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sexta-feira, 20 de abril de 2018

RESENHA: Léonard, É.-G. O Protestantismo brasileiro



            Tirando as duas tentativas frustradas de se estabelecer alguma forma de protestantismo no Brasil através da invasão e domínio, a primeira de curtíssima duração pelos franceses (1555-1567) e a segundo mais longa dos holandeses (1630-1654), os diversos ramos derivados da Reforma Protestante iniciaram definitivamente sua inserção no país no final dos oitocentos, com a chegada de diversos missionários de origem estadunidenses enviados pelas denominações evangélicas americanas.
            Entretanto, apesar da presença permanente e crescente destes ramos protestantes a mais de cento e cinquenta anos, sua presença e atuação na sociedade brasileira continuam sendo ignorada completamente pelos livros didáticos de História do Brasil. A culpa deste fato facilmente comprovado não é apenas daqueles que produzem o material didático, mas também dos próprios protestantes que optaram desde suas origens tupiniquins a manterem uma equidistância da sociedade em que eles vivem e quando chamados para assumirem um papel de protagonista dos eventos sociais contentaram-se em permanecerem como meros coadjuvantes da história nacional. Esta opção ao longo do tempo tornou a presença protestante invisível aos olhos da sociedade brasileira.
            Os pioneiros do estudo sociológico e antropológico no Brasil não fizeram ou fizeram poucas referências ao protestantismo brasileiro nascente, para citar apenas alguns exemplos temos Oliveira Vianna (1920), Alceu Amoroso Lima (1931) e Gilberto Freyre (1933) que ao fazerem pequenas inserções em seus textos sobre os protestantes nacionais, o fazem de forma folclórica, como simples curiosidade.
A presença e influência dos protestantes em suas respectivas denominações começaram a serem pesquisadas mais precisamente após o grande crescimento das chamadas denominações pentecostais e mais especificamente os chamados neopentecostais (Universal e seus derivados) na sociedade brasileira e sua grande visibilidade na mídia e participação na política regional e nacional,[1] forçando os centros acadêmicos a dar-lhes atenção como campo crescente de pesquisa sociológica, antropológica e religiosa. Mas o protestantismo histórico ainda permaneceu incubado e somente lentamente foi saindo dos casulos acadêmicos.
Um fator que alavancou a pesquisa no campo do protestantismo histórico foi a criação dos cursos de pós-graduação e mais especificamente os da área de Ciências da Religião. Na medida em que estes polos foram se multiplicando no Brasil a produção acadêmica tomou um novo e continuo impulso.
Uma das primeiras e provavelmente pioneira produção acadêmica dentro das normas da pesquisa cientifica sobre o protestantismo no Brasil foi a do professor Leonard “O protestantismo brasileiro, estudo de eclesiologia e historia social”, cujo subtítulo revela o escopo e a orientação do autor, onde ele procura relacionar o crescimento do protestantismo no Brasil com diversos fenômenos sociológicos brasileiros e desta forma caracterizar algumas das funções sociais do protestantismo e de suas variadas modalidades.
O historiador francês Guillaume Jules Émile Léonard,[2] nome completo, mas conhecido amplamente na historiografia protestante brasileira como Émile Léonard, chega ao Brasil no final da década de 1940 a convite da Universidade de São Paulo (USP), recomendado por Lucien Febvre e Fernand Braudel para lecionar História da Civilização Moderna e Contemporânea, ocupando a cadeira de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e letras de 1948 a 1950, cadeira ocupada anteriormente por Fernand Braudel, que aqui estivera em seu segundo período de maio a dezembro de 1947. Tinha ele uma motivação pessoal para atravessar o grande Atlântico em direção ao sul, pois desejava conhecer o protestantismo brasileiro para aprofundar suas pesquisas sobre a expansão da Reforma nas diferentes partes do mundo.
E o protestantismo brasileiro não lhe oferecia apenas um tema de investigação, um campo relativamente virgem de pesquisa. Oferecia-lhe algo mais: oferecia-lhe uma espécie de viveiro de experimentação, um flagrante, por assim dizer, do processo histórico. Desde 1921 — como se deduz da lista de publicações suas — vinha êle reunindo elementos para realizar uma grande interpretação da Reforma na França. O panorama atual do protestantismo francês, distante quatro séculos do ambiente da Reforma, oferecer-lhe-ia problemas constantes de interpretação dos fatos. A introdução do protestantismo no Brasil é de ontem: a obra congregacionalista data de 1855, a presbiteriana, de 1859. O catolicismo brasileiro do fim do século passado assemelhava-se ao europeu do século XVI. Ainda hoje, em muitos pontos do Brasil, se vivem e se reproduzem os choques, as polémicas, as reações, as perseguições religiosas, da segunda metade do século passado. Êsse ambiente seria muito parecido com aquêle em que se operou a Reforma do século XVI (Prefâcio da primeira edição de 1965-ASTE).
Apesar do exímio tempo que permaneceu no país o eminente professor empreende uma ampla pesquisa de campo e em arquivos nas denominações protestantes, bem como a leitura bibliográfica da história do Brasil e do protestantismo aqui estabelecido, de modo a estabelecer os subsídios necessários para elaborar sua obra acima referida. Inicialmente sua pesquisa foi editada e publicada em oito números da Revista de História da USP (nºs 5 a 12),[3] de janeiro de 1951 a dezembro de 1952 e somente reunido em livro no ano de 1963 (dois anos após a morte dele).[4]
Ele inicia seu trabalho delimitando suas fontes, discorrendo pelo estabelecimento das primeiras missões estrangeiras, passando pelas reações dentro do catolicismo hegemônico até então vigente no Brasil, sem deixar de expor os problemas eclesiásticos ocorridos no interior do próprio protestantismo estabelecido aqui em forma das múltiplas denominações exportadas de suas matrizes americanas.
Como mencionado o pioneirismo de seu trabalho esta no fato de que ele evita as narrativas hagiográficas até então vigentes na historiografia protestante brasileira e municia-se de uma rigorosa pesquisa documental e da aplicação de um método de investigação histórico próprio a um trabalho científico.
Como estrangeiro, francês, e ligado a uma instituição acadêmica não confessional (USP), portanto sem vínculo denominacional, Leonard estava completamente livre para empreender não apenas uma mera reconstituição da implantação e expansão do protestantismo no Brasil, mas também para fazer uma análise de seus aspectos positivos e negativos.
A multiplicidade de denominações evangélicas, com suas estratégias e atividades distintas, antes de ser um aspecto positivo, acabam por se torna um problema a ser administrado permanentemente, pois os atritos tornam-se inevitáveis na prática missionária. Um exemplo é o fato de que os presbiterianos possuem duas agências missionárias atuando simultaneamente no país, uma de origem sulista e outra de origem nortista e que em diversas ocasiões expõem as diferenças de suas missões pátrias advindas da chamada Guerra de Secessão.
A formação da membresia dessas comunidades protestantes iniciais é formada não apenas pelas camadas sociais menos favorecidas, mas também atraem intelectuais e aristocratas. Ele percebeu também dado as dimensões continentais e desproporcionais do país, somados ao numero defasado de missionários e pastores, que foram surgindo ao longo dos anos diversas comunidades evangélicas autônomas sem qualquer influência das lideranças das igrejas estabelecidas.
Especifica algumas das crises internas e cisões das jovens denominações protestantes (como a divisão da igreja presbiteriana em virtude do debate a respeito da questão da maçonaria); visitou e observou com muita atenção a Igreja Evangélica Brasileira (IEB), decorrente da ruptura de uma liderança presbiteriana, Miguel Vieira Ferreira, então presbítero dessa igreja, mas que acabou fundando uma nova tradição religiosa, que naquele momento de sua pesquisa estava em processo de reinterpretação de suas origens; expõe a contínua reação católica, sobretudo na República, tendo como propósito salvaguardar seu espaço de atuação e sua posição de religião hegemônica; por fim tece algumas considerações sobre o pentecostalismo que ainda estava iniciando sua expansão nos grandes centros urbanos brasileiro.
A obra de Léonard, portanto, permanece um referencial a pesquisadores do tema, tanto pelas preciosas informações que contém como também, conforme ressaltado, pelo seu pioneirismo enquanto projeto historiográfico sobre o protestantismo.


