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terça-feira, 25 de março de 2025

História da Igreja: Desenvolvimento Crescente do Poder Papal

Desde o final do século II, a Igreja Romana foi adquirindo um status diferenciado, pois muitos conflitos eclesiásticos eram mediados por seus bispos. Diferentemente do que ocorria no Oriente, em Roma houve poucas divergências teológicas e, portanto, menos divisões eclesiásticas.

          Durante os chamados Concílios Ecumênicos, o bispo de Roma tinha o mesmo peso e relevância que os demais representantes da igreja cristã. No primeiro grande Concílio de Nicéia (325), o sexto cânon confere aos bispos de Roma, Constantinopla, Antioquia e Alexandria, localizadas nos grandes centros de poder do Império, autoridade igual e equivalente, sem qualquer primado sobre as igrejas nos domínios imperiais.

No Concílio de Sardes (345 ou 347), abre-se uma fresta que somente se ampliaria, ao delegar ao bispo de Roma a função de supervisor ou revisor de processos eclesiásticos que estivessem sob questionamentos. Aqui começa o conflito que produziria o primeiro grande Cisma entre Oriente e Ocidente.

No Segundo Concílio de Constantinopla (553), convocado pelo imperador Justiniano I, o então bispo de Roma, Virgílio, recusou-se a participar e apoiar as resoluções e, por esta razão, foi exilado. Posteriormente, para ratificar a infalibilidade papal, os decretos foram reconhecidos.

No Terceiro Concílio de Constantinopla (680), convocado pelo imperador Constantino Pogonato, que inclusive presidiu as sessões, o bispo de Roma, Honório, foi condenado e anatematizado como herege — pois havia dado sua aprovação a um documento imperial conhecido como Ectese, que apoiava o monotelismo, uma doutrina condenada que afirmava que Jesus não tinha duas vontades (humana e divina), mas apenas a vontade divina.

No Quarto Concílio de Constantinopla (692), convocado pelo imperador Justiniano II, foram reafirmados os mesmos privilégios para Constantinopla, dados também a Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.

Principais Ajustes

§  Apesar de, durante sete séculos, lhe ter sido negada uma primazia sobre as igrejas cristãs, os romanos não desistiram de seus propósitos. Alguns fatores históricos contribuíram para que os romanos alcançassem seu tão desejado primado, ainda que somente sobre o cristianismo no Ocidente.

§  O grande fator que alimentava esse desejo de supremacia de Roma sobre a totalidade do cristianismo era o fato de que havia apenas um imperador sobre todos. Perguntas eram formuladas em todos os lugares: os bispos governavam as igrejas, mas quem iria governar os bispos? O bispo da Igreja deveria exercer a autoridade que o imperador exercia no Império?

§  Inicialmente todos os líderes cristãos eram chamados de Patriarcas, em Roma passou a ser chamado de Papa (papai).

§  Roma reivindicou para si a autoridade apostólica com base na tradição de que Pedro foi o primeiro bispo de Roma e, como chefe dos apóstolos, teria possuído autoridade sobre toda a Igreja. Para isso, utilizavam dois textos dos Evangelhos: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" e "Apascenta as minhas ovelhas." A interpretação era de que Pedro foi o primeiro cabeça da Igreja e que, em seguida, seus sucessores, os papas de Roma, deveriam continuar exercendo sua autoridade.

§  Entre os dois centros do cristianismo, Constantinopla e Roma, a segunda soube impor melhor sua autoridade sobre os demais. Manteve-se mais ortodoxa, enquanto o centro oriental enfrentou intermináveis embates doutrinários.

§  A Igreja de Roma implementou um cristianismo prático. Sempre deu muita atenção aos necessitados e, quando houve períodos de fome ou peste, abriu-se para atender a todos, mesmo os que não professavam a fé cristã. Auxiliava as igrejas mais carentes em outras províncias. Uma das cenas mais emblemáticas dessa postura é a de um oficial pagão em Roma que exigiu que a Igreja mostrasse seus tesouros. O então bispo romano mandou reunir seus membros pobres e disse: “Estes são nossos tesouros”.

§  O fato de Roma haver deixado de ser a capital do Império, em detrimento de Constantinopla, foi mais positivo do que negativo para as pretensões do clero romano. Enquanto na nova capital os imperadores mandavam e desmandavam nas pendências eclesiásticas, em Roma não havia a figura do imperador para ofuscar o poder papal, que estendia seu domínio por toda a região. As lideranças públicas europeias (Ocidente) sempre olharam para Roma com respeito. Com a distância da nova capital e de seu imperador, e com a proximidade do declínio do próprio Império, os "ratos" começaram a pular cada vez mais para o "navio" sob o comando do Pontífice Romano.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

BETTENSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 2011.

BURNS, E. M. História da Civilização Ocidental. Vol. 1. 44. ed. São Paulo: Globo, 2005.

CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.

GONZÁLEZ, J. L. Uma história do pensamento cristão, v. 1. Tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Matos. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

______________. Dicionário ilustrado dos intérpretes da fé. Tradução Reginaldo Gomes de Araujo. Santo André (SP): Editora Academia Cristã Ltda., 2005.

______________. História ilustrada do cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.

LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.

WALKER, W. História da Igreja Cristã. v. 1. Tradução D. Glênio Vergara dos Santos e N. Duval da Silva. São Paulo: ASTE, 1967.

 


sexta-feira, 14 de março de 2025

Protestantismo e Seu Desenvolvimento Histórico


Protestantismo - A Semente das Artes, Letras, Estados Livres, etc. - Sua História a Grande drama — Sua origem — Fora da humanidade — Um grande poder criativo — O protestantismo reviveu o cristianismo.

A História do Protestantismo, que nos propomos a escrever, é não mera história de dogmas. Os ensinamentos de Cristo são as sementes; a cristandade moderna, com sua nova vida, é a bela árvore que brotou deles. Falaremos da semente e depois da árvore, tão pequena em seu início, mas destinada um dia a cobrir a terra.

Como essa semente foi depositada no solo; como a árvore cresceu e floresceu apesar das furiosas tempestades que sobrevieram sobre ela; como, século após século, ela ergueu seu topo mais alto no céu, e espalhou seus galhos mais longe, abrigando a liberdade, cuidando das letras, fomentando a arte, e reunindo uma fraternidade de nações prósperas e poderosas ao seu redor, será nosso trabalho nas páginas seguintes mostrar. Entretanto, queremos que se note que é isso que entendemos por protestantismo na história da qual estamos entrando agora. Visto assim - e qualquer visão mais restrita seria falsa tanto para a filosofia como para os factos – a História do Protestantismo é o registo de um dos maiores dramas de todos os tempos. É verdade, sem dúvida, que o protestantismo, visto estritamente, é simplesmente um princípio. Não é uma política. Não é um império, com suas frotas e exércitos, seus oficiais e tribunais, com os quais estende seu domínio e faz com que sua autoridade seja obedecida. Nem sequer é uma Igreja [denominação] com as suas hierarquias, sínodos e éditos; é simplesmente um princípio. Mas é o maior de todos os princípios. É um poder criador. A sua influência é abrangente. Penetra no coração e renova o indivíduo. Desce às profundezas e, com a sua energia onipotente mas silenciosa, vivifica e regenera a sociedade. Torna-se assim o criador de tudo o que é verdadeiro, amável e grande; o fundador de reinos livres e a mãe de igrejas puras. O próprio globo terrestre é considerado um palco não muito amplo para a manifestação de sua ação benéfica; e todo o domínio dos assuntos terrestres é considerado uma esfera não muito vasta para ser preenchida com seu espírito e governada por sua lei.

De onde veio esse princípio? O nome protestantismo é muito recente: a coisa em si é muito antiga. O termo protestantismo tem pouco mais de 350 anos. Data do protesto que os príncipes luteranos cederam à Dieta de Espira[1] em 1529. Restrito a seu significado histórico, o protestantismo é puramente negativo. Ele apenas define a atitude assumida, em uma grande era histórica, por um partido na cristandade com referência para outra parte. Mas se isso fosse tudo, o protestantismo não teria história. Tinha fosse puramente negativo, teria começado e terminado com os homens que se reuniram no Cidade alemã no ano já especificado. O novo mundo que surgiu disso é o prova de que no fundo deste protesto estava um grande princípio que agradou a Providência para fertilizar e fazer a semente daquelas grandes, benéficas e duradouras conquistas que tornaram os últimos três séculos, em muitos aspectos, os mais agitados e maravilhoso na história. Os homens que entregaram este protesto não quiseram criar um mero vazio. Se eles repudiaram o credo e se livraram do jugo de Roma, era para que pudessem plantar uma fé mais pura e restaurar o governo de uma Lei superior. Eles substituíram a autoridade da Infalibilidade [Papal] pela autoridade da Palavra de Deus. O longo e sombrio obscurecimento de séculos eles dissiparam, para que as estrelas gêmeas da liberdade e do conhecimento possam brilhar, e isso, sendo a consciência livre, que o intelecto possa despertar de sua profunda sonolência, e a sociedade humana, renovando sua juventude, pudesse, após a interrupção de um mil anos, retomar sua marcha em direção ao seu alto objetivo.

Repetimos a pergunta - De onde veio esse princípio? E pedimos aos nossos leitores que marquem bem a resposta, pois é a nota-chave de todo o nosso vasto assunto, e nos coloca, logo no início, nas fontes daquela longa narração na qual estamos entrando agora.

