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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O Primeiro Missionário Africano (Atos 8.25-40) - Subsídios Exegético e Histórico

A cópia mais antiga ilustrada da Bíblia é conhecida como os “Evangelhos de Garima”,
em um mosteiro no norte da Etiópia (aprox. 330 e 650 d.C.).

            O conhecimento que recebemos da História do Cristianismo é extremamente limitado e restritivo à perspectiva Ocidental e pouco sabemos sobre o Cristianismo Oriental, visto que houve a grande ruptura eclesiástica (1054 d.C). Mais lamentável ainda é a nossa total ignorância histórica do Cristianismo Africano, agravado pelo fato de que muitos dos grandes expoentes da ortodoxia cristã tem suas origens neste Continente (Orígenes, o alexandrino; Tertuliano, o norte africano, sem falar de Agostinho e Atanásio dois pilares do pensamento cristão) e onde nos dias atuais é simultaneamente a região global que mais cresce e que mais sofre o cristiani(cídio) cínica e covardemente ignorado pela mídia ideológica e convenientemente abandonado à própria sorte pelas lideranças cristãs do Ocidente e Oriente.

O motivo da escassez de informações históricas canônicas e também seculares desta imensa região do globo terrestre não são indicadas com clareza, como tão bem sintetiza Helmut Koester: “Não se esclarece por que as notícias sobre a época primitiva do cristianismo no Egito [amplio África] são tão escassas, enquanto que as tradições cristãs de Síria, Ásia Menor e Grécia, ainda que incompletas, são o suficientemente ricas e diversificadas...” (1988, pp. 742-744). Existem pelo menos três grupos que contribuíram para o florescimento do cristianismo na África: os judeu-cristãos, os cristãos-helenísticos e os cristãos-coptas (egípcios).

Percebe-se que há um esforço muito grande para se esconder a rica história da vertente cristã africana. Os grandes personagens mencionados acima são normalmente citados sem se fazer um link com suas etnias africanas, de maneira que se passa a falsa impressão de que eles são todos “europeus”.

            Nas páginas do livro de Atos composto pelo evangelista Lucas como a segunda parte do seu volume inicial, encontramos um registro peculiar – a evangelização e subsequente batismo de um oficial etíope (At 8.26-39). Todavia, no que tange a interpretação e estudos neotestamentário, o registro lucano do encontro de Filipe com esse graduado oficial etíope é um dos relatos mais esquecidos. Estudos focados diretamente nesta passagem são escassos, de modo que, precisa ser melhor estudado e mais valorizado, visto entendermos que nenhum registro nas Escrituras é destituído de valor.

            A narrativa em si já se reveste de peculiaridade. Lucas faz um longo registro do debate do diácono Estevão com as autoridades máxima do judaísmo e que produzira o primeiro mártir cristão, tendo como consequência direta o primeiro êxodo cristão a partir de Jerusalém, provocada, não pelas autoridades romanas, mas pelas autoridades judaicas, representada em sua instância maior o Sinédrio.

Na sequência o historiador evangélico passa a relatar o primeiro grande avivamento evangelístico que está ocorrendo na região vizinha Samaria pela instrumentalidade de Felipe outro diácono (8.5-25), de maneira que Lucas está seguindo o arcabouço por ele estabelecido no início desta sua obra (1.8). Mas na sequência de sua narrativa Lucas faz um recorte e passa ao registro do envio, pelo Espírito Santo, de Felipe para uma estrada deserta em direção a Gaza e ali ele vai evangelizar e batizar um oficial etíope, no período da regência de Candace, e que após ser batizado, tomado de grande alegria “ continuou o seu caminho”, pois estava retornando ao seu país – mas agora sendo portador das boas novas do Evangelho, lembrando que antes de serem chamados “cristãos” os discípulos eram chamados os “do caminho” – portanto, esse homem convertido se constitui no primeiro evangelista cristão na Etiópia, que naquele período se constituía em um dos países mais relevantes no Continente Africano.

A ênfase de Lucas nesse aspecto é reforçada pelo fato de que a cena seguinte é a conversão de Saulo de Tarso, em sua marcha para Damasco para prender cristãos, e que será constituído pelo próprio Senhor Jesus, o missionário para os povos gentios, mas, Saulo/Paulo permanecerá dentro das fronteiras do Império Romano, todavia, o Espírito Santo vai convertendo seus missionários e os enviando à todas as nações, incluindo a Etiópia e por consequente o Continente africano; o Espírito Santo é quem estabelece a agenda missionária mundial de maneira que o Etíope e Paulo são igualmente seus instrumentos.

Desta forma textualmente é possível afirmarmos que o contexto mais amplo (6.1-11.9) se constituiu em um bloco literário, uma vez que as narrativas se comunicam entre si estabelecendo uma inter-relação textual, oferecendo aos leitores uma perspectiva além dos fatos compartilhados unitariamente. O que também nos faz rejeitar as propostas daqueles que transformam esse livro e todas os demais literaturas bíblicas, em cochas de retalhos coladas e remendadas ao bel prazer dos escribas e amanuenses no tramitar dos tempos. O escritor Lucas tem uma proposta muito clara esboçada no início de sua obra e a segue com afinco, conectando os fatos históricos por ele selecionados, e assim, constituindo um texto único bem elaborado.

O fato de que Lucas encerra a narrativa de Atos de forma inconclusiva tem estimulado alguns comentaristas a pensar que ele pretendia escrever um terceiro volume, onde haveria de continuar o seu registro da expansão do cristianismo além fronteiras do Império Romano, o que poderia incluir a Etiópia e demais nações africanas. A expressão com que Lucas conclui a narrativa de Felipe-Etíope “continuou seu caminho” possibilita a interpretação de que ele tem a expectativa e/ou conhecimento de que o Evangelho chegara ou chegou efetivamente àquela região africana. Uma vez que ele conclui esse segundo volume entre cinco ou mais anos depois dos fatos registrados é plausível supor que ele tenha obtido informações orais e até mesmo documentais dos desdobramentos dos fatos aqui compartilhados em Atos.

            Qual a razão pela qual Lucas registra em detalhes esse acontecimento pessoal e peculiar deste etíope? Quais as implicações desse fato para a História do Cristianismo Africano? Que subsídios históricos existem deste acontecimento no desenvolvimento do cristianismo africano?

Análise da Narrativa Lucana  

            O livro de Atos tem um valor intrínseco, pois é o único no cânon neotestamentário de cunho histórico. Lucas tem a perspectiva de um historiador de maneira que seu propósito é oferecer ao “excelentíssimo Teófilo” informações seguras a respeito do progresso do cristianismo nos anos subsequentes à morte e ressurreição de Jesus Cristo, conforme apresentado e concluído em seu primeiro volume evangélico.

