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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Calvino e a Importância da Música (1ª Parte)



            É geralmente tomado como fato que a Reforma era hostil a todas as formas de artes e ofícios; que era um movimento intelectual frio, austero e que procurava acabar com a arte e a beleza e estabelecer uma conformidade cinzenta em toda a Europa. Calvino, em particular, é visto como o amargo inimigo da arte e do prazer estético, mostrando não apenas uma mera falta de interesse pelas artes, mas se opondo a elas vigorosamente como as ferramentas do diabo. Mas os fatos demonstram que não passa de uma grande falácia.
            A maioria das críticas a Calvino são decorrentes da extrema ignorância de seus críticos sobre o trabalho realizado por esse reformador. Tais críticos nem ao menos se deram ao trabalho de ler na integra, assim como a maioria dos que se dizem calvinistas, de sua obra magna as “Institutas da Religião Cristã”, e seus comentários bíblicos, que no Brasil demorou quase um século e meio para ser traduzida em português, após a implantação do protestantismo calvinista no país no final dos oitocentos.
 Evidentemente que nem Calvino e nem suas obras são inspirados, caso contrário ele deveria ser canonizado e suas obras inseridas ao cânon das Escrituras. Nem mesmo os largos elogios que lhe são feitos por seus admiradores seriam por ele endossado, pois ele sabia o quanto era pecador e dependente permanentemente da graça de Deus. Sua teologia e seus comentários são devedores a todos aqueles que o antecederam e que batalharam permanentemente pela fé genuína que emana unicamente das Escrituras, que se constitui na verdadeira tradição reformada.
Uma das críticas mais ferinas e injustas sobre Calvino é que ele e sua teologia eram nutridos por um intelectualismo-teológico antiartístico. Essa alcunha pejorativa foi impressa de tal forma em Calvino que as pessoas passaram a ter uma aversão permanente de tudo que se pareça com calvinismo.
Muitos fazem concessões a Lutero, alegando que ele tinha um veio artístico e apoiou as artes em seu processo de reforma religiosa. Mas quando se referem a Calvino os termos são contundentes e implacáveis: “altivo e cruel”, “o mais fanático dos líderes da Reforma”, “o mais implacável dos iconofóbicos”,[1] e responsável por fazer “de uma só vez secar o coração e a alma”[2]. Na Inglaterra, John Pyke Hullah participou de um ciclo de palestras no Instituto Real, no qual afirmou que “Calvino, ao contrário de Lutero, parece nunca ter reconhecido a música como um meio de expressão religiosa, dificilmente para tê-lo apreciado como um auxílio à devoção” (1875, p. 57-58). M. Douen um pastor protestante, em seu trabalho sobre Saltério Huguenote Francês revela um viés indisfarçável contra Calvino em suas duras palavras: "O Papa de Genebra... um inimigo de todo prazer e distração, mesmo das artes e da música". E não satisfeito ele continua: “Calvino é do tipo dogmatismo autoritário, antiliberal, antiartístico, anti-humano e anticristão” (1878-79, I, 377). Se tais definições partem de personas protestantes, não se deve deixar impressionar as opiniões daqueles que não referendam a religião, como o caso do líder revolucionário francês Voltaire que em sua passagem por Genebra a descreve como uma cidade em que as pessoas “nunca podem sorrir”, cujos cânticos extraídos do saltério bíblico são “versos miseráveis” e seus pregadores são do tipo “monótono e mortal” e conclui que os semblantes dos cidadãos genebrinos são tristes. O padre católico Mainbourg descreve o calvinismo como uma religião seca que é um reflexo do temperamento do próprio Calvino (cf. DOUMERGUE, 1977). Seria de fato Calvino merecedor destas definições tão implacáveis? O que ele pensava sobre a arte e mais especificamente sobre a música? O que ele fez em relação a elas?
O reformador genebrino laborou em meio às mais intensas aflições e perseguições. Não foi tempo de vitrais coloridos e capelas sistinas, mas de centenas e milhares de mártires, onde mães e esposas assistiam seus filhos e esposos sendo torturados e mortos das formas mais vis e cruéis; os huguenotes franceses foram assassinados a sangue frio; quais os motivos que tinham para que ornamentassem seus santuários com estátuas e quadros, para que construíssem catedrais românicas ou góticas!
Outro aspecto negativo da época de Calvino foi sem dúvida os excessos praticados em nome de uma religiosidade totalmente desconectadas dos fundamentos bíblicos. A pintura, escultura e acentuadamente a música eclesiástica estavam carregadas de licenciosidade e muitas explicitamente depravadas, a ponto de ser condenada até mesmo pelas lideranças católicas romanas, a grande patrona destas expressões “artísticas”. O famoso e tão celebrado Concílio de Trento considerou tais expressões de “arte” como sendo aberrações, em prejuízo à genuína arte. O reformador de Genebra tinha plena ciência de todos esses excessos e não fechou seus olhos para esta triste realidade, de maneira que para inibir tais expressões antibíblica estabeleceu critérios extremamente rígidos à luz de uma concepção bíblico-teológica quanto à arte e à música na esfera eclesiológica.
