Translate

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

PROTESTANTISMO E SUA CONTRIBUIÇÃO NA EDUCAÇÃO NO BRASIL [1]

Mackenzie-campus-SP-1869
INTRODUÇÃO
            O nosso tema geral: “TEOLOGIA E SOCIEDADE” foi muito bem escolhido, pois uma Teologia que não esteja inserida na Sociedade, torna-se uma teologia virtual.
            O grande DIFERENCIAL do Evangelho de Jesus Cristo era o fato de que TUDO quanto ele ENSINOU tinha haver com a vida das pessoas (sociedade).
            A proposta teológica de Jesus sempre foi ENCARNADA! Seu Evangelho/Mensagem não era para Anjos, mas para Pessoas / Gente como a Gente.
            A Teologia precisa ser fomentadora de Respostas para as Perguntas que as pessoas e a Sociedade têm formulado. Esse é o grande desafio!
A Teologia tem ido de Encontro com os anseios das pessoas do Sec. XXI???

APRESENTAÇÃO DO TEMA
            O tema que vou apresentar é de cunho Histórico, mas creio ser importante resgata-lo de seu limbo e demonstrar sua relevância.
O PROTESTANTISMO E SUA CONTRIBUIÇÃO NA EDUCAÇÃO NO BRASIL
            O Protestantismo tem se estabelecido efetivamente no Brasil a mais de 150 anos, desde os anos finais do oitocentos, mas quando examinamos os livros de História do Brasil (principalmente os didáticos) pouco ou quase nada encontramos sobre os protestantes – é como se eles fossem invisíveis.
            A culpa desta invisibilidade protestante na História e por decorrência na perspectiva da Sociedade Brasileira não é apenas dos historiadores brasileiros, mas também dos próprios protestantes que sempre se omitiram de se inserirem efetivamente na própria Sociedade. E quando foram chamados, optaram sempre por ficar do lado de fora.
            Minha expectativa é que ao final desses poucos minutos [linhas] de exposição, vocês possam ao menos curiosos a Presença e Relevância dos Protestantes em nosso País.
TEOLOGIA E EDUCAÇÃO
            A Teologia e a Educação são as duas faces de uma mesma moeda.
- A Teologia sempre foi Ensinada desde os tempos mais remotos (oralmente e posteriormente através dos escritos religiosos).
- A função Didática do Sacerdote era parte INTEGRANTE de suas atribuições.
- Avançando no tempo encontraremos as Primeiras Universidades sendo formadas ao redor da Teologia.
-Os Mosteiros são os embriões dos primeiros Centros de Ensino organizado.
- As primeiras Universidades são constituídas e controladas pela Igreja Cristã, para o Bem e para o Mal.
REFORMA PROTESTANTE
            Chegando no Séc. XVI temos um dos maiores Movimentos de Reforma Religiosa ocorrido no Ocidente e que vai MUDAR RADICALMENTE esse lado do Globo Terrestre.
- Podemos falar sem qualquer constrangimento de ANTES e DEPOIS da Reforma Religiosa, também chamada de Reforma Protestante.
- Essa Reforma Religiosa é nada mais, nada menos do que um esforço para que a TEOLOGIA possa responder satisfatoriamente os ANSEIOS das pessoas e da Sociedade Medieval.
- Os teólogos reformistas descem de seus Púlpitos e Cátedras e vão de encontro às pessoas – fazendo o que Jesus havia feito, ou seja, Encarnando a Mensagem Teológica.
- A Teologia torna a fazer parte da vida cotidiana das pessoas.
A REFORMA RELIGIOSA E A EDUCAÇÃO
            Para que isso fosse tornado uma Realidade os Reformadores vão se utilizar abundantemente da EDUCAÇÃO.
- Um dos ideais dos Reformadores era que toda pessoa deveria conhecer os princípios religiosos contidos na Bíblia.
- Como fazer isso, quando 90% da população são analfabetas???
- Os Reformadores não tiveram dúvidas – Escolas para Todos! [não há de novo debaixo do sol, diria o velho Salomão].
- São os Reformadores ainda no século XVI que haverão de implantar a Escola Pública obrigatória.
- Em Genebra (Suíça) na Reforma promovida por João Calvino, os pais cujos filhos não fossem inscritos nas Escolas eram responsabilizados criminalmente diante dos tribunais da cidade.
- Este movimento teológico/educacional vai acontecer em todos os países que adotam os princípios dos reformadores.
ESTADOS UNIDOS AMERICA
            Dando mais um salto histórico chegamos aos Estados Unidos da América. Os reformadores insatisfeitos com a Reforma Inglesa atravessam o Oceano e iniciam a Colonização da América.
- Duas Instituições tornam-se a Base da Sociedade Americana: A Igreja e a Escola.
- Todos os ramos do Protestantismo americano constroem suas Colégios e Universidades, que permanecem até hoje se constituindo em referência para todo o mundo Ocidental e até partes do Oriente.
Nas Universidades americanas haveremos de encontrar pessoas de todas as partes do mundo....até brasileiros .... da zona leste SP....
O BRASIL E A EDUCAÇÃO
            Enquanto os Estados Unidos da América estavam sendo construído sobre os fundamentos da Religião e da Educação, no Brasil apenas a Religião é desenvolvida ... e por esta razão o Brasil fica para trás no que se refere ao Progresso.
Durante quase 400 anos, depois de sua invasão e colonização pelos Portugueses, o Brasil viveu na quase total IGNORÂNCIA. Sua população era quase que completamente ANALFABETA.
Não havia Escolas, apenas Tutores que eram contratados pelas famílias abastadas para ensinarem seus filhos.
Houve sim o esforço dos Jesuítas (210 anos) para desenvolverem seus métodos de ensino no Brasil (criação de escolas elementares, secundárias, seminários e missões que se espalham pelo Brasil), mas que foram amputados pelas ações da política Pombalina que os expulsou do país e confiscou suas Escolas (1759).
Com a queda de Pombal a situação educacional no Brasil, antes precária (5% de letrados), agora torna-se caótica como bem resume Drª Silvia Rita Magalhães de Olinda, em seu artigo: A Educação no Brasil no período colonial: um olhar sobre as origens para compreender o presente[2] - escreve ela:
Com a queda de Pombal, a organização educacional acabou por se esfacelar. O subsídio não chegava para as despesas e os professores passaram a não receber o pagamento por meses e até anos. O quadro era cada vez mais desolador. No fim do período colonial só havia escolas nas cidades e vilas mais importantes. Entre os séculos XVI e meados do século XVIII, o Brasil pôde ser classificado como um país multilíngue, etnicamente diversificado, eminentemente rural e não escolarizado. [negrito meu].
TRANSFERÊNCIA FAMILIA REAL E INDEPENDÊNCIA
            A situação somente começara a melhorar com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808.
- Com a presença da Corte há uma necessidade inerente de se melhorar as condições gerais do Brasil, bem como da Educação.
- Em 1822 temos a Independência do país e agora a questão da Educação é inserida na nossa Primeira Constituição (1824) que no artigo 179, item 30, outorga como garantia da inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros, entre outros dispositivos, a garantia da instrução primária gratuita a todos os cidadãos.
