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sábado, 2 de setembro de 2017

A Confissão de Fé da Guanabara 1558 (Tradução de Erasmo Braga)


O protestantismo foi inserido efetivamente no Brasil somente na segunda parte dos oitocentos, quando os missionários estadunidenses começaram a desembarcar no porto do Rio de Janeiro para estabelecerem suas respectivas denominações evangélicas.
Todavia, ainda nos primeiros anos em que o Brasil foi inserido no mapa mundial pelos portugueses houve ao menos duas tentativas efetivas de se implantar um tipo de protestantismo nas terras tupiniquins. A primeira delas foi protagonizada pelos franceses que eram assíduos frequentadores das costas brasileiras até mesmo antes dos portugueses. Ignorando o chamado Tratado de Tordesilhas o rei francês não apenas ignorava as incursões francesas no Brasil como as incentiva através de seus corsários.
Mas em 1555 (10 de novembro) entrava na Baia da Guanabara o Vice-Almirante da Bretanha Nicolau Durand de Villegaignon para estabelecer aqui a França Antártica que tinha em sua proposta original oferecer um local para livre expressão da religião cristã protestante. Todavia, o próprio Villegaignon transformou essa iniciativa em um completo fracasso.
Um segundo grupo aportou por aqui no dia 7 de março de 1557, reforçando a colônia francesa no Brasil com mais 280 pessoas. Entre elas estavam um pequeno grupo de calvinistas de Genebra que traziam credenciais do próprio Calvino, entre os quais dois pastores Pierre Richier (50 anos) e Guillaume Chartier (30 anos).
Depois de uma recepção pacifica o grupo genebrino começou a ser hostilizado de forma crescente por Villegaignon que após prender alguns deles exige que eles respondam em um prazo de doze horas uma serie de perguntas teológicas, pois era direito dos governadores, em nome do rei, exigir dos súbditos uma confissão de sua Fé.
Apesar de ser um leigo coube ao mais velho e distinto entre eles pela piedade e conhecimento, Jean de Bourdel redigir o documento, escrita com tinta vermelha de pau-brasil sendo subscritos por Pierre Bourdon e Matthieu Verneuil:
 “Ao despontar as primeiras luzes do amanhecer, o documento estava terminado. Despertamos a Pierre, para que pudesse ler todo o documento, artigo por artigo. O resultado foi um boa declaração, e nos sentimos orgulhosos de Jean de Bourdel e de seu magnífico trabalho, levado a cabo em tão breve espaço de tempo. Nos sentimos invadidos pela sensação de uma presença que estava mais além de nos mesmo...” (GILLIES, 1979, p. 147) 
O historiador presbiteriano Alderi Souza de Matos faz algumas observações relevantes sobre esse primeiro documento teológico de cunho protestante no Brasil:
A confissão, escrita originalmente em latim, tem a forma de um credo, pois a maior parte dos parágrafos começa com a palavra “cremos”. Todavia, sua extensão e variedade de temas a coloca na categoria das confissões de fé, comuns na época da Reforma. A seção introdutória faz uma bela aplicação do texto de 1 Pedro 3.15. Os dezessete parágrafos de diferentes tamanhos tratam de seis questões principais: (a) 1-4: a doutrina da Trindade e, em especial, a pessoa de Cristo, com as suas naturezas divina e humana; (b) 5-9: a doutrina dos sacramentos, sendo a Ceia tratada em quatro artigos e o batismo em um; (c) 10: o livre arbítrio; (d) 11-12: a autoridade dos ministros para perdoar pecados e impor as mãos; (e) 13-15: divórcio, casamento dos religiosos e votos de castidade; (f) 16-17: intercessão dos santos e orações pelos mortos. O texto revela grande conhecimento da Bíblia, da teologia e da história da Igreja por parte do autor. São feitas referências ao Concílio de Nicéia e seu credo, bem como a vários Pais da Igreja: Agostinho, Tertuliano, Ambrósio e Cipriano. O documento tem um forte teor bíblico e reformado, destacando pontos como a centralidade da Escritura, a natureza simbólica dos sacramentos, a supremacia de Cristo, a importância da fé e a eleição, entre outros.
Mas as intenções de Villegaignon em nenhum momento foram pela liberdade dos genebrinos. Após ler o documento elaborado aponta alguns artigos como sendo heréticos e condena à morte três deles: Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. Eles ficaram conhecidos como os três primeiros mártires evangélicos do Brasil, ainda que não tivessem sido mortos por brasileiros, mas sim por aquele que os havia convidado a virem ao país. E o documento por eles produzido ficou conhecido como “Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense” (8 de fevereiro de 1558). Termina de forma melancólica essa primeira incursão do protestantismo no Brasil.
A tradução do documento elaborado pelos calvinistas genebrinos em território brasileiro e reproduzido abaixo foi feita pelo Rev. Erasmo Braga em 1907, então membro da Academia de Letras de S. Paulo e deão do Seminário Teológico Presbiteriano, a pedido do Rev. Alvaro Reis, para que fosse inserido no Relatório da Igreja Presbiteriana de São Paulo.