            Apesar do contexto, exemplificado acima, Calvino jamais abriu mão da genuína arte e música. Em suas Institutas e nos comentários bíblicos podemos verificar sua concepção de arte original e encantadora. Para ele a arte, em todas as suas formas, está dentro do contexto da graça comum de Deus em relação ao ser humano criado à sua imagem e semelhança. A beleza indescritível da criação – “e viu Deus que era bom” – e mais especificamente na criação do ser humano – “e viu Deus que era muito bom” – refletem a beleza e glória do próprio Deus. Ainda que o pecado tenha deturpado esse reflexo da beleza divina, a natureza e o próprio ser humano ainda são capacitados por Deus a expressarem coisas lidas e maravilhosas que enchem os olhos e alegram a alma.
            De forma desequilibrada muitos teólogos calvinistas se concentram na graça especial, relacionada à salvação, e colocam na periferia a graça comum; por seu lado os críticos afunilam ainda mais e miram todo seu arsenal anti-calvinista na doutrina da predestinação e ignoram completamente sua teologia da graça comum. Mas para Calvino a graça comum não é menos considerável ou menos real do que a graça especial – são os dois aspectos da mesma teologia. A vida pós-queda somente é suportável em decorrência da manifestação permanente da graça comum, pela qual Deus distribui dons a todos os seres humanos – faz chover para bons e maus. Calvino declara: “não nego que sejam dons de Deus todas as virtudes e excelentes qualidades que são vistas nos infiéis” [...] E conclui ele afirmando que todas essas virtudes, ou como ele prefere denominar - imagens de virtudes – “são dons de Deus, visto que nada é de algum modo louvável que não venha dele” (Institutas III, 14.2). E comentando este aspecto do pensamento de Calvino o Rev. John Marcarthur conclui que a fonte de qualquer verdade é decorrente da revelação de Deus e quando os incrédulos tratam a respeito da verdade eles vão ao encontro da verdade divina e não o contrário (2005, pp. 508-509). Deus nunca abriu mão deste mundo e permaneceu atuante, não apenas na criação, mas igualmente na humanidade “através das graças universais como a capacidade de exercitar excelentes virtudes. Por cause disso, o cristão não deve rejeitar a priori todos os frutos provenientes da cultura humana” (ALMEIDA, 2007, p. 73).
            Assim sendo, esta graça comum, distinta da graça especial e da comunidade da fé, se constitui na base da sociedade humana - com sua ciência, sua indústria, sua filosofia e sua política. Quando teólogos e historiadores cirurgicamente amputam do pensamento teológico de Calvino a graça comum e mais alguns outros aspectos, o que sobra é uma teologia totalmente mutilada e desfigurada, hedionda e repulsiva – mas, isso não é mais calvinismo.
            A razão para que tratemos da graça comum é porque nela encontram-se as artes que “são instiladas por Deus em nossos entendimentos” e que nos fazem “contemplar a bondade de Deus”, que se constitui no “único autor e mestre de todas essas artes”, pois todas “as artes procedem de Deus e dever ser consideradas invenções divinas” (Comentário Isaías 28.29; Comentário Êxodo 31.2).
            E o que Calvino quer dizer por “artes”? Os precipitados ou mal intencionados apressam em afirmar que ele se refere apenas as artes liberais e mecânicas, mas certamente o entendimento de Calvino é muito mais amplo, como ele deixa claro em seu comentário de Gênesis (4.20): “Agora, embora a invenção da harpa, e de instrumentos musicais semelhantes, possa ministrar ao nosso prazer, e não à nossa necessidade, ainda assim não deve ser considerado supérfluo: muito menos merece, por si só, ser condenado”. Fica claro que ele não condena ao inferno as artes que visam o deleite (contentamento, gozo, prazer, alegria, satisfação). Sua única e inflexível ressalva é que este deleite não pode jamais estar desconectado do “temor de Deus e às necessidades comuns da sociedade humana”, a regra legítima para aprovar ou reprovar qualquer expressão de arte, o que nenhum cristão em sã consciência pode negar. Ele não tinha uma visão romântica de que todas as expressões artísticas, incluindo a música, são sagradas ou que as palavras não importam. Ele conhecia suficientemente bem a natureza humana decaída e sabia que a mente humana era uma fábrica permanente de ídolos, e que o poder peculiar das artes de influenciar e transformar as torna uma força perigosa se usadas ​​de maneira errada.
