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sexta-feira, 26 de março de 2021

Calvino: 1564 o Crepúsculo de um Reformador

 


O ano de 1564 foi o primeiro do seu descanso eterno e o início,
para nós, de uma longa e justificável dor. 
Theodore Beza

            Desde sua conversão até seu último dia João Calvino manteve-se envolvido em suas múltiplas tarefas de professor, pregador, pastor, e principalmente de escritor. Poucos reformadores deixaram tantas obras escritas como ele começando por sua obra teológica magna “As Institutas da Religião Cristã”, que após cada revisão era ainda mais ampliada, perpassando por seus preciosos comentários dos livros da bíblia, do Primeiro Testamento com exceção dos livros históricos depois de Josué (Juízes, Rute, Samuel, Reis, Ester, Neemias, Esdras), e da literatura de sabedoria deixou de comentar Provérbios, Eclesiastes e Cantares, do Segundo Testamento as exceções foram o livro do Apocalipse e as duas últimas cartas de João. Suas correspondências é algo extraordinário em torno de 4.271 cartas que foram coletadas, muitas delas com diversas laudas, mantidas com as mais diversas personalidades e sobre os mais controversos temas. E seus sermões que duravam não menos do que uma hora e seis mil palavras.[1] Calvino como uma vela manteve sua luminosidade até o último momento.

            Sua saúde desde muito jovem sempre foi bastante frágil e ao longo dos anos foi agregando uma série de enfermidades que o perturbavam muito. Calvino descrevia sua condição física como "uma luta constante de morte": era um sofredor crônico de febre, renite (inflamação da membrana mucosa do nariz que fazia seu nariz escorrer continuamente), asma, indigestão e enxaqueca que às vezes o mantinham acordado a noite toda; a partir de 1558, ele sofreu longamente de febre quartã (uma febre malárica intermitente) da qual nunca se recuperou totalmente; a lista parece interminável, sofria de artrite quase paralisante, gota, pedras nos rins, hemorroidas ulceradas, doença gengival, indigestão crônica e pleurisia que finalmente levou à tuberculose pulmonar maligna. Em muitos momentos Calvino chegou a tossir sangue durante pregações ou palestras públicas.

Mas após enfrentar tantas tempestades ele sente que seus dias estão por se completar. Mas ao olhar no retrovisor de sua vida ele é tomado de grande alegria interior, por tanto que Deus o capacitou a realizar e por aquilo que ele ainda haveria de fazer no pouco tempo que ainda lhe será concedido pela graça de seu Salvador e Senhor. Sobre essa aproximação do fim, é revelador lermos o que escreveu Theodore Beza, um de seus primeiros biógrafos e de convivência pessoal: “No ano de 1562 já pode ser visto, que Calvino estava apressando-se com passos rápidos para um mundo melhor. Ele, porém, não cessou de confortar os aflitos, de exortar, mesmo de pregar, e dar palestras”. Era impossível conviver com Calvino e não admirar sua determinação; suas obras e correspondências finais não são em nada inferior ao que havia produzido em outros anos de mais vigor, se o corpo padecia a mente e o coração pulsavam vividamente cada minuto do dia, sua mente adamantina permaneceu saudável e ativa até seus últimos momentos de vida, como atestam as atas do Consistório de Genebra: "saudável e inteira em sentido e compreensão".

            De onde Calvino tirava tanta determinação? Uma resposta simples pode ser encontrada em uma das pedras fundamentais do edifício que abriga o Colégio, onde ele esculpiu uma expressão de Provérbios: “O temor do Senhor é o principio da sabedoria”. Esse foi o moto pelo qual Calvino viveu intensamente cada dia da sua vida, uma das razões pelas quais ele não sucumbiu antes diante de suas múltiplas responsabilidades e atividades e das violentas tempestades que se abateram sobre ele. Ele nunca tinha sido realmente robusto e, nos últimos anos apareceu asma, acompanhada de cusparadas de sangue e outros distúrbios, mas nada o impedia de continuar seu trabalho e de fato parece ter trabalhado ainda mais à medida que suas forças diminuíam. Cada grão de areia da ampulheta do tempo que Deus ainda lhe reservara tornava-se mais precioso do que ouro e prata. Tanto a fazer e tão pouco tempo.

Adentrando o ano de 1563 suas condições físicas se deterioram rapidamente, que todos que o viam admiravam-se dele ainda estar vivo. E apesar de aconselhado pelos amigos mais íntimos a se poupar ele resistia. Quando por fim teve que deixar as atividades públicas da cidade, do Colégio e do púlpito, ele manteve-se plenamente ativo em sua residência, atendendo todos os que o procuravam e utilizando seus secretários, que se revezavam, ditando-lhes as correspondências, bem como seus comentários bíblicos.

            Seu último comentário foi justamente o livro de Josué e aqui muitos são os que discutem se foi algo casual ou se ele realmente pressentia que sua partida estava muito próxima. A questão é que o livro de Josué trata justamente da Morte de Moisés e a transição para uma nova liderança na figura de Josué. É impossível ler o comentário e não perceber a ligação direta com o momento transitório de Calvino.

            Este comentário foi feito a partir das reuniões semanais em que todos os ministros de Genebra e aldeias vizinhas compareciam para estudar as Escrituras, chamada “Congregação da Companhia de Pastores”. A participação efetiva de Calvino revela o grau de importância que ele dava a estas reuniões semanais. De junho de 1563 a janeiro de 1564, ou seja, no transcorrer dos últimos meses de vida de João Calvino, foram produzidos vinte e três textos sobre o livro de Josué.