            Ele define seu esquema geográfico narrativo já nas primeiras linhas: “Mas quando o Espírito Santo descer sobre vocês, então receberão poder para testemunhar com grande efeito ao povo de Jerusalém, de toda a Judéia, de Samaria, e até aos confins da terra, a respeito da minha morte e ressurreição" (Atos 1.8 Bíblia Viva – sublinhado meu). Todos os movimentos da narrativa lucana estão dentro desta proposta conforme esboço simples abaixo:

- Propagação em Jerusalém (1-7)

- Propagação na Judéia e Samaria (8-12)

- Propagação aos extremos do Império (13-28).

            A perícope do Etíope está dentro desta visão geográfica progressiva da narrativa lucana, mais do que a capital do Império Romano é a Etiópia que mais se ajusta “aos confins da terra”, o que reforça a ideia de que ele pretendia escrever um terceiro volume.

            Nesta passagem (8.26-39) os termos predominantes são “caminho” (vs. 26, 36, 39), pelo “Espírito” (v. 29) referindo-se ao Espírito Santo e o verbo “anunciar” (v. 35), mas podemos incluir o termo “evangelizava” (vs 25 e 40) que fazem a função de moldura desta perícope.

Ao destacar que Felipe foi comunicado por um anjo para ir especificamente a um local “vai para a banda do sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza”,[1] o historiador tem plena consciência de que este é o caminho[2] que conduz à região africana. Nos dias de Lucas o centro de estudos geográficos estava na Grécia:

Na antiguidade clássica, a terra habitada era retratada como um disco rodeado pelo "Mar Exterior"(ώκεανός). “Os confins da terra” (τά œσχατα τής γής) referidos, como WC van Unnik tem mostrado, aos pontos mais distantes na borda do disco, por exemplo, o Ártico ao Norte, Índia a leste, Etiópia a sul e Espanha a oeste. 15 Uma pesquisa de computador que eu fiz da frase no Thesaurus Linguae Grecae confirma totalmente as descobertas de van Unnik. A expressão tem esse significado na Septuaginta e nos escritores patrísticos (muitas vezes citando a Septuaginta), onde a frase aparece com mais frequência na literatura grega. Foi usado da mesma forma nos escritores clássicos e, aparentemente, mantiveram esse significado geográfico do século V aC até o sexto século DC (ELLIS, 1991, pp. 123-132 [sublinhados meu] – o autor da citação opta pela Espanha como alvo da narrativa lucana; mas neste texto especifico de Atos defendo a Etiópia como a referência aos “confins da terra”, pela utilização na perícope da figura central do Etíope).

            Outro aspecto muito interessante é que o contexto narrativo de Lucas entrelaça três acontecimentos tematicamente similares: a “conversão” dos samaritanos, perícope antecedente; a “conversão” do etíope e a “conversão” de Saulo/Paulo, perícope posterior, de maneira que neste arranjo literário a narrativa do etíope é o ponto de convergência.  Deste modo, podemos concluir que a narrativa do Etíope não é apenas uma nota de rodapé, como é tratado pela maioria dos comentaristas, ou incidental, mas um fato relevante para o historiador Lucas. O avivamento evangelístico dos samaritanos e a conversão de Paulo são dois rios cujas correntezas chegam à cidade de Antioquia, que se constitui na maior base missionária do cristianismo aos povos não judeus dentro do Império Romano.

Mas dentro da providência divina, e o livro de Atos é denominado por alguns comentaristas como “Atos do Espírito Santo” visto haver 59 referências à Terceira Pessoa da Trindade, escolheu esse oficial etíope para levar a mensagem do “Servo de Yahweh” isaiano (40-55) cumprido em Jesus Cristo (Messias) morto e ressurreto (Servo Sofredor 52.13-53.12) às terras mais distantes como o Continente Africano, bem como os demais pontos cardeais do planeta. Essas ações do Espírito Santo é a realização da ordem final de Jesus a todos os seus discípulos em todas as épocas – ide e pregai esse evangelho a todas as nações, povos e etnias da terra, que por sua vez é o cumprimento literal da profecia de Isaías (49.6) “até as extremidades da terra”.[3]

O Etíope e as Origens do Cristianismo no Continente Africano

O texto didaticamente nos traz as informações básicas de quem é esse Etíope eunuco,[4] o que ele estava fazendo em Jerusalém e o que estava lendo.[5]

O texto deixa claro também que não se tratava de um viajante comum e corriqueiro, mas de um alto funcionário[6] de Candace[7] da Etiópia, um reino relevante naquele tempo para o escritor e seus leitores; este Etíope tinha conhecimento da Torá e mais especificamente da literatura profética-messiânica de Isaías, possuindo inclusive os pergaminhos (rolos) deste profeta,[8] que somado à informação de que viajava em uma carruagem indica que era um homem de posses. O fato de ele viajar para Jerusalém, para adorar, indica que ele era um judeu da diáspora, um prosélito[9] ou um temente a Deus.[10]

Então a Felipe lhe é ordenado, a ação verbal está no imperativo, que se aproxime e acompanhe, bem próximo, a carruagem, de maneira que pudesse ter acesso ao viajante e este a ele, possibilitando o início de um diálogo. A proximidade permitiu que Felipe ouvisse, a leitura em voz audível era muito comum naqueles tempos, que o viajante estava lendo uma passagem do profeta Isaias, o que proporciona a Felipe fazer-lhe a pergunta inicial que produzira o diálogo: “você está compreendendo o que lê?” A simples leitura de textos bíblicos não implica necessariamente que o leitor esteja entendendo a mensagem neles contidas.  

A resposta do Etíope abre a oportunidade para que Felipe possa expor-lhe as escrituras (messiânicas) a partir de Isaías (53) e conecta-lo com tudo que tinha acontecido em Jerusalém em relação a Jesus Cristo que havia sido morto, mas ressuscitara ao terceiro dia e desta forma cumprindo as prerrogativas do Messias sofredor ao qual se refere as profecias de Isaías.[11] Esse é o centro de toda a perícope – anunciou-lhe a Jesus a partir dos sujeitos que a interpelam. É possível compararmos o modo como Filipe anuncia Cristo ao Etíope com a abordagem com a qual Jesus se auto revelou através das Escrituras aos discípulos de Emaús (Lc 24.27)[12]. Filipe já não lhe fala do Messias, mas de Jesus; como uma alusão ao destino do “Filho do Homem” (Lc 9.22; Mt 16.21; Mc 8,3).