Calvino rejeitou com veemência a ideia, então vigente, de que imagens e arte representacional deveriam estar na igreja como "livros para os indoutos". Outros sucumbiram à tentação de exagerar o adorno de seus templos, mas para ele a verdadeira beleza da igreja não estava na decoração ou nas imagens, mas na vida espiritual e na unidade dos seus membros. Por esta razão foi intransigente em não transformar o culto e/ou templo em um teatro ou galeria de arte - mantendo firme a doutrina de que a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos deveriam ser primordiais nas celebrações e nos espaços cúlticos reformados. O que em hipótese alguma prova que Calvino não valorizasse as artes e a particularmente a música.
            E para aqueles que ainda não estão satisfeitos, em seu prefácio ao comentário do Saltério de Genebra (metrificados dos salmos bíblicos) explicitamente revela o alto grau de importância e relevância que ele tinha para com a música:
Importância da Música
Agora, entre as outras coisas apropriadas para recriar o homem e dar-lhe prazer, a música é a primeira ou uma das principais; e é necessário que pensemos que é um presente de Deus designado para esse uso. Além disso, por isso, devemos ter mais cuidado para não abusá-lo, por medo de sujá-lo e contaminá-lo, convertendo-o em nossa condenação, onde foi dedicado ao nosso proveito e uso. Se não houvesse outra consideração, além disso, deveria realmente nos levar a moderar o uso da música, para fazê-la servir a todas as coisas honestas; e que isso não deve dar ocasião para darmos livre rédea à dissolução, ou nos tornarmos efeminados em delícias desordenadas, e que não deve se tornar o instrumento da lascívia nem de qualquer vergonha.
Poder da Música
Mas ainda há mais: dificilmente existe no mundo algo que seja mais capaz de virar ou dobrar dessa maneira a moral dos homens, como Platão considerava prudentemente. E, de fato, descobrimos por experiência que ela tem um poder sagrado e quase incrível para mover corações de uma maneira ou de outra. Portanto, devemos ser ainda mais diligente em regulá-la de tal maneira que nos seja útil e de modo algum perniciosa. Por essa razão, os antigos doutores da Igreja se queixam com frequência disso, de que as pessoas de seu tempo eram viciadas em canções desonestas e sem vergonha, que não sem motivo se referiam e chamavam de veneno mortal e satânico por corromper o mundo. Além disso, ao falar agora de música, entendo duas partes: a letra, ou assunto e conteúdo; segundo, a música ou a melodia. É verdade que toda palavra ruim (como disse São Paulo) perverte o bom modo, mas quando a melodia está presente, ela penetra muito mais fortemente o coração e entra nela; da mesma maneira que através de um funil, o vinho é derramado no vaso; assim também o veneno e a corrupção são destilados nas profundezas do coração pela melodia[3].
            Para os que acusam Calvino de ser meramente racional e destituído de emoções é preciso destacar a importância que ele dá ao “coração” tanto quanto ao intelecto, como as bússolas a nortear a vida cristã. Em sintonia com a grande orquestra bíblico-teológica por ele regida, o “coração” permeia as páginas de suas Institutas, com frequência cada vez mais singular – “mas a língua sem o coração é muito desagradável para Deus”.
            Como podem seus críticos o acusar de produzir uma teologia “sem intestinos”, sem emoção, sem sentimento? Como aceitar passivamente as palavras injuriosas de Ferdinand Brunetière, um importante estudioso da literatura francesa: “o horror à arte é e deve permanecer um dos traços essenciais e característicos do espírito - da Reforma em geral e da Reforma Calvinista em particular” (PHILIP Benedict, apud FINNEY, 1999, p. 21).
            Todas essas falácias serão questionadas no próximo artigo quando haveremos de demonstrar de forma concreta o genuíno pensamento de Calvino sobre a música como uma legitima expressão, primeiramente de louvor e adoração a Deus, mas também como fonte de alegria e prazer para a vida do cristão[4].

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante

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Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Fernando de. Calvino e cultura: uma abordagem histórico-teológica sob a perspectiva da doutrina da graça comum. Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2007. [Orientador: Dr° Paulo Rodrigues Romeiro].
BENEDICT, Philip. Calvinism as a Culture? Preliminary Remarks on Calvinism and the Visual Arts. In: FINNEY, Paul Corby (Ed.). Seeing beyond the Word Visual Arts and the Calvinist Tradition. Michigan: Eerdmans Publishing Company Grand Rapids, 1999. Cap. 2, p. 19-46.
CALVINO, JOÃO. Institución de Ia Religión Cristiana. Países Bajos: FELiRé, 1986.
COSTA, Hermisten M. P. A Imagem de Deus no Homem segundo Calvino, p. 7. <http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/A_lmagem_Deus_Homem
DOUEN, Orentin. Clément Marot et le Psautier Huguenot. Paris: 1878-79, I, p. 377.
DOUMERGUE, Emile. Music in the ou Work of Calvin. Banner of Truth magazine, 1977 (January).
