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sexta-feira, 11 de maio de 2018

A salvação do Brasil: as missões protestantes e o debate político-religioso do século XIX



Façamos a campanha contra a ignorância, 
não há outro meio de salvar esta América. 
Manoel Bomfim 

RESUMO
O objetivo deste trabalho é, por um lado, discutir as ideias religiosas, em suas relações com a política, no Brasil do século XIX e, por outro lado, analisar o pensamento do protestantismo missionário, que chegou aqui nesse mesmo período e dialogou com a sociedade brasileira. A tese ficou dividida em duas partes. A primeira trata, especificamente: da influência do liberalismo na orientação dos debates sobre a política religiosa do Império; das discussões sobre a liberdade religiosa no Brasil, desde a época da independência até o advento das correntes de ideias que propuseram a secularização total do Estado; do teor do catolicismo popular e da mentalidade religiosa do povo brasileiro sob o ponto de vista de viajantes estrangeiros e na perspectiva dos letrados que compunham a elite política imperial; da formação e das ideias religiosas das classes instruídas que tinham como tarefa gerir a máquina do Estado; das propostas acerca da educação religiosa popular; da existência de uma teologia política que justificasse a união entre o Estado imperial e o catolicismo, fundamentando o poder do Imperador na vontade divina; da imigração protestante ao Brasil e da esperança de suas repercussões no progresso da sociedade brasileira, contra o nacionalismo católico que acusava a diversificação religiosa como ameaça de quebra da unidade nacional. A segunda parte trata, propriamente, das missões protestantes norte-americanas no Brasil do século XIX. Aborda as raízes da expansão missionária protestante na cultura religiosa puritana; examina também: os sucessos dos primeiros missionários evangélicos no Brasil, sua carreira, as igrejas e escolas que fundaram, os resultados de seus trabalhos ao longo de todo o século; o sentido do sistema religioso denominacional, seu casamento com o liberalismo, sua defesa da liberdade religiosa e sua contrariedade em relação ao monopolismo universalista católico; o pensamento missionário protestante, dentro dos quadros gerais da teologia cristã do século XIX; o diálogo dos missionários: com os liberais brasileiros, acerca da conciliação do cristianismo com o liberalismo; com o povo brasileiro, ao qual propuseram o abandono da ritualística imagética católica em favor do aprendizado racional dos ensinamentos morais da Escritura Sagrada; com os padres ultramontanos, com quem disputaram sobre as questões controversas que dividem católicos e protestantes. Verificamos ainda nas fontes: como os pregadores protestantes acreditavam que a reforma religiosa que eles propunham contribuiria para a regeneração nacional brasileira; como entendiam que o protestantismo tinha sido a base fundamental da formação cívica, igualitária e liberal da cultura política norte-americana e como anunciavam a salvação dos indivíduos que se convertessem às exigências morais e espirituais das Escrituras como o meio pelo qual a Providência operaria a salvação do Brasil, colocando-o no caminho do progresso trilhado pelos Estados Unidos.

Palavras-chave: Protestantismo. Brasil do século XIX. Debate político-religioso.

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO (p. 12)
INTRODUÇÃO: Como nossos irmãos do Norte: O fator “religião” no paralelo Brasil – Estados Unidos. (p. 15)
PARTE I – AS DUAS CHAVES DO PODER DIVINO: Religião e liberdade no debate político brasileiro. (p. 45)
1.1 – O (não) lugar das idéias: O liberalismo no Império do Brasil. (p. 52) 1.2 - A primeira das liberdades: O debate sobre a liberdade religiosa no Império. (p. 62)
1.3 - A religião dos nossos pais: Catolicismo popular e ilustração. (p. 90) 1.3.1 - Creio para depois compreender: A fé religiosa dos letrados. (p. 111)
1.3.2 - A verdade vos libertará: A catequização e a civilização do povo brasileiro. (p. 120)
1.4 - O poder divino do rei: A teologia política do Estado Imperial. (p. 129)
1.4.1 – O reinado temporal de Jesus Cristo: O pensamento político ultramontano. (p. 149)
1.4.2 – A Igreja livre no Estado livre: A apologia da separação. (p. 158) 1.5 – Heterodoxos no seio da nação: Diversidade religiosa, identidade nacional e o avanço da civilização brasileira. (p. 172)
PARTE II: FELIZ É A NAÇÃO CUJO DEUS É O SENHOR: A Mensagem do Protestantismo Missionário para o Brasil. (p. 213)
2.1 – O sopro de Deus: O grande avivamento e a era missionária americana. (p. 215)
2.2 – Pescadores de homens: Os pioneiros do evangelismo protestante. (p. 236)
2.3 – A nova torre de Babel: As denominações evangélicas no Brasil. (p. 272) 11
2.4 – A âncora da alma: O espírito do protestantismo missionário. (p. 286)
2.4.1 – O capacete da salvação: A vida eterna começa agora. (p. 296) 2.4.2 – A couraça da justiça: Convite ao ascetismo laico. (p. 311)
2.4.3 – A espada do Espírito: Controvérsias católico-protestantes. (p. 325)
2.4.4 – O escudo da fé: O cristianismo no tempo das luzes. (p. 341)
2.5 – A salvação do Brasil: O modo pelo qual o nosso país pode se tornar como os EUA. (p. 352)
2.5.1 - O caminho para o mundo além: A reforma do espírito brasileiro. (p. 359)
2.5.2 – O Evangelho do progresso: A conversão dos indivíduos e a solução das questões sociais. (p. 375)
2.6 – A libertação das consciências: Os evangélicos e a teologia política republicana. (p. 396)
CONCLUSÃO (p. 418)
FONTES (p. 424)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (p. 427)