Documento: Confissão de Fé da Guanabara e/ou Confissão Fluminense (1558)
Segundo a doutrina de São Pedro Apóstolo em sua primeira epístola, todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que neles há, e isso com toda a doçura e benignidade. Nós, abaixo assinados, Senhor de Villegaignon, unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos concedeu) damos razão a cada ponto, como nos haveis apontado e ordenado, começando no primeiro artigo: 
I. Cremos em um só Deus, imortal e invisível, criador do céu e da terra, e de todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis, o qual é distinto em três pessoas: o Pai, o Filho e o Santo Espírito, que não dizem respeito senão a uma mesma substância em essência eterna e uma mesma vontade; o Pai, fonte e começo de todo o bem; o Filho, eternamente gerado do Pai, o qual, cumprida a plenitude do tempo, se manifestou em carne ao mundo, sendo concebido do Santo Espírito, nascido da virgem Maria, feito sob a Lei para resgatar os que sob ela estavam, a fim de que recebêssemos a adoção de próprios filhos; o Santo Espírito, procedente do Pai e do Filho, mestre de toda a verdade, falando pela boca dos Profetas, sugerindo todas as coisas que foram ditas por nosso Senhor Jesus Cristo aos apóstolos. Este é o único consolador na aflição, dando constância e perseverança em todo o bem.
Cremos que é mister somente adorar e perfeitamente amar, rogar e invocar a majestade de Deus em fé ou particularmente.
II. Adorando nosso Senhor Jesus Cristo, não separamos uma natureza da outra, confessando as duas naturezas, a saber, divina e humana, nele inseparáveis.
III. Cremos, quanto ao Filho de Deus e ao Santo Espírito, o que a Palavra de Deus, a doutrina apostólica e o Símbolo[1] nos ensinam.
IV. Cremos que nosso Senhor Jesus Cristo virá julgar os vivos e os mortos, em forma visível e humana como subiu ao céu, executando tal juízo na forma em que nos predisse em São Mateus, vigésimo quinto capítulo, tendo, enquanto homem, todo o poder de julgar, a ele dado pelo Pai. E, quanto ao que dizemos em nossas orações, que o Pai aparecerá enfim na pessoa do Filho, entendemos por isso que o poder do Pai, dado ao Filho, será manifestado no dito juízo, não, todavia, que queiramos confundir as pessoas, sabendo que elas são realmente distintas uma da outra.
V. Cremos que no Santíssimo Sacramento da Ceia, com as figuras corporais do pão e do vinho, as almas fiéis são realmente e de fato alimentadas com a própria substância de nosso Senhor Jesus, como nossos corpos são alimentados de alimentos, e assim não queremos dizer que o pão e o vinho sejam transformados ou transubstanciados no corpo e sangue dele, porque o pão continua em sua natureza e substância, semelhantemente o vinho, e não há mudança ou alteração. Distinguimos, todavia, este pão e vinho do outro pão que é dedicado ao uso comum, sendo que este nos é um sinal sacramental, sob o qual a verdade é infalivelmente recebida.
Ora esta recepção não se faz senão por meio da fé e nela não convém imaginar nada de carnal, como quem prepara os dentes para o comer, como santo Agostinho nos ensina, dizendo: “Porque preparas tu os dentes e o ventre? Crê, e tu o comeste”. O sinal, pois, nem nos dá a verdade, nem a coisa significada; mas nosso Senhor Jesus Cristo, por seu poder, virtude e bondade, alimenta e preserva nossas almas, e as faz participantes de sua carne, de seu sangue e de todos os seus benefícios. Vejamos a interpretação das palavras de Jesus Cristo: “Este pão é o meu corpo”. Tertuliano, no livro quarto contra Marcião, explica estas palavras assim: “Este é o sinal e a figura do meu corpo”. Santo Agostinho diz: “O Senhor não evitou dizer: Este é o meu corpo, quando dava apenas o sinal de seu corpo”. Portanto (como é ordenado no primeiro cânon do Concílio de Nicéia), neste santo Sacramento não devemos imaginar nada de carnal e nem nos distrair no pão e no vinho, que nos são neles propostos por sinais, mas levantar nossos espíritos ao Céu para contemplar pela fé o Filho de Deus, nosso Senhor Jesus, sentado à destra de Deus, seu Pai. Neste sentido podíamos juntar o artigo da Ascenção, com muitas outras sentenças de Santo Agostinho, que omitimos temendo ser longas.
VI. Cremos que, se fosse necessário pôr água no vinho, os evangelistas e São Paulo não teriam omitido uma coisa de tão grande consequência. E quanto ao que os doutores antigos têm observado (fundamentando-se sobre o sangue misturado com água que saiu do lado de Jesus Cristo), desde que tal observância não tem nenhum fundamento na Palavra de Deus, visto mesmo que isso aconteceu depois da instituição da Santa Ceia, nós não a podemos hoje admitir necessariamente.
VII. Cremos que não há outra consagração que a que se faz pelo ministro, quando se celebra a Ceia, recitando o ministro ao povo, em linguagem conhecida, a instituição desta Ceia literalmente, segundo a forma que nosso Senhor Jesus Cristo nos prescreveu, admoestando o povo da morte e paixão de nosso Senhor. E mesmo, como diz Santo Agostinho, a consagração e a palavra de fé que é pregada e recebida em fé. Pelo que, segue-se que as palavras secretamente pronunciadas sobre os sinais não podem ser a consagração como aparece da instituição que nosso Senhor Jesus Cristo deixou aos seus apóstolos, dirigindo suas palavras aos seus discípulos presentes, aos quais ordenou tomar e comer.
