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segunda-feira, 3 de julho de 2023

Mulheres na Reforma Protestante – Anna Reinhard


          Quando se fala de Reforma Protestante nossa mente é tomada por uma série de nomes masculinos, mas poucos são capazes de se lembrar de pelo menos alguns nomes de mulheres que participaram ativamente deste movimento reformador ocorrido no hoje longínquo século XVI, mas que ainda hoje no século XXI exerce forte influência em muitos países, incluindo o Brasil.

          Ao começarmos a pesquisar sobre a vida destas mulheres descobrimos um manancial de fé, amor, força e desprendimento que não apenas nos encantam, mas acima de tudo nos desafiam. Se para os homens do medievo aderir ao movimento da Reforma era um desafio e exigia o máximo de cada um, para as mulheres os desafios eram ainda maiores e mais custosos – elas (como ainda hoje) tinham que equilibrar sua própria vida, de seu marido e seus filhos. Elas podiam, assim como apostolo Paulo, declararem que pesava sobre elas essa tremenda responsabilidade de levar o Evangelho puro a todos os ouvidos entupidos por toda sorte de desvios doutrinários e heresias idolatras.

          O meu convite é que você possa, assim como eu, descobrir cada uma destas mulheres e não apenas aprender com elas, mas se deixar ser desafiado por elas em fé e coragem. Que possamos com elas permanecermos firmes e inabaláveis em meios às maiores adversidades, bem como sermos pacientes nas tribulações. Cada uma delas figura na Galeria da Fé Reformada e parafraseando o escritor bíblico de Hebreus – o mundo não foi digno delas.

Anna Reinhard

          Propositalmente retiro o sobrenome de seu marido (Zwínglio) para que a nossa atenção possa ser centrada na figura dela, pois ela possui valor intrínseco, pois sua vida e história fala por si mesma.

          Não há registro oficial da data de seu nascimento, todavia os historiadores propõem o ano de 1484. Muito cedo um jovem amigo, de origem nobre chamado John Meyer von Knonau se encantou por sua beleza e personalidade, mas seu pai se opôs, então o rapaz tomou a decisão de fugirem e se casarem secretamente. Porém, este ato de rebeldia lhe custou muito caro. Foi deserdado, sendo que a herança do pai foi deixada para a madrasta.

O marido de Anna foi agora lançado aos seus próprios recursos. Tentou a carreira política sendo eleito vereador em 1511, mas os recursos eram escassos e a saída encontrada foi tornar-se alferes no exército suíço, indo com eles para a Itália nas guerras contra a França. Depois de várias campanhas ele retorna com a saúde bastante debilitada e morreu em 1517, deixando Anna viúva com dois filhos, uma menina e um menino. Ela havia tido uma segunda filha, mas ela faleceu ainda bebê.

O filho Gerald Meyer será o instrumento da providência divina para a jovem viúva. Era um menino que chamava a atenção e certo dia, com três anos, sendo levado ao mercado seu avô paterno o viu e se encantou pelo menino e depois de tomar conhecido que se tratava de seu próprio neto, esquecendo a frustração com o filho assume os cuidados do neto.  Aos nove anos o avô faleceu e ele continuou sendo cuidado pela avó (madrasta do seu pai), de maneira que somente aos onze anos, com o falecimento da avó-madrasta o menino retorna aos cuidados de Anna.  

A providência divina em ação. Anna estava travando sua luta para sustentar e educar seus filhos, embora estivesse limitada pelos seus poucos recursos. Neste interim o reformador suíço Ulrico Zwínglio veio para Zurique, sua pregação e sua personalidade atraia muitas pessoas, dentre as quais estava Anna, pois sua residência ficava na área atendida por esta paróquia.

No exercício de seu ofício paroquial Zwínglio tinha que dar assistência às famílias, foi quando passou a ter contato com a viúva e seus filhos. Logo percebe as necessidades da família, mas foi o agora jovem Gerald que lhe chama mais atenção. O reformador percebe os talentos da criança e oferece aulas particulares de grego e latim, que eram obrigatórios para entrar em qualquer colégio ou academia na época. Desta forma ao chegar aos onze anos o menino foi então enviado para estudar em Basileia, então um dos mais importantes centros literários da Suíça, fazendo de Zwínglio um tutor não oficial do rapaz. O menino se destacou tanto nos estudos acadêmicos que seu professor escreve a Zwínglio que se tivesse outros com semelhante aptidão podia ser-lhe enviados que os receberia como pai.

A relação do reformador com o filho de Anna manteve-se forte e quando o rapaz foi (1523) enviado de férias aos balneários em Baden, em vez de lhe dar o presente habitual, Zwínglio deu-lhe algo que era melhor. Escreveu um livro, intitulado "Como se deve educar e instruir a juventude nas boas maneiras e disciplina cristã” e dedicou-o a ele.[1] Esses detalhes são relevantes pois Gerald será o link entre sua mãe e o reformador.