            A segunda quinzena de agosto e setembro-outubro de 1563 fora dias muito difíceis para Calvino, como testemunham suas cartas. Calvino havia pregado seu último sermão em Genebra em 6 de fevereiro de 1564, mas de acordo com Theodore Beza ele persistiu em participar das reuniões semanais dos pastores porque não havia necessidade dele falar por uma ou mais horas inteiras, como na pregação ou nas aulas. Como moderador ele apenas adicionava comentários ao capítulo que fora exposta por um dos colegas, bem como fazia uma conclusão e a oração final.

            Estas reuniões dos pastores eram também importantes para que eles pudessem acompanhar pessoalmente as condições de saúde de seu amigo e amado líder. No final de março de 1564 ele participa da sua última reunião oficial da Companhia de Pastores, de preparação para a celebração da Páscoa e da Ceia do Senhor. Na sexta-feira 31 de março, pela última vez, ele esteve presente no Auditório onde se realizavam as reuniões, já com seu corpo completamente desfigurado.

Em 25 de abril, ele ditou seu último testamento[2] e na sexta-feira, 28 de abril de 1564, Calvino recebeu a congregação de ministros à sua cabeceira e despediu-se deles. Suas palavras foram posteriormente anotadas de memória pelo ministro Jean Pinant. É a voz de um homem determinado, mas completamente exaurido. Na verdade, ele viveu somente mais algumas semanas. Ele faz uma retrospectiva de sua chegada à Genebra até aqueles dias e aqui podemos visualizar a força de sua personalidade e o ponto convergente de sua vida:

Pareço ser diferente de outros enfermos que, quando a morte se aproxima, seus sentidos falham e eles deliram. No meu caso, embora seja verdade que me sinto paralisado, parece que Deus estava concentrando todos meus sentidos dentro de mim, e acredito que terei grandes dificuldades e que morrer me custará muito esforço. . . .

Quando vim pela primeira vez a esta igreja, não encontrei quase nada nela. Havia pregação e isso era tudo. Eles procurariam ídolos, é verdade, e os queimavam. Mas não houve reforma. Tudo estava em desordem. . . Eu vivi aqui em meio a discussões contínuas. Fui saudado com escárnio uma noite diante de minha porta com 40 ou 50 tiros de arcabuz. Eu sou, e sempre fui um estudioso [acadêmico] pobre e tímido, então você pode imaginar o quanto isso me surpreendeu. ... Eles colocaram cachorros nos meus calcanhares, gritando, ‘para ele, para ele!’ E eles morderam meu vestido e minhas pernas [referindo ao seu retorno de Estrasburgo]. Pois embora eu não seja nada, sei bem que evitei 3.000 tumultos que poderiam ter ocorrido em Genebra. Mas tenham coragem e fortaleçam-se, pois Deus fará uso desta Igreja e a manterá e garante que a protegerá.

Mas ele aproveita também para fazer uma avaliação pessoal consciente e realista, mesmo sabendo que opositores haveriam de fazer uso distorcido de suas próximas palavras:

Tive muitas enfermidades que vocês tiveram de tolerar, e tudo o que fiz foi de pouca importância. Os mal-intencionados tirarão proveito dessa confissão, mas repito que tudo o que fiz tem pouca importância, e sou uma pobre criatura. Minhas faltas sempre me desagradaram e a raiz do temor ao Senhor sempre esteve em meu coração. Quanto à minha doutrina, ensinei fielmente, e Deus me deu graça para escrever, o que fiz fielmente como eu pude; e não corrompi [mutilei] uma única passagem da Escritura nem a torci até onde eu sei; e quando podia chegar a um significado artificial através da sutileza, coloquei tudo isso sob meus pés e sempre busquei a simplicidade. Não escrevi nada por ódio contra ninguém, mas sempre coloquei diante de mim o que pensei ser para a glória de Deus. (CO 20.3023).

            Mas em 19 de maio, preparando-se para a celebração da Ceia de Pentecostes de 1564 todos os participantes de Companhia de Pastores se fizeram presentes na Rue des Chanoines, residência de Calvino na cidade. Ali fizeram sua refeição comunitária e celebraram sua amizade. Ele pediu que fosse conduzido de seu quarto para a sala de jantar adjacente. Enquanto à mesa, contemplando a todos os presentes com seus olhos vividos disse com voz fraca, mas firme: “Esta é a última vez que os encontrarei à mesa”, palavras que trouxe aperto ao coração de todos os presentes. Ele então fez uma oração, comeu um pouco e conversou o mais animadamente possível naquelas circunstâncias. Antes de terminar a refeição, ele solicitou que fosse levado de volta ao seu quarto e, ao despedir-se, disse com um semblante sorridente: “Esta parede não me impedirá de estar presente convosco em espírito, embora ausente no corpo. Foi o último momento deles com Calvino, que veio há falecer poucos dias depois.