A questão é: Quem são os cidadãos? Mais ou menos 20% da população – as elites. Na base da pirâmide nada muda.
OS PROTESTANTES NO BRASIL
            É neste contexto que no final do século XIX começam a chegar ao Brasil os primeiros Missionários Protestantes advindos dos Estados Unidos da América.
- Trazem consigo o ideário binário americano: Religião e Educação.
- Desde as primeiras ações dos protestantes no Brasil a questão da Educação sempre foi colocada como Primordial.
- Nesse momento de implantação do Protestantismo no país os brasileiros tinham uma taxa de mais de 80% de analfabetismo (nas capitais e grandes centros urbanos – no interior 95%)
- Este é um enorme problema para os missionários protestantes:
Como Ensinar os princípios da Teologia Reformada para uma pessoa que não sabia ler e interpretar um texto?
            Veja que algumas coisas não mudaram muito até hoje!!
O conceito moderno de analfabetismo é que toda pessoa que não consiga INTERPRETAR um texto é analfabeta. Isto significa na prática que o Brasil continua sendo um país de analfabetos.
- Todos os ramos do Protestantismo que chega ao Brasil no final do séc. 19 e inicio do séc. 20 tem um lema: Igreja e Escola.
PRESBITERIANOS
            Pegarei como exemplo os Presbiterianos, por ser meu campo de Pesquisa acadêmica.
- Seu primeiro missionário a chegar no Brasil em 1859, o jovem recém-formado em teologia Ashbel Green Simonton, ainda mal dominando a língua portuguesa, inicia uma incipiente Escola Primária, tendo como objetivo alfabetizar as crianças para poderem compreender o ensino evangélico. 
- Mesmo com a morte precoce de Simonton o presbiterianismo continua sua rápida expansão no Brasil.
Em 1870 (apenas 11 anos após a chegada de Simonton), foi fundada a modesta Escola Americana, marco inicial do que é hoje a Universidade Presbiteriana Mackenzie, o Colégio Internacional de Campinas, transferido para Lavras, Minas Gerais, que hoje é o Instituto Gammom; e o Colégio Piracicabano, de origem Metodista que ainda hoje existe em Piracicaba e também se transformou em Universidade.
- Nas duas primeiras décadas do século XX, foram fundadas ainda, várias escolas nas comunidades Presbiterianas, as chamadas Escolas Paroquiais.  
- O objetivo primário era utilizar os princípios cristãos (na perspectiva evangélica/protestante) como base de todas as praticas educacionais, perseguindo o ideal de cristianizar a sociedade brasileira através do processo educacional.
- Isto fica evidenciado na exigência feita a todos os membros da igreja presbiteriana ao apresentarem seus filhos menores para serem batizados se comprometem a “dar-lhes ou mandar dar-lhes a instrução e educação que puderdes” tendo como objetivo: “...para que venham a ler por si mesmas as Sagradas Escrituras (Bíblia)”.
- Em seu livro: Protestantismo e educação brasileira: Presbiterianismo e seu relacionamento com o sistema pedagógico, Osvaldo Henrique Hack,[3] credita aos educadores e escolas protestantes a modernização dos métodos de ensino, contidas na reformulação do ensino público no Estado de São Paulo, efetuada por Caetano Campos na última década do século XIX e que posteriormente tornou-se modelo para todos os demais Estados brasileiros.
- Para os protestantes “ser cidadão” implicava sempre na junção inseparável da religião e educação como instrumentos para capacitação do exercício de uma cidadania integral e construtiva.
- De maneira que a ausência de uma delas seria uma ação mutiladora de uma cidadania plena e fecunda.
- O que pode ser visto por todos nós diariamente nos jornais e telejornais brasileiros;
- Que pode ser constatado no nosso dia-a-dia....
CONCLUSÃO
            Faço minha conclusão propondo a seguinte questão: Se o Protestantismo se tornou tão relevante no Brasil em tão pouco tempo, por que esse Protestantismo não Influenciou e Moldou a Sociedade brasileira??
Creio que a resposta esta no Modelo escolhido e que predominou entre os presbiterianos e creio que nos demais ramos protestantes aqui inseridos.
OS DOIS MODELOS
            Entre os Presbiterianos havia dois modelos propostos e que por pouco tempo caminharam juntos, mas que posteriormente tornaram-se antagônicos, ainda que em um processo mais lento e longo, com toda certeza poderiam terem caminhado paralelamente.
Escolas Paroquiais: esse modelo defendia que ao lado de uma Igreja haveria sempre uma Escola, para atender os filhos da comunidade presbiteriana.
Este modelo é mais universalista, pois todas as crianças independentemente das condições sociais, teriam as mesmas oportunidades educacionais e colheriam seus resultados posteriores.
Colégios e/ou Escolas Padrões: nesse modelo se formariam Escolas de padrão elevado, para se alcançar as elites (através da formação de sua juventude) visando futuramente influenciar a cosmovisão da Sociedade brasileira.
Este modelo é restritivo e segmentário, pois somente as crianças de famílias mais abastadas teriam a oportunidade de uma Educação de boa qualidade e, portanto, somente elas colheriam os resultados posteriores.
FAZENDO UMA OPÇÃO
            A fazerem a opção pela Escola Padrão com seus Colégios e Universidades, o presbiterianismo abriu mão de universalizar a excelência educacional, que viria ao longo do tempo alcançar milhões de brasileiros, possibilitando a todos eles uma ascensão social igualitária.
            Ao abrir mão de suas Escolas Paroquiais, deixando-as à própria sorte, o que as inviabilizou economicamente, o Presbiterianismo perdeu sua maior e mais concreta oportunidade, de mudar de forma radical os desígnios históricos desse País.
            Os Presbiterianos e seus correlatos protestantes optaram conscientemente por permanecerem Coadjuvantes da elaboração da Cidadania brasileira, quando tiveram a Grande Oportunidade de serem os Protagonistas das Transformações sociais que o Brasil precisava e ainda precisa alcançar.
Fica, portanto esta lição para nós hoje!
            Temos uma Grande oportunidade, pois estamos dentro desse Espaço Acadêmico inseridos na Zona Leste de SP, implantando e desenvolvendo um Curso de Teologia. O que vamos fazer?
No que esse Curso de Teologia pode e precisa contribuir para com a Sociedade brasileira, aqui representada pela Zona Leste de SP?
Como poderemos Identificar e oferecer Respostas concretas aos anseios dessa Sociedade de inicio do século XXI?
            A valorização do nosso Curso de Teologia depende das respostas que daremos a cada uma destas questões e outras que ainda serão formuladas.
AGRADEÇO A ATENÇÃO DE TODOS!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

