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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

CALVINO em Cinco Minutos – Ilustrações Bíblicas do Efeito do Conhecimento de Deus

 Resultado da fotomontagem

Calvino inicia suas Institutas pelo tema do conhecimento de Deus e do homem porque este constitui o fundamento de toda a sua teologia: somente à luz da majestade divina é possível compreender, de modo verdadeiro, quem somos. As tendências das chamadas ciências, em muitos casos, procuram ofuscar ou mesmo eliminar Deus de sua perspectiva, deslocando o ser humano para o centro. A História, entretanto, tem demonstrado o completo fracasso dessa inversão antropocêntrica.

Toda a teologia e os comentários bíblicos de Calvino se estruturam sobre a premissa de que apenas o conhecimento de Deus pode conduzir o ser humano à genuína humildade, à fé autêntica e à obediência sincera.

Para Calvino, toda adoração verdadeira é teocêntrica e deve expressar exclusivamente a glória de Deus. Além disso, para além das expressões cúlticas, todas as esferas da vida cotidiana devem ser vividas coram Deo — diante da face de Deus.

Observação: Para enriquecer a leitura, incluí algumas perguntas para reflexão ao final de cada artigo desta série.


Vamos ouvir João Calvino!

LIVRO 1 – (18 capítulos)

O CONHECIMENTO DE DEUS E O CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS SÃO COISAS CORRELATAS E SE INTER-RELACIONAM

O Conhecimento de nós mesmos nos conduz ao conhecimento de Deus

O conhecimento de Deus, humilha nosso orgulho, desvenda nossa hipocrisia, demonstra as perfeições absolutas de Deus e nosso próprio desamparo.

Efeitos do conhecimento de Deus ilustrados pelos exemplos bíblico

Daí aquele temor e assombro com que, como a Escritura uniformemente relata, os homens santos foram atingidos e sobrepujados sempre que contemplavam a presença de Deus. Quando vemos aqueles que antes estavam firmes e seguros tremerem de terror, a ponto de serem dominados pelo medo da morte — ou melhor, de serem, de certo modo, engolidos e aniquilados — a conclusão a ser tirada é que os homens nunca são devidamente tocados e impressionados com a convicção de sua insignificância até que se comparem com a majestade de Deus. Exemplos frequentes dessa consternação ocorrem tanto no Livro dos Juízes quanto nos Escritos Proféticos; tanto que era uma expressão comum entre o povo de Deus: ‘Morreremos, porque vimos o Senhor.’ Assim também o Livro de Jó, ao humilhar os homens sob a convicção de sua tolice, fraqueza e impureza, sempre deriva seu principal argumento das descrições da sabedoria, virtude e pureza divinas. E não sem razão: pois vemos Abraão prontamente reconhecer-se como pó e cinza quanto mais se aproxima da glória do Senhor, e Elias incapaz de esperar com o rosto descoberto pela Sua aproximação; tão terrível é a visão. E o que pode o homem fazer — homem que não passa de podridão e verme — quando até os próprios Querubins devem velar seus rostos em grande temor? A isso, sem dúvida, o profeta Isaías se refere quando diz (Isaías 24:23): ‘A lua se envergonhará, e o sol se confundirá, quando o Senhor dos Exércitos reinar’; isto é, quando Ele manifestar seu esplendor e conceder uma visão mais próxima dele, até os objetos mais brilhantes, em comparação, serão cobertos de trevas.

Mas embora o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos estejam ligados por um vínculo mútuo, a devida ordem exige que tratemos primeiro do conhecimento de Deus e depois descendamos ao de nós mesmos.

Questões Para Reflexão

1. De que maneira o contraste entre a majestade de Deus e a fragilidade humana nos conduz a uma verdadeira humildade?

2. Por que Calvino insiste que o conhecimento de Deus deve preceder o conhecimento de nós mesmos?

3. Como essa percepção da santidade de Deus e da miséria humana deve moldar nossa adoração e nossa vida cotidiana coram Deo?

