal por eles iniciado veio a se constituir na Iglesia Cristiana Pentecostal de Argentina.
A Primeira passagem de Louis Francescon em São Paulo
            Mas logo sua atenção foi atraída para a cidade de São Paulo onde abrigava o que era conhecida de “pequena Itália” pelo numero expressivo de aproximadamente um milhão e trezentas mil italianos[14]. Chegando a São Paulo, juntamente com Giácomo Lombardi, não conheciam nenhuma pessoa ou família, então em uma praça pública (Jardim da Luz) começaram a conversar com um italiano, Vicenzo Pievani, que estava de passagem, pois morava no Estado do Paraná, na pequena cidade de Santo Antônio da Platina. Ele ainda permaneceu por alguns dias em São Paulo, mas com o retorno de Giácomo Lombardi à Buenos Aires, Francescon resolveu ir à cidade Pievani e ali foi recebido com bom grado e conviveu com esta família, por dois meses, e toda a família foi batizada (imersão), a qual veio a se constituir no primeiro núcleo no Paraná do que veria a ser a Congregação Cristã do Brasil.
Mas pouco tempo depois (09 de março de 1910), deixando um pequeno grupo estruturado, Francescon retorna a São Paulo e chegando procura a Igreja Presbiteriana,[15] recém-iniciada no bairro do Brás, com forte presença italiana, situada na Rua da Alfândega e ali tendo oportunidade expõe sua mensagem bíblica pentecostal, na língua italiana. A direção da igreja presbiteriana desaprovou suas interpretações e o proibiu de expô-las na comunidade, de maneira que ele se apartou, todavia um número de pessoas de origem italiana, capitaneadas pelo senhor João Finote e sua mãe o acompanharam; logo outros membros de igrejas batista, metodista e católicos romanos, todos de origem italiana, aderiram e assim se estabelece o primeiro núcleo paulista da Congregação Cristã do Brasil.
Rapidamente o núcleo se desenvolve na mesma proporção em que sua mensagem penetra na “pequena Itália” que se espalhava por diversos bairros Brás, Luz, Barra Funda, Bom Retiro.[16] Tendo o fator linguístico como instrumental Francescon sentia-se completamente ambientado entre seus patrícios, o que certamente contribuiu para que suas atividades religiosas proliferassem e se consolidassem com tanta rapidez.
            Apesar de Francescon ter uma relação tão profunda e afetiva com os brasileiros ele não se estabeleceu no Brasil. Fez um numero expressivo de viagens de 1910 a 1948, umas mais longas (9ª Ago. 1935 – Mai. 1937 / 664 dias) e outras mais breves (1ª Mar.1910 – Set. 1910 / 184 dias), em períodos descompassados (de 05 a 125 meses). Seus períodos de ausência eram supridos por vasta correspondência entre ele e as lideranças e membros da igreja, que se constituem em um rico acervo histórico da denominação. A partir de sua última visita ao Brasil (1948) os anciães passaram a visita-lo periodicamente destacando-se ao menos dois deles: Miguel Spina[17] e João Finotti, que anotavam todas as orientações e as repassavam às lideranças no Brasil. Francescon veio a falecer em Oak Park, nos Estados Unidos, em 7 de setembro de 1964 aos 98 anos.
O Primeiro Templo
            A primeira propriedade adquirida e onde se construiu o primeiro templo foi à Rua Uruguaiana no bairro do Brás. O novo movimento ainda não tinha estabelecido uma nomenclatura, mas para efeito jurídico legal, ao adquirir uma propriedade, cunha-se o nome Congregação Cristã do Brasil.
            Seguindo o rio caudaloso dos imigrantes italianos e bairros operários a igreja rapidamente expande-se: Brás, Água Branca e Vila Prudente, Bom Retiro, Lapa, Ipiranga e São Caetano. Esse rio corria forte para o interior do Estado de São Paulo e não demorou a que novas igrejas surgissem em cidades interioranas como São João da Boa Vista, seguindo as trilhas do café, algodão e outras agriculturas.
            A partir do polo fecundo do Estado de São Paulo o movimento vai se expandido pela Região Sudeste, Rio de Janeiro e Minas Gerais e posteriormente para a Região Nordeste, Bahia. Mas é no Brás, seu marco fundante, que se estabelece uma sede nacional e que permanece assim até os dias atuais.
O Hinário e Seu Papel Histórico Cronológico
            O livro de cânticos e/ou hinos religiosos é um representativo da evolução social da CCB. Inicialmente o livro continha apenas cânticos na língua italiana cujo título era “Nuovo Libro di Inni e Salmi Spirituali, contendo ao todo 329 canções todas em italiano. Mas a partir de 1932 iniciam-se as edições bilíngues italiano/português o “Nuovo Libro di Inni e Salmi Spiriatuali e Novo Livro de Hymnos e Psalmos Espirituais”, que revela uma mudança significativa na composição de seus membros cada vez mais abrasileirados. Os cânticos eram praticamente os mesmo e que foram traduzidos para a língua portuguesa, acrescidos por algumas poucas composições novas de cunho de membros da própria CCB. A numeração ficou assim: os hinos números 01 a 329 eram em italiano e os de números 330 ao 518 eram os na língua portuguesa.