Os versos seguintes completam a dinâmica cristã – uma vez entendido e declarado a fé em Jesus Cristo – passa-se ao batismo (vs 37,38)[13], pois todo novo convertido participa efetivamente da morte e ressurreição de Jesus Cristo.  

No verso 39 ambos retomam suas atividades, Felipe retoma sua missão evangelística em Azoto e arredores, até chegar a Cesaréia e o Etíope retoma seu caminho de volta à sua nação, mas além de suas atividades oficiais, agora ele também tem as “boas novas” para compartilhar à sua rainha e todos os moradores da Etiópia.

A Igreja Cristã na Etiópia

            Esse artigo, por suas próprias limitações, não têm a pretensão de abordar tema tão abrangente, mas apenas fazer referências que possam contribuir e estimular uma melhor compreensão e reflexão do desenvolvimento do cristianismo além das fronteiras Europa e Ásia Menor que perfazem o entorno geográfico das literaturas neotestamentária. E, como dito no início do texto, resgatar a relevância do cristianismo no Continente Africano, que tem sido ignorado pelas vertentes cristãs Ocidentais.

Início com a opinião abalizada de Maguckin:

O cristianismo no continente africano começa sua história, principalmente, em quatro locais distintos: Alexandria e Copta Egito, a região norte da África em torno da cidade de Cartago, Núbia e as estepes da Etiópia (p. 30, 2011).

Etiópia o Segundo Éden

Uma das primeiras dificuldades para tratarmos dos primórdios da igreja na Etiópia está na própria localização desta nação que em períodos tardios chegou a ser confundida com a Índia, visto que ambas as nações, no imaginário greco-romano era os “confins da terra”, o último bastião da civilização, antes da barbaria.

Foram os gregos que a denominaram pejorativamente “Etiópia” que significa “rostos queimados e/ou rostos em fogo”. Todavia, sua cultura expressa a beleza e o encanto de sua geografia, de maneira que se tornou conhecida como “uma terra de leite e mel”, uma espécie de segundo Éden, não sem razão visto que juntamente com o Quênia, foram os primeiros lugares em que os pés da primeira geração humana caminharam e habitaram. Seus habitantes sempre se constituíram em um extraordinário mosaico humano.

Uma grande maioria de estudiosos explicam as origens da civilização etíope partindo da vinda dos imigrantes da Arábia do Sul que inicialmente se estabelecem na cidade costeira de Adulis, no Mar Vermelho, e na cidade de Aksum (Axum) ao norte em busca de comércio no século 5 a.C., entretanto a civilização etíope já era muito mais antiga e muito mais estabelecida do que antes destes colonizadores a invadirem (como no caso do Brasil que os portugueses “descobriram” e das civilizações Incas e outras que foram dizimadas pelos invasores espanhóis em toda América Latina).

Outro aspecto relevante é que seu idioma comum é chamado “cuxítica”,[14] de maneira que encontra uma ligação forte com o personagem bíblico Cuxe em Gênesis.[15] É possível encontrar elementos desta cultura cuxitas na arquitetura das primeiras igrejas ortodoxas desta região, bem como em cerimônias e expressões artísticas religiosas. Sua linguagem eclética e rítmica denominada Ge’ez (Etíope) exibem raízes cuxíticas, que biblicamente conectam a Etiópia com o território de Cuxe.

Na História Hebraica (1200 - 500 a.C.) há diversas referências a Etiópia na Torá (Bíblia Hebraica) em seu primeiro e mais antigo livro, Gênesis (2.13), é colocada em um contexto geográfico a partir do Éden; José se casou com uma mulher etíope (Gênesis 41.50-52), e os seus dois filhos (Manassés e Efraim, dupla nacionalidade) se tornaram líderes de tribos judaicas. Moisés se casou com uma mulher etíope (Números 12.1) e o pai dela Jetro, um etíope, foi um conselheiro de Moisés (Êxodo 18.1-12). Diferentemente dos povos canaanitas, aos israelitas não foi proibido o se casarem com mulheres cuxitas/etíopes (Êxodo 34.11,16). Jeudi (significa judeu), um secretário na corte do rei durante o tempo de Jeremias, era um descendente de Cuxe/Etiópia (36.14, 21, 23). O nome do avô de Jeudi (Cuxe) literalmente significa “negro” se refere a uma pessoa de descendência africana. O profeta Sofonias também possuía descendência cuxita (1.1).

A Etiópia (Cuxe) é uma das terras às quais os exilados judeus foram espalhados após a conquista babilônica de Judá e que haveriam de serem trazidos de volta (Is 11.11,12). Portanto, não seria nenhum absurdo que este oficial etíope tenha tido contato com pessoas de cultura e religião judaicas na sua região, ou talvez no Egito, onde havia se formado as maiores colônias fora da Palestina. Partindo destas primícias sua cópia do rolo de Isaías provavelmente era da Septuaginta grega, originalmente feita em Alexandria, no Egito. Visto que o reino etíope ficara parcialmente helenizado, a partir do tempo de Ptolomeu II (308-246 AEC), não era incomum que este oficial soubesse ler a língua grega. Vindo a ser um prosélito ou um temente a Deus, e sua subsequente conversão ao cristianismo, se ajusta perfeitamente às palavras do Salmo 68.31, cujo contexto é o reconhecimento de Yahweh por todos povos da terra.

Esta ligação umbilical da Etiópia/Cuxe adentra as narrativas neotestamentária. Por inferência temos Simão o Zelote, cananeu, portanto, descendente de Cam (Mateus 10.4), que dará origem aos Cuxitas/Etíopes; Simão de Cirene, uma cidade que ficava localizada no norte da África, ajudou Jesus a carregar a cruz (Mateus 15.21). Foram alguns cireneus, que se converteram no dia de Pentecostes, que chegando na cidade de Antioquia anunciaram o evangelho aos de língua grega (Atos 11.20); Apolo, originário de Alexandria (África), foi tutelado pelo casal judeu Priscila e Áquila e companheiro missionário de Paulo, tendo pregado nas comunidades cristãs de Éfeso e Corinto. Simeão Níger (o Negro) e Lúcio de Cirene (cf. acima) foram líderes na igreja de Antioquia da Síria (Atos 13.1),[16] onde os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos. (Atos 11.26). Os Sírios etnicamente eram negros. Foi na Antioquia da Síria que Lúcio e Simeão ordenaram e comissionaram o apóstolo Paulo para o ministério do evangelho (Atos 13.2,3).