 

João Calvino

Institutas da Religião Cristã

1559

 

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Referências Bibliográficas

CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã, edição clássica, em quatro volumes, tradução de Waldyr Carvalho Luz, com base na edição de 1559 em latim. São Paulo: Editora Cultura Cristã, Primeira Edição, 1984.
___________. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã (da edição original francesa de 1541). Tradução e leitura de provas Odayr Olivetti; revisão e notas de estudo e pesquisa Herminsen Maia Pereira da Costa. 1ª edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.
___________. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã, em dois volumes, tradução de Carlos Eduardo de Oliveira [vol 1], Omayr J. de Moraes Jr. e Elaine C. Sartorelli [vol 2], com base na edição de 1559 em latim. São Paulo: Editora da UNESP, 2008 [vol 1] e 2009 [vol 2].
CALVINO, João. O Livro dos Salmos. Tradução Valter Graciano Martins. São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1.
D'AUBIGNÉ, J. H. Merle. The Reformation in Europe in the time of Calvin. Vol. VIII. Translated William L. R. Cates. New York: Robert Carter and Brothers, 1879.
FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: vida, influência e teologia. Campinas, SP: Edição de Luz Para o Caminho, 1985.
HALL, David W. e LILLBACK, Peter A. (Eds.). A Theological Guide to Calvin's Institutes – essays and analysis. Phillipsburg, New Jersey, P & R Publishing, 2008. [PACKER, J. I, Prefácio, p. xiii].
WILEMAN, Willian. John Calvin: his life, his teaching, and his influence. London: Robert Banks and Son.

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Bonhoeffer - Quem Sou eu? Diálogo entre Paulo e Bonhoeffer

 Imagem em preto e branco de homem sentado com livro na mão

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Romanos 7.14–25

Bonhoeffer – Quem sou eu? (poema)

(Wer bin ich? – Dietrich Bonhoeffer, 18 de julho de 1944)

Sabemos: a lei é espiritual,
eu, porém, sou carnal,
vendido ao pecado.

Não entendo o que faço:
não faço o que quero,
mas o que detesto, isso pratico.

Se faço o que não quero,
reconheço que a lei é boa.
Já não sou eu quem faz,
mas o pecado que habita em mim.

Eu sei: em minha carne
não habita bem algum;
o querer o bem está em mim,
mas não consigo realizá-lo.

Não faço o bem que quero,
mas o mal que não quero,
esse pratico.

Se faço o que não quero,

já não sou eu quem faz,

mas o pecado que habita em mim.

Acho, então, esta lei:

quando quero fazer o bem,

o mal está comigo.

Segundo o homem interior,

tenho prazer na lei de Deus;

mas vejo em meus membros outra lei,

que guerreia contra a minha mente

e me faz prisioneiro

da lei do pecado.

Miserável homem que sou!

Quem me livrará

do corpo desta morte?

Graças a Deus

por Jesus Cristo, nosso Senhor!

Assim, eu mesmo, com a mente,

sirvo à lei de Deus,

mas, com a carne,

à lei do pecado.

Quem sou eu? Frequentemente me dizem
que saio da minha cela
sereno, alegre e firme,
como um senhor de terras de seu castelo.
Quem sou eu? Frequentemente me dizem
que falo com meus guardas
livremente, amistosamente e com clareza,
como alguém que tem autoridade.
Quem sou eu? Dizem-me também
que suporto os dias de infortúnio
com tranquilidade, sorridente e confiante,
como alguém acostumado a vencer.
Sou eu realmente aquilo que os outros dizem de mim?
Ou sou apenas aquilo que eu mesmo sei de mim?
Inquieto, saudoso, doente, como um pássaro na gaiola,
lutando por fôlego, como se mãos apertassem minha garganta,
ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
sedento por palavras bondosas, por proximidade humana,
tremendo de indignação diante da arbitrariedade e das menores ofensas,
atormentado pela espera de grandes acontecimentos,
ansioso e impotente pelos amigos em distância infinita,
cansado e vazio para orar, pensar e agir,
abatido e pronto para despedir-me de tudo?
Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã outro?
Sou ambos ao mesmo tempo?
Diante dos outros, um hipócrita,
e diante de mim mesmo, um fraco desprezível e queixoso?
Ou aquilo que ainda vive em mim
assemelha-se a um exército derrotado,
que foge em desordem diante de uma vitória já alcançada?
Quem sou eu? Essas perguntas solitárias zombam de mim.
Quem quer que eu seja, Tu me conheces;
Teu sou eu, ó Deus!