Artigos Relacionados
PRIMEIRO CURSO TEOLÓGICO PROTESTANTE NO BRASIL
MUDANÇA DE PARADIGMA TEOLÓGICO DO PROTESTANTISMO NO BRASIL E A FUNDAÇÃO DA ASTE
O JOVEM MESTRE – Rev. Richard Shaull
O VELHO MESTRE – Rev. José Borges dos Santos Jr.
O Protestantismo na Capital de São Paulo: A Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras.

Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Jane Soares de. É preciso educar o povo! – a influência da ação missionária protestante na educação escolar brasileira. CUNHA, Marcus Vinicius (org.). Ideário e imagens da educação escolar. Campinas (SP): Autores Associados; Araraquara, SP: Programa de Pós-graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, 2000. (Coleção Polêmicas do nosso tempo; 73).
FARIA, Eduardo Galasso. Fé e compromisso – Richard Shaull e a teologia no Brasil. São Paulo: ASTE, 2002.
FERREIRA, Julio Andrade. O apóstolo de Caldas. Franca (SP): Renascença, 1950. [Biografia do Rev. Miguel Torres].
GOUVÊA, Herculano de. A primeira turma. São Paulo: Revista de Cultura Religiosa, Abril-Junho, 1922.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LIMA, M. C. de. Breve história da Igreja Católica no Brasil. São Paulo: Loyola, 2001.
MATOS, Alderi Souza de. O Colégio Protestante de São Paulo. Disponível em: http://www.mackenzie.br/10283.html. Acessado em: 30/09/2015.
MENDONÇA, Antonio Gouvêia e VELASQUES Filho, Prócoro. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1990.
OLIVEIRA, Marcus Aldenisson de. Antônio Bandeira Trajano e o método intuitivo para o ensino de Arithmetica (1879-1954). Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Tiradentes, Aracaju, 2013. [Orientadora: Ilka Miglio de Mesquita].
PILLETI, N. História da Educação no Brasil, 6ª ed. São Paulo: Ática, 1996.
PIERSON, Paul Everett. A Younger Church in search of maturiry - presbyterianism in Brazil from 1910 to 1959. San Antonio (Texas): Trinity University Press, 1974.
POMBO, R. História do Brasil, v. 5. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores, 1959.
RAMALHO, J.P. Prática educativa e sociedade. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo e cultura brasileira - aspectos culturais da implantação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981.
SILVA, Geoval Jacinto da. Educação teológica e pietismo – a influência na formação pastoral no Brasil, 1930-1980. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, Editeo, 2010.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004.





[1] Palestra proferida I Encontro Interdisciplinar, Faculdade Paschoal Dantas, 2014.
[2] OLINDA, Silvia Rita Magalhães de. A educação no Brasil no período colonial: um olhar sobre as origens para compreender o presente. Feira de Santana (BA): Universidade Estadual de Feira de Santana. Revista Sitientibus, nº 29, p. 153-162, jul/dez, 2003. Disponível em:     http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/29/a_educacao_no_brasil_no_periodo_colonial.pdf. Acesso em: 12/11/2014.
[3] HACK, Osvaldo Henrique. Protestantismo e educação brasileira: Presbiterianismo e seu relacionamento com o sistema pedagógico. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA IGREJA CRISTÃ: Atos o Primeiro Documento Histórico