As relações entre a Etiópia e Jerusalém compreendem uma das rotas mais antigas conhecidas pelos africanos por mar e terra.[17] Um dos primeiros grandes centros comerciais se formou na cidade de Axum (Aksum),[18] na mesma proporção que os comerciantes da Arábia do Sul ali foram se estabelecendo.

Na história grega poucas nações ou povos são tão mencionadas em seus registros como a Etiópia e de forma elogiosa. Nos textos antigos de Homero (800 a.C.) Ilíada e Odisseia; Heródoto (490-425) chamado “pai da história (europeia) cita com frequência a Etiópia (Histórias, Livro II, aprox. 440 a.C.); no período romano (1-200 a.C.) o termo Etiópia começou a ser relacionado em termos raciais englobando todos que tinham pele negra e cabelos grossos e enrolados (Cláudio Ptolomeu [90-168 a.C.], Tetrabiblos (grego) ou o Quadrapartitium (latim) que significa “Quatro Livros”).   

O ge'ez (gueês), também chamado de etíope, é uma antiga língua semítica que se desenvolveu na atual região da Eritreia e norte da Etiópia no Chifre da África, como a língua dos camponeses. Posteriormente a língua ge’ez veio a se tornar a língua oficial do Reino de Axum e da corte imperial da Etiópia. Ainda nos dias atuais o ge'ez permanece como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Tewahido da Etiópia, da Igreja Ortodoxa Tewahido da Eritreia, da Igreja Católica Etíope, da Igreja Católica Eritreia e também da Beta Israel (judeus etíopes).

Considerações Finais

A história de fundação do cristianismo na Etiópia mais historicamente substancial é a dos irmãos sírios Frumentius e Aedesius no século IV d.C., pois foram os primeiros a cristianizar uma corte real da Etiópia. Uma estratégia que teve sucesso em muitos lugares, todavia, ao não constituírem um cristianismo autóctone que pudesse perenizar o cristianismo nas diversas camadas sociais, depois de 1.100 anos, a Igreja Ortodoxa Núbia, ao sul, praticamente desapareceu quando a corte real substituiu o cristianismo pelo islamismo como religião oficial.

Entretanto, à margem do registro histórico-arqueológico, os fiéis cristãos ortodoxos etíopes têm uma variedade de “histórias de fundação” próprias, sendo a mais conhecida a história do eunuco etíope registrado por Lucas em Atos (8.26-40), conforme apresentado neste artigo. O texto histórico lucano apenas atesta que a presença de “prosélitos e/ou tementes a Deus” etíopes em Jerusalém já era um fato estabelecido no cotidiano da época de Jesus, de maneira que as literaturas proféticas judaicas relacionadas ao Messias eram conhecidas por essas pessoas.

O sucinto levantamento aqui apresentando corrobora ao menos em tese de que existe fortes indícios e embasamentos para se buscar uma origem primária para o desenvolvimento de comunidades cristãs autóctone Etíope, evidentemente não dentro dos parâmetros estruturais revelados em Atos, nas comunidades estabelecidas por Paulo e seus companheiros e sendo esta uma razão pela qual tenha proliferado uma diversidade de correntes teológicas distintas das vertentes advinda da Ásia-Europa-Palestina e que vai desembocar nos grandes embates teológicos nos séculos posteriores, quando então haverá de se estabelecer uma ortodoxia cristã dogmática.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

 

Referências Bibliográficas [utilizada no texto]

ELLIS, E. Earle. The End of the Earth’ (Acts 1:8). Bulletin for Biblical Research 1 (1991): 123-132 (cf. Van Unnik (n. 10, I, 386-401); Strabo, Geography 1, 1, 6; 1, 2, 31; 2, 3, 5; 2, 4, 2; Philostratus, vita Apol. 6, 1, 1).

KÖESTER, Helmut. Infroducción al Nuevo Testamento. Salamanca: Ediciones Sígueme. 1988.

MAGUCKIN, John Anthony (Ed.). The Encyclopedia of Eastern Orthodox

Christianity. V. 1 (A-M). Blackwell Publishing Ltd, 2011.

PERVO, Richard I. Acts: a commentary. Minneapolis: Fortress Press, 2008. [Hermeneia].

RIUS-CAMPS, Joseph. De Jerusalém a Antioquia. Genes is de la Iglesia Cristiana: Linguístico exegético a Hch 1-12. Córdoba: Ediciones EI Almendro. 1989.

SMITH. Robert Houston. “Ethiopia”. In: The Anchor Bible Dictionaiy (Ed. David Noel Freedman). Vol. 2 Doubleday. 1992, p. 666.

BONGMBA, Elias Kifon Bongmba (Org.) The Routledge Companion to Christianity in Africa. York anda London: Routledge Taylor & Francis Group, 2016.

Referências Bibliográficas [complementares]

DECRET, François. Early Christianity in North Africa. Translated by Edward Smither.  Cambridge, United Kingdom: James Clarke & Co, 2011.

JENKINS, Philip. The Lost History of Chris tianity The Thousand-Year Golden Age of the Church in the Middle East, Africa, and Asia—and How It Died. New York, NY: HarperCollins Publishers Ltd., 2008.

MESTERS, Carlos: OROFINO, Francisco. “Las primeras comunidades cristianas dentro de la coyuntura de la época: Las etapas de la historia dei ano 30-70 d.C.”. In: Revista de Interpretation Bíblica Latino Americana (RIBLA). n. 22. 1996. p. 37.1.

MOORE, Thomas S. “To the end of the Earth”: the geographical and ethnic universalism of Acts 1:8 in light of isaianic influence on Luke. JETS 40/3 (September 1997) 389-399.

ODEN, Thomas C. How Africa shaped the christian mind - Rediscovering the African Seedbed of Western Christianity. Downers Grove, Illion: InterVarsity Press, 2007.

Dicionários

VV. AA. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, vol. 1,2a Edição. 2000.

VV. AA. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.

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[1] A expressão em direção “sul” é uma palavra grega (kata mesēmbria) que pode indicar um marcador temporal “meio-dia”, sendo o caso aqui significa que Felipe foi enviado para uma estrada vazia em um momento improvável do dia. Gaza era o principal centro da rota das caravanas para o Egito.

[2] Em grego “hodos” - que também poderia ser traduzido como “estrada” e, também é a palavra que dá ao livro de Êxodo seu nome: “ex-hodos”, a saída.

[3] Ao citar as palavras do Servo do Senhor Lucas faz uma alusão consciente onde a frase tem uma conotação geográfica: “Eu vou te dar como uma luz para os gentios Que minha salvação possa alcançar Até o fim da terra (έσχάτου τής γής)”.