            Mas no ano de 1934, devido às políticas do governo Getúlio Vargas,[18] os hinários passaram a ser cantados somente em português e editados apenas na língua nacional, assim também as pregações ou demais atividades religiosas. Evidentemente que o aumento crescente de novos membros foi descaracterizando a prevalência italiana, ainda que alguns vestígios linguísticos permanecessem por mais tempo nos púlpitos ou mesmo nas relações social-religiosas como o cumprimento “A paz de Deus” originariamente “Pace de Dio” e a bênção dos mais velhos às crianças “que Dio te bendiga”.
Estrutura Eclesiástica Básica
            Dentre todas as denominações protestantes evangélicas a CCB possui uma das mais simples estrutura eclesiástica, com duas partes muito distintas: a espiritual (religiosa) e a secular (administrativa). Na primeira está o corpo ministerial que é composto por anciãos, cooperadores e diáconos, cuja especificação de cada função é explicitada no Estatuto no capítulo III; a segunda parte é composta por membros qualificados à administração, mas nenhuma destas funções quer seja religiosa ou administrativa são renumeradas.
            Outra característica peculiar é que a instituição é completamente apolítica e defende radicalmente a separação entre Estado e religião, não mantendo quaisquer vínculos partidários e vedando qualquer utilização do nome da CCB para fins políticos, eleitorais ou ideológicos.
Funções Ministeriais
            Somente anciães podem realizar batismos, santas ceias, ordenação de novos anciães e diáconos, bem como eleição de cooperadores do ofício ministerial. Toda responsabilidade de supervisão do ensino religioso e do bem estar espiritual da CCB são prerrogativas dos anciães. O órgão máximo do sistema eclesiástico é o “Conselho de Anciães” composto pelo conjunto de todos os anciães ordenados. Quando reunidos todos tem a mesma liberdade de expressar suas opiniões e as decisões são tomadas após um período de oração e posterior votação do tema discutido.
            Os cooperadores de ofício são habilitados para dirigirem cultos oficiais, como reuniões de jovens e crianças. Mas não podem realizar batismos ou ministrar as cerimônias de santa ceia.
            Os diáconos têm atribuições sociais ou obras pias (Obra da Piedade). São responsáveis em suprir as necessidades imediatas daqueles membros que estejam passando por carências: alimentação, vestuário, mobiliário e auxílio pecuniário. A diaconia é exercida de forma regional onde um diácono é responsável um numero especifico de igrejas em determina região geográfica. Mormente são auxiliados nessas atividades por mulheres que são previamente escolhidas e que forma o grupo de “irmãs da piedade” tendo o mínimo de duas em cada igreja. Há um cuidado com a privacidade dos que recebem auxilio procurando evitar qualquer constrangimento e somente são divulgados os dados exigidos pelas leis. Cabe aos diáconos supervisionar as coletas voluntárias, escrituração e depósitos bancários realizados pelo corpo administrativo.
            Há um ministério especifico para a Música bem como as nomeações para administradores e conselheiros. Os anciães e diáconos são ordenados nas reuniões anuais do Conselho de Anciães. Os cooperadores ministeriais são apenas apresentados e aprovados sem a ordenação.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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CAMPOS, Leonildo Silveira. As origens norte-americanas do pentecostalismo brasileiro: observações sobre uma relação ainda pouco avaliada. São Paulo: Revista USP, n.67, p.100-115, setembro/novembro, 2005.
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[1] Em 12 de agosto de 1819 foi colocada  a pedra fundamental da construção do primeiro templo anglicano no Brasil.
[2] Paul Freston trabalha com uma classificação estratificada do pentecostalismo em três ondas: a primeira onda corresponde ao pentecostalismo clássico período de 1910 a 1950; pentecostalismo de segunda onda que compreende os períodos de 1950 a 1970; e pentecostalismo de terceira onda ou Neopentecostalismo, a partir do início da década de 1970.
[3] Por existirem diferentes grafias, Luigi, Luiz, Louis, adotaremos a versão Louis.
[4] Ele foi um operário especializado em mosaicos, técnica grandemente difundida em sua região natal, o Vêneto, famosa por seus artífices e operários especializados nessa técnica que desenvolviam elaborados trabalhos com mármore colorido tanto no chão como nas paredes.
[5] Antes, diante das imensas dificuldades na Itália, com apenas aos 15 anos foi para a Hungria em busca de trabalho, voltou para a Itália, cumpriu serviço militar e com quase 24 anos de idade emigrou para os Estados Unidos.
[6] O nome “valdense”, conforme passaram a ser cha­mados pelos outros, vem de Pedro Valdo (1140-1217), de Lyon, na França. Esse grupo sofreu perseguição no sul da França e fugiu para outras localidades. Em suas fugas, evangelizava c, ao mesmo tempo, seguia para o norte da Europa. Foi onde Pedro de Valdo converteu-se. Por sua liderança, os inimigos logo apelidaram o grupo de valdenses.