ELWELL, Walter A. (org). Enciclopédia Histórico-teológica da Igreja Cristã. São Paulo, Vida Nova, 1990;
FINNEY, Paul Corby (Ed.). Seeing beyond the Word Visual Arts and the Calvinist Tradition. Michigan: Eerdmans Publishing Company Grand Rapids, 1999.
GARSIDE, Charles Jr. Calvin's Preface to the Psalter: A Re-Appraisal. The Musical Quarterly, Vol. 37, No. 4 (Oct., 1951), pp. 566-577. Published by: Oxford University Press Stable: http://www.jstor.org/stable/739611
KUIPER, Herman. Calvin on Common Grace. Grand Rapids, Michigan: Oosterbaan & Le Cointre, Goes, Netherlands and Smitter Book Company, 1928.
MACARTHUR, John. Pense Biblicamente. São Paulo: Hagnos, 2005.
HULLAH, J. P. Hullah. The History of Modem Music. 2nd ed. London: 1875.


[1] Pessoa que tem medo ou receio à aproximação ou convívio cultural e social de imagens.
[2] Estas expressões estão são citadas em um discurso de Emile Doumergue, um dos mais eminentes dentre os biógrafos de Calvino e foi proferido na 'Salle de la Reformation', em Genebra, em abril de 1902. Foi traduzido e impresso na Princeton Theological Review, outubro de 1909.
[3] Da edição fac-símile de: "Les Pseaumes mis en rime francoise por Clément Marot e Théodore de Béze. Mis musique a quatre parties por Claude Goudimel. Par les herériers de François Jacqui" (1565) - http://www.spindleworks.com/library/calvin/calvinpsalterpreface.html
[4] Neste artigo e no próximo utilizo como roteiro a palestra proferida pelo eminente biógrafo de Calvino Emile Doumergue, conforme referencias bibliográficas.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Farel - Como Lausanne Tornou-se Reformada



            Farel, William (1489–1565)
Pioneiro da Reforma Protestante na Suíça

A cidade de Lausanne, na Suíça, é conhecida pelos brasileiros em decorrência do grande Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em julho de 1974, onde se reuniram mais de 2.400 participantes de 150 nações e que deu origem à chamada Teologia da Missão Integral, ainda hoje repercutindo no mundo inteiro. Desta conferência foram produzidos muitos documentos dos quais um ou outro foram traduzidos em português.
            Mas se desconhece quase que por completo a história desta cidade e que se constitui na razão pela qual a Conferência ocorreu nela e não em tantas outras cidades Suiças mais celebres historicamente falando como Genebra ou Berna, das quais temos um pouco mais de informação sobre o processo de reforma religiosa pelas quais passaram em meados do século XVI.
Um dos personagens proeminentes dos eventos reformistas que a cidade de Lausanne experimentou foi Guilherme Farel. Esse personagem da galeria dos reformadores do século XVI, apesar de ser pouco comentado, foi fundamental para que essa cidade Suíça e outras, inclusive Genebra, viessem aderir ao movimento da Reforma Protestante que a partir da Alemanha vinha se espalhando por toda a Europa.
Farel, de origem francesa, havia feito diversas tentativas frustradas de obter autorização das autoridades para pregar em Lausanne. A cidade antiga, com seu orgulhoso bispo, sua grande catedral, amiga de padres e monges, sempre esteve muito bem guardada contra as heresias reformistas. Mas a situação política da cidade mudou radicalmente, pois o Cantão Pays de Vaud, cuja capital era Lausanne, conseguiu sua independência e agora havia uma nova administração pública que fazendo uma entrada triunfante em Lausanne destituiu o todo poderoso bispo católico, que rapidamente deixou a cidade. Escrevendo a um sobrinho Farel registra: "Fizemos uma excelente recepção em Friburgo", e a recepção por parte da população havia sido muito animadora.
O Conselho de Berna estava determinado a efetivar a mudança religiosa na nova Província de maneira que se decretou um debate público, muito comum naquela época, entre os padres católicos e os pastores protestantes. A data definida para o debate foi de 1 a 10 de outubro de 1536, dando tempo para que os padres da cidade encontrassem os doutores hábeis para o debate. O Imperador Carlos V emite um documento proibindo o debate, mas as autoridades suíças não tomaram conhecimento da ordem emitida pelo então grande imperador de toda a Europa. Por outro lado, Carlos V tinha preocupações muito maiores com a França de Francisco I, de maneira que os acontecimentos de Lausanne eram naquele momento de menor relevância.