O livro de Atos – Tudo tem um inicio
O livro de Atos é o primeiro documento do início de atividades da Igreja. A sua importância pode ser melhor avaliada se imaginarmos se ele não tivesse sido escrito: ficaria uma lacuna que não seria preenchida por nenhuma outra literatura contida no Novo Testamento –ele é o elo histórico entre os Evangelhos e as Epístolas.
Não somente faz esta ponte para nós, mas fornece também preciosas informações sobre a vida de Paulo e nos oferece um indispensável contexto histórico para suas correspondências epistolares. No processo, Atos relata as três primeiras décadas da vida da igreja.
Depois de apresentar resumidamente várias visões do propósito de Atos, Toussaint escreve:
O propósito do Livro de Atos pode ser declarado como segue: Lucas procura explicar como o Evangelho foi progressiva e soberanamente propagando sua mensagem dos Judeus para os Gentios, e de Jerusalém à Roma. No Evangelho de Lucas uma pergunta é respondida, “Se o Cristianismo tem suas raízes no Velho Testamento e no Judaísmo, como veio a se tornar uma religião global? ” O Livro de Atos continua nesta mesma vertente do Evangelho para responder o mesmo problema. 
Proposta do livro:
Movimento de expansão
estrutura geográfica é uma das formas de visualizarmos o propósito do livro de Atos. Esta percepção geográfica nos ajuda a ver como a Igreja que nasce na cidade de Jerusalém (1.8), alcança em pouco mais de trinta anos, chega “até os confins da terra”, esta expressão, no seu contexto da época, significa Roma e o império romano.
O livro de Atos pode ser dividido em três partes bem distintas:
Em primeiro lugara expansão da igreja em Jerusalém (capítulos 1—7). Na ascensão de Cristo, a igreja era composta por 120 membros; cinquenta dias após a ressurreição de Cristo e dez dias após a ascensão, ocorre o Pentecostes; Pedro pregou uma mensagem cristocêntrica, e cerca de três mil pessoas foram convertidas, batizadas e agregadas à igreja; o número dos convertidos multiplicou-se em Jerusalém; perseguição crescente dos judeus.
Em segundo lugara expansão da igreja na Judeia e em Samaria (capítulos 8—12). A morte de Estevão amplia a perseguição judaica; os cristãos dispersam e, por onde passavam, eles pregavam a mensagem evangélica; comunidades cristãs se estabelecem na cidade de Samaria por intermédio de Filipe, rompem-se barreiras raciais; ocorre a conversão de Saulo; o evangelho chega a Damasco, na Síria; através de Pedro, o evangelho alcança a Ces e através de Cornélio os gentios;
Em terceiro lugara expansão da igreja até aos confins da terra (capítulos 13—28). Antioquia torna-se o centro missionário dos gentios; ocorrem as diversas viagens missionárias de Paulo; comunidades cristãs vão sendo estabelecidas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor; o evangelho rompe barreiras linguísticas, culturais e religiosas; apesar de toda perseguição judaica o Evangelho se estabelece em Roma (não por meio de Paulo), capital do Império.
É possível concordarmos com Keener (2004, p.?), quando afirma:
“Todo o Livro de Lucas é estruturado ao redor da evangelização mundial (1.8), com seis ou oito depoimentos sumários através do livro mostrando a dispersão do evangelho (ver 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20; 28.31). Para Lucas, o objetivo último é a comunicação transcultural e a evangelização mundial, e o poder requerido para realizar a tarefa é somente o Espírito Santo” ... Partindo de Atos 1.8, que é uma variação da Grande Comissão (Mt 28.18-20) e do Ide (Mc 16.15), o livro mostra a difusão do nome de Jesus em Jerusalém, Judéia e Samaria e “até os confins da terra”. Esta expressão, no seu contexto da época, significa Roma e o império romano.
As Formas de Comunicar a Mensagem Cristã
Kerigma é o termo grego que quer dizer a Proclamação – a pregação. A base do Kerigma é a proclamação de Cristo. Modelo:
Jesus de Nazaré é o Messias, o Cristo, enviados por Deus,
             como prometido nas Escrituras, como predito pelos profetas,
             para o perdão dos pecados, para salvação do mundo;
Ele foi rejeitado pelo povo, condenado pelas autoridades;
             Ele sofreu, foi crucificado, morreu e foi sepultado
Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos e o elevou às alturas
             e ele vai voltar um dia para nós, em glória.
Em resposta, as pessoas devem se arrepender, crer, ser batizada,
receber o Espírito Santo e juntar-se à comunidade dos crentes (Igreja).
Didaquê é a palavra grega traduzida por Doutrina. O Didaquê dos Apóstolos – ou a Doutrina dos Apóstolos (At 2.42) – era o conjunto de mandamentos práticos para a vida dos discípulos. Por exemplo: “Amai-vos uns aos outros”; “Orai sem cessar”; “Não sai da vossa boca nenhuma palavra torpe”; “Fugi da impureza”; “Maridos, amai vossas mulheres”. O Didaquê deve ser simples e objetivo.
Conclusão Inconclusiva do livro
O livro de Atos termina sem uma conclusão, podendo indicar que Lucas pretendia escrever um terceiro volume; mas providencialmente ele nos deixa claro que a caminhada da Igreja na História Humana estava apenas começando, e somente será concluída com a Segunda Vinda de Cristo.
Uma Tomografia da Igreja em Atos
Distinção do judaísmo
Inicialmente o cristianismo era confundido como sendo mais uma seita/divisão do judaísmo. Mas na medida em que aumenta a perseguição por parte dos judeus, vai ficando evidente a distinção entre a mensagem cristã e a mensagem judaica. 
Cristianismo ou Cristianismos?
Ainda nas páginas do livro de Atos e nas epístolas podemos perceber que dentro do Cristianismo sempre houve divergências. A eleição dos Diáconos surge mediante a divergência entre judeus e helenistas (judeus da Diáspora); Paulo tem que tratar de diversas divisões que ocorriam nas comunidades cristãs.
Uma “Igreja” sem Templos
Por três séculos as comunidades cristãs não construíram um único templo; suas atividades eram feitas em casas ou salões emprestados, alugados ou até mesmo comprados. Somente no século IV com o Imperador Constantino os cristãos passaram a utilizar templos pagãos e construir seus próprios templos.
Perseguições judaicas
Como os registros históricos de Atos e já mencionado as primeiras e mais violentas perseguições aos cristãos foram realizadas pelas autoridades judaicas que via no cristianismo um movimento herético do judaísmo, bem como uma ameaça ao sistema religioso que tinha no Templo seu centro de poder.
Como se Tornar Membro da Igreja
Batismo/Profissão Fé
“Catecúmeno” três anos de preparação: exame minucioso do comportamento do catecúmeno.
Perigos Iniciais
Oportunistas e Mercenários
O satirista Luciano, escritor romano, no segundo século ridiculariza os cristãos por serem tão facilmente levado por charlatães, muitas vezes dando-lhes dinheiro.
Didaquê traz diversas recomendações sobre aqueles que se fazia de cristãos, mestres ou profetas (missionários), mas que não passavam de ladrões e exploradores:
CAPÍTULO VI - Fique atento para que ninguém o afaste do caminho da instrução, pois quem faz isso ensina coisas que não pertencem a Deus.
CAPÍTULO XI - Se vier alguém até você e ensinar tudo o que foi dito anteriormente, deve ser acolhido. Mas se aquele que ensina é perverso e ensinar outra doutrina para te destruir, não lhe dê atenção. Ele não deve ficar mais que um dia ou, se necessário, mais outro. Se ficar três dias é um falso profeta. Ao partir, o apóstolo não deve levar nada a não ser o pão necessário para chegar ao lugar o­nde deve parar. Se pedir dinheiro é um falso profeta. Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É desse modo que você reconhece o falso e o verdadeiro profeta. Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa não deve comer dela. Caso contrário, é um falso profeta. Todo profeta que ensina a verdade mas não pratica o que ensina é um falso profeta. Se alguém disser sob inspiração: "Dê-me dinheiro" ou qualquer outra coisa, não o escutem. Porém, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue.
CAPÍTULO XII - Acolha todo aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine para conhecê-lo, pois você tem discernimento para distinguir a esquerda da direita. Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe para se sustentar. Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudência, para que um cristão não viva ociosamente em seu meio. Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha cuidado com essa gente!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/