[7] Em 1903 Francescon convence Giuseppe Beretta a batizá-lo por imersão. Filippo Grilli, pastor da igreja, viaja para a Itália e incumbe Francescon de presidir a reunião de 6 de setembro de 1903, ocasião em que Francescon persuade seus ouvintes da prática do batismo por imersão. No dia seguinte, ele e mais dezoito irmãos da igreja são batizados dessa forma, em Chicago. Com o retorno de Filippo, o grupo é desligado da igreja e estabelece uma comunidade evangélica livre.
[8] Em 1890, a comunidade valdense de Favale di Malvaro, na Ligúria (Itália), imigra em massa para Chicago. No ano de 1892, 29 imigrantes valdenses foram recebidas como membros; entre elas, Rosina Balzano (1875-1953), que viria a se tornar a esposa de Louis Francescon.
[9] O termo está relacionado aos grupos religiosos cristãos que baseiam sua crença na manifestação do Espírito Santo, por meio de sinais denominados “dons do Espírito Santo”, tais como: falar em línguas (glossolalia), curas, milagres, visões, profecias, entre outros.
[10] Os precursores do movimento pentecostal moderno podem ser encontrados no movimento interno da Igreja Metodista americana que deu origem às chamadas “igrejas holiness” (santificação) 1885: Church of God (Cleveland, 1886); United Holy Church of América Inc. (1886); Fire Baptized Holiness Church (1898); Pentecostal Holiness Church (1899); Pentecostal Union (1901). Muitas delas vieram alavancar   o movimento pentecostal adotando os modelos implantados por William Seymour, em Azuza Street, a partir de 1906.
[11] As reuniões eram dirigidas por W. Seymour que originalmente pertencera à Igreja dos Nazarenos, em Los Angeles, e durante um de seus sermões afirmou que Deus tinha uma terceira bênção: além da conversão e da santificação, seria o Espírito Santo. A direção da igreja não aceitou seu ensino e diante de sua insistência o expulsou da Igreja dos Nazarenos. Como sempre ele conseguiu um pequeno grupo de admiradores e passaram a se reunirem em casas particulares e, não comportando mais o números de assistência alugaram um antigo templo da Igreja Metodista Episcopal, situado na Azuza Street 312, que veio a se constituir no protótipo pentecostal que se espalharia pelo mundo (CESAR; SHAULL, 1999, p. 20).
[12] Chicago tornou-se um centro importante para que o pentecostalismo excedesse até mesmo o movimento que ocorria em Los Angeles.
[13] Esteve também na Itália propagando suas experiências (HOLLENGER, 1972). Ele é considerado um dos fundadores das Assembleias de Deus na Itália, ao lado de Pietro Ottolini, Giuseppe Beretta e Giácomo Lombardi.
[14] De acordo com os censos populacionais os italianos chegaram a representar 79% do total de imigrantes que deram entrada no Brasil entre os anos de 1900 e 1909. Sobre o assunto ver os Censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e TRENTO, 1989.
[15] Inicialmente esta igreja tinha ligações com a Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago (EUA), da qual Francescon tinha sido recebido como membro e posteriormente fora eleito diácono e da qual havia saído quando aderiu o iniciante movimento pentecostal (ALVAREZ, 1992, p. 29).
[16] Sobre a influência dos italianos no cotidiano paulistano ler: MACHADO, A. A. Brás, Bexiga e Barra Funda. São Paulo: Klick, 1999.
[17] Sua família foi uma das primeiras a se converterem no bairro do Brás. Tornou-se um industrial bem sucedido e sempre custeou suas viagens sem qualquer custo para a igreja. Foi ordenado ancião em 1938 e presidiu o Conselho de Anciães por várias décadas, vindo a falecer em maio de 1993.
[18] Em decorrência do início da Segunda Guerra Mundial e do posicionamento do Brasil ao lado dos Aliados (França, Inglaterra e EUA), o governo de Getúlio Vargas (1937-45) proibiu a utilização de línguas estrangeiras e especificamente as dos países do chamado Eixo (Itália, Alemanha e Japão). Com isso as pregações em língua estrangeira passaram a ser proibidas e os cultos tiveram de ser celebrados obrigatoriamente em português. A igreja CCB já vinha se adaptando com a elaboração do hinário bilíngue.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Protestantismo na América do Sul - Preambulo



            O movimento religioso amplamente conhecido pela alcunha de Reforma Protestante completou quinhentos e dois anos. Certamente que muito se tem falado e escrito sobre este fenômeno religioso que produziu e continua produzindo movimentos sísmicos no mundo cristão ocidental.
            Mas para grande vergonha nossa, apensar do protestantismo se fazer presente a mais de cento e sessenta anos no Brasil e na América do Sul, sem mencionar a América Central e o Caribe, pouco sabemos do que aconteceu e como aconteceu esta presença protestante nos diversos países que compõe este lado do mundo americano.
            É bem provável que saibamos mais sobre a história protestante na América do Norte e na Europa do que da história do protestantismo em nosso próprio país e nos nossos países vizinhos sul-latinos. Somente muito recentemente, após a implantação dos cursos de Ciências da Religião em diversas Universidades brasileiras é que se começou de fato a fazer pesquisas mais profundas em relação ao protestantismo nacional. Todavia, o processo decorrente da implantação protestante entre nossos vizinhos de fronteiras e de integração latina continua ainda completamente desconhecido para nós, como creio que a nossa história lhes é também obscura.