LÉONARD, Émile-Guillaume. O protestantismo brasileiro:
estudo de eclesiologia e de história social .
Tradução de Camargo Schützer,
2ª edição. Rio de Janeiro e São Paulo, JUERP/ASTE, 1981. 354 p.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

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[1] Desde os anos 50, o Pentecostalismo cresce muito no Brasil. Mas sua expansão acelera-se acentuadamente a partir da década de 1980, momento em que esse movimento religioso passa a conquistar igualmente crescente visibilidade pública, espaço na tevê e poder político partidário. Segundo os Censos Demográficos do IBGE, havia 3,9 milhões de pentecostais no Brasil em 1980, 8,8 milhões em 1991 e 17,7 milhões em 2000.
[2] A família de Léonard vem da forte tradição huguenote e seus antepassados constam nos arquivos de Genebra – que, no século 18, recebeu muitos refugiados franceses.
[3] O Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula abriu-lhe as páginas da Revista; o Prof. Lineu de Camargo Schiitzer deu-se ao trabalho de traduzir as 315 páginas em que se converteu o seu original, distribuídos ao longo das oito edições consecutivas.
[4] Sua monumental obra histórica do protestantismo - Histoire Générale du Protestantisme (Paris, 1961-1964; reeditada em 1988), perfazem quatro volumes que totalizam 1937 páginas. Torna-se imprescindível ao estudo do protestantismo, uma obra amadurecida ao longo de mais de vinte anos de uma carreira dedicada à pesquisa e ao recolhimento de material sobre o protestantismo em diferentes partes do mundo. Suas fontes pesquisadas incluem textos em inglês, espanhol, português, italiano, holandês, alemão e latim, tendo sido traduzida para o inglês, espanhol e italiano, lamentavelmente nunca para o português.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

As Mulheres no Presbiterianismo Brasileiro: Elizabeth Wiggins Simonton



            Um fato facilmente comprovado em qualquer levantamento feito nos grandes centros acadêmicos brasileiro é de que até o presente momento não temos uma historiografia de mulheres no protestantismo brasileiro, em geral, nem do presbiterianismo em particular. Temos uma pequena produção de pesquisa voltada para a educação onde as mulheres atuaram com intensidade na esfera protestante nacional e mundial, mas mesmo aqui acabam afunilando nas figuras ícones da historiografia denominacional, de maneira que as mulheres no sentindo mais geral e no que tange ao gênero pouco tem sido pesquisado no campo religioso do protestantismo nacional.
            Evidentemente que obras como a do Dr. Alderi S. Matos “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil” ampliam o universo de mulheres que estiveram desde os primórdios da implantação do presbiterianismo atuando intensamente na propagação evangélica e no estabelecimento desta denominação em todo o vasto território nacional. Ele inclusive dá nome e rosto às mulheres “sem nome”, ou seja, às “mulheres dos pastores e missionários” que igualmente foram fundamentais na semeadura evangélica protestante. Um exemplo típico disso é a jovem Helen M. Simonton que morre prematuramente aos trinta anos, após o parto de sua primeira e única filha, com menos de um ano de sua chegada ao Brasil. Além delas um número significativo de mulheres caminhou lado a lado com os demais missionários, enfrentando todas as dificuldades além das que lhes são peculiares, sofrendo reveses e perdas no transcorrer de sua missão.
            As dificuldades para se resgatar o trabalho desenvolvido por essas mulheres estão no fato de que as informações mormente estão alocadas em arquivos das respectivas Juntas Missionárias americanas e denominacionais nos Estados Unidos, de maneira que dificulta muito a pesquisa e força o estudioso a ocupar-se das fontes secundarias, como tão bem exclarece o Dr. Alderi:
“Todavia, no que se refere às pioneiras norte- americanas, esses documentos geralmente só estão disponíveis em arquivos históricos localizados nos Estados Unidos. Assim sendo, este trabalho baseia-se acima de tudo em fontes secundárias. Por outro lado, a preocupação maior não é a de fazer uma análise psicológica, sociológica ou mesmo missiológica das pessoas contempladas. O objetivo do autor é simplesmente contar a história das pioneiras presbiterianas, na esperança de que futuros estudos possam fazer análises mais aprofundadas desse aspecto tão interessante quanto negligenciado da historiografia protestante no Brasil”.

            A partir da obra do Dr. Alderi vamos conhecer um pouco sobre essas mulheres que com suas vidas cooperaram de forma singular na implantação e desenvolvimento do protestantismo no Brasil, através de sua denominação presbiteriana, no final dos oitocentos e inicio dos novecentos.