O protestantismo não é apenas o resultado do progresso humano; não é um mero princípio de perfectibilidade inerente à humanidade, e classificando-se como um de seus poderes nativos, em virtude de que, quando a sociedade se corrompe, pode purificar-se a si mesma, e quando é presa em seu curso por alguma força externa, ou de exaustão, pode recrutar suas energias e avançar de novo no seu caminho. Não é nem o produto da razão individual, nem o resultado do pensamento e das energias conjuntas da espécie. O protestantismo é um princípio que tem sua origem fora da sociedade humana: é um enxerto divino sobre o intelectual e a natureza moral do homem, por meio da qual novas vitalidades e forças são introduzidas nele, e o caule humano produz doravante um fruto mais nobre. É a descida de uma influência nascida do céu que se alia a todos os instintos e poderes do indivíduo, a todas as leis e anseios da sociedade, e que, acelerando tanto o ser individual quanto o social para uma nova vida, e direcionando seus esforços para objetos mais nobres, permite que o mais alto desenvolvimento de que a humanidade é capaz, e a realização mais completa possível de todos os seus grandes fins. Em uma palavra, o protestantismo é o cristianismo revivido [destaque meu].

Perguntas Para Reflexão

1)    O que o autor quis dizer com “Os ensinamentos de Cristo são as sementes”?

2)    Por que o autor define o Protestantismo como sendo um princípio?

3)    Você concorda com o autor de que o Protestantismo é um poder criador?

4)    O Protestantismo foi um movimento apenas negativo ou foi também propositivo?

5)    Quais foram as estrelas gêmeas que Protestantismo resgatou?

6)    O que o Protestantismo não é segundo o autor?

7)    O que o Protestantismo é segundo o autor?

 

(Extrato do livro de J. A. Wylie "The História do Protestantismo" v.1)

James Aitken Wylie LL.D. (1808-1890) foi um historiador escocês da religião e ministro presbiteriano. Sua obra mais famosa é a História do Protestantismo em quatro volumes. Outros livros importantes incluem _The Grande Êxodo, ou "O Tempo do Fim", Roma e a liberdade civil: ou, A agressão papal em sua relação com a soberania da Rainha e a independência da naçãoO Papado: Sua História, Dogmas, Gênio e PerspectivasOs Jesuítas: Suas Máximas Morais e Tramas Contra Reis, Nações e IgrejasO papado é o Anticristo - uma demonstração.

Este é o primeiro de um trabalho de 4 volumes. Se Deus quiser, o próximo volume aparecerá na primavera de 2021.


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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] Foi uma reunião importante do Sacro Império Romano-Germânico realizada em 1529 na cidade de Speyer (ou Espira), na Alemanha. Esta reunião foi convocada para lidar com duas questões principais: a ameaça dos exércitos turcos que avançavam na Hungria e a crescente influência do protestantismo.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

História da Igreja: Renascimento do Santo Império Romano e Expansão do Poder da Igreja

 .


          O antigo Império Romano havia desaparecido, primeiramente no Ocidente e posteriormente no Oriente e neste vácuo a Igreja Romana prosperou e se fortaleceu. Reacende com mais força o velho e acalentado anseio de se constituir em primado sobre todo o cristianismo.

Patrimônio de São Pedro

Muitos nobres, antes de morrer ou de se recolher a um entre as centenas de mosteiros espalhados por todo Ocidente, deixavam em testamento seus bens e territórios ao Bispo/Igreja de Roma, que veio a se constituir no chamado “Patrimônio de São Pedro”, que constava de terras na Itália e nas ilhas adjacentes. Esses bens, de extensão cada vez maior, permitiam ao Papa assumir posição de certa independência diante do Imperador bizantino e do representante deste em Ravena: o Pontífice tinha sob a sua jurisdição civil grande número de cidadãos, que trabalhavam sob a tutela papal ou eram socorridos por esta nos hospitais, asilos e orfanatos pontifícios.

Tabuleiro Político Religioso

Naqueles dias jogava-se no mesmo tabuleiro todas as peças ao mesmo tempo. Os movimentos políticos eram religiosos e os religiosos eram políticos.

§  Desde a conversão de Clóvis ao cristianismo ortodoxo (496), em que os francos renunciaram sua fé cristã ariana, cria-se ligações umbilicais entre o Estado e a Igreja. Todavia, a dinastia merovíngia foi muito inepta e fraca. Gregório I tentou impor reformas eclesiásticas na França, mas os resultados foram mínimos.

§  Apesar dos reis serem merovíngios[1], quem de fato controlava o poder era os denominados “prefeitos do paço”. Quando Carlos Martelo (715-741) assumiu os poderes da casa real, após conter o avanço maometano na Europa ocidental, apoia os esforços missionários na Alemanha ocidental e nos Países Baixos (Holanda), pois ambicionava a extensão de seu poder político. Está bem-sucedida cooperação vai render frutos no futuro.