Artigos Relacionados
Diadaquê: Introdução - O Manual Mais Antigo da Igreja Cristã
Carta a Diogneto: Introdução

Referências Bibliográficas
ARAÚJO, C. B. R. de. A igreja dos Apóstolos: Conceito e forma das lideranças na Igreja Primitiva. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
BERKHOF, Louis. New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, https://archive.org/details/NewTestamentIntroduction Scanned and Edited Mike Randall.
CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. v. 1. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
GONZÁLEZ, J. L. História ilustrada do cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.
KEENER, Craig S. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Tradução José Gabriel Said. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.
LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.
RICE, Edwin W. People’s commentary on the Acts giving. Philadelphia: The American Sunday-School Union, 1896.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10, JUERP, Rio de Janeiro, 1984.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida,1996.
VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CIDADANIA ROMANA

Promulgação do Édito Caracala
Na mesma proporção que o Império Romano se expandia, as fronteiras nacionais perdiam sua relevância. Gradualmente os cidadãos das nações conquistadas foram assimilando uma segunda cidadania – a romana.
Os romanos passaram a utilizar gradualmente esse sistema duplo de cidadania e aplicando principalmente em suas províncias ultramarino. Foi uma forma inteligente para angariar a lealdade dos povos conquistados e a construção de uma unificação jurídica do Império. A formula de dupla cidadania ainda produzia um efeito colateral muito relevante, pois uma pessoa podia adquirir a cidadania romana sem abrir mão de suas origens. O apóstolo Paulo é um exemplo típico deste sistema, pois era um judeu e cidadão de Tarso (Atos 21.39) e também cidadão de Roma (Atos 22.26-27).  
O imperador Claudio coloca algumas restrições para se adquirir a cidadania romana, como a pessoa saber latim, pois considerava a língua grega e latina os idiomas oficiais do império (Dio Cassius, História Romana 60.17.4; Suetônio, Cláudio 41,1), ele entendia que a pessoa precisava ter um mínimo de preparação para ser um cidadão romano (como os EUA faz hoje).
Havia algumas formas licitas pelas quais uma pessoa poderia adquirir a cidadania romana:
1)    Todos os que nasciam de pais que já eram cidadãos recebiam uma “certidão de nascimento” autenticado como cidadão romano;
2)    Recebendo a alforria por um cidadão romano;
3)    Por mérito por prestar serviço relevante para o Império (a mais provável razão pela qual Paulo obteve sua cidadania romana – Atos 22.28);
4)    Quando recebia baixa do serviço militar romano ou quando se alistava para as Legiões.
            Como cidadãos usufruíam de alguns privilégios exclusivos:
1)    Podiam votar, desde que estivessem em Roma para exercer esse direito; mas havia certificados que não incluíam esse direito.
2)    Estavam protegidos de serem punidos de forma degradante (açoites, torturas), por isso a contestação de Paulo em Filipos (Atos 16.22ss; cf. Cícero contra Verres 2.5. 161-70). A morte de Pedro, crucificado de cabeça para baixo, foi um pedido dele; enquanto a decapitação de Paulo, era considerada uma execução misericordiosa e rápida, adequado para os cidadãos.
3)    Direito a recorrer ao tribunal em Roma, portanto, ficando menos exposto à jurisdição de autoridades locais e até mesmo de governador romano (Paulo vai apelar à César – Atos 25.10-12).
Essa política de cidadania perdurou, mais ou menos abrangência, até a promulgação da Constituição Antonina (em latim Constitutio Antoniniana de Civitate), popularmente conhecida como Édito de Caracala, ou ainda como Édito de 212, foi editado pelo imperador Caracala ou Marcus Aurelius Antoninus (212 – 217 d.C.).
O Edito estendia a cidadania romana a todos os homens nascidos livres em todo o Império romano, estendendo o mesmo direito a todas as mulheres nascidas livres no império os mesmos direitos que as mulheres romanas usufruíam.
Ainda que o Edito fosse algo benéfico e um avanço da cidadania na época, longe estava de ser um ato beneficente. Caracala havia aumentado o soldo dos legionários, para seduzi-los e com isso causou um efeito inflacionário. Para combatê-la criou uma nova moeda, o Antoninos e o Édito de 212 tinha dois objetivos: aumentar a arrecadação de impostos e a inscrição de soldados nas legiões. O historiador Dion Cássio é o único a fazer a leitura por trás do referido Édito:
"Esta foi a razão (necessidade de aumentar a arrecadação das taxas pagas pelos cidadãos) por que ele (Caracala) tornou todo o povo do Império cidadão romano. Nominalmente, ele os estava honrando, mas sua real proposta era aumentar os rendimentos, porque aumentava-se, assim, o número de pessoas que deveriam pagar as taxas" (Dion Cássio, LXXVIII, 9.3-7, apud SILVA e MENDES, 2006, p. 184).

Como diria o velho Salomão: “não há nada de novo debaixo do sol”.
.
Artigos Relacionados
HISTÓRIA IGREJA CRISTÃ - Contexto Inicial
NOVO TESTAMENTO – Introdução Geral
APÓSTOLO PAULO


Referências Bibliográficas
Cadbury, H. J. The Book of Acts in History. New York, 1955.
Ferguson, Everett, Backgrounds of early Christianity, 3ª ed. Michigan: Eerdmans Publishing, 1933.
Sherwin-White, A. N. The Roman Citizenship. Oxford, 1939.
________________. Roman Society and Roman Law in the New Testament. Oxford, 1963.