Elizabeth Wiggins Simonton
Primeira missionária presbiteriana no Brasil Elizabeth W. Simonton pertenceu à terceira geração de uma família de escoceses-irlandeses emigrados para os Estados Unidos. Seu avô, William Simonton, nascera por volta de 1755 12 em County Antrim, na Irlanda do Norte. Ficando órfão, foi para os Estados Unidos com cerca de dez anos, mediante o auxílio de um tio, o Rev. John Simonton, pastor da Igreja Presbiteriana de Great Valley, no Condado de Chester, na Pensilvânia. William tornou-se médico e casou-se com Jane Wiggins em 17 de novembro de 1777, sendo a cerimônia oficiada pelo seu tio. Em 1784, adquiriu a propriedade denominada ― “Antigua”, em West Hanover. Teve oito filhos, cinco homens e três mulheres, e faleceu em 24 de abril de 1800. Sua esposa faleceu em 1824.
Seu terceiro filho, também chamado William Simonton (1788-1846), foi o pai de Elizabeth e do Rev. Ashbel Green Simonton. Ele cursou a Universidade da Pensilvânia, formando-se em medicina em 1809. Em 1815, casou-se com Martha Snodgrass (1791-1862), filha do Rev. James Snodgrass, pastor da Igreja de Hanover, e professou a fé na Igreja Presbiteriana de Derry no dia 8 de junho de 1817. A fazenda Antigua foi dividida igualmente entre ele e o irmão John, que faleceu em 1824. O casal Simonton teve onze filhos, nove dos quais chegaram à idade adulta: Martha Jamison (1816), Jane (1818), William (1820), Elizabeth Wiggins (1822), Anna Mary (1824), John Wiggins (1826), James Snodgrass (1829), Thomas Davis (1831) e Ashbel Green (1833).
Elizabeth nasceu no dia 4 de setembro de 1822 em West Hanover, Condado de Dauphin, na Pensilvânia. Era, portanto, uma irmã mais velha do futuro Rev. Ashbel Green Simonton, o missionário fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, e a quarta filha de William Simonton e Martha Snodgrass Simonton. Elizabeth estudou no Seminário Feminino de Newark, em Delaware, onde teve marcante experiência de conversão durante um avivamento. Filiou-se à Igreja Presbiteriana de Derry, na Pensilvânia, no dia 15 de maio de 1842. Tinha o apelido familiar de Lille.
Pouco antes de vir para o Brasil, o Rev. Simonton visitou o Western Theological Seminary, em Allegheny, oeste da Pensilvânia, para conhecer o Rev. Alexander Latimer Blackford, que acabara de ser ordenado e também fora aceito como missionário para o Brasil. Nessa ocasião, provavelmente surgiu um convite para que Blackford visitasse a família Simonton em Harrisburg, no mesmo estado, onde a mesma agora residia, e foi assim que ele conheceu Elizabeth. Casaram-se no dia 8 de março de 1860. Depois de uma tumultuada e perigosa viagem marítima de três meses, o casal chegou ao Rio de Janeiro em 25 de julho de 1860.
Após um período inicial no Rio de Janeiro, o casal Blackford mudou-se para São Paulo em outubro de 1863, dando início à obra presbiteriana na capital paulista. Em maio do ano seguinte, receberam a visita do sacerdote José Manoel da Conceição, que retribuía uma visita que Blackford lhe havia feito. Conceição deixou um belo testemunho acerca de Elizabeth:
Sua muito nobre senhora, Mme. Blackford, cuja alma é o santuário do Espírito de Deus, a primeira palavra que me dirigiu foi um convite para comungar na sua igreja. A surpresa embaraçou-me por um momento... Três grandes nomes, que farão eternamente o objeto de minha gratidão, são inseparáveis da minha conversão e entrada na família cristã. Estes nomes são A. L. Blackford, sua muito nobre senhora e A. G. Simonton. Eis os dignos instrumentos de que quis Deus servir-se para me fazer cristão”.
A residência do casal Blackford na Rua Nova de São José, nº 1 (atual Rua Líbero Badaró), próximo ao Largo de São Bento, foi o berço do presbiterianismo paulista. Ali se reuniu a igreja por muitos anos; ali Elizabeth criou a pequenina Helen Simonton, após o falecimento da sua cunhada; ali faleceu o seu irmão, o pioneiro Ashbel G. Simonton, em 9 de dezembro de 1867. Pouco antes do desenlace, Elizabeth aproveitou um dos últimos momentos de lucidez de Ashbel e perguntou-lhe se tinha recados para os amigos do Estados Unidos, para a Junta de Missões e para a Igreja do Rio. Ao ver a sua irmã tomada de emoção, Simonton afirmou: “Devemos apenas nos recostar nos Braços Eternos e estar sossegados”.[1]
Com a morte de Simonton, o casal Blackford voltou para o Rio de Janeiro e esteve por vários anos à frente da igreja local. Em fevereiro de 1870, a revista The Foreign Missionary publicou um interessante relato de Elizabeth acerca da escola dominical da Igreja do Rio. Ela foi uma grande entusiasta da obra missionária no Brasil. Possuía uma mente ágil e observadora e tinha facilidade de relacionar-se com todos os tipos de pessoas, usando essa habilidade com fins evangelísticos. Acometida por uma enfermidade nervosa nos últimos anos de sua vida, sofreu com o clima do Brasil. Foi algumas vezes aos Estados Unidos em busca de tratamento, uma vez sem o marido, mas logo que sentia algum alívio regressava ao campo missionário, por causa do desejo que tinha de viver e trabalhar no Brasil com o seu esposo e do seu grande amor por este país. Viajou pela última vez à pátria no dia 25 de abril de 1878, a bordo do navio Mississippi, levando consigo a pequena Helen Simonton.
Elizabeth Simonton Blackford faleceu no dia 23 de março de 1879, após quase vinte anos dedicados à obra missionária no Brasil. O casal achava-se de passagem por São Paulo quando Elizabeth foi acometida de uma febre tifóide. Para ter os melhores cuidados disponíveis, foi levada para a residência de um médico americano em Campinas (Dr. James M. Gaston?). Apesar da assistência recebida e do carinho do esposo, ela veio a falecer. Seu corpo foi levado para São Paulo e sepultado ao lado do de seu irmão no Cemitério dos Protestantes, conforme o desejo que manifestara muitas vezes. O Rev. John B. Kolb deu um dos mais significativos testemunhos sobre Elizabeth ao afirmar que ela “amava com toda a ternura do seu coração o povo brasileiro, chamando-o ‘o meu povo’”. No túmulo da dedicada missionária estão as palavras de 2 Timóteo 1.12: ―I know whom I have believed‖ (Eu sei em quem tenho crido).

Bibliografia (encontrada no livro referido):
· Lessa, Annaes, 175.
· Ferreira, História da IPB, I:84.
· O Diário de Simonton, 142s.
·         William Simonton. Family History, Genealogical, Historical and Biographical of the Simonton and Related Families. Saint Paul: Webb Publishing Company, 1900.
·         Modesto Carvalhosa, ―Exmª Srª Elisabeth Blackford‖, Imprensa Evangélica (17-04- 1879), 124.
·         George Norcross, The Centennial Memorial of the Presbytery of Carlisle (Harrisburg: Meyers, 1889), Vol. II, 453-54.
·         Álvaro Reis, Almanack Histórico do O Puritano, 40s.
·         Vicente T. Lessa, Padre José Manoel da Conceição, 2ª ed. (São Paulo: Estabelecimento Gráfico Cruzeiro do Sul, 1935), 21.
·         Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 270s.


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Primeiro Curso Teológico Protestante no Brasil
O Protestantismo na Capital de São Paulo: A Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras.