            Minha expectativa é que a partir desta data tão significativa do movimento fecundante do protestantismo mundial, possamos avançar sistematicamente na redescoberta da rica história protestante sul americana, que permanecem soterradas nas mais profundas minas do tempo histórico e que somente com muito esforço, suor e lágrimas haveremos de extrair e posteriormente lapidar essas preciosas gemas da historiologia protestante de nossa região americana.
            Para o bem ou para o mal coube ao Brasil, o maior entre todos os países desta América, ser o único de fala portuguesa, enquanto todos os demais “hermanos” adotaram a língua espanhola. Mas, afora a latitude e longitude que nos une, temos toda uma história comum que nos identificam. E também compartilhamos do mesmo transfundo religioso do catolicismo romano que imperou soberanamente por no mínimo três séculos, mas que vagarosa e paulatinamente foi sendo remodelado pela chegada continua e crescente de missionários protestantes que aqui foram estabelecendo suas múltiplas denominações evangélicas, em sua grande maioria de origem estadunidense.
            Assim como ocorre com o jogo em que a pessoa precisa ligar os pontos para poder desvendar qual a figura que ali se faz invisível ao primeiro olhar, assim também se faz necessário interligarmos as centenas de pontinhos históricos do protestantismo sul americano, para quem sabe um dia podermos contemplar com nossos olhos a enorme e pujante figura do protestantismo que apesar de um século e meio ainda permanece invisível.
            Longe de mim qualquer sentimento de arrogância ou desmerecimento do incansável esforço que um numero expressivo de historiadores tem feito no transcorrer do tempo para interligar alguns destes pontos e assim nos permitir antever ao menos um pequeno esboço desta enorme figura que é o nosso protestantismo sul americano. Creio que demonstrarei todo reconhecimento e toda honra a esses esforços no transcorrer das referências bibliográficas que acompanharam cada uma de minhas postagens. É através delas que haveremos de dar forma e visibilidade ao nosso protestantismo; é nessas preciosas fontes que haveremos de apreender o ethos protestante sul americano.
            Ainda a título de preambulo, é preciso esclarecer, que por culpa única e exclusiva nossa grande parte das bibliografias referentes ao protestantismo sul americano foram produzidas por autores de viés católico romano e em sua grande maioria o fizeram pela ótica histórica-marxista, para interpretarem a implantação e desenvolvimento do protestantismo em nossa América. Como pesquisadores não deixaremos de se utilizar de trabalhos tão arduamente produzidos, mas temos a liberdade de examinarmos os mesmos fatos por uma ótica diferente, que não implica em ideia conservadora ou liberal, mas apenas de um ângulo diferente e com implicações diferentes dos autores mencionados acima.
Período de Implantação
            Assim como ocorreu no Brasil o restante da América do Sul permaneceu um celeiro exclusivo da Igreja Católica Romana. Uma presença protestante foi se esboçando de forma muito tímida e restrita no continente, mas de forma gradativa.
            Na formação dos Estados Nacionais abrem-se brechas para a introdução de uma mínima liberdade de culto, muitas vezes restritos aos denominados grupos étnicos, mormente imigrantes de origem europeia, todavia, a atividade prosetilista permanece em suspeição. É preciso lembrar que a religião católica e os governos imperiais, posteriormente os diversos governos civis nacionais, no que concerne aos âmbitos da América do Sul, sempre mantiveram cordões umbilicais fortíssimos, dando sustentação a ambos os lados da questão, influenciando e sendo influenciados concomitantemente.
            Na mesma proporção em que as contradições de cunho econômico e político foram aflorando no Continente, as aberturas para outras formas de expressão religiosa cristã foram surgindo e sendo aproveitado principalmente pelas diversas denominações evangélicas norte americano, uma vez que os europeus haviam deliberado que o Continente Sul Americano não se constituía um campo missionário.
Os primeiros esforços missionários protestantes começam a ocorrer por volta dos anos de 1855/56 e acentuam-se cada vez mais, mas ainda que o catolicismo estivesse debilitado pelas mudanças político-econômicas, ele sempre manteve uma forte hegemonia que cerceou os esforços missionários protestantes.
O que vai ocorrer na América do Sul espanhola é o que aconteceu no Brasil português, os protestantes conseguem se estabelecerem nos países por sua força binômia econômica-educacional, mas não conseguem estabelecerem sua cultura protestante. As classes sociais permitem e até estimulam seus filhos a estudarem nas escolas protestantes, mas não abrem mão de que sejam formados na religião da família. Os mandatários dos governos civis e suas classes sociais desejam o progresso proporcionado pelas ideais protestantes, mas não querem a religião protestante, que por sua vez é totalmente autônoma em seus status quo protestante norte americano.