Pereira, Rodrigo da Nóbrega Moura. A salvação do Brasil: as missões protestantes e o debate político-religioso do século XIX – 2008. 436 f.
Orientadora: Maria Emília da Costa Prado.
Tese (doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Seminário Presbiteriano do Centenário: um anacronismo histórico



            Um dos eventos marcantes da história do presbiterianismo no Brasil foram as comemorações que ocorreram em seu primeiro centenário. Alavancadas pelo Rev. José Borges dos Santos Junior o que poderia ter sido um grande fiasco veio a se constituir em um evento de grande envergadura até então nunca superada no transcorrer de sua história no país.
            A menina dos olhos das comemorações e particularmente para o Rev. Borges sem dúvida era a criação do Seminário Presbiteriano do Centenário (SPC), que construído a um esforço hercúleo e fecundado das maiores expectativas e sonhos, vai sofrer um infanticídio causado pelos movimentos intestinos que convulsionariam a IPB, logo após este momento apoteótico.
            Os presbiterianos foram os primeiros protestantes a estabelecerem um curso teológico no Brasil, ainda nos dias de seu missionário pioneiro Rev. Ashbel Green Simonton,[1] conhecido na história como “Seminário Primitivo” que apesar de sua brevidade foi responsável pela formação de seus primeiros quatro pastores nacionais. Posteriormente a IPB construiu e manteve initerruptamente dois Seminários Teológicos, um no Sul denominado de Seminário de São Paulo e/ou do Sul, localizado na cidade de Campinas e outro no Norte denominado Seminário do Norte, sediado na cidade pernambucana de Recife. Destas duas instituições teológico-educacionais provinham-se os pastores para os campos ministeriais da IPB em todo o território brasileiro. Mas diante da proximidade das comemorações do seu primeiro centenário surge o projeto de se estabelecer um novo centro acadêmico teológico que receberia o nome de Seminário do Centenário, como um marco permanente da atuação teológica presbiteriana no Brasil.
O Rev. Borges não mediu esforços para que este projeto acadêmico pudesse deixar de ser apenas uma boa ideia e viesse a se concretizar como um fato. Estando à frente da Igreja Presbiteriana Unidade de São Paulo (IPUSP) conseguiu sensibilizar seus membros a contribuírem financeiramente para a construção deste novo Seminário. Nos registros das atas desta igreja somos informados de uma oferta especifica para a construção deste Seminário:
Oferta para o futuro seminário criada no Vale do Rio Doce: o Sr. Paulo Guilherme Ferraz, membro da igreja unida, comunica ao presidente do S.C. da Igreja Presbiteriana do Brasil, Rev. José Borges dos Santos Jr, que tem à disposição do Presidente a quantia de Cr$1.000.000,00 (Hum milhão de cruzeiros) para inicio do novo seminário a ser criado pelo Supremo Concílio. (CASTRO, 2011, p. 71).
No transcorrer da reunião do Supremo Concilio de 1958, onde o Rev. José Borges foi reeleito Presidente, um fato inédito até aquele momento, após a entrada e discussão de um documento oriundo do Sínodo Minas-Espírito Santo (SME) solicitando a criação de um Seminário nos limites do Concílio e depois de tecer diversos considerando e demonstrar o entusiasmo das igrejas bem como as ofertas expressivas já recebidas e a disponibilidade de área própria para sua construção o SC resolve:
a) Criar o 'Seminário do Centenário' nos limites do SME, o que será a grande obra nas comemorações do 1º século [Centenário] de nossa Igreja Presbiteriana. b) Nomear uma comissão responsável pela organização e localização do referido Seminário, dentro da área de ação daquele Sínodo. (DIGESTO, SC-58-019 - edição online - Itálico meu).
E acrescenta as diretrizes básicas que deveriam direcionar os trabalhos do novo seminário: 1) Deve preparar ministros especificamente a servir em regiões rurais e semi-rurais; 2) Deve oferecer cursos que dêem aos ministros educação teológica tão boa como a que os outros dois Seminários da Igreja. (DIGESTO, SC-58-020 – edição online)
Como no Brasil nada é tão simples, que não se possa complicar, após diversas mudanças de local, acabou sendo construído em Vitória (ES), passando a funcionar efetivamente a partir de agosto de 1963.
Mas nesse momento a IPB se convulsiona em uma das suas mais complexas crises denominacional. Um dos epicentros desta crise era a figura do missionário estadunidense Rev. Richard Shaull que tinha desde sua chegada impactou e conquistou a juventude presbiteriana e particularmente os alunos do Seminário de São Paulo, no qual atuou como professor e mentor.
Na medida em que a crise institucional se avolumava e as pressões começaram a serem crescentes, uma saída encontrada foi transferi-lo do Seminário de Campinas, para o recém-formado Seminário do Centenário, o que vinha em harmonia com a proposta do Rev. José Borges em mantê-lo na Igreja Presbiteriana do Brasil, visto que ambos mais a figura do Rev. Joaquim Beato[2] foram os fomentadores da construção do SPC.  
Sem que fosse um objetivo pré-estabelecido e amadurecido o novo Seminário proporciona a oportunidade de se estabelecer uma grade mais flexível teologicamente, ainda que dentro de uma perspectiva ortodoxa, bem como dentro de uma interpretação da própria resolução do SC ― preparar ministros especificamente para servir em regiões rurais e semi-rurais. Além deste trio de peso catedrático o novo Seminário ainda contava com outras figuras igualmente capacitadas como Esdras Borges[3], Celso Loula Dourado[4], Carlos Vagner, Wilson Souza Lopes, Claude Labrunie[5], J. Marhall Guthrie, Alfred Durand Sunderwirth e Eduardo Ramos Coelho, e outros. Infelizmente este foi um empreendimento que começou e terminou na década de 1960.
