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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Questões da Reforma Protestante



Que mudança geográfica mundial contribuiu para alavancar o movimento da Reforma Protestante no século XVI?
(   ) O grande cisma da Igreja Cristão do Ocidente e Oriente
( x ) As descobertas da novas rotas comerciais
(   ) As invasões do povos bárbaros na Europa

O conhecimento medieval sofre mudanças a partir de 1492, com a descoberta do Novo Mundo [“Descoberta da América e depois do Brasil e até 1600 com o expansionismo europeu.”]. As rotas abertas até a Índia vai impulsionar o comércio estagnado europeu de forma exponencial, acelerando o processo de desenvolvimento da sua incipiente industrialização.
https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2013/10/reforma-religiosa-por-que-ocorreu-no.html

Que mudança política contribuiu para o rápido desenvolvimento do movimento reformador religioso na Europa do século XVI?
(   ) O poder crescente do Papa
( X ) O novo conceito de Nação-Estado
(   ) O conceito medieval de Estado Universal

O conceito medieval de estado universal deu lugar ao novo conceito de nação-estado; com o declínio da Idade Média, os Estados passaram a se organizar em bases nacionais; eram nações-estados fortes, com poder central, servida por uma força militar e civil; este crescente e irreversível espírito nacionalista vai se opondo e resistindo ao domínio de um governo religioso universal; as nações estão completamente empenhadas em sua independência e soberania. Este novo peso na balança do poder, orientadora das relações internacionais, teve papel importante nas questões religiosas do século XVI e de princípios do XVII.

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terça-feira, 3 de setembro de 2019

VERBETE - Amilenismo


A questão escatológica tem sido abordada de forma multifocal desde os primórdios do cristianismo. O próprio apóstolo Paulo precisou corrigir uma interpretação equivocada quanto à questão da Parousia (segunda vinda de Cristo) e com esse objetivo escreve uma segunda epístola aos crentes em Tessalônica. Com o passar dos séculos algumas escolas teológicas foram definindo suas concepções escatológicas sendo atualmente aceitas pela maioria das igrejas cristãs ao menos quatro principais: amilenismo, pré milenismo, pós milenismo e dispensacionalismo (uma variação do pré milenismo).
Desde o início Reforma, uma grande parcela das igrejas protestantes adotaram e ensinaram alguma versão do amilenismo, uma visão espiritualizada das promessas relacionadas ao Reino de Deus.
O amilenismo foi inicialmente articulado por Agostinho (354-430) no século V. Sua abordagem quanto às promessas relativas ao Reino de Deus foi espiritualizada. Para ele o Reino foi inaugurado pelo ministério terreno de Cristo, sua morte e ressurreição é o marco zero da contagem regressiva do estabelecimento pleno do Reino de Deus. Assim, o Reino esta continuamente sendo estabelecido sobre a terra na medida em que o Evangelho vai sendo pregado e crido, e simultaneamente vai enfrentando a oposição do reino mundano representado pela Babilônia que personifica o mal e a depravação do ser humano decaído.
Está situação permanecera até o retorno de Cristo em poder e glória, quando todo o mal será extirpado da terra e a Igreja começará a desfrutar da plenitude da vida eterna. Dois expoentes da Reforma Protestante (sec. XVI) Martinho Lutero, um ex-frade agostiniano, e João Calvino adotaram essa concepção escatológica e as estabeleceram em suas obras teológicas e comentários bíblicos.
O amilenismo foi aceito nos círculos protestantes até o século XVII quando surge uma interpretação denominada Pós Milenismo, impulsionada pela concepção filosófica do positivismo, de que a História humana caminhava para uma era de paz e fraternidade e que haveria uma cristianização mundial. Ainda no século XIX ressurgem outra interpretação chamada Pré Milenismo que ensina que Deus fará uma intervenção nos eventos humanos e estabelecerá Seu reino sobre a terra.
Todavia, o pensamento amilenista continua sendo aceito por uma grande parcela do protestantismo mundial, quer sejam liberais ou conservadores. Depois das duas grandes Guerras Mundiais o pós milenismo entrou em colapso, pois a visão otimista de uma humanidade fraterna foi substituída por uma visão pessimista e racionalista.
O amilenismo mantém a aceitação do. Por sua vez a demora no cumprimento e as diversas previsões frustradas dos acontecimentos mundiais acabaram por minimizar a força da interpretação pré milenista. Muitos concluíram que o tempo gasto prevendo os acontecimentos futuros, decifrando passagens bíblicas, muitas vezes miniminiza as responsabilidades de se viver o evangelho no mundo real.
A partir do século vinte houve um redescobrimento da interpretação amilenista com ênfase de que a mensagem do Reino de Deus é tanto para o presente quanto para o futuro, distinta de qualquer consideração de um milênio literal, quer antes ou depois da Parousia.