VIII. O Santo Sacramento da Ceia não é alimento para o corpo, como o é para as almas (porque nós não imaginamos nada de carnal, como declaramos no artigo quinto), recebendo-o por fé, a qual não é carnal.
IX. Cremos que o batismo é Sacramento de arrependimento, e como uma entrada na Igreja de Deus, para sermos incorporados em Jesus Cristo. Representa-nos a remissão de nossos pecados passados e futuros, a qual é adquirida plenamente só pela morte de nosso Senhor Jesus. Demais, a mortificação de nossa carne aí nos é representada, e a lavagem, representada pela água lançada sobre a criança, é sinal e selo do sangue de nosso Senhor Jesus, que é a verdadeira purificação de nossas almas. A sua instituição nos é ensinada na Palavra de Deus, a qual os santos apóstolos observaram usando de água em nome do Pai, do Filho e do Santo Espírito. Quanto aos exorcismos, renúncia a Satanás, crisma, saliva e sal, nós os registramos como tradições dos homens, contentando-nos só com a forma e instituição deixada por nosso Senhor Jesus.
X. Quanto ao livre-arbítrio, cremos que, se o primeiro homem, criado à imagem de Deus, teve liberdade e vontade, tanto para bem como para mal, só ele conheceu o que era o livre-arbítrio, estando em sua integridade. Ora, ele nem apenas guardou este dom de Deus, assim dele foi privado por seu pecado, e todos os que descendem dele, de sorte que nenhum da semente de Adão tem uma centelha do bem.
Por esta causa, diz São Paulo que o homem sensual não entende as coisas que são de Deus. E Oséias clama aos filhos de Israel: “Tua ruína vem de ti, ó Israel”.
Ora isto entendemos do homem que não é regenerado pelo Santo Espírito. Quanto ao homem cristão, batizado no sangue de Jesus Cristo, o qual caminha em novidade de vida, nosso Senhor Jesus Cristo restitui nele o livre-arbítrio, e reforma a vontade para todas as boas obras, não todavia em perfeição, porque a execução de boa vontade não está em seu poder, mas vem de Deus, como amplamente este Santo Apóstolo declara, no sétimo capítulo aos Romanos, dizendo: “O querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo”. O homem predestinado para a vida eterna, embora peque por fragilidade humana, todavia não pode cair em impenitência. A este propósito, São João diz que ele não vive pecando, porque a eleição permanece nele.
XI. Cremos que pertence só à Palavra de Deus perdoar os pecados, da qual, como diz Santo Ambrósio, o homem é apenas o ministro; portanto, se ele condena ou absolve, não é ele, mas a Palavra de Deus que ele anuncia. Santo Agostinho neste lugar diz que não é pelo mérito dos homens que os pecados são perdoados, mas pela virtude do Santo Espírito. Porque o Senhor dissera a seus apóstolos: “Recebei o Santo Espírito”; depois acrescentara: “Se perdoardes a algum seus pecados”, etc.
Cipriano diz que o servidor não pode perdoar a ofensa contra o Senhor.
XII. Quanto à imposição das mãos, essa serviu em seu tempo, e não há necessidade de conservá-la agora, porque pela imposição das mãos não se pode dar o Santo Espírito, porquanto isto só a Deus pertence.
No tocante à ordem eclesiástica, cremos no que São Paulo dela escreveu na Primeira Epístola a Timóteo, e em outros lugares.
XIII. A separação entre o homem e a mulher legitimamente unidos por casamento não se pode fazer senão por causa de adultério, como nosso Senhor ensina em Mateus, capítulo dezenove, verso cinco. E não somente se pode fazer a separação por essa causa, mas ainda, bem examinada a causa perante o magistrado, a parte não culpada, não podendo se conter, pode casar-se, como Santo Ambrósio diz sobre o capítulo sete da Primeira Epístola aos Coríntios. O magistrado, todavia, deve nisso proceder com madureza de conselho.
XIV. São Paulo, ensinando que o bispo deve ser marido de uma só mulher, não diz que lhe seja lícito tornar-se a casar, mas o santo apóstolo condena a bigamia a que os homens daqueles tempos eram muito afeitos; todavia, nisso deixamos o julgamento aos mais versados nas Santas Escrituras, não se fundando a nossa fé sobre esse ponto.
XV. Não é licito consagrar a Deus, senão o que ele aprova. Ora, é assim que os votos monásticos só tendem à corrupção do verdadeiro serviço de Deus. É tambem grande temeridade e presunção do homem fazer votos além da medida de sua vocação, visto que a Santa Escritura nos ensina que a continência é um dom especial (Mateus quinze e a I Epístola de São Paulo aos Coríntios, sete). Portanto, segue-se que os que se impõem esta necessidade, renunciando ao matrimônio toda a sua vida, não podem ser desculpados de extrema temeridade e confiança excessiva e insolente em si mesmos.