Percalços e Entraves para o Casamento

Todo cenário estava preparado para que Zwínglio e Anna se casassem, todavia, naquele momento histórico de ruptura isso se constituiu em enorme problema, pois ainda um ranço muito forte de que ministro, mesmo que reformado, não deveria se casar. Enfrentando todas as oposições eles se casaram (1522), primeiramente em segredo, mas posteriormente assumiram publicamente (1524) apenas um ano antes do casamento de Martinho Lutero com a ex-freira Katharina von Bora, o que causou forte comoção, ainda que tenha repercutido mais em sua cidade natal do que propriamente em Zurique. Os romanistas e anabatistas (grupo radical dos reformados), chegaram a o injuriarem espalhando de que Zwínglio havia se casado interessado no dinheiro e na beleza dela. Ele se defendeu publicamente declarando que a renda da esposa alcançava pouco mais de 400 florins (1.053,44 reais) anuais.

Anna e suas Múltiplas Atividades

          Como tantas outras mulheres Anna não se acomodou com o simples papel de dona de casa. Ela tinha consciência de que olhos furtivos estariam sobre ela, até mais do que no marido. Sem que fosse pedido ou sugerido pelo marido, ela voluntariamente abriu mão de utilizar suas joias. Além de extremamente cuidadosa com as coisas da casa, filhos e marido, ela voltou-se para o campo da ação social trabalhando incansavelmente em favor dos desfalecidos e párias sociais, bem como dos enfermos dentro do campo pastoral de Zwínglio. Começou a ser chamada carinhosamente de a “Dorcas da Reforma”, referência à personagem descrita em no livro de Atos (Atos 9.36-43). Seu cuidado para com o esposo era ainda maior. Ela participava efetivamente de todos os momentos do reformador, fossem nas alegrias ou tristezas do ministério.

          Quando o esposo iniciou o trabalho precioso da tradução da Bíblia (1525), juntamente com outros reformadores de Zurique e que foi concluído depois de quatro anos (1529)[2] de árduo e exaustivo esforço (ele não tinha nenhum dos confortos mínimos de hoje, como por exemplo, luz elétrica).

          Anna era a primeira ouvinte dos textos traduzidos por Zwínglio pouco antes de irem dormir e era testemunha da satisfação de ouvir os evangelhos em sua própria língua suíça, na medida em que os textos eram produzidos. Quando saiu a primeira edição desta tradução completa ela recebeu de presente do esposo um exemplar. Imediatamente ela começa um projeto de financiar esta bíblia traduzida para cada família da igreja, pois o custo dos livros era muito grande no medievo.

          Ela está sempre atenta para a exaustão do esposo que muitas vezes se deixava absorver integralmente em suas múltiplas atividades pastorais. Era costume dele levantar-se muito cedo para aproveitar cada lampejo da claridade e acabava indo dormir muito tarde. Desta forma ela o fazia descansar um pouco mais.

Em suas relações interpessoais era bastante prudente evitando quaisquer conversas frívolas e se atentando para as conversas que edificavam. Anna tinha plena satisfação de conversas que podiam trazer novos subsídios para o seu entendimento bíblico e devocional. Amava ouvir as pregações de Zwínglio, mesmo antes de se casarem, trazendo novas percepções da pessoa e ensino de Cristo. Lembrando que ela cresceu em pleno romanismo em seu estágio mais deplorável - missas, peregrinações, relíquias, veneração de santos e a paisagem urbana dela era moldada pelo catolicismo (sete mosteiros e quatro igrejas).

          Por sua vez Zwínglio tinha o maior respeito pelo caráter e fé de Anna e em todas as oportunidades ele expressa esse reconhecimento. Em uma de suas poucas correspondências que foram preservadas ele se refere a Anna como uma amálgama entre Marta e Maria. Era a realidade dessa mulher, que soube como poucas equilibrar a família com uma vida cristã intensamente ativa.

Pela relevância que Zwínglio alcançava, sua residência estava sempre recebendo toda sorte de pessoas, dos amigos, aos irmãos da fé, bem como os refugiados que estavam sendo perseguidos e mortos pelas autoridades à serviço do romanismo.

Na ausência do marido era Anna que assumia o papel de anfitriã e conduzia as conversas e discussões sobre os temas cotidianos. Há várias referências de ilustres personagens históricos daqueles dias que ratificam o testemunho do caráter e do discernimento que Anna possuía a respeito das temáticas bíblicas, políticas e sociais.

Nem tudo eram flores, pois viviam em dias tremendamente difíceis. Zwínglio e demais expoentes da Reforma viviam em permanente risco de morte e Anna sabia muito bem disso. Cuidava em tempo integral da segurança do esposo, sempre atenta aos rumores e sempre precavida em relação à segurança dele.

Sabia que o marido não deveria sair sozinho à noite, pois poderia ser raptado e levado para algum cantão católico, assim como acontecera com John Huss que foi preso, julgado e condenado, por isso ela sempre arrumava alguém para viajar junto com ele. Tinha que ficar atento ao que ele comia pois havia o risco constante de ser envenenado. Sempre vigilante, Anna, mantinha sempre pessoas que poderiam socorrê-lo em uma emergência. Mesmo na cidade, não o deixava ir ou retornar de suas atividades pastorais sozinho, principalmente depois de escurecer.

Ela era a fiel guardiã e graças a essas ações muitas tentativas contra a vida de Zwínglio, embora próximas do cumprimento, foram frustradas. Em 28 de agosto de 1525, a casa deles foi apedrejada por dois cidadãos à noite, por exemplo, um susto sem efeitos colaterais maiores. Por todo esse zelo Zwínglio chamava Anna de “esposa anjo”, reconhecendo publicamente seu respeito e gratidão por ela.