            Embora Calvino tenha insistido por correspondência para que Farel,[3] seu amigo precioso, não empreendesse viaje para uma visita final, já completado seus oitenta anos e com a saúde debilitada, Farel fez a longa viagem de Neuchâtel para que pudesse estar ao lado do irmão de batalha. Diante da figura deteriorada do amigo, Farel declarou que desejava morrer no lugar dele. Alguns dias depois da morte do querido amigo Farel escreve uma carta a Fabri, outro amigo leal (6 de junho de 1564):

 Oh, por que não fui levado em seu lugar, enquanto ele poderia ter sido poupado por muitos anos de saúde ao serviço da Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo! Agradeço a Aquele que me deu a graça suprema de encontrar esse homem e mantê-lo contra sua vontade em Genebra, onde ele trabalhou e realizou mais do que a língua pode dizer. Em nome de Deus, eu o pressionei e o pressionei novamente para assumir um fardo que lhe parecia mais difícil do que a morte, de modo que às vezes ele me pedia, pelo amor de Deus, que tivesse pena dele e lhe permitisse servir a Deus de uma maneira que se adequasse à sua natureza. Mas quando ele reconheceu a vontade de Deus, ele sacrificou sua própria vontade e realizou mais do que se esperava dele, e superou não apenas os outros, mas também a si mesmo. Oh, que curso glorioso ele terminou alegremente! (GREEF, 2008).

Calvino morreu pacificamente e silenciosamente no sábado, 27 de maio de 1564 entre as 20h e 21h, com a idade de (apenas) 54 anos. E coube a Beza testemunhar sua partida:

“Eu tinha acabado de deixá-lo, um pouco antes e, ao receber o chamado dos servos, corri imediatamente para ele com um dos irmãos. Descobrimos que ele já havia morrido, e com tanta calma, sem nenhuma convulsão nos pés ou nas mãos, que nem mesmo deu um suspiro mais profundo. Ele permaneceu perfeitamente sensato e não foi totalmente privado de falar até o último suspiro. Na verdade, ele parecia muito mais um adormecido do que morto”.

E o próprio Beza registra o impacto desta morte na cidade de Genebra:  Na noite e no dia seguinte houve uma lamentação geral por toda a cidade ... todos lamentando a perda de alguém que foi, sob Deus, um pai comum e consolador” (1983,  Xcvi). Mais um testemunho contraditório ao estereotipo frio e insensível que seus adversários produziram nas bigornas dos centros acadêmicos e religiosos daqueles dias e premeditadamente perdura até os dias de hoje.

Mas é relevante ouvirmos o testemunho oficial do Consistório de Genebra[4], composto por pessoas que conviveram por muitos anos com João Calvino:

No que diz respeito ao falecido M. Calvin que tinha sido como um pai no meio de nossa sociedade e o mesmo para cada um de nós individualmente. Deus deu a ele tais qualidades e o acompanhou com tanta autoridade sobre as pessoas que ele usou para ajudar cada um de nós a servir melhor em nosso ministério, de modo que se tivesse que marcar uma reunião todos os anos não poderia ter escolhido ninguém mais de nossa sociedade: ter feito de outra forma teria sido ignorar as incríveis e grandes qualidades que Deus concedeu a Calvino; junto a eles havia uma sinceridade e consciência que todos podiam perceber. E, na verdade, Deus abençoou tanto sua conduta que em todas as esferas, inclusive em tudo o que diz respeito ao nosso ministério, nunca faltou à nossa sociedade um conselho bom e sensato, e sempre foi óbvio que ele nunca pensou em sua própria vantagem ou na de seus parentes, mas tratou todos iguais. (Registres II, p. 103, apud, POTTER, 1983, p. 179).  

Ele foi enterrado no domingo em uma sepultura sem identificação em um local secreto em algum lugar de Genebra. Essa havia sido uma solicitação pessoal de Calvino. Quando comentou os livros de Moisés (Pentateuco) tratando sobre a morte de Moisés, cujos ossos nunca foram encontrados, ele disse: “É bom que homens famosos sejam enterrados em sepulturas não marcadas” (CALVIN, 1979, p. 406). Essa convicção guiou seu próprio enterro. Ele rejeitou a veneração supersticiosa dos mortos e não queria peregrinações ao seu túmulo. Ele não queria deixar seguidores, mas cristãos. Mas é em sua obra magna “As Institutas da Religião” que encontraremos seu melhor epitáfio:

“. . . podemos passar pacientemente por esta vida em aflições, fome, frio, desprezo, censuras e outras circunstâncias desagradáveis, contentes com esta única garantia de que nosso Rei nunca nos abandonará, mas dará o que precisamos, até que tenhamos terminado nossa guerra, então seremos chamados ao triunfo” (Calvin, Institutes , II, 15, 4).

Em 2 de junho de 1564, todos os ministros e professores da academia e da Igreja de Genebra se reuniram, e Beza falou da perda que a Igreja e a cidade haviam experimentado. Beza depois colocou no papel suas memórias mais íntimas de Calvino, suas qualidades como teólogo e sua personalidade, muito diferente da figura austera, sem humor e inacessível que seus adversários religiosos e políticos divulgavam incansavelmente por toda a Europa, da qual é oportuno oferecer aqui um pequeno extrato:

Embora a natureza o tivesse formado para ser sério, ainda assim, nos assuntos comuns da vida, não havia homem mais agradável de lidar. Ao suportar as enfermidades, ele era paciente; ele nunca fez os irmãos mais fracos enrubescerem, ou os aterrorizou com uma repreensão intemperante, ainda assim, ele nunca foi conivente ou lisonjeou suas faltas. Ele era tão determinado e severo inimigo da adulação, dissimulação e desonestidade (especialmente no que dizia respeito à religião) quanto era um amante da verdade, simplicidade e franqueza. Ele era naturalmente de um temperamento forte, e isso havia sido aumentado pela vida árdua que levava. Mas o Espírito do Senhor o ensinou tanto a comandar sua ira que nenhuma palavra foi ouvida procedendo dele como um homem impróprio (CR XLIX, cols. 169-70).

