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Período Fora de Sua Cidade
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Podemos bem acreditar que a morte de Berquin ((c. 1490–1529)[1]
encheu o coração do jovem Calvino de tristeza, enquanto faz o caminho para sua
cidade Noyon. Ele havia estado ausente por seis anos em decorrência de seus
estudos em Paris, e depois em Orléans e Bourges, antes de retornar em 1529.
Nesse período, recebeu sólida formação humanista e jurídica, além de contato
com mestres que o aproximaram das ideias reformistas.[2]
Retorna como um jovem de vinte anos, o mesmo estudante de rosto pálido, mas vitalmente transformado. Foi recebido pelos habitantes da cidade com sentimentos diversos.
A igreja de Pont l’Eveque foi prontamente aberta para ele; e ali, diante daqueles que o haviam conhecido quando menino, expôs as Escrituras. Os resultados foram exatamente como registrados naquelas páginas vivas, verdadeiras em todos os tempos e lugares: “E alguns criam nas coisas que se diziam, mas outros não criam” (Atos 28:24).
Ele mesmo relata desse período que Deus “o conduziu e o fez girar”, de modo a não lhe deixar repouso em lugar algum, até que “me trouxe para a luz e para a ação”. Isso explica por que Calvino permaneceu apenas cerca de dois meses em sua cidade natal. Esta inquietação era decorrente dele encontrar sua genuína vocação pastoral (GORDON, 2009, p. 47). Ele sentia toda a tensão interna mental, sua formação humanista e espiritual amensagem evangélica reformada (WENDEL, 1963, p. 41). Certamente também havia resquícios de seu caráter reservado e até mesmo hesitante, ao mesmo tempo em que sentia o fortalecimento da fé pela ação do Espírito Santo (COTTRET, 2000, p. 52).
Deus tinha para ele uma esfera maior; e, enquanto Calvino não percebia claramente, Deus desassossegada seu coração e mente. Aqui temos a prova cabal de que até mesmo as circunstâncias contrárias cooperam de formas favoráveis para realizar o que Ele ordena.
As nossas inquietações são tão relevantes quanto nossas convicções.
O jovem Calvino chega então a Paris, sede do governo da França, centro do saber e palco de muitas disputas e contendas sobre a verdade. As doutrinas “antigas” e “novas” fervilhavam em conversas reservadas, mas também, por vezes, em debates acalorados; todos estavam envolvidos, independentemente da classe social. Calvino encontrava-se em um ambiente no qual conhecia ambos os sistemas e estava preparado para participar dos argumentos desses debates, com a vantagem de que agora amadurecia na vida e na fé.
Dotado de uma mente naturalmente argumentativa e lógica, disciplinada pelos estudos jurídicos, agora está sendo capacitado pelo Espírito Santo para compreender e afirmar as verdades imutáveis do Evangelho. Inserido no ambiente tenso e controverso de Paris, o jovem reformador está sendo gradualmente moldado para a grande obra à qual estava sendo conduzido pela Providência.
Ele se hospedou na casa de um comerciante, Etienne (Estêvão) de la Forge, que abraçara o conhecimento da verdade e que, em decorrência de expor sua nova fé, foi queimado por sua fidelidade a ela. Calvino se refere a ele como alguém “cuja memória deve ser abençoada entre os crentes como um santo mártir de Cristo”. Foi nessa casa que Calvino começou a realizar encontros de pregação, primeiro em privado, depois mais abertamente (CRESPIN, 1554; GORDON, 2009, p. 52).
É digno de nota que, nesse período inicial, Calvino concluía todas as suas exposições com as palavras: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Podemos inferir dessas palavras que ele tinha plena consciência do alto custo que deveria pagar, mas estava determinado, confiado na força de Deus, a prosseguir no caminho que lhe estava sendo proposto. Mesmos as maiores adversidades irão impedi-lo de impulsionar os princípios reformados de fé.
Um detalhe peculiar vem de um escritor francês da época, notavelmente católico romano, e que em esforço de degradar o jovem reformador, acaba por dar um testemunho idôneo destes momentos iniciais de Calvino:
Retorna como um jovem de vinte anos, o mesmo estudante de rosto pálido, mas vitalmente transformado. Foi recebido pelos habitantes da cidade com sentimentos diversos.