Nuvens Escuras se Formam

          Apesar de toda tensão que Anna e Zwínglio viviam dias mais difíceis estavam por chegar. No dia 09 de outubro de 1531 é anunciado que o exército dos cantões católicos marcha contra a cidade de Zurique. Imediatamente foram convocados os soldados da cidade para enfrentar os inimigos. Zwínglio é convocado como Capelão desse exército.  Anna revê um filme que havia assistido com o primeiro esposo. Os soldados se reúnem na Praça da Cidade e ela ali se faz presente juntamente com os filhos. As lágrimas ficam incontidas, principalmente quando Zwínglio lhe fala: “Chegou a hora que nos separar”. Enquanto a esposa lhe dá um abraço de despedida, mesmo tomada pelo medo ela ainda consegue dizer-lhe: “Vamos nos ver novamente se o Senhor assim quiser”, e pergunta-lhe: “O que você trará quando retornar?”. E ele reponde: “Bênção após a noite escura”. Esse foi o último diálogo deles e as palavras do marido a confortou para as notícias que chegariam, pois ela cria que a bênção viria depois da noite escura da terra, tinha a forte convicção da luz bendita da pátria celestial.

          Retornando rapidamente para casa com os filhos, derrama-se diante do Senhor e ora as palavras de Jesus no Getsêmani: "Pai, não a minha vontade, mas a Tua seja feita”. Resoluta, aguarda as notícias advindas do campo de batalha. Chegam então as terríveis notícias, com a notícia da morte do marido vieram relatos sobre as mortes de seu filho Gerald, seu irmão, genros, seu

cunhado, seu primo e muitos amigos que também caído. Ela foi dominada pela dor e chorou amargamente com seus filhos (Grob 1883:192). A cidade foi tomada por sonoros gritos de lamentação e lágrimas, mas seu choro sobressaia-se e sua dor dilacerava seu coração.

A morte lhe cercou por todos os lados e então lhe chegou os detalhes horrendos de que o corpo de Zwínglio fora esquartejado e queimado e suas cinzas espalhadas por vários lugares – para que não ficasse vestígio algum dele. Poucos experimentaram tamanha dor e sofrimento. Um profeta experimentou tamanha dor e sofrimento, o profeta Jeremias: “Atendei, e vede, se há dor como a minha dor, que veio sobre mim,” (Lamentações 1.12).

 O consolo reconfortante veio de todos os lugares, desde os moradores da cidade, como das autoridades civis e religiosas. Muitos ministros reformados de outras cidades, como Bucer da cidade de Strasbourg, lhes escreveram cartas que muito a confortaram.

O jovem Henry Bullinger, o sucessor de seu marido lhe disse: “Nada te faltará, querida mãe” e de fato ele passou a cuidar dela e seus filhos, uma vez que Zwínglio quase nada havia deixado, pois tudo investia na obra.

Assim como o apostolo João se responsabilizou por Maria, Henry levou Anna com os filhos para sua casa, junto à sua família. Assumiu plenamente os cuidados paternais para com as crianças, supervisionando sua educação e quando o jovem Ulric alcançou idade foi enviado para Basileia custeado por Henry.

          Anna passou seus últimos anos vivendo para os filhos Regula, Ana, Guilherme, e Huldrych, de Zwínglio. Ainda que com menos intensidade continuou a atuar em seus esforços de atividades sociais junto à igreja e aos necessitados. Sua filha mais velha Regula herdou a beleza da mãe e a piedade dos pais. Casou-se com o jovem Rudolph Gualther, que se tornou o chefe da igreja em Zurique. Durante a terrível perseguição contra os reformados no reinado de Maria (a sanguinária) na Inglaterra, muitos refugiados procuram asilo na Suíça e vários encontraram abrigo na residência deste casal, entre tantos Grindal, que posteriormente foi constituído arcebispo de Canterbury. Após a morte de Regula o esposo escreveu: “ela soube afastar a tristeza e todo cuidado atormentador”, o que tão bem poderia ser dito de sua mãe Anna. A saúde de Anna foi se debilitando, mas enquanto teve forças jamais esmoreceu. Veio a falecer em 06 de dezembro de 1538.

O testemunho de Bullinger nos dá uma ideia do que foi a vida de Anna Reinhard Zwínglio:Não desejo um final de vida mais feliz. Ela faleceu tranquilamente, como uma luz suave, e foi para casa de seu Senhor, adorando e recomendando a todos nós a Deus”. Sua morte foi como sua vida - doce, tranquila, linda. A cena mais marcante de sua vida, e a mais dolorosa foi as mortes do marido e filho.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

 

 Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Rute Salviano. Uma voz feminina na reforma. A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma Protestante. São Paulo: Hagnos, 2010.

BAITER, H. Ulrich Zwingli e Gerold Meyer von Knonau.

GOOD, James I. Womem fo the Reformed Church. Published by The Sunday-School Board of the Reformed Church in the United States. 1901. [First Edition].

RUBLACK, Ulinka (ed). The Oxford Handbook of the Protestant Reformations [O Manual de Oxford das Reformas Protestantes]. Oxford: Oxford U.P., 2017.

STJERNA, Kirsi. Women and the Reformation. John Wiley & Sons, 2011.

TEIXEIRA, José Luiz Sauer. A atuação das mulheres nas primeiras comunidades cristãs. Revista de Cultura Teológica, v. 18, n. 72 - OUT/DEZ 2010.