Referências Bibliográficas
MATOS, Alderi Souza de. Os pioneiros presbiterianos do Brasil (1859-1900). São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 



[1] O dialogo final de Elizabeth e seu amado irmão: “Elizabeth – Tem algum recado para os amigos dos Estados Unidos? Ashbel – Nada de especial. Diga-lhes que os amei até o fim. Elizabeth – Alguma mensagem para o board de Missões? Ashbel – Diga-lhes que toquem para frente o trabalho. Elizabeth – E a igreja do Rio? Que falta vai fazer! Ashbel – Deus levantará outro para pôr em meu lugar. Ele fará sua própria obra com seus próprios instrumentos. E, ao perceber que fiquei tomada de grande emoção, disse-me: Ashbel – Devemos, apenas, nos recostar nos Braços Eternos e estar sossegados”.

terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil (1859-1900)



            Esse livro elaborado pelo eminente Dr. Alderi S. Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil e também um profundo pesquisador do protestantismo no Brasil, contribui de forma relevante para se preencher uma enorme lacuna da história do presbiterianismo no Brasil.
            A historiografia protestante nacional somente tomou a forma acadêmica após as décadas de setenta e oitenta, quando começaram a emergia nos grandes centros acadêmicos brasileiros os cursos de pós graduação e mais especificamente de mestrado em Ciências da Religião.
Ainda que haja diversos textos produzidos em períodos anteriores, estas obras possuíam um ranço eclesiástico, uma vez que seu alvo primário eram as próprias denominações, que as financiavam, e a defesa de suas respectivas posições históricas e teológicas. Outra característica desta literatura era enaltecer o esforço dos ―heróis da fé, ou seja, aqueles líderes ou pioneiros que implantaram trabalhos denominacionais em determinado lugar ou região.
Nas palavras de Júlio Andrade Ferreira, historiador presbiteriano, a historiografia protestante brasileira ainda que a partir de 1950 fosse quantitativamente crescente, no que tangia a qualidade tornava-se angustiante para os que pretendiam um estudo mais acadêmico, pois segundo ele ―a um simples exame se apercebem do caráter apologético e pouco cientifico, pueril às vezes, da maior parte dessa imensa produção literária.
Um dos raros trabalhos de cunho acadêmico produzido sobre o protestantismo brasileiro é a do eminente professor Émile-G. Léonard, francês que este atuando como docente na Universidade São Paulo e que durante os poucos anos que aqui esteve produziu seu “O protestantismo brasileiro, estudo de eclesiologia e historia social” cujos capítulos foram sendo editados na revista desta universidade e posteriormente editados em formato de livro em meados de 1963 e depois pelas JUERP/ASTE (1981).  O subtítulo revela o escopo e a orientação do autor, onde ele procura relacionar o crescimento do protestantismo no Brasil com diversos fenômenos sociológicos brasileiros e desta forma caracterizar algumas das funções sociais do protestantismo e de suas variadas modalidades.
A obra de Matos supracitada está dentro deste formato acadêmico de produção literária e acadêmica. Ainda que ele seja um historiador oficial da denominação presbiteriana ao qual pertence, seus trabalhos tem sido demarcados pela profunda pesquisa e informações documentais de fontes primárias. Apesar de tratar de vultos eminentes do presbiterianismo pioneiro, o pesquisador consegue produzir textos sóbrios e de interesse para todos aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre a implantação do protestantismo no Brasil através de seu viés presbiteriano.
Nas primeiras linhas de sua introdução Matos esclarece a razão da produção deste volume: “a dificuldade de encontrar em um mesmo volume informações biográficas detalhadas sobre os pioneiros da obra presbiteriana no Brasil”. Ele também explica a razão da delimitação temporal da pesquisa produzida: “por causa da preocupação de abrangência, incluindo-se todos os personagens relevantes, foi preciso limitar o período abordado aos anos de 1859 a 1900, ou seja, o século 19”.
Inclui a guisa de introdução um sucinto resumo da implantação inicial do presbiterianismo no Brasil e inclui dois interessantes gráficos sobre as Missões Presbiterianas Norte-Americanas que foram responsáveis pelo envio desses missionários pioneiros a Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA) através de sua Junta de Missões de Nova York e a Igreja Presbiteriana do Sul (PCUS) através de seu Comitê de Missões de Nashville, bem como as suas respectivas atuações no campo missionário brasileiro, destacando que a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) está diretamente vinculada à Junta nortista. O segundo gráfico visualiza a evolução histórica da implantação do presbiterianismo no país através da formação de seus primeiros Concílios nacionais, cujo primeiro Presbitério foi estabelecido no Rio de Janeiro, pela razão histórica de que a primeira igreja foi estabelecida na então capital brasileira, mas que era composta pelas duas igrejas estabelecidas na cidade de São Paulo (capital) e Brotas (interior).
O pesquisador inclui igualmente a participação das mulheres no esforço missionário pioneiro presbiteriano. Oferece preciosas informações sobre o papel relevante que as missionárias presbiterianas desempenharam na implantação desta denominação protestante no país. Coloca nome nas “mulheres sem nome” dos pastores missionários que igualmente deram seus melhores anos e algumas a própria vida em prol da evangelização de cunho evangélico protestante em todos os rincões deste continente brasileiro, assim como aquelas missionárias solteiras que igualmente desembarcaram em nossos portos imbuídas de um objetivo claro e definido – estabelecer no Brasil uma denominação presbiteriana forte e irradiadora da mensagem simples do Evangelho de Jesus Cristo. O papel educacional desenvolvido por essas missionárias, aqui apenas mencionados, tem sido motivo de ampla pesquisa acadêmica por diversos vertentes na área da educação no Brasil.
De não menor relevância a obra oferece uma ampla coleção de imagens, algumas raríssimas, destes personagens pioneiros do presbiterianismo tupiniquim, bem como de seus edifícios e templos religiosos e demais monumentos iniciais, tais como uma foto do Rev. Alexander L. Blackford e os quatro primeiros seminaristas do chamado “Seminário Primitivo”, que posteriormente seriam ordenados como pastores desta denominação. Além das imagens alocadas nos diversos capítulos que compõe o livro, o autor ao final vai disponibilizar uma ampla "Galeria de Imagens" de qualidade um tanto rudimentar, mas que possibilita ao leitor uma visibilização interessante sobre o desenvolvimento do presbiterianismo no Brasil.
O autor divide sua pesquisa de forma pedagógica e não meritória apresentando inicialmente os missionários americanos do Norte (PCUSA) e depois os do Sul (PCUS), pelas razões de que foram os nortistas que chegaram primeiro e de que a IPB a eles estão vinculados em sua organização eclesiástica primária; posteriormente são biografados os pastores nacionais, abrindo esse capítulo o Rev. José Manoel da Conceição que foi o primeiro brasileiro ordenado como pastor protestante no Brasil, fato completamente inédito na história brasileira, em que até então havia atuando aqui apenas missionários estrangeiros.
Em um capítulo especifico o pesquisador abarca as denominadas “Missionárias educadoras” onde resgata o mínimo de informações sobre ao menos quinze mulheres que aqui desembarcaram e deixaram suas marcas na reestruturação pedagógica na busca de um ensino nacional relevante e de alto nível.
Neste mesmo capítulo o autor inclui o papel indispensável dos chamados leigos, aqueles que não foram investidos como missionários ou pastores. Entre os vinte e quatro nomes disponibilizados estão de homens e de mulheres que participaram de forma efetiva na construção de uma denominação presbiteriana pujante na amplitude do território brasileiro.    Abre essa sessão do livro a figura de Maria Antônia da Silva Ramos (nome de uma rua no centro de São Paulo), figura eminente da aristocracia paulistana e que labutou por décadas nas plêiades presbiterianas e também contribuiu para a fomentação do que viria a ser a Universidade Presbiteriana Mackenzie, ao vender parte de uma chácara na Consolação ao Rev. George W. Chamberlain e sua esposa Mary, que ali iniciariam a Escola Americana embrionária do futuro Mackenzie College e atual Universidade, no coração da maior cidade do Brasil.
Oferece também o pesquisador uma selecionada bibliografia sobre o presbiterianismo pioneiro no país, que possibilita aos interessados em adentrar às pesuisas sobre essa denominação ou mesmo ao protestantismo de forma mais ampla.
Por fim, o autor acrescenta diversos apêndices que contribuem de forma positiva para a pesquisa da obra por ele elaborada. Os dois primeiros abrangem uma lista com os missionários da Igreja do Norte e do Sul com suas respectivas esposas e seus respectivos períodos de atuação no Brasil; no apêndice três lista igualmente os pastores nacionais e suas esposas delimitando apenas a data das respectivas ordenações pastorais; no apêndice numero quatro enumera todos os Concílios Superiores da IPB e seus respectivos Moderadores (Presidentes), extrapolando o período até 1937; no apêndice cinco dispõe uma lista cronológica das primeiras igrejas Presbiterianas estabelecidas no Brasil; no apêndice numero seis oferece uma cronologia básica da história presbiteriana no Brasil abrangendo o ano de 1859 a 1921. Para facilitar a pesquisa dentro da obra o pesquisador elaborou dois índices sendo o primeiro de Personagens biografados e o segundo por assuntos abordados ao longo do livro.
As limitações de uma obra tão vasta como essa estão justamente no fato de que faltam em diversos biografados maiores informações, visto que no período demarcado pouco valor se dava à preservação de tais informações; também se recente a obra de um aprofundamento maior em determinados temas mencionados, mas que certamente tornaria a obra inviável editorialmente.
Atualmente não temos ou se foi produzido não tomei conhecimento outro trabalho de cunho histórico-acadêmico que ofereça igual, ou melhor, fonte de informação e pesquisa do que este livro do Rev. Alderi S. Matos, sobre a implantação e desenvolvimento do protestantismo, pelo viés presbiteriano, no Brasil.
O presbiteriano de forma especifica e os protestantes evangélicos de forma geral deveriam tomar conhecimento desta obra para que pudessem adquirir uma visão mais ampla desta monumental obra missionária que foi a implantação do protestantismo no nosso país. Na História do Brasil os protestantes praticamente são inexistentes, mas a culpa é nossa mesma, pois nem os próprios evangélicos tem interesse e valorizam suas próprias origens históricas e porque os demais o fariam.