A igreja de Pont l’Eveque foi prontamente aberta para ele; e ali, diante daqueles que o haviam conhecido quando menino, expôs as Escrituras. Os resultados foram exatamente como registrados naquelas páginas vivas, verdadeiras em todos os tempos e lugares: “E alguns criam nas coisas que se diziam, mas outros não criam” (Atos 28:24).
Ele mesmo relata desse período que Deus “o conduziu e o fez girar”, de modo a não lhe deixar repouso em lugar algum, até que “me trouxe para a luz e para a ação”. Isso explica por que Calvino permaneceu apenas cerca de dois meses em sua cidade natal. Esta inquietação era decorrente dele encontrar sua genuína vocação pastoral (GORDON, 2009, p. 47). Ele sentia toda a tensão interna mental, sua formação humanista e espiritual amensagem evangélica reformada (WENDEL, 1963, p. 41). Certamente também havia resquícios de seu caráter reservado e até mesmo hesitante, ao mesmo tempo em que sentia o fortalecimento da fé pela ação do Espírito Santo (COTTRET, 2000, p. 52).
Deus tinha para ele uma esfera maior; e, enquanto Calvino não percebia claramente, Deus desassossegada seu coração e mente. Aqui temos a prova cabal de que até mesmo as circunstâncias contrárias cooperam de formas favoráveis para realizar o que Ele ordena.
As nossas inquietações são tão relevantes quanto nossas convicções.
O jovem Calvino chega então a Paris, sede do governo da França, centro do saber e palco de muitas disputas e contendas sobre a verdade. As doutrinas “antigas” e “novas” fervilhavam em conversas reservadas, mas também, por vezes, em debates acalorados; todos estavam envolvidos, independentemente da classe social. Calvino encontrava-se em um ambiente no qual conhecia ambos os sistemas e estava preparado para participar dos argumentos desses debates, com a vantagem de que agora amadurecia na vida e na fé.
Dotado de uma mente naturalmente argumentativa e lógica, disciplinada pelos estudos jurídicos, agora está sendo capacitado pelo Espírito Santo para compreender e afirmar as verdades imutáveis do Evangelho. Inserido no ambiente tenso e controverso de Paris, o jovem reformador está sendo gradualmente moldado para a grande obra à qual estava sendo conduzido pela Providência.
Ele se hospedou na casa de um comerciante, Etienne (Estêvão) de la Forge, que abraçara o conhecimento da verdade e que, em decorrência de expor sua nova fé, foi queimado por sua fidelidade a ela. Calvino se refere a ele como alguém “cuja memória deve ser abençoada entre os crentes como um santo mártir de Cristo”. Foi nessa casa que Calvino começou a realizar encontros de pregação, primeiro em privado, depois mais abertamente (CRESPIN, 1554; GORDON, 2009, p. 52).
É digno de nota que, nesse período inicial, Calvino concluía todas as suas exposições com as palavras: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Podemos inferir dessas palavras que ele tinha plena consciência do alto custo que deveria pagar, mas estava determinado, confiado na força de Deus, a prosseguir no caminho que lhe estava sendo proposto. Mesmos as maiores adversidades irão impedi-lo de impulsionar os princípios reformados de fé.
Um detalhe peculiar vem de um escritor francês da época, notavelmente católico romano, e que em esforço de degradar o jovem reformador, acaba por dar um testemunho idôneo destes momentos iniciais de Calvino:
“Dedicado de outra forma aos seus livros e estudos, era incansavelmente ativo em tudo o que dizia respeito ao avanço de sua seita [protestantismo]. Vimos nossas prisões cheias de pobres desventurados enganados [os que estavam crendo], que ele exortava sem cessar, consolava ou confirmava por cartas; nem faltavam mensageiros, a quem as portas estavam abertas, apesar de toda a vigilância dos carcereiros [autoridades religiosas ou civis]. Assim começou, e assim conquistou, passo a passo, uma parte da nossa França. Prosseguiu até que, após considerável tempo, vendo os ânimos inclinados à sua causa, quis avançar mais rapidamente e enviar-nos ministros, chamados ‘pregadores’, para divulgar sua religião em recantos escondidos, e até mesmo em Paris, onde as fogueiras estavam acesas para consumi-los.”