E por este meio tentam a Deus, visto que o dom da continência é em alguns apenas temporal, e o que o teve por algum tempo não o terá pelo resto da vida. Por isso, pois, os monges, padres e outros tais que se obrigam e prometem viver em castidade, tentam contra Deus, por isso que não está neles cumprir o que prometem. São Cipriano, no capítulo onze, diz assim: “Se as virgens que se dedicam de boa vontade a Cristo perseverarem em castidade sem defeito, sendo assim fortes e constantes, podem esperar o galardão preparado para a sua virgindade; se não querem ou não podem perseverar nos votos, é melhor que se casem do que serem precipitadas no fogo da lascívia por seus prazeres e delícias”. Quanto à passagem do apóstolo São Paulo, é verdade que as viúvas, tomadas para servir à Igreja, se submetiam a não mais casar, enquanto estivessem sujeitas ao dito cargo, não que por isso se lhes reputasse ou atribuísse alguma santidade, mas porque não podiam bem desempenhar os seus deveres sendo casadas, e, querendo casar, renunciassem à vocação para que Deus as tinha chamado, contudo, que cumprissem as promessas feitas na Igreja, sem violar a promessa feita no batismo, na qual está contido este ponto: “Que cada um deve servir a Deus na vocação em que foi chamado”. As viúvas, pois, não faziam voto de continência, senão que o casamento não convinha ao ofício para que se apresentavam, e não tinham outra consideração que cumpri-lo. Não eram tão constrangidas que não lhes fosse antes permittido casar-se que abrasar-se e cair em alguma infâmia ou desonestidade. Ademais, para evitar tal inconveniente, o apóstolo São Paulo, no capítulo citado, proíbe que sejam recebidas para fazer tais votos sem que tenham a idade de sessenta anos, que é uma idade comumente fora da incontinência. Acrescenta que os eleitos só devem ter sido casados uma vez, a fim de que, por essa forma, tenham já uma aprovação de continência.
XVI. Cremos que Jesus Cristo é o nosso único Mediador, Intercessor e Advogado, pelo qual temos acesso ao Pai, e que, justificados no seu sangue, seremos livres da morte, e por ele já reconciliados teremos plena vitória contra a morte.
Quanto aos santos falecidos, dizemos que desejam a nossa salvação e o cumprimento do Reino de Deus, e que o número dos eleitos se complete; todavia não nos devemos dirigir a eles como intercessores para obtermos alguma coisa, porque desobedeceríamos o mandamento de Deus. Quanto a nós, ainda vivos, enquanto estamos unidos como membros de um corpo, devemos orar uns pelos outros, como nos ensinam muitas passagens das Santas Escrituras.
XVII. Quanto aos mortos, São Paulo na 1 Epístola aos Tessalonicenses, quarto capítulo, nos proibe entristecer-nos por eles, porque isto convém aos pagãos, que não têm esperança alguma de ressuscitar. O apóstolo não manda e nem ensina orar por eles, o que não teria esquecido, se fosse conveniente. Santo Agostinho, sobre o Salmo quarenta e oito, diz que os espíritos dos mortos recebem conforme o que tiverem feito durante a vida; que, se nada fizeram, estando vivos, nada recebem, estando mortos.
Esta é a resposta que damos aos artigos por vós enviados, segundo a medida e porção da fé que Deus nos deu, suplicando que lhe praza fazer que em nós não seja morta, antes produza frutos dignos de seus filhos, e assim, fazendo-nos crescer e perseverar nela, lhe rendamos graças e louvores para sempre jamais. Assim seja.
Signatários: 

Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/


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Referências Bibliográficas
CRESPIN, Jean. A Tragédia de Guanabara ou História dos Protomartyres do Christianismo no Brasil. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello & C., 1917.
GILLIES, John. Los Mártires de Guanabara. Terrassa: CLIE, 1979.
FERREIRA, Julio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil. 2ª Ed. São Paulo: CEP, 1992.
GRIJP, Klaus van der. História do Protestantismo Brasileiro, (texto preparado como contribuição à História Geral da Igreja na América Latina), Projeto da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, Faculdade de Teologia da IECLB, São Leopoldo, 1976, p. 1-4.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LEONARD, Émile G.. O Protestantismo Brasileiro. São Paulo: Associação dos Seminários Teológicos (ASTE), 2002.
LÉRY, Jean de.  Viagem à terra do Brasil. Tradução integral e notas de Sérgio Milliet. Biblioteca do Exército – Biblioteca, 1961.
MATOS, Alderi de Souza. As Confissões Reformadas, A Confissão de Fé da Guanabara (1558). São Paulo: Instituto Presbiteriano Mackenzie, 2011. Disponível em: http://www.mackenzie.br/7053.html. Acessado em: 18/06/2015.
MARIZ, Vasco e PROVENÇAL, Lucien. Os franceses na Guanabara: Villegagnon e a França Antártica (1555-1567). 3ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
OSWARD, Christina. Entre os Tupinambá: a gesta dos franceses na Guanabara. (Tese Doutorado em Antropologia Social). Rio de Janeiro: PPGAS-MN/UFRJ, 2009. [Orientador: Edurado Viveiros de Castro].
REIS, Álvaro. O Martyr Le Balleur: (1567). Rio de Janeiro: s/e, 1917.
SOUTHEY, Robert. História do Brasil. São Paulo, Itatiaia/EDUSP, 1981.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O Primeiro Culto Protestante no Brasil e Seus Desdobramentos

Introdução
Num país de secular hegemonia católica em que os livros didáticos de história apresentavam até pouco tempo atrás como data a ser memorizada pelos alunos a Primeira Missa no Brasil, quem se lembra ou a quem interessa saber quem e quando foi realizado o Primeiro Culto Protestante no Brasil??
Infelizmente os próprios evangélico-protestantes não dão muito (para não dizer quase nenhum) valor à sua própria História – então por que outros valorizaram?
