Translate

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL (IPB) E O CONSELHO MUNDIAL DE IGREJA (CMI)


            O protestantismo transplantado no Brasil e particularmente a sua ramificação presbiteriana se caracterizou por uma dificuldade crônica de ações propositivas com outras ramificações do cristianismo e uma incapacidade de dialogar com qualquer outra forma de religiosidade, fora do contexto cristão.
            No presbiterianismo o que temos são esforços de motivação pessoal no sentido de amalgamar as distintas denominações em atividades comum, como no caso especifico do Rev. Erasmo Braga que durante toda sua trajetória eclesiástica gastou-se e de se deixou gastar no propósito de tornar a IPB uma catalizadora de outras denominações protestantes no Brasil para uma agenda  mínima de ações cooperativas, entretanto, apesar de concretizar alguns de seus projetos ecumênicos, morreu nas proximidades de seu sonho mais acalentado, a formação do Confederação Evangélica do Brasil (CEB), que apesar de uma intensa agenda, foi totalmente esfacelada no período de ditadura militar, com pleno respaldo de todos os ramos protestantes nela representados.
            Uma das lideranças eclesiásticas, além do Rev. Erasmo Braga, que demandou toda sua energia para inserir a IPB em um âmbito mais amplo e internacional, que lhe possibilitaria maior visibilizacão de suas ações no Brasil e no Mundo, foi sem dúvida alguma a figura do Rev. José Borges dos Santos Jr. Um entre seus muitos esforços de tirar a denominação do isolacionismo em que ela se encontrava foi inseri-la no então recém-criado Conselho Mundial de Igrejas (CMI).[1]
Este Conselho foi fundado em Amsterdã em 1948 dentro de um espírito ecumênico que estava contaminando as mais diversas denominações cristãs na Europa e nos Estados Unidos, do pós-guerra:
Naquele ano de 1948, no pós-guerra, com cidades destruídas, nações dizimadas, milhões de refugiados e esperanças destroçadas, os delegados das igrejas, reunidos em Amsterdam, se reuniram ancorados em sua fé e proclamaram: “É nosso firme propósito permanecermos juntos.” Com esse compromisso renovado, o CMI conclama as igrejas a perseverarem na oração pela unidade. (Altmann, 2008)
O CMI vem na esteira das grandes Conferências Missionárias[2] das quais a maior e a mais significativa para nós (Brasil e América Latina) foi a realizada em Edimburgo em 1910,[3] que segundo Julio Fontana produziu três grandes movimentos:
a) Fé e Ordem é um movimento dedicado a trabalhar pela reconciliação das denominações divididas. As conferências foram realizadas em 1927, Lausanne e em 1937, Edimburgo.
b) Vida e Trabalho é movimento preocupado com a relação da fé cristã com as questões sociais, políticas e econômicas. As conferências foram realizadas em 1925, Estocolmo e em 1937, Oxford.
c) Concílio Missionário Internacional foi formado em 1921 e em 1961 se integrou formalmente ao Conselho Mundial de Igrejas. (2006, p. 01)
Neste momento histórico a IPB tem um representante, Rev. Samuel Rizzo, não como delegado oficial, mas apenas como observador, pois já se encontrava na Europa. Mas ele vai produzir um relatório e o encaminha à Comissão Executiva e sua opinião é que “a fundação do CMI era o evento mais importante para o protestantismo desde a Reforma do século XVI.” (ATAS do SC, 1946, p. 34, Apud, MATOS, 2009, p. 49).  É significativo que justamente neste ano de 1948, que nasce o CMI, é também o ano em que o Rev. José Borges dos Santos Jr. é eleito Presidente do Supremo Concílio da IPB de maneira que seu envolvimento com este Concílio Internacional é imediato e perdurara até o fim de sua vida.
Mas mesmo tendo um parecer tão positivo de seu único observador, a IPB opta por não assinar sua filiação ao CMI, canonizando a famosa frase “se manter equidistante[4] que foi a alternativa encontrada para apazigua as duas correntes que já estavam se cristalizando em seu seio, os liberais, que desejavam a filiação, e os conservadores que não concordavam com as propostas ecumênicas e liberais do CMI. Outra razão para esta postura é que a IPB estava sofrendo com o extremismo do fundamentalismo defendido pelo Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (CIIC), fundado por Carl McIntire, que acabou desencadeando a crise no Seminário do Norte com Rev. Israel Gueiros.[5] Mas esta posição de neutralidade, não será suficiente para manter a unidade da denominação, conforme se revela na continuidade da sua história denominacional.
Em um primeiro momento está “equidistância” foi muito mais aparente do que de fato, pois muitas lideranças da IPB mantiveram um relacionamento umbilical com o CMI, inclusive o Rev. Borges, então seu Presidente por oito anos consecutivos. Um exemplo ilustrativo desta ambiguidade é que enquanto no jornal oficial Brasil Presbiteriano saia diversos artigos e editoriais contrários a CMI, principalmente por causa da política ecumênica com o catolicismo, a então Secretaria Executiva do SC recomendava o “excelente livrinho editado pelo CMI com muito bem elaborados estudos bíblicos” que estava sendo enviado a todos os ministros. (BP, mar, 1962, p. 12, Apud, MATOS, 2009, p. 49). E o Rev. Julio Ferreira, em seu relatório sobre Shaull, tratando sobre a questão relacionada ao ecumenismo revela esta ambiguidade da igreja:
É sabido que a posição de nossa igreja é de “equidistância”. Essa equidistância é mais de jure do que de fato, visto que através (sic) de organizações estamos ligados ao Concílio Mundial e não ao Internacional. Estamos ligados aos Boards de Nova York e Nashville, à Confederação Evangélica, à Aliança Mundial Presbiteriana, etc. Contudo, a “equidistância" foi uma tentativa de acomodação, creio eu, visto que nossa igreja não estava preparada para isso. (FERREIRA, 1957, p. 50, Apud, CASTRO, 2011, p. 86)
Apesar de promover diversos eventos no mundo todo, a atividade mais importante do CMI sempre foram suas Assembleias Gerais que ocorrem a cada sete anos, onde seus programas são revisados e de onde emanam suas políticas diretivas. A cada assembleia geral é eleito um presidente e indicado um Comitê Central que vai atuar nos interregnos até a próxima assembleia.
            As suas primeiras assembleias foram: a primeira em Amsterdã (Holanda – 1948)[6] cujo tema foi “As desordens humanas e os desígnios de Deus”; a segunda em Illinois (EUA – 1954) e o tema foi “Cristo – esperança do mundo”;[7] a terceira em Nova Deli (Índia – 1961) em que o tema central era “Jesus Cristo – luz do mundo”; a quarta ocorreu na cidade de Uppsala (Suécia – 1968) tendo o tema “Olhem! Eu faço novas todas as coisas”.[8]
O Rev. Borges comparece à 3ª Assembleia (novembro de 1961) que aconteceu na cidade de Nova Delhi (Índia),[9] como representante da Confederação Evangélica quando da sua integração ao Concílio Internacional de Missões, filiando-se desta forma ao CMI; ele participa da Reunião da Conferência Internacional de Migração do CMI, onde vai atuar constantemente e também participa como observador da Assembleia Geral do CMI. Retornando ao Brasil redige um Relatório[10] entusiasta encaminhado ao CE/SC da IPB em fevereiro de 1962.