Prelúdio

Este artigo está propondo um diálogo entre o testemunho de Paulo em Romanos 7.14–25 e o poema de Dietrich Bonhoeffer Quem sou eu? que contém uma profunda convergência existencial. Apesar de estarem separados por séculos no espaço-tempo, e terem vivido em contextos históricos distintos, ambos expõem a mesma tensão interior: a luta entre aquilo que se deseja ser e aquilo que de fato se é. O apóstolo Paulo revela seu conflito entre o desejo sincero de fazer o bem e a prática do mal, concluindo que mesmo após sua conversão ele ainda carrega uma natureza pecaminosa.  Bonhoeffer, em sua cela, expõe está fazendo a mesma confissão, ainda que por outro viés, o da imagem que os outros têm dele e sua realidade íntima de fragilidade, angústia e contradição.

Creio que a relevância desse diálogo está em demostrar que os conflitos interiores não é apenas uma questão pessoal ou circunstancial, mas universal e atemporal. Tanto Paulo quanto Bonhoeffer concluem que a verdadeira identidade e libertação não se encontram neles próprios ou na capacidade deles em tratarem desta questão, mas unicamente em Deus. Em Cristo, Paulo encontra a resposta para sua miséria; semelhantemente, Bonhoeffer encontra a certeza de ser conhecido e pertencente a Cristo. Desta forma, o encontro desses textos nos ilumina e aponta para uma mesma esperança: somente na graça divina a luta interior encontra sentido e resolução.

O Poema  

Temos uma pequena edição de obras de Bonhoeffer em português e algumas também em espanhol. A maioria infelizmente permanecem em alemão e inglês. Mas este poema é algo significativo em meio suas demais literaturas. Aqui ele escreve de forma explicita (um pássaro na gaiola etc.) sua situação pessoal como prisioneiro. Desde as primeiras linhas de sua composição poética é possível identificar uma tensão premente entre a uma percepção interior e a percepção exterior.

Ainda que não admitamos, ou o fazemos raramente, esse confronto com a própria imagem externa é um desafio inevitável para todos nós que expressamos em frases tais como: sou mais do que aparento ser ou sou mal compreendido e subestimado. Entretanto Bonhoeffer faz uma inversão neste quesito: aparento (externa) ser mais do que realmente sou interiormente diante de mim mesmo. Como se colocando diante de um espelho capaz de refletir seu eu interior e o lhe permitindo sem artificio ou ilusão confrontar-se com seu eu exterior.

Nas três primeiras estrofes curtas, forma-se a imagem de uma pessoa marcada por serenidade soberana e liberdade interior, resumida sempre na terceira linha com qualidades de forte irradiação positiva. Entretanto, na quarta estrofe, não sem razão a mais longa, esse reflexo é confrontado com a autopercepção interior.

O que lhe é refletido pelos outros — grandeza, firmeza, serenidade — não o seduz a ponto de se iludir com aquilo que ele sabe que é interiormente. A percepção externa positiva não consegue ocultar o fato de que o eu lírico[1] não se reconhece nesta imagem. A pergunta Quem sou eu? O leva a uma reflexão profunda e ao conflito inevitável consigo mesmo.

Aquilo que aparento ser seria um papel que estou desempenhando? Tenho sido diante das pessoas um hipócrita? Essa tensão entre percepção interna e externa é passível de ser resolvida em algum momento? Não — pois o reflexo externo não é resultante de uma encenação deliberada.