O termo milênio, em relação a expressão reino de Deus, é mencionado apenas uma vez na Bíblia, em Apocalipse 20.1–6. O amilenismo por não incentivar muitas especulações detalhistas leva frequentemente a um desinteresse em profecias e tópicos relacionados, de maneira que, acaba por produzir um numero menor de literatura do que as demais linhas interpretativas.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante

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Referências Bibliográficas
CLOUSE, Robert G. Milênio-significado e interpretações. Trad. Glauber Meyer Pinto Ribeiro. Campinas: Luz Para o Caminho, s/ano.
ERICKSON. Millard J. Opções contemporâneas na escatologia-um estudo do milênio. Trad. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2012.
HENDRIKSEN, William. A Vida Futura segundo a Bíblia. 3ª ed. Tradução Marcus Ferreira. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.
LLOYD-JONES, Martyn. A igreja e as últimas coisas. São Paulo: PES,  [Grandes Doutrinas Bíblicas, v.3]

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Protestantismo: Os Quatro João (John) da Reforma



            Evidentemente que a História é muito mais do que um ou alguns personagens, todavia, alguns personagens históricos se sobressaem e assumem um papel de protagonista nos eventos em que estiveram envolvidos.
            O movimento chamado de Reforma Protestante tem suas origens muito antes do século XVI. Os questionamentos e descontentamentos com a situação caótica da Igreja Cristã Romana, então única e soberana no mundo cristianizado europeu, sempre despertaram pessoas e fomentaram movimentos mais ou as vezes menos intensos e abrangentes. Personagens invisíveis e movimentos geograficamente restritos acabaram por serem completamente alienados dos anais históricos e se perderam no tempo e espaço historiográfico, pois não foram registrados e nem perpetuados na forma oral.
            Por outro lado, como um fio condutor histórico, sobressaem nomes e lugares, que adequadamente registrados oferecem um testemunho dos fatos que ocorreram em tempos passados, mas que ainda se podem ou se fazem sentir suas ondas sísmicas, com maior ou menor intensidade, nos dias atuais.
            Neste sintético artigo quero destacar as figuras de quatros homens que possuem o mesmo nome – João (John) e que perfazem um fio condutor rico do processo histórico que preparou e efetivou o maior movimento de Reforma Religiosa dentro do Cristianismo Ocidental até os dias presente. Em ordem cronológica: João Wycliffe; João Huss; João Calvino e João Knox. Cada um destes “João” deixaram suas marcas indeléveis nas páginas da História da Reforma Protestante. Os dois primeiros atuam no processo antecedente e os dois posteriores exercem seus papeis no processo subsequente, mas certamente não é possível referir-se a Reforma Protestante sem mencionar cada um destes “João”. Cada um deles com suas virtudes e defeitos foram instrumentos adequados para empreenderem as reformas religiosas que se faziam necessárias em seu tempo e lugar próprio.
            Evidentemente que esses quatro personagens não foram os únicos e nem se advoga qualquer grau de proeminência sobre todos os demais que perfazem o extraordinário mosaico da Reforma Protestante, destaque que cada um deles certamente rejeitaria com veemência, visto que tinham plena consciência de suas vulnerabilidades humanas, pois somente tolos aceitam e buscam a proeminência – visto que eles e todos nós somos apenas instrumentos da graça de Deus, o único a alcançar a proeminência em toda a História humana.
            O exercício a que nos propomos aqui é apenas o de apreciarmos de forma singela e sucinta a forma com que cada um destes “João” desempenhou seu papel nesta História extraordinariamente rica da Reforma Protestante que antes, durante e ainda hoje produz seus efeitos na vida de milhões de cristãos em todo o mundo e que aqui no Brasil se fez sentir, mais efetivamente, a pouco mais de cento e sessenta anos, quando as primeiras missões protestantes evangélicas estadunidenses começaram a desembarcarem seus primeiros missionários nos portos brasileiros.
João Wycliffe (c. 1328–1384)
            Os anseios por uma Igreja Cristã que refletisse os ensinos bíblicos e fosse libertada dos grilhões da corrupção teológica e da depravação eclesiástica são percebidos em séculos antecedentes ao nascimento de João Wycliffe. Milhares de cristãos, homens e mulheres, foram mortos por simplesmente desejarem e defenderem uma Igreja coerente com os princípios bíblicos.
            John Wycliffe nasceu em Hipswell, perto de Yorkshire, na Inglaterra, provavelmente no ano de 1328. Em 1346 foi estudar Teologia, Filosofia e Legislação Canônica em Oxford (Balliol College) e aqui nessa cidade ele permaneceu o resto de sua vida. Com 26 anos tornou-se mestre do Colégio em que estudara. Com 1361 foi ordenado pela Igreja católica, passando a exercer a função de vigário em Fillingham. Voltou para Oxford, onde conclui o bacharelado em Teologia, em 1365 e o doutorado em 1372.
            O rei Ricardo II (1377-99) foi quem percebendo suas qualificações acadêmicas e eruditas o nomeou capelão e posteriormente reitor em Lutterworth. Nos anos subsequentes (1360 a 1370) Wycliffe adquiriu uma crescente reputação como pregador popular e com fortes tons de crítica ao sistema papal de governo da Igreja Cristã Romana. A resposta imediata do clero romano vem através do Papa Gregório XI que em 1377 condena o teor de suas pregações antipapas e exige que se apresente ao bispo de Londres. Todavia, contava com apoio tanto da Universidade em Oxford quanto da corte do rei e por esta razão não foi preso.