[4] Não tenho espaço para discutir nesse texto a questão do termo “eunuco”, portanto, parto do pressuposto que aqui não se trata de um homem castrado, ainda que seja um de seus significados, mas de um título designado, conforme textos em ambos os testamentos, a altos funcionários de um reino e da mais alta confiança de seus respectivos governantes. (cf. verbete: TDNT, v.2 p. 766-7).   

[5] A passagem de Isaías citada nos vv. 32-33 é Isaías 53.7-8; mas podemos relacioná-la com Isaías 40.3-5, citado nas narrativas do batismo; e Isaías 56, que menciona especificamente os eunucos como pessoas que estarão entre "todos os povos" para quem a casa de Deus é uma casa de oração (um dos versículos para memória do próprio Jesus (Mc 11.17, somente ele registra o verso completo “para todas as nações”; Mt 21.13, Lc 19.45).

[6] Os comentadores tendem cada vez mais a traduzir a palavra eunuchos, usada em Atos, por "chanceler", que no reino de Núbia significava administrador do tesouro. Guardando semelhança com a posição de José em relação à Faraó como responsável por todos os tesouros egípcios.

[7] No período greco-romano Etiópia (Meroe) era conhecida por ter sido governada por uma linhagem de Candaces (Kandake), ou rainhas-mães. Um clássico escritor romano (Calistenes) deixou registrada sua admiração pelas Candaces, que de acordo com ele, eram mulheres fortes e de uma sabedoria ímpar.

[8] É possível que ele houvesse adquirido uma cópia dos manuscritos em Jerusalém e tenha começado a ler desde o início de sua viagem, mas nada inviabiliza que ele já possuísse estes pergaminhos antes de viajar a Jerusalém. O fato do texto citado em Atos corresponda à versão da Septuaginta (grega) e não ao texto hebraico, implica em que ele de fato não seja um judeu por nascimento, ainda que os judeus da diáspora preferissem a tradução grega para suas leituras pessoais. Lembrando que a primeira versão da Septuaginta foi produzida em Alexandria (África).

[9] Um gentio (não judeu) que adotava o judaísmo, observavam toda a lei de Moisés, inclusive a circuncisão.

[10] Um não-judeu que partilhava a fé de Israel sem a necessidade de se submeter a circuncisão. Se de fato o termo “eunuco” seja uma referência à castração, ele não poderia ser um “prosélito”, pois as leis levíticas o impediriam de vários exercícios cúlticos, incluindo a proibição de sua entrada no templo, o que reforça a ideia de que fosse um “temente a Deus” ou talvez um membro de uma lendária comunidade judaica na Etiópia.

[11] Muitos comentaristas concordam que este texto especifico de Isaías (53) era dos mais conhecidos das comunidades cristãs iniciantes e tornou-se o preferido nas pregações para conectar as profecias veterotestamentária com os acontecimentos da Paixão (cf.:  Mt 8.17; Lc 22.37; At 3.13-26; 4.27-30; Rm 10.16; 1Pe 2.21-24;).

[12] PERVO (2008, p. 219) coloca em paralelo as duas perícopes, o que facilita em muito a comparação dos dois relatos (Lucas 24.15-32; Atos 8.30-39).

[13] O verso 37 não consta nos principais manuscritos.

[14] Existem oito grupos claramente reconhecidos de idiomas que são ou costumam ser incluídos na família cuxítica, entre elas o sidamo, falado na Etiópia, com cerca de 2 milhões de pessoas.

[15] Na tradição bíblica, Cuxe e/ou Cus, foi um dos filhos de Cam que se estabeleceu no nordeste da África. Na Idade Antiga e na Bíblia, uma grande região conhecida como Cuxe abrangia o norte do Sudão, o sul do Egito e partes da Etiópia, Eritreia e Somália, e os termos Etiópia e Cuxe eram usadas como sinônimas. No período da antiguidade clássica os gregos passaram a denominar de "Etiópia" e não "Cuxe (Cus)" toda essa região e etnias nela contida.

[16] Não confundir com a Antioquia da Pisídia (At 13.14)

[17]  A distância entre Jerusalém e Etiópia de 4205 Km por estrada. 

[18] A cidade de Axum foi aparentemente fundada por volta de 100 d.C., mas a região circundante é habitada há milênios.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Calvino: 1564 o Crepúsculo de um Reformador

 


O ano de 1564 foi o primeiro do seu descanso eterno e o início,
para nós, de uma longa e justificável dor. 
Theodore Beza

            Desde sua conversão até seu último dia João Calvino manteve-se envolvido em suas múltiplas tarefas de professor, pregador, pastor, e principalmente de escritor. Poucos reformadores deixaram tantas obras escritas como ele começando por sua obra teológica magna “As Institutas da Religião Cristã”, que após cada revisão era ainda mais ampliada, perpassando por seus preciosos comentários dos livros da bíblia, do Primeiro Testamento com exceção dos livros históricos depois de Josué (Juízes, Rute, Samuel, Reis, Ester, Neemias, Esdras), e da literatura de sabedoria deixou de comentar Provérbios, Eclesiastes e Cantares, do Segundo Testamento as exceções foram o livro do Apocalipse e as duas últimas cartas de João. Suas correspondências é algo extraordinário em torno de 4.271 cartas que foram coletadas, muitas delas com diversas laudas, mantidas com as mais diversas personalidades e sobre os mais controversos temas. E seus sermões que duravam não menos do que uma hora e seis mil palavras.[1] Calvino como uma vela manteve sua luminosidade até o último momento.

            Sua saúde desde muito jovem sempre foi bastante frágil e ao longo dos anos foi agregando uma série de enfermidades que o perturbavam muito. Calvino descrevia sua condição física como "uma luta constante de morte": era um sofredor crônico de febre, renite (inflamação da membrana mucosa do nariz que fazia seu nariz escorrer continuamente), asma, indigestão e enxaqueca que às vezes o mantinham acordado a noite toda; a partir de 1558, ele sofreu longamente de febre quartã (uma febre malárica intermitente) da qual nunca se recuperou totalmente; a lista parece interminável, sofria de artrite quase paralisante, gota, pedras nos rins, hemorroidas ulceradas, doença gengival, indigestão crônica e pleurisia que finalmente levou à tuberculose pulmonar maligna. Em muitos momentos Calvino chegou a tossir sangue durante pregações ou palestras públicas.