O grande legado de Calvino não é o “calvinismo”, mas seu exemplo de um crente submisso a Deus em toda a sua majestade e constrangido a viver e morrer para sua glória. Tanto em sua vida diária quanto em seus muitos escritos nos revelam um homem prostrado diante de Deus, sujeito à sua Palavra, decidido a conhecer e fazer a sua vontade, não importando o custo pessoal. O maior tributo que se pode prestar ao homem Calvino é cultivar a mesma disposição e atitude para com Deus e a Sua Palavra.

João Calvino andou com Deus e Deus o tomou para si.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante

 

Referências Bibliográficas (mencionadas neste artigo).
BEZA, Theodore. The Life of John Calvin, em Selected Works of John Calvin , vol. 1. Grand Rapids, MI: Baker, 1983. [H. Beveridge e J. Bonnet]. 
CALVIN, John. Commentaries on the Four Last Books of Moses. Grand Rapids, MI: Baker, 1979. [Vol. 4].
Corpus Reformatorum: Ioannis Calvini Opera quae supersunt omnia, ed. W. Baum et al. (Brunswick: C. A. Schwetschke & Filium, 1863–1900).
De BOER, E.A. The Genevan School of the Prophets. The Congrégation of the Company of Pastors and Their Influence in 16th Century Europe. Geneva: Droz, 2012.
GREEF, Wulfert. The Writings of John Calvin: An Introductory Guide. Westminster John Knox Press, 2008.
POTTER, G. R. and GREENGRASS. M. (Ed. A. G. Dickens) John Calvin.--(Documents of modern history). London: Edward Arnold (Publishers) Ltd, 1983.
REYMOND, Robert. John Calvin: his life and influence. Rosshire: Cristian Focus, 2004, p. 129.
STEINMETZ, David. Calvin in contexto. Oxford: Oxford University Press, Inc., 2010.
STUBBING, Henry e HENRY, Paul Emil. The life and times of John Calvin, the great reformer. Londres: Whittaker and Co., Ave Maria Lane, 1840. V. 2.

Referências Bibliográficas (Complementar)
BONNET, Jules. Idelette de Bure: femme de Calvin (1540-1549). Source: Bulletin de la Société de l'Histoire du Protestantisme Français (1852-1865) , 1856. AVRIL, Vol. 4, No. 12 (1856 AVRIL), pp. 636-646. Published by: Librairie Droz Stable URL: http://www.jstor.com/stable/24281081
CALVINO, João. O mistério da piedade. Tradução de Camila Almeida. 2015.
D'AUBIGNÉ, J. H. Merle. The Reformation in Europe in the time of Calvin. Vol. VIII. Translated William L. R. Cates. New York: Robert Carter and Brothers, 1879.
FAREL, Guillaume and VIRET, Pierr. Les amitiés de Calvin (Extrait.) 1536-1564. Source: Bulletin de la Société de l'Histoire du Protestantisme Français (1852-1865) , 1864. Avril, Vol. 13, No. 4 (1864. Avril), pp. 89-96. Published by: Librairie Droz Stable URL: http://www.jstor.com/stable/24281594  
FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: vida, influência e teologia. Campinas, SP: Edição de Luz Para o Caminho, 1985.
JOHNSON, Thomas Cary. John Calvin and the Genevan Reformation: a sketch. Richmond,VA.: The Presbiterian Committee of Publication, 1900.
MANETSCH, Scott. M. Calvin’s Company of Pastors Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609. Oxford University Press, 2013.
SELDERHUIS, Herman J. (Ed.). The Calvin Handbook. Translated by Henry J. Baron, Judith J. Guder, Randi H. Lundell, and Gerrit W. Sheeres. Michigan/Cambridge: William B. Eerdmans Publishing Company, 2009.
WILEMAN, Willian. John Calvin: his life, his teaching, and his influence. London: Robert Banks and Son.
WITTE, John. Learning the Word in Geneva: John Calvin the Catechist. Published in Douglas Gragg and John Weaver, eds., Reading for Faith and Learning: Essays on Scripture, Community, and Libraries in Honor of M. Patrick Graham (Abilene, TX: Abilene Christian University Press, 2017), 115-128.
WRIGHT, Shawn D. John Calvin as Pastor. Southern Baptist Theological Seminary (SBJT) 13.4 (2009): 4-17.
VADIAN, Joachin, BUCER, Martin and BONNET, Jules. Les amitiés de Calvin. Source: Bulletin historique et littéraire (Société de l'Histoire du Protestantisme Français), 1869, Vol. 18, No. 6 (1869), pp. 257-268. Published by: Librairie Droz Stable URL: http://www.jstor.com/stable/24285378.
VOSLOO, Robert. Calvin, the Academy of Geneva and 150 years
of theology at Stellenbosch: historical-theological contributions to the conversation on theological education. Studia Historiae Ecclesiasticae, December 2009, 35 – Supplement, 17-33.

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[1]Um homem chamado Denis Raguenier começou a escrever em sua taquigrafia particular, mas logo foi contratado como secretário para registrar e transcrever cada sermão, que Calvino em vida não teve tempo de editá-las.

