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terça-feira, 21 de maio de 2019

A Formação e Influência Acadêmica na Vida do Jovem José Borges dos Santos Jr.



            Qual a influência e/ou impacto da formação acadêmica na história de uma criança? Evidentemente que há respostas das mais controvérsias para esta questão indo das mais extravagantes às mais minimizadoras. Mas creio que nenhuma resposta haverá de negar o papel que a formação acadêmica exerce sobre a vida de uma pessoa.
            O Rev. José Borges dos Santos Jr é uma das figuras mais controvérsias na história do protestantismo presbiteriano. Desde os primeiros anos de seu ministério pastoral ele foi intensamente ativo e propositivo e rapidamente ocupa um espaço de liderança dentro da denominação. Toda sua vida foi gasta a serviço denominacional não apenas no pastoreio das igrejas pelas quais passou, mas também no espaço mais amplo da politica eclesiástica regional e nacional. Poucos pastores exerceram com tanta grandeza as funções mais relevantes da denominação presbiteriana e sua atuação extrapolou as fronteiras brasileiras, pois tinha uma visão ampla da relevância e influência que sua denominação poderia exercer na América Latina e até mesmo em Portugal e outros países. Ganhou o respeito dos missionários e suas respectivas Juntas Missionárias tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, onde representou e defendeu com veemência os interesses da Igreja Presbiteriana do Brasil. Mas apesar de uma biografia tão rica e expressiva, lamentavelmente foi lançado no limbo da historiografia presbiteriana brasileira. Ele não foi o primeiro e nem será o último a sofrer uma atitude tão mesquinha por parte dos seus pares politicamente divergentes. A história denominacional é escrita por alguns detentores do poder eclesiástico que se utiliza de critérios políticos para definir que ou quais personagens “merecem” serem preservados em suas páginas.
            O menino, adolescente e jovem José Borges foi um privilegiado no que concerne à sua formação acadêmica e ele soube como poucos aproveitar tudo quanto lhe foi oferecido, como se pode perceber com facilidade em sua biografia. Seus dotes naturais bem como seu espírito de liderança foram enriquecidos no transcorrer de sua carreira acadêmica, sendo influenciado por figuras da maior grandeza acadêmica e denominacional como veremos abaixo[1].
Fez seu curso ginasial no Ateneu Valenciano, cuja propriedade pertencia desde 1908 ao Comendador Antonio Jannuzzi,[2] que mais tarde o doou a Igreja Presbiteriana de Valença, que lá criou o Colégio Atheneu Valenciano[3].
Aqui Borges fará duas amizades que haverão de perdurar por toda sua vida, Antônio Marques da Fonseca Junior e Renato Ribeiro dos Santos. Como Borges ambos vieram a serem pastores presbiterianos; o primeiro ao longo dos anos postulou algumas ideias comuns quanto ao ecumenismo e depois também se opuseram aos rumos políticos da IPB na década de sessenta; o segundo foi pastor auxiliar do Rev. Miguel Rizzo Jr. na Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo no período de 1934-38, pouco antes da chegada de Borges àquela igreja.
Um aspecto importante neste momento inicial da formação do jovem Borges é o fato de que o educador que dirigia o Colégio era o Rev. Constâncio Homero Omega (1877-1927), ex-secretário do frade salesiano Celestino de Pedávoli, excelente educador e exímio musicista e que foi encaminhado ao ministério presbiteriano pelo Rev. Antônio Bandeira Trajano um dos pastores pioneiros; ele vai exercer seu ministério junto ao Rev. Álvaro Reis, que ocupa um lugar proeminente na restrita constelação dos grandes pastores presbiterianos, o primeiro moderador da Assembleia Geral da IPB e cuja visão social e educacional sempre foi muito além dos seus contemporâneos, era autodidata, um grande evangelista e de refinada oratória, polemizava com grandeza e dignidade sem nunca ofender seus ouvintes. (MATOS, 2004, pp. 370-71). Com certeza o garoto Borges respirou a atmosfera intensa dos pioneiros e não somente foi impactado por estas esferas de influencia, como também se sentiu estimulado e desafiado a explorar ao máximo suas capacidades e habilidades acadêmicas e futuramente docentes.
Outro aspecto fundamental desta fase formativa do jovem Borges é que se sentia chamado para o exercício ministerial, entretanto ao se apresentar à Igreja Metodista, da qual era membro, pleiteando sua candidatura, ele foi sistematicamente recusado com a argumentação de que era frágil fisicamente e por isso receava-se por sua saúde. Após insistir diversas vezes junto àquela igreja, o jovem apresenta-se ao Presbitério do Rio de Janeiro [Presbiteriano] que o encaminha ao Ateneu Valenciano de onde sai bacharel em Ciências. Uma pessoa importante neste momento foi D. Ana Januzzi, esposa do Comendador, que fica impressionada com a inteligência do menino e passa a financiar seus estudos ginasiais, possibilitando a continuidade de seus estudos teológicos. (FERREIRA, p. 01).
Concluído seus estudos ginasiais o jovem Borges é encaminhado para seus estudos teológicos no Seminário Presbiteriano de Campinas. Luiz Alberto de Castro, em seu excelente trabalho acadêmico sobre Borges, atesta que as informações sobre este período são escassas, mesmo pesquisando nos registros acadêmicos pouco se apura. Ele infere que durante o curso pré-teológico Borges tenha sido aluno de Erasmo Braga (2011, p.16), o que ocorrido certamente impregnou o jovem seminarista das ideias e conceitos teológicos mais avançados da época.