UBIETA, Carmen Bernabé (Ed.) Mujeres com autoridade em el cristianismo antiguo. Espanã: Asociación de Te´plogas Esanõlas (ATE) e Editorial Verbo Divino, 2007.

VANDOODWAAR, Rebecca. Reformation Women: Sixteenth-Century Figures who Shaped Christianity's Rebirth. Reformation Heritage Books, 2017.

WARNICKE, Retha M. Women of the English Renaissance and Reformation. ABC-CLIO, 1983.

WILSON, Derek. Mrs Luther and her sisters: Women in the Reformation. Lion Books, 2016.

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[1] Esta se constitui em uma das primeiras, senão a primeira, obra no âmbito educacional, produzida por um reformador. A qual irei disponibilizar, em breve, no blog com a transcrição da dedicatória. Este trabalho foi selecionado por estudiosos como sendo culturalmente importante e faz parte da base de conhecimento da civilização como a conhecemos.

[2] Lembrando que o igualmente esforço extraordinário de Lutero em traduzir a Bíblia para a língua alemã, foi lançada somente em 1534.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

História da Igreja: A Comunidade de Reinos no Medievo

 

"Quando falamos de sabedoria, estamos a falar de Cristo. Quando falamos sobre a virtude, estamos a falar de Cristo. Quando falamos de justiça, estamos a falar de Cristo. Quando estamos a falar de verdade e de vida e redenção, estamos falando a respeito de Cristo "

O longo período de mil anos entre os séculos V e XV é o palco da ascensão e queda da Comunidade Medieval Europeia. Como vimos o caos causado pela queda do Império Romano, proporcionou à Igreja Cristã ascender ao topo do poder. Na mesma proporção em que os povos bárbaros conquistadores foram sendo cristianizados, a Igreja vai moldando todo o Ocidente à imagem e semelhança dos ideais cristãos [não necessariamente de Jesus Cristo] da vida comum das pessoas. Sobre os escombros do desaparecido Império Romano, o cristianismo vai construindo uma nova ordem social e uma política civilizadora, um "mundo único" cristão onde a unidade dos homens no Corpo de Cristo se expressava em dois aspectos: espiritual na Igreja universal e material/temporal no Império medieval.

Ainda que a Idade Média tenha recebido um triste apelido pejorativo de “Idade das Trevas”, e de fato do meio para o fim deste período as suas instituições tenham de fato entrado em convulsões morais e espirituais que acabaram desembocando no grande movimento da Reforma Protestante. Entretanto, nos dias de sua grandeza, nenhuma época produziu um senso mais elevado de dever e maior disposição para se sacrificar, ou uma concepção mais refinada da fraternidade comum entre as pessoas sob uma única ordem mundial cristã.

Liderança Cristã em um Mundo em Transformação

Os fundamentos sobre os quais a nova Europa haveria de ser construída serão estabelecidos pelos arquitetos da Comunidade Medieval, os líderes cristãos dos séculos IV e V. Dois personagens tornam-se representativos desse momento crucial e formativo, que no pensamento e na ação construíram a ponte sobre a qual o mundo Antigo passou para a Idade Média.

Ambrósio de Milão (339-397)[1]: governador vigoroso e hábil da cidade, exegeta bíblico, teórico político, mestre da eloquência Latina, músico e professor; em todos esses papéis, ele estava falando a respeito de Cristo. Embora o poder e a independência crescentes da Igreja na época de Ambrósio fossem reforçados pela legislação imperial, foi o trabalho de homens como ele que fizeram da organização cristã a única instituição estável na cena em mudança.

Foi firme nas questões concernentes às práticas pagãs; foi implacável em relação ao arianismo, que havia avançado bastante; e coroando sua postura singular enfrentou o imperador Teodósio I, o último imperador forte no Ocidente. E foi nesse embate entre os dois maiores poderes daquele momento que Ambrósio apresentou os princípios da relação entre Igreja e Estado que se constituirá na bússola norteadora do pensamento medieval.

Em 390 a.C. Teodósio ordenou um massacre de sete mil moradores de Tessalônica, horrorizando todo o mundo mediterrâneo. Depois disso, o imperador vai à basílica de Milão, no que foi impedido pelo bispo Ambrósio de participar dos sacramentos, até que houvesse demonstrado arrependimento. Nesse momento a Igreja e o Estado pararam! Mas o imperador acata a autoridade da Igreja e se retira acatando a pena que lhe foi imposta pelo bispo.

No pensamento de Ambrósio, a Igreja e no Estado se constituem dois poderes que se apoiam, mas independentes, um funcionando na esfera espiritual, o outro nos assuntos temporais. Quanto à religião, o dever do Estado ou do imperador cristão é proteger e apoiar a Igreja, fazer cumprir as decisões de seus conselhos ecumênicos e elaborar um código legislativo de acordo com os princípios morais cristãos.

Qualquer ação além dessas torna-se interferência. A independência da Igreja em relação à sua propriedade e à sua lei, bem como os privilégios e poderes do seu clero, devem ser respeitados e garantidos. Aqui, está a síntese do pensamento que determinou a relação da Igreja e do Estado no início da Idade Média, antes da imposição do poder supremo e universal do papado tornar-se dominante no Ocidente.