A percepção de Bonhoeffer é de que a questão da identidade pessoal não pode ser respondida diretamente. Nem seu reflexo externo pode ser simplesmente descartada como irrelevante, como também ela não pode substituir a sua realidade interior.

Mas ele não é um existencialista mórbido. Na sua breve sexta estrofe, a reflexão assume uma virada espiritual: Teu sou eu, ó Deus! Mas isso não resolve simplesmente a questão da identidade. A frase não faz evaporar o conflito. Aqui está o paradoxo - nem a visão interna nem a externa recebem uma resposta direta de Deus, todavia, continuam sendo validas. Mas Deus continua sendo o balizador indispensável, e ao mesmo tempo, o capacitador para lidar com esse conflito.

Quem sou eu? O conflito pode ser tratado, ainda que se mantém como uma realidade, porque é inserido em um novo contexto. O relacionamento com Deus não elimina a fragilidade da própria existência; ele a relativiza de maneira salutar — a razão pela qual o conflito se torna suportável.

O “Tu me conheces” não elimina a relevância de olharmos para dentro de nós mesmo, mas cria um espaço seguro para dialogarmos com Deus sem máscaras. As nossas atitudes e expressões religiosas externas não precisam serem descartadas ou até mesmo rejeitadas como se fossem apenas teatro diante de uma realidade interior amedrontada e insegura. Somos livres para admitirmos nossas fraquezas e expor nossa limitações. Mas aqui está o cerne da questão – os conflitos interiores não precisam ser a voz final. A identidade não é algo rígido ou que se possa guardar como propriedade. Ela se revela aos poucos, se experimenta e se expressa, mas nunca se controla por completo. Nesse aspecto, lembra o próprio mistério de Deus – que pode ser conhecido, mas jamais controlado. Em momentos anteriores de sua trajetória, Bonhoeffer declara que costumava valorizar mais a objetividade da fé, deixando em segundo plano a dimensão subjetiva — como as emoções, a psicologia e até mesmo a comunhão afetiva.

O poema Quem sou eu? representa uma inversão. Sim, a relação com Deus relativiza a pergunta sobre si mesmo — mas o faz de maneira curativa, permitindo que essa pergunta seja feita. Porque a identidade não tem significado último, ela pode ser levada a sério de forma penúltima.

A fé cristã não se reduz ao que alguém pode afirmar sobre si mesmo como autêntico. A relação com Deus liberta para uma autenticidade finita. A relação com Deus não exclui a liberdade de ser quem se é; antes, ela a fundamenta.

Aqui ele toca um dos pontos fundamentais de sua teologia existencial em que enfatiza que a fé cristã não é uma ideia abstrata, mas uma experiência vivida na relação com Cristo, marcada pelo seguimento, pela responsabilidade ética e pela autenticidade diante de Deus.

Paulo e o conflito interior: a identidade sob a Lei (Romanos 7.14–25)

Em Romanos 7, o apóstolo Paulo descreve com impressionante honestidade a experiência do ser humano diante da Lei de Deus. Longe de apresentar um discurso abstrato, ele fala na primeira pessoa, expondo o drama interior daquele que conhece a vontade divina, mas se percebe incapaz de cumpri-la plenamente. O conflito não reside no conhecimento do bem, mas na incapacidade prática de realizá-lo: “porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).

Essa tensão revela uma antropologia profundamente realista. O apostolo não nega em momento algum a bondade da Lei, nem cobre o fracasso moral com os mantos da sociologia ou quaisquer outras “ciências humanas” e nem mesmo o manto da ignorância. O cerne do problema está no pecado que é inerente na raça humana e que efetua uma divisão interior. O “eu” que deseja obedecer a Deus não coincide plenamente com o “eu” que age. Assim, a identidade humana aparece fragmentada: há um querer regenerado e um agir ainda marcado pela carne.