Essa dicotomia prevaleceu de tal forma que os diversos ramos protestantes se contentaram em se estabelecerem em segmentados extratos sociais, pejorativamente chamados de guetos, e comodamente foram construindo seus pequenos feudos-religiosos, com seus castelos bem fortificados (templos); suas infraestruturas básicas: hierarquias eclesiásticas; escolas, hospitais, etc... O catolicismo por sua vez optou por perder os anéis e conserva os dedos, e aqui estamos no século XXI.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
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sábado, 23 de novembro de 2019

Síntese da História da Igreja Cristã - 3º Século



O Confronto
Estamos entrando no terceiro século da história da Igreja. O evangelismo progride, a organização eclesiástica se torna mais eficiente e o cristianismo começa a brilhar intelectualmente. Mas o Império Romano está em franca decadência, guerras civis, pandemias, invasão estrangeira e um colapso na economia e desesperadamente tenta reestabelecer o culto imperial como ponto de convergência da população. O Confronto com o Cristianismo em crescimento por todo o Império será inevitável!
Lúcio Septímio Severo ou Septímio Severo – governou  193-211 DC (18 anos)
Fev. 197-198 – governou como único imperador
198-211 – governou junto com seu filho mais velho: Caracala
209-211 – governou junto com seus filhos: Caracala e Geta
Nome de nascimento: Lúcio Septímio Severo (Lucius Septimius Severus)
Nome de imperador: César Lúcio Septímio Severo Pertinax Augusto (Caesar Lucius Septimius Severus Pertinax Augustus)
Pai biológico: Públio Septímio Geta, que obteve a cidadania romana no século I
Mãe: Fúlvia Pia, descendente cidadãos italianos e habitantes do Norte da África
Esposa: Júlia Domna, uma mulher árabe da Síria
Filhos: Lúcio Septímio Bassiano (Caracala) e Públio Septímio Geta. Geta foi assassinado pelo seu irmão mais velho, pouco depois da morte do seu pai.
Orígenes, cognominado Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesaréia ou ainda Orígenes, o Cristão. Ele tinha dezessete anos quando a perseguição do imperador Lúcio Sétimo (Septímio) Severo (193 a 211)[1] contra os cristãos eclodiu em 202. Este jovem promissor nasceu em Alexandria em uma família cristã. Ele escapou por pouco da perseguição, mas seu pai está entre as vítimas, e os bens da família foram confiscados. Ao completar dezessete anos ele se torna responsável por sua família. Para poder manter a mãe e seis irmãos menores, Orígenes abriu uma escola de gramática (literatura), e na ausência de quadros qualificados, pois os mestres que não foram mortos tiveram que fugir, convidado pelo bispo Demétrio de Alexandria, então com 18 anos de idade, assume a direção da escola de catecúmenos, que posteriormente se constituirá em uma das mais expressivas Escola de Hermenêutica da igreja cristã.  Ele está tão interessado na filosofia neoplatônica, como também nas matérias de lógica, dialética, ciências naturais, ética e exegese da Sagrada Escritura. Sua reputação acadêmica extrapola o contexto da comunidade cristã de Alexandria e pagãos e gnósticos passaram a frequentar a escola de catecúmenos para aprender diretamente do jovem mestre.
Incentivado e sustentado por Ambrósio, um homem rico de Alexandria que por causa da pregação de Orígenes, havia abandonado a heresia valentiniana convertendo-se à ortodoxia da Igreja, Orígenes viaja muito, visitando Roma, Cesaréia, Jordânia, chegando a ser levado com escolta militar a Antioquia, onde a mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Maméia, desejava conhecer melhor o cristianismo. Mesmo sem mídia jornalística e eletrônica Orígenes torna-se uma espécie de “celebridade mundial” da época, segundo relata Hans von Campenhausen (2005, p. 51): “o governador da Arábia solicitou ao seu colega egípcio e também escreveu ao bispo Demétrio uma carta amável pedindo que fosse permitido que Orígenes desse algumas palestras em sua presença”.
Tendo por base as informações de Eusébio de Cesaréia, em sua obra “História Eclesiástica”, Orígenes é o personagem da Igreja primitiva que mais escritos e dados biográficos deixou à posteridade. Eusébio dá conta de 2.000 escritos, enquanto Epifânio diz que Orígenes escreveu impressionantes 6.000 obras. Posteriormente outro grande historiador Jerônimo faz uma pergunta retórica: “alguém já leu tudo que foi escrito por Orígenes?”. Ao menos 800 desses escritos chegaram até nossos dias. Uma das obras mais extraordinária sem dúvida alguma é a Hexapla, que foi a primeira tentativa cristã de estabelecer o cânon da Escritura (Bíblia) de uma maneira minimamente acadêmica (dentro do que se podia considerar ciência à época). Infelizmente a maior parte dela se perdeu; consistia numa exposição paralela, em seis colunas, do texto hebraico do Antigo Testamento, da sua transliteração em letras gregas, e as quatro versões gregas que circulavam naquela época: a de Áquila, a de Símaco, a Septuaginta e a tradução de Teódoto. Em alguns trechos, como em alguns Salmos, diante de outras versões, Orígenes expandia a Hexapla para nove colunas. Certamente essa foi amenina dos olhos de Orígenes, que durante toda sua vida sempre acrescentava, corrigia ou revia algumas posições.  