O Rev. Erasmo de Carvalho Braga foi uma das figuras mais proeminentes, nacional e internacionalmente, do presbiterianismo brasileiro. O historiador Alderi Matos ao escrever sua obra sobre Erasmo Braga preencheu uma lacuna inaceitável na historiografia biográfica do presbiterianismo nacional (2008). Braga foi impactado pelo Congresso do Panamá,[4] que originalmente recebera o nome de ― Congresso da Obra Cristã na América Latina e tornou-se um entusiasta do ecumenismo evangélico, pois entendia que somente unindo forças o Evangelho poderia de fato transformar a sociedade brasileira.
O Rev. Braga ficou encarregado de publicar um resumo do pensamento oficial do Congresso e o fez na sua obra ― Pan-Americanismo, Aspecto Religioso: Una Relacion e Interpretacion del Congreso de Accion Cristiana en la America Latina Celebrado en Panama conjuntamente com Eduardo Monteverde, outro representante do protestantismo latino americano, que foi publicado em Nova York (1916) e traduzido para o português e espanhol. Ele participa de vários organismos que trabalham arduamente para alcançar este propósito, sendo um dos mais importantes o ― Committee of Cooperation for Latin America.
Seus esforços foram tremendos, visto que seus companheiros sempre se mantiveram desconfiados quanto aos resultados desta empreitada, mas ele até seus últimos dias de sua vida jamais desistiu. Liderou a ― Comissão Brasileira de Cooperação, que tinha objetivos ambiciosos entre os quais a criação de uma universidade Protestante e de seu esforço criou-se o Seminário Unido (1918-1933) que fechou um ano após seu falecimento. Mas seu sonho mais acalentado somente foi tornado realidade dois anos após sua morte, a Confederação Evangélica do Brasil em 1934. Mas toda esta sua dedicação e empenho tornaram-se a sementeira do forte movimento ecumênico que eclodiu dentro da IPB nas décadas posteriores de 50 e 60, que haveria de produzir um dos abalos sísmico mais violento já registrado nos arraiais presbiteriano brasileiro em toda sua história.
O jovem seminarista Borges com certeza foi impactado e teve suas fronteiras teológicas alargadas pela efervescência transbordante dos conceitos e ideais ecumênicas [evangélicas] de Erasmo Braga, o que pode ser constatados nos fatos posteriores de sua história eclesiástica. E ainda que [Borges] não tenha convivido pessoalmente com Braga, como infere Castro, conforme acima mencionado, teve como mentor desde seus estudos teológicos e primeiros anos de ministério um dos mais destacados aluno de Braga que foi Miguel Rizzo Jr, que deu continuidade a obra do grande mestre, principalmente neste entusiasmo de cooperação ecumênica evangélica.
Idealizador do Instituto de Cultura Religiosa, o qual serviu para reunir um grupo heterogêneo de pensadores cujo propósito primário era expressar com inteligência o pensamento evangélico brasileiro, tendo como alvo alcançar um público avesso à frequentar igrejas, fosse através de uma literatura de alto nível ou realizando grandes conferências em teatros, cinemas e outros espaços possíveis. Através do Instituto Rizzo Jr produziu uma gama de literatura de boa qualidade onde se destaca entre outras a revista Fé e Vida, posteriormente Unitas que permaneceu em circulação de 1939 a 1962. Rizzo Jr foi também um pioneiro na utilização do rádio para comunicação da mensagem evangélica. Todo o esforço de sua vida produziu uma significativa penetração no circulo intelectual acadêmico brasileiro, mas que não teve o necessário apoio de seus próprios pares eclesiásticos que em muitos casos até mesmo lhe impuseram empecilhos e desabonos.
A influência de Rizzo Jr sobre o jovem estudante em formação foi notório em sua trajetória, visto que em duas ocasiões Borges foi pastor auxiliar e posteriormente assumiu a titularidade no lugar de Rizzo tanto na IPB em Campinas como posteriormente na IPB Unida de São Paulo. A visão ecumênica evangélica que Rizzo herdara de seu mentor Erasmo Braga impregnou toda a filosofia ministerial e eclesiástica de Borges que durante toda sua vida buscou incansavelmente ampliar a cooperação interdenominacional, incentivou, apoiou e participou ativamente de diversas instituições paraeclesiásticas no Brasil e fora do país, sempre no esforço contínuo de introduzir e influenciar o maior número de pessoas e camadas sociais possíveis, mas como seus antecessores e mentores viu seus esforços serem minimizado e até mesmo hostilizado.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Reflexão Bíblica
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Referências Bibliográficas
CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.
GARCEZ, Robson do Boa Morte. Origem da Igreja Cristã de São Paulo e a contribuição de alguns membros para a formação da FFLCH/USP – uma expressão da liberdade religiosa. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2007.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga, o protestantismo e a sociedade brasileira – perspectivas sobre a missão da igreja. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
MENDONÇA, Antonio G. Jesus e os últimos liberais: um estudo sobre John Mackay, Harry E. Fosdick e Miguel Rizzo (Extrema se tangunt). In Numen- Revista de Estudos e Pesquisa de Religião, vol. 4, no. 1. Juiz de Fora, Universidade Federal de Juiz de Fora, Editora UFJF, jan-jun/2001.
PEREIRA- João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005.