A exclamação “miserável homem que sou!” não é um grito de autocomiseração, mas o reconhecimento de que o ser humano não pode fundamentar sua identidade nem sua obediência em suas próprias forças. A pergunta que segue — “quem me livrará do corpo desta morte?” — desloca a questão da identidade do campo da introspecção para o campo da redenção. A resposta não vem de um novo método, mas de uma pessoa: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7.25).

Paulo, portanto, não resolve o conflito negando-o, mas situando-o dentro da esfera da graça. A identidade do cristão permanece marcada pela luta, mas não é definida por ela. O “quem sou eu?” de Paulo encontra seu eixo não na vitória moral imediata, mas na libertação prometida em Cristo.

Confluência entre Paulo e Bonhoeffer

Para ambos o conflito estabelecido não uma condição de hipocrisia, mas uma condição relacionada com queda da raça humana.

Paulo antecipa uma possível acusação: “Sou então um hipócrita?” A resposta paulina é decisiva: “Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.20). O apostolo não está fugindo da responsabilidade de seus atos, apenas realiza um diagnóstico teológico. O “eu” verdadeiro toma conhecimento de sua realidade pela lei e pela graça, mas ainda vive sob os efeitos de uma natureza pecaminosa.

Bonhoeffer expressa uma percepção semelhante quando pergunta:

Sou eu então apenas um hipócrita diante dos outros,
e diante de mim mesmo um fraco desprezível?

Ambos recusam reduzir o conflito interior a falsidade moral, pois entendem que trata-se da condição do ser humano regenerado, porém ainda não glorificado. Todo aquele que nasce de novo pela ação sobrenatural do Espírito Santo manifesta este conflito, em menor ou maior grau, no transcorrer de sua caminhada até alcançar a plenitude da salvação na eternidade.

Aspecto Crucial da Questão

Tanto Paulo quanto Bonhoeffer chegam a um impasse.

Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24)

Bonhoeffer: “Quem sou eu? Este ou aquele?”

Eles não propõem resolve a questão por meio de introspecção, disciplina moral ou autoafirmação. A questão da identidade humana não se esclarece plenamente a partir do próprio eu. O ensino bíblico não oferece uma identidade autônoma, mas relacional.

A resposta que vem de fora do eu é decisiva. Paulo, diante da luta interior descrita em Romanos 7, não se detém em si mesmo, mas responde imediatamente: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.25). Bonhoeffer, em sua reflexão existencial, conclui de modo semelhante: “Seja quem for eu, Tu me conheces; Teu sou eu, ó Deus!”.

Em ambos a questão da identidade não é satisfatoriamente resolvida, mas permanece ancorada em Deus. Não há eliminação da tensão existencial, mas sim a sua redenção: a luta e a incerteza não desaparecem, mas são amalgamadas pela confiança. Tanto Paulo quanto Bonhoeffer confessam que não sabem inteiramente quem são, mas sabem a quem pertencem.

Assim, a questão da identidade não encontra resposta definitiva no interior do sujeito, mas na relação com o Cristo absoluto.

É nesse deslocamento — da busca por uma essência própria para a entrega confiante — que se revela a liberdade cristã: não a de possuir uma identidade absoluta, mas a de viver uma autenticidade finita, sustentada pela graça.

Convergência Teológica Central

O aspecto teológico central que emerge de Romanos 7 e do poema Quem sou eu? convergem: a identidade cristã se constrói no espaço tenso proporcionado pelo e o ainda não. O cristão vive nesse intervalo escatológico, onde a realidade da redenção foi iniciada em Cristo, mas ainda não se realizou em toda sua plenitude.

Desta forma, o conflito interior não é sinal de incredulidade e/ou hipocrisia, mas de autenticidade da fé. A experiência da contradição entre querer o bem e não realizá-lo, não invalida a fé; ao contrário, confirma que ela é vivida de modo real e honesto diante de Deus e das pessoas.

A segurança do cristão, portanto, não repousa na coerência psicológica ou na capacidade de manter uma identidade estável e transparente a si mesma. A âncora fundamental última está na fidelidade de Deus, que conhece e sustenta o ser humano em sua fragilidade.