§    Winfrid ou Bonifácio (680-754). De origem anglo-saxão e depois de vários trabalhos missionários ele foi conduzido pelo Papa Gregório II (715-731) para trabalhar na Alemanha. Era profundamente comprometido com a lealdade papal. Depois de alcançar ótimos resultados foi nomeado pelo Papa Gregório III (731-741) arcebispo em 732. Organiza a Igreja da Baviera (John Huss) e de Turíngia. Em 744 ajuda a fundar o mosteiro beneditino de Fulda, que veio a se constituir em centro de erudição e educação para o sacerdócio em toda aquela região centro-oriental da Alemanha. Muito zeloso fortaleceu a ordem e a disciplina nas igrejas sob sua jurisdição, fortalecendo a autoridade papal na região.

§  Desde a crise das imagens (731) onde o Papa de Roma recusa-se a retirá-las de suas igrejas, o Imperador retira a jurisdição do Sul da Itália e a Sicília e as subordina à sé de Constantinopla. Em diversas ocasiões Roma tenta se livrar da pressão dos lombardos apoiados pelo Império. Quando Pepino, o Breve, assume a prefeitura do paço, ele almeja o título de rei na França, mas para depor o último rei da linhagem merovíngia, Quilderico III[2], e ser coroado ele necessita tanto do reconhecimento precisava da aprovação da nobreza francesa e da sanção moral da Igreja. Apela ao Papa Zacarias (741-752), que o apoia prontamente e antes de terminar o ano 751 Pepino está ungido e coroado. Esse movimento vai mudar totalmente a configuração do tabuleiro de poder no Ocidente.

§  Posteriormente o Papa Estevão (752-757) vai até a França e faz nova coroação de Pepino e seus filhos na Igreja de São Dionísio em Paris. Ambos firmam um pacto onde Pepino reconhece validade do documento “Doação de Constantino” e o rei recebe da Igreja o título de “Patrício dos Romanos”, onde se compromete a dar integral proteção ao papado. O historiador W. Walker resume muito bem a repercussão histórica desse acontecimento:

Essa transação, que na época parece ter sido muito simples, estava prenhe de consequências importantíssimas. Dela poderia inferir-se que o papa tinha poder de conceder ou retirar poderes reais. Implícitos nela estavam o restabelecimento do império no Ocidente, o Sacro Império Romano, e a inter-relação entre o papado e império que ocupa lugar tão relevante na história da Idade Média. Desse ponto de vista, foi o acontecimento mais importante da história medieval (1967, p. 266 – Itálico meu).

§  Carlos Magno: Com a morte de Pepino sucederam-no seus dois filhos Carlos (Magno) e Carlomano (771). A morte prematura do segundo faz de Carlos o único soberano. De personalidade forte e até violento, amenizava com suas ações positivas. A dobradinha Carlos e o Papa Adriano I (772) foi de grande relevância para o Império e para a Igreja.

Após derrotar definitivamente os lombardos Carlos assumiu oficialmente o título, de “Rei dos francos e dos lombardos e Patrício dos Romanos”.

Em 781 os últimos vestígios de dominação bizantina (Império do Oriente) foram rompidos. A relação do rei e do papado é tenso, mas equilibrado. O Papa não era vassalo do rei, mas havia um pacto de aliança entre iguais.  O título de “Patrício” dava a Carlos Magno a liberdade para ingerir nas eleições de bispos, protestar através de representantes em matéria de administração temporal e no tocante ao governo interno da Igreja.

Com a morte do Papa Adriano I, seu sucessor foi Leão III que precisou muito do respaldo do rei Carlos Magno, que passou a ingerir muito mais na vida da Igreja.

§  Carlos Magno Imperador: Na noite de Natal de 800, após participar da celebração natalina, o papa Leão III coloca sobre a cabeça de Carlos Magno uma preciosa coroa, enquanto era aclamado pela multidão: “A Carlos Augusto, coroado por vontade de Deus, grande e pacífico Imperador Romano, vida e vitória!” Tudo, porém, havia sido preparado minuciosamente com antecedência.

§  Este evento significava a reedificação do Império Romano Ocidental, que havia desaparecido em 476, mas agora com um sentido distinto: o “Patrício Romano” se tornava Imperador Romano no Sacro Império Romano, desta maneira, a Itália e o Papado ficavam definitivamente fora da jurisdição de Constantinopla. O novo título implicava, para Carlos, um aumento de autoridade sobre os demais soberanos do Ocidente e uma dignidade religiosa que o confirmava na função de proteger a Igreja. A coroação de Carlos tornou possível uma identidade comum à toda a Europa.

§  Para assegurar a subserviência de seus súditos, principalmente os nomeados para funções públicas, utilizou-se de bispos e outros religiosos que espalhados por todo o império eram seus olhos e ouvidos ou ficais dos fiscais.