Neste Relatório Borges procura derrubar algumas “desinformações” que vinham sendo vinculadas pelos Fundamentalistas e que vinha sendo combustível para os discursos dos conservadores presbiterianos para aterrorizar a membresia alienada dos fatos reais. Destaca ele que o CMI mantinha total respeito pelas doutrinas peculiares de cada um de seus membros, e demonstra serem infundadas as informações de que a CMI adotara as doutrinas comunistas, conforme suas palavras:
Essa acusação me parece notabilíssima em face dos estudos realizados pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela qualidade do trabalho de interesse nitidamente missionário que vem procurando promover.
Aliás, convém salientar que o mal muito grande seria se o Conselho Mundial de Igrejas, ou qualquer igreja em particular, fosse anticomunista, anticapitalista, antimonarquista, isto é, contra essa ou contra aquela corrente, para se colocar levianamente, a favor de outra: porque a Igreja não foi instituída para se colocar na defesa de nenhuma ideologia, e sim para ser testemunha de Jesus Cristo. No choque entre a ideologia terrena como, por exemplo, entre Imperialismo e Colonialismo, a Igreja tem de ser apenas a coluna e firmeza da verdade. (p. 03, Apud PAIXÃO JUNIOR, 2000, Anexo A - Itálico meu).
As palavras destacadas serão o norte a guiar o Rev. Borges em todas as suas ações e posicionamentos ecumênicos, que o levou a se colocar em desacordo mesmo com aqueles que o admiravam, caso da Mocidade Presbiteriana, ou companheiros com os quais tinha imensa admiração e afinidades, como o caso de Richard Shaull, como vistas aqui nesta dissertação.
Mas o clima para a reunião do Supremo Concílio de 1962 estava em ebulição, documentos subindo dos presbitérios e artigos no Brasil Presbiteriano, condenando qualquer ligação com o CMI, se multiplicavam. Todavia seu Relatório provocou a nomeação de uma Comissão, conforme registrado no Digesto, para estudar a questão de filiação ao CMI:[11]
CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS - Quanto ao Doc. 145 - Destaque nº 1 do Relatório do Presidente do SC sobre CMI - a CE-SC/IPB resolve: 1) Apreciar o esforço do Rev. José Borges dos Santos Jr., Presidente do SC, no sentido de proporcionar à CE-SC/IPB as preciosas informações contidas no Doc. 145, sobre o Conselho Mundial de Igrejas; 2) Tomar conhecimento das conclusões feitas sobre a 3ª Assembleia Geral do CMI; 3) nomear uma comissão para estudar o assunto em todos os seus ângulos e apresentar a esta CE-SC/IPB os resultados destes estudo. A comissão [e a seguinte, dividida em três grupos: NORTE: Reverendos Dr. Abelardo P. Barreto, Dr. Othon G. Dourado, João Dias de Araújo e Pb. Maurício Wanderley. CENTRO: Reverendos Domício P. de Mattos, Dr. Benjamim Moraes, Thiago Rocha, Rodolfo Anders e Pb. Waldo César. SUL: Reverendos Wilson Lício, Sebastião Machado, Mário de Cerqueira Leite Jr., Francisco Alves e Júlio Ferreira.( CE-62-004 – Itálico meu)
Conforme seus Relatórios: em 1962 ele amplia sua participação junto ao CMI participando das reuniões com o Centro de Estudos, Movimento Ecumênico e o Setor de Migração. Em 1962/63/64 ele vai participar de encontros da “Inter-Church-Aid” em Rochester e em Genebra; em 1966 ele vai participar da Divisão de Auxílios Intereclesiásticos e Subdivisão de Refugiados (Genebra), em 1967 em duas reuniões em New York e Genebra. A partir de 1968, já fora da Comissão Executiva da IPB e às portas da sua jubilação compulsória ele não participa da 4ª Assembleia Geral na Suécia.
            Em decorrência de todas estas participações no exterior, ele teve que solicitar ao Conselho da IPJO sua liberação do campo pastoral conforme registro nas Atas da IPJO: n° 17 (24/09/1962) “Viagem do Rev. Borges aos Estados Unidos da América do Norte no período de 08 a 20 de Outubro de 1962, como representante da IPB”; n° 48 (16/07/1964) “Como membro da comissão de Auxílio Intereclesiástico Internacional do Conselho Mundial de Igrejas, na cidade de Iutzing na Alemanha, bem como na qualidade de Vice-Presidente para a America Latina da Aliança Presbiteriana Mundial, participar da Assembleia que se realizará na cidade de Frankfurt”; n° 80 (28/10/1966) registra-se “viagem do Rev. Borges aos Estados Unidos da América e Europa: ‘Interchurch Aid’ em Genebra e Congresso da ‘National Concil of Churches’ em Nova York”; n° 86 (20/04/1967) registra-se “viagem do Rev. Borges a Nova York para participar da reunião do ‘Interchurch Aid’ e posteriormente para Guatemala para encaminhar anteprojeto para uma Universidade Evangélica” e o último registro na Ata n° 92 (30/10/67) “viagem do Rev. Borges para a Suíça ‘Interchurch Aid’ do Conselho Mundial de Igrejas”.
            Fica evidente em todas estas informações o quanto o CMI tinha na ótica do Rev. Borges uma importância estratégica no seu esforço permanente de inserir a IPB na rota dos grandes movimentos que estavam acontecendo no mundo, bem como o fato de que seu posicionamento ecumênico não era fruto de um entusiasmo juvenil, mas demonstra ser uma caminhada firme dentro de um propósito amadurecido ao longo dos anos de sua vivência eclesiástica e fé.
            Entretanto, a IPB manteve inalterada sua opção de permanecer “equidistante” não apenas dos grandes movimentos internacionais, mas também de qualquer movimento evangélico que a tirasse de sua zona de conforto eclesiástico.
            A ideia perpetuada desta igreja em particular e de suas coirmãs denominacionais, de que cada uma isoladamente se basta; de que o mais importante é manter seu status quo teológico; de erigir e usufruir de seus feudos eclesiásticos são mais importantes e mais relevantes do que a busca e o esforço de uma unidade cristã.
            Quem perdeu com este comportamento eclesiástico narcisista e mesquinho foi a própria igreja cristã que ficou à mercê dos predadores que se apropriaram da mensagem cristã e desde então a têm delapidado e desfigurado; perde a nação brasileira cuja sociedade acaba por ficar sem um referencial social-ético genuinamente cristão, de maneira que a grande massa populacional se torna um rebanho dócil nas mãos de políticos corruptos, cujo discurso são roteiros de ideologias nefastas.
            Durante toda sua longa história de mais de 150 anos de atuação no Brasil, os protestantes e seus seguimentos denominacionais, todas as vezes que foram chamados a assumirem papeis de relevância na história nacional, optaram e continuam optando por voltarem as costas para o país e se esconderem no território “seguro” de suas eclesiologias. Pobre Brasil, que carente de líderes dignos, continuará tendo como única opção os espinheiros, porque os grandes carvalhos, e as frutíferas oliveiras e videiras, permanecem “equidistantes”.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