Em 1532, Calvino publicou sua primeira obra impressa: um
Comentário, em latim, sobre o De Clementia de Sêneca. No título da obra,
assinou: “Lucius Calvinus civis Romanus”. A partir daí, deixou de lado
seu nome francês, Chauvin, e passou a ser conhecido como Johannes Calvinus.
Muitos biógrafos se surpreenderam com essa publicação, considerando-a um desvio
de sua obra evangélica. Alguns tentaram justificá-la como uma tentativa de
induzir o rei a mostrar menos severidade contra os protestantes e mais
“clemência” para com o evangelho. Mas o próprio autor nada disse nesse sentido.
É mais provável que tenhamos aqui um exemplo de como Deus, invisivelmente,
realizava Seus desígnios luminosos a partir da escuridão.[3]
A obra, escrita em latim elegante, trouxe relativa fama ao jovem autor. A atenção voltou-se mais para o estilo literário da obra, do que para o autor, mas foi suficiente para preparar o caminho para o Reformador. Assim como a educação de Paulo muitas vezes lhe garantia audiência como pregador, o Comentário de Calvino sobre Sêneca faria com que, no futuro próximo, sua obra magna e seus Comentários sobre as Escrituras fossem lidos com muita atenção.
Esses dias de semeadura do evangelho foram talvez os mais tranquilos da vida de Calvino. Evitando disputas com os doutores da Sorbonne e levando silenciosamente “o Livro” [Escrituras] de porta em porta, conduzindo muitas pessoas do reino das trevas para o reino da luz e da verdade. Contudo, nuvens sombrias começavam a se formar no horizonte; trovões ressoavam ao longe, sinais de uma tempestade iminente.
Sendo levado pelas circunstâncias de seu provável aprisionamento, Calvino sai apressadamente de Paris, numa jornada que lhe parecia fortuita, mas que, na realidade, estava sendo conduzida pela Providência de Deus. Pernoitando na cidade suíça de Genebra, um reformador chamado Farel o procura e, após uma conversa, percebendo a relutância do jovem Calvino, que preferia o trabalho acadêmico, o velho reformador insta-o com veemência - “Se você recusar a se dedicar a esta obra do Senhor, Deus amaldiçoará sua tranquilidade e os estudos que você busca”, de modo que ele decide permanecer e cooperar em Genebra. Sabemos o quanto isso se tornou extraordinário, pois seu ministério e produção teológico-literária impactaram centenas e milhares de pessoas e, desde então, continuam a impactar vidas em todo o mundo há cinco séculos.
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Referências Bibliográficas [citadas no texto]
COTTRET, Bernard. Calvino. São Paulo: Loyola, 2000.
CRESPIN, Jean. Actes des Martyrs. Genebra,
1554.
GORDON, Bruce. Calvin. New Haven: Yale
University Press, 2009.
WENDEL, François. Calvino:
Sua Teologia e Sua Influência. São Paulo: ASTE, 1963.
Outras Obras de Referência
MCGRATH, Alister E. A Life of John Calvin. Oxford: Blackwell, 1990.
NICHOLS, Stephen J. Calvino: O
Reformador de Genebra. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
SELDERHUIS, Herman J. John Calvin: A
Pilgrim’s Life. Downers Grove: InterVarsity Press, 2009.
PIPER, John. O Legado de João Calvino.
São José dos Campos: Fiel, 2010.
STEINMETZ, David C. Calvin in
Context. Oxford: Oxford University Press, 1995.
[1] Louis de Berquin foi um advogado e humanista francês, próximo de Erasmo e Lefèvre d’Étaples. Tradutor e defensor das ideias reformistas, tornou-se alvo da repressão católica e foi executado em Paris, em 17 de abril de 1529, acusado de heresia. Considerado o primeiro mártir protestante da França, sua morte não decorreu de contato direto com Calvino, mas exerceu forte influência simbólica sobre o jovem reformador, que sentia cada vez mais a atmosfera da perseguição religiosa ao retornar a Noyon (GORDON, 2009, p. 45; COTTRET, 1995, p. 62).