Outra obra de Orígenes que se destaca é de cunho apologético “Contra Celsum”. Celso era um filósofo pagão, que havia escrito uma obra anti-cristã chamada “O Verdadeiro Verbo”, que tinha alcançado significativa repercussão, sobretudo por ter sido bem escrito e fundamentado. Por insistência de Ambrósio, que pediu a Orígenes que refutasse Celso, ele escreve está obra refutando um por um os argumentos de Celso, tornando-se um modelo de como foi travado o combate acadêmico-literário entre cristãos e pagãos no começo da Igreja. Orígenes foi conhecido, à sua época, pelo apelido de Adamâncio (“o homem de aço”), por sua coragem e fé, pois nunca temeu as perseguições imperiais e nunca se curvou diante do mal, ele morreu em 254 em Tiro.
Orígenes foi sem dúvida o maior teólogo dogmático do terceiro século. Tudo indica que recebeu sólida formação religiosa (sob Clemente) e também secular, completada na escola do filósofo Amônio Sacas, pai do neoplatonismo, o que lhe permitiu ter uma erudição filosófica incomparável entre os Pais da Igreja. Seu maior mérito foi saber utilizar a própria cultura greco-romana a serviço do pensamento e da exegese cristã, aos quais ele desenvolveu seu método. Ele veio a se constituir em um dos sólidos fundamentos da teologia ortodoxa cristã que estava sendo estabelecida. Orígenes ajudou a formular boa parte da doutrina ortodoxa cristã. Como destaca o historiador Justo Gonzales, Orígenes sempre fez questão de frisar que Deus não pode ser compreendido por qualquer inteligência humana, porque “Deus é invisível, não apenas no sentido físico, mas também no sentido intelectual, pois não há mente que seja capaz de contemplar a essência divina. Não importa quão perfeito seja nosso conhecimento sobre Deus, devemos constantemente nos lembrarmos que Deus é muito mais elevado do que qualquer coisa que nossa inteligência possa conceber (De principiis, 1.1.5)” (2004, p. 210-211).
Orígenes é de certa forma o emblema deste terceiro século, que vê o cristianismo cada vez mais se integrar à sociedade greco-romana, adota um tecido intelectual, vive em um ascetismo rigoroso, chegando ao extremo de voluntariamente castrar-se (interpretando ao pé da letra Mateus 19.12), e sofre perseguições pontuais, mas sérias. Na primeira metade deste terceiro século, o jovem Cristianismo está crescendo consideravelmente. Por volta de 250, há cristãos em todo o Império Romano. A organização das comunidades cristãs está progredindo.
O catecumenato (o ensino que precede a entrada na Igreja) chega a durar até três anos. O candidato é questionado sobre seus motivos, promete desistir de certas profissões, como serviço militar, e recebe instruções. O batismo é o assunto de um ritual complexo. A questão do perdão dos pecados é debatida: os rigoristas[2] acreditam que os pecados não são remissíveis e implica a exclusão definitiva da comunidade de cristãos, outros pregam em favor de um tempo de penitência mais ou menos longo.
Essa questão será debatida pelos grandes teólogos da época, entre eles, Tertuliano, um cartaginense[3] nascido por volta de 160 em uma família pagã e convertido ao cristianismo no final do segundo século. Ele é o criador do latim literário cristão e, assim, abre o caminho para uma teologia propriamente ocidental. Ele introduzirá um vocabulário jurídico nos textos teológicos - por exemplo, ele fala mais prontamente de "crime" do que "pecado" – influenciando toda a teologia ocidental. Suas obras foram escritas entre os últimos anos do século II e as duas primeiras décadas do século III. Suas frases tornaram-se refrãos na boca dos cristãos: ‘o sangue dos mártires é a semente da igreja’; ‘a unidade dos hereges é o cisma’, ‘creio porque é absurdo’ (JOHNSON, 2001, p. 63). Irreconciliável com quaisquer tentativas de amalgamar a doutrina cristã com quaisquer outras fontes combate com veemência as proposições de Marcião: “Quem sois vós? Desde quando existis? Quem vos deu o direito, ó Marcião, de serdes lenhador no meu bosque? Essa terra é minha, tenho os títulos autênticos, recebidos dos proprietários, a quem essa terra pertenceu: sou herdeiro dos apóstolos” (citado por Adalbert G. Hamman (1995, p. 72). O Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs (2002, págs. 1348/9) traz uma lista de suas principais obras, dividindo-as em três categorias - os escritos apologéticos, os doutrinais e os polêmicos - mas estabelecendo uma ordem cronológica. Hubertus R. Drobner  em sua obra afirma que “apesar de tudo Tertuliano foi lido até a Idade Média, sendo considerado tão importante que, segundo o relato de Jerônimo (“De viris illustribus 53”), Cipriano lia diariamente suas obras, e, quando queria tê-las à mão, bastava que dissesse a seu notarius: ‘Traze-me o mestre’’ ((2003, p. 161).