Mas após enfrentar tantas tempestades ele sente que seus dias estão por se completar. Mas ao olhar no retrovisor de sua vida ele é tomado de grande alegria interior, por tanto que Deus o capacitou a realizar e por aquilo que ele ainda haveria de fazer no pouco tempo que ainda lhe será concedido pela graça de seu Salvador e Senhor. Sobre essa aproximação do fim, é revelador lermos o que escreveu Theodore Beza, um de seus primeiros biógrafos e de convivência pessoal: “No ano de 1562 já pode ser visto, que Calvino estava apressando-se com passos rápidos para um mundo melhor. Ele, porém, não cessou de confortar os aflitos, de exortar, mesmo de pregar, e dar palestras”. Era impossível conviver com Calvino e não admirar sua determinação; suas obras e correspondências finais não são em nada inferior ao que havia produzido em outros anos de mais vigor, se o corpo padecia a mente e o coração pulsavam vividamente cada minuto do dia, sua mente adamantina permaneceu saudável e ativa até seus últimos momentos de vida, como atestam as atas do Consistório de Genebra: "saudável e inteira em sentido e compreensão".

            De onde Calvino tirava tanta determinação? Uma resposta simples pode ser encontrada em uma das pedras fundamentais do edifício que abriga o Colégio, onde ele esculpiu uma expressão de Provérbios: “O temor do Senhor é o principio da sabedoria”. Esse foi o moto pelo qual Calvino viveu intensamente cada dia da sua vida, uma das razões pelas quais ele não sucumbiu antes diante de suas múltiplas responsabilidades e atividades e das violentas tempestades que se abateram sobre ele. Ele nunca tinha sido realmente robusto e, nos últimos anos apareceu asma, acompanhada de cusparadas de sangue e outros distúrbios, mas nada o impedia de continuar seu trabalho e de fato parece ter trabalhado ainda mais à medida que suas forças diminuíam. Cada grão de areia da ampulheta do tempo que Deus ainda lhe reservara tornava-se mais precioso do que ouro e prata. Tanto a fazer e tão pouco tempo.

Adentrando o ano de 1563 suas condições físicas se deterioram rapidamente, que todos que o viam admiravam-se dele ainda estar vivo. E apesar de aconselhado pelos amigos mais íntimos a se poupar ele resistia. Quando por fim teve que deixar as atividades públicas da cidade, do Colégio e do púlpito, ele manteve-se plenamente ativo em sua residência, atendendo todos os que o procuravam e utilizando seus secretários, que se revezavam, ditando-lhes as correspondências, bem como seus comentários bíblicos.

            Seu último comentário foi justamente o livro de Josué e aqui muitos são os que discutem se foi algo casual ou se ele realmente pressentia que sua partida estava muito próxima. A questão é que o livro de Josué trata justamente da Morte de Moisés e a transição para uma nova liderança na figura de Josué. É impossível ler o comentário e não perceber a ligação direta com o momento transitório de Calvino.

            Este comentário foi feito a partir das reuniões semanais em que todos os ministros de Genebra e aldeias vizinhas compareciam para estudar as Escrituras, chamada “Congregação da Companhia de Pastores”. A participação efetiva de Calvino revela o grau de importância que ele dava a estas reuniões semanais. De junho de 1563 a janeiro de 1564, ou seja, no transcorrer dos últimos meses de vida de João Calvino, foram produzidos vinte e três textos sobre o livro de Josué.

            A segunda quinzena de agosto e setembro-outubro de 1563 fora dias muito difíceis para Calvino, como testemunham suas cartas. Calvino havia pregado seu último sermão em Genebra em 6 de fevereiro de 1564, mas de acordo com Theodore Beza ele persistiu em participar das reuniões semanais dos pastores porque não havia necessidade dele falar por uma ou mais horas inteiras, como na pregação ou nas aulas. Como moderador ele apenas adicionava comentários ao capítulo que fora exposta por um dos colegas, bem como fazia uma conclusão e a oração final.

            Estas reuniões dos pastores eram também importantes para que eles pudessem acompanhar pessoalmente as condições de saúde de seu amigo e amado líder. No final de março de 1564 ele participa da sua última reunião oficial da Companhia de Pastores, de preparação para a celebração da Páscoa e da Ceia do Senhor. Na sexta-feira 31 de março, pela última vez, ele esteve presente no Auditório onde se realizavam as reuniões, já com seu corpo completamente desfigurado.

Em 25 de abril, ele ditou seu último testamento[2] e na sexta-feira, 28 de abril de 1564, Calvino recebeu a congregação de ministros à sua cabeceira e despediu-se deles. Suas palavras foram posteriormente anotadas de memória pelo ministro Jean Pinant. É a voz de um homem determinado, mas completamente exaurido. Na verdade, ele viveu somente mais algumas semanas. Ele faz uma retrospectiva de sua chegada à Genebra até aqueles dias e aqui podemos visualizar a força de sua personalidade e o ponto convergente de sua vida:

Pareço ser diferente de outros enfermos que, quando a morte se aproxima, seus sentidos falham e eles deliram. No meu caso, embora seja verdade que me sinto paralisado, parece que Deus estava concentrando todos meus sentidos dentro de mim, e acredito que terei grandes dificuldades e que morrer me custará muito esforço. . . .

Quando vim pela primeira vez a esta igreja, não encontrei quase nada nela. Havia pregação e isso era tudo. Eles procurariam ídolos, é verdade, e os queimavam. Mas não houve reforma. Tudo estava em desordem. . . Eu vivi aqui em meio a discussões contínuas. Fui saudado com escárnio uma noite diante de minha porta com 40 ou 50 tiros de arcabuz. Eu sou, e sempre fui um estudioso [acadêmico] pobre e tímido, então você pode imaginar o quanto isso me surpreendeu. ... Eles colocaram cachorros nos meus calcanhares, gritando, ‘para ele, para ele!’ E eles morderam meu vestido e minhas pernas [referindo ao seu retorno de Estrasburgo]. Pois embora eu não seja nada, sei bem que evitei 3.000 tumultos que poderiam ter ocorrido em Genebra. Mas tenham coragem e fortaleçam-se, pois Deus fará uso desta Igreja e a manterá e garante que a protegerá.

Mas ele aproveita também para fazer uma avaliação pessoal consciente e realista, mesmo sabendo que opositores haveriam de fazer uso distorcido de suas próximas palavras:

Tive muitas enfermidades que vocês tiveram de tolerar, e tudo o que fiz foi de pouca importância. Os mal-intencionados tirarão proveito dessa confissão, mas repito que tudo o que fiz tem pouca importância, e sou uma pobre criatura. Minhas faltas sempre me desagradaram e a raiz do temor ao Senhor sempre esteve em meu coração. Quanto à minha doutrina, ensinei fielmente, e Deus me deu graça para escrever, o que fiz fielmente como eu pude; e não corrompi [mutilei] uma única passagem da Escritura nem a torci até onde eu sei; e quando podia chegar a um significado artificial através da sutileza, coloquei tudo isso sob meus pés e sempre busquei a simplicidade. Não escrevi nada por ódio contra ninguém, mas sempre coloquei diante de mim o que pensei ser para a glória de Deus. (CO 20.3023).