MATOS, Alderi Souza de. Os pioneiros presbiterianos do Brasil (1859-1900). São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 592 p.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
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quinta-feira, 12 de abril de 2018

A Implantação do Protestantismo Dentro da Moldura do Movimento Romantista Brasileiro



Durante o período do Segundo Reinado, que demarca o inicio efetivo da implantação da religião cristã pela vertente protestante no país,[1] um dos movimentos culturais mais significativos no Brasil, particularmente no tocante à sua vertente literária, foi o Romantismo. Este movimento irrompe na Europa e começa a tomar forma nos primeiros anos do século XIX com a publicação da obra dos poetas ingleses Wordsworth e Coleridge. O alemão Goethe, os franceses Alexandre Dumas e Victor Hugo e o russo Pushkin, igualmente se constituem em alguns dos nomes mais importantes do movimento inicial. Apesar da nomenclatura este movimento estava pejado de um senso extremamente crítico da ordem estabelecida até então pelo Classicismo e do Neoclassicismo que traziam em seu bojo os princípios de ordem, calma, harmonia, equilíbrio, idealização e racionalidade. O Romantismo se coloca em contra posição com uma proposta de:
[...] apreciação da natureza; exaltação da emoção em detrimento da razão; exame meticuloso da personalidade humana; preocupação com o gênio, o herói, e o foco em seus conflitos interiores; nova visão do artista como criador individual supremo; ênfase na imaginação como ponto de partida para experiências transcendentes; interesse pelas origens históricas e culturais da nação; predileção pelo exótico, estranho, oculto, monstruoso, doentio e até satânico. (Enciclopédia Itaú Cultural – Literatura Brasileira).
Apesar de não ter se originado é na França com sua Revolução sustentada no tripé: Igualdade, Liberdade e Fraternidade, que o Romantismo germinara com uma força fecundante e pela qual o Brasil será inoculado por seus conceitos. Um dos pensadores mais importantes e influentes do período final do Brasil Colonial e inicio do Brasil Imperial, sendo um dos mentores da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), após desentendimentos com D. Pedro I e a dissolução da Constituinte e acossado tanto por liberais quanto por conservadores acaba exilado em 1823 em território francês por seis anos. Sua formação naturalista o torna suscetível a vários aspectos deste novo movimento histórico-cultural-literário principalmente no que tange as suas fortes ênfases nacionalista; ele toma contato com a literatura de Byron, Scott e traduz Ossian, e posteriormente produz alguns poemas expressando um sentimento vivo dos lugares se ajustando confortavelmente entre os pré-românticos com sua proposição moralizante e civilizadora (CÂNDIDO, 2004, p. 15; CASTELLO, 2004, p. 163).[2]
José Bonifácio acaba por trazer esta sementeira em sua bagagem quando de seu retorno ao Brasil para exercer nada menos do que a função de tutor do então menino Pedro de Alcântara, futuro Imperador brasileiro. Com certeza as sementes do romantismo francês foram transplantadas para a mente em formação deste menino e que em momento posterior germinará manifestando-se no propósito perseguido pelo então Segundo Imperador em moldar a forma de ser ou a criação do ethos brasileiro.[3]
A transição do Primeiro para o Segundo Reinado não foi sem turbulência, visto que D. Pedro I praticamente foi forçado a retornar à Portugal, tanto pelas convulsões que lá ocorriam em decorrência da morte e/ou assassinato de D. João VI, como também pela crescente pressão politica interna do Parlamento brasileiro que já fomentava um governo mais Parlamentarista e menos monarquista e de quebra ainda que de forma incipientemente dava-se os primeiros passos em direção a um governo republicano.[4]
É nesse contexto que D. Pedro I abdica do trono brasileiro em favor de seu filho ainda menor em idade cinco anos, para assumir o trono português. Após o período de tutela e antecipada a emancipação do jovem monarca, no apogeu de seus 15 anos de idade, D. Pedro II tem diante de si um enorme desafio não apenas de conciliar uma nação, mas de moldar uma identidade própria para o país dentro da constelação das nações. Para que isso fosse possível procura-se um discurso unificador que pudesse simultaneamente conciliar a tradição monárquica aos anseios de um espírito nacionalista efervescente. A solução é encontrada no movimento romancista naturalista, onde as elites politicas e intelectuais entendem ser a forma ideal para saciar o espírito nacionalista e revestir o governo imperial do glamour imponente europeu. Francisco Bernardi descreve este momento:
Aqui marca o início das manifestações ostensivas visando a concretizar os valores essenciais de nossa pátria; tanto no aspecto histórico-social como no plano artístico-Iiterário. Mesmo influenciado pelo espírito europeu, o Romantismo brasileiro preocupa-se em realçar a presença da alma brasileira nos motivos e na linguagem. O Romantismo, no Brasil, coincide com a independência política. O momento é de ardor e expressão patriótica de uma nação, quando, de forma intensa, vive as transformações políticas, econômicas e sociais. (1999, p. 85).
O marco fundante deste movimento romancista
O ciclo virtuoso do ouro não apenas criou e multiplicou uma nova classe social ascendente, como proporcionou que estas famílias abastadas enviassem seus filhos à Europa, dos quais dois centros se destacam – França e Inglaterra, que representam naquele momento o modelo ideal de nação desenvolvida e culta. É possível ver nas casas, nas lojas e nas ruas replicas exatas do modo de pensar e viver destas nações.[5] O relato de Debret, artista que esteve no Brasil entre 1816 e 1831, demonstra a intensidade desta influência francesa:
A moda, essa mágica francesa, em boa hora fez sua irrupção no Brasil. O Império de D. Pedro [I] tornou-se um de seus mais brilhantes domínios: ela reina como déspota, seus caprichos são leis: nas cidades, toaletes, refeições, dança, música, espetáculos, tudo é calculado a partir do exemplo de Paris, e, nessa relação assim como em algumas outras, certos departamentos da França estão ainda bem atrás das províncias do Brasil”. (VIDAL, 2009, p. 9-10).