§  Com Carlos Magno a espada tornou-se o maior instrumento de conversão. A cada conquista agrega-se mais território e o império ganhava mais vassalos e a Igreja mais cristãos.

  

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Referências Bibliográficas

BETTENSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 2011.

BURNS, E. M. História da Civilização Ocidental. Vol. 1. 44. ed. São Paulo: Globo, 2005.

CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.

GONZÁLEZ, J. L. Uma história do pensamento cristão, v. 1. Tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Matos. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

______________. Dicionário ilustrado dos intérpretes da fé. Tradução Reginaldo Gomes de Araujo. Santo André (SP): Editora Academia Cristã Ltda., 2005.

______________. História ilustrada do cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.

LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.

WALKER, W. História da Igreja Cristã. v. 1. Tradução D. Glênio Vergara dos Santos e N. Duval da Silva. São Paulo: ASTE, 1967.



[1] O Império ou Reino Merovíngio perdurou entre os anos de 481 a 751, descendentes de Meroveu (impôs sua hegemonia na Gália), os primeiros reis francos (constituíram o mais poderoso reino da Europa Ocidental) dessa dinastia passaram a ser chamados de Merovíngios.

[2] Quilderico III (714 — 754), chamado o Idiota ou o Rei Fantasma, foi o décimo-quarto e último rei de todos os francos da dinastia merovíngia.


domingo, 29 de dezembro de 2024

Protestantismo Presbiteriano no Mundo - Prefácio


         Nestes últimos anos muito se tem falado sobre teologia reformada e igrejas reformadas. Mas como quase tudo no Brasil, muito se fala, mas pouco se conhece. Fala-se de igrejas reformadas como se fossem todas iguais, todavia, dentro deste mosaico reformado há muitas diferenças e algumas até mesmo substanciais, tanto na forma teológica quanto na sua estrutura eclesiástica.

        A Igreja Presbiteriana no Brasil é uma igreja Reformada, porém tem um adendo significativo – Calvinista, ou seja, adota os princípios teológicos elaborados pelo teólogo e pastor João Calvino, em Genebra/Suíça e que foi formatada em sua obra master “Institutas da Religião” e que se tornou um padrão doutrinário para muitos segmentos reformados. Ele também elaborou um sistema de governo eclesiástico denominado de Presbiteriano, onde alguns homens são escolhidos pela igreja (em eleição com voto secreto) para compor um Conselho de Presbíteros que tem a responsabilidade de governar e administrar a Igreja.

Em termos de influência duradoura, a reforma em Genebra forneceu as bases para o desenvolvimento do presbiterianismo. Se a França forneceu o homem (Calvino), a Suíça forneceu o edifício. O reformador genebrino estabeleceu um Seminário em Genebra, onde centenas de pastores de todo países da Europa vinham estudar e ao retornarem estabeleciam em suas respectivas comunidades os princípios ali apreendidos. Um destes estudantes foi João Knox, que retornando para seu país a Escócia, implanta tanto a teologia, quanto o sistema eclesiástico desenvolvido por Calvino.

        Posteriormente, por razões de política, sendo perseguidos em grande parte, centenas/milhares de escoceses atravessaram o oceano Atlântico e aportaram nos Estados Unidos, onde havia ampla liberdade religiosa e ali implantaram e desenvolveram igrejas presbiterianas. É este presbiterianismo que muito tempo depois será transplantado para terras brasileiras, através dos primeiros missionários enviados, dos quais o pioneiro foi o jovem pastor Ashbel Green Simonton, que em pouco mais de uma década estabeleceu o presbiterianismo em diversos pontos do território brasileiro no final dos oitocentos. 

        A proposta desta série de artigos, aqui iniciados, é de apenas desperta a curiosidade dos leitores para uma temática deveras desconhecida a expansão geográfica das Igrejas Presbiterianas. Seria prepotência minha ir além do básico e/ou introdutório sobre esta tão vasta história mundial. Mas se de alguma forma for útil aos leitores já me darei por satisfeito. O critério de escolha dos países abordados serão mais ou menos aleatórios, ainda que inicialmente abordarei na medida do possível os países da nossa América do Sul/Latina, que ainda permanecem incógnitos para a grande maioria dos presbiterianos brasileiros, principalmente quando se trata da América Central, cujos países nem mesmo são de conhecimento geral dos brasileiros.

        Alguns artigos relacionados estarão compartilhados ao final do texto, bem como algumas pobres referências bibliográficas.

"Sola fide (somente a fé)

Sola scriptura (somente a escritura)

Solus Christus (somente Cristo)

Sola gratia (somente a graça)

Soli Deo gloria (glória somente a Deus)"

 

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Protestantismo e sua contribuição na educação no Brasil

https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2016/11/protestantismo-e-sua-contribuicao-na.html?spref=tw

Primeiro Curso Teológico Protestante no Brasil

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/2015/10/primeiro-curso-teologico-protestante-no_7.html

O Protestantismo na Capital de São Paulo: A Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras.