O pensamento vitorioso de Ambrósio está em nítida distinção com o princípio aceito na metade oriental do antigo império. Lá o conceito dos poderes divinamente dados do imperador, onde tanto a Igreja quanto o Estado estão debaixo de sua autoridade, era já difundido e cristalizado. Desta forma, o abismo entre a parte Oriental do cristianismo e seu lado Ocidental vai cada vez mais sendo ampliado, em decorrência dessas visões opostas da relação entre os poderes espirituais e temporais cristãos.

O Legado de Ambrósio

            Entre muito que poderíamos destacar na vida de Ambrósio uma que se reveste de particular atenção é a sua participação efetiva na conversão de Agostinho, cuja influência sobre o pensamento e a vida da igreja até aos dias de hoje é difícil de exagerar. Não somente as exposições bíblicas de Ambrósio, mas a amalgama com sua vida cristã piedosa atraíram e impactaram a vida do jovem Agostinho que sempre se refere a ele como muito apreço, como por exemplo, em suas Confissões:

“A Milão vim, ao Bispo Ambrósio ... cujo discurso eloquente dispensou abundantemente a Teu povo a farinha de Teu trigo, a alegria de Teu óleo e a sóbria embriaguez de Teu vinho. Por ele eu fui guiado por Ti sem saber, para que por ele eu pudesse ser conduzido a Ti conscientemente. Aquele homem de Deus me recebeu como um pai e mostrou-me uma bondade episcopal em minha vinda” (Confissões, livro 5 - itálico meu).

            Ele foi sem duvida alguma um baluarte na vitória da Ortodoxia Cristã contra as heresias produzidas principalmente pelo Arianismo. Tornou-se um exemplo em permanecer firme contra a arrogância de poderosos que praticavam atrocidades, incluindo o próprio Imperador. Ele não se encolheu diante dos poderosos ou ricos, mas manteve-se dentro dos padrões de justiça. Tal coragem é digna de emulação.

            Suas teses da relação entre igreja e o Estado em que ambos tinham suas esferas de autoridade e poder distintos foi ainda no nascedouro deturpado, inclusive por ele mesmo ao tomar ações que sobrepunham a igreja sobre o Estado. O que ao longo da Idade Média transformara a igreja em autoridade maior sobre todas as outras e reis e imperadores sucumbiriam diante dela. Mas este poder excedente acabou por deformar completamente a função da igreja trazendo danos irreparáveis à espiritualidade eclesiástica.

 

 Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Reflexão Bíblica

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Referências Bibliográficas
BROWN, Peter. A ascensão do Cristianismo no Ocidente. Lisboa: Editorial Presença, 1999.
BURNS, E. M. História da Civilização Ocidental. Vol. 1. 44. ed. São Paulo: Globo, 2005.
CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.
CHARLOTTESVILLE, Margaret Elizabeth Mohrmann. Wisdom anda the moral life: the teachings of Ambrose of Milan. A Dissertation Presented to the Graduate Faculty of the University of Virginia in Candidacy for the Degree of Doctor of Philosophy Department of Religious Studies University of Virginia January, 1995.
COLLINS, Ross William. A History of Medieval Civilization in Europe. Boston: Ginn and Company, s.d.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade média: nascimento do ocidente. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Brasiliense, 2001.
GONZÁLEZ, J. L. Dicionário ilustrado dos interpretes da fé. Tradução Reginaldo Gomes de Araujo. Santo André (SP): Editora Academia Cristã Ltda., 2005.
LOYN, Henry. R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.
MATOS, Alderi Souza de. A caminhada cristã na história: A Bíblia, a igreja e a sociedade ontem e hoje.Viçosa, MG: Ultimato, 2005.
NEWMAN, Albert Henry. A Manual of Church History – ancient and medieval church history. v. 1. Philadelphia: American Baptist Publication Society, 1900.
WALKER, W. História da Igreja Cristã. v. 1. Tradução D. Glênio Vergara dos Santos e N. Duval da Silva. São Paulo: ASTE, 1967.
WOODS, Thomas. How the Catholic Church Built Western Civilization. (Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental). Washington, DC, Regury Publishing Inc., 2005.
VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.



[1] “Anão Negro" era a alcunha que seus inimigos lhe davam. E o pequeno bispo egípcio de pele escura tinha muitos inimigos. Ele foi exilado cinco vezes por quatro imperadores romanos, passando 17 dos 45 anos que serviu como bispo de Alexandria no exílio. No final, seus inimigos teológicos foram "exilados" do ensino da igreja, e são os escritos de Atanásio que moldaram o futuro da igreja.


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

História Igreja – Personagens Influentes: Clemente de Roma

 

Clemente de Roma

            O apostolo João foi o último a falecer já próximo do final do primeiro século, encerrando o que é conhecido como o “período apostólico”. As comunidades cristãs já estavam espalhadas por todo o Império Romano, porém ainda sem a força político-social que haveria de alcançar em alguns séculos posteriores.

            Eusébio Pânfilo de Cesaréia (265-369), em sua inestimável História Eclesiástica, elaborada no início do século IV, resgata a importância desempenhada pelas lideranças eclesiásticas logo após o chamado período Apostólico, os quais passaram a ser conhecido a partir do século XVII como “Pais Apostólicos”, identificando desta forma o período histórico em que surgiram, meados do primeiro século e a primeira metade do século dois.