Facilmente de pode multiplicar os exemplos de identificação com a Europa e, mais especificamente, com os franceses,  entretanto, tudo isso era muito mais um estado de espírito, norma comportamental, do que uma evolução sociocultural real. 
Como resultado deste contexto pode-se encontrar flutuando pela Europa grupos de jovens brasileiros na busca de aperfeiçoamento de seus estudos acadêmicos. Entre estes alguns amigos se encontram em Paris em 1836. Estão impregnados pela atmosfera francesa do movimento Romântico que estão produzindo mudanças profundas em toda a Europa, tendo o espírito nacionalista como um de seus aspectos mais exacerbado.
É neste momento e atmosfera que estes jovens amigos resolvem iniciar uma Revista para o qual escolheram propositalmente o título de Niterói [Nitheroy – grafia original] que teve apenas duas edições, elaboradas e impressas ainda na França, mas que veio a se constituir no marco inicial do Romantismo brasileiro. Seus jovens editores são: Gonçalves de Magalhães (1811-1882), Torres Homem (1812-1876) e Araújo Porto-Alegre (1806-1879). No primeiro número, Magalhães publica um estudo intitulado "Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil" considerado o manifesto romântico brasileiro. Sua tese é que os brasileiros deveriam buscar sua própria forma literária, pois “cada povo tem a sua Literatura, como cada homem o seu caráter, cada árvore o seu fruto”.
O texto de Magalhães é a expressão de um literato brasileiro que incorpora o pensamento de diversos europeus que anteviam a necessidade dos brasileiros produzirem uma literatura mais nacionalista que enfatizasse a cor local, a temática e o ambiente natural americano em que o Brasil estava inserido, entre os mais conhecidos estão Almeida Garrett, Ferdinand Denis,[6] Friedrich Bouterweck.
O que se destaca no texto de Magalhães é a ambivalência entre o nacionalismo e o sentimento antilusitanismo, que se constitui em um desdobramento entre o clássico e o romântico. Portugal torna-se o opressor representativo de toda opressão e cerceamento do desenvolvimento de uma cultura essencialmente brasileira. Tecem-se duras críticas ao colonialismo inicial feito com o que havia de pior na sociedade portuguesa, criminosos degradados, pelo massacre das nações indígenas que aqui habitavam muito antes deles chegarem, e pela manutenção de uma subcultura aqui produzida em todo o período colonial. Nas palavras de Gonçalves de Magalhães podemos perceber este contexto:
“Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, tão mesquinha foi ela que bem parece ter sido dada por mãos avaras e pobres. No começo do século atual, com as mudanças e reformas que tem experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua literatura. Uma só idéia absorve todos os pensamentos, uma idéia até então desconhecida; é a idéia de pátria; ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade, instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova Nação, tais são os objetos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao povo interessam” (1836, p.146).
Com as mudanças ocorridas a partir de 1808 e principalmente 1822, uma nova atmosfera nacionalista exige mudanças que proporcionem ao país desenvolver uma cultura autônoma que possa de fato representar todo potencial que o brasileiro e o Brasil possuem. Os brasileiros libertários devem se desfazer de seu ranço português e buscar novas formas de construção da sua identidade coletiva.
Com um slogan “Tudo pelo Brasil, e para o Brasil”, o movimento romântico iniciado por estes jovens, se ajusta perfeitamente na moldura preparada pela “nova-velha” elite que necessita urgentemente criar o ethos da nacionalidade brasileira. Evaldo Cabral de Mello coloca bem a razão desta urgência: “O nacionalismo brasileiro não precedeu, sucedeu, a criação do Estado nacional. O Brasil não se tornou independente porque fosse nacionalista mas fez-se nacionalista por haver-se tornado independente” (2002, p. 15).
É crescente nos primórdios da independência o espírito nacionalista, que começa a buscar no passado histórico uma identidade própria, exaltando-se a natureza e a pátria; em meio a tudo isso o Brasil vivencia sua convulsões sociais, econômicas e políticas, que culmina com a abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho Pedro Alcântara, com apenas cinco anos; seguindo o período regencial conturbado e finalmente a antecipação da maioridade do agora D. Pedro II, no alto de seus quinze anos de idade.
Como vimos acima, o menino D. Pedro II foi tutelado pelo pré-romântico José Bonifácio, de maneira que na busca de um ideal que pudesse forjar uma identidade própria, o romantismo surge como a ferramenta perfeita, capaz de exprimir, de forma original, as singularidades da nação brasileira. O conceituado professor Valdei Lopes de Araújo sintetiza de forma peculiar o papel da literatura na formação da nacionalidade brasileira:
O entendimento das letras como conseqüência e produto da ação do homem racional, ou seja, do cidadão, é abandonado em favor de uma compreensão da literatura como produção do gênio e expressão singular de uma nacionalidade. Como parte mais visível e permanente da história de uma nação, a literatura assume o papel de “cápsula do tempo” da nacionalidade, lugar no qual, através de procedimentos da história da literatura, uma imagem da identidade nacional poderia ser obtida (2008, p. 107-134).
            Evidentemente que tudo isso ainda está em forma embrionária e somente manifestara todo seu potencial cultural renovador e autóctone no último estágio do Romantismo, quando vai conseguir se libertar de sua dependência governamental e de fato iniciar uma produção literária e cultural mais crítica e autônoma.
O apogeu deste movimento Romancista esta justamente no período mais prospero do Segundo Império, cujo monarca D. Pedro II vai se constituir no grande incentivador da cultura nacional, pois tem como propósito moldar a sociedade brasileira conforme sua visão de mundo moderno e progressista.