[2] Embora fosse frequentemente afirmado por seus inimigos que Calvino havia se tornado um homem rico por meio de seu ministério, ele regularmente repudiava a acusação e seu testamento provava sua falta de recursos, pois ele tinha no momento de sua morte uma reserva financeira de Ele tinha apenas 225 coroas, não chegando a dois mil dólares nos dias atuais.

[3] Fora Farel que insistiu que Calvino se juntasse a ele na obra de reforma da igreja em Genebra em 1538 e trouxe Calvino para o ministério oficial.

[4] O Consistório de Genebra é o Concílio da Igreja Protestante de Genebra, semelhante a um Sínodo em outras igrejas reformadas. O Consistório foi organizado por João Calvino ao retornar a Genebra em 1541, a fim de integrar a vida cívica e a igreja.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Protestantismo Presbiteriano – Conselho Inter Presbiteriano (CIP)

O protestantismo presbiteriano foi implantado no Brasil a partir do final dos oitocentos através de duas Juntas Missionárias americanas: Presbiterian Church of United States (PCUS - Igreja do Sul) e a Presbiterian Church of United States of the America (PCUSA - Igreja do Norte). Mas apenas nas proximidades de seu Centenário a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) passou a ter de fato plena autonomia, quando houve uma mudança profunda nas relações da IPB com as Juntas Missionárias americanas, com a formação e instalação do Conselho Inter Presbiteriano (CIP).

Um dos personagens mais atuantes na elaboração e efetivação da CIP foi sem duvida alguma o Rev. José Borges dos Santos Jr que revela toda sua dedicação e zelo pelo bem estar da denominação e a determinação em torná-la cada vez mais forte e atuante no país.

O Conselho Inter Presbiteriano (CIP) nasce após a Conferência Interpresbiteriana que ocorreu no inicio de 1954, realizado em Campinas, onde representantes das duas Juntas Missionárias americanas que atuavam no país desde os primórdios os de Nova York (PCUSA) e os de Nashiville (PCUS) e as lideranças da IPB, redefiniram os termos das parcerias que até então estavam sendo regidas pelo ―Modus Operandi‖ estabelecido nos idos de 1917:

A “Comissão Modus Operandi”, em 1917, separou os campos missionários, mas não tinha força nenhuma sobre eles, senão diplomática. Para evitar a célebre “questão missionária”, de modo pacífico, embora, alheou-os (FERREIRA, v.2, 1992, p. 430). A divisão dos trabalhos se faria preliminarmente por uma separação entre campos missionários economicamente ainda não auto-suficientes, e que assim ficariam a cargo das organizações americanas e seus agentes, e de outro lado, comunidades capazes de por si mesmas proverem às necessidades de seu desenvolvimento e dependentes da Igreja Presbiteriana brasileiras (LÉONARD, 1963, p. 162ss). Para Leonard, o que foi celebrado como um avanço, pelas lideranças nacionais, na verdade na pratica tornou-se um retrocesso, pois muitos campos missionários “nacionalizados” ficaram a míngua, sem recursos e sem obreiros suficientes e assim encolheram. Esta situação somente mudara com a instituição do CIP e da atuação incansável de Borges.

Após esta Conferência a relação entre as partes passou a ser através do Conselho Inter Presbiteriano (CIP). Se no modelo anterior a IPB não tinha voz, este novo modelo de cooperação proporciona uma participação mais efetiva junto às juntas missionárias, de maneira que todas as questões devem ser discutidas e aprovadas em conjunto. Foram representantes no CIP neste momento inicial (1955) os Revs. José Borges dos Santos Júnior, Dr. Benjamin Moraes, Amantino Adorno Vassão, Natanael Cortez, Dr. Diniz Prado de Azambuja Neto, Prof. Basílio Catalã Castro, Uriel de Almeida Leitão, Américo J. Ribeiro, Adauto Araújo dourado, Daniel das Chagas e Silva, Boanerges Ribeiro e o Pb. Heitor Gomes de Paiva.

Tendo acabado de ser eleito Presidente do SC (1954) e possuindo conhecimento profundo sobre as questões relacionadas às Missões e a IPB e tendo alcançado forte prestígio junto às missões americanas, o Rev. Borges assume a liderança desta primeira reunião da CIP, e é eleito seu primeiro Presidente, conforme suas próprias palavras: “[...] e compareci à primeira reunião do Conselho Inter Presbiteriano, tendo sido eleito presidente” (RELATORIO PASTORAL, 1955) e desta forma consolida sua influência tanto na esfera nacional quanto internacional. Esta primeira reunião do CIP ocorre em 29 de janeiro de 1955, na cidade do Rio de Janeiro, e Ferreira nomeia todos os participantes das Juntas e da IPB e suas funções representantes (v.2, 1992, p. 429), que foram além dos que menciono aqui.

Em seus Relatórios Pastorais de 1955 a 1964 (que marca sua saída da CE/IPB) é evidente o quanto se empenhou para que os projetos missionários coordenados pela CIP alcançassem resultados positivos. As reuniões e viagens se multiplicam por todo o território brasileiro e no exterior; em 1955 visita os campos missionários do Norte de Minas, Vale do São Francisco, Bahia Goiás, Mato Grosso e Santa Catarina, num total de 40 cidades diferentes; em 1961 faz parte da recém-criada Comissão de Educação do SIP. Viaja aos Estados Unidos algumas vezes para participar de reuniões com as Juntas Missionárias, sempre no sentindo de manter a continuidade da cooperação e financiamentos dos projetos desenvolvidos no Brasil através da IPB.