Alguns deles tiveram contato pessoal com algum dos apóstolos chamados pessoalmente por Cristo e/ou com alguém que os tinham conhecido pessoalmente. Desta forma, aqueles que desejam conhecer o contexto histórico imediatamente posterior à chamada Igreja Primitiva, esses são os personagens que precisam ser estudados. Poeticamente são considerados “o primeiro eco dos Apóstolos”.

Estas lideranças tiveram uma dupla responsabilidade sobre seus ombros: manter o ensino recebido na herança apostólica e o mais difícil desenvolver e consolidar a Igreja Cristã ao longo dos próximos séculos. A História vai registrar que os desafios deles foram tremendamente grandes. Entre muitos o historiador Eusébio destaca a figura de Clemente que vai exercer sua liderança eclesiástica com zelo e fidelidade (História Eclesiástica, III, 37,4-38,1).

Clemente Romano ou de Roma

             Tanto a sua origem como a sua morte está coberta por várias camadas de tradições, difíceis de serem verificadas e por esta razão difíceis de serem aceitas ou negadas em sua integralidade. O bom senso e a honestidade histórica nos recomendam muita prudência. Ainda que tais informações biográficas não deixem de conter um fundo de veracidade.

            As tradições vão desde que ele foi: um dos colaboradores de Paulo (cf. Fp 4.3) [endossada por Origines e Eusébio de Cesareia e seguido por Jerônimo]; um escravo liberto, da família romana Flávia, que posteriormente foi sagrado bispo pelas mãos de Pedro [cf. Ireneu de Lião e Tertuliano]; o autor da epístola aos Hebreus [cf. Orígenes]; um membro da família imperial dos Flávios (cf. Pseudo-Clementinas).

            O único documento informativo autenticado dele é a sua Carta dirigida aos Coríntios,[1] que comentaremos suscintamente abaixo, e mesmo que seu nome não esteja explicitado no documento, desde a Antiguidade não se coloca dúvida quanto à autoria de Clemente. Acrescenta-se ao documento o termo - Primeira - pela razão de que há uma - Segunda - carta dirigida aos Coríntios, mas que não é reconhecida como sendo de sua autoria. Reveste-se de importância histórica por ser um dos primeiros documentos cristãos a perdurar fora dos documentos canônicos preservados nas escrituras do Segundo Testamento ou Novo Testamento. Torna-se fonte primária de informações sobre a prática e o ensino da Igreja posterior à morte dos apóstolos.

            As informações biográficas de Clemente são escassas sendo uma fonte primária a oferecida por Irineu quase um século depois da morte dele, que informa que Clemente foi líder eclesiástico nos primórdios da igreja em Roma e que ele fez parte daqueles que viram “os apóstolos abençoados, e conversou com eles, e ainda tinha suas pregações soando em seus ouvidos...”; e de que “no tempo de Clemente, não pequena dissensão surgira entre os irmãos em Corinto” (LEIGH-BENNETT, 1920, c. 1).  

            Sua liderança na igreja em Roma é fixada em 92-101 dC. Com toda certeza essa comunidade cristã não decorre das atividades apostólicas de Pedro ou Paulo, mas sim do testemunho de grande número de cristãos convertidos após o Pentecostes e que tiveram que fugir de Jerusalém após a intensificação das perseguições movidas pelas lideranças judaicas do Sinédrio. O jovem fariseu Saulo de Tarso era um dos implacáveis perseguidores dos cristãos, mas veio a ser tornar Paulo, o apóstolo dos gentios e que ao redor dos anos de 60 dC, escreve uma preciosa epistola aos cristãos em Roma, expressando o desejo de conhecê-los pessoalmente e que posteriormente se tornou parte do Cânon neotestamentário.

            Exercer a liderança eclesiástica no final do primeiro século era sempre um risco de morte, pois periodicamente os imperadores romanos emitiam decretos promovendo a perseguição sobre os cristãos, inicialmente confundidos como sendo seita judaica, de maneira que seus líderes eram presos e até mesmo martirizados. Clemente exercendo a liderança na última década do primeiro século experimentou a perseguição promovida pelo imperador Domiciano (81 a 96 dC.), conforme deixa transparecer no início de sua carta aos Corintos, quando explica a demora em se comunicar com eles: “devido a infortúnios súbitos e repetidos e calamidades que nos sobrevieram…” (1 Clemente 1.1).

Carta de Clemente aos Coríntios [2]

            A epístola escrita por Clemente aos Coríntios pode ser dividida em duas partes: na primeira parte, como que preparando seus leitores para receberem a exortação corretiva, ele trata de forma comum de como todos os cristãos devem se comportar e somente a partir da segunda parte ele lida especificamente com as problemáticas cismáticas que estavam ocorrendo naquela comunidade cristã,[3] seguindo desta forma o modelo epistolar paulino.

            Outra inferência relevante para a História da Igreja é que em momento algum do documento Clemente avoca qualquer direito de liderança sobre todas as Igrejas, mas se comporta como um líder da igreja em Roma que se preocupa com a os acontecimentos lamentáveis que está a ocorrer em uma igreja irmã, revelando uma solidariedade para com a liderança estabelecida naquela comunidade. Desta forma é grave equívoco utilizar deste documento para se defender qualquer ideia de proeminência da igreja em Roma sobre as demais ou que Clemente seja um protótipo de um Papa como líder quer seja regional ou geral da igreja cristã.

            Alguns outros documentos foram atribuídos a Clemente, mas todos vieram a serem desacreditados como sendo de sua autoria. Uma segunda carta que leva o seu nome é na verdade um longo sermão anônimo e que se revela escrito em período muito posterior.