[2] Entre outros - Mathurin Cordier (c. 1479–1564), reconhecido pedagogo humanista, mais tarde abraçou a Reforma e se tornou colaborador de Calvino em Genebra; Melchior Wolmar (1497–1561), humanista alemão e luterano, professor de grego em Bourges, sendo um dos primeiros contatos diretos de Calvino com o pensamento reformado, incentivando o jovem estudante a ler as Escrituras em grego e tomar contato com as ideias reformistas de Lutero.
[3] Todavia, do De Clementia (1532), em que Calvino transita da esfera jurídica para reflexões sobre a justiça, às Institutas (1536), onde a Justiça de Deus é sistematizada, e ao Comentário de Romanos (1539), que a aplica exegética e pastoralmente, é possível ver uma progressiva maturação de sua teologia reformada.
A obra, escrita em latim elegante, trouxe relativa fama ao jovem autor. A atenção voltou-se mais para o estilo literário da obra, do que para o autor, mas foi suficiente para preparar o caminho para o Reformador. Assim como a educação de Paulo muitas vezes lhe garantia audiência como pregador, o Comentário de Calvino sobre Sêneca faria com que, no futuro próximo, sua obra magna e seus Comentários sobre as Escrituras fossem lidos com muita atenção.
Esses dias de semeadura do evangelho foram talvez os mais tranquilos da vida de Calvino. Evitando disputas com os doutores da Sorbonne e levando silenciosamente “o Livro” [Escrituras] de porta em porta, conduzindo muitas pessoas do reino das trevas para o reino da luz e da verdade. Contudo, nuvens sombrias começavam a se formar no horizonte; trovões ressoavam ao longe, sinais de uma tempestade iminente.
Sendo levado pelas circunstâncias de seu provável aprisionamento, Calvino sai apressadamente de Paris, numa jornada que lhe parecia fortuita, mas que, na realidade, estava sendo conduzida pela Providência de Deus. Pernoitando na cidade suíça de Genebra, um reformador chamado Farel o procura e, após uma conversa, percebendo a relutância do jovem Calvino, que preferia o trabalho acadêmico, o velho reformador insta-o com veemência - “Se você recusar a se dedicar a esta obra do Senhor, Deus amaldiçoará sua tranquilidade e os estudos que você busca”, de modo que ele decide permanecer e cooperar em Genebra. Sabemos o quanto isso se tornou extraordinário, pois seu ministério e produção teológico-literária impactaram centenas e milhares de pessoas e, desde então, continuam a impactar vidas em todo o mundo há cinco séculos.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas [citadas no texto]
COTTRET, Bernard. Calvino. São Paulo: Loyola, 2000.
MCGRATH, Alister E. A Life of John Calvin. Oxford: Blackwell, 1990.
[1] Louis de Berquin foi um advogado e humanista francês, próximo de Erasmo e Lefèvre d’Étaples. Tradutor e defensor das ideias reformistas, tornou-se alvo da repressão católica e foi executado em Paris, em 17 de abril de 1529, acusado de heresia. Considerado o primeiro mártir protestante da França, sua morte não decorreu de contato direto com Calvino, mas exerceu forte influência simbólica sobre o jovem reformador, que sentia cada vez mais a atmosfera da perseguição religiosa ao retornar a Noyon (GORDON, 2009, p. 45; COTTRET, 1995, p. 62).
[2] Entre outros - Mathurin Cordier (c. 1479–1564), reconhecido pedagogo humanista, mais tarde abraçou a Reforma e se tornou colaborador de Calvino em Genebra; Melchior Wolmar (1497–1561), humanista alemão e luterano, professor de grego em Bourges, sendo um dos primeiros contatos diretos de Calvino com o pensamento reformado, incentivando o jovem estudante a ler as Escrituras em grego e tomar contato com as ideias reformistas de Lutero.
[3] Todavia, do De Clementia (1532), em que Calvino transita da esfera jurídica para reflexões sobre a justiça, às Institutas (1536), onde a Justiça de Deus é sistematizada, e ao Comentário de Romanos (1539), que a aplica exegética e pastoralmente, é possível ver uma progressiva maturação de sua teologia reformada.

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