Guilherme Farel elaborou dez artigos que sintetizavam a teologia reformada: reafirma a supremacia da Bíblia, a justificação pela fé somente, o sumo-sacerdócio e mediação de Cristo, o culto espiritual sem cerimônias e imagens, a santidade do casamento e a liberdade cristã na observância ou não das questões indiferentes, como jejuns e festas [santas]. Foi dele também o sermão de abertura da assembleia em 1º outubro, bem como o sermão de encerramento no dia oito, que nos revela a relevância dele neste período de mudanças religiosas profundas. João Calvino, ainda jovem, chegou a participar das discussões, cujo principal oponente foi o francês Claude Blanchrose, um dos médicos da corte que havia se estabelecido em Lausanne, mas diante do trabalho de Farel e Viret, ficou plenamente satisfeito, de maneira que se absteve de maiores intersecções no transcorrer dos debates.
A disputa foi realizada na Catedral de Lausanne, contrariando a vontade dos clérigos que, incapazes de impedir a alegada profanação do edifício, removeram uma imagem altamente venerada da Virgem Maria e dos santos para um lugar de segurança. Na abertura das atividades da assembleia Von Wattenwyl, o oficial de justiça sênior, fez saber a todos os presentes qual era o objeto da disputa: a necessidade de encerrar os distúrbios que haviam surgido no país por causa das questões religiosas. Ele fez um juramento aos debatedores, de que ouviria os dois lados com a mesma imparcialidade e aplacaria todos os conflitos e permitiriam que o apelo final fosse feito somente às Escrituras. Os debatedores ficaram frente a frente, tendo o mediador no centro: pelo lado protestante, Farel, Viret,[1] Calvino,[2] Caroli,[3] Fabri, Marcourt e Le Comte; e, pelo lado católico romano, vários sacerdotes e monges estavam presentes, como Drogy, Mimard, Michod, Loys, Berilly e Claude Blancherose, dominicanos e franciscanos de Lausanne, os agostinianos de Thonon e todo o sacerdócio dos distritos conquistados. Todos os debates foram feitos em francês.
Como é percebido Farel assumiu a liderança das discussões, ainda que todos os demais também expusessem as teses apresentadas. Uma a uma foram sendo colocadas e abertas para que seus opositores pudessem rebatê-las, todavia os clérigos romanos não conseguiam encontrar argumentações que pudessem rebatê-las e em grande parte tentavam atitudes evasivas fazendo ataques pessoais de forma injuriosa aos representantes protestantes.
Por sua vez, de forma firme e contundente os reformadores foram respondendo os protestos e objeções dos clérigos, sempre comparando Escritura com Escritura, os pais da igreja com os pais da igreja e os decretos de um concílio com outros, demonstrando sempre as incoerências e distorções produzidas pela igreja romana. A cada nova tese apresentada revelava-se aos presentes a ignorância dos clérigos romanos, bem como a decadência da própria igreja romana e muitas vezes o silêncio eram suas únicas respostas.
Em suas palavras finais Farel faz menção a uma trama orquestrada por líderes eclesiásticos romanos de Lausanne, para assassinar os ministros protestantes durante a trajetória para chegar à cidade e conclui que não há nele e nos demais companheiros um desejo de vingança, mas que oravam em favor de tais pessoas, para que se arrependessem e recebessem o perdão completo. O oficial de justiça dissolveu a assembleia e solicita que eles esperassem silenciosamente o resultado.
A partir destes debates na cidade de Lausanne as autoridades civis de Berna, em 1º de novembro do mesmo ano, decretam seria adotado em toda sua jurisdição o padrão reformado de fé em rejeição as doutrinas católicas romanas. Viret e Pierre Caroli foram designados pregadores e Viret lecionou, na mesma época, na academia fundada em Berna, em 1540. Farel e Calvino, bem como os demais companheiros retornam às suas cidades e prosseguem suas atividades, tomados por grande gratidão a Deus.  

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
KIRCHHOFER, Melchior. The life of William Farel, the Swiss reformer. London: The Religious Tract Society, 1837.
McGRATH, Alister. Christianity’s Dangerous Idea. New York: Harper One, 2008. p. 83-104.
M’CLINTOCK, John and STRONG, James Strong (Eds.). Cyclopædia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature. Vol X. New York: Harper & Brothers, 1894.
SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. v. 8. Grand Rapids: Christian Classics Ethereal Library, 2002. p. 142-148.


[1] Pierre Viret era o único suíço nativo entre os pioneiros do protestantismo na Suíça ocidental; todos os outros eram fugitivos franceses. Em Lausanne trabalhou como pastor, professor e escritor por vinte e dois anos.
[2] Em um aparte quando da tese sobre a Ceia, Calvino foi retomado em seguida por Calvin, que explicou tão claramente suas razões para rejeitar a transubstanciação, bem como os benefícios reais associados à Ceia do Senhor, que um constrangedor silêncio se fez por parte dos debatedores católicos e diante disso Tandi, um franciscano, confessou perante todos que fora vencido pelo poder da verdade e que, dali em diante, ele acreditaria no evangelho puro e regularia sua vida por ele.