Mesmo debaixo de fortes pressões eclesiásticas Wycliffe continuou sistematicamente pregando contra os desmandos eclesiásticos e desvios teológicos da Igreja Romana e seu moto era de que somente na Bíblia encontra-se a única fonte de autoridade e verdade e não em quaisquer outros documentos eclesiásticos. Como Martinho Lutero 150 anos depois suas teses concluíam enfaticamente de que nem Papas e nem Concílios eram infalíveis, e que quaisquer decretos papais ou conciliares derivam sua autoridade e poder somente quando estando em perfeita consonância com as Escrituras em sua totalidade. Além da questão papal, que ocupou grande espaço em suas pregações e escrita, Wycliffe também questionou as doutrinas católicas da transubstanciação e do purgatório.
            Outro vespeiro cutucado pelo reformador de Oxford é que os líderes eclesiásticos deveriam ser servos do povo e não se servir deles para seus propósitos pessoais. Dentro dessa perspectiva a partir de 1380 ele organizou grupos de voluntários, pessoas que haviam sido seus alunos e influenciados por seus ensinos e se constituíam em "pregadores leigos" porque  não faziam votos nem recebiam consagração formal e posteriormente ficaram conhecidos como Lolardos, e que despojados de tudo à semelhança dos discípulos enviados por Jesus em duas ocasiões de Seu ministério terreno, a partir de Oxford viajaram por toda a Inglaterra pregando a mensagem evangélica.
            Essa atitude de Wycliffe, literalmente, colocou mais madeira na fogueira e a resposta de Roma veio imediata – o bispo de Londres o proíbe de pregar e em 1382 o arcebispo de Canterbury emite uma bula de sua condenação eclesiástica. Todavia, o professor e clérigo reformador permanece refugiado na Universidade de Oxford. Durante esse período de reclusão ele completou uma de suas maiores obras – uma tradução da Bíblia para a língua vernácula inglesa e também empreendeu um resumo de suas ideias principais em um livro cujo título é “Trialogus” [Triálogo] (1382), onde discute o poder e conhecimento de Deus, criação, virtudes e vícios, a encarnação, a redenção e os sacramentos. Wycliffe escreveu para familiarizar padres e leigos com as complexas questões subjacentes à doutrina cristã, e começa com a teologia filosófica formal, que se move para a teologia moral, concluindo com uma crítica abrasadora do status quo eclesiástico do século XIV. Escreveu também obras de cunho político: Sobre o domínio civil (1376); Sobre o poder do Papa (1379); Sobre a ordem cristã (1379). Sua obra teolóogica "Suma de Teologia" [Summa Theologiae] contém a espinha vertebral do pensamento reformado que será desenvolvido primeiramente pelos boêmios e posteriormente pelos principais expoentes do movimento da Reforma Protestante. Wycliffe trata sobre a predestinação, a justificação pela fé, o estado da graça, a autoridade papal e a igreja como comunidade dos santos. Nega também a doutrina da transubstanciação e que os leigos deveriam participar tanto do pão quanto do cálice na ministração da Ceia.  
            Depois que Wycliffe morreu em 1384 as autoridades da igreja romana suprimiu seus escritos o máximo possível, todavia, uma geração depois, suas ideias ainda continuavam vivas e sendo pregadas pelos Lolardos. Em 1415, quando então outro reformador popular John Huss foi igualmente condenado à morte em fogueira, o Conselho de Constança ordenou que o corpo (ossos) de Wycliffe fosse exumado e queimado junto com seus livros. A ordem foi cumprida somente em 1428.
            Quando no século XVI a Inglaterra experimenta uma Reforma Religiosa, promovida inicialmente pelo rei Henrique VIII, mas efetivamente concluída apenas no governo de sua filha Elizabete I, o grande doutor de Oxford João Wycliffe passou a ser considerado como uma das poderosas vozes que promoveram a Reforma no Velho Continente. Seu Novo Testamento em inglês foi finalmente publicado, em uma edição limitada, no século XVIII, e sua Bíblia em meados do século XIX. João Wycliffe, reformador, filósofo, teólogo, educador e diplomático, não sem razão é chamado de a Estrela Matutina da Reforma Protestante.
 João Huss (1373–1414)
            A Boemia, onde nasceu João Huss [Hus], pode ser chamada de a terra mais fértil da Reforma. Nenhum outro local geográfico específico produziu tantos reformadores quanto na Boemia – que merece ser até mesmo tratada como um personagem e não apenas como um local da Reforma. Desta forma desde seu nascimento João Huss respira a atmosfera reformista o que fará toda a diferença em sua vida e suas ações posteriores. João Huss expressou de forma inigualável os ideais teológicos e eclesiásticos que prefigurou e balizou o que viria a ser a grande Reforma Religiosa do século XVI praticamente cem anos após seu martírio.