Referências Bibliográficas
ALTMANN, Walter. 60 anos do Conselho Mundial de Igrejas: marcas de um rio vivo. Publicação Virtual de KOINONIA  Ano 3 - Nº 12, Setembro de 2008. Disponível em http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.asp?cod_artigo=238&cod_boletim=13&tipo=Artigo. Acesso em 20/05/2013.
CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.
FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1 e 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1957.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LUZ, Waldyr Carvalho. Nem General nem Fazendeiro, Ministro do Evangelho. Campinas: Luz Para o Caminho, 1994.
MATOS, Alderi Souza de. Uma Igreja Peregrina – história da Igreja presbiteriana do Brasil de 1959 a 2009. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.





[1] O material abaixo faz parte integrante de minha dissertação de Mestrado, posteriormente editada conforme referência bibliográfica (GUEDES, 2013).
[2]As grandes Conferências Missionárias iniciam em 1854 (Nova York), 1860 (Liverpool), 1888 (Londres), onde a América Latina começa a ser pensada como campo missionário, 1900 (Nova York), onde pela primeira vez comparecem missionários que atuam na América Latina. (PIEDRA, 2006, p. 26-27).
[3] Erasmo Braga através do jornal O Puritano, do qual era um dos fundadores e também seu editor, acompanha e divulga o que esta ocorrendo nestas Conferências, particularmente após a de 1900 da qual ele escreve dois editoriais municiado por informações de primeira mão recebidas dos diversos missionários ligados ao Brasil, entre eles George W. Chamberlain e John M. Kyle, que estiveram presentes na Conferência. Na de 1910 a IPB terá um observador oficial, o Rev. Álvaro Reis, que fora eleito neste mesmo ano o primeiro Moderador (Presidente) da Assembleia Geral (Supremo Concílio). Ele observa que a AL esta sendo ignorada na questão missionária internacional.
[4] ATAS do SC, 1950, p. 32, Apud, MATOS, 2009, p. 49; reafirmada na CE-52E-002; SC-62-153 e permanece inalterada ainda hoje.
[5] Conforme analisada em momento anterior da pesquisa.
[6] A Igreja Metodista do Brasil é uma das igrejas membros fundadoras.
[7]Waldo Cesar (IPB), como presidente da União Latino-americano da Juventude Evangélica (ULAJE), Secretário Executivo da Mocidade Presbiteriana e trabalhando na Confederação Evangélica do Brasil desde 1953, participa ativamente dos trabalhos e ainda escreve uma série de reportagens relatando-o e analisando a situação dos protestantes no Brasil, na Revista Cruz de Malta da Igreja Metodista. Ele escreve sobre a omissão da igreja: “[...] Este silêncio da Igreja está durando [...] Por que ela não se pronuncia sobre a situação desconcertante do mundo de hoje? As doutrinas políticas e sociais tomam conta de todos nós, em doses diárias. No entanto, o púlpito nada diz.” (Revista Cruz de Malta, 1955, p. 86). É aqui também que acontecera o encontro dele com Richard Shaull, que também estava presente a convite de Paul Albrecht, um dos organizadores da Conferência, para elaborar um texto sobre as questões religiosas e sociais da América Latina. Nasce aqui uma parceria que permaneceria até o fim de suas vidas, transpassando todas as agruras e intempéries que haveriam de enfrentar.
[8] As demais, inclusive a que ocorreu no Brasil estão fora do recorte histórico desta pesquisa, mas podem ser encontradas informações em Paixão Junior (2000, p. 96), conforme referências bibliográficas.
[9] Muitos pesquisadores seguem a opinião pessoal de Olivetti (2000) de que foi a partir desta Conferência que Borges vai defender um ecumenismo mais amplo, o que não corresponde com os fatos, conforme esta pesquisa demonstra.
[10] Paixão Junior coloca na integra em seus anexos este Relatório de Borges apresentado em fevereiro de 1962 à Comissão Executiva do Supremo Concílio da IPB (2000, Anexo A).
[11] O Professor Rev. Waldyr C. Luz se fazia presente neste Concílio e detalha os bastidores das discussões em plenário, composição da Comissão, entre outros o Rev. José Borges dos Santos Jr e sua proposição final que foi aprovada e perdura até hoje (1994, p. 275-277).