SILVA, Gilvan Ventura da e MENDES, Norma Musco (Org.). Repensando o Império Romano – perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória, ES: EDUFES, 2006.

HISTÓRIA IGREJA CRISTÃ - Contexto Inicial

   
        A História da Igreja Cristã pode ser muitas coisas, mas certamente jamais é enfadonha, pois em cada curva haveremos sempre de sermos surpreendidos de forma extraordinária. Um dos mais capacitados historiadores do nosso tempo, Earle E. Cairns, realça a importância da história cristã:
“A história da Igreja será apenas um enfadonho exercício acadêmico de recordação dos fatos se não se descobrir o seu valor para o cristão. Os antigos historiadores tinham grande apreço pelos valores pragmáticos, didáticos e morais da história, o que não caracteriza a maioria dos historiadores modernos. O estudante consciente dos valores apreendidos no estudo da história da Igreja Cristã tem bons motivos para se interessar por essa área particular da história humana (CAIRNS, 2008, p. 18 – Itálico meu).”
            Mas como tantas outras áreas da nossa vida cristã, poucos de fato dão qualquer importância ao estudo sério desta matéria, como tão bem revela outro de nossos historiadores:
“O preconceito mais comum é que a história não tem grande importância, e que a única razão para estudá-la é que alguém fez dela uma exigência no currículo. É certo que alguns trazem consigo as histórias de algum herói ou heroína de sua própria tradição: trazem histórias ou talvez passagens da vida de Lutero, de Calvino ou de Susanna Wesley. Outros possuem algumas opiniões sobre os episódios mais tristes da história da igreja: da inquisição, das cruzadas, de Alexandre VI etc. Mas o fato é que a maioria sabe pouco da história da igreja, sabe que sabe pouco e não acha importante saber mais (GONZÁLEZ, 2011, p. 17).”
            Desta forma, quando nos dispomos a conhecer a nossa história, torna-se algo muito significativo e que certamente em muito contribuirá para edificação de nossas vidas e por consequência direta para edificação da igreja a qual fomos colocados para servir.
Definição
            A palavra história vem de um vocábulo grego que significa pesquisa, informação, narração. O historiador se assemelha ao tecelão que vai entrelaçando os mais diversos fios dando-lhes forma e colorido. Assim, o historiador é aquele que tece os fatos históricos dando-lhes uma forma que possa expressar o que aconteceu, à luz do que está acontecendo e servir de indicação dos próximos acontecimentos. Por isso se diz que ao conhecer sua história, a pessoa conhece a si mesma e se prepara melhor para viver o restante de sua vida.
Origem da História da Igreja Cristã
A nossa História tem início onde todas as demais histórias – no livro de Gênesis. A Criação do Mundo e do Ser Humano é o marco zero da História. Ao se esquecer deste fato, os historiadores e suas “histórias” perdem os referenciais e por consequência acabam por fazerem analises e conclusões equivocadas.
            A perfeita ilustração deste fato está na literatura bíblica do Primeiro Testamento. Ao estabelecerem o Cânon de seus livros religiosos os judeus os dividiu em três blocos: Lei, Profetas e os Escritos. A nossa versão segue a Septuaginta (versão grega) que utiliza outro critério: Lei (Pentateuco); Históricos, Poéticos e Profetas.
            A Bíblia Hebraica subdivide a segunda parte em Profetas Anteriores e Posteriores. O que chamamos de livros Históricos, eles classificam de Profetas Anteriores – pois para eles a HISTÓRIA somente pode ser interpretada (compreendida) à luz da VONTADE (propósito) DE DEUS.
            Desta forma, não apenas o que está registrado e preservado nas páginas da Bíblia, mas TUDO o que aconteceu no Mundo é História, portanto, está relacionado à Vontade e Propósito de Deus. Uma pessoa que compreendeu esta verdade como poucos foi o apóstolo Paulo. Quando ele escreve sua epístola aos Gálatas: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei” (4.4). Para o Apóstolo a primeira vinda de Jesus ocorre no tempo/espaço Histórico exato – nem antes e nem depois. Segundo Paulo Deus havia preparado o Mundo para a inserção do Filho/Salvador na História Humana. Vejamos alguns poucos exemplos:
Preparação Através dos Judeus: Desde o princípio de sua história os israelitas foram instrumentos de Deus para preparação de Jesus Cristo (Messias) e da Sua Igreja. É preciso deixar claro que a Igreja não é um acidente de percalço, ou seja, ela não surgiu porque os israelitas não entenderam o propósito de Deus. A Igreja sempre foi parte integrante do Projeto Redentivo de Deus, como agência do Reino de Deus, na propagação da mensagem evangélica a todo o Mundo. Assim sendo, os judeus contribuíram de forma expressiva para que a Igreja pudesse cumprir seus propósitos:
Diáspora Judaica: A diáspora judaica, principalmente após o chamado “cativeiro babilônico”, espalhou comunidades judaicas por todo o mundo conhecido daqueles dias e mesmo com a reconstrução da cidade e do Templo em Jerusalém, a grande maioria optou por permanecerem nos países onde se haviam estabelecido. Nessas comunidades eles preservaram seus textos religiosos e sua mensagem da expectativa messiânica.
Uma religião monoteísta: três séculos antes de Cristo, toda região do Mediterrâneo já tomava conhecimento de que havia somente um Deus verdadeiro. A religião judaica era de cunho espiritual e não filosófico como as religiões greco-romanas. Eles não se propunham a provar a existência de Deus, apenas lhe prestavam o culto conforme lhes havia revelado.
A esperança messiânica: Muitos séculos antes dos imperadores romanos se avocarem de “Senhor” e tentarem pelo poder bélico implantarem seus “reinos”, os israelitas, através de seus Profetas, já ensinavam que um Messias (Senhor/Rei) viria para governar sobre todos os povos e nações. Mas diferente dos imperadores romanos, o Messias governaria com Justiça e Misericórdia. Onde houvesse uma família judaica ou uma sinagoga, a mensagem messiânica se fazia ressoar. Quando Jesus veio já encontrou a expectativa messiânica estabelecida. E esta esperança messiânica estava tão consolidada que muitos dos seus discípulos após a sua morte e ressurreição esperavam para seus dias a concretização do reino messiânico [Atos 1.6]. O próprio Apóstolo Paulo escreve sobre essa expectativa eminente da Volta gloriosa de Cristo e da manifestação do Reino.