Fazendo um Link
É dentro deste contexto cultural romancista que os primeiros missionários protestantes começam a transplantar para o Brasil os diversos ramos evangélicos protestantes pelo seu viés estadunidense. Evidentemente que em graus muito variados estes missionários americanos, haverão de alimentar e serem alimentados por este ideário romancista tão fortemente arraigados na sociedade brasileira. Um destes pioneiros missionário foi o Rev. Jemes C. Fletcher, de origem presbiteriana[7] e que desembarca no Porto do Rio de Janeiro em 14 de Fevereiro de 1852 (JAMES, 1952, p. 23) então com 29 anos, e permaneceu atuando até meados de 1869, com alguns intervalos.[8] Na mesma medida em que vai adentrando o país vai sendo tomado por um entusiasmo crescente e apaixonante. Suas expectativas do Brasil, pelo ideário anglo-americano de progresso, em que a religião nos moldes protestante (expressa em suas múltiplas denominações) haveria de alavancar o desenvolvimento econômico, científico e social, encaixa-se perfeitamente nesta moldura do romantismo proposto pelo Imperador D. Pedro II e cuidadosamente moldada pela literatura, artes, história, geografia e ciências daquele momento histórico cultural.
O jovem entusiasta e porque não dizer romântico missionário presbiteriano acalenta desde o principio o sonho de atrair e envolver o Imperador para a construção de um Brasil com ideário religioso protestante que segundo ele seria o passo maior para alavancar o tão desejado crescimento potencial da nação brasileira. Sua visão da figura de D. Pedro II demonstra o quanto Fletcher se ajusta perfeitamente à ideologia romancista que foi pensadamente construída ao longo do reinado do segundo Imperador brasileiro.[9] No transcorrer das páginas de seu livro sobre o Brasil e os brasileiros, Fletcher realça ao máximo a figura do monarca dos trópicos, destacando seu porte majestoso e mente privilegiada, filantropo, promotor de reformas religiosas e um estudioso inveterado, verdadeiro modelo para a juventude brasileira. Um capítulo inteiro (o décimo terceiro) é dedicado especificamente à figura do imperador brasileiro. Em sua excelente dissertação de mestrado Bruno Gonçalves Rosi (2009) registra:
Pode-se mencionar ainda que a edição de 1857 de O Brasil e os Brasileiros é concluída com um discurso de Dom Pedro II a respeito das possibilidades de desenvolvimento ainda diante do Brasil, algo que reforça o papel atribuído por Fletcher ao monarca brasileiro nesse processo. A vista dessas informações fica claro que a aproximação entre Dom Pedro II e os EUA, e conseqüentemente Brasil e EUA, teve importante participação e incentivo de Fletcher (2009, p. 160).
Sua forma peculiar de interpretar sua própria missão fica explicita em uma carta longa que escreve ao seu pai onde declara que sua missão é converter o Brasil ao protestantismo e ao progresso (VIEIRA, 1980, p. 63). Em uma carta endereçada ao Journal of Commerce de New York, ele define sua filosofia de ação missionária:
“......sei que alguns podem dizer que não é o papel de um clérigo missionário estar envolvendo-se com negócios. Mas creio que tenho uma visão mais alta do que o mero interesse mercantil do meu país, pois sou dos tais que creem que a religião e o comércio são servos que, unidos com a benção de Deus, servem para a promoção dos interesses mais nobres e mais altos da humanidade” (VIEIRA, 1980, p. 65).
A paixão do missionário americano pelo Brasil extrapola até mesmo os mais entusiastas dentre os brasileiros. Ele não tem dúvidas em enaltecer o Brasil e defende-lo com todas as suas forças, como fica claro no caso da guerra do Paraguai. Quando eclodiu a chamada Guerra do Paraguai e/ou Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870)[10] a mídia internacional em geral noticiava que o Brasil estava demonstrando uma vocação imperialista e colocava em prática um plano de domínio territorial da América do Sul. Esta pseuda interpretação partia do principio simplista e ignorante de que um país tão pequeno como o Paraguai jamais iniciaria uma guerra contra uma nação do porte do Brasil. Fletcher torna-se então o paladino da justiça, bem aos moldes do ideário romântico, e como uma voz a clamar no deserto sai em defesa do posicionamento do Brasil e através de artigos e correspondências procura demonstrar que a grande mídia estava equivocada em suas interpretações e que na verdade fora o Paraguai que acalentou pretensões expansionistas e imperiais, cabendo ao Brasil e seus aliados, depois de esgotados todos os entendimentos diplomáticos, a única saída possível que fora a declaração de guerra.
Dentro de sua cosmovisão triunfalista americana e somada ao ideário estabelecido pelo romantismo Fletcher esforça-se por trazer ao Brasil o progresso nas áreas industriais e cientificas, conforme molde americano. Para isso ele promove dois eventos significativos: uma feira industrial[11] e uma expedição científica do eminente cientista Prof. Louis Agassiz.[12]
Desde sua chega ao Brasil Fletcher esforça-se para estabelecer contato com a elite política que ele entende compartilharem de sua visão utópica do país, bem ao sabor do pensamento romancista. Ao longo dos anos que aqui permaneceu atuando, com pequenos intervalos, ele vai estabelecer um núcleo que poderia ser denominado de “Os Amigos do Progresso” e dos quais estariam vinculados por este fio progressista alguns nomes, dos quais se sobressai o do deputado alagoano Tavares Bastos.[13]
Nas páginas de seu livro “O Brasil e os Brasileiros”, redigido a partir da obra “Reminiscências de viagens e permanência no Brasil” de outro missionário de origem metodista Daniel Parish Kidder, ele enaltece ao máximo o potencial do Brasil, do Imperador, das elites politicas que ele classifica como sendo progressistas. Até mesmo quando tece algum comentário negativo do país ele procura explicar as razões da crítica de maneira a amenizar ou inibir qualquer ideia negativista. O pensamento e as perspectivas de Fletcher estão afinados no mesmo diapasão de entusiasmo do núcleo pensante confortavelmente acomodado no Instituto Histórico e Geográfico, que externa esta confluência de ideais em sua nota crítica ao livro elaborado pelo missionário americano:
Se alguma vez o seu Autor [referindo-se especificamente a Fletcher] se permite alguma facécia a respeito de nossos costumes, não é, todavia com o intento de expor-nos ao ridículo, como têm feito outros viajantes e escritores. Aponta muito de nossos defeitos, que se não podem negar; mas, em geral, ameniza com a sua benevolência as críticas que faz: de sorte que conclui-se antes em seu Autor um afeiçoado do Brasil, do que um desses viajantes que não tendo saído do seu gabinete maldizem de tudo e de todos; se Fletcher censura é porque desejaria que o Brasil e os brasileiros progridam na civilização.(RIHGB, xxv [862], p. 292/293, apud VIEIRA, 1980, p. 80).
Diante destes sucintos extratos aqui apontados é possível perceber o quanto este missionário protestante americano com sua visão utópica de um Brasil ainda imaculado ajusta-se confortavelmente na moldura proposta pelo movimento romancista, estabelecido pelo Imperador D. Pedro II, com amplo apoio das elites politicas e econômicas brasileira, através de um conjunto de escritores e demais construtores culturais do país.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
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[1] Antes do período referido aqui, houve algumas pequenas incursões do protestantismo no Brasil sem quaisquer pretensões maiores e duas tentativas frustrantes através de invasões e conquista militar primeiramente pelos franceses e posteriormente pelos holandeses, que foram completamente rechaçadas pelos portugueses e brasileiros. (cf. Primeiros Contatos - Invasões Francesa e Holandesa - http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/2013/11/protestantismo-no-brasil-primordios-e.html).
[2] “Suas composições, publicadas mais tarde no livro O poeta desterrado sob o pseudônimo de Américo Elísio, mostram uma obra de qualidade bastante razoável, acima da média dos brasileiros da época, e muito superior à de D. Pedro I, um poeta medíocre” ( GOMES, 2010, p. 155).
[3] Embora identificado com o período de 1836 a 1880, as origens do movimento romântico brasileiro remontam ao contexto europeu e aos anos de transição entre os séculos XVIII e XIX, quando panfletos e sermões ganham destaque como veículos de idéias novas e a atividade jornalística começa a se adensar. Rica de contatos com a cultura européia do tempo, essa atividade teve papel crucial para a articulação do que alguns críticos chamam de "pré-Romantismo" e para a definição das linhas ideológicas do Primeiro Reinado e da Regência. Frei Caneca (1779-1825), Visconde de Cayru (1756-1835), Monte Alverne (1774-1823), José Bonifácio (1763-1838), além de Hipólito da Costa e Evaristo da Veiga, são alguns dos nomes mais influentes nesse momento de transição. (Enciclopédia Itaú Cultural – Literatura Brasileira – Itálico meu)
[4] Laurentino Gomes nomeia ao menos quatro razões maiores que levou D. Pedro I a optar pela abdicação em 1831: escândalos da vida privada e sua dubiedade entre interesses do Brasil e de Portugal; seu caso com a marquesa de Santos e o falecimento precoce da imperatriz Leopoldina, amada pelos desfavorecidos; a longa e exaustiva guerra com a Argentina pelo controle da região da Cisplatina, que onerou ainda mais as finanças do combalido império brasileiro e agitou os quartéis; por último o temperamento de D. Pedro I que causavam instabilidades contínuas no sistema politico do primeiro reinado (2010).
[5] Joaquim Manoel de Macedo, com sua sátira de “Memórias da Rua do Ouvidor”, resume numa frase a influência francesa “[...] Quase tudo foi afrancesando” (p. 76). O autor demonstra que se os franceses fracassaram em conquistar o Brasil no século XVI com o fracasso da “França Antártica”, acaba por conquistar o país através de seu comércio de têxteis, vinhos, manteigas, xales, lenços, chapéus, joias e literatura.
[6] O francês Ferdinand Denis (1798-1890) que viveu alguns anos no Brasil e produziu seu “Résumé de l’histoire littéraire du Portugal suivi du résumé de l’histoire littéraire du Brésil (1826), foi um dos pioneiros a estabelecer uma teoria da história da nossa literatura, dentro da moldura do Romantismo. “Por intermédio de Denis, e de outros franceses que também viveram aqui, os brasileiros puderam sentir como o particularismo, inclusive sob a forma do pitoresco, se ajustava ao desejo de diferenciação e busca de identidade nacional”. (CÂNDIDO, 2004, p. 20).
[7] Fletcher foi ordenado em 13 de fevereiro de 1851 pelo presbitério de Muncie, Indiana, e no mesmo ano foi enviado ao Rio de Janeiro como missionário da American and Foreign Christian Union e capelão da American Seamen's Friend Society.
[8] O professor Davi Gueiros, um dos poucos a dedicar espaço aos feitos de James C. Fletcher declara: “Autor muitas vezes citado, ainda que pouco compreendido, James Cooley Fletcher foi um pioneiro do trabalho protestante missionário no Brasil e um dos que, muito ativamente, contribuíram para o movimento de protestantização do Império e para a luta em favor da completa liberdade de culto” (1980, p. 62)
[9] A imagem do imperador brasileiro é a primeira impressão vista pelo leitor de seu livro “O Brasil e os Brasileiros”, sendo a primeira das gravuras que ilustram o livro um retrato de Dom Pedro II.
[10] A Guerra do Paraguai foi um conflito militar que ocorreu na América do Sul, entre os anos de 1864 e 1870. Nesta guerra o Paraguai lutou conta a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. A causa principal foi as pretensões do ditador paraguaio Francisco Solano Lopes de conquistar terras na região da Bacia do Prata (abrange áreas no Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Argentina), cujo objetivo era obter uma saída para o Oceano Atlântico.
[11] Em 16 de Maio daquele ano a Exposição promovida por Fletcher foi inaugurada no espaço do Museu Nacional com a presença do próprio Imperador D. Pedro II, e uma grande comitiva, que examinaram atentamente todos os artigos trazidos. A exposição industrial ficou aberta para o público por dois dias e foi um grande sucesso.
[12] Em 1862 ele navegou mais de 3.000 quilômetros pelo rio Amazonas ocasião em que colheu amostras e matéria para estudo de ciências naturais que enviou ao Prof. Louis Agassiz, cientista renomado da Universidade de Harvard, e de que este se serviu para seus estudos ictiológicos e posteriores observações na mesma região.
[13] É possível inferir certa influência do missionário norte-americano sobre o jovem entusiasta político alagoano nas páginas das “Cartas do Solitário” e demais literatura por ele produzida em suas discussões sobre a abertura do rio Amazonas. É possível que quando saiu os primeiros artigos de Bastos sob o pseudônimo de o Solitário, em 1861, o político brasileiro já tinha tido a oportunidade de ler a obra de Fletcher “O Brasil e os Brasileiros”, então em sua segunda edição, de 1859.