            João Huss nasceu em 1373 na pequena cidade de Husinec na Boémia (atualmente República Checa). Seus pais de origem camponesa o encaminham para o sacerdócio, visto ser uma carreira promissora e segura, apoiando-o com grande sacrifício seus estudos clericais. Em 1390 ele entra para a Universidade de Praga e completa de forma extraordinária seus estudos acadêmicos e vindo a ser um dos mais populares professores daquele centro acadêmico universitário.
            Em 1402 Huss foi nomeado reitor e pregador oficial na Capela dos Santos Infantes de Belém na cidade de Praga. Suas críticas dos desvios teológicos e eclesiásticos da igreja de Roma o tornaram líder do partido reformista do catolicismo checo. Nesse mesmo período ele começa absorver as ideias críticas de John Wycliffe, que chegam até ele através de seu amigo Jerome de Praga, um ex-aluno de Wycliffe em Oxford, que trouxe as literaturas do reformador inglês e de outros escritores que aspiravam uma reforma ampla da igreja. Nesse momento dois amigos de Huss foram acusados no Tribunal da Inquisição, Stanslav de Znojmo e Stephen Palec, e condenados por divulgarem as ideias do reformador inglês.
            As pregações críticas iniciais de Huss centrava-se na reforma moral do clero, desde o Papa, perpassando os Concílios e chegando aos padres paroquiais locais. Seus adversários numeraram as principais "heresias" de Huss: suas celebrações são feitas na língua vernácula checa e não em latim, defende a distribuição de ambos os elementos da Ceia (pão e vinho) a todos os leigos, suas críticas à prática da venda de indulgências e ensinar aos leigos como interpretar as Escrituras.
            Sua voz ecoava por toda Boemia conclamando que a Igreja necessitava rejeitar as doutrinas contrárias ao ensino bíblico independentemente de as elaborou. Diferentemente de seu antecessor inglês Huss começa a perder seu apoio na Universidade de Praga. Um documento forjado pelos seus “colegas” acadêmicos nomearam 45 declarações de Huss que o condenavam diante das autoridades eclesiásticas romanas. Foi excomungado pelo arcebispo de Praga e convocado para responder por suas heresias em Roma, mas diante de sua recusa em comparecer na Sé romana, o papa de plantão ratificou sua excomunhão. O Papa baixa um interdito sobre a cidade de Praga, de maneira que nenhum oficio religioso poderia ser realizado na cidade ou se realizado seria considerado invalidado. Para não penalizar ainda mais o povo de Praga o pregador reformista retorna para sua pequena cidade natal no interior. No aconchego de seus familiares, amigos e apoiadores Huss continua pregando e ensinando e também agora escrevendo, mas este período demonstrou ser apenas a calmaria antes da tempestade. Seus trabalhos foram escritos em latim e checo as duas principais são: Exposições sobre a fé, sobre os Dez Mandamentos e sobre o Pai Nosso (1412); Sobre a Igreja (1413), onde é possível encontrar a síntese de sua teologia e visão de que deveria ser uma igreja fiel.
            Em 1414 foi convocado um Concílio da Igreja que deveria se reunir em Constança (Alemanha) para tentar equalizar a questão de quem era o legal Papa da Igreja, visto que naquele momento havia ao menos três pretendentes que se autoproclamaram Papas. Huss também foi convocado para comparecer a fim de explicar suas opiniões e mesmo aconselhado pelos amigos para não comparecer e assegurado por um salvo-conduto emitido pelo próprio imperador do Sacro Império Romano Sigismundo (1411-37), Huss toma a decisão de defender suas teses na esperança de ser ouvido.
            Sua chegada foi tranquila e por um mês aproximadamente pode transitar livremente e pregar, mas uma armação foi elaborada para acusa-lo de tentativa de fugir de Constança e foi preso e torturado continuamente por quase um ano. Seu processo, semelhante ao de Jesus, foi manipulado por seus adversários que controlavam os tribunais eclesiástico e civil; foi-lhe negado em todas as ocasiões que se defendesse; Sigismundo acovardado diante do Concílio eclesiástico e dependente do apoio financeiro da Igreja Romana, não manteve o salvo-conduto. Mas mesmo diante de todas essas atrocidades Huss manteve-se firme e imutável em suas convicções. Na eminência de sua morte na fogueira ele ainda encontra animo para escrever aos amigos fazendo um trocadilho com seu sobrenome “Huss” que significa “ganso”, escreve ele: “o fogo está sendo preparado para assar o ganso”.
            Condenado à morte pela fogueira suas cinzas foram lançadas no rio Reno em um último esforço das autoridades eclesiásticas romanas de calar a voz de Huss. Mas era tarde demais e assim como seu antecessor Wycliffe, as notícias de sua traição e martírio incendiou a cidade de Praga e suas ideias tornaram-se um grito uníssono de todos os Boêmios. Mesmo fazendo uso de exércitos dez vezes maiores a Igreja Romana e o Império não conseguiram silenciar os boêmios que permaneceram firmes em seus posicionamentos. As ideias de Huss permanecem vivas através da Igreja hussita checoslovaca em sua terra natal e também através da Igreja Moraviana. Aproximadamente cem anos depois, Martinho Lutero foi excomungado (1521) justamente por estar ensinando e defendendo as ideias de Huss.