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/2013/10/ficheiro-dissertacao-o-protestantismo.html

O Protestantismo na América Latina

https://historiologiaprotestante.blogspot.com/2017/01/o-protestantismo-na-america-latina.html?spref=tw

Referências Bibliográficas

AMARAL, Epaminondas M. do. O Protestantismo e a Reforma. São Paulo: Livraria Saleluz, 1962. (Coleção Otoniel Mota I).

ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio de Janeiro: Record, 1997.

Benedetto, Robert with Darrell L. Guder and Donald K. McKim. Historical

Dictionary of Reformed Churches. Lanham, Md.: Scarecrow Press, 1991.

BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Europeia, 1971.

CALVINO, JOÃO. Institución de Ia Religión Cristiana. Países Bajos: FELiRé, 1986.

DELUMEAU, Jean. La Reforma. Barcelona: Editorial Labor S/A, 1967.

ELWELL, Walter A. (org). Enciclopédia Histórico-teológica da Igreja Cristã. São Paulo, Vida Nova, 1990.

Hillerbrand, Hans J., ed. Encyclopedia of Protestantism. New York: Routledge, 2004. (4 vols).

LUZ, Waldyr Carvalho. John Knox: o patriarca do presbiterianismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na capital de São Paulo – a Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013. Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira.

KAPIC, Kelly M. and LUGT, Wesley Vander. Pocket Dictionary of the Reformed Tradition. InterVarsity Press, 2013.

LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.

McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo, Cultura Cristã, 2004. 

McGOLDRICK, James Edward. Presbyterian and Reformed Churches. Reformation Heritage Books Grand Rapids, Michigan, 2012.

 


sábado, 7 de dezembro de 2024

Reforma Protestante - Documentos - As Dez Teses de Berna (1528)



As Dez Teses de Berna (1528)

A cidade de Berna era o maior, mais conservador e aristocrático dos cantões suíços, era a capital política da Confederação e foi a primeira a seguir a Reforma religiosa efetivada em Zurique, mas não sem muita hesitação. Mas apesar de todos os contratempos a Reforma em Berna foi um evento de relevância no contexto geral do movimento reformado na Suíça.

A Reforma foi preparada na cidade e em todo o cantão por três ministros, Sebastian Meyer, Berthold Haller e Francis Kolb, e por um leigo talentoso, Niclaus Manuel, - que tinham em comum fortes laços de amizade e admiração pelo reformador Ultico Zwínglio.

As Dez Teses de Berna são uma das primeiras formulações dos fundamentos da fé reformada. O documento resultou de uma disputa que começou na Igreja de São Vicente, na cidade suíça. Na década de 1520, o reformador alemão Berthold (Berchtold) Haller, influenciado pelo colega alemão os reformadores Filipe Melanchthon e Ulrico Zwínglio substituíram a Missa católica romana por sermões.

A Reforma foi preparada na cidade e em todo o cantão por três ministros,

Sebastian Meyer, Berthold Haller e Francis Kolb, e por um leigo talentoso, Niclaus

Manuel, - todos amigos de Zwínglio.

Meyer, um monge franciscano, fez uma exegese na epístola de Paulo aos Romanos, no convento e, no púlpito expos o Credo dos Apóstolos.

Haller, natural de Würtemberg, portanto, manteve ao longo dos anos uma forte amizade e companheirismo com Felipe Melanchthon, não foi um reformador energético, mas um pregador instrutivo e reformador cauteloso, de disposição branda e modesta. Estabelecendo-se em Berna como professor em 1518, veio a ser eleito pastor chefe na catedral em 1521, e ali, apesar de todas as dificuldades exerceu seu ministério pastoral fielmente até sua morte (1536). Em função de seus posicionamentos reformados ele frequentemente se encontrava em circunstâncias perigosas, e em muitas ocasiões pensou em se retirar do pastorado e da cidade, mas seu amigo e por assim dizer, mentor Zwínglio o orientou pessoalmente, apoiando-o e encorajando a permanecer firme em seu posto avançado do movimento reformador suíço (lembrando muito a relação de Timóteo com Paulo).

Apesar de sua fragilidade emocional ele tinha talentos brilhantes e grande capacidade e conhecimento intelectual, que no transcorrer dos anos ele se revelaram eminentemente uteis, juntamente à sua piedade gentil e devoção fiel ao dever.

Manuel, poeta, pintor, guerreiro e estadista, ajudou o causa da reforma por seus dramas satíricos, que eram representados nas ruas, sua exposição de Eck e Faber após a disputa de Baden, e sua influência no Grande Conselho dos Duzentos, que se tornou o guarda-chuva dos ministros pregadores dos princípios bíblicos reformados. da cidade (d. 1530). Em diversas ocasiões os ministros eram acusados e condenados no Pequeno Conselho, dependendo de seus posicionamentos políticos-religiosos, mas as sentenças eram derrubadas no Grande Conselho, e por está razão o movimento reformado por prosseguir firme em Berna.