CURIOSIDADE: Você sabia??
Que a Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo
Já ocupou um prédio no cruzamento mais famoso da cidade?
Av. Ipiranga com a Av. São João!
Que o triste cortejo levando o corpo jovem missionário Simonton desceu a rua Cásper Líbero, subiu a São João, entrou na Avenida Ipiranga e subiu a Consolação, para o sepultar no Cemitério dos Protestantes.

O Protestantismo no Brasil e as Academias
Somente após a década 1970 se iniciou o Estudo Acadêmico do Protestantismo no Brasil e suas repercussões na História do país. Nas palavras de Júlio Andrade Ferreira, historiador oficial da IPB, a historiografia protestante brasileira ainda que a partir de 1950 fosse quantitativamente crescente, no que tangia a qualidade tornava-se angustiante para os que pretendiam um estudo mais acadêmico, pois segundo ele ― a um simples exame se apercebem do caráter apologético e pouco cientifico, pueril às vezes, da maior parte dessa imensa produção literária‖ (1959, v.1, p. 35).
As Primeiras Produções Acadêmicas sobre o Protestantismo no Brasil
A obra clássica de Émile-G. Leonard (professor francês da USP) “O protestantismo brasileiro, estudo de eclesiologia e historia social” (1963) é o marco da nova historiografia protestante. Seu trabalho foi editado em capítulos pela revista da Universidade São Paulo em diversos números. David Gueiros Vieira com seu “O Protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil” (1980), é uma das primeiras obras a ser produzida por brasileiro em um centro universitário brasileiro.
Acelerando o processo em seu trabalho acadêmico “Protestantismo e repressão” (1979) de Rubem Alves (morreu recentemente) encontramos a ressonância da voz daqueles que vivenciaram os desafios de serem minorias dentro de uma denominação fortemente arraigada em uma organização eclesiástica dogmatizadora. Nas obras de Boanerges Ribeiro, mais especificamente “A Igreja Presbiteriana do Brasil - da autonomia ao cisma” (1987), temos o contraponto às obras de víeis mais critico, pois ele expressa uma perspectiva histórica institucional.
Antônio Gouvêia Mendonça em seu pioneiro trabalho “O celeste porvir – a inserção do protestantismo no Brasil” (1984) é o clássico escrito por um brasileiro em que pesquisa e analisa a forma como o protestantismo se instala no país e suas dificuldades em se desenvolver. É indispensável também a obra complementar “Introdução ao protestantismo no Brasil” (2002) dele juntamente com Velasquez, onde aprofundam as questões anteriormente abordadas mencionada na obra anterior. Após esse inicio pioneiro inúmeras obras de cunho acadêmico têm sido produzidas em todo o Brasil, resgatando a nossa História Protestante.
E qual a IMPORTÂNCIA disso?? “Se não sabemos o que fomos como saberemos o que somos e o que seremos?”
Mas o tema deste artigo é bem especifico: O Primeiro Culto Protestante no Brasil. Entretanto, para uma compreensão melhor é preciso que entremos no “Túnel do Tempo”....
            A grande Reforma Religiosa ocorrida no século 16, denominada também de Reforma Protestante, e que abalou e transformou o Continente europeu, apenas respigou no Brasil. Ainda que somente algumas décadas após as iniciativas do monge alemão Matinho Lutero (1483-1546) os ideais religiosos reformados aportaram neste lado simultaneamente inserido no contexto mundial.
Os dois primeiros contatos dos brasileiros, ainda que mais português do que brasileiro, vieram no velho modelo de invasão e domínio, totalmente estranho ao espírito evangélico proposto por Jesus e preservado nos escritos da Segunda parte da Bíblia cristã.
Os primeiros a fazerem este tipo violento de abordagem foram os franceses, que invadiram e ocuparam o Rio de Janeiro entre 1555 e 1560, estabelecendo o que eles chamaram de França Antártica. 
Liderados pelo vice-almirante da Bretanha Nicolau Durand de Villegaignon,[1] de caráter extremamente contraditório, mas que dissimuladamente conquistou a confiança de cristãos reformados (huguenotes), da França, incluindo o almirante calvinista Gaspar de Colligny que intercede junto ao rei Henrique II, conseguindo desta forma o financiamento necessário para tão grande e arriscada empreitada.[2]

Formando uma tripulação com alguns poucos amigos, diversos mercenários e uma porção de desajustados sociais, muitos deles retirados da prisão da cidade de Ruão, zarpam do porto de Havre, em 15 de julho de 1555 em dois navios; aportaram na Baía da Guanabara em 10 de novembro de 1555 com 400 homens na Ilha Serigipe[3] (hoje Villegaignon) na Baía da Guanabara.