[3] Caroli ficou por um curto período apenas. Depois de desavenças com Viret, Farel e Calvino e acusações sem fundamento de ensinavam doutrinas do arianismo, foi deposto como caluniador, e terminou voltando à Igreja Romana.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Calvino Singularidades: Testemunho Pessoal



Ao longo de sua vida Calvin escreveu pouco sobre si mesmo. Ao contrário de outros líderes que compartilharam suas experiências pessoais o reformador genebrês foi econômico no que tange às suas questões pessoais. Mas o pouco que ele compartilhou é de valor significativo. No entanto, ao elaborar o prefácio de seus comentários sobre os salmos, escritos já no último quarto de sua vida, o reformador genebrino abre o coração e nos permite um pequeno deslumbre de sua origem e vocação e lutas pessoais, dificilmente encontrados em qualquer outra parte de seus escritos.
O fato desse compartilhamento da intimidade pessoal acontecer no contexto dos salmos é significativo uma vez que ele os denomina de “uma anatomia de todas as partes da alma”, de maneira que se sente livre para expressar suas emoções. Ele se idêntica pessoalmente com Davi, pois entende que as lutas do salmista rei são semelhantes às suas lutas pastorais e líder da igreja e fez dos salmos seu modelo de orações.
Outra correlação é que Calvino nesse momento histórico (1557) está passando por grandes pressões e apreensões em seu ministério, consequência de suas edições ampliadas das Institutas cujos temas despertavam certo grau de descontentamento por parte de outras lideranças reformadas e total rejeição por parte de seus adversários.
Pois, embora eu siga Davi a uma grande distância, não chego a igualá-lo; ou melhor, embora, ao aspirar lentamente e com grande dificuldade, alcançar as muitas virtudes em que se destacou, ainda sinto-me manchado pelos vícios contrários; no entanto, se tenho algo em comum com ele, não hesito em me comparar com ele. Ao ler os exemplos de sua fé, paciência, fervor, zelo e integridade, ele (como deveria) extraiu de mim gemidos e suspiros desnutridos que estou tão longe de me aproximar; mas não obstante, tornou-se muito vantajoso contemplar nele como um espelho tanto o início de minha vocação quanto o curso contínuo de minha função; para que eu saiba com mais certeza que tudo o que aquele rei e profeta mais ilustre sofreu foi exibido para mim por Deus como um exemplo de imitação. Minha condição, sem dúvida, é muito inferior à dele, e é desnecessário demostrar isso. Mas como ele foi retirado do aprisco e elevado à categoria de autoridade suprema; então Deus, tendo me tirado de minha condição originalmente obscura e humilde, me considerou digno de ser investido no ofício honroso de um pregador e ministro do evangelho.
Quando eu ainda era criança, meu pai [Gérard Cau-vin] havia me destinado para o estudo da teologia. Mas depois, quando considerou que a profissão de advogado geralmente elevava aqueles que a seguiam à riqueza, essa perspectiva o levou a mudar de propósito de repente. Assim, aconteceu que fui retirado do estudo da filosofia e colocado no estudo do direito. A essa busca, esforcei-me fielmente em me aplicar, em obediência à vontade de meu pai; mas Deus, pela orientação secreta de Sua providência, finalmente deu uma direção diferente ao meu curso. E, primeiro, como eu era muito obstinadamente devotado às superstições do papado para ser facilmente libertado de um abismo tão profundo de lama, Deus, por uma súbita conversão, subjugou e trouxe a um ambiente de ensino minha mente, que estava mais endurecida em assuntos do que poderia ser esperados de mim em meu período inicial de vida. Tendo assim recebido algum gosto e conhecimento da verdadeira piedade, fiquei imediatamente inflamado com um desejo tão intenso de progredir nela, que, embora não tenha deixado de lado outros estudos, ainda os perseguia com menos entusiasmo[1]. (Genebra, 22 de julho de 1557). 
Neste recorte do Prefácio encontramos Calvino compartilhando um pouco de si mesmo. Percebe-se certa timidez e retração, mas também determinação e entusiasmo em alcançar seus objetivos, fossem os determinados pelo pai e educadores ou aqueles por ele mesmo proposto. De forma suscita é possível enumerarmos alguns pontos peculiares de seu caráter:
Ministério Pastoral: ele entendia que sua função ministerial constituía seu maior privilégio e a função de teólogo era subordinativa. Ele pessoalmente não se referia como teólogo e até mesmo via o termo “teologia” como instrumento de especulação comercial (não mudou muito desde então). Amou e foi fiel à vocação pastoral até o último suspiro (Calvino Singularidades:Pregando Até o Fim). Sua grande motivação vinha do exercício da “religião verdadeira” e não da “teologia”. Ainda que tenha sido uma das mentes mais brilhantes da teologia reformada, ele não se deixou encantar pelo “intelectualismo teológico” que ilude um grande numero de ontem e dos dias atuais.