Assim, a identidade cristã não pode ser reduzida à fórmula: “sou aquilo que consigo ser”. Essa definição está fadada ao fracasso total, pois é limitada e instável, dependente das forças e fracassos do próprio eu. A verdadeira identidade é confessada de outra forma: “sou conhecido e possuído por Deus”. É nessa pertença que se encontra a genuína liberdade, e a fé que autêntica e dá sustentação a verdadeira esperança.

Implicações Pessoais

1.     Minha luta interior não é sinal de incredulidade, mas de discernimento espiritual.

2.     Meu desejo e busca permanente por uma vida em santificação, não elimina o conflito, ao contrário, me torna mais consciente da dependência de Deus.

3.     Minha identidade cristã não se fundamenta em meu desempenho, mas na graça que opera continuamente em mim.

4.     Posso tranquilamente declarar com Paulo e Bonhoeffer:

o   sou fraco,

o   sou dividido,

o   mas sou do Senhor.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas

BONHOEFFER, Dietrich. Widerstand und Ergebung: Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft. München: Chr. Kaiser Verlag, 1951. [obra original em alemão].

BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal/ASTE, 2021. [tradução integral do texto alemão].

BONHOEFFER, Dietrich. Letters and Papers from Prison. Edited by Eberhard Bethge. Translated by Reginald H. Fuller. London: SCM Press; New York: Macmillan, 1971.

BONHOEFFER, Dietrich. Letters and Papers from Prison: Reader's Edition. Edited by Clifford J. Green. Minneapolis: Fortress Press, 2015.

DUMAS, André. Una teologia de Ia realidad: Dietrich Bonhoeffer. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1971. (Nueva Biblioteca de Teologia; 15).

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[1] Eu lírico é a voz que se manifesta em um poema, expressando sentimentos, pensamentos ou reflexões. Não deve ser confundido com o autor real, pois funciona como uma figura poética ou personagem que fala dentro do texto. No caso de Bonhoeffer, embora o poema reflita sua experiência pessoal de prisão, tecnicamente quem fala é o eu lírico — a voz poética que traduz sua condição interior.

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Bonhoeffer – Cartas da Prisão - Introdução

 Homem sentado em mesa de madeira

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Para a grande maioria dos evangélicos brasileiros, o nome Dietrich Bonhoeffer não apenas soa estranho — por ser alemão — como também não significa absolutamente nada. Para a minoria que já ouviu falar dele — abrangendo todos os segmentos protestantes evangélicos — o nome costuma ser simplesmente ignorado, quando não abertamente hostilizado. Resta, portanto, uma minoria dentro da minoria que consegue enxergar em Bonhoeffer um modelo e um convite para pensar e agir para além da caixa eclesiástica ortodoxa, frequentemente enrijecida por um dogmatismo exacerbado desenvolvido entre os séculos XVII e XVIII e que, de diferentes maneiras, acabou sendo perpetuado nos séculos XX e XXI.

Para a grande maioria dos evangélicos brasileiros, o nome Dietrich Bonhoeffer não apenas soa estranho (por ser alemão), como também não significa absolutamente nada. Já para a minoria — que inclui todos os segmentos protestantes evangélicos — o nome é simplesmente ignorado, quando não hostilizado. Resta, portanto, uma minoria dentro da minoria que consegue ver em Bonhoeffer um modelo e um estímulo para pensar e agir fora da caixa eclesiástica ortodoxa, enrijecida pelo dogmatismo exacerbado desenvolvido a partir dos séculos XVII e XVIII, e que foi implementado e permanece, com toda sua força, nos séculos XX e XXI.[1]

Embora, em seus primórdios, esse dogmatismo tivesse como intenção defender a fé bíblico-cristã contra o avanço do ceticismo e do racionalismo — evocando, de certa forma, a exortação de Judas a “batalhar pela fé que uma vez foi dada”, com o tempo esse processo histórico solidificou práticas e mentalidades que se afastaram da vivência cotidiana das pessoas. Assim, muitos protestantes acabaram se acomodando numa práxis meramente teológica, dicotomizando-a das práticas concretas da vida diária — trabalho, família, relacionamentos e a própria experiência real da fé cristã. O importante passou a ser a teologia correta, e não sua aplicabilidade às demais áreas da existência humana.