Uma Religião Ética: Diferentemente das religiões em geral, o judaísmo ensinava que o pecado se manifestava de dentro para fora (coração/mente) e não de fora para dentro (corpo/matéria – dualismo: alma é boa, corpo é mau). O judeu era ensinado a manifesta sua fé através de suas ações e não o contrário.
A Septuaginta e/ou Antigo Testamento: A tradução dos textos hebraicos para a língua grega cuja versão recebeu o nome de “Septuaginta” foi fundamental para a preservação e internacionalização da mensagem veterotestamentária. Fora da Palestina, que utilizava a versão aramaica, os judeus utilizavam a versão grega. Talvez seja essa a razão pela qual os estrangeiros, que compreendiam o idioma grego, foram grandemente atraídos para a religião judaica. Os missionários cristãos utilizaram-se desta versão para comunicar a sua mensagem evangélica, de maneira que as primeiras comunidades cristãs tinham na Septuaginta sua única bíblia.
A Sinagoga: foi uma instituição, se não filha da diáspora, mas certamente popularizada pelas comunidades, primeira em cativeiro, e posteriormente pelas que estavam espalhadas pelo mundo. Na Sinagoga as Escrituras judaicas eram lidas e estudas, de maneira que foram copiadas e preservadas. Mesmo na Palestina e em Jerusalém as Sinagogas continuaram sendo amplamente utilizadas como local especifico para suas reuniões religiosas e sociais. Durante seu ministério Jesus utilizou bastante as Sinagogas para proclamar sua mensagem evangélica e está também foi a estratégia do apóstolo Paulo quando realizou suas viagens missionárias por todo Império Romano, sendo que, em algumas ele foi duramente perseguido (ex. Tessalônica), mas em outras ele foi bem acolhido (ex. Beréia). Nessas Sinagogas havia sempre um número expressivo de não judeus, que desanimados com suas religiões, encontravam na mensagem hebraica uma esperança para suas vidas. As primeiras comunidades cristãs foram formadas em sua grande maioria por estes prosélitos ou amigos da Sinagoga. Segundo o historiador Earle E. Cairns ela foi a casa de pregação do cristianismo nascente.
Preparação Através dos Gregos: A Soberania de Deus sobre a História é claramente manifestada no estabelecimento de Impérios, assim como também como causa direta de suas quedas. Poucos impérios influenciaram tantos, em tantos lugares, por tanto tempo. Ainda hoje o mundo ocidental sofre, talvez tenuamente, os efeitos do chamado helenismo. As contribuições da civilização grega para a implantação e expansão do cristianismo tem sido estudas exaustivamente, perfazendo milhares de páginas de pesquisas e ainda muito a ser pesquisado.
Helenismo: As conquistas de Alexandre o Grande a partir de 334 a.C., quando desembarcou em Trôade, até sua morte, na Babilônia em 323, demarca o momento da introdução do pensamento grego nas terras bíblicas. Suas conquistas transformaram vida no Oriente Próximo e a cultura helenística espalhou-se rapidamente por todos esses países. O comércio internacional progrediu vigorosamente sob o novo clima cultural e político.
Helenismo, que é o substantivo derivado do verbo “ellenizo” (falar grego), originalmente significava o uso adequado da língua grega. Na Grécia do século IV, era uma exigência para distinguir o grego do estrangeiro, pois os estrangeiros tinham se tornado tão numerosos que se tornou uma influência corruptora do idioma dos próprios gregos. Por esta razão a retórica fazia parte integrante do currículo acadêmico no Liceu de Atenas, que era dividida em cinco partes denominadas de “virtudes da dicção”, cuja a primeira e básica era o Helenismo, ou seja, a gramatica e correta utilização da linguagem grega sem qualquer corrupção barbara.
Posteriormente, fora da Grécia o termo foi adquirindo um sentindo cultural mais amplo de adoção do estilo de vida grego. Com o desenvolvimento do cristianismo, helenismo passou a incluir também um sentido religioso abarcando todas as manifestações cúlticas não apenas dos gregos, mas de todas as religiões não cristãs (pagãs), sendo esse o sentido que os chamados Pais da Igreja, principalmente de origem grega, fazem uso deste termo em suas obras polemistas, onde defendem e fazem distinção entre o cristianismo e as demais religiões.
Idioma Grego (Koinê): Sem dúvida alguma a maior contribuição do helenismo foi popularizar a língua grega. O grego Koinê (popular) tornou-se a língua comercial-cultural de âmbito internacional (o inglês dos nossos tempos).
Como a maioria dos judeus, após a diáspora, permaneceram vivendo foram da Palestina, houve a necessidade de se efetuar uma tradução da Bíblia Hebraica para a língua grega, que recebeu o nome de Septuaginta e/ou Versão dos Setenta (LXX), e que foi amplamente utilizada nas Sinagogas espalhadas por todo o Império Romano.
O cristianismo, apesar de iniciar na Palestina, nasce permeado pelo helenismo. A literatura cristã, ainda que fosse escrita por judeus, com exceção de Lucas, utilizou-se da língua grega para comunicar sua mensagem e desta forma se universalizar. O foco irradiador deste cristianismo helenizado foi a cidade de Antioquia, substituindo Jerusalém (o centro judaico) e onde pela primeira vez os seguidores de Cristo são denominados de cristãos (christianoi).
O apóstolo Paulo compreendia muito bem o processo transcultural helenista e utilizou-se dele para expandir o cristianismo, partindo sempre das sinagogas espalhadas por todo o mediterrâneo, onde o grego era falado e a Septuaginta era utilizada, por isso a razão de se encontrar tantos prosélitos nessas sinagogas. Suas inúmeras correspondências, portanto, suas argumentações, foram elaboradas nesse contexto helenista e na língua grega, o que se pode comprovar pela sua utilização das citações da Septuaginta e não dos textos hebraicos.
Entretanto, torna-se precipitado concluir que Paulo e os demais escritores neotestamentários foram totalmente absorvidos pela mentalidade e conceitos gregos, ao contrário, o pensamento deles continuou hebraicamente concreto e não filosoficamente abstrato como no pensamento grego.
