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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Protestantismo na América do Sul - Preambulo



            O movimento religioso amplamente conhecido pela alcunha de Reforma Protestante completou quinhentos e dois anos. Certamente que muito se tem falado e escrito sobre este fenômeno religioso que produziu e continua produzindo movimentos sísmicos no mundo cristão ocidental.
            Mas para grande vergonha nossa, apensar do protestantismo se fazer presente a mais de cento e sessenta anos no Brasil e na América do Sul, sem mencionar a América Central e o Caribe, pouco sabemos do que aconteceu e como aconteceu esta presença protestante nos diversos países que compõe este lado do mundo americano.
            É bem provável que saibamos mais sobre a história protestante na América do Norte e na Europa do que da história do protestantismo em nosso próprio país e nos nossos países vizinhos sul-latinos. Somente muito recentemente, após a implantação dos cursos de Ciências da Religião em diversas Universidades brasileiras é que se começou de fato a fazer pesquisas mais profundas em relação ao protestantismo nacional. Todavia, o processo decorrente da implantação protestante entre nossos vizinhos de fronteiras e de integração latina continua ainda completamente desconhecido para nós, como creio que a nossa história lhes é também obscura.
            Minha expectativa é que a partir desta data tão significativa do movimento fecundante do protestantismo mundial, possamos avançar sistematicamente na redescoberta da rica história protestante sul americana, que permanecem soterradas nas mais profundas minas do tempo histórico e que somente com muito esforço, suor e lágrimas haveremos de extrair e posteriormente lapidar essas preciosas gemas da historiologia protestante de nossa região americana.
            Para o bem ou para o mal coube ao Brasil, o maior entre todos os países desta América, ser o único de fala portuguesa, enquanto todos os demais “hermanos” adotaram a língua espanhola. Mas, afora a latitude e longitude que nos une, temos toda uma história comum que nos identificam. E também compartilhamos do mesmo transfundo religioso do catolicismo romano que imperou soberanamente por no mínimo três séculos, mas que vagarosa e paulatinamente foi sendo remodelado pela chegada continua e crescente de missionários protestantes que aqui foram estabelecendo suas múltiplas denominações evangélicas, em sua grande maioria de origem estadunidense.
            Assim como ocorre com o jogo em que a pessoa precisa ligar os pontos para poder desvendar qual a figura que ali se faz invisível ao primeiro olhar, assim também se faz necessário interligarmos as centenas de pontinhos históricos do protestantismo sul americano, para quem sabe um dia podermos contemplar com nossos olhos a enorme e pujante figura do protestantismo que apesar de um século e meio ainda permanece invisível.
            Longe de mim qualquer sentimento de arrogância ou desmerecimento do incansável esforço que um numero expressivo de historiadores tem feito no transcorrer do tempo para interligar alguns destes pontos e assim nos permitir antever ao menos um pequeno esboço desta enorme figura que é o nosso protestantismo sul americano. Creio que demonstrarei todo reconhecimento e toda honra a esses esforços no transcorrer das referências bibliográficas que acompanharam cada uma de minhas postagens. É através delas que haveremos de dar forma e visibilidade ao nosso protestantismo; é nessas preciosas fontes que haveremos de apreender o ethos protestante sul americano.
            Ainda a título de preambulo, é preciso esclarecer, que por culpa única e exclusiva nossa grande parte das bibliografias referentes ao protestantismo sul americano foram produzidas por autores de viés católico romano e em sua grande maioria o fizeram pela ótica histórica-marxista, para interpretarem a implantação e desenvolvimento do protestantismo em nossa América. Como pesquisadores não deixaremos de se utilizar de trabalhos tão arduamente produzidos, mas temos a liberdade de examinarmos os mesmos fatos por uma ótica diferente, que não implica em ideia conservadora ou liberal, mas apenas de um ângulo diferente e com implicações diferentes dos autores mencionados acima.
Período de Implantação
            Assim como ocorreu no Brasil o restante da América do Sul permaneceu um celeiro exclusivo da Igreja Católica Romana. Uma presença protestante foi se esboçando de forma muito tímida e restrita no continente, mas de forma gradativa.
            Na formação dos Estados Nacionais abrem-se brechas para a introdução de uma mínima liberdade de culto, muitas vezes restritos aos denominados grupos étnicos, mormente imigrantes de origem europeia, todavia, a atividade prosetilista permanece em suspeição. É preciso lembrar que a religião católica e os governos imperiais, posteriormente os diversos governos civis nacionais, no que concerne aos âmbitos da América do Sul, sempre mantiveram cordões umbilicais fortíssimos, dando sustentação a ambos os lados da questão, influenciando e sendo influenciados concomitantemente.
            Na mesma proporção em que as contradições de cunho econômico e político foram aflorando no Continente, as aberturas para outras formas de expressão religiosa cristã foram surgindo e sendo aproveitado principalmente pelas diversas denominações evangélicas norte americano, uma vez que os europeus haviam deliberado que o Continente Sul Americano não se constituía um campo missionário.
Os primeiros esforços missionários protestantes começam a ocorrer por volta dos anos de 1855/56 e acentuam-se cada vez mais, mas ainda que o catolicismo estivesse debilitado pelas mudanças político-econômicas, ele sempre manteve uma forte hegemonia que cerceou os esforços missionários protestantes.
O que vai ocorrer na América do Sul espanhola é o que aconteceu no Brasil português, os protestantes conseguem se estabelecerem nos países por sua força binômia econômica-educacional, mas não conseguem estabelecerem sua cultura protestante. As classes sociais permitem e até estimulam seus filhos a estudarem nas escolas protestantes, mas não abrem mão de que sejam formados na religião da família. Os mandatários dos governos civis e suas classes sociais desejam o progresso proporcionado pelas ideais protestantes, mas não querem a religião protestante, que por sua vez é totalmente autônoma em seus status quo protestante norte americano.
Essa dicotomia prevaleceu de tal forma que os diversos ramos protestantes se contentaram em se estabelecerem em segmentados extratos sociais, pejorativamente chamados de guetos, e comodamente foram construindo seus pequenos feudos-religiosos, com seus castelos bem fortificados (templos); suas infraestruturas básicas: hierarquias eclesiásticas; escolas, hospitais, etc... O catolicismo por sua vez optou por perder os anéis e conserva os dedos, e aqui estamos no século XXI.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/


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