            Mas em 19 de maio, preparando-se para a celebração da Ceia de Pentecostes de 1564 todos os participantes de Companhia de Pastores se fizeram presentes na Rue des Chanoines, residência de Calvino na cidade. Ali fizeram sua refeição comunitária e celebraram sua amizade. Ele pediu que fosse conduzido de seu quarto para a sala de jantar adjacente. Enquanto à mesa, contemplando a todos os presentes com seus olhos vividos disse com voz fraca, mas firme: “Esta é a última vez que os encontrarei à mesa”, palavras que trouxe aperto ao coração de todos os presentes. Ele então fez uma oração, comeu um pouco e conversou o mais animadamente possível naquelas circunstâncias. Antes de terminar a refeição, ele solicitou que fosse levado de volta ao seu quarto e, ao despedir-se, disse com um semblante sorridente: “Esta parede não me impedirá de estar presente convosco em espírito, embora ausente no corpo. Foi o último momento deles com Calvino, que veio há falecer poucos dias depois.

            Embora Calvino tenha insistido por correspondência para que Farel,[3] seu amigo precioso, não empreendesse viaje para uma visita final, já completado seus oitenta anos e com a saúde debilitada, Farel fez a longa viagem de Neuchâtel para que pudesse estar ao lado do irmão de batalha. Diante da figura deteriorada do amigo, Farel declarou que desejava morrer no lugar dele. Alguns dias depois da morte do querido amigo Farel escreve uma carta a Fabri, outro amigo leal (6 de junho de 1564):

 Oh, por que não fui levado em seu lugar, enquanto ele poderia ter sido poupado por muitos anos de saúde ao serviço da Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo! Agradeço a Aquele que me deu a graça suprema de encontrar esse homem e mantê-lo contra sua vontade em Genebra, onde ele trabalhou e realizou mais do que a língua pode dizer. Em nome de Deus, eu o pressionei e o pressionei novamente para assumir um fardo que lhe parecia mais difícil do que a morte, de modo que às vezes ele me pedia, pelo amor de Deus, que tivesse pena dele e lhe permitisse servir a Deus de uma maneira que se adequasse à sua natureza. Mas quando ele reconheceu a vontade de Deus, ele sacrificou sua própria vontade e realizou mais do que se esperava dele, e superou não apenas os outros, mas também a si mesmo. Oh, que curso glorioso ele terminou alegremente! (GREEF, 2008).

Calvino morreu pacificamente e silenciosamente no sábado, 27 de maio de 1564 entre as 20h e 21h, com a idade de (apenas) 54 anos. E coube a Beza testemunhar sua partida:

“Eu tinha acabado de deixá-lo, um pouco antes e, ao receber o chamado dos servos, corri imediatamente para ele com um dos irmãos. Descobrimos que ele já havia morrido, e com tanta calma, sem nenhuma convulsão nos pés ou nas mãos, que nem mesmo deu um suspiro mais profundo. Ele permaneceu perfeitamente sensato e não foi totalmente privado de falar até o último suspiro. Na verdade, ele parecia muito mais um adormecido do que morto”.

E o próprio Beza registra o impacto desta morte na cidade de Genebra:  Na noite e no dia seguinte houve uma lamentação geral por toda a cidade ... todos lamentando a perda de alguém que foi, sob Deus, um pai comum e consolador” (1983,  Xcvi). Mais um testemunho contraditório ao estereotipo frio e insensível que seus adversários produziram nas bigornas dos centros acadêmicos e religiosos daqueles dias e premeditadamente perdura até os dias de hoje.

Mas é relevante ouvirmos o testemunho oficial do Consistório de Genebra[4], composto por pessoas que conviveram por muitos anos com João Calvino:

No que diz respeito ao falecido M. Calvin que tinha sido como um pai no meio de nossa sociedade e o mesmo para cada um de nós individualmente. Deus deu a ele tais qualidades e o acompanhou com tanta autoridade sobre as pessoas que ele usou para ajudar cada um de nós a servir melhor em nosso ministério, de modo que se tivesse que marcar uma reunião todos os anos não poderia ter escolhido ninguém mais de nossa sociedade: ter feito de outra forma teria sido ignorar as incríveis e grandes qualidades que Deus concedeu a Calvino; junto a eles havia uma sinceridade e consciência que todos podiam perceber. E, na verdade, Deus abençoou tanto sua conduta que em todas as esferas, inclusive em tudo o que diz respeito ao nosso ministério, nunca faltou à nossa sociedade um conselho bom e sensato, e sempre foi óbvio que ele nunca pensou em sua própria vantagem ou na de seus parentes, mas tratou todos iguais. (Registres II, p. 103, apud, POTTER, 1983, p. 179).  

Ele foi enterrado no domingo em uma sepultura sem identificação em um local secreto em algum lugar de Genebra. Essa havia sido uma solicitação pessoal de Calvino. Quando comentou os livros de Moisés (Pentateuco) tratando sobre a morte de Moisés, cujos ossos nunca foram encontrados, ele disse: “É bom que homens famosos sejam enterrados em sepulturas não marcadas” (CALVIN, 1979, p. 406). Essa convicção guiou seu próprio enterro. Ele rejeitou a veneração supersticiosa dos mortos e não queria peregrinações ao seu túmulo. Ele não queria deixar seguidores, mas cristãos. Mas é em sua obra magna “As Institutas da Religião” que encontraremos seu melhor epitáfio:

“. . . podemos passar pacientemente por esta vida em aflições, fome, frio, desprezo, censuras e outras circunstâncias desagradáveis, contentes com esta única garantia de que nosso Rei nunca nos abandonará, mas dará o que precisamos, até que tenhamos terminado nossa guerra, então seremos chamados ao triunfo” (Calvin, Institutes , II, 15, 4).