sexta-feira, 25 de março de 2016

MARCIÃO: Uma Voz Discordante*


Marcião (85-160 d.C.)
Introdução
         Desde seu gênesis o Cristianismo trouxe em seu bojo paradoxos dos mais variados tipos. Nunca faltaram as grandes polêmicas que se estendiam por anos até que a minoria acabava sendo calada ou extirpada da vida da Igreja.
         Ainda nos primeiros anos vemos as dificuldades cada vez mais crescentes de se manter uma coesão no que concerne a mensagem única do cristianismo. Já nas correspondências paulinas podem se perceber a facilidade com que os princípios e ensinos do evangelho tomavam inúmeras direções, em sua grande maioria contrastante.
         Mas toda esta multiformidade do Cristianismo não é uma característica negativa, ao contrário, é o que tornou o Cristianismo uma religião transcendental em seu alcance multicultural, possibilitando atravessar não apenas as fronteiras geográficas, mas, principalmente, as barreiras temporais. Deste modo, em todos os tempos o Cristianismo teve que enfrentar não apenas seus adversários externos, mas invariavelmente seus embates internos, que o obrigava a periodicamente revisar seus preceitos e dogmas.
         Tudo isto torna a História do Cristianismo algo fascinante e enriquecedor para qualquer um que se disponha a debruçar-se sobre ela. A História do Cristianismo é tudo, menos, sonolenta ou enfadonha. Caminhar na estrada da História do Cristianismo é se surpreender a cada curva, pois sempre acabamos por descobrir novas peculiaridades e nuanças.
         Neste pequeno opúsculo traremos à tona um personagem do segundo século que ousadamente defendeu ideias contraditórias ao consenso da maioria e que por esta razão acabou atiçando a ira dos detentores da verdade cristã. Marcião, ainda que classificado por muitos como herege, fez pelo Cristianismo muito mais do que centenas de outros que apenas repetiram como papagaios os conceitos que lhes foram passados. O posicionamento e questionamento de Marcião possibilitaram ao Cristianismo uma profunda e ampla autoanálise da qual emergiu-se um Cristianismo mais maduro e consistente. 

Origem
         Marcião (81-160) nasceu em Sinope, no Ponto, às margens do Mar Negro, filho do bispo cristão do lugar, o qual o expulsou, ainda que não saibamos o real motivo. Rico dono de muitos navios. Transferiu-se para Roma por volta de 139, filiou-se à congregação romana, destinando uma quantia volumosa em dinheiro às suas obras de benemerência. [1]
         Entretanto, seu esforço no sentido de fazer com que a Igreja romana voltasse ao que ele considerava o Evangelho de Cristo e de Paulo resultaram na sua própria excomunhão, por volta de 144. Tendo a esta altura atraído muitos seguidores, fundou uma igreja separada. [2]
         Relativamente pequeno é nosso conhecimento sobre Marcião visto que seus trabalhos foram destruídos, ou perdidos, ou ambos. O que é conhecido da sua vida, obra e teologia são encontradas nas obras de seus opositores Justino Mártir (110-165), Ireneu (120-202), Epifanio (ca. 315-403) principalmente Tertuliano, [3] que escreveu uma grande obra refutando as teses marcionitas, por volta de 207 d.C., e que se por um lado se reconhece sua grande habilidade e valor retórico, também se percebe um grau acentuado de arcaísmo intransigente. A obra a qual se refere Tertuliano denomina-se “Antíteses” e que possivelmente devia se constituir em duas partes: uma histórica e dogmática, destinada a demonstrar como o autêntico Evangelho havia sido alterado, e outra exegética, para explicar o texto do Novo Testamento.