João Calvino (1509-1564)
            Esse francês de nascimento e genebrino de coração e alma foi inserido diretamente no movimento reformado como que contrariando seus projetos e propósitos pessoais. Em fuga da França em decorrência da intensa e violenta perseguição católica sobre aqueles que defendiam os princípios reformadores (huguenotes), João Calvino perpassa o território suíço e enquanto pernoita na cidade de Genebra vem ao seu encontro o reformador local William Farel e depois de uma conversa breve lhe faz uma intimação para que abandone seus planos e se inserisse de corpo e alma no processo da Reforma Protestante. Diante das palavras contundentes de seu amigo o então ainda jovem João Calvino toma a decisão de permanecer na cidade e a partir deste momento assume seu papel no processo da Reforma, que haverá de extrapolar as fronteiras limitadas de Genebra e se fará sentir em todos os demais continentes e ainda que somente trezentos anos depois vai se fazer sentir nas terras brasilienses na segunda metade dos oitocentos.
            João Calvino nasceu na cidade de Noyon (França), na época cidade episcopal, cujo bispo era amigo da família de Calvino. Seu pai o enviou para estudar na França e prepara-lo para a carreira eclesiástica, mas após concluir seu bacharelado o pai mudou de opinião e enviou-o para Orleans e depois para Bourges em preparação para a carreira de Direito, onde completou seus estudos em 1531.
            Nesse ínterim o jovem Calvino torna-se entusiasta do movimento humanista cristão e após a morte de seu pai em 1531 retorna para Paris e estuda com acadêmicos do porte de Jacques LeFevre d’Etaples, humanista e respeitado erudito biblicista e reformador moderado, um dos precursores da Reforma Protestante na França, cujas pregações em 1512 centravam-se na doutrina da “justificação pela fé”. Em 1533 Calvino e seu amigo Nicolas Cop são obrigados a fugirem da França por causa de suas ideias protestantes. Inicialmente permanecem na cidade Suíça de Basiléia, onde Calvino inicia seus primeiros esboços das Institutas da Religião Cristã (1536), que veria a ser a sua monumental obra teológica. Na primeira edição compreendia seis capítulos e um total de 516 páginas. Viaja pela Itália e França e quando se dirige para Estrasburgo, por questões de conflitos bélicos, toma o caminho que passa pela cidade de Genebra. Farel um reformador da cidade vai ao seu encontro e com enfática insistência o faz permanecer em Genebra e estabelecer um programa de Reforma para a cidade.  Mas os embates com o Conselho civil chegam a um impasse e Calvino retira-se para a cidade de Estrasburgo, onde Martin Bucer liderava a Reforma. Aqui conhece e casa-se com Idelette de Bure (1540) que dura apenas nove anos, quando ela falece. Vem a fazer amizade com Melanchthon, sucessor de Lutero, com quem estabelece diversos pontos de concordância teológica. É aqui que o jovem reformador produz seu comentário sobre a epístola aos Romanos, bem como desenvolve seu conceito teológico sobre a predestinação, visando uma segunda edição de sua obra Institutas da Religião Cristã.
            Em setembro de 1541 convidado pelas autoridades de Genebra retorna para a cidade na qual permanecera até o fim de sua vida. Prega dominicalmente duas vezes; seu código moral estrito torna-se popular e seus apoiadores foram eleitos para os cargos municipais; mantem o controle da igreja fora das mãos do Estado e para a qual ele estabelece dois tipos de líderes: presbíteros que são responsáveis pelo ensino e pregação (ministros) e presbíteros regentes responsáveis pela administração eclesiástica (leigos). Os desafios sempre foram grandes e a figura de Miguel Serveto (1511-1553), médico espanhol que negava a doutrina da Trindade e faz ataques pessoais contínuos contra Calvino e que após ser julgado e condenado foi executado, permanece como um aspecto negativo em sua biografia na opinião de seus opositores de ontem e de hoje.
            Sua teologia foi fundamentada em pilares imutáveis da autoridade da Bíblia como única regra de fé e prática cristã; a soberania de Deus; a salvação como dom de Deus; a predestinação e eleição dos salvos. Sua posição teológica em relação a Ceia ficou entre a interpretação luterana de presença real e a interpretação de Zwínglio de um memorial histórico. Para Calvino a Ceia é um meio de graça pela qual o Espírito Santo edifica e fortalece o crente que dela participa dignamente. Sua formação jurídica pode ser vista em sua interpretação tríplice das leis: na esfera do Estado a lei restringe o mal; no contexto da igreja a lei convence o pecador e o conduz ao arrependimento e  na esfera da vida cristã é a baliza para se viver justa e piedosamente.