Mas nuvens escuras já estão em formação sobre os seminários da IPB. Em 1962 uma carta anônima, que deveria ser tratada na esfera das autoridades acadêmica competentes do próprio seminário, criou uma celeuma e quase levou o Supremo Concílio a fazer uma intervenção direta em Campinas. Mas no primeiro semestre de 1966 surgiu a famosa - mão de gato - que desta vez foi um documento elaborado por alguns seminaristas, o que diversas fontes afirmam que foi auxiliado diretamente por um dos eminentes professores do próprio SPS (Campinas), onde faziam diversas denuncias da situação, segundo eles, caótica e decadente da instituição teológica. As acusações podem ser divididas da seguinte forma, conforme Fonseca Júnior: as de ordem piedosa, as de ordem doutrinária, as de ordem ética e as de ordem administrativa. (2003, p. 44). Este documento ficou denominado de - Manifesto dos 15 - pois era o número total dos seminaristas que o subscreveram.
O documento sobe à reunião do Supremo Concílio de 1966 em Fortaleza, para ser tratado. A Constituição da Igreja (CI) permite a criação de Comissões Especiais, mas sempre com delimitações muito especificas de atuação, que neste caso foram totalmente extrapolados e exorbitaram os poderes da própria CI. ―Há três categorias de comissões: temporárias, permanentes e especiais. [...] 3 – Especiais: as que recebem poderes específicos para tratar, em definitivo, de certos assuntos, e cujo mandato se extinguirá ao apresentar relatório final (CI/IPB Artigo 99).
Após acalorados e exaustivos debates o Supremo Concílio resolve:
5) Nomear uma Comissão Especial com plenos poderes para dar execução às providências desta resolução, podendo inclusive: a) Dispensar professores, devolvendo-os aos seus concílios de origem; b) Nomear professores e levantar recursos em entendimento com a Tesouraria do SC; c) Reestruturar ou organizar Diretorias dos Seminários, de modo que as medidas tomadas se tornem efetivas (SC-66-091 - Seminários - Doc. VI).
Cada vez mais parecida com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) do governo militar, em 1970 a CES tem seus poderes ampliados:
Quanto ao Doc. 168 - Relatório da Comissão Especial dos Seminários - O Supremo Concílio resolve: [...] 6) Determinar às Congregações de nossos Seminários que observam de maneira mais constante e completa aos alunos, no tocante à sua vocação, espírito, relacionamento, atitude de vida, caráter, conduta, disciplina, espiritualidade e posição teológica e ideológica, dando imediata ciência aos tutores e a CES de quaisquer fatos, atitudes e ideias que contra - indiquem o encaminhamento para o ministério; 7) Determinar que todo candidato à licenciatura ou ordenação que provenha de Seminário ou Instituição de preparo teológico não filiados à IPB ou por ela mantidos, obtenha por intermédio da CES reconhecimento prévio de sua idoneidade pessoal e daquela do Curso Teológico que tenha feito antes de dar presbitério cumprimento ao que dispõe a CI/IPB nessa matéria; (SC-70-057 - COMISSÃO ESPECIAL DE SEMINÁRIOS - Doc. LXXIII – Itálico meu).[6]
O que deveria ser tratado como um assunto interno da instituição teológica, conforme seu próprio regimento interno e prerrogativas da própria CI tornam-se pública, com amplo apoio de lideranças que estavam distantes da convivência acadêmica, produzindo uma convulsão desproporcional no meio das igrejas e sua membresia. Tudo isto às vésperas da reunião do Supremo Concílio que elegeria o novo Presidente e uma nova Mesa Executiva, tendo dois nomes em proeminência: o Rev. José Borges dos Santos Junior, apoiado pela linha mais progressista e o Rev. Boanerges Ribeiro, apoiado pela linha mais conservadora, que coincidentemente tinha como plataforma a pureza, a justiça e os princípios ortodoxos da Igreja.
Na reunião do Supremo Concílio, em julho de 1966, na cidade de Fortaleza (CE), com a eleição do Rev. Boanerges Ribeiro, os conservadores assumem o comando da IPB e imediatamente coloca em andamento um processo de - limpeza ideológica de tudo e todos que estavam ou pudessem vir a estar em desalinho ao pensamento da nova administração eclesiástica.
Utilizando os mesmos artifícios do então emergente Governo Militar, os mandatários da IPB criam Comissões Especiais para serem instrumentos políticos eclesiásticos para tratarem das questões de interesse da Diretoria Executiva, como afirma Tavares Neto as “comissões especiais caminham na história da IPB como o AI N° 5 foi para a ditadura militar na história recente do Brasil” (1997, p. 105).
O primeiro alvo foram os Seminários, foco de resistência dos progressistas, agora minoritários e reféns de uma estrutura eclesiástica implacável e sem qualquer piedade e para a qual foi criada (SC-1966) uma Comissão Especial dos Seminários com amplos poderes para tomarem as decisões que fossem necessárias, incluindo o fechamento de instituição teológica que não de adequassem à nova postura da IPB.
Na criação da CES foi determinado amplo direito de defesa para os envolvidos, o que na pratica jamais foi respeitado, conforme atestam muitas testemunhas oculares entrevistadas por Paixão Junior (2000). Deste modo, nem mesmo o Dr. Waldyr Luz tão arraigado em seu conservadorismo aceitou esta imposição da Comissão Especial dos Seminários e acabou, juntamente com os demais que expressaram discordância, sofrendo consequências por causa disto (1994, p. 282).
Apesar de todo esforço e articulação política do Rev. José Borges, as evoluções da chamada - Crise dos Seminários - vai ter um desfecho nefasto para as pretensões dos setores mais progressistas, pois ao final dela o Seminário do Centenário, num anacronismo desmedido com seu nome, morre ainda em seu nascedouro (1968), com apenas parcos cinco anos de funcionamento. Foram dispensados alunos e funcionários e expulsos todos os seus professores; nas duas outras instituições teológicas, Campinas e Recife, houve expurgo de professores e alunos, empobrecendo de forma indescritível a capacidade pensante da IPB, e ao Rev. Richard Shaull não restou alternativa senão retornar aos Estados Unidos.
Encerra-se assim de forma melancólica um dos períodos mais tensos e efervescentes do presbiterianismo nacional. A IPB por décadas recolheu-se ao seu lugar de invisibilidade nacional, crescendo vegetativamente.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica


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Mudanças de paradigma teológico no protestantismo no Brasil e a fundação da ASTE.
O Protestantismo na capital de São Paulo: A Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). http://historiologiaprotestante.blogspot.com/2013/10/ficheiro-dissertacao-o-protestantismo.html?spref=tw

Referências Bibliográficas
CAMPOS JÚNIOR, Héber Carlos de. A reação da Igreja Presbiteriana do Brasil ao “Modernismo” dentro de seus seminários nas décadas de 1950 e 1966. Dissertação (Mestrado em Divindade) - Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2003.
CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.
FARIA, Eduardo Galasso. Fé e Compromisso – Richard Shaull e teologia no Brasil. São Paulo: ASTE, 2002.
FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1 e 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1959.
FONSECA JUNIOR, Antônio Marques da. Por que IPU. Campinas (SP): 2003.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na capital de São Paulo – a Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013. Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira.
KIDDER, D. P. e FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros – esboço histórico e descritivo, v. 1. Brasiliana – Biblioteca Pedagógica Brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941 [Tradução da 6ª. edição em inglês - Elias Dolianiti e Revisão e Notas de Edgard Sussekind de Mendonça].
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
LUZ, Waldyr Carvalho. Nem General nem Fazendeiro, Ministro do Evangelho. Campinas: Luz Para o Caminho, 1994.
PAIXÃO JUNIOR, Valdir Gonzales. A Era do Trovão: poder e repressão na Igreja Presbiteriana do Brasil no período da ditadura militar (1966-1978). Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2000.
TAVARES NETO, José Querino. Igreja Presbiteriana do Brasil: poder, manutenção e continuísmo. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, 1997.



[1] O ex padre José Manoel da Conceição foi o primeiro pastor protestante brasileiro a ser ordenado, mas já tinha a formação teológica.
[2] Segundo a opinião de Araujo: ―A figura de maior destaque na formulação dos objetivos de educação teológica nesse seminário foi. sem dúvida. Joaquim Beato, uma das inteligências mais lúcidas do presbiterianismo.‖ (1982, p. 75). Participou da famosa Conferência do Nordeste promovido pela CEB tratando sobre o tema ―Os Profetas numa época de transformações sociais‖. Após ― sair‖ da IPB filiou-se ao movimento de igrejas presbiterianas que deram origem à nova denominação IPU. Veio a ser professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), da Faculdade Unida e Secretário de Estado do Espírito Santo. Foi suplente de Senador pelo Estado ES na legislatura 1991-1994.
[3] Foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), do qual faz parte do Conselho e que foi fundado em 1969 por um grupo de professores entre eles Cândido Procópio Ferreira de Camargo, Celso Lafer, Fernando Henrique Cardoso, Ruth Corrêa Leite Cardoso e Paul Israel Singer. Alguns dos quais afastados das universidades pela ditadura militar. Ao longo de seus 40 anos, o Centro albergou alguns dos maiores intelectuais do País, serviu como fórum de debate sobre os grandes problemas nacionais e suas soluções, bem como se tornou referência da produção de conhecimento de ponta nas diferentes ciências sociais, na filosofia e na crítica literária e artística. Durante a ditadura militar (1964-85), seus trabalhos estiveram marcados pela produção de conhecimento crítico independente e pela resistência ao regime. Durante o período de transição e consolidação democrática, consolidou o perfil de um centro de pesquisa de alto padrão. Atualmente, o Centro se encaminha de modo progressivo para um processo de internacionalização, mediante a articulação de parcerias internacionais duradouras e da realização de projetos de pesquisa comparativos entre países. O foco principal do Cebrap tem sido a análise da realidade brasileira sob um estilo de trabalho distintivo: especialização e interdisciplinaridade a ser viço de uma análise centrada em questões relevantes para o País. Isso tem permitido o diálogo constante entre diferentes perspectivas teóricas, metodológicas e disciplinares. Sociólogos, cientistas políticos, filósofos, economistas, historiadores, antropólogos, demógrafos e urbanistas compõem as áreas temáticas da instituição e colaboram regularmente nos projetos de pesquisa.
[4] Foi Deputado Federal Constituinte (1987-1991) e ocupou diversas funções nesta legislatura: Subcomissão do Poder Legislativo, da Comissão da Organização dos Poderes e Sistema de Governo: Suplente, 1987; Comissão de Sistematização: Titular, 1987-1988.  
[5] Após sair da IPB fez parte como pastor da Igreja Presbiteriana Unida (IPU), teólogo, foi professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), no Seminário Presbiteriano do Centenário, em Vitória e da Faculdade Unida. Foi um dos membros fundadores da ASTE – Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, onde foi também Secretário Executivo por um período.  
[6] Para relacionar a atuação da CES e o DOPS, lembrar que um candidato a um emprego, por exemplo, neste período do governo militar, precisava apresentar um "Atestado de Antecedentes Políticos e Sociais", conhecido também como "Atestado Ideológico", que era fornecido pelo DOPS a quem não tinha ficha no órgão.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