[1] O texto abaixo é uma compilação de minha dissertação de Mestrado onde a figura de Borges ocupa um espaço relevante (cf. referência bibliográfica – GUEDES, 2013).
[2] Antônio Jannuzzi (1855-1949) Natural da Itália, grande empresário e construtor no Rio de Janeiro, edificador de templos, benemérito de muitas instituições (Hospital Evangélico, Ateneu Valenciano, Orfanato Presbiteriano). Alderi Souza de Matos (Pioneiros Presbiterianos no Brasil - Galeria de Leigos) http://www.mackenzie.br/7159.98.html. Foi membro da IPB do Rio de Janeiro, pastoreado pelo Rev. Álvaro Reis do qual se tornou amigo.
[3] Em 1924 o coronel Cardoso o adquire da Igreja Presbiteriana e o doa para a mitra diocesana com uma clausula de no prazo de dois anos ali se instalar um estabelecimento de ensino secundário.
[4] É nesta Conferência que o Brasil e a América Latina entram definitivamente no mapa do movimento missionário mundial. Entre os delegados oficiais estavam os Revs. Erasmo Braga, Álvaro Reis e os Missionários Samuel R. Gammon e William A. Waddell (IPB), o Rev. Eduardo Carlos Pereira (IPI) e o Missionário Hugh C. Tucker (Metodista). (MATOS, 2008, p. 217 e Nota n° 88). Braga vai escrever suas observações e opiniões e publica-las ―Pan-Americanismo: Aspecto Religioso‖. Para compreender a importância desta Conferência e suas implicações no Brasil e na AL, é necessário ler o trabalho de Arturo Piedra, onde ele disseca todo este movimento missionário e suas Conferências mundiais, mais particularmente a de 1910 (Edimburgo) ―A Conferência de Edimburgo de 1910 e Sua Conexão com o Protestantismo na América Latina‖, onde se deu a origem do ―Comitê de Cooperação na America Latina‖ (CCLA) e a do Panamá (1916), ―O Congresso do Panamá: Início de um Grande Movimento Protestante‖, onde a AL deixará de ser um ―Continente Abandonado‖ para se tornar um ―Continente das Oportunidades‖ (PIEDRA, 2006). 

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Protestantismo no Brasil: Vital Brazil Mineiro de Campanha e a Influência Presbiteriana