Sua Conversão: ele deixa transparecer que sua conversão o marcou profundamente e tornou-se a bússola a indicar a direção a ser seguida por ele. Não fora algo que ele buscou, mas um ato da “providência secreta” de Deus, que mudou radicalmente seus planos imediatos e futuros. Entedia que suas atividades pastorais e teológicas se constituíam em instrumentos nas mãos de Deus para a realização de Seus propósitos eternos e que ele não podia nem resistir ou menosprezar tão grandes privilégios concedidos a ele para edificação da Igreja de Cristo. Sentia-se permanentemente devedor à providência que o resgatou do lamaçal do pecado e o fez digno de conduzir o rebanho de Deus.
Sua Adesão à Reforma: A mesma Providência que o converteu também lhe abriu a mente para perceber os excessos da igreja católica de seus dias e que o impulsionou continua e persistentemente a buscar o “conhecimento da verdadeira piedade”. Sua inserção no movimento protestante não se deu por questões políticas ou estratégicas, mas porque compreendia que no movimento protestante estavam as sementes germinadoras da fé sem mácula emanada das Escrituras, na linguagem dele “a genuína piedade”. Ele tinha plena consciência que o movimento da reforma tinha suas limitações e seus excessos e deturpações, que ele enumerou e fez as devidas e necessárias criticas e repúdios. Mas sempre interpretou a Reforma como o meio pelo qual Deus resgatou Sua Igreja e Sua Palavra do lamaçal em que os detentores do poder eclesiásticos os haviam lançado e mantido ao longo dos séculos. Todavia, teve a sensibilidade e discernimento de aproveitar tudo que havia de bom e rejeitar o que não se ajustava ao estudo sincero das Escrituras (Sua Relação com os Pais daIgreja).

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] A Selection from the PREFACE TO THE COMMENTARY ON PSALMS, 1557. TRANSLATED FROM THE ORIGINAL LATIN, AND COLLATED WITH THE AUTHOR'S FRENCH VERSION by the Rev. James Anderson - http://www.ccel.org (em português - tradução eletrônica livre).

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Verbete: Adventismo


No sentido amplo do termo é crença na iminente Segunda Vinda e/ou Advento de Jesus Cristo, como conclusão apoteótica da História humana. Mas em um sentido restrito tornou-se a alcunha do movimento que se originou nos ensinamentos de William Miller (1782-1849), de origem Batista, mas que acabou por o Deísmo. Posteriormente retornou às origens Batista como um ministro leigo, substituindo o pastor que se encontrava adoentado. A partir de seu estudo autodidata da bíblia, estudou avidamente as profecias bíblicas e identificou uma serie de textos bíblicos que podiam oferecer um paralelo com as datas contemporâneas (ex.: Jó 10.5; Sl 90.3; 2Pe 3.8) e vivenciando um período profícuo de junção das profecias bíblicas com o fascínio dos estudos matemáticos ele elaborou uma equação que definia o tempo exato da volta de Jesus - entre 1843 e abril de 1844. Mas somente a partir da década de 1830, incentivado pela esposa, começou a pregar suas pesquisas. Em um período aproximado de 13 anos onde percorreu as grandes cidades do país o movimento Milleritas reuniu um numero expressivo de 200 pastores e em torno de 100 mil pessoas para aguardar o retorno de Cristo. Mas para sua grande decepção todo seu esforço provou ser um terrível equivoco. Ele publicamente pediu desculpas e se afastou do ministério. O fracasso de suas previsões ficou conhecido como o - Grande Desapontamento - todavia o movimento iniciado por ele criou vida própria e se desenvolveu através de novos grupos que adaptaram suas perspectivas escatológicas sendo as mais conhecidas a Igreja Adventista do Sétimo Dia, as Testemunhas de Jeová e a Igreja de Deus, que se espalharam por todo o mundo.
Os milleritas (os seguidores dos ensinamentos de William Miller) se reagruparam em varias organizações distintas. Alguns ainda procuraram estabelecer novas datas para o retorno de Cristo, mas outros entenderam que apesar de ser eminente esse retorno ele não poderia ser previsto com exatidão cronológica.
O grupo de maior expressão – Igreja Adventista do Sétimo Dia – surgiu dezenove anos depois do – Grande Desapontamento – imbuídos da crença que eles eram a Igreja Remanescente do Tempo do Fim. O conceito de povo Escolhido foi muito importante para criar e manter a unidade após o período de divisões e conferir uma identidade denominacional. Ensinavam que Miller estava correto, mas que se tratava do inicio da purificação do Santuário Celestial (cf. descrito em Hebreus 9) e do período do Juízo Investigativo Estes dois conceitos tornaram-se a espinha dorsal dos Adventistas do Sétimo Dia.