RESENHA: Léonard, É.-G. O Protestantismo brasileiro



            Tirando as duas tentativas frustradas de se estabelecer alguma forma de protestantismo no Brasil através da invasão e domínio, a primeira de curtíssima duração pelos franceses (1555-1567) e a segundo mais longa dos holandeses (1630-1654), os diversos ramos derivados da Reforma Protestante iniciaram definitivamente sua inserção no país no final dos oitocentos, com a chegada de diversos missionários de origem estadunidenses enviados pelas denominações evangélicas americanas.
            Entretanto, apesar da presença permanente e crescente destes ramos protestantes a mais de cento e cinquenta anos, sua presença e atuação na sociedade brasileira continuam sendo ignorada completamente pelos livros didáticos de História do Brasil. A culpa deste fato facilmente comprovado não é apenas daqueles que produzem o material didático, mas também dos próprios protestantes que optaram desde suas origens tupiniquins a manterem uma equidistância da sociedade em que eles vivem e quando chamados para assumirem um papel de protagonista dos eventos sociais contentaram-se em permanecerem como meros coadjuvantes da história nacional. Esta opção ao longo do tempo tornou a presença protestante invisível aos olhos da sociedade brasileira.
            Os pioneiros do estudo sociológico e antropológico no Brasil não fizeram ou fizeram poucas referências ao protestantismo brasileiro nascente, para citar apenas alguns exemplos temos Oliveira Vianna (1920), Alceu Amoroso Lima (1931) e Gilberto Freyre (1933) que ao fazerem pequenas inserções em seus textos sobre os protestantes nacionais, o fazem de forma folclórica, como simples curiosidade.
A presença e influência dos protestantes em suas respectivas denominações começaram a serem pesquisadas mais precisamente após o grande crescimento das chamadas denominações pentecostais e mais especificamente os chamados neopentecostais (Universal e seus derivados) na sociedade brasileira e sua grande visibilidade na mídia e participação na política regional e nacional,[1] forçando os centros acadêmicos a dar-lhes atenção como campo crescente de pesquisa sociológica, antropológica e religiosa. Mas o protestantismo histórico ainda permaneceu incubado e somente lentamente foi saindo dos casulos acadêmicos.
Um fator que alavancou a pesquisa no campo do protestantismo histórico foi a criação dos cursos de pós-graduação e mais especificamente os da área de Ciências da Religião. Na medida em que estes polos foram se multiplicando no Brasil a produção acadêmica tomou um novo e continuo impulso.
Uma das primeiras e provavelmente pioneira produção acadêmica dentro das normas da pesquisa cientifica sobre o protestantismo no Brasil foi a do professor Leonard “O protestantismo brasileiro, estudo de eclesiologia e historia social”, cujo subtítulo revela o escopo e a orientação do autor, onde ele procura relacionar o crescimento do protestantismo no Brasil com diversos fenômenos sociológicos brasileiros e desta forma caracterizar algumas das funções sociais do protestantismo e de suas variadas modalidades.
O historiador francês Guillaume Jules Émile Léonard,[2] nome completo, mas conhecido amplamente na historiografia protestante brasileira como Émile Léonard, chega ao Brasil no final da década de 1940 a convite da Universidade de São Paulo (USP), recomendado por Lucien Febvre e Fernand Braudel para lecionar História da Civilização Moderna e Contemporânea, ocupando a cadeira de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e letras de 1948 a 1950, cadeira ocupada anteriormente por Fernand Braudel, que aqui estivera em seu segundo período de maio a dezembro de 1947. Tinha ele uma motivação pessoal para atravessar o grande Atlântico em direção ao sul, pois desejava conhecer o protestantismo brasileiro para aprofundar suas pesquisas sobre a expansão da Reforma nas diferentes partes do mundo.
E o protestantismo brasileiro não lhe oferecia apenas um tema de investigação, um campo relativamente virgem de pesquisa. Oferecia-lhe algo mais: oferecia-lhe uma espécie de viveiro de experimentação, um flagrante, por assim dizer, do processo histórico. Desde 1921 — como se deduz da lista de publicações suas — vinha êle reunindo elementos para realizar uma grande interpretação da Reforma na França. O panorama atual do protestantismo francês, distante quatro séculos do ambiente da Reforma, oferecer-lhe-ia problemas constantes de interpretação dos fatos. A introdução do protestantismo no Brasil é de ontem: a obra congregacionalista data de 1855, a presbiteriana, de 1859. O catolicismo brasileiro do fim do século passado assemelhava-se ao europeu do século XVI. Ainda hoje, em muitos pontos do Brasil, se vivem e se reproduzem os choques, as polémicas, as reações, as perseguições religiosas, da segunda metade do século passado. Êsse ambiente seria muito parecido com aquêle em que se operou a Reforma do século XVI (Prefâcio da primeira edição de 1965-ASTE).
Apesar do exímio tempo que permaneceu no país o eminente professor empreende uma ampla pesquisa de campo e em arquivos nas denominações protestantes, bem como a leitura bibliográfica da história do Brasil e do protestantismo aqui estabelecido, de modo a estabelecer os subsídios necessários para elaborar sua obra acima referida. Inicialmente sua pesquisa foi editada e publicada em oito números da Revista de História da USP (nºs 5 a 12),[3] de janeiro de 1951 a dezembro de 1952 e somente reunido em livro no ano de 1963 (dois anos após a morte dele).[4]
Ele inicia seu trabalho delimitando suas fontes, discorrendo pelo estabelecimento das primeiras missões estrangeiras, passando pelas reações dentro do catolicismo hegemônico até então vigente no Brasil, sem deixar de expor os problemas eclesiásticos ocorridos no interior do próprio protestantismo estabelecido aqui em forma das múltiplas denominações exportadas de suas matrizes americanas.
Como mencionado o pioneirismo de seu trabalho esta no fato de que ele evita as narrativas hagiográficas até então vigentes na historiografia protestante brasileira e municia-se de uma rigorosa pesquisa documental e da aplicação de um método de investigação histórico próprio a um trabalho científico.
Como estrangeiro, francês, e ligado a uma instituição acadêmica não confessional (USP), portanto sem vínculo denominacional, Leonard estava completamente livre para empreender não apenas uma mera reconstituição da implantação e expansão do protestantismo no Brasil, mas também para fazer uma análise de seus aspectos positivos e negativos.
A multiplicidade de denominações evangélicas, com suas estratégias e atividades distintas, antes de ser um aspecto positivo, acabam por se torna um problema a ser administrado permanentemente, pois os atritos tornam-se inevitáveis na prática missionária. Um exemplo é o fato de que os presbiterianos possuem duas agências missionárias atuando simultaneamente no país, uma de origem sulista e outra de origem nortista e que em diversas ocasiões expõem as diferenças de suas missões pátrias advindas da chamada Guerra de Secessão.
A formação da membresia dessas comunidades protestantes iniciais é formada não apenas pelas camadas sociais menos favorecidas, mas também atraem intelectuais e aristocratas. Ele percebeu também dado as dimensões continentais e desproporcionais do país, somados ao numero defasado de missionários e pastores, que foram surgindo ao longo dos anos diversas comunidades evangélicas autônomas sem qualquer influência das lideranças das igrejas estabelecidas.
Especifica algumas das crises internas e cisões das jovens denominações protestantes (como a divisão da igreja presbiteriana em virtude do debate a respeito da questão da maçonaria); visitou e observou com muita atenção a Igreja Evangélica Brasileira (IEB), decorrente da ruptura de uma liderança presbiteriana, Miguel Vieira Ferreira, então presbítero dessa igreja, mas que acabou fundando uma nova tradição religiosa, que naquele momento de sua pesquisa estava em processo de reinterpretação de suas origens; expõe a contínua reação católica, sobretudo na República, tendo como propósito salvaguardar seu espaço de atuação e sua posição de religião hegemônica; por fim tece algumas considerações sobre o pentecostalismo que ainda estava iniciando sua expansão nos grandes centros urbanos brasileiro.
A obra de Léonard, portanto, permanece um referencial a pesquisadores do tema, tanto pelas preciosas informações que contém como também, conforme ressaltado, pelo seu pioneirismo enquanto projeto historiográfico sobre o protestantismo.