Se não fosse a atuação contundente e o respeito que adquiriu junto aos americanos, as Juntas teriam deixado os campos brasileiros, pois há muito tempo, desde a predominância das teses ecumênicas, na América, elas questionavam a necessidade de se permanecer em campos já cristianizados, o que para a PCUSA, por exemplo, incluía não apenas protestantes, mas católicos também. Ainda em 1956, participando da Conferência Missionária Mundial de Lake Mohonk, Borges começa a mudar a ênfase centenária de evangelismo de católicos para a indígena, ainda que como Castro expressa, não pode se afirma categoricamente, mas tudo indica que ele o faz com o propósito de manter os investimentos da missão nortista no Brasil.(2011, p. 87) Ele mesmo manteve apoio continuo ao trabalho missionário e evangelístico desenvolvido pela Missão Caiua e que continua atuando até hoje junto às tribos indígenas da região do Mato Grosso, Dourados, onde mantém Igreja, Escola e Hospital.

Entre tantos resultados alcançados por Borges junto ao CIP, certamente destaca-se a implantação de uma Igreja Presbiteriana na recém-inaugurada cidade de Brasília, a nova capital do Brasil.[1] A construção do novo templo presbiteriano despendeu todo o empenho e determinação dele: consegue um obreiro sustentado pelas Missões Oeste e Central, faz uma campanha financeira junto às igrejas, onde a Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo (IPUSP) destaca-se na contribuição, consegue financiamento junto a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil no valor de Cr$300.000,00 cruzeiros; apoiado pela Junta de New York consegue dois terrenos próximos ao centro (quadra comercial 307, num total de 70m²) e consegue autorização do SC para buscar recursos financeiros no exterior para a construção imediata do Templo, conforme Digesto:

Quanto ao Doc. 138, [...] c) relativamente a área doada, também de 15.000 m2, considerando que toda a demora para entrar na posse dessa área é prejudicial, dar os passos necessários para se obter os recursos para o início da construção da Catedral de Brasília, aprovando-se a sugestão da presidência no sentido da IPB recorrer às Igrejas Presbiterianas dos Estados Unidos e da Europa, solicitando uma oferta especial para a construção do aludido templo, na capital de nosso país. (SC-62-054)

Ele consegue junto ao Dr. Niemeyer, arquiteto responsável pelo projeto de Brasília, a elaboração gratuita da planta do primeiro templo, consegue também uma área de 60.000 m2 para a construção que pudesse abrigar o Instituto Presbiteriano para Leigos[2] e outras organizações tanto da IPB quanto das Juntas Missionárias que ali desejassem desenvolver suas atividades (DIGESTO, CE-57-088 e SC-58-216, edição online).

O resultado de todo este esforço se concretiza em 1960, quando com grande comoção do presbiterianismo nacional se procede a organização da Igreja Pioneira no dia 21 de abril, quando da inauguração de Brasília e a organização da Igreja Presbiteriana Nacional no dia 12 de agosto, quando do aniversário de 101 anos da IPB.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

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Presbiterianismo na Cidade de São Paulo - Pioneiro do Radialismo Evangélico

Referências Bibliográficas

CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.

FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992.

GUEDES, Ivan Pereira. O Protestantismo na Capital de São Paulo - A Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Religião. Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira

LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 1ª Edição, Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1963.

DIGESTO PRESBITERIANO (1951-1960), edição online, Disponível em: http://www.ipb.org.br/download/arquivos/digesto_ipb_1951-1960.pdf. Acesso em 14/05/2013.

 


[1] Borges produz dois Relatórios relacionados à implantação do trabalho presbiteriano e a construção do templo em Brasília, que Castro coloca na integra em seus anexos (2011, Anexos ns° 7 e 8).

[2] A proposta esboçada na resolução do SC-58-216 se tivesse sido colocada em prática revolucionária os métodos e práxis evangelísticas da IPB. Destaco apenas um item da proposta para o Instituto: ―c) Promover encontros entre presbiterianos, bem como irmãos de outras Igrejas evangélicas, que exerçam funções na vida pública; que sejam cientistas; educadores; escritores; jornalistas; líderes sindicais e operários; homens de negócios; capitães da indústria; ou de qualquer outro modo conhecedores da vida nacional. O objeto desses encontros será estudar as bases de nossa cultura, e particularmente a influência das religiões não evangélicas em nossa formação nacional, juntamente com a mensagem bíblico adequada à nossa vida e época;‖ (edição online).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Um Pastor Protestante e uma Experiência Ecumênica: A Capela do Convívio Cristão


 

Pela segunda vez o Rev. José Borges dos Santos Jr. terá a oportunidade de recomeçar seu ministério. Assim como ocorreu quando assumiu o pastorado da recém-formada Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras IPJO), na Alameda Jaú (SP) agora no momento de plena maturidade de vida e ministério ele vai iniciar sua última etapa da forma que possivelmente havia acalentado por muito tempo.

Agora completamente desvencilhado das amarras institucionais da IPB, após sua saída da IPJO, Borges sente-se motivado para estabelecer um espaço religioso onde possa exercer plenamente suas atividades pastorais dentro de sua concepção ecumênica eminentemente evangelical. Este novo espaço foi registrado como Instituto de Promoção e Serviço Ecumênico (IPSE), mas recebeu a alcunha carinhosa de “Capela do Convívio Cristão”, pois a proposta era abrigar todos aqueles que desejassem expressar sua fé, independentemente das questões denominacionais ou confessionais.