Preparação Através dos Romanos: De acordo com diversos historiadores, como nenhum outro povo até então, coube aos romanos desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. Deste modo, a partir do século I a.C. até o século IV d.C., os Imperadores romanos governaram o mundo antigo, criando como em nenhum outro período histórico as condições favoráveis para a inserção e expansão do Evangelho de Cristo e consequentemente da Igreja Cristã. Segundo o historiador Cairns o grande e imponente Império Romano sempre esteve à serviço aos desígnios de Deus:
A contribuição política anterior à vinda de Cristo foi basicamente obra dos romanos. Esse povo, seguidor do caminho da idolatria, dos cultos de mistérios e do culto ao Imperador, foi usado por Deus, a quem ignoravam, para cumprir a sua vontade. Os Romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. Esse senso de solidariedade do homem no império criou ambiente favorável à aceitação do evangelho que proclamava a unidade de espécie e que a todos era oferecida a salvação que os integra num organismo universal, a Igreja, o corpo de Cristo. (2008 p.31).
E ainda segundo Cairns (2008) podemos nomear as seguintes contribuições dos romanos:
O Domínio Mundial de Roma: Em seu apogeu eles conquistaram todos os povos entre Roma e o Egito, portanto, circundaram o Mediterrâneo. É dentro deste amplo espaço geográfico, o mundo romano, que a partir de 50 d.C. que o Cristianismo durante os três primeiros séculos da era cristã surgiu e se expandiu. Atualizando a geografia do Império incluía o sul da Europa do Reno e do Danúbio, grande parte da Inglaterra, o Egito e toda a costa norte da África, e uma grande parte da Ásia desde o Mediterrâneo à Mesopotâmia.
Fronteiras Abertas: Com o pleno domínio político-econômico, as fronteiras nacionais foram rompidas. Os Romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um sentido da unidade da espécie sob uma lei universal. Ainda segundo Cairns (2008, p. 32), essa unificação foi possível graças à administração centralizada que Roma outorgava aos povos sob seu domínio. Existiam províncias diretamente subordinadas ao senado, ao Imperador. Um cidadão romano transitava livremente por todo o Império sem qualquer restrição – Paulo tinha seu passaporte de cidadão romano.
Construção de Estradas: Para manter um Império tão vasto os romanos precisavam estruturar duas áreas fundamentais – estradas e comunicação. Investiu nas grandes estradas que já existiam e abriu inúmeras outras que as interligavam. Tanto bélica quanto comercialmente o ganho foi gigantesco. O mar já não era a única opção para se viajar; as pessoas aprenderam a se locomover de uma cidade para outra ou de um país para outro muito mais rápido do que qualquer outra época anterior – o comércio e a comunicação intercontinental tornam-se regulares, organizados e protegidos pelos "Grandes Poderes" - foi a primeira experiência de uma globalização – as estradas eram uma espécie de fibra ótica, interligando todo o Império. Fontana (2012) destaca esse aspecto:
A administração romana tornou fáceis e seguras às viagens e as comunicações entre as diferentes partes do mundo. Os piratas, que estorvavam a navegação, foram varridos dos mares, por terra, as esplêndidas estradas romanas davam acesso a todas as partes do império. Essas vias de comunicação eram tão policiadas que os ladrões desistiram dos seus assaltos.
Sistema de Comunicação Postal: Outro fator importante era a agilidade das correspondências. Ao longo das principais vias foram estabelecidos postos de correios, onde os “carteiros” trocavam seus cavalos para que as correspondências chegassem mais rapidamente ao destinatário. Aqui também ficava sempre uma guarnição de soldados, de maneira que além da agilidade havia também segurança. Paulo e seus companheiros transitavam por todas essas vias e certamente pernoitavam nesses postos. E ninguém utilizou mais e melhor esse sistema de postagem do que o apóstolo dos gentios.
Liberdade Religiosa: Os Romanos seguiram a mesma política dos gregos e mantiveram sua religião, mas permitiam que os demais povos conquistados mantivessem suas próprias religiões, desde que não trouxessem transtornos políticos ao Império. Os cristãos somente foram perseguidos quando acusados de inimigos do Estado (ex. Daniel na Babilônia).
Desenvolvimento das Cidades: Ainda que o conceito de cidade (polis) seja grego, foram os romanos que de fato iniciaram um projeto de urbanização, estabelecendo e construindo cidades por todo o império. Os romanos implementaram as trocas comerciais, fomentaram a circulação da moeda, trouxeram o arado de madeira, as forjas, os lagares, os aquedutos, as estradas e as pontes. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telha. Tudo isso fomentou a formação de cidades cada vez maiores e mais urbanizadas. Roma, com uma população aproximada de um milhão de pessoas, era a cidade mais importante do império, tanto em termos políticos como econômicos, apesar de grande parte da riqueza ter fluído para o centro, as províncias também prosperaram. O Império trouxe uma época de paz que permitiu o crescimento econômico de cidades como Éfeso, Pérgamo, Esmirna, Sardes e Mileto; portos como Dion, Pela, Tessalônica e Kassandreia prosperaram; cidades como Antioquia, Alepo, Palmira, Damasco e Jerash cresceram a ponto de tornarem-se os principais centros comercias da Síria Romana.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


Artigos Relacionados
DIDAQUÊ: Introdução - O Manual Mais Antigo da Igreja Cristã
CARTA A DIOGNETO: Introdução
Reações Católicas ao Movimento da Reforma Protestante do Século XVI
REFORMA RELIGIOSA: Por que Ocorreu no Século XVI
PERSONAGENS DO PROTESTANTISMO – Zwinglio o Exegeta (1484-1531)
PROTESTANTISMO - A Reforma na Inglaterra - Henrique VIII

Referências Bibliográficas
CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.
GONZÁLEZ, J. L. História ilustrada do cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.
LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.
ROSTOVTZEFF. Mikhail. História de Roma. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961.
VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.