Confissão de Fé Belga: Origem e Conteúdo
A Confissão de Fé Belga surgiu no
contexto das severas perseguições contra os protestantes reformados nos Países
Baixos, então governados pela monarquia católica espanhola de Filipe II. Seu
principal autor foi Guido de Brès (1522–1567), pastor e teólogo reformado [cf.
artigo específico abaixo referenciado], auxiliado por outros líderes, como
Adrien de Saravia e Herman Moded. Escrita originalmente em francês, em 1561, a
Confissão teve um propósito claramente apologético e pastoral: demonstrar às
autoridades civis que os reformados não eram rebeldes políticos, mas cristãos
fiéis às Escrituras. Nesse sentido, o documento foi inclusive lançado sobre os
muros do castelo de Tournai, acompanhado de uma carta ao rei, solicitando
tolerância religiosa e afirmando a legitimidade bíblica da fé reformada. Assim,
sua origem está diretamente ligada à perseguição, à necessidade de definir
publicamente a fé e à defesa da identidade das igrejas reformadas.
A autoria de Guido de Brès confere à Confissão não apenas valor teológico, mas também profundo significado histórico e espiritual, pois ele confirmou seu testemunho com o próprio martírio, em 1567. A Confissão apresenta, de forma sistemática, as principais doutrinas da teologia reformada, abordando a autoridade das Escrituras, a doutrina de Deus, a pessoa e a obra de Cristo, a salvação pela graça, a natureza da igreja, os sacramentos e a relação com as autoridades civis. Embora não tenha sido a primeira confissão da Reforma, ela ocupa um lugar de primazia entre os documentos confessionais reformados, por sua clareza, maturidade e equilíbrio, podendo ser colocada ao lado de documentos como a Confissão de Augsburgo, no contexto luterano, e o Catecismo de Heidelberg, no contexto reformado, distinguindo-se especialmente por sua forte ênfase na doutrina da igreja.Sua importância foi oficialmente reconhecida no Sínodo de Dordrecht (1618–1619)[1] [Sínodo de Dort, forma abrevia e bastante comum], quando foi adotada como um dos padrões doutrinários das Igrejas Reformadas,[2] tornando-se parte das chamadas Três Formas de Unidade: Confissão Belga (1561); Catecismo de Heidelberg (1563) e os Cânones de Dort (1618–1619).
Dessa forma, a Confissão Belga
consolidou a identidade das igrejas reformadas continentais,[3]
promoveu unidade doutrinária em meio à perseguição e estabeleceu uma clara
definição da fé reformada em contraste com o catolicismo romano e outros
movimentos. Seu legado permanece até hoje, sendo considerada um dos mais
importantes documentos confessionais do protestantismo reformado, não apenas
por sua antiguidade, mas por sua fidelidade às Escrituras, sua profundidade
teológica e seu testemunho nascido em meio ao sofrimento. Preservando sua
doutrina e servindo como referência teológica para a igreja ao longo dos
séculos.
Resumo da Confissão Belga
A Confissão possui 37 artigos, que tratam de temas centrais
da fé reformada:
·
Deus
e Escritura:
o Afirma a autoridade suprema da Bíblia como Palavra de Deus.
o Defende a Trindade e a soberania divina.
·
Cristo
e Salvação:
o Enfatiza a obra redentora de Cristo e a justificação pela fé.
o Rejeita méritos humanos como meio de salvação.
·
Igreja:
o Define a verdadeira Igreja como aquela que prega fielmente o
evangelho, administra corretamente os sacramentos e pratica a disciplina
eclesiástica.
o Reconhece a necessidade de unidade e rejeita abusos clericais.
·
Sacramentos:
o Reconhece apenas dois sacramentos: Batismo e Ceia do Senhor.
o Rejeita a transubstanciação e práticas consideradas não bíblicas.
·
Autoridade
civil:
o Afirma que os cristãos devem respeitar as autoridades, desde que
não contrariem a Palavra de Deus.
o Essa parte foi crucial para mostrar que os reformados não eram
revolucionários políticos.
Utilização
livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan
Pereira
Mestre em
Ciências da Religião.
Universidade
Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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VERBETE – Arminianismo
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[1]
Assembleia internacional da Igreja Reformada Holandesa, convocada para resolver
a controvérsia arminiana. Rejeitou as doutrinas arminianas e estabeleceu os Cinco
Pontos do Calvinismo, consolidando a teologia reformada e reconhecendo
oficialmente a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones
de Dort como padrões doutrinários das Igrejas Reformadas.
[3]
Indicando que essas igrejas surgiram no continente europeu [Suíça, França,
Países Baixos, Alemanha, Hungria, etc.], não nos países Britânicos [Inglaterra –
Presbiterianos e Congregacionais].


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