Todavia, com o passar dos meses e demonstrando uma personalidade e liderança cada vez mais excêntrica começa a enfrentado motins e outras dificuldades. Percebendo que perderia o controle da situação o astuto invasor solicita ao reformador João Calvino que antes de se tornar o reformador de Genebra (Suíça) haviam sido contemporâneos na Universidade de Paris,[4] que enviasse ao Brasil cristãos protestantes com habilidades para o trabalho e pastores que pudessem doutrinar e instruir tanto os franceses quanto os índios.[5]
Coube ao sr. Bois-le-Comte, sobrinho de Nicolas Villegaignon, custeado pelo rei, organizar a frota que haveria de trazer os huguenotes ao Brasil. Esta frota foi composta por três navios: o Petit-Roberge comandado por Bois-le-Comte, então aclamado vice-almirante, e que trazia cerca de 80 pessoas, inclusive soldados e marujos; o Grand Roberge, que trazia 120 pessoas e por capitão o sr. de Sainte Marie, apelidado Espine, e o Rosée e que trazia a bordo 90 pessoas, inclusive 06 jovens, que vinham para aprender a língua brasileira, e 05 moças, dirigidas por uma governanta, que foram as primeiras mulheres francesas que desembarcaram nas terras sul-americanas. Eram, portanto, ao todo, 290 pessoas, das quais somente 16 seriam classificados de protestantes calvinistas!
Então, no dia 19 de novembro 1556 embarcaram para o Brasil no porto de Honfleur, na Normandia. Como de costume, a viagem foi muito penosa. A certa altura, diante da situação em que se achavam, os reformados recitaram o Salmo 107 (vv. 23-30). No dia 7 de março de 1557, os viajantes finalmente entraram no “braço de mar” chamado Guanabara pelos selvagens e Janeiro [Rio de] pelos portugueses. Assim, a colônia francesa no Brasil fora reforçada com mais 280 pessoas. Entre elas estavam o pequeno grupo de calvinistas de Genebra[6] que traziam credenciais do próprio Calvino, entre os quais dois pastores Pierre Richier (50 anos)[7] e Guillaume Chartier (30 anos),[8] e o então jovem Jean de Léry, que haverá de escrever posteriormente um relato destes acontecimentos e que se constitui em fonte ocular primária.  Todavia, a verdadeira e provavelmente única intenção de Villegaignon ao fazer a solicitação era a de apaziguar os revoltosos e amansar os índios através da religião – infeliz prática utilizada por todos os dominadores na época – quer católico ou protestante (e até hoje).

A Celebração do Primeiro Culto Protestante
O desembarque no forte Coligny deu-se no dia 10 de março, uma quarta-feira (depois de longos e perigosos três meses e meio) e Villegaignon recebeu o grupo afetuosamente e demonstrou alegria porque vinham estabelecer uma igreja reformada. Escrevendo uma carta a Calvino ele expressa isso: “não sei se é possível expressar a alegria que sua carta me trouxe, assim como os irmãos que vieram com elas (...) a chegada dos irmãos me consolou”.[9] No dia seguinte, reunidos todos em uma pequena sala no centro da ilha, foi realizado um culto de ação de graças, o primeiro culto protestante ocorrido no BRASIL e nas Américas ou Novo Mundo.
 A Liturgia
O ministro Richier orou invocando a Deus. Em seguida foi cantado em uníssono, segundo o costume de Genebra, o Salmo 5: “Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras”. Esse hino constava do Saltério Huguenote, com metrificação de Clement Marot e melodia de Louis Bourgeois, e até hoje se mantém nos hinários franceses. Bourgeois foi diretor de música da Igreja de Genebra de 1545 a 1557 e um dos grandes mestres da música francesa no século 16. A versão mais conhecida em português (“À minha voz, ó Deus, atende”) tem música de Claude Goudimel (†1572) e metrificação do Rev. Manoel da Silveira Porto Filho.
            Em seguida, o pastor Richier pregou um sermão com base no Salmo 27:4: “Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo”.
Após o culto, os huguenotes (nome que os protestantes recebiam na França) tiveram sua primeira refeição brasileira: farinha de mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho. Dormiram em redes, à maneira indígena.
A Santa Ceia segundo o rito reformado foi celebrada pela primeira vez no domingo 21 de março de 1557.
Segundo a narrativa de Léry inicialmente Villegaignon tratou os calvinistas com cordialidade, ordenou que em todas as noites se realizasse o serviço divino; aos domingos deveria haver culto e pregação pela manhã e à noite e os sacramentos deveriam ser administrados conforme o ensino da Palavra de Deus. Mas suas motivações mesquinhas logo começariam a serem reveladas e no transcorrer das semanas ele vai mudando suas atitudes:
Instigado por Jean de Cointa,[10] que suscitara diversas questões teológicas: acerca da consagração de vasos especiais para administração do Sacramento Eucarístico; sobre ser ou não o pão fermentado; sobre o uso de vestes sacerdotais; sobre o uso de sal, azeite e saliva, na administração do Batismo; sobre a significação das palavras sacramentais, e a questão nevrálgica da consubstanciação ou transubstanciação, às quais Villegaignon endossou e tentou impor – o que vai encontrar uma resistência inflexível por parte do pequeno núcleo calvinista recém-chegados;
Para Léry, essa mudança súbita de opinião de Villegagnon foi motivada por cartas de franceses influentes, que o acusavam de ter abandonado a religião católica (1578 – 1992: 77).
Somando-se às polêmicas teológicas Villegaignon reaviva sua síndrome de perseguição, achando que os calvinistas estão incentivando os demais a depô-lo e assumirem o controle.
Depois de quase oito meses na ilha, sentindo que o ambiente está cada vez mais tenso e perigoso, os calvinistas tomam a decisão de deixarem o forte e irem para o continente e durante dois meses esperaram um navio para poder retornar à França. Segundo Léry um grupo de 45 pessoas conseguiu embarcar em um navio chamado de Le Jaques (1578-1992:204), bastante avariado e com pouco viveres; [11] um grupo de cinco orientados pelo capitão retornou ao continente em um pequeno barco, sendo eles: Pierre Bourdon, Jean du Bordel, Matthieu Verneuil, André la Fon, et Jacques le Balleur” (Lery 1578 - 1992: 206).