            Quanto à sua morte, as informações disponíveis não se revestem de valor histórico verificável e, portanto, confiável. O mais plausível é que tenha morrido poucos anos depois de ter escrito sua Carta aos Coríntios (AYÁN CALVO, 1994).

Epístola aos Coríntios [4]

As literaturas que haveriam de compor o futuro cânon neotestamentário já circulavam individualmente entre as comunidades cristãs e eram lidas como literatura revestida de autoridade apostólica, porém o cânon do Segundo Testamento será definitivamente concluído no quarto século.

            O período subsequente é denominado “pós-apostólico” inicia-se com o surgimento de novas lideranças eclesiásticas e alguns deles tiveram contato com João, o último dos apóstolos. As literaturas produzidas neste período são nominadas de “literatura dos pais apostólicos” e comumente incluem: a Epístola de Clemente, sete epístolas de Inácio, a Epístola de Policarpo, o material de catecúmenos Didaquê (chamado também de Ensinamento dos Apóstolos), a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. Por um curto período algumas lideranças em algumas poucas comunidades chegaram a considerar algumas dessas literaturas dos pais apostólicos no mesmo nível de autoridade que as obras dos próprios apóstolos, mas prevaleceu o consenso de não incluir nenhuma delas no cânon.

Ainda que não se encontre nenhuma referência direta da autoria da carta, há um consenso histórico de que Clemente de Roma a tenha escrito, visto que neste período exercia função eclesiástica na igreja em Roma.[5] A epístola é dirigida a igreja estabelecida em Corinto (cf. capítulo 1)[6] sendo a data provável por volta de 95 dC, conforme o abalizado trabalho efetuado pelo Dr. J. B. Lightfoot, [7] após a redescoberta do texto em sua inteireza em 1875, em que ele conclui que está data está em conformidade com o contexto histórico e hermenêutico do seu conteúdo. Esta opinião tem prevalecido como consenso acadêmico desde seu tempo.  Aceitando estes pressupostos esta epístola se constitui no primeiro documento cristão que temos pós-escritos apostólicos. Seu conteúdo é mais prático e pastoral do que teológico, ajustando-se harmoniosamente com os pressupostos anteriormente estabelecidos e preservados nos escritos apostólicos canônicos.

As igrejas ainda estavam em seus estágios iniciais e esforçando-se para manter o fio condutor em meio ao cenário complexo do Império Romano do século II. As grandes questões teológicas ainda virão e exigirão muito mais do que uma produção epistolar para trata-las. Havia, porém, muitos problemas e ameaças urgentes que precisavam ser resolvidos e que se constituem nas principais preocupações das novas lideranças eclesiásticas e Clemente juntamente com outras lideranças mantém o foco nesta problemática que ocorriam dentro das comunidades cristãs.

Como referido acima Clemente exercia a liderança eclesiástica na igreja em Roma na última década do primeiro século. Alguns advogam que ele possa ser o Clemente mencionado na epístola paulina aos Filipenses (4.3). Não é impossível, visto que sua autoridade é reconhecida entre as demais comunidades cristãs e quase nenhuma outra referência se encontra sobre ele.

Ele mantém o fio condutor no que concernem as doutrinas anteriormente definidas pelos apóstolos, que converge com as demais literaturas deste período pós-apostólicos. Por exemplo, Clemente usou a “fórmula trinitária”, pois no transcorrer da carta faz referências ao Pai, Filho e Espírito Santo como sendo igualmente Deus – embora os cristãos ainda não usassem a palavra Trindade para expressar especificamente esta doutrina. Defende em plena concordância com Paulo que a salvação é unicamente pela fé na morte de Cristo: “não somos justificados por nós mesmos, nem por nossas... obras que realizamos em santidade de coração; mas pela fé pela qual, desde o princípio, Deus Todo-Poderoso justificou a todos os homens...” (capítulo 32).

Sua atenção maior esta na crise de liderança e que acabou por produzir divisão na igreja de Corinto. Ele exorta seus leitores a buscarem a unidade em Cristo e o respeito às lideranças constituídas da igreja, pois esta unidade deve ser um reflexo da reverência à autoridade de Cristo.  Ameaças à unidade sempre foram as grandes preocupações do próprio Jesus (João 17.20-23) e dos apóstolos (Efésios 4.1-6; 1 Pedro 3.8-9). Ainda nos dias do apostolo Paulo a igreja em Corinto precisou ser severamente repreendida por suas divisões internas recorrentes (1 Coríntios 1.10ss.).

Pela leitura da carta por alguma razão, alguns membros, provavelmente uma geração mais jovem, se rebelaram contra os líderes da igreja a ponto de alguns desses líderes serem forçados a deixar suas posições, resultando em uma divisão na igreja. Alguns antecedentes do Novo Testamento em relação aos líderes da igreja seriam úteis neste momento. O Novo Testamento refere-se ao ofício principal da liderança da igreja como episkopos (cf. Filipenses 1.1; 1 Timóteo 3.1-2; Tito 1.7; 1 Pedro 2.25), que é traduzido por episcopal. O termo grego significa literalmente “supervisor”, mas em algumas versões inglesas mais antigas, como a King James Version, e em traduções dos Pais, como Clemente, é traduzida como “bispo”. Outra liderança é denominada de presbuteros (cf. Atos 14.23; Tito 1.5), traduzida por “presbítero” ou mais literalmente “ancião”, mas os termos são equivalentes não havendo grandes distinções do sentido de um supervisor. Ficando mais evidente quando ambos os termos são usados no mesmo contexto (cf. Atos 20.1, 28; Tito 1.6-7). Clemente mostrou que entendia desta mesma maneira porque utilizou tanto episkopos quanto presbuteros para essa posição de liderança da igreja (cf. capítulo 44), mantendo, portanto, o ensino recebido dos apóstolos.