Epítome de Seus Conceitos
         Marcião foi o mais sério e prático dentre os primeiros críticos do Cristianismo. Cheio de energia e zelo, ainda que inquieto, rude e muitas vezes excêntrico. “Marcião não era o tipo que devia ser considerado respeitador de tradições. Antes valia o contrário a seu respeito”.[4] Ele antecipou em muitos séculos as grandes perguntas relacionadas à moderna crítica bíblica e ao cânon. Ele antecipou a oposição do racionalismo ao Antigo Testamento e às chamadas Epístolas Pastorais e o debate concernente ao Jesus Histórico.
A base das ideias de Marcião é muito semelhante a dos chamados gnósticos, sintetizadas no livro “Antíteses”, onde quis mostrar os contrastes entre o Velho e o Novo Testamento. A sua grande questão foi a de relacionar um com o outro, pois sendo um anti-legalista entendia que o Evangelho tinha sido distorcido, tornando-se necessário recolocá-lo na simplicidade e verdade que Jesus havia anunciado. Marcião insistia que a Igreja havia obscurecido o Evangelho por procurar harmonizá-lo com as idéias do Velho Testamento.
Ele e seus posteriores seguidores afirmavam que Jesus Cristo trouxera uma concepção de um Deus de amor, enquanto que o Deus do Velho Testamento era vingativo, criador de um mundo mal e da lei judaica, portanto devia ser rejeitado pelos cristãos; o Deus de amor nada tinha a ver com a lei, existindo uma diferença absoluta entre justiça e misericórdia, entre ira e graça.
Para ele não era pela fé na morte de Jesus que o homem é salvo, mas pela fé num Deus revelado por Jesus e isso era a negação de um dos aspectos básicos da linha tradicional da Igreja e com certo cunho modalista, afirmava que Jesus Cristo é outro nome do Deus bom. O “deus do Velho Testamento” conseguiu a sua crucificação, só que ele não morreu, tendo havido apenas uma ilusão. Para aqueles que insistem na separação entre alma e corpo, colocando o aspecto físico como mal e o espiritual como bom, é quase inevitável cair numa ideia docetista a respeito da natureza humana de Cristo.
         O que mais encantava Marcião era o espírito de liberdade que ele encontrou nos escritos e ensinos do apóstolo Paulo, sendo que considerava maravilhosa a carta aos Gálatas. A sua concepção do cânon bíblico ficou muito simples: só o Evangelho de Lucas, eliminando dele o relato do nascimento e infância de Jesus, as dez cartas de Paulo sem as pastorais, rejeitando o resto do Novo Testamento e todo o Velho Testamento. [5]
         Ainda que muitos confundem as ideias de Marcião com o movimento Gnóstico, ambos permaneceram como linhas paralelas. [6] A evolução destas suas ideias deu origem ao movimento marcionista que cresceu e perdurou por muitos séculos. Vestígios desse movimento foram encontrados em vários lugares no século sexto, abrangendo uma área geográfica da Mesopotâmia até a França, e o número de livros polêmico mostra quão difundido estavam suas idéias. [7]
Reações e Consequências
          O posicionamento e questionamento de Marcião provocaram por parte da Igreja uma resposta imediata. Esta resposta pode ser vista através de algumas ações alavancadas pelos líderes cristãos e que ainda hoje permanecem inalteradas. [8]
O próprio estabelecimento de um Cânon do Novo Testamento tornou-se indispensável, visto que Marcião havia estabelecido o seu próprio Cânon. Os Evangelhos foram os primeiros a atingir reconhecimento geral. É importante notar que cedo os Cristãos decidiram incluir mais do que um Evangelho em seu Cânon, como uma resposta direta ao desafio de Marcião que incluía apenas Lucas. Pelo fim do segundo século, o núcleo do Cânon estava estabelecido: os quatro Evangelhos, Atos, e as epístolas de Paulo, incluindo as chamadas pastorais, rejeitadas por Marcião. Os livros mais curtos do Cânon, não alcançaram consenso até uma data bem mais tarde. Isto ocorre apenas na segunda metade do quarto século onde um consenso completo foi alcançado sobre quais os livros que deveriam ser incluídos no Novo Testamento. [9] “Historicamente, a decisão da Igreja, de formar o cânone, estabelecendo uma norma para seu ensino e doutrina, determinou o fim da história da Igreja Antiga e o início da história da Igreja Católica Primitiva”. [10]
         Um outro desdobramento direto dos posicionamentos de Marcião é a elaboração do Credo Apostólico. Seu texto básico foi estabelecido, provavelmente em Roma, cerca do ano 150. E foi então chamado de "símbolo de fé."[11]
O símbolo de fé era um meio de reconhecimento, tal como um símbolo que um general dava para um mensageiro de modo que o recipiente podia reconhecer um mensageiro verdadeiro. Igualmente, o "símbolo" estabelecido pelos líderes cristãos deveria distinguir os crentes verdadeiros dos que seguiam outras diretrizes, particularmente o Gnosticismo e Marcionismo.
Um dos principais usos deste símbolo estava no batismo, onde era apresentado ao candidato uma série de três perguntas:
 Você crê que Deus é o onipotente Pai?
 Você crê em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncío Pilatos, e morreu, e ascendeu outra vez no terceiro dia, vivendo de dentre os mortos, e ascendido aos céus, está assentado à direita do Pai, e virá outra vez para  julgar os vivos e os mortos?
Você crê no Espírito Santo, na igreja sagrada, e na ressurreição do corpo?
Uma análise mais de perto claramente mostra que este Credo é direcionado contra os Marcionitas. Primeiro, o pantokrator  é uma palavra Grega, usualmente traduzida como "onipotente", e literalmente como aquele que "tudo controla". A idéia aqui é que Deus controla tanto o mundo espiritual, quanto o mundo material sem qualquer distinção entre eles, que era uma tese de Marcião.
         O parágrafo mais extenso do credo é o procedimento (origem) do Filho. Isto porque era precisamente em sua Cristologia que Marcião se diferenciava mais amplamente da igreja. Primeiro nos é dito que Cristo Jesus é o "Filho de Deus”. Outras versões antigas dizem "Filho do mesmo" ou "Seu Filho." Jesus é o Filho do Deus que controla acima deste mundo e acima de toda realidade. O nascimento "de Maria a virgem" não é primeiramente para acentuar o nascimento virginal, completamente claro, mas para melhor assegurar o fato de que Jesus nasceu e não apenas se fez simplesmente aparecer na terra, como Marcião afirmava. A referência a Poncio Pilatos não é simplesmente para colocar a culpa no governador Romano, mas para melhor datar o evento como que insistindo no fato de que isto foi um fato histórico, um evento datável. E, além disso, era negado que Jesus "foi crucificado… morto, e ascendeu outra vez”. Finalmente, é asseverado que este mesmo Jesus voltará "para julgar", uma noção que Marcião jamais poderia aceitar.
          A "santa igreja" é assegurada porque Cristãos estavam começando a subestimar a autoridade da igreja. E a "ressurreição do corpo" é uma rejeição final a qualquer noção de que a carne é má ou de que não haverá nenhuma conseqüência.
Conclusão
         Dos primeiros movimentos internos do Cristianismo com certeza este protagonizado por Marcião foi um dos maiores em sua repercussão. Separou o Cristianismo de suas raízes históricas de modo radical. Ousou tocar numa doutrina fundamental do Cristianismo, a encarnação real de Jesus; não apenas desautorizou o Antigo Testamento, como teve a ousadia de colocar Deus no banco dos réus.
         Tudo isto pode parecer inverossímil nestes nossos dias, mas em seu contexto histórico próprio havia muitas justificativas para protesto de tal sorte. A voz destoante de Marcião atendia na verdade a um anseio crescente contra toda espécie de legalismo, que estava agonizantemente tentando sobreviver incubado dentro do Cristianismo.
         É muito cômodo “crucificarmos” Marcião, o difícil mesmo é termos a mesma ousadia que ele teve de ir contra a maioria e defender suas idéias. O Cristianismo com certeza não seria o que é e bem provavelmente não chegaria tão longe quanto chegou sem os “Marciãos” que exigem uma auto-depuração continua.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica

Artigos Relacionados
Razões para Ensinar História da Igreja
Síntese da História da Igreja Cristã - 2º Século
Síntese da História da Igreja Cristã - 1º Século
História Igreja Cristã - Contexto Inicial
Atos o Primeiro Documento Histórico da Igreja Cristã
Perseguições do Império Romano à Igreja: Nero a Marcos Antônio
Perseguições Império Romano à Igreja: Severo ao Edito de Tolerância
Carta de Plínio, o Moço ao Imperador Trajano sobre os Cristãos
História da Igreja Cristã - Imperador Constantino: Herói ou Vilão


Referências Bibliográficas
Dreher, Martin N. Coleção História da Igreja, v.1, A Igreja no Império Romano, ed. Sinodal, São Leopoldo, 2002.
Boutruche, Robert e Lamerle, Paul. Judaísmo e Cristianismo Antigo de Antíoco Epifânio a Constantino, ed. Pioneira, São Paulo, 1987.
Almeida, Joãozinho Thomaz de, As Marcas de Cristo na História dos Homens, edição do autor, Rio de Janeiro, 1989, pp.79-80.
Walker, Williston. História da Igreja Cristã, v.1, ed. ASTE, São Paulo, 1967.
Harnack, Adolf Von. History of Dogma, v. I, Published by Boston, Little, 1901, pp. 266-281.
Carrigan, Cky J. Marcion and Marcionite Gnosticism, 1996, mídia eletrônica:http://ontruth.com/marcion.html
Bradshaw, Robert I. Marcion: Portrait of a Heretic, 1998, mídia eletrônica:http://www.robibrad.demon.co.uk/Marcion.htm
The Catholic Encyclopedia, Volume IX, Online Edition Copyright © 2003 by Kevin Knight.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
*Pesquisa apresentada em cumprimento às exigências da disciplina do Prof. Eduardo Hoornaert - de Pós-Graduação Latu Sensu - Formação de Docentes em História do Cristianismo
[1] Segundo Tertuliano ele fez à comunidade Romana uma oferta de duzentos mil sesterces logo depois sua chegada. Esta oferta extraordinária de 1400 libras (7000 dólares), uma soma enorme para aqueles dias, podem ser atribuídos aos primórdios de uma fé entusiástica, entretanto segundo informações o dinheiro foi voltado para ele depois sua ruptura com a Igreja.
[2] “Justino (Apol. 1. 26) em 150 relata que a pregação de Marcião tinha se espalhado em "kata frita genos anthropon" e pelo ano 155, os Marcionitas já eram numerosos em Roma (Iren. III. 34)”. Harnack, Adolf Von. History of Dogma, v. I, Published by Boston, Little, 1901, [nota nº 1], mídia eletrônica: http://www.gnosis.org/library/marcion/hnts.html#1
[3] Quintus Septímius Forens Tertulianus nasceu em Cartago, filho de um centurião, educado na lei romana e nas artes liberais, já importante advogado quando aceitou o cristianismo, não constando que tenha sido ordenado para a vida religiosa mas, mesmo assim, recebeu o encargo de instruir os catecúmenos. Ao utilizar o latim, língua do povo, tornou-se fundamental para a preservação de um cristianismo mais puro. Exerceu grande influência sobre Cipriano e mais tarde suas obras marcariam profundamente Agostinho. Era freqüentemente injusto para com seus oponentes e incoerente consigo mesmo. Apesar disto, o intenso fervor espiritual que demonstrava tornava sempre admirável o que escrevia.
[4] Dreher, Martin N. Coleção História da Igreja, v.1, A Igreja no Império Romano, ed. Sinodal, São Leopoldo, 2002, p.35.
[5] “A criação de um Novo Testamento constitui um fato importante, não apenas porque Marcião conferiu à sua teologia um fundamento enraizado nas Escrituras, mas ainda porque parece ter sido o primeiro a reunir em uma coleção normativa os escritos de origem apostólica”. Boutruche, Robert e Lamerle, Paul.Judaísmo e Cristianismo Antigo de Antíoco Epifânio a Constantino, ed. Pioneira, São Paulo, 1987, p.157.
[6] Harmack afirma: “MARCIÃO não pode ser classificado dentre os Gnósticos no sentido estrito da palavra”. Depois enumera uma série de argumentos que demonstram esta sua afirmativa. Harnack, Adolf Von, Op. cit. “E. Furguson identificado três diferenças significativas entre a teologia de Marcião e do Gnosticismo: Marcião fez da revelação escrita seu padrão para verdade; Ele encorajou a organização da igreja, e ele rejeitou a especulação e alegoria. Furguson, E. "Marcion" in Evangelical Dictionary of Theology, edited by Walter Elwell (Grand Rapids: Baker, 1984), 686.
[7] Os mais evidentes Marcionitas foram: Prepo, Lucanus (Assírio), e Apelles. Eles fundamentaram o sistema do mestre de modo a atenuar a antipatia ao Judaísmo. Ambrosius, um amigo de Origenes também foi um Marcionita, ainda que  posteriormente o renunciou.
Na Itália, Egito, Palestina, Arábia, Síria, Ásia Menor e Pérsia, igrejas Marcionitas se estabeleceram, esplendidamente organizada, com seus próprios bispos e o manual da disciplina eclesiástica, com um culto e serviço da mesma natureza daquelas que subseqüentemente se estabeleceu a Igreja Católica.
[8] Constantino proibiu a liberdade dos cultos público ou particulares dos Marcionitas, por contrariarem os dogmas do Cristianismo, que iniciava sua escalada rumo à religião oficial do Estado. O código de Teodosiano os menciona unicamente uma vez. Mas eles existiram no quinto século quando Theodoret contado vantagem “converter” mais de um mil deles, e o Conselho de Trullan de 692 pensado neles faz provisão à reconciliação dos Marcionitas.
[9] “Floyd Filson escreveu “De todos os eventos que apressaram a formação do cânon do Novo Testamento, nada teve mais influencia do que a ação de Marcião. Não podemos dizer que Marcião criou a idéia de um cânon do Novo Testamento, mas ele teve uma  influência certamente grande." Filson, Floyd V. Which Books Belong in the Bible? (Philadelphia: Westminster, 1956), 113.
[10] Dreher, Martin N. Op. cit., p. 36.
[11] Isto é mantido por estudiosos de que o Credo Apostólico foi elaborado pela Igreja Romana em oposição ao Marcionismo (cf. F. Kattenbusch, "Das Apost. Símbolo.", Leipzig, 1900; A.C. McGiffert, " Credo Do Apóstolo", Nova Iorque, 1902).