A Primeira Confissão de Fé Protestante no Brasil
Depois de alguns dias no continente vivendo entre os indígenas eles retornam à ilha e se apresentam à Villegaignon que aparentemente os recebe bem, mas na verdade pensa que eles voltaram para colocar os demais contra ele. Procurando um meio de mata-los sem criar uma revolta acusa-os de heresias (1561 - in Thevet 1588 - 2006: 268). Elabora uma série de perguntas, sem qualquer ordem, que ele pensava serem embaraçosas para os seus prisioneiros e determinou que as respondessem em doze horas.
“Esses artigos eram numerosos e alguns incluíam certos pontos mais difíceis da santa Escritura, de modo que um bom teólogo, mesmo tendo todos os livros necessários ao estudo das santas Escrituras, não conseguira fazer em um mês” (Histoire des Martirez, apud OSWARD, 2009, p. 160).
Temos também o testemunho de Léry:[12]
“Certas personagens dignas de fé, que nós deixamos naquele país, de onde retornaram quatro meses depois de nós, quando encontraram du Pont em Paris, não apenas lhe asseguraram de que lamentavelmente tinham assistido ao afogamento dos três no forte de Coligny, a mando de Villegagnon por causa do Evangelho, a saber, Pierre Bourdon, Jean du Bordel et Matthieu Verneuil, mas também que tinham trazido, por escrito, tanto a confissão de fé, como todo o processo de Villegagon contra eles. Elas deram para du Pont, de quem obtive logo depois (...) me sentindo obrigado a ter o cuidado de que a confissão de fé dessas três boas personagens fosse registrada no catálogo daqueles que em nossa época constantemente suportaram a morte pelo testemunho do Evangelho, em 1558 eu dei-a ao editor Jean Crespin” (1578 - 1992: 221).
O historiador Émile Leonard comenta: “Se o fato fosse certo, nenhuma confissão de fé teria sido mais rapidamente composta. Já é bastante surpreendente que Du Bordel, sem outro livro senão uma Bíblia possa escrever um texto usando Santo Agostinho, São Ambrósio, São Cipriano e Tertuliano” (1958: 206, apud OSWARD, 2009, p. 159. Nota 48).
Esse documento elaborado por esse grupo de franceses calvinistas, defendendo seus posicionamentos teológicos ficou conhecido como “Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense” (8 de fevereiro de 1558).
Mas Villegaignon rejeita o documento apresentado declarando heréticos vários dos artigos e decidindo pela morte dos reformados. No dia seguinte foram executados três – Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. Eles ficaram conhecidos como os três primeiros mártires evangélicos do Brasil, ainda que não tivessem sido mortos por brasileiros, mas sim por aquele que os havia convidado a virem ao país.  
Um dos signatários, André Lafon, foi poupado por ser o único alfaiate da colônia e o quinto, Jacques le Balleur conseguiu fugir para São Vicente/SP, mas foi preso e depois enforcado, pelos portugueses, tanto pelo fato de ser um invasor francês como por se negar a renunciar sua fé reformada, tendo por auxiliar do carrasco o conhecido Pe Anchieta.
Um dos relatos ocular de toda essa história foi produzido por Jean de Léry,[13] um jovem cujo oficio era sapateiro e que fez parte da caravana genebrina.  Ele conseguiu voltar para a França, tornou-se pastor e escreveu o livro “História de uma Viagem à Terra do Brasil” (1578), que se tornou leitura obrigatória para todos os viajantes ao Brasil.
Diante destes acontecimentos a liderança de Villegaignon vai sendo drasticamente corroída. Assim, debaixo de suspeitas tanto dos huguenotes, que começaram a chamar-lhe de “Caim da América”, “apóstata” e “assassino”, quanto por parte dos católicos, que suspeitavam de suas inclinações reformadas, em fins de 1558, Villegaignon se retirou do Forte de Coligny, retornando para a França, deixando seu sobrinho Bois-le-Comte no comando do forte. Em 1560 os portugueses liderados por Mém de Sá cercam a Ilha e em apenas dois dias de combate conseguem a rendição dos franceses remanescentes que fogem pela mata costeira e os que não foram mortos pelos índios foram resgatados por um navio que os apanhou na costa, terminando assim de forma melancólica a primeira tentativa de instalar uma colônia para os huguenotes franceses no Rio de Janeiro.

Resultado da Invasão Francesa e dos Protestantes
     Imediatamente a Igreja Católica Romana restabelece a hegemonia religiosa, proibindo toda e qualquer outra manifestação de fé, implantando de forma implacável a cartilha da horrenda Inquisição Religiosa. O Brasil fica totalmente isolado de todos os movimentos religiosos, sociais e políticos que estão influenciando e transformando o mundo europeu e americano. Desta forma melancólica e frustrante se finda mais um capítulo, ao gosto popular brasileiro, da novela protestante no Brasil, mas ainda que com um intervalo de um século e meio, novos capítulos e com conteúdo mais pospositivo começarão a serem escritos. 