LÉONARD, Émile-Guillaume. O protestantismo brasileiro:
estudo de eclesiologia e de história social .
Tradução de Camargo Schützer,
2ª edição. Rio de Janeiro e São Paulo, JUERP/ASTE, 1981. 354 p.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
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[1] Desde os anos 50, o Pentecostalismo cresce muito no Brasil. Mas sua expansão acelera-se acentuadamente a partir da década de 1980, momento em que esse movimento religioso passa a conquistar igualmente crescente visibilidade pública, espaço na tevê e poder político partidário. Segundo os Censos Demográficos do IBGE, havia 3,9 milhões de pentecostais no Brasil em 1980, 8,8 milhões em 1991 e 17,7 milhões em 2000.
[2] A família de Léonard vem da forte tradição huguenote e seus antepassados constam nos arquivos de Genebra – que, no século 18, recebeu muitos refugiados franceses.
[3] O Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula abriu-lhe as páginas da Revista; o Prof. Lineu de Camargo Schiitzer deu-se ao trabalho de traduzir as 315 páginas em que se converteu o seu original, distribuídos ao longo das oito edições consecutivas.
[4] Sua monumental obra histórica do protestantismo - Histoire Générale du Protestantisme (Paris, 1961-1964; reeditada em 1988), perfazem quatro volumes que totalizam 1937 páginas. Torna-se imprescindível ao estudo do protestantismo, uma obra amadurecida ao longo de mais de vinte anos de uma carreira dedicada à pesquisa e ao recolhimento de material sobre o protestantismo em diferentes partes do mundo. Suas fontes pesquisadas incluem textos em inglês, espanhol, português, italiano, holandês, alemão e latim, tendo sido traduzida para o inglês, espanhol e italiano, lamentavelmente nunca para o português.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