Tertuliano propõe uma visão de Deus como o supremo legislador. O cartaginense é o defensor de um cristianismo muito rígido, que exalta o martírio, a virgindade e rejeita o mundo pagão. Não é de admirar, então, que ele considere os pecados graves cometidos após o batismo como atos imperdoáveis ​​de traição e que acabe se juntando aos montanistas, conhecidos por seu grande rigor moral. Para os bispos, sua posição é insustentável. Os cristãos vivem ao lado de pagãos todos os dias, vivendo em um império onde o cristianismo é uma religião marginal, tolerada, mas não aceita. A gota d’água para Tertuliano ocorreu, segundo ele, quando um “grande bispo” (provavelmente Calixto de Roma) decidiu que a Igreja tinha o poder de conceder a remissão de pecados após o batismo, mesmo de pecados sérios como o adultério ou mesmo a apostasia.[4] Tertuliano reagiu de forma contundente, pois percebia a crescente hierarquização que se estava estabelecendo na eclesiologia cristã.
Perpassando a primeira metade do terceiro século, a vida cristã ainda é caracterizada por rigoroso ascetismo. O celibato se destaca como um modelo por uma busca de espiritualidade e desta forma mais desejável do que o casamento. As mulheres virgens têm posição de honra na Igreja e formam uma ordem à parte. É condenável o luxo excessivo e uma vida simples ainda é um ideário, o álcool deve ser consumido com moderação. A prática de esportes e banhos públicos é permitida, desde que não levem à promiscuidade, mas os shows são proibidos por causa das paixões idólatras que despertam.
O cristianismo, embora não tenha status oficial, paulatinamente vai penetrando as diversas camadas sociais. A ascensão social do cristianismo chama atenção do poder romano que pressente perigo interno, que somados a outras frentes belicosas ameaçam a estabilidade do império neste terceiro século: bárbaros nas fronteiras, decadência interna, crise econômica, etc. A população é chamada a fechar fileiras em torno do culto imperial, o principal fator de coesão. Mas os cristãos se negam a participam dos cultos imperiais. A era das perseguições gerais contra os cristãos está se antevendo. Destina-se à eliminação total, se não dos próprios cristãos, pelo menos da religião cristã.
O primeiro golpe vem do imperador Décio (Caio Méssio Quinto Trajano Décio), era um general muito tradicional e que acreditava no culto ao Império Romano assim como em suas tradições. No final de 249, dezembro ou no início de janeiro de 250, ele promulga um decreto que obriga todos os cidadãos a realizar um ato de culto em favor dos deuses oficiais, na presença de um oficial do governo. O imperador encontrou assim um meio infalível de identificar cristãos. A perspectiva clássica apoiada pela historiografia cristã é de que essa foi a primeira perseguição verdadeiramente geral e destinada ao extermínio do cristianismo, ainda que outro discordem dessa premissa.[5] Houve cristãos que compraram o certificado, sem que tivessem se apresentado às autoridades; outros que, após sacrificarem aos deuses, iam pedir perdão à Igreja; os mortos se multiplicam, mas também o numero dos que apostatam e que vai se constituir em problemas internos da Igreja posteriormente. A pressão diminui para desaparecer no transcorrer de 254.
Valeriano (Publius Licinius Valerianus – 253-260), que chegou ao poder em 253, desencadeou a segunda perseguição geral em 257 de agosto. Um primeiro edito proibia o culto cristão e as reuniões em cemitérios, e intimava bispos, padres e diáconos a sacrificarem a ídolos. Em 258, um segundo decreto reforça essas medidas e ordena a execução dos membros da hierarquia cristã que não adoraram os deuses e o confisco das propriedades dos cristãos de alta classe, ficando evidente que as motivações eram muito mais de cunho econômico do que religioso. O decreto é rigorosamente aplicado e o resultado é uma sangrenta perseguição. As vítimas são mais numerosas do que durante a perseguição promovida por Décio, especialmente no Egito, Cartago (martírio de Cipriano de Cartago) e Espanha (martírio do bispo de Tarragona), na capital Roma, eminentes figuras cristãs são executadas dentre os quais o Papa Sisto II, bispo de Roma e mais sete diáconos, incluindo Lourenço , mártir, queimado vivo em uma fornalha.
Felizmente Valeriano foi capturado humilhantemente pelos persas em 260 e seu filho Galiano (Publius Licinius Egnatius Gallienus) assume como único Imperador e imediatamente publica (260) um edito de tolerância que daria início a um período de relativa tranquilidade de quarenta anos, restaurando a legalidade do culto cristão e restituindo as propriedades confiscadas das igrejas, incluindo cemitérios. Esse período de paz chegará a um fim abrupto com as perseguições promovidas por Diocleciano e Galério.
No entanto, como já vimos, a questão da restauração aos que durante a perseguição apostataram produz um embate interno intenso nas comunidades e concílios cristãos. Na África, onde as perseguições foram mais violentas e mortais, Cipriano de Cartago defende uma política de reintegração em condições severas. Mas ainda é uma posição muito suave aos olhos de um grupo, liderados por Novaciano, que hoje seria chamado de fundamentalista, e que vai estabelecer uma Igreja cismática, que vai perdurar até o século VII. Eles retomam a prática antiga: negando a restauração de quaisquer culpados de “pecados para morte”, incluindo aqui os apóstatas durante as perseguições. Mas haverá de se normatizar a decisão dos concílios de Roma (251) e Cartago (252) em que se permitia a restauração em condições muito rígidas de penitência.