É preciso esclarecer que apesar de toda esta ênfase ecumênica, comprovado ao longo de sua trajetória histórica e acentuado aqui na Capela do Convívio Cristão, o Rev. Borges nunca ultrapassou suas próprias demarcações teológicas e até mesmo eclesiásticas. A estrutura, terminologia e dinâmica da Capela, é praticamente a mesma de qualquer outra igreja presbiteriana “não ecumênica”: pastor, presbíteros, diáconos, sociedade de mulheres, mocidade, culto, Escola Dominical, reunião de oração, Santa Ceia, e as liturgias dos cultos dominicais mantinham os mesmos elementos litúrgicos da IPJO. O Conselho foi substituído por uma Diretoria, assim composta: Presidente – Rev. Borges; Administrador – Dr. Santo Luiz Lavitola (com ele desde os tempos da IPUSP[1] e IPJO); Tesoureiro – Sr. Jovelino Affini; Secretário – Dr. João Borba de Araújo.

Em seu primeiro Relatório como Presidente (Pastor) do IPSE (outubro de 1969 a dezembro 1970), falando sobre os cultos ele se expressa assim: “O culto tem se caracterizado pelo tom, de animação e alegria e, mais em particular,pelo cântico dos hinos”. E continua: “Pode-se afirmar, sem exagero, que se oferece às pessoas que comparecem, um serviço religioso atualizado e edificante”. Concluindo: “Há um esforço continuo para melhorar o serviço religioso da comunidade”. Conforme seu primeiro Relatório (1969/70) Borges registra que todas as providenciam para o registro do IPSE foram finalizados em dezembro de 1970, pelo então Secretário Dr. João Borba de Araújo.

Provavelmente por causa do formato da construção feita para ampliar o espaço reservado para os cultos, que recebeu a alcunha carinhosa de “Capela do Convívio Cristão”, cuja frequência aumentava dominicalmente: “[...] Foi quando o Sr. Amador Aguiar mandou fazer a cobertura lateral que ficou tão bem, na forma de uma capela campestre, pitoresca e acolhedora, onde podem sentar-se cerca de oitenta pessoas. O jardim interno foi feito e doado pelo nosso companheiro Dr. Samuel de Mello. Criou-se, assim, um modelo de capela rústica e de construção econômica, mas atualizada e atraente. Podemos agora reunir, sem muito aperto, cerca de 180 pessoas” (RELATÓRIO PRESIDENTE, 1969/70).

Em relação à frequência dos cultos ele registra: “O culto público realizou-se regularmente, aos domingos, às 11 horas, com uma frequência que oscilou entre 80 a 170 pessoas”. E continua: “No último trimestre de 70 já o auditório havia crescido a ponto de ficar muita gente ao sol assistindo o culto”. E faz uma observação: “Não se tem feito anuncio dos cultos, mas o auditório tende a crescer”. Ainda neste primeiro relatório encontramos a dinâmica do IPSE neste primeiro ano de funcionamento, além dos cultos acima mencionados:

A Escola Dominical, com exceção da classe de adultos, funcionou precariamente. Realizou-se, com regularidade, embora com pequena frequência, ás terças-feiras, a reunião matinal de oração. Realizaram-se várias reuniões de moços para diálogos e estudos de assuntos e problemas de interesse da juventude. [...] Organizou-se, durante o ano, um grupo de senhoras, sob a direção da Sra. Nidelce Martins de Almeida, para confeccionar roupas para filhos de presos.

        Tudo que se relaciona à manutenção e funcionamento do IPSE eram resultados de doações espontâneas das pessoas que ali frequentavam:

Expresso nosso reconhecimento ao Sr. Amador Aguiar e sua Exma. esposa [D. Lilí Aguiar] a quem agradecemos a cessão da propriedade para o serviço do Instituto e a construção do anexo ao salão de cultos. Outrossim, agradecemos a todos que fizeram doações [piano, cadeiras,mesa da ceia] ao Instituto facilitando o equipamento da sede, bem como às pessoas que regularmente e com pontualidade prestaram serviços especializados à comunidade”. (Relatório do Presidente, 1969/70).

Ele conclui este seu primeiro Relatório descrevendo o espírito com que o IPSE foi estabelecido e suas expectativas:

A experiência deste período em que tudo se fez discretamente, sem qualquer alarido ou espírito de propaganda, mostra a possibilidade e, com ela, o dever de fazer um trabalho pacífico e construtivo que será também pioneiro nas inovações que fizer e forem confirmadas pelos frutos produzidos.

Muitas igrejas protestantes com muito mais tempo de existência anos, nunca experimentaram uma frequência desta expressão, portanto, depreciar esta comunidade estabelecida por Borges como sendo formada por um grupo de “beatos” borgeanista é ignorar a realidade dos fatos.

E em seu segundo Relatório (1971) ele descreve o espírito que permeava ele e os demais que do IPSE participavam naquele momento: “Este Instituto é um festival de boa vontade, de contribuições espontâneas, de trabalho voluntário, de alegria e fé e do desejo de servir a Cristo infatigavelmente”.