Embora tenha se mantido teologicamente conservador em sua perspectiva doutrinária, Bonhoeffer compreendia que a práxis teológica é tão relevante quanto a fides bíblica. Essa ênfase na vivência concreta da fé levou, posteriormente, a que seu pensamento fosse apropriado por correntes como o existencialismo e a teologia da libertação. No entanto, tal apropriação é unilateral e não coerente com o núcleo de seu pensamento teológico, o que explica, em parte, a rejeição de Bonhoeffer no Brasil por setores evangélicos de linha reformada, que veem nessas leituras uma distorção de sua fidelidade bíblica.

Bonhoeffer, embora permanecesse teologicamente conservador em suas convicções essenciais, compreendia que a práxis da fé é tão relevante quanto a fides bíblica. Essa sua ênfase na vivência concreta da fé levou, mais tarde, alguns movimentos — como correntes existencialistas e parte da teologia da libertação — a tentarem apropriar-se seletivamente de sua obra. Contudo, tais apropriações são parciais e, muitas vezes, desalinhadas do núcleo de seu pensamento teológico. Isso ajuda a explicar, em parte, a rejeição a Bonhoeffer em setores evangélicos brasileiros de orientação reformada, que percebem nessas leituras uma distorção de sua fidelidade às Escrituras.

Outro aspecto negativo dessa rigidez teológica é que ela se fixou apenas nos aspectos doutrinários dos grandes reformadores do século XVI, desconectando-os de todas as suas implicações sociológicas e políticas. Com isso, transformou o extraordinário movimento reformista em um nicho de uma dogmática eclesiástica fria, insensível e implacável, onde o que deve ser combatido é “o outro” — aquele que ousa pensar diferentemente deste ou daquele ponto teológico — e não o pecado, nem as ações malignas travestidas de ideologias corruptas e corruptoras, que corroem a justiça e mantêm os desvalidos e fragilizados em um círculo de miserabilidade sem esperança.

Essa síntese demonstra os motivos pelos quais o teólogo luterano alemão Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) se tornou uma das vozes mais contundentes e significativas da resistência cristã — não apenas ao terrível e abominável regime nazista, mas também a toda ideologia dele derivada, especialmente em seus métodos de esvaziar a justiça de seus princípios elementares e de desproteger a sociedade, entregando-a aos seus corruptos e corruptores de plantão.

Preso em abril de 1943 por envolvimento na conspiração contra Adolf Hitler, Bonhoeffer passou cerca de dois anos na prisão militar de Tegel, em Berlim, onde escreveu uma série de cartas, poemas e reflexões teológicas que seriam posteriormente reunidas sob o título Widerstand und Ergebung (Resistência e Submissão), publicado postumamente em 1951.

A leitura de suas cartas revela uma maturidade teológica e espiritual que permeia sua crítica à religiosidade institucional e sua busca por aquilo que chama de uma fé “adulta”, capaz de enfrentar tanto o silêncio de Deus quanto a brutalidade da história. É nesse contexto que Bonhoeffer afirma: “chegou o tempo em que devemos falar de Deus não a partir da religião, mas da vida” (BONHOEFFER, 1971). Com essa declaração — frequentemente mal interpretada — ele não defende a rejeição da fé cristã nem o abandono da teologia, mas denuncia formas de religiosidade vazias, formais, incapazes de dialogar com a realidade concreta do sofrimento humano. Assim, ao formular o conceito etsi Deus non daretur — viver como se Deus não existisse, no sentido de assumir responsabilidade ética plena e agir no mundo com maturidade de fé — Bonhoeffer propõe uma espiritualidade encarnada, comprometida com a justiça e com a verdade em meio às tensões do século XX, de seus dias, e que perduram no século XXI dos nossos dias.