     Evidentemente que esta tentativa frustrada, ainda que deixasse alguma marca positiva indelével na consciência dos habitantes brasileiros serviu para aumentar substancialmente todo o arsenal de preocupações das autoridades portuguesas quanto aos invasores com sua religião protestante.
Após repelir este e outros grupos de invasores anticatólicos, tudo e todos estrangeiros com qualquer resquício de religião protestante passaram a serem vistos como invasores e deveriam ser imediatamente combatidos e extirpados, de maneira que toda estrutura religiosa protestante foi extinta, e o catolicismo retoma com força total sua catequese e assim permaneceria até as últimas décadas do século XIX.
Mas dois acontecimentos históricos de suma importância para o Brasil e os brasileiros trarão uma luz no final do túnel da implantação definitiva do protestantismo tupiniquim: a transferência da Corte Portuguesa em 1808 e a respectiva Abertura dos Portos; a Independência do Brasil em 1822 e a promulgação da primeira Constituição brasileira.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

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[1] Organização colonizadora e mercantil criada pelos holandeses com um propósito bem especifico de suplantar os portugueses no Brasil. Apesar da religião de cunho protestante estar presente e até mesmo de desenvolver algumas ações relevantes, nunca foi o fator determinante deste projeto.







[1] Outra grafia encontrada nas fontes é Villegagnon. Era sobrinho do grão-mestre da Ordem de São João de Jerusalém (conhecida também como Ordem de Malta, e chamada de “escorpiões do mediterrâneo” pelos otomanos). Em nenhum momento ele abriu mão de sua herança religiosa católica.
[2] Os monarcas franceses desde cedo questionavam a repartição das terras do Novo Mundo entre os países ibéricos e não reconheciam o domínio de Portugal sobre as terras do Brasil, cujas riquezas despertavam a cobiça dos armadores e negociantes da Normandia.
[3] Após construir ali um pequeno forte dá-lhe o nome de Colligny em homenagem ao Almirante francês que financiara a expedição.
[4] Compartilhou desta contemporaneidade o também jovem Inácio de Loyola que posteriormente haveria de criar a ordem dos Jesuítas que se tornaram os “soldados” da contrarreforma católica. Na carta de Caminha ele nos informa que os padres responsáveis pela realização da primeira missa no Brasil eram franciscanos e não jesuítas, pois a ordem não existia ainda, ela só passou a existir no contexto da Contrarreforma.
[5] No primeiro grupo havia no máximo quatro ou cinco huguenotes na tribulação inteira e nenhum pastor. O próprio Villegaignon ministrava as reuniões religiosas, no rito católico.
[6] Entre estes havia quatro carpinteiros, um que trabalhava com couro, um ferreiro, um alfaiate e um sapateiro: Pierre Bourdon, Matthieu Verneuil, Jean de Bourdel, André La Fon, Nicolas Denis, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau, Jacques Rousseau e Jean Gardien (que escreverá um relato desta viagem).
[7] Era doutor em teologia e ex-frade carmelita. Convertera-se ao protestantismo e, após haver feito seus estudos em Genebra, dirigiu- se ao Brasil em 1556, de onde voltou no ano seguinte foi enviado à cidade de La Rochelle, onde organizou uma igreja, e morreu em 1580.
[8] Era natural de Vitré, na Bretanha, estudou em Genebra e aceitou com ardor o comissionamento para a América. Depois desta expedição, pouco se sabe dele, somente que foi capelão de Jeane d’Albret.
[9] Esta carta foi copilada por Léry em sua obra (p. 25) conforme referências bibliográficas. Por ignorância ou intencionalmente alguns historiadores afirmam que Villegaignon foi alvo de uma conspiração fomentada ou liderada pelos pastores calvinistas (cf. Enciclopédia Miradora Internacional, s.v. “Franceses no Brasil”, 2.1), mas nem o próprio Villegaignon os acusa disto e de fato houve uma conspiração que ele menciona algumas linhas abaixo nesta mesma carta e que foi um dos motivos pelos quais ele solicita os reforços e fica satisfeito com a chegada dos pastores calvinistas. Portanto, os fatos posteriores e as atitudes belicosas de Villegaignon não foram causados por uma “conspiração” calvinista genebrina.
[10] Dizia-se estudante da Sorbonne, e que provavelmente embarcara quando, em Paris, a expedição permanecera cerca de um mês. Os portugueses o chamavam de Jean de Bolés; é chamado Hector por Richer, Cointa por Jean de Léry e Cointat pelos panfletistas anônimos e por Villegagnon.
[11] Esses que conseguiram retornar à França tiveram oportunidade de alertar um grupo de aventureiros flamengos que estavam prontos para embarcar para o Brasil, e também cerca de dez mil franceses que teriam emigrado se os propósitos de Coligny quanto a fundação da colônia americana não tivesse sido traído por Villegaignon (Sketches of Brazil by Dr. Kidder).
[12] O historiador Frank Lestringant tem sistematicamente questionado a veracidade do testemunho de Léry (1990).
[13] Jean de Léry (1534-1613) foi cavaleiro maltês antes da conversão, estudante de teologia em Genebra (1555), sapateiro na expedição e ao retornar conclui seus estudos e torna-se ministro do evangelho na França. Para as suas anotações etnográficas usou “d’encre de Brésir”, tinta vermelha feita de pau-brasil. Ele também forneceu as informações sobre os huguenotes martirizados que foram incluídas na obra de Jean Crespin (História dos Mártires).