Um primeiro embate ocorreu na cidade católica de Baden, em Aargau, em 21 de maio de 1526, durando dezoito dias, até 8 de junho. Os cantões e quatro bispos enviaram deputados, e muitos teólogos estrangeiros estavam presentes. Os se fizeram representar em um número pequeno, com ausências significativas. O próprio Zwínglio fora impedido de participar da disputa, pelo Concílio de Zurique de sair de casa, pois ele corria risco de morte. Todavia, ele manteve-se em contato permanente com seus colegas e municiando-os o máximo possível por correspondentes secretos. Ninguém duvidava da coragem de Zwínglio que fora demonstrada incontáveis vezes na bigorna das batalhas. Mas neste momento delicado de Berna, sua ausência fora sentida uma vez que ele igualaria a balança do debate com o romanista ferrenho Eck.  

Mas esta primeira vitória católica romana se demonstrará não apenas ser temporária e parcial, mas a gota que fará o copo transbordar a favor da verdade evangélica da Reforma. O poeta temporário, Nicolas Manuel, assim descreveu a conduta do romanista Eck durante e depois do debate:  

"Eck bate com os pés e bate palmas,

Ele delira, ele xinga, ele repreende;

'Eu faço', grita ele, 'o que o Papa ordena,

E ensina tudo o que ele sabe.[1]

Tal foram os abusos dos organizadores do debate e a malversação do resultado que o debate não foi aceitou e um novo e justo debate foi marcado. As eleições em 1527 viraram o jogo político, e as medidas retroativas romanas foram revogadas e uma nova disputa ordenado para ocorrer em 6 de janeiro de 1528, agora na cidade de Berna.

O Grande Conselho da cidade convocou uma assembleia de clérigos e leigos para discutir as disputas (janeiro 1528). Os cantões católicos romanos e os quatro bispos convidados recusaram, sendo a exceção apenas o bispo de Lausanne, que se manteve em silêncio por discordar que o debate fosse feito na língua alemã e não em latim (como a anterior). O expoente maior papal o Dr. Eck, sabendo que não teria maioria e nem esquema montado a favor do catolicismo rejeitou e atacou o novo debate, declarando que o debate anterior fora vencedor.

Desta vez, como não havia ocorrido na anterior, os principais líderes da Reforma alemã e suíça se fizeram presentes na conferência. Dentre os nomes mais influentes Ambrosius Blaarer de Constança, Oecolampadius de Basiléia, Martin Bucer e Capito de Estrasburgo, Sebastian Wagner Hofmeister de Schaffhausen, William Farel que era pregador em Aigle, e outros menos conhecidos que entre os suíços e estrangeiros, somavam aproximadamente 250 clérigos presentes. A cidade de Zurique enviou cerca de cem ministros e leigos, com uma forte proteção.

Os principais oradores do lado reformado foram Zwínglio, Haller, Kolb, Oecolampadius, Capito e Bucer de Estrasburgo; e pelo lado romano, Grab, Huter, Treger, Christen e Burgauer. Joachim von Watt (humanista, estudioso, prefeito e reformado) de St. Gall presidiu. Sermões populares foram pregados durante a disputa por Blaurer de Constança, Zwínglio, Bucer, Oecolampadius, Megander e outros.

O tempo da conferência duraria dezenove dias, e nela foram lidas e debatidas dez teses que sob a coordenação do reformador Zwínglio haviam sido revisadas e publicadas a pedido de Haller. O famoso historiador da igreja, Phillip Schaff, proclamou "vitória completa" para os reformadores. Assim, o Grande Conselho de Berna tornou-se um grande ponto de virada na Reforma Suíça que também se espalhou para partes da Alemanha e outros países.

Os efeitos desta vitória dos reformados se fizeram refletir de imediato: a missa foi abolida e substituída pelo sermão, imagens foram removidas dos templos e, os monastérios foram esvaziados e usados para a educação de pessoas comuns, e as verbas públicas que eram direcionadas para o sustento dos clérigos romanistas e impostos que eram enviados ao Papa foram declaradas ilegais em Berna.

Esta é a razão pela qual este precioso documento reformado é relevante e não deve ser ignorado, como um movimento menor. Neste momento se inicia a expansão do movimento de Reforma na Suíça, uma vez que, apenas o cantão leste, Zurique tinha se posicionado pela Reforma. Agora soma-se a cidade de Berna, uma das três cidades mais importantes da região. Esta união era fundamental para que o movimento protestante pudessem ser fortalecido e alcançar outras cidades da federação suíça.