Perceba o leitor a importância estratégica para uma ação evangelizadora dessa cidade sulmineira. Como dá a entender Almir Reis Ferreira Lopes, em sua monografia Os protestantes entre nós, Três Corações, 2004, pág. 6, havia tensão constante, antiga, entre correntes católicas, protestantes, Maçonaria, com assuntos tais como progresso, liberalismo e modernidade. Ademais, o Jesuitismo havia sido afastado e dominava, no catolicismo, o Ultramontanismo centralizador, fechado, monolítico, dominador e perseguidor. Mas havia boa aproximação entre católicos da Maçonaria e protestantes por causa da questão republicana, cujos adeptos, entre outras coisas, postulavam a separação entre Igreja e Estado bem como a instituição do casamento e do registro civil. Ademais, Campanha ia tornando-se Diocese e futura sede do Bispado. Em traços autobiográficos, Vital Brazil revela parentesco com o Mártir da Independência. Diz que sua bisavó era Xavier, prima de Tiradentes “pois sempre que se referia ao mártir dizia ‘o primo Joaquim Xavier’ ”.
Informações importantes ele dá sobre a vida em Caldas, principalmente sobre sua presença em três escolas das primeiras letras, ele com 7 anos. Dá para imaginar, pela riqueza de detalhes, as cenas da primeira escola, a do João Mestre. Diz ter sido na cidade de Caldas que recebeu as primeiras influências formadoras de sua mentalidade e de seu caráter. Uma delas veio em forma de um espírito forte e enérgico, João Mestre, dono de escola em que se ensinava à moda portuguesa, isto é, debaixo de palmatória. “Meu pai recomendou que não me batessem, mas, mesmo assim, não pude escapar a uns ‘bolos’ por causa da tabuada”, diz Vital. Refere-se Vital agora à escola de Miguel Torres e à pessoa do pastor. Sabe-se que ele frequentou outra escola, depois da de João Mestre,
Da escola do Sr. José Eugênio passei para a escola de seu Miguel, que representava a última palavra em matéria de ensino, pois o Rev. Miguel Torres, pastor protestante, trazia os métodos americanos de ensino, pelos quais aprendera. O nosso livro de leitura era a História da Bíblia, de Barth, o qual ele comentava, trazendo belas lições de moral e nos dando sugestões para composições sobre este livro admirável. Senti por este mestre grande afeição, chegando a invejar a sorte de um menino, que morava em sua companhia. A esse menino, encontrei muitos anos depois como açougueiro em Poços de Caldas, e levei-o como meu empregado para o Butantã.
Por meio do depoimento de Vital Brazil percebe-se que tornou a Caldas e lecionou por cerca de um ano na escola de João Mestre, principalmente para preparar o filho do antigo homem da palmatória. Deve ter frequentado a igreja pastoreada por Miguel Torres, nessa segunda vez em que esteve em Caldas com 13 anos, em 1878. Em sua volta a Calcas, conforme seu texto, Vital alega ter voltado por faltarem-lhe recursos para cursar Medicina no Rio de Janeiro. Pelas informações no texto, dá rara concluir que Vital tinha muita afeição por Caldas. Em nenhum trecho ele informa se voltou à sua cidade natal, Campanha. Porém Caldas é muito citada. Num deles, em que descreve vários tipos de pessoa com quem teve relacionamento e amizade em Caldas, a partir da pág. 4, lembra da família Nogueira: “Logo na saída de Caldas, havia uma família humilde onde trabalhava um trançador (aquele que faz tranças de crina), o velho Nogueira, sendo acompanhado por um de seus filhos, o ‘Caetaninho’ Nogueira, que estudou com o Rev. Miguel para ministro, sendo mais tarde ministro do evangelho”. Esse ‘Caetaninho’”, diz Vital, “foi meu professor”. E revela: “a mulher do velho Caetano Nogueira não acompanhou o marido em suas novas crenças religiosas. Pelo contrário, fez-lhe tremenda oposição, sendo nisto acompanhada por outro filho do casal. Aos sábados íamos, frequentemente, com o ‘Caetaninho’ e o Nhô Pinto à caça e pesca”.
Na capital paulista, desde a primeira vez em que esteve por lá com a família, Vital foi sempre ligado aos crentes, e consta sua ficha como membro da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo. Diz Vital, na pág. 5, que foram residir de favor na casa de um amigo do pai dele, de nome Eduardo Pereira, que morava às margens do Rio Tietê. Não se sabe se a referência é ao futuro pastor da Primeira Igreja de São Paulo, Eduardo Carlos Pereira, que nesse tempo descrito por Vital estava com 25 anos, em 1880. Vital estava com 15, e por alguns meses foi condutor de bondes da Companhia de Carris Urbanos da capital. As aventuras do futuro cientista continuaram cheias de peripécias. Fala agora do Colégio Morton, estabelecimento modelo onde estudaram intelectuais como Rangel Pestana, Júlio de Mesquita e tantos outros. George Morton, o companheiro em Campinas do Rev. Edward Lane, era proprietário e dirigia esse colégio, ao lado da Igreja Católica Romana da Avenida Consolação. Conta Vital:
Meu pai, vigilante do Colégio Morton, obteve do gerente que me mandassem um prato da comida que eu devorava, em um beco onde não havia trânsito, paralelo à Rua do Ipiranga. Desse modo, passaram-se os tempos. Até que meu pai arranjou para eu estudar para ministro protestante. ... Como todo estudante fosse obrigado a prestar serviços à missão, eu fui incumbido da limpeza do colégio. Era assim que, vassoura em punho, logo pela manhã, antes de começarem as aulas, tinha de varrer todo o colégio. Mais tarde meu serviço foi o de incumbido de um jornal protestante denominado Imprensa Evangélica. Era eu quem corrigia as provas, quem tomava nota dos assinantes e que, depois, de saco às costas, ia levar os jornais ao Correio. Não sentindo vocação para o exercício de missionário protestante, resolvi fazer os preparatórios. Tendo feito alguns desses preparatórios, e com necessidade de continuar a estudar outros, fui procurar o Sr. Morton, propondo-me a lecionar gratuitamente no curso primário para ter o direito de frequentar as aulas no curso secundário. Nesse colégio foram meus contemporâneos o Dr. Carlos de Campos, futuro Presidente do Estado, e o Dr. Franco da Rocha. Um e outro já nos últimos anos de curso.
Fez de tudo para realizar não apenas um sonho, mas uma vocação irresistível de ser médico e cientista, para mitigar os sofrimentos da gente adoentada do Brasil. Formou-se em Medicina.
Após algum tempo, é encontrado na cidade paulista de Botucatu, onde fica por alguns anos intrigado com ocorrências constantes de pessoas picadas por cobras e outros bichos. Debruça-se em pesquisas. Precisa conseguir algum antídoto para veneno de cobras. Na verdade, foi para Botucatu em 1895, a convite de crentes presbiterianos para prestar serviços médicos a famílias do centro, dos bairros e das fazendas de café. Seu filho, Lael Vital Brazil, escreveu a genealogia da família, dos troncos paterno e materno de seu pai. Trata-se de alentado volume: Vital Brazil Mineiro de Campanha - Uma genealogia brasileira, Rio de Janeiro, 1996, publicado na Internet. Ele é quem comenta, na pág. 251, que Vital Brazil (ele mantém a grafia do nome com z) foi para Botucatu para servir a protestantes. “Cidade dividida entre católicos e protestantes, que chamavam professores e médicos, foi para servir a seus irmãos que Vital Brazil foi para lá.
A certa altura teve de interromper sua clínica em Botucatu, ao chegar-lhe às mãos texto de experiência do cientista Calmette, na Indochina. A leitura desse trabalho acendeu-lhe uma luz intensa e o fez mudar o foco das pesquisas. Concluiu que experiências de imunologia e de soroterapia em Botucatu quase não tinham futuro, e decidiu regressar a São Paulo, onde foi apoiado por amigos e principalmente pelo cientista Adolfo Lutz, no Instituto de Bacteriologia.
Suas descobertas revelaram, primeiramente, não ser aplicável a cobras brasileiras o soro de Calmette. Conseguiu, em laboratório, imunizar animais com os venenos de serpentes brasileiras. Passou então a elaborar dois tipos de soro: um bem específico para o veneno da cascavel e outro contra ofídios de outras espécies. Na pág. 254, Lael Vital Brazil diz que “a especificidade dos soros antipeçonhentos passou a ser realidade científica”. Daí para frente, Vital Brazil foi o consagrado cientista que se ombreou com outros contemporâneos do porte de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Adolfo Lutz, tendo suplantado alguns em certos aspectos. A comunidade científica do mundo inteiro, principalmente da Europa e dos Estados Unidos, em congressos e em livros, rendem as maiores homenagens ao mineiro de Campanha.
Informe interessante é que o ministro presbiteriano Erasmo Braga, que deve tê-lo conhecido em Botucatu, foi um dos maiores incentivadores a que Vital Brazil descobrisse o soro antiofídico. Enfim, a biografia desse moço de Campanha é vastíssima. Aparecem traços na presente obra por suas ligações com o presbiterianismo, embora em certa altura de sua vida tenha deixado a igreja por motivos ainda não muito bem explicados. Por fim, lembra-se que Vital Brazil foi praticamente o criador e fundador do Instituto Butantã, e seu diretor por muitos anos, sempre proclamava as virtudes do evangelho presentes em sua vida. Um dos mais laureados cientistas do mundo. Imaginem! Quem diria? Aquele menino que aos sete anos, em Caldas, vez por outra levava bordoadas de palmatória por se atrapalhar na hora de responder sobre tabuada, correu para a escolinha do Rev. Miguel Torres, de quem recebeu boa dose de benéfica influência para a vida inteira.