O argumento para que Clemente reivindicasse a submissão às autoridades eclesiásticas constituídas foi: Deus escolheu e designou Jesus; Jesus havia escolhido e designado os apóstolos; os apóstolos escolheram e nomearam seus sucessores, anciãos-bispos/bispos (incluindo o próprio Clemente). Portanto, esse padrão deve ser mantido pelas gerações sucessivas de líderes da igreja (cf. 42). Esse conceito clementino se tornou conhecido como “sucessão apostólica”. Clemente visava manter a idoneidade das lideranças constituídas da mesma forma como Paulo fez em sua carta ao jovem pastor Timóteo (2 Timóteo 2.2) e consequentemente preservar a ordem e a unidade na igreja de Corinto e demais.

Mas este princípio acabou sendo extrapolado muito rapidamente e resultou em uma distinção entre o “clero” e o “laicato”, e a elevação do primeiro sobre o segundo. No capítulo 40, ele escreveu: “Pois os próprios serviços peculiares [do Senhor] são atribuídos ao sumo sacerdote [judeu do Antigo Testamento], e seu próprio lugar apropriado é prescrito aos sacerdotes, e suas próprias ministrações especiais passam para os levitas. O leigo está sujeito às leis que pertencem aos leigos.” Nesta última frase, ele usou a palavra grega laikos – da qual derivamos a palavra “leigo” – que pela primeira vez é utilizada na literatura cristã. O que ele obviamente está fazendo é extrair do Antigo Testamento a forma como deve ser feito serviço a Deus - por meio de um sumo sacerdote junto com muitos sacerdotes e levitas exclusivamente - e aplicá-lo à igreja do Novo Testamento. Embora não passasse pela mente de Clemente, a analogia rapidamente se desenvolveu em uma direção totalmente estranha substituindo a figura dos bispos cristãos pela figura dos “sacerdotes”, de modo que somente eles estavam qualificados para fazer o ministério de Jesus Cristo. Que vai abrir o caminho para que como sacerdotes se tornassem mediadores entre os leigos e Deus, e posteriormente se introduzisse a figura do Papa, o que é completamente destoante do ensino claro das literaturas neotestamentária e do ensino enfático do apostolo Paulo de que não há outro mediador entre Deus e os homens, a não ser Jesus Cristo.

Clemente também conclamou os dissidentes a se arrependerem e se submeterem as autoridades constituídas (cf. 57; Hebreus 13.17). A preocupação principal de Clemente refletia a preocupação muito clara de outros escritores neotestamentário – a preservação da unidade da igreja. Ele também entendeu, acompanhando os ensinos apostólicos, a importância da liderança da igreja local (presbíteros e diáconos) para preservar a verdade bíblica e a unidade bíblica, o que ainda hoje são relevantes para as igrejas locais. Por outro lado, Clemente ilustra o perigo de se transformar algo que foi escrito e deturpá-lo do que foi originalmente pretendido. Infelizmente isso será recorrente no fluxo da história da igreja, como se pode ver nas páginas da História da Igreja Cristã.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Reflexão Bíblica

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[1] O acesso ao texto desta carta vem através do Codex Alexandrinus: manuscrito da Bíblia grega, presente do patriarca Cirilo Lucaris ao rei Carlos I da Inglaterra em 1628. Entretanto, faltavam folhas correspondentes aos capítulos LVII, 6 e LXIV,1. Mas outra fonte descoberta, o Hierosolymitanus, permitiu suprir as lacunas do Alexandrinus. A versão latina integral foi publicada em 1894.

[2] O título, “A Primeira Carta de Clemente aos Coríntios”, usada em todos os manuscritos existentes da epístola é para distingui-las de outras cartas não autenticadas que surgiram em data muito posterior.

[3] Algumas edições deste documento de Clemente destacam estas duas sessões.

[4] O texto atual, depois de perdido na Idade Média, foi redescoberto com o Codex Alexandrinus, enviado como presente de Ano Novo pelo Patriarca grego de Constantinopla, Cirilo Lucar, ao rei inglês Carlos I, em 1627. The Royal Librarian, Patrick Young, editou e publicou as duas epístolas Clementinas contidas no códice, com notação de capítulo moderna, em 1633 (HERRON, 1988, P. 23).

[5] Dois testemunhos históricos corroboram essa conclusão: Hegesipo, de origem judaica, no registro de suas memórias (155-166) cita a Carta de Clemente dirigida aos Coríntios; Dionísio, o bispo de Corinto, em uma correspondência (ano 170) menciona que esta autenticação vinha de muito tempo e que era lida nas assembleias (cultos) normalmente.

[6] A epistola foi dividida, muito tempo depois, em curtos 65 capítulos.

[7] Lightfoot faz uma extensa análise e esforço para identificar o Clemente histórico, pp. 14-103.