            A cidade de Genebra tornou-se um lugar de refugio para todos aqueles que eram perseguidos pela Igreja Romana. Sua Academia (Universidade) tornou-se a matriz de onde se disseminou seus conceitos teológicos bem como sua formatação eclesiástica. Muitos líderes cristãos ingleses perseguidos quando do reinado de Maria Tudor (1553-1558) encontraram em Genebra um refugio e ao retornarem após a entronização de Elizabete I (1558-1603) formaram o movimento e partido dos Puritanos que permaneceu debaixo do guarda-chuva do Anglicanismo, mas posteriormente acabaram imigrando para o Continente americano e ali estabelecendo as denominações evangélicas que aportaram no Brasil na metade final dos oitocentos.
            João Calvino faleceu em 27 de maio de 1564 e foi sepultado em local desconhecido, conforme suas próprias instruções. Seus escritos, em grande quantidade, continuam sendo editados, lidos e estudados até os dias atuais em centenas de países diferentes espalhados pelo globo terrestre. Sua obra teológica Institutas contém quatro grandes livros com um total de oitenta capítulos. 
João Knox (c. 1514–1572)
            A Reforma na Inglaterra e, por conseguinte no Reino da Grã Bretanha (Escócia, Irlanda e País de Gales) iniciada pelo então rei Henrique VIII, mas efetivamente consolidada apenas posteriormente no reinado de sua filha Elizabete I é classificada pelos estudiosos como uma meia Reforma. Tanto Henrique quanto Elizabete nunca endossou todo o manual reformador. A chamada Igreja Anglicana manteve e mantém características teológicas e eclesiásticas ambíguas entre as concepções católica e reformada. É neste contexto complicado e extremamente mortífero que nasce o escocês João Knox que faz da implantação de uma real Reforma na Escócia o cerne de sua vida e de suas ações.
            John Knox nasceu em Haddington, na Escócia, antes de 1515. Há registro de que frequentou a escola em Haddington, mas não há registro de ter frequentado a universidade. Todavia, ele adquiriu uma ampla educação em línguas, direito e teologia sendo ordenado sacerdote na Igreja Católica Romana por volta de 1536. Ele trabalhou como professor particular na década de 1540.
            Um dos primeiros expoentes da Reforma na Escócia foi George Wishart, foi preso e queimado na estaca em St. Andrews (1546) e provavelmente Knox estivesse presente. Já nessa época ele era um simpatizante da agenda reformada e por esta razão não questionou quando o cardeal Beaton foi assassinado em decorrência da morte de Wishart. Posteriormente se encontrava entre aqueles que tomaram o castelo de St. Andrew e ali permaneceram por três meses ate serem capturados pelos franceses (1547) e em decorrência disso Knox ficou preso por 19 meses trabalhando nos porões fedorentos e insalubres dos navios e constantemente era hostilizado para que rezasse à virgem Maria.
            Novamente em liberdade (1549), Knox vai para a Inglaterra (cinco anos), no pequeno período do reinado do infante Edward VI (filho de Henrique VIII), que fez prosperar a causa protestante. Cooperar com o arcebispo Cranmer na formulação dos quarenta e dois artigos, o credo protestante adotado pela Igreja da Inglaterra. Recebe a licença para pregar e por dois anos permanece em Berwick e por curto período foi um dos capelães reais viajando pelos distritos do reino para doutrinar o clero dentro dos princípios da Reforma. Convidado recusou a oferta para se tornar bispo de Rochester.
            Quando o jovem Edward falece acometido pela enfermidade que o acompanhava desde o nascimento, assume trono inglês sua irmã Maria Stuart profundamente católica e que demora em utilizar todo seu arsenal contra os protestantes. Em 1554 Knox é obrigado a fugir e encontra refugio inicialmente em Frankfurt e exerce a função de capelão dos expatriados britânicos ali residentes. Depois foi para Genebra durante este curto período que permanece ali assimila a teologia e o sistema de governo elaborados pelo reformador genebrino João Calvino, o que vai delinear toda trajetória posterior deste reformador e da própria Escócia. Em 1555 ele retorna para Berwick, na Escócia, onde prega entusiasticamente ao povo. Escreve uma breve carta à rainha Maria de Lorena (Mary Stuart), então regente da Escócia, pedido que ela fosse tolerante com os reformados. A rainha que era católica apaixonada se irritou profundamente com tal pedido e ordena que ele fosse imediatamente preso, mas Knox já havia deixado a Escócia e retornado à Genebra. Ainda mais frustrada a rainha escocesa o sentencia à morte e simbolicamente queima uma efígie (retrato) dele.
            De fato Knox tinha um problema sério com as mulheres da realeza, que naquele momento ocupavam os principais tronos da Europa. Em 1558, ele publicou seu famoso “First Blast of the Trumpet against the Monstrous Regiment of Women”, (o Primeiro Clarim Contra o Monstruoso Governo de Mulheres), dirigido diretamente às rainhas Maria Tudor, da Inglaterra, Catarina Medici da França e Maria Stuart da Escócia.