Utilização livre desde que citando a fonte
Professor Caleb Soares
Historiador
Mestre em Letras
Mestrando em Teologia
Fundador e Presidente do
Instituto de Pedagogia Cristã (IPC)


Referência Bibliográfica
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

História da Igreja Cristã: A queda do Império Romano Ocidental e Ascensão da Igreja de Roma



Algo até então inimaginável, o grande e milenar Império Romano começa a desmoronar, inicialmente do lado Ocidental e posteriormente do lado Oriental.
Esta queda longe de ser repentina ela vinha se desenhando ao longo do último século e não sem razão começa a se buscar os fundamentos de um Império Romano-Cristão. Após o reinado de Teodósio, com exceção do curto reinado de Majoriano, o Império vai se deteriorando rapidamente em todas as suas instâncias política-social-econômica proporcionando uma crise de autoridade pública generalizada. Em meio ao caos emerge a auctoritas de Roma como elo entre o mundo antigo e a nascente Idade Média. A Igreja soube como nenhum outro segmento social ocupar progressivamente os espaços deixados vazios pelo poder imperial. Creio que as palavras de Peter Brown nos fornecem uma significativa percepção deste momento:
Neste sentido, o cristianismo latino do início da Idade Média tem menos a ver com a conversão de Constantino do que com a geração perturbada, mas imensamente criativa – uma geração de invasões bárbaras, guerras civis e enfraquecimento da autoridade imperial – que coincidiu com os anos de maturidade de S. Agostinho. O próprio Agostinho, baptizado em 387 e eleito bispo de Hipona, na costa do Norte da África (a moderna Anhangá/Boné, Argélia) em 395, veio a falecer em 430 com idade de 76 anos, num mundo já muito diferente daquele em que tinha crescido (1999, p. 55).
Em 337 d.C., caíram as barreiras na fronteira do Império e hordas de bárbaros (o nome que os romanos aplicavam a outros povos, com exceção dos gregos e judeus) Ocidental começaram a entrar em todos os lugares nas províncias inermes. Em menos de cento e quarenta anos, o Império Romano do Ocidente, que existia há mais de mil anos, deixou de existir.
§  Por volta de 450 d.C., os terríveis hunos sob a liderança de Átila invadiu a Itália e ameaçou destruir não apenas Roma, mas todos os demais reinos ao redor. Então os povos bárbaros (não romanos, gregos ou judeus) que tinham invadido a Europa e se estabelecido como “reinos” diferentes, os godos, vândalos e francos,[1] concomitantemente com a liderança de Roma, na figura do Papa Leão Magno (†460), lutaram e venceram o arrogante Átila e seus hunos, na batalha de Chalons (451 d.C.) no norte da França. Assim, a Europa inicia o desenvolvimento de sua própria civilização, sob a liderança de Roma.
§  Os bárbaros liderados por Odoacro invadem e conquistam a cidade de Roma, depõe o último e jovem imperador do Ocidente, Rômulo Augusto (475-476) e fez-se proclamar rei da Itália. Assim, de forma melancólica extingue-se o último vestígio do antes grande Império Romano.
Abaixo temos a descrição por duas perspectivas diferentes destes acontecimentos:
§  Testemunho de Orígenes, líder e escritor cristão:
“Meu coração estremece pensando nos desastres do nosso tempo. Eis mais de vinte anos que entre Constantinopla e os Alpes Julianos o sangue é derramado diariamente… Quantas damas, quantas virgens de Deus, quantos corpos nobres e delicados não foram joguetes dessas feras selvagens? Os Bispos são levados em cativeiro, os sacerdotes assassinados juntamente com clérigos de diversas Ordens; as Igrejas são devastadas, os cavalos amarrados junto aos altares de Cristo como em estrebaria; os despojos dos mártires são extraídos da terra. Em toda parte, há luto, gemidos e a sombra da morte. O mundo romano desmorona, e a nossa cabeça orgulhosa não se dobra… Tivesse eu cem línguas, cem bocas, uma voz de bronze, nunca, nunca eu poderia contar tantas desgraças!” (Epístola IX 16).
“Quem teria acreditado que essa Roma, construída sobre vitórias obtidas em todo o universo, viesse um dia a desmoronar? … Quem teria acreditado que, para os seus povos, Roma viria a ser mãe e sepulcro? … Que todas as regiões do Oriente, do Egito e da África se cobririam de escravos (homens e mulheres) vindos de Roma, outrora senhora do universo? ” (Prefácio ao livro III, XXV).
§  Uma visão diferente narrada por Salviano, sacerdote de Marselha (? 480 d.C.):
“Os invasores iam penetrando cada vez mais, e o mundo não acabava… em vez de deterem sua atenção apenas na barbárie dos novos povos, fizessem os cristãos o seu exame de consciência; não bastava professar a fé católica, para esperar as bênçãos de Deus; era preciso viver de acordo com essa fé;” Ele passa a fazer uma comparação entre as duas civilizações: ... os vícios da civilização romana, dada aos prazeres e espetáculos fúteis; os habitantes do Império são coniventes com graves abusos, como a embriaguez, a luxúria, a mentira, os falsos juramentos, o orgulho… Ao contrário, os invasores têm seus traços de vida positivos: amam uns aos outros, ao passo que os romanos se odeiam mutuamente; são castos, principalmente os godos e os saxões; ignoram as impurezas do circo e do teatro; o deboche, entre eles, é crime, enquanto para os romanos é motivo de vã glória. Há pobres viúvas e órfãos que escolheram viver em meio aos godos e não se dão por frustrados. Os bárbaros são hereges, sim (professavam o arianismo), mas isto é culpa dos romanos, que lhes transmitiram a heresia.
§  A Cristianização dos povos invasores. Um dos casos mais efetivos foram os godos que foram evangelizados pelos arianos e através de Úlfilas (311-383); ordenado Bispo dos godos por Eusébio, Bispo ariano de Nicomédia, e que pregou por mais de quarenta anos a fé cristã ariana entre os seus compatriotas; empreendeu a tradução da Bíblia para o idioma godo e utilizou a língua goda para ministrar a liturgia. Desta forma, enquanto o Império Romano desmoronava, a Igreja Cristã fortalecia sua posição como agente político.
§  Relevância da Igreja Ocidental durante as Invasões Bárbaras
“A Igreja Católica não só eliminou os costumes repugnantes do mundo antigo, como o infanticídio e os combates de gladiadores, mas, depois da queda de Roma, ela restaurou e construiu a civilização” (WOODS, 2005, p. ?).
Tendo na figura “Bispo de Roma”, a Igreja torna-se um ponto estável em um mundo caótico em que tudo estremecia. O poeta Lactâncio, neste tempo, escreveu: “Somente a Igreja conserva e sustenta tudo
Surgem figuras de grande envergadura e piedade na Igreja que souberam dar sentido aos acontecimentos trágicos da queda de Roma: Bento de Núrcia, Agostinho de Hipona, Leão Magno e tantos outros, que do caos da barbárie, começaram a modelar uma nova Civilização, por amor a Deus e pela missão que Cristo lhes deu.
O historiador Daniel Rops conclui sobre esse momento crítico: “O maior serviço que o Cristianismo prestou ao século V, foi o de dar um sentido a seu drama, impedindo-os de permanecer inertes, sós e angustiados, à beira de um abismo para além do qual já não enxergavam”.
Agostinho escreve sua grande obra literária “Cidade de Deus” tendo esse cenário caótico como pano de fundo, ele disse: “Talvez não seja ainda o fim da Cidade, mas em breve a Cidade terá um fim”. “Nas piores circunstâncias é preciso cumprir o nosso dever de homens”. A confiança de que todos os acontecimentos, por mais caóticos que sejam, estão subordinados ao desígnio de Deus, foi a grande força do cristianismo para fortalecer os corações.
De Justiniano até Gregório (527-590) os anseios papais foram amenizados. Mas as nuvens enegrecidas vão se dissipando no horizonte, e uma nova atmosfera vai surgindo, trazendo para a Igreja Romana uma expectativa de grandes oportunidades.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica

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Reforma Religiosa: Por que Ocorreu no Século XVI ?

Referências Bibliográficas
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[1] Godos, ostrogodos, visigodos, suevos, francos, germânicos, eslavos (compreendendo centenas etnias e tribos diferentes), vândalos, saxões, anglos, unos são exemplos de tribos bárbaras que aos poucos foram conquistando a Europa e os maiores deles “tinha em média apenas entre 50.000 e 80.000 pessoas, computados guerreiros, mulheres e crianças” (Franco Júnior, 2001, p.22). Todos os duros e contínuos embates entre romanos e estes grupos levaram à aceleração do que se convencionou chamar desintegração ou declínio do Império Romano.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Protestantismo no Brasil: O Presbiterianismo na Terra de Castro Alves e Maria Quitéria



Quando em 1875 a igreja em Cachoeira (BA) foi organizada pelos missionários Francis Schneider Houston, Cachoeira era um dos cinco ou seis municípios do Estado [da Bahia] mais importante depois da capital. Quando possível, convém situar a das igrejas no contexto em que estão situadas, e assim constatar os vínculos, as atuações das igrejas como sal e luz da terra. Cachoeira possui um currículo que vale a pena conhecer. Situada a cento e vinte quilômetros de Salvador, ostenta o título oficial de “Cidade Monumento Nacional” e o de “Cidade Heroica”, por suas lutas em favor da Independência do Brasil. Tornou-se capital do Estado durante dezesseis meses, na época da Bahia Independente e da Revolta da Sabinada, insurreição encabeçada pelo médico e professor Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, em 1837, contrária ao modelo de independência vigente na menoridade de Dom Pedro II, e visava a separação do Império e a instalação de um governo republicano. Terra de Antônio de Castro Alves, renomado poeta e abolicionista, nascido na fazenda em Curralinho, hoje Castro Alves, comarca de Cachoeira. A fazenda pertencia à localidade de Muritiba, hoje município, onde, na luta pela Independência, o major José Antônio da Silva Castro, avô de Castro Alves, organizou um batalhão de setecentos homens, entre os quais o mais valente era um “disfarçado”; depois descobriram que era uma mulher, Maria Quitéria. Castro Alves pertenceu à terceira geração da poesia romântica ou condoreira. O poeta Manuel Bandeira dizia que Castro Alves tinha a mente borbulhante do gênio, a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira. Cachoeira é ainda terra natal do engenheiro e abolicionista André Rebouças e de Ana Néri, enfermeira que tão relevantes serviços prestou na Guerra do Paraguai.
O evangelho em Cachoeira
Uma das cidades mais desenvolvidas da Bahia, a fama de Cachoeira despertou nos missionários o interesse de levar a mensagem à cidade, ate então dominada totalmente pelo romanismo e fechada para o protestantismo. Não foi possível levantar informes precisos sobre o começo do trabalho em Cachoeira. Fato certo é que já existiam, na cidade, crentes quando os Revs. Francis Schneider e James Houston organizaram a igreja, em setembro de 1875. Não há precisão também quanto ao dia em setembro, nem como foi a organização, primeiros oficiais e outros atos. Uma publicação de aniver­sário da igreja diz: “Infelizmente não temos o livro de atas que registrou a organização da igreja, e isso se dá em razão das constantes cheias do Rio Paraguaçu, que foram responsáveis por perdas irreparáveis de alguns documentos históricos de nossa igreja”. Mediante atas da igreja da Bahia, verificadas pelo presbítero Eudaldo Andrade Costa, sabe-se que, nos pri­meiros anos, eram pastores da igreja de Cachoeira os mesmos da igreja da Bahia. Cachoeira foi, portanto, a segunda igreja fundada na Bahia e também a segunda em toda a extensão do Nordeste e do Norte. Apesar de rejeições e retaliações romanas, várias congregações e igrejas surgiram no Recônca­vo Baiano. Dentre elas as congregações de Engenho Velho da Vitória, São Gonçalo dos Campos, Cruz das Almas, Conceição de Faria, Governador Mangabeira, Santiago do Iguape, Santo Amaro, Morro do Chapéu e Muritiba. Esta última consta existir desde 1934. Informações chegadas da igreja afirmam que ela na verdade tinha começado em São Felix, e que era doze o número de membros que a formaram.