James e Ellen G. White (de origem metodista), fundadores da igreja (1850-1860), adotou os preceitos do sabatismo e que dentro desse processo de purificação e restauração deveria se resgatar a pratica do sábado como dia de adoração (e não o domingo), bem como uma serie de observâncias do sistema religioso judaico, prescritos no Primeiro Testamento. As doutrinas distintivas desse movimento estavam definidas desde 1863 sob a liderança tripartite de Ellen e James White e Joseph Bates: o juízo investigativo (iniciado por Jesus Cristo em 1844 que será encerrado um pouco antes da volta de Cristo à Terra), o milênio (um período em que a Terra fica desolada), o sábado (como sinal da adoração verdadeira a Deus), o estado de inconsciência dos mortos e Ellen White (como profetiza da Igreja Remanescente, o Espírito de Profecia).
Após mais um fracasso em estabelecer uma data (1874) para o retorno de Cristo, o jovem estudante da bíblia em Pittsburgh, Charles Taze Russel, reinterpretou o ensino de Ellen G. White, de maneira que o ano de 1874 era de fato o tempo de Cristo, mas segundo ele o termo “parousia” (no grego “retorno”), também significava presença. Desta forma, segundo ele, Cristo tornou-se invisivelmente presente para a colheita final dos crentes; ele apareceria uma geração depois, por volta de 1914 e desta forma o milênio em que Cristo reinaria na Terra estava nascendo. O movimento liderado por Russel sofreu profundas mudanças após sua morte, emergindo como Testemunhas de Jeová nos anos 1930. Esse novo segmento distinguiu-se ainda mais do resto da comunidade protestante por suas duras críticas a outras igrejas, seu negação da Trindade e do inferno somados à seu proselitismo acentuado dos membros das demais denominações evangélicas.
Todavia muitos discordaram da questão da purificação do santuário celestial proposto por Russel, mas mantiveram os ensinos de White sobre o sábado e adoção das praticas judaicas bíblicas, de maneira que o movimento adventista se fragmentou ainda mais. Um desses novos grupos denominou-se Movimento do Nome Sagrado, liderados por Clarence Orvil Dodd (1930), que defendia o retorno às raízes hebraicas na vivência, crença e adoração. Sua ênfase estava no fato de que se deveria utilizar apenas o nome sagrado Yahweh (hebraico: יַהְוֶה), e transladado para o português como Jeová, e o nome hebraico de Jesus transladado como Yahshua. As Testemunhas de Jeová adotaram o nome Jeová como sendo o único nome sagrado de Deus. Ambos os grupos rejeitam a Páscoa e o Natal como expressões pagãs e observam os dias sagrados de Levítico 23, como a Páscoa e a Festa das Semanas e são movimentos não trinitários, pois afirmam que a doutrina da Trindade é antibíblica.
A partir da década de 1930, surge o grupo sabatista Igreja de Deus liderado pelo radialista Herbert W. Armstrong (1892-1986) como sua Igreja Rádio de Deus. Após a Segunda Guerra Mundial, Armstrong mudou-se para Pasadena, Califórnia, e mudou o nome para Igreja Mundial de Deus, usando rádio e depois televisão. Como parte integrante de seus ensinamentos, adotou o chamado israelismo britânico, cuja ideia central é de que as lendárias tribos perdidas de Israel deveriam ser identificadas com os povos modernos anglo-saxões. A igreja também desenvolveu uma versão modera dos antigos festivais hebraicos, praticou um sistema de dízimo e se separou das outras igrejas cristãs. Após a morte de Armstrong, seu sucessor, Joseph Tkach Sr., e seu filho, Joseph Tkach Jr., lideraram uma reforma na igreja e abandonaram todas as ideias distintas de Arnistrong, do sabatismo à teoria britânica de Israel, e a moldaram dentro do evangelicalismo ortodoxo. A maioria dos membros da igreja desertou e formaram outros grupos que continuaram os ensinamentos de Armstrong.
O movimento Adventista do Sétimo chegou ao Brasil em através das colônias alemãs estabelecidas no sul do país, visto que na fase inicial da expansão mundial o país mais receptivo à pregação adventista do sétimo dia foi a Alemanha e entre 1824 e 1947 estima-se que cerca de 250 mil alemães entraram no país. Foi no Estado de Santa Catarina que colportores (vendedores de literatura religiosa) adventistas encontraram muitas pessoas que eram sabatistas, mas que não faziam parte de nenhuma denominação especifica e nem eram batizados. Mas somente em 1895 o pastor adventista, responsável pelo Cone Sul J. H. Westphal realizou os primeiros batismos e estabeleceu as primeiras comunidades adventistas no país. Desta forma, ainda que a Igreja Adventista do Sétimo Dia não tenha sido trazida pelos imigrantes, esteve intimamente ligada à imigração alemã que ocorria em direção ao país. É o Brasil que atualmente apresenta a maior membresia em números absolutos deste movimento mundial, que se encontra estabelecido em mais de 200 países.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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