Em 2 de junho de 1564, todos os ministros e professores da academia e da Igreja de Genebra se reuniram, e Beza falou da perda que a Igreja e a cidade haviam experimentado. Beza depois colocou no papel suas memórias mais íntimas de Calvino, suas qualidades como teólogo e sua personalidade, muito diferente da figura austera, sem humor e inacessível que seus adversários religiosos e políticos divulgavam incansavelmente por toda a Europa, da qual é oportuno oferecer aqui um pequeno extrato:

Embora a natureza o tivesse formado para ser sério, ainda assim, nos assuntos comuns da vida, não havia homem mais agradável de lidar. Ao suportar as enfermidades, ele era paciente; ele nunca fez os irmãos mais fracos enrubescerem, ou os aterrorizou com uma repreensão intemperante, ainda assim, ele nunca foi conivente ou lisonjeou suas faltas. Ele era tão determinado e severo inimigo da adulação, dissimulação e desonestidade (especialmente no que dizia respeito à religião) quanto era um amante da verdade, simplicidade e franqueza. Ele era naturalmente de um temperamento forte, e isso havia sido aumentado pela vida árdua que levava. Mas o Espírito do Senhor o ensinou tanto a comandar sua ira que nenhuma palavra foi ouvida procedendo dele como um homem impróprio (CR XLIX, cols. 169-70).

O grande legado de Calvino não é o “calvinismo”, mas seu exemplo de um crente submisso a Deus em toda a sua majestade e constrangido a viver e morrer para sua glória. Tanto em sua vida diária quanto em seus muitos escritos nos revelam um homem prostrado diante de Deus, sujeito à sua Palavra, decidido a conhecer e fazer a sua vontade, não importando o custo pessoal. O maior tributo que se pode prestar ao homem Calvino é cultivar a mesma disposição e atitude para com Deus e a Sua Palavra.

João Calvino andou com Deus e Deus o tomou para si.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante

 

Referências Bibliográficas (mencionadas neste artigo).
BEZA, Theodore. The Life of John Calvin, em Selected Works of John Calvin , vol. 1. Grand Rapids, MI: Baker, 1983. [H. Beveridge e J. Bonnet]. 
CALVIN, John. Commentaries on the Four Last Books of Moses. Grand Rapids, MI: Baker, 1979. [Vol. 4].
Corpus Reformatorum: Ioannis Calvini Opera quae supersunt omnia, ed. W. Baum et al. (Brunswick: C. A. Schwetschke & Filium, 1863–1900).
De BOER, E.A. The Genevan School of the Prophets. The Congrégation of the Company of Pastors and Their Influence in 16th Century Europe. Geneva: Droz, 2012.
GREEF, Wulfert. The Writings of John Calvin: An Introductory Guide. Westminster John Knox Press, 2008.
POTTER, G. R. and GREENGRASS. M. (Ed. A. G. Dickens) John Calvin.--(Documents of modern history). London: Edward Arnold (Publishers) Ltd, 1983.
REYMOND, Robert. John Calvin: his life and influence. Rosshire: Cristian Focus, 2004, p. 129.
STEINMETZ, David. Calvin in contexto. Oxford: Oxford University Press, Inc., 2010.
STUBBING, Henry e HENRY, Paul Emil. The life and times of John Calvin, the great reformer. Londres: Whittaker and Co., Ave Maria Lane, 1840. V. 2.

Referências Bibliográficas (Complementar)
BONNET, Jules. Idelette de Bure: femme de Calvin (1540-1549). Source: Bulletin de la Société de l'Histoire du Protestantisme Français (1852-1865) , 1856. AVRIL, Vol. 4, No. 12 (1856 AVRIL), pp. 636-646. Published by: Librairie Droz Stable URL: http://www.jstor.com/stable/24281081
CALVINO, João. O mistério da piedade. Tradução de Camila Almeida. 2015.
D'AUBIGNÉ, J. H. Merle. The Reformation in Europe in the time of Calvin. Vol. VIII. Translated William L. R. Cates. New York: Robert Carter and Brothers, 1879.
FAREL, Guillaume and VIRET, Pierr. Les amitiés de Calvin (Extrait.) 1536-1564. Source: Bulletin de la Société de l'Histoire du Protestantisme Français (1852-1865) , 1864. Avril, Vol. 13, No. 4 (1864. Avril), pp. 89-96. Published by: Librairie Droz Stable URL: http://www.jstor.com/stable/24281594  
FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: vida, influência e teologia. Campinas, SP: Edição de Luz Para o Caminho, 1985.
JOHNSON, Thomas Cary. John Calvin and the Genevan Reformation: a sketch. Richmond,VA.: The Presbiterian Committee of Publication, 1900.
MANETSCH, Scott. M. Calvin’s Company of Pastors Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609. Oxford University Press, 2013.
SELDERHUIS, Herman J. (Ed.). The Calvin Handbook. Translated by Henry J. Baron, Judith J. Guder, Randi H. Lundell, and Gerrit W. Sheeres. Michigan/Cambridge: William B. Eerdmans Publishing Company, 2009.
WILEMAN, Willian. John Calvin: his life, his teaching, and his influence. London: Robert Banks and Son.
WITTE, John. Learning the Word in Geneva: John Calvin the Catechist. Published in Douglas Gragg and John Weaver, eds., Reading for Faith and Learning: Essays on Scripture, Community, and Libraries in Honor of M. Patrick Graham (Abilene, TX: Abilene Christian University Press, 2017), 115-128.
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VADIAN, Joachin, BUCER, Martin and BONNET, Jules. Les amitiés de Calvin. Source: Bulletin historique et littéraire (Société de l'Histoire du Protestantisme Français), 1869, Vol. 18, No. 6 (1869), pp. 257-268. Published by: Librairie Droz Stable URL: http://www.jstor.com/stable/24285378.
VOSLOO, Robert. Calvin, the Academy of Geneva and 150 years
of theology at Stellenbosch: historical-theological contributions to the conversation on theological education. Studia Historiae Ecclesiasticae, December 2009, 35 – Supplement, 17-33.

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[1]Um homem chamado Denis Raguenier começou a escrever em sua taquigrafia particular, mas logo foi contratado como secretário para registrar e transcrever cada sermão, que Calvino em vida não teve tempo de editá-las.

[2] Embora fosse frequentemente afirmado por seus inimigos que Calvino havia se tornado um homem rico por meio de seu ministério, ele regularmente repudiava a acusação e seu testamento provava sua falta de recursos, pois ele tinha no momento de sua morte uma reserva financeira de Ele tinha apenas 225 coroas, não chegando a dois mil dólares nos dias atuais.

[3] Fora Farel que insistiu que Calvino se juntasse a ele na obra de reforma da igreja em Genebra em 1538 e trouxe Calvino para o ministério oficial.

[4] O Consistório de Genebra é o Concílio da Igreja Protestante de Genebra, semelhante a um Sínodo em outras igrejas reformadas. O Consistório foi organizado por João Calvino ao retornar a Genebra em 1541, a fim de integrar a vida cívica e a igreja.