 

As Dez Teses de Berna

A santa Igreja Cristã, cuja única Cabeça é Cristo, nasce da Palavra de Deus e permanece na mesma, e não ouve a voz de um estranho.

A Igreja de Cristo não faz leis e mandamentos sem a Palavra de Deus. Portanto, as tradições humanas não são mais obrigatórias para nós do que são fundadas no Palavra de Deus.

Cristo é a única sabedoria, justiça, redenção e satisfação para os pecados de todo o mundo. Portanto, é uma negação de Cristo quando nós confessarmos outro motivo de salvação e satisfação.

A presença essencial e corpórea do corpo e do sangue de Cristo [no missa] não pode ser demonstrada a partir da Sagrada Escritura.

A missa como agora em uso, na qual Cristo é oferecido a Deus Pai para os pecados dos vivos e dos mortos, é contrária às Escrituras, uma blasfêmia contra santíssimo sacrifício, paixão e morte de Cristo, e por causa de sua abusa de uma abominação diante de Deus.

Assim como somente Cristo morreu por nós, ele também deve ser adorado como o único Mediador e Advogado entre Deus Pai e os crentes. Portanto, é contrário à Palavra de Deus para propor e invocar outros mediadores.

A Escritura não sabe nada sobre um purgatório depois desta vida. Portanto, tudo missas e outros ofícios para os mortos são inúteis.

A adoração de imagens é contrária às Escrituras. Portanto, imagens devem ser abolidos quando são colocados como objetos de adoração.

O matrimônio não é proibido nas Escrituras a nenhuma classe de homens, mas permitido a todos.

Uma vez que, de acordo com as Escrituras, um fornicador declarado deve ser excomungado, ele segue-se que a falta de castidade e o celibato impuro são mais perniciosos para o clero do que a qualquer outra classe.

 

Documentos de Fé Reformadas Elaboradas no Século 16

1. Ulrico Zuínglio, Sessenta e Sete Artigos (1523)

2. Ulrico Zuínglio, Instrução Curta e Cristã (1523)

3. As Dez Teses de Berna (1528)

4. A Confissão dos Pregadores da Frísia Oriental (1528)

5. William Farel, Resumo (1529)

6. Ulrico Zuínglio, Fidei ratio (1530)

7. A Confissão Tetrapolitana (1530)

8. Confissão de Valdenses (1530 ou 1531)

9. Ulrico Zuínglio, Exposição da Fé Cristã (1531)

10. Artigos do Sínodo de Berna (1532)

11. O Sínodo de Chanforan (1532)

12. A Confissão de Angrogna (1532)

13. A (primeira) confissão de Basileia (1534)

14. A Confissão Boêmia (1535)

15. Os Artigos de Lausanne (1536)

16. A Primeira Confissão Helvética (Segunda Confissão de Basileia) (1536)

17. João Calvino, Catecismo (1537)

18. João Calvino, Confissão de Fé de Genebra (1536/37)

19. João Calvino, Catecismo (1538)

20. Confissão Valdense de Merindol (1541)

21. A Confissão dos Valdenses da Provença (1543)

22. A Confissão dos Valdenses de Merindol (1543)

23. Confissão Valônica de Wessel (1544/45)

24. João Calvino, Catecismo (1545)

25. Juan Díaz, Suma de la Religio Cristiana (1546)

26. Juan Valdés, Catecismo (1549)

27. Consenso Tigurinus (1549)

28. Thomas Cranmer, Catecismo Anglicano (1549)

29. A Confissão de Londres de John a Lasco (1551)

30. O Grande Catecismo de Emden; ou Catecismo da Igreja dos Imigrantes em Londres (1551)

31. A Confissão da Congregação de Glastonbury (1551)

32. Confessio Rhaetiae (1552)

33. João Calvino, Consenso Genevensis (1552 

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

 

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Reflexões sobre a Reforma Protestante: Introdução

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Boêmia a Terra Fecundadora das Reformas Religiosas

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Reforma 500 anos – John Wycliffe

http://historiologiaprotestante.blogspot.com/2017/04/reforma-500-anos-john-wycliffe.html?spref=tw

Referências Bibliográficas

BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Europeia, 1971.

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DELUMEAU, Jean. La Reforma. Barcelona: Editorial Labor S/A, 1967.

DENNISON, James T. Dennison, Jr. (org.). Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation – 1523-1552 (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2008), vol. 1, págs. 40-42

LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

MAINKA, Peter Johann. Huldrych Zwingli (1484-1531), O Reformador de Zurique – um esboço biográfico. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2001. http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/viewFile/2758/1893.

 


[1] SCHAFF, Philip. História da Igreja Cristã, Volume VIII: Cristianismo Moderno. A Reforma Suíça. Grand Rapids, MI: Biblioteca Etérea de Clássicos Cristãos. https://ccel.org/ccel/schaff/hcc8/hcc8?queryID=44673475&resultID=1197