Na época de sua publicação, as Cartas da Prisão causaram impacto imediato entre teólogos, filósofos e pensadores políticos, especialmente por sua crítica à religião como sistema e por sua defesa inegociável de uma igreja “que existe para os outros”.[2] A edição inglesa, Letters and Papers from Prison, editada por Eberhard Bethge — amigo e discípulo de Bonhoeffer — consolidou sua influência internacional (BONHOEFFER, 1971).

Nas décadas seguintes, a obra foi objeto de múltiplas interpretações — ora como testemunho espiritual, ora como manifesto ético. No Brasil, a tradução Resistência e Submissão (BONHOEFFER, 2003) tornou-se referência entre teólogos e estudiosos da espiritualidade cristã. A redescoberta contemporânea de Bonhoeffer, especialmente em contextos de crise política e ética, reforça sua atualidade. Como destaca Felipe Eduardo Martins dos Santos, “vida e obra são inseparáveis em Bonhoeffer; suas cartas são expressão de uma espiritualidade encarnada” (SANTOS, 2014).

Hoje, suas reflexões sobre liberdade, responsabilidade, verdade e comunidade continuam a inspirar movimentos cristãos, acadêmicos e pensadores seculares. A publicação da Reader’s Edition em 2015 (BONHOEFFER, 2015) buscou tornar suas cartas mais acessíveis ao público contemporâneo, reafirmando seu lugar como um dos pensadores mais relevantes do século XX.

Nos próximos artigos desejo explorar um pouco destas cartas à luz da nossa própria realidade brasileira, pois entendo que nos aproximamos rapidamente do contexto vivido por Bonhoeffer na Alemanha nazista.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas

BONHOEFFER, Dietrich. Cartas e Papéis da Prisão. Editado por Eberhard Bethge. Traduzido por Reginald H. Fuller. Londres: SCM Press; Nova Iorque: Macmillan, 1971.

BONHOEFFER, Dietrich. Cartas e Papéis da Prisão: Edição para Leitores. Editado por Clifford J. Green. Minneapolis: Fortress Press, 2015.

BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão: cartas e anotações escritas na prisão. Tradução de Nélio Schneider. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2003.

SANTOS, Felipe Eduardo Martins dos. Vida e obra: chaves hermenêuticas para uma leitura das Cartas da Prisão de Dietrich Bonhoeffer. Diversidade Religiosa, v. 3, n. 1, 2014. Disponível em:        https://periodicos.ufpb.br/index.php/dr/article/download/31154/16691

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[1] O movimento conhecido como Precisionismo — especialmente entre os puritanos britânicos e coloniais — surgiu como uma resposta ao dogmatismo rígido dos séculos XVII e XVIII. Os “precisionistas” enfatizavam não apenas a ortodoxia doutrinária, mas a necessidade de uma fé cuidadosamente vivida, marcada por disciplina espiritual, moralidade prática e coerência entre confissão e comportamento. Em contraste com o mero assentimento intelectual, defendiam que a verdadeira teologia deveria produzir transformação concreta na vida diária. (ver texto deste ponto específico em Artigos Relacionados).

[2] A expressão “uma igreja que existe para os outros” está inserida em sua perspectiva de que uma igreja, para ser de fato uma comunidade de Cristo, não vive voltada para si mesma, para sua autopreservação ou para seus interesses internos, mas que se entrega voluntaria e integralmente ao serviço, ainda que sacrificial em favor do próximo. Trata-se de um desafio amoroso para que a igreja deixe de olhar apenas para si e volte suas ações para aqueles que Deus ama. Bonhoeffer nos lembra que a fé autêntica não se refugia em estruturas ou em discursos de uma ortodoxia alienante, mas se encarna na vida cotidiana, servindo com responsabilidade, compaixão e justiça — sobretudo onde há dor, sofrimento e opressão.