As Mulheres no Presbiterianismo Brasileiro: Elizabeth Wiggins Simonton



            Um fato facilmente comprovado em qualquer levantamento feito nos grandes centros acadêmicos brasileiro é de que até o presente momento não temos uma historiografia de mulheres no protestantismo brasileiro, em geral, nem do presbiterianismo em particular. Temos uma pequena produção de pesquisa voltada para a educação onde as mulheres atuaram com intensidade na esfera protestante nacional e mundial, mas mesmo aqui acabam afunilando nas figuras ícones da historiografia denominacional, de maneira que as mulheres no sentindo mais geral e no que tange ao gênero pouco tem sido pesquisado no campo religioso do protestantismo nacional.
            Evidentemente que obras como a do Dr. Alderi S. Matos “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil” ampliam o universo de mulheres que estiveram desde os primórdios da implantação do presbiterianismo atuando intensamente na propagação evangélica e no estabelecimento desta denominação em todo o vasto território nacional. Ele inclusive dá nome e rosto às mulheres “sem nome”, ou seja, às “mulheres dos pastores e missionários” que igualmente foram fundamentais na semeadura evangélica protestante. Um exemplo típico disso é a jovem Helen M. Simonton que morre prematuramente aos trinta anos, após o parto de sua primeira e única filha, com menos de um ano de sua chegada ao Brasil. Além delas um número significativo de mulheres caminhou lado a lado com os demais missionários, enfrentando todas as dificuldades além das que lhes são peculiares, sofrendo reveses e perdas no transcorrer de sua missão.
            As dificuldades para se resgatar o trabalho desenvolvido por essas mulheres estão no fato de que as informações mormente estão alocadas em arquivos das respectivas Juntas Missionárias americanas e denominacionais nos Estados Unidos, de maneira que dificulta muito a pesquisa e força o estudioso a ocupar-se das fontes secundarias, como tão bem exclarece o Dr. Alderi:
“Todavia, no que se refere às pioneiras norte- americanas, esses documentos geralmente só estão disponíveis em arquivos históricos localizados nos Estados Unidos. Assim sendo, este trabalho baseia-se acima de tudo em fontes secundárias. Por outro lado, a preocupação maior não é a de fazer uma análise psicológica, sociológica ou mesmo missiológica das pessoas contempladas. O objetivo do autor é simplesmente contar a história das pioneiras presbiterianas, na esperança de que futuros estudos possam fazer análises mais aprofundadas desse aspecto tão interessante quanto negligenciado da historiografia protestante no Brasil”.

            A partir da obra do Dr. Alderi vamos conhecer um pouco sobre essas mulheres que com suas vidas cooperaram de forma singular na implantação e desenvolvimento do protestantismo no Brasil, através de sua denominação presbiteriana, no final dos oitocentos e inicio dos novecentos.