Grande luta inicial para conseguir um local de reuniões. Na época era proibido às igrejas acatólicas em todo o território nacional construir casas de cultos cm forma de templo. Ademais, não havia recursos financeiros e a igreja, por algum tempo, reuniu-se em residências. Depois alugou um imó­vel na Rua das Flores, atualmente Prisco Paraíso. Em 1901, a Intendência Municipal doou um terreno, mas o local, às margens do rio Paraguaçu, era muito difícil para se construir, pois havia necessidade de muito material de aterro. Com muito esforço, a igreja construiu e inaugurou o templo em 1903, onde até hoje a igreja se reúne, na Praça Ubaldino de Assis. O Rev. Chamberlain era o pastor da época e o projeto de construção foi elaborado e executado pelo Rev. William Wadell, engenheiro e pastor da igreja da Bahia. Mestre de obras, José Martins Alves, pertencente a uma das mais antigas famílias da igreja da capital. Quando inaugurado o templo, era de noventa e sete o número de membros arrolados. A igreja prosseguiu na luta pela sal­vação de almas, tinha já Mesa Administrativa, correspondente ao Conselho, desde 1895, dirigida pelo Rev. Chamberlain. Os presbíteros Francisco David de Magno, Hermelino Ferreira Silva e Agripino Costa Timbeiro eram primeiro e segundo secretários e tesoureiro, respectivamente.
A igreja ia muito bem, mas o prédio onde se reunia, não. Diversas vezes causou transtornos. Mesmo as melhores estruturas desmoronam ante a corrosão, solapamento, enchentes e vendavais. No dia 26 de outubro de 1906, o templo desabou por inteiro e seis pessoas ficaram feridas e hospitalizadas. O então pastor, Henry John McCall, estava para viajar aos Estados Unidos e adiou a viagem para ajudar na reconstrução do templo. Num período de meses, a igreja reuniu-se na Escola América, em São Félix. Com as periódicas, mas certas enchentes do rio Paraguaçu, outras ocorrências foram registradas e danificaram o templo. Em 1960, o assoalho não resistiu e completamente, e em 1989, contrariando as mais experientes previsões, águas invadiram totalmente o templo e causaram estragos enormes.
Pastores da igreja
Como já dito, os primeiros pastores eram os mesmos da igreja da Bahia, mas a partir de 1901 outros chegaram. O Rev. Chamberlain, após a amarga experiência em Feira de Santana, passou a residir e fazer de São Félix e Cachoeira a sede de seu campo missionário, de 1889 a 1902. Pastoreou a igreja de Cachoeira, mas em 1902 seguiu para os Estados Unidos em busca de cura para o câncer. Não teve jeito e pediu que o trouxessem de volta Brasil onde desejava ser sepultado. À beira da morte, visitou Cachoeira pela última vez, e faleceu na casa do filho Pierce, em Salvador, no dia 31 de julho de 1902. Segundo Alderi Matos, nesse mesmo dia chegou a Cachoeira, para pastorear a igreja, o Rev. John McCall, que permaneceu na cidade ase 1908; em fevereiro de 1903 a Junta de Nova York designou-o para todo o campo com base em Cachoeira. Alderi Matos conta que, ao chegar de viagem pastoral pelo campo, em 1904, McCall encontrou pregando no púlpito de Cachoeira o Rev. Álvaro Reis. Mesmo com traje de viagens, as botas meladas de barro, correu para abraçar o célebre pastor da igreja do Rio de Janeiro.
Além do ministério de pregação, a igreja sempre acudiu com víveres a comunidade carente da cidade. A Escola Presbiteriana, com o nome de Simonton, foi fundada como educandário modelar para crianças e jovens de Cachoeira, com ensino segundo as necessidades de preparo dos alunos para a vida, mas sob a ética dos ensinos de Cristo, para esta vida e para a eternidade.
Pastorearam a igreja, além dos mencionados, os Revs. José Ozias Gonçalves, Salomão Ferraz, Augusto Dourado, Manoel A. da Silva, Sérgio Maranhão, Jerônimo Rocha, Milton Ribeiro, Sebastião Gomes, Rodger V. Perkins, Richard Wadell, Sebastião Elias da Silva, Lafaiete Pereira Rocha. Adalto Magalhães, Joel R. Cavalcante, Geraldo Nobre, Milton Loula Dourado, João Dias de Araújo, Laudionor Vieira, José Walmir Lafene, Vicente Cardoso Péricles Evangelista, Caetano Athaide, Josadak Bezerra, Everaldo Porto e Leandro Souza Cruz de Andrade.

Utilização livre desde que citando a fonte
Professor Caleb Soares
Historiador
Mestre em Letras
Mestrando em Teologia
Fundador e Presidente do
Instituto de Pedagogia Cristã (IPC)

Referência Bibliográfica
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.

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