            O partido reformado avançava lentamente na Escócia. De Genebra, Knox mantém contato com seus companheiros e envia-lhes orientações e conselhos. Em 1557, os líderes do partido Protestante criaram uma aliança (Common Band) que ficou conhecida como a Primeira Aliança [Protestante] Escocesa. A partir deste momento as igrejas reformadas puderam ser estabelecidas normalmente. As lideranças reformadas solicitam que Knox retorne para a Escócia a fim de consolidar os esforços que estão sendo feitos em todo o país, de maneira que, em 2 de maio de 1559, Knox retorna à Escócia, viajando por todas as cidades e vilas da Escócia mobilizando a população à favor do movimento protestante.
Convicto de que a Reforma na Escócia seria consumada, ele não recuou diante dos perigos. Ele sabia quão precioso era aquela hora e que, se essa oportunidade histórica fosse perdida, não haveria outra. Ele apelou ao patriotismo dos nobres e cidadãos, incansavelmente percorria todos os lugares e fala a pequenas e grandes multidões explicando-lhes especialmente a natureza do Evangelho, o perdão, a pureza, a paz que isso traz aos indivíduos, a estabilidade que confere aos países. Para ele era muito claro as duas alternativas que estavam diante dos escoceses: de um lado, a religião reformada, como uma luz, acenando para a Escócia; do outro, a forma sombria do catolicismo romano, puxando o país de volta à escravidão. Sua oração diária era constituída de uma única frase: “Senhor! Dá-me a Escócia ou a morte!”.
            Em 7 de julho de 1559 ele foi eleito ministro dos protestantes de Edimburgo. A reação da rainha Maria Stuart foi imediata e duas semanas depois seus exércitos marcham contra a cidade. Enquanto as lideranças políticas protestantes conseguem ganhar algum tempo, Knox busca apoio da rainha Elizabete I, reinando na Inglaterra depois da morte da irmã. Com o reforço de Elizabete o jogo vira a favor dos protestantes e a rainha regente teve que se refugiar no Castelo de Edimburgo e ali morreu em 1560.
            Passada a grande crise nacional o Parlamento volta a se reunir com ampla vantagem para os protestantes que conseguem aprovar uma Confissão de Fé (First Scots Confession) anteriormente preparada por Knox e outros auxiliares contendo uma enfase teologica calvinista. Sendo lido, artigo por artigo, no Parlamento, foi em 17 de agosto adotado pelos Estados escoceses como expressão da fé nacional - a Escócia da Idade Média é substituída por uma Nova Escócia. Em 24 de agosto, o Parlamento aboliu a jurisdição do Papa; proibiu, com severas sanções, a celebração da missa; e revogou todas as leis em favor da Igreja romana e contra a fé protestante. Ainda, Knox juntamente com outras autoridades eclesiásticas escocesas prepararam o “Primeiro Livro de Disciplina”, que detalhava como a igreja escocesa deveria ser organizada, onde foi adotado o sistema presbiteriano, nos moldes de Genebra, tendo os presbíteros docentes (ensino e pregação) e os presbíteros regentes (administração eclesiástica). Sua obra mais relevante não foi teológica, mas histórica: History of the Reformation in Scotland. Ele se casou aos 48 anos e teve dois filhos e veio a falecer em Edimburgo, Escócia, no dia 24 de dezembro de 1572. 
Conclusão
            Quatro personagens - João Wycliffe; João Huss; João Calvino e João Knox - que compartilham um mesmo nome – João - cujas vidas se entrelaçam na medida em que vão tecendo a História do Protestantismo. Wycliffe e Huss como os profetas do Primeiro Testamento são as vozes que clamam nos desertos e dispostos a pagarem o alto preço do martírio se assim fosse necessário, como o foi no caso de Huss. Os dois posteriores, Calvino e knox, assemelhados aos apóstolos do Segundo Testamento, que se gastaram e deixaram se gastar em prol da restituição da Igreja e sua Mensagem genuinamente harmonizada com as Escrituras bíblicas. Vozes que nunca se calaram diante dos desmandos dos poderosos deste mundo, pois importavam mais obedecerem a Deus do que aos homens. Vidas que jamais colocaram seus interesses pessoais acima dos interesses do Reino de Deus. Homens convictos do que pregavam e ensinavam e que jamais trocaram ou barganharam as insondáveis riquezas de Cristo, por quaisquer outros privilégios deste mundo tenebroso. Utilizando as palavras do escritor da carta aos Hebreus eles foram cristãos “dos quais o mundo não era digno”.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Reflexão Bíblica
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Referências Bibliográficas
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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Verbete – Anabatistas


Anabaptistas ou anabatistas ("re-batizadores", do grego ανα (novamente) + βαπτιζω (baptizar); em alemão: Wiedertäufer) foi um dos grupos dissidentes que surgiram na esteira do movimento da Reforma Protestante que tem sua origem na Alemanha com Martinho Lutero. Eles foram nominados como “ala radical” da Reforma, devido suas ações independentes e combativas. Em decorrência deste espírito independente o movimento experimentou cismas e acabaram tendo menos preponderância do que os luteranos, anglicanos e calvinistas. Heinrich Bullinger (1504-75) reformador suíço calculou que em menos de uma década os anabatistas haviam se dividido em nada menos que treze movimentos diferentes e com lideranças distintas e até mesmo antagônicas.