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

GLOSSÁRIO DE HERESIAS

            Desde os primórdios do cristianismo sempre surgiu ideias e conceitos divergentes que no todo ou em parte deturpavam os princípios bíblicos que ortodoxamente estavam sendo estabelecidos. O processo histórico dos dogmas do cristianismo ou a História dos dogmas é um tema fascinante para percebermos que o cristianismo é algo vivo, dinâmico e que foi sendo forjadas na bigorna dos séculos sob o fogo incandescente das batalhas teológicas.
            As heresias e seus hereges (aqueles que as ensinaram ou defenderam) nem sempre eram pessoas que desejavam destruir o cristianismo ou até mesmo negavam as verdades emanadas da Bíblia, em um número expressivo de casos é justamente o contrário, essas pessoas imbuídas de fortes convicções defendiam suas opiniões, contrastantes, entendendo que contribuíam para uma melhor interpretação das verdades bíblicas e, portanto, contribuíam para uma Igreja Cristã melhor. Todavia, historicamente podemos observar que apesar de toda boa vontade, ou não, essas opiniões divergentes se provaram incoerentes e inconsistentes com o estudo mais amplo e fecundo das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Essas heresias não são privilégio do cristianismo primitivo ou mesmo do cristianismo católico, pois mesmo após a Reforma Protestante e do cristianismo dela emanado, continuam a proliferar aqueles que se posicionam à margem da ortodoxia clássica cristã. 
As heresias, ou seja, as opiniões divergentes em relação ao conjunto de verdades estabelecidas pela Igreja Cristã, podem ser divididas por temas ou áreas:  as relacionadas à Natureza de Deus; as relacionadas à natureza de Jesus; as relacionadas à natureza da Salvação; as relacionadas à natureza humana e as relacionadas à natureza da Igreja.
Esse pequeno glossário, que será paulatinamente ampliado, não tem pretensões maiores do que apenas indicar temáticas que já tem sido exaustivamente abordado em minúcias por uma infinidade de estudiosos ao longo desses XXI séculos de existência do Cristianismo.

ADOCIANISMO [Adopcianismo]: seus propositores declaravam que Jesus não foi realmente Deus, mas apenas um homem que revestido de graças especiais alcançou uma espécie de condição divina quando de seu batismo, no rio Jordão, efetuado por João Batista. Assim, se explica os poderes sobrenaturais e miraculosos de Jesus, bem como sua ressurreição. Essa ideia de que Cristo tinha sido apenas um ser humano que foi "adotado" como filho por Deus provou ser uma heresia persistente. Esse conceito, defendido ardorosamente por Teodoro da Bizantina, foi reiteradamente condenada pelo Papa São Victor I, que excomungou Teodoro. Em duas outras ocasiões 785 e 794 d.C. foi rejeitada pelo então Papa Adriano I. Por fim, quando trazida novamente à tona por Pedro Abelardo, no século XII, o Adocionismo foi novamente condenado pelo Papa Alexandre III em 1177.

ANOMEANISMO: vem da palavra grega anomoios – “dessemelhante” e se constitui em uma variante radical do arianismo. Os seus defensores consideravam que havia uma diferença de essência entre Deus e Cristo, uma vez que segundo eles Deus sempre existiu enquanto Cristo foi criado por Deus, de maneira que negavam a divindade de Jesus e refutavam a consubstancialidade e semelhança com o Pai. Também eram chamados de “aecianos” e “eunomianos” em referência aos nomes de seus dois maiores expoentes: Aécio, era sírio, diácono de Antioquia e estabelece suas teses a partir da dialética da Lógica clássica de Aristóteles, hábil polemista ; e Eunômio, da Capadócia, que se torna seu discípulo, todavia, com pouco tempo eclipsou o mestre por sua personalidade carismática e pela capacidade dialética. O Concílio de Constantinopla (381 d.C.) depôs Aécio do diaconato e pouco tempo depois Eunômio foi exilado. Foi Basílio de Cesaréia um dos que refutaram suas teses em seu tratado “Sobre o Espírito Santo”, de maneira que é possível resgatar a argumentação deles com base nas partículas ou preposições: de quem, por quem e em quem – pelas quais eles concluíram a diversidade de natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo. São denominados também de semi-arianismo e “radicais da segunda geração ariana”.   Apesar de ter constituído uma organização eclesiástica, centrada em Constantinopla, e investido vários bispos, após a morte de Eunômio (394 d.C.) essa comunidade e sua doutrina desapareceram. A maioria dos escritos de Eunômio foram queimados por ordem do imperados Arcádio, mas uma parte deles foram preservados pelos seus discípulos e podem revelar a sutiliza e sagacidade de sua mente lógica.


APOLINARIANISMO: vem do nome de seu mentor, Apolinário (310-390 d.C.), bispo de Laodicéia, na Síria (não confundir com Laodicéia na Ásia Menor), amigo de Atanásio e mestre de Jerônimo. Em seu labor para combater o Arianismo e estabelecer uma clara definição sobre a encarnação de Jesus, ele acaba por extrapolar os arraiais da teologia ortodoxa cristã. Sua doutrina, à semelhança dos teólogos de Alexandria, tem sido chamada de logos-sarx (Verbo-carne) e partindo da interpretação antropológica tricotômica (corpo, alma e espírito) ele concluiu que Cristo tinha um corpo humano, uma alma vivente, mas nenhuma alma racional (o centro da consciência, de tomada de decisões) que fora substituído em Jesus Cristo pelo divino Logos, ou Palavra de Deus. Ainda que seja interessante sua preposição ela esbarra no cerne da questão – Jesus deixa de ser plenamente humano, de maneira que ele não poderia ser o “representante/substituto legal” diante do tribunal da justiça divina. Gregório Nazianzeno argumenta contra a preposição de Apolinário declarando de que se o pecado tivesse contaminado apenas o corpo, esse Jesus seria suficiente para salvar os seres humanos, entretanto, o pecado contamina o ser humano em sua totalidade (corpo e alma) de maneira que o Verbo (Jesus) tinha que assumir a plenitude de nossa humanidade para ser o nosso salvador.  Esta teoria foi condenada nos sínodos romanos em 377 e 381 e pelo Concílio ecuménico de Constantinopla no último ano.