Elizabeth Wiggins Simonton
Primeira missionária presbiteriana no Brasil Elizabeth W. Simonton pertenceu à terceira geração de uma família de escoceses-irlandeses emigrados para os Estados Unidos. Seu avô, William Simonton, nascera por volta de 1755 12 em County Antrim, na Irlanda do Norte. Ficando órfão, foi para os Estados Unidos com cerca de dez anos, mediante o auxílio de um tio, o Rev. John Simonton, pastor da Igreja Presbiteriana de Great Valley, no Condado de Chester, na Pensilvânia. William tornou-se médico e casou-se com Jane Wiggins em 17 de novembro de 1777, sendo a cerimônia oficiada pelo seu tio. Em 1784, adquiriu a propriedade denominada ― “Antigua”, em West Hanover. Teve oito filhos, cinco homens e três mulheres, e faleceu em 24 de abril de 1800. Sua esposa faleceu em 1824.
Seu terceiro filho, também chamado William Simonton (1788-1846), foi o pai de Elizabeth e do Rev. Ashbel Green Simonton. Ele cursou a Universidade da Pensilvânia, formando-se em medicina em 1809. Em 1815, casou-se com Martha Snodgrass (1791-1862), filha do Rev. James Snodgrass, pastor da Igreja de Hanover, e professou a fé na Igreja Presbiteriana de Derry no dia 8 de junho de 1817. A fazenda Antigua foi dividida igualmente entre ele e o irmão John, que faleceu em 1824. O casal Simonton teve onze filhos, nove dos quais chegaram à idade adulta: Martha Jamison (1816), Jane (1818), William (1820), Elizabeth Wiggins (1822), Anna Mary (1824), John Wiggins (1826), James Snodgrass (1829), Thomas Davis (1831) e Ashbel Green (1833).
Elizabeth nasceu no dia 4 de setembro de 1822 em West Hanover, Condado de Dauphin, na Pensilvânia. Era, portanto, uma irmã mais velha do futuro Rev. Ashbel Green Simonton, o missionário fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, e a quarta filha de William Simonton e Martha Snodgrass Simonton. Elizabeth estudou no Seminário Feminino de Newark, em Delaware, onde teve marcante experiência de conversão durante um avivamento. Filiou-se à Igreja Presbiteriana de Derry, na Pensilvânia, no dia 15 de maio de 1842. Tinha o apelido familiar de Lille.
Pouco antes de vir para o Brasil, o Rev. Simonton visitou o Western Theological Seminary, em Allegheny, oeste da Pensilvânia, para conhecer o Rev. Alexander Latimer Blackford, que acabara de ser ordenado e também fora aceito como missionário para o Brasil. Nessa ocasião, provavelmente surgiu um convite para que Blackford visitasse a família Simonton em Harrisburg, no mesmo estado, onde a mesma agora residia, e foi assim que ele conheceu Elizabeth. Casaram-se no dia 8 de março de 1860. Depois de uma tumultuada e perigosa viagem marítima de três meses, o casal chegou ao Rio de Janeiro em 25 de julho de 1860.
Após um período inicial no Rio de Janeiro, o casal Blackford mudou-se para São Paulo em outubro de 1863, dando início à obra presbiteriana na capital paulista. Em maio do ano seguinte, receberam a visita do sacerdote José Manoel da Conceição, que retribuía uma visita que Blackford lhe havia feito. Conceição deixou um belo testemunho acerca de Elizabeth:
Sua muito nobre senhora, Mme. Blackford, cuja alma é o santuário do Espírito de Deus, a primeira palavra que me dirigiu foi um convite para comungar na sua igreja. A surpresa embaraçou-me por um momento... Três grandes nomes, que farão eternamente o objeto de minha gratidão, são inseparáveis da minha conversão e entrada na família cristã. Estes nomes são A. L. Blackford, sua muito nobre senhora e A. G. Simonton. Eis os dignos instrumentos de que quis Deus servir-se para me fazer cristão”.
A residência do casal Blackford na Rua Nova de São José, nº 1 (atual Rua Líbero Badaró), próximo ao Largo de São Bento, foi o berço do presbiterianismo paulista. Ali se reuniu a igreja por muitos anos; ali Elizabeth criou a pequenina Helen Simonton, após o falecimento da sua cunhada; ali faleceu o seu irmão, o pioneiro Ashbel G. Simonton, em 9 de dezembro de 1867. Pouco antes do desenlace, Elizabeth aproveitou um dos últimos momentos de lucidez de Ashbel e perguntou-lhe se tinha recados para os amigos do Estados Unidos, para a Junta de Missões e para a Igreja do Rio. Ao ver a sua irmã tomada de emoção, Simonton afirmou: “Devemos apenas nos recostar nos Braços Eternos e estar sossegados”.[1]
Com a morte de Simonton, o casal Blackford voltou para o Rio de Janeiro e esteve por vários anos à frente da igreja local. Em fevereiro de 1870, a revista The Foreign Missionary publicou um interessante relato de Elizabeth acerca da escola dominical da Igreja do Rio. Ela foi uma grande entusiasta da obra missionária no Brasil. Possuía uma mente ágil e observadora e tinha facilidade de relacionar-se com todos os tipos de pessoas, usando essa habilidade com fins evangelísticos. Acometida por uma enfermidade nervosa nos últimos anos de sua vida, sofreu com o clima do Brasil. Foi algumas vezes aos Estados Unidos em busca de tratamento, uma vez sem o marido, mas logo que sentia algum alívio regressava ao campo missionário, por causa do desejo que tinha de viver e trabalhar no Brasil com o seu esposo e do seu grande amor por este país. Viajou pela última vez à pátria no dia 25 de abril de 1878, a bordo do navio Mississippi, levando consigo a pequena Helen Simonton.
Elizabeth Simonton Blackford faleceu no dia 23 de março de 1879, após quase vinte anos dedicados à obra missionária no Brasil. O casal achava-se de passagem por São Paulo quando Elizabeth foi acometida de uma febre tifóide. Para ter os melhores cuidados disponíveis, foi levada para a residência de um médico americano em Campinas (Dr. James M. Gaston?). Apesar da assistência recebida e do carinho do esposo, ela veio a falecer. Seu corpo foi levado para São Paulo e sepultado ao lado do de seu irmão no Cemitério dos Protestantes, conforme o desejo que manifestara muitas vezes. O Rev. John B. Kolb deu um dos mais significativos testemunhos sobre Elizabeth ao afirmar que ela “amava com toda a ternura do seu coração o povo brasileiro, chamando-o ‘o meu povo’”. No túmulo da dedicada missionária estão as palavras de 2 Timóteo 1.12: ―I know whom I have believed‖ (Eu sei em quem tenho crido).

Bibliografia (encontrada no livro referido):
· Lessa, Annaes, 175.
· Ferreira, História da IPB, I:84.
· O Diário de Simonton, 142s.
·         William Simonton. Family History, Genealogical, Historical and Biographical of the Simonton and Related Families. Saint Paul: Webb Publishing Company, 1900.
·         Modesto Carvalhosa, ―Exmª Srª Elisabeth Blackford‖, Imprensa Evangélica (17-04- 1879), 124.
·         George Norcross, The Centennial Memorial of the Presbytery of Carlisle (Harrisburg: Meyers, 1889), Vol. II, 453-54.
·         Álvaro Reis, Almanack Histórico do O Puritano, 40s.
·         Vicente T. Lessa, Padre José Manoel da Conceição, 2ª ed. (São Paulo: Estabelecimento Gráfico Cruzeiro do Sul, 1935), 21.
·         Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 270s.


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Referências Bibliográficas
MATOS, Alderi Souza de. Os pioneiros presbiterianos do Brasil (1859-1900). São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 



[1] O dialogo final de Elizabeth e seu amado irmão: “Elizabeth – Tem algum recado para os amigos dos Estados Unidos? Ashbel – Nada de especial. Diga-lhes que os amei até o fim. Elizabeth – Alguma mensagem para o board de Missões? Ashbel – Diga-lhes que toquem para frente o trabalho. Elizabeth – E a igreja do Rio? Que falta vai fazer! Ashbel – Deus levantará outro para pôr em meu lugar. Ele fará sua própria obra com seus próprios instrumentos. E, ao perceber que fiquei tomada de grande emoção, disse-me: Ashbel – Devemos, apenas, nos recostar nos Braços Eternos e estar sossegados”.