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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

OS PRESBITERIANOS VEM DA AMÉRICA DO NORTE

Baia da Guanabara vista pelos primeiros missionários americanos
Os movimentos reformistas do século XVI se espalharam rapidamente por toda a Europa. Mas o Brasil ficou completamente alienado de todo estes movimentos, ainda que veio a ser inserido no mapa mundial no mesmo ano do início da Reforma Protestante, os 1500. Mas tirando as duas tentativa, as frustradas, primeiro com a invasão dos franceses e sua França Antártica transvestida de huguenotes (reformados franceses), de curtíssima duração (1555-1560) na Baia da Guanabara no Rio de Janeiro e posteriormente outra invasão, desta vez dos holandeses que haviam adotado a religião protestante, mas que estavam muito mais interessado no domínio do açúcar brasileiro, sendo esta a razão pela qual iniciaram suas invasões pela costa litorânea do nordeste brasileiro (Bahia e Recife) onde haviam os maiores engenhos açucareiros; pelo fato de terem permanecido por mais tempo (1630-1654) acabaram deixando vestígios mais delineáveis na alma e historiografia brasileira.
O resultado prático destas duas tentativas frustradas e se inserir um protestantismo à base de invasões, foi que os portugueses e seu catolicismo romano ilustrado fecharam completamente o Brasil para toda e quaisquer influências religiosas externas, que somente foram reabertas nos fins dos oitocentos, ou seja, quase trezentos anos depois dos movimentos reformistas que mudaram completamente a Europa. Portanto, o protestantismo que chega aqui no Brasil não é o mesmo de Lutero, Calvino e seus companheiros dos primeiros anos da Reforma Protestante, mas um protestantismo que passou a infância e adolescência na Inglaterra e sua fase adulta na América vizinha do Norte. No final dos oitocentos serão, portanto, missionários advindos dos EUA que aportaram no Brasil, trazendo em suas bagagens um protestantismo moldado pelos conceitos denominacionais americanos.
Frustrados com a Reforma da Igreja inglesa, os dissidentes, denominados deforma geral de Puritanos, entre eles os Presbiterianos, que por anos aspiraram o desejo de ver a Igreja da Inglaterra (Anglicana) moldada segundo seus ideais teológicos e eclesiásticos, com a ascensão de Carlos II e o restabelecimento do sistema episcopal, veem suas expectativas desvanecer e ceder lugar a um total desapontamento, que os impulsionam a começar algo novo. Assim, a transferência dos Presbiterianos e demais não conformistas para o Novo Mundo foi o fator isolado mais importante na modelação dos fundamentos religiosos da América do Norte, onde haverão de encontrarem um ambiente profícuo para se estabelecerem e expandirem.
Os diversos grupos separatistas ingleses e sua transposição para os Estados Unidos está totalmente envolta na pré-disposição de separar-se do Anglicanismo e posteriormente separar-se da própria Inglaterra no movimento de Independência americana.
Estas igrejas independentes, mais particularmente o trio: presbiterianos, congregacionais e metodistas forjaram os característicos distintivos, a forma e o poder do Protestantismo americano, que posteriormente irá expandir-se sobre um número crescente de países, incluindo o Brasil.
Desde o século XVII o calvinismo já estava estabelecido na América do Norte, em Massachusetts nas cidades de Plymouth, em 1620, e Salem e Boston, em 1630, mas o sistema de governo era congregacional e não presbiteriano.
Mas, a partir de meados do século XVIII milhares de presbiterianos, mais acentuadamente de origem escocês-irlandeses, desembarcaram na América do Norte, alcançando um número expressivo de 250 mil imigrantes que atravessaram o Atlântico até 1775. Estabeleceram-se em cidades como Nova Jersey, Pensilvânia, Maryland, Virgínia e nas Carolinas. A cidade de Pittsburgh, ao oeste da Pensilvânia, ostentou o título da cidade mais presbiteriana dos Estados Unidos. A relevância destas informações peculiares está no fato de que os primeiros missionários presbiterianos a aportar em terras brasileiras são originários da região da Pensilvânia, incluindo o Rev. Ashbel Green Simonton o pioneiro entre eles.
Após um longo período em que as igrejas presbiterianas permaneceram dispersas, em 1706 constituiu-se o primeiro Presbitério[1] na Filadélfia e em 1717 organiza-se o primeiro Sínodo composto por quatro presbitérios. Em 1729 adota-se oficialmente a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster como padrão doutrinário. Para não fugir à regra de 1741 a 1758 os presbiterianos se dividiram por causa de diferenças acerca do avivamento e da educação teológica. A chamada Nova Escola (New School), apoiada pelo Sínodo[2] de Nova York, era aberta para as influências congregacionais que promoviam o chamado movimento de reavivamento, onde se enfatizava a livre escolha do ser humano para aceitar ou rejeitar a mensagem do evangelho e/ou a salvação. O outro grupo denominado de Velha Escola (Old School), apoiada pelo Sínodo de Filadélfia, arraigados ainda nos ideais teológicos dos imigrantes escocês-irlandeses, defendia a todo custo os símbolos de Fé de Westminster e extremamente rígidos quanto as suas estruturas eclesiais. (MATOS, 2000, pp. 31-34; HAUCK, 1985, pp. 244-245).
Outra divisão que deve ser destacada é a que ocorre em 1857 e 1861, causada pela questão da escravidão. As igrejas presbiterianas do Sul, tanto da Nova quanto da Velha Escola, apoiaram a continuidade da escravidão, de maneira que rompem com as igrejas do Norte, que defendiam a liberdade de todo tipo de escravidão. Esta ruptura produziu as duas principais denominações presbiterianas americanas: a Igreja do Norte (PCUSA) e a Igreja do Sul (PCUS). São estas duas denominações que haverão de enviar os primeiros missionários presbiterianos ao Brasil – Ashbel G. Simonton em 1859 (PCUSA) e Edward Lane e George N. Morton em 1869 (PCUS). Certamente que está bifurcação denominacional americana haverá de se reproduzir em sua transplantação no campo missionário brasileiro.
É preciso destacar um aspecto importante que é o conceito de “denominação” que vai ser amplamente estabelecido e difundido. A ideia é de que a verdadeira igreja não pode ser enclausurada em uma única forma eclesiástica, de maneira que cada forma eclesiástica diferente é uma parte da verdadeira igreja e que a somatória de todas elas expressa a Igreja verdadeira.
Diferentemente das missões europeias que Troeltsch chama de “igreja oficial” onde as missões fazem uso da infraestrutura colonial para implantar e expandir suas ações; nas missões norte americanas cada denominação forma sua própria Agência Missionária, que prepara, envia e sustenta seus missionários, que por sua vez implantam as respectivas denominações nos países a que foram enviados.
Tudo isso já estava embrionariamente gestando nos escritos de Lutero e de Calvino. O primeiro declarava que a diversidade institucional era inevitável nesta terra, e que “nesta vida a igreja não é adequadamente entendida em relação a essas questões”; igualmente Calvino declara que é impossível traçar fronteiras precisas para a igreja de Cristo, pois não é possível detectar com total exatidão os que realmente são eleitos de Deus. (SHELLEY, 2004, p. 34).
Mas é na América do Norte que este conceito denominacional alcança seu ápice, pois naquele momento histórico era uma resposta “divina” para a multifacetada fé cristã experimentava no Novo Mundo.
Entretanto, apesar de o conceito denominacional ter sido adotado amplamente, como já foi mencionado, todas as vezes que divergências surgem na área teológica ou eclesiástica, a primeira reação é sempre a de suprimir, pois prevalece o antigo conceito de que somente pode haver uma forma verdadeira de se expressar a fé cristã e, portanto, de ser igreja, tornando a convivência harmoniosa com as diferenças inaceitável, forçando à única outra possibilidade – a ruptura.
Por fim, mas não menos relevante está o fato de que nesse período histórico um forte movimento espiritualista esta penetrando as denominações evangélicas americanas, chamado de Pietismo.  Os pietistas tem uma visão dicotômica de Igreja X Mundo, de maneira que qualquer coisa que tenha jeito ou forma de mundanismo deve ser rejeitado (talvez explique, em parte, o espírito alienante social do protestantismo histórico brasileiro). Paralelamente o movimento pietista atua fortemente numa vida cristã/espiritual mais profunda em sua relação com Deus e na pregação da mensagem evangélica de conversão (revival). Os missionários americanos que estabeleceram as primeiras denominações protestantes no Brasil são filhos legítimos dessa visão de mundo e do "revival" ocorrido nos Estados Unidos, no século XIX.  O caso mais peculiar é a do pioneiro Ashbel G. Simonton. O jovem Simonton experimenta com toda intensidade a força da conversão produzida pela pregação dos revivais característico da Escola Nova, mas toda sua formação teológica e seu envio como missionário foi feito por meio de uma igreja da Escola Antiga. Desta maneira, o presbiterianismo brasileiro nasce com uma forte ambiguidade, tendo uma pregação espelhada nos revivais, centrada no apelo à conversão através de uma experiência de fé pessoal (Escola Nova), amplamente manifestada nos púlpitos e uma tendência ortodoxa, conservadora (Escola Velha), entrincheirada nos Seminários e nas estruturas conciliares, que vai desenvolver um forte espírito autoritário. (MENDONÇA e VELASQUES, 1990).