ARIANISMO: um conceito teológico que surgiu no século IV e que negava a divindade de Jesus Cristo. Seu mentor foi Ário (256-336), de onde vem o termo, um padre de Alexandria, que negou haver três Pessoas divinas distintas na Pessoa de Deus. Para ele, havia apenas uma pessoa, o Pai. Segundo a tese de Ario, o Filho foi criado (“Houve um tempo em que ele não era"). Cristo era, portanto, um filho de Deus, não por natureza, mas somente pela graça e adoção. Esta teoria logicamente esvaziava a doutrina da Encarnação de Deus em Cristo: se Deus não se tornou homem, então o mundo não foi redimido e a própria fé, eventualmente se dissolve. Arianismo foi formalmente condenado em 325 d.C. pelo primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, que formulou e promulgou a versão original do Credo de Nicéia; mas o arianismo e semiarianismo, no entanto, continuou a prevalecer na sua forma original em muitas áreas por mais de um século. O Arianismo foi combatida por Atanásio de Alexandria (296-373), entre outros; mas a heresia, no entanto, persistiu, especialmente entre os bárbaros, por vários séculos.

DONATISMO: Surgiu no meio da Igreja Africana do século V e ensinava que a validade dos sacramentos depende do caráter moral do ministro dos sacramentos e que os pecadores não podem ser verdadeiros membros da Igreja ou mesmo tolerada pela Igreja se seus pecados são conhecidos publicamente. Essa interpretação doutrinária teve início quando do movimento cismático em que os rigoristas questionaram que um bispo de Cartago, Caecillian (311), não era um verdadeiro bispo, por ser considerado um traidor ao entregar as Escrituras paras serem queimadas durante a perseguição promovida pelo Imperador Romano Diocleciano e um dos bispos que o ordenou, Felix de Aptonga, também havia sido um traidor. Os donatistas passaram a ordenar os seus próprios bispos, um dos quais era Donatus, de onde emana o nome da doutrina. Para eles o Bispo tinha que ser tão santo quanto seus ofícios. O Donatismo foi condenado pelo Papa Melquíades (311-314) e pelo (local) Conselho de Arles, em 314, mas, no entanto, persistiu no norte da África até a conquista muçulmana no século VII. O Donatismo cresceu a partir dos ensinamentos de Tertuliano e Cipriano e teve em Agostinho (354-430) um opositor ferrenho.


EBIONISTAS: vem do hebraico e significa "pobre") eram judeu-cristãos, que floresceu na Palestina nos séculos II a IV d.C., que insistiam que além da fé em Jesus Cristo era necessário a observância da lei e dos costumes judaicos (circuncisão, observância do sábado), mas rejeitavam os sacrifícios. Rejeitaram as cartas do apóstolo Paulo, porque em suas epístolas ele defendia que os gentios convertidos estavam isentos das questões judaicas. Consideravam a pobreza um princípio básico do cristianismo e seus bens eram de propriedade comum. A maior parte deles viviam na Transjordânia e na Síria Oriental. Os ebionitas foram rejeitados tanto pelos judeus quanto gentios-cristãos. Mas foram diminuindo gradualmente seu numero e influência a partir do segundo século.

GNOSTICISMO: a proposta teológica deles é que a salvação vem através de algum tipo especial de conhecimento, geralmente alcançado por um grupo de elite especial. A ideias primárias de um embrionário gnosticismo já existia antes do cristianismo, e muitos advogam que posteriormente, na medida em que a mensagem cristã foi alcançando largas dimensões, os gnósticos começaram a se apropriar dos conceitos evangélicos e adaptá-los em seus próprios pontos de vista e para os seus próprios fins, inclusive produzindo pseudos-evangelhos, através dos quais divulgavam seus conceitos e penetravam nos círculos cristãos.  O gnosticismo nega pontos essenciais das doutrinas cristãs e são descritos "entusiastas especulativos" partindo de seus fundamentos platônicos e orientais. Os gnósticos como uma seita organizado ou corpo de crenças tem sido extintos, mas as ideias gnósticas persisti, permeando praticamente todas as formas de desvios da fé cristã, manifestada em todas as formas sincretistas de amalgamar o cristianismo bíblico com as demais expressões de religiosidade vigente nas sociedades.


MANIQUEUS: eram de origem persa e foram chamados por esse nome em razão de seu fundador ter o nome de Mani, o qual foi morto no ano 276, por ordem do governo persa. Os maniqueus davam ênfase e ensinavam uma vertente dualista: "O universo compõe-se do reino das trevas e do reino da luz e ambos lutam pelo domínio da natureza e do próprio homem." Recusavam o Jesus humano, porém criam em um "Cristo celestial". Eram severos quanto à obediência ao ascetismo, e renunciavam ao casamento. Os maniqueus foram perseguidos tanto por imperadores pagãos, como também pelos cristãos. Agostinho, um dos grandes teólogo da igreja, era maniqueu, antes de se converter. O espírito ascético e celibatário deles permeou por séculos muitos pensadores cristãos.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog


Referências Bibliográficas
BERNARD SESBOUE, SJ (Direção). O Deus da Salvação – séculos I a VIII. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 2ª ed. [História dos Dogmas, Tomo 1].
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006. [v. 1].
GONZÁLES, Justo (Ed.). Dicionário ilustrado dos interpretes da fé. Tradução Reginaldo Gomes de Araujo. Santo André (SP): Editora Academia Cristã Ltda., 2005.


SCHULER, Arnaldo. Dicionário enciclopédico de teologia. Canoas (RS): Ed. ULBRA, 2002.