No final do século III, o Oriente está mais organizado, o Ocidente menos. As diferentes Igrejas locais não têm um líder supremo na cabeça, elas gozam de uma grande autonomia. Quando surge um problema doutrinário, eles se reúnem em conselhos provinciais ou interprovinciais para discuti-lo. As decisões são tomadas em perfeita colegialidade, sem proeminência ou subserviência entre os diversos bispos.
Enquanto as igrejas vão se estabelecendo em concílios cada vez mais organizados, o Império Romano continua seu processo de fragmentação. O imperador Diocleciano (Diocletianus) que chegou ao poder em 284, empreende uma restauração política e dá-lhe uma virada absolutista. Nesse contexto, o imperador se torna igual aos deuses. Uma vez resolvidos os problemas sócio-políticos, Diocleciano ataca o cristianismo. Num império que se tornou totalitário, uma Igreja autônoma que ri do culto imperial se torna inadmissível. Ele ordena um recenseamento religioso detalhado em todo Império e os dados confirma que os cristãos estão estabelecidos em todos os lugares e em crescimento. No período de Décio havia em torno de três milhões e agora somam mais de 10 milhões. Os cultos cristãos tornam-se públicos e realizados em templos formosos; muitas pessoas de classes sociais mais elevadas tornam-se cristãos, incluindo pessoas do circulo familiar do próprio imperador. Mas a luz de alerta acende de vez quando soldados e até oficiais negam-se a sacrificar aos deuses. É preciso dar um basta! Começa decretando que nenhum soldado ou funcionário público fosse cristão – não foi muito efetivo. Instigado por Galério, cuja mãe era devota dos deuses, e após consultar seus conselheiros baixa quatro decretos contra os cristãos: Primeiro Edito (20 fevereiro 303) - igrejas são destruídas, os livros sagrados são queimados, as reuniões (cultos) cristãs são proibidas, funcionários públicos são demitidos e os que resistem são presos; Segundo Edito (junho de 303) - os líderes das igrejas são presos juntamente com criminosos, visando desarticular a igreja; Terceiro Edito (setembro de 303) – libertar os que aceitassem oferecer sacrifícios aos deuses e torturar os que se recusassem, e conforme o historiador cristão Eusébio “houve muitas mortes, principalmente no norte da África”; ao que tudo indica no Ocidente este decreto não teve uma aplicação mais intensa. Até aqui o objetivo era quebrar a resistência dos cristãos e inibir o crescimento da igreja; Quarto Edito (abril de 304) – agora todos os cidadãos devem sacrificar aos deuses sob pena de morte – o resultado foi um banho de sangue principalmente nas jurisdições de Diocleciano (Ásia Menor, Síria, Palestina e Egito), nas de Galério (Trácia, Iliríco) e de Maximiano (Itália, Espanha e África), a exceção foi Constâncio Cloro.
Mas a dinâmica da História é implacável e em alguns anos, a situação mudará completamente: o cristianismo logo se tornará a religião do Estado, e será a vez dos cristãos mostrarem intolerância em relação aos pagãos e outros hereges.
Sucinta Cronologia do Terceiro Século da Igreja Cristã
202     Imperador Severo lança uma perseguição. Proibição do proselitismo judaico e cristão
226     Início da dinastia Sassânida na Pérsia (o último Império Persa pré-islâmico).
235     Perseguição promovida pelo Imperador Maximiliano.
242     Início da pregação de Mani, fundador do maniqueísmo (filosofia religiosa sincrética e dualística)
249 ou 250   Perseguição promovida pelo Imperador Décio.
257     Perseguição promovida por Valeriano.
270     Antônio (Antão), primeiro anacoreta no deserto.
277     Primeiras invasões bárbaras
284     Diocleciano no poder
297     Edito de perseguição contra os maniqueus (Mani, maniqueísmo)

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
Para ler outras obras de Tertuliano (em várias línguas), acesse:
Para ler outras obras de Orígenes (em várias línguas), acesse:
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[1]  Foi o primeiro cidadão oriundo de província, sem ascendentes romanos, a atingir o trono. Quando morreu foi proclamado Divus pelo senado. Dinastia Severa (193-235 DC): Septímio Severo, Públio Sétimo Geta, Lúcio Septímio Bassiano (Caracala), Marco Opélio Macrino, Marco Aurélio Antonino (Heliogábalo ou Elagábalo), Severo Alexandre.
[2] Rigoristas de Roma (século III) negavam readmissão aos que haviam apostatado em tempo de perseguição e aos impuros e assassinos.
[3] Os cartagineses, desde os tempos de Aníbal e das Guerras Púnicas, 3 séculos antes de Cristo, nutriam uma especial aversão a Roma, e o cristianismo, nos seus primórdios, foi um fator aglutinador também do sentimento anti-romano. É nesse contexto que nasceu e viveu Tertuliano.
[4] Lapsi (latim para "caídos") era o nome dado aos apóstatas ou cristãos que renegaram sua fé.
[5] Para M. M. Sage diz que as ações de Décio visavam destruir a estrutura e o poder da Igreja, em vez de exterminar fisicamente seus membros (1975, 187-190). Todavia, naquele momento o cristão não podia ser tão facilmente distinguidos da estrutura eclesiástica.