A relevância destas informações, está no fato, já mencionado, que os primeiros missionários no Brasil saem deste contexto fragmentário do presbiterianismo americano.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Reflexão Bíblica

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Referências Bibliográficas
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LÉONARD, Émile-G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga, o protestantismo e a sociedade brasileira – perspectivas sobre a missão da igreja. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O Celeste Porvir – A inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Paulinas, 19 4.
MENDONÇA, Antonio Gouvêia e VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao protestantismo no Brasil, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2002.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico (1822-1888): aspectos culturais da aceitação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973.
SCHALKWIJK, Frans Leonard. Igreja e Estado no Brasil holandês (1630 a 1654), 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004 (1986).
SILVA, Elizete da. Protestantismo e questões sociais. Sitientibus, Feira               de Santana, nº 14, 1996, pp. 129-42. Disponível em: http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/14/protestantismo_e_questoes_sociais.pdf
SIMONTON, A. B. O diário de Simonton – 1852-1866. 2ª ed. revisada e ampliada com mapas e fotos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.SO
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pesquisa Cristã, 2009.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980.




[1] Na estrutura eclesiástica federativa presbiteriana cada igreja local compõe seu Conselho; um grupo de igrejas, mormente da mesma região geográfica, formam um Presbitério que passa a ter jurisdição sobre elas.
[2] Alguns Presbitérios formam um Sínodo, que passa a ter jurisdição sobre eles, assim como ocorre com o Presbitério em relação às Igrejas.

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