Em relação às suas atividades ecumênicas e docentes, elas vão se ampliando a partir deste momento, de forma exponencial e justaposta, pois a maioria de suas celebrações ecumênicas foi dentro do mundo acadêmico que viveu intensamente neste último período de sua vida. Em seus Relatórios consta um item – Cerimônias Ecumênicas – onde se registra estas atividades especificas. No primeiro Relatório (1969/70) temos: Formaturas (SP) Curso Intensivo de Auxiliar de enfermagem Braúlio Gomes; Curso de Auxiliar de Enfermagem da Escola Paulista; Faculdade de Filosofia da Universidade Mackenzie; Escola Paulista de Medicina. Comemorações de Natal: na Igreja São Luiz (promoção das Centrais Elétricas); no Tribunal de Contas do Estado de SP; Associação de Enfermeiras. Dia Mundial de Oração e Dia da Bíblia, na Câmara Municipal de SP. E um subitem – Cerimônia Ecumênica Cívica Religiosa: 4ª Zona Aérea (Abertura da Semana da Asa); Aniversário da Força Pública; 50° Aniversário da Sociedade Sorotimismo. No Rio de Janeiro participa da Abertura da Semana da Unidade.

Desde seus tempos na IPUSP Borges havia introduzido o curso de preparação para noivos, que tinha como objetivo orientar os futuros casais. Ele continuou este trabalho, mesmo nos períodos mais intensos de suas atividades, inclusive aqui no IPSE. Provavelmente por causa disto, e também pelo fato de ministrar casamentos no rito ecumênico,[2] inclusive em templos Católicos, bem como seus programas de rádio, do qual ele foi um dos precursores no Brasil,[3] ele ficou muito conhecido e começou a ser convidado para ministrar a casais da Igreja Católica Romana, bem como em outras atividades relacionadas, como registradas em seus Relatórios: 1973 – Estudos Bíblicos para Encontro de Casais da Igreja Católica (04); em 1974 – nas Igrejas: São Luiz, da Santíssima Trindade – Penha; Santo Agostinho, Rainha da Paz – Vila Formosa, (09); em 1975 (16); em 1976 para casais (21) e para jovens (02); em 1977 Palestras para casais (21); em 1978 Palestras para casais (16) e para jovens (01); em 1979 Palestras para casais (10); em 1980 para casais (14) e para jovens (02); em 1981 para casais (13); em 1982 para casais (04); a partir de 1984, devido sua debilidade física, ele fica mais restrito ao IPSE e não consta mais este tipo de atividade.

Nesta última etapa de seu ministério os casamentos ecumênicos às vezes eram em maior número do que os casamentos em ritos presbiterianos e/ou evangélicos: 1969/70 (rito ecumênico 9; rito presbiteriano 6); 1971 (rito ecumênico 11; rito presbiteriano 13). A partir de 1972 ele já não fazia mais distinção entre um ou outro rito, colocando apenas nos relatórios – casamentos.

A brevidade temporal de existência da “Capela do Convívio Cristão”, que pode ser tratada como um aspecto negativo, como foi o caso também da Igreja Cristã de São Paulo, formada por professores da USP e outros intelectuais protestantes presbiterianos, pois acabou encerrando suas atividades após o falecimento do Rev. Borges, não desabona em absolutamente nada o que o IPSE representou naquele momento histórico do protestantismo paulista. O seu declínio, na mesma medida em que a saúde de Borges fragilizava-se, e posterior encerramento de suas atividades, é um ranço comum em comunidades formadas por líderes carismáticos e que não encontram novas expressões de carismas e/ou não são preparados sucessores, o que me parece ser o caso aqui, como ocorreu com outros dois líderes do protestantismo presbiteriano, que também não fizeram “sucessores” Erasmo Braga e José Manoel da Conceição.

Todavia, a “Capela do Convívio Cristão”, pela sua novidade no meio evangélico protestante e na religiosidade da cidade de São Paulo e pela expressão de seu líder e mentor, Rev. José Borges dos Santos Jr., bem como pelo conjunto de seus membros e pelo tempo que perdurou, merece uma pesquisa muito mais intensa e profunda do que este espaço me permite, para se avaliar com justiça as implicações de sua expressão temporal-existencial.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
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Referências Bibliográficas
CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.
GARCEZ, Robson do Boa Morte. Origem da Igreja Cristã de São Paulo e a contribuição de alguns membros para a formação da FFLCH/USP – uma expressão da liberdade religiosa. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2007.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga, o protestantismo e a sociedade brasileira – perspectivas sobre a missão da igreja. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
MENDONÇA, Antonio G. Jesus e os últimos liberais: um estudo sobre John Mackay, Harry E. Fosdick e Miguel Rizzo (Extrema se tangunt). In Numen- Revista de Estudos e Pesquisa de Religião, vol. 4, no. 1. Juiz de Fora, Universidade Federal de Juiz de Fora, Editora UFJF, jan-jun/2001.
PEREIRA- João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005. 


[1] Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo

[2] Nesta última etapa de seu ministério os casamentos ecumênicos às vezes eram em maior número do que os casamentos em ritos presbiterianos e/ou evangélicos: 1969/70 (rito ecumênico 9; rito presbiteriano 6); 1971 (rito ecumênico 11; rito presbiteriano 13). A partir de 1972 ele já não fazia mais distinção entre um ou outro rito, colocando apenas nos relatórios – casamentos.

[3] Seus programas em diversas emissoras de rádio, e por último na rádio Bandeirantes, o tornaram conhecido, admirado e respeitado por todas as pessoas, independentemente do credo religioso. Em seu Relatório de 1971 Borges destaca “[...] O programa das Meditações Matinais esteve no ar, pontualmente, todos os dias, [...] que atinge, favoravelmente, e beneficia pessoas de todas as camadas sociais e sem distinção de Credo [...]”.