Os anabatistas defendiam de forma intransigente que a igreja deveria arrolar como membros tão somente aquelas pessoas que tivessem idade suficiente para discernir e comprometer-se conscientemente com os ensinos bíblicos cristãos e desta forma não admitiam o batismo infantil, conforme praticado pela Igreja Romana e continuada em diversos segmentos protestante como os luteranos e calvinistas. Eles rejeitavam ferrenhamente qualquer aliança da igreja com o governo secular o que acabou produzindo inúmeros embates e perseguições por parte das autoridades civis.
Suas ideias e conceitos foram fortemente combatidos pelos expoentes reformadores como Lutero, Calvino e Zwínglio sendo este último a contestar com mais ardor, visto que o movimento se tornará forte na Suíça.  Zwínglio utilizando um termo cunhado por Gregório de Nazianzo no século IV, os nominava por “catabatista” (contra-batismo ou anti-batismo), mas também o termo era usado pejorativamente com o sentido de submersos ou afogados.
O movimento cedo se tornou um refúgio para toda sorte de opiniões divergentes das lideranças reformadas. Uma figura provocativa foi a de Thomas Munzer que ainda cedo se tornou opositor de Lutero e liderou diversas rebeliões de camponeses contra os senhores feudais e príncipes. O resultado final das ações de Munzer foi desastroso e milhares de camponeses morreram na batalha final com os exércitos feudais em maio de 1525 na região de Frankenhausen e ele foi capturado e posteriormente decapitado. Suas ações e pregações acabaram sendo associadas ao movimento anabatista. Posteriormente o movimento anabatista tornou-se avesso a quaisquer atividades violentas e tornou-se um movimento pacifista. Com o Estado definindo o papel do magistrado como detentor da ordem social os anabatistas reafirmaram sua convicção nos princípios centrais da fé cristã. A ala do Anabatismo que recebe o nome de “Os Irmãos Suíços” foi a menos radical de todas e rejeitavam especialmente os excessos violentos.
Muitos líderes anabatistas da primeira geração tornaram-se mártires; a maioria dos crentes deixou suas casas para buscar refúgios na Holanda e alguns tolerantes Estados alemães. No final da década de 1530, Menno Simons deixou o sacerdócio católico e associa-se ao movimento anabatista, mas rejeita todas e quaisquer violências defendidas pelo movimento Munster, pois entendia que essas ações eram contrárias ao ensino evangélico. Com sua pregação, seus escritos e suas viagens contínuas, ele conseguiu unificar os diversos grupos anabatistas e dar-lhes um tom mais moderado, bem como expurgar as ideias errôneas sobre o divorcio e a poligamia. Sua teologia estava focada na separação deste mundo, e o batismo pelo arrependimento simbolizava isso. Menno tornou-se um líder dentro do movimento anabatista e em 1544 o termo menonita passou a ser uma referência aos anabatistas holandeses. Os pontos principais da teologia anabatista são: eles não administram o batismo em crianças em idade pré-escolar, mas apenas em adultos capazes de dar conta de sua fé; quanto a Ceia adotaram a doutrina dos calvinistas; em relação às doutrinas da graça e predestinação não seguiram o posicionamento de Calvino, mas as de Melanchton e Armínio, que adotaram o pelagianismo; eles se abstêm de prestarem juramento, mas não se negam a fazerem depoimentos diante dos magistrados; eles consideram a guerra e a utilização de armas ilegais; eles contribuem com seus bens para a defesa da pátria; eles reconhecem e acatam as decisões judiciais, todavia se abstém de exercer tais funções. Diante de todas as perseguições que sofreram tornaram-se grandes defensores da tolerância religiosa.
Nas referências bibliográficas temos uma das raras declarações de fé produzidas pelo movimento anabatista conhecida por “A Confissão de Fé Schleitheim” (Schleitheim, no Cantão de Schaffhausen – Suíça) reconhecida por uma Conferência dos Irmãos, na Suíça em 24 de fevereiro de 1527, sem contestação e mais tarde impresso sob o título Bruderliche Vereinigung etlicher Kinder Gottes (Acordo fraterno de alguns filhos de Deus). O provável autor do documento foi Michael Sattler, um dos primeiros mártires anabatistas (21 de maio de 1527), após a morte de Conrad Grebel (1526) e alguns meses depois de Felix Manz (1527). A confissão foi considerada importante o suficiente para ser refutada tanto por Zwínglio quanto por Calvino em obras separadas. Na Inglaterra, os primeiros batistas em Londres elaboraram uma confissão de fé de maneira que ficasse claro de que não eram anabatistas. Os Anabatistas se distinguem dos Batistas em diversos aspectos inclusive o fato de que eles não adotam necessariamente o batismo por imersão, tão caro aos batistas.

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Referências Bibliográficas
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GONZALES, Justo L. Uma história do pensamento cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
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SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Rio Grande do Sul: Concórdia Editora e Editora Ulbra, 2002.
The Schleitheim Confession of Faith (Translated by J. C. Wenger) Adopted by a Swiss Brethren Conference, February 24, 1527 - http://www.bibleviews.com/Schleitheim.html