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quarta-feira, 1 de junho de 2016

PROTESTANTISMO NO BRASIL - DOCUMENTO: O PRIMEIRO ESBOÇO DO PRESBITERIANISMO NO BRASIL


Introdução
            O protestantismo demorou mais de trezentos anos para finalmente iniciar seu processo de implantação no Brasil.
As duas frustrantes tentativas, por meio de invasões comercial-militar, dos franceses (1555-1560) e dos holandeses (1630-1654) não contribuíram muito para a implantação da expressão religiosa cristã protestante no país. Ainda que deixassem marcas positivas indeléveis na consciência dos habitantes brasileiros apenas serviu para aumentar substancialmente todo o arsenal de preocupações das autoridades portuguesas quanto aos invasores com sua religião protestante. Imediatamente a Igreja Católica Romana restabelece a hegemonia religiosa, proibindo toda e qualquer outra manifestação de fé, implantando de forma implacável a cartilha da horrenda Inquisição Religiosa. O Brasil fica totalmente isolado de todos os movimentos religiosos, sociais e políticos que estão influenciando e transformando o mundo europeu e americano. A partir do repúdio destes grupos invasores anticatólicos, tudo e todos estrangeiros com qualquer resquício de religião protestante passaram a serem vistos como inimigos e deveriam ser imediatamente combatidos e extirpados, de maneira que toda estruturada religiosa protestante foi extinta.
 Desta forma melancólica e frustrante se finda mais um capítulo, ao gosto popular brasileiro, da novela protestante no Brasil, mas ainda que com um intervalo de um século e meio, novos capítulos e com conteúdo mais pospositivo começarão a serem escritos.
A presença protestante no Brasil somente começara a ver uma luz no fim do túnel, após dois acontecimentos históricos de suma importância para o Brasil e os brasileiros: a transferência da Família Real Portuguesa e a Independência do Brasil.
O ano de 1808 torna-se um marco muito importante para o protestantismo brasileiro, pois sem invasão e sem derramamento de sangue, ele vai receber de presente sua primeira e fundamental abertura para ser implantado no país, das próprias mãos da autoridade maior da nação, o então Regente D. João VI.
     Esta data marca a transferência da família real portuguesa para o Brasil, que será fundamental não apenas para a futura implantação dos diversos ramos do protestantismo no país, mas para a Nação como um todo, pois nunca mais as coisas serão a mesma depois desta data, que não é, mas deveria ser um feriado nacional em deferência a alguns bastante questionáveis em vigência atualmente.
No dia 28 de janeiro de 1808, portanto, uma semana após desembarcar no porto da Bahia, D. João VI vai assinar, no Senado da Câmara seu primeiro e mais famoso e importante ato em território brasileiro: a carta régia de abertura dos portos brasileiros ao comércio de todas as nações amigas. No bojo deste ato comercial está a primeira abertura oficial para que se pudesse expressar outra fé cristã, além da católica romana. Simbolicamente este ato demarca o último ato do Brasil de monopólio católico romano e o primeiro do Brasil protestanizado, através de suas mais diversas ramificações, que em breve haveriam de serem transplantadas no país.
Se a transferência da família real para o Brasil, em 1808, tem sua importância para o desenvolvimento do protestantismo no país, o momento da Independência (1822) também se torna emblemática para perpetuar este processo protestante.
Entre tantos desafios que o jovem Imperador D. Pedro I tem que enfrentar, é a elaboração da primeira Constituição da nova nação. Depois de muitas idas e vindas, ele vai produzir e promulgar a primeira Constituição brasileira, em 25 de março de 1824, que será uma das mais inovadoras entre todas elaboradas na época, com exceção da americana e a mais duradoura de todas que foram elaboradas no Brasil posteriormente, e que foi substituída somente 1891 pela primeira, das muitas, constituição republicana.
Uma das maiores novidades contida nesta primeira Constituição brasileira era a clausula referente à liberdade de culto. Ainda que em 1808 D. João houvesse incluído uma restrita liberdade religiosa no Tratado de Livre Comércio, é com D. Pedro I que a plena liberdade religiosa vai de fato ser estabelecida. Ele teve o cuidado de manter o catolicismo como a religião oficial do novo Império, mas de forma pioneira, desde o descobrimento do Brasil, protestantes, e adeptos de quaisquer outras expressões religiosas poderiam professar livremente sua fé. E mais ainda, assegurava-se constitucionalmente, a plena liberdade de imprensa e de opinião, de modo que ninguém poderia ser preso sem processo formal e sem amplo direito de defesa. Infelizmente, ignorada por quase a totalidade dos brasileiros, o texto original da Constituição de 1824 jaz atualmente no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.
     Nenhum grupo religioso soube aproveitar ao máximo este artigo constitucional como os protestantes. Eles não apenas começam a se instalarem no país, como iram aproveitar todos os meios de comunicação da época, preferencialmente os jornais e revistas, para a divulgação de suas mensagens evangélicas de conteúdo protestante.
Entre as denominações protestantes, a primeira a se estabelecer efetivamente no Brasil, foi o presbiterianismo. Com a chegada do jovem missionário Rev. Ashbel Green Simonton no porto do Rio de Janeiro, em agosto de 1859, inicia-se oficialmente a implantação e expansão da Igreja Presbiteriana no território nacional.
O Documento abaixo transcrito (abud, RIBEIRO, 1981), é o primeiro esboço histórico sobre o início das atividades presbiterianas no Brasil.  E como o título expressa “Esboço de Uma História”, o autor não está escrevendo uma história completa do presbiterianismo no país, mas tão somente, relatando sucintamente à sua Junta de Missões, a qual está subordinado, uma visão mais ampla das atividades iniciais desenvolvidas por ele e seus companheiros missionários.
Entre a data da produção do documento (1876) e a chegada de Simonton (1859) se passaram apenas 17 anos, portanto, trata-se efetivamente dos primórdios históricos das atividades presbiterianas no Brasil.
A relevância deste documento está na oportunidade que ele proporciona de tomarmos conhecimento das formas e do dinamismo com que os missionários pioneiros e os primeiros membros das igrejas estabelecidas se empenharam em levar a mensagem cristã de viés protestantes a todos os brasileiros.
Em tão pouco tempo os presbiterianos estão instalados em diversos estados brasileiros, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Juntamente com as igrejas são estabelecidas as primeiras escolas protestantes, que no transcorrer da evolução histórica se tornarão colégios e universidades.
A leitura deste documento primário, produzido pelo Rev. Alexander Latimer Blackford, que desembarcou em 1860, pouco mais de um ano após Simonton, tem muito a oferecer aos pesquisadores do protestantismo no Brasil.

OBS.: Após o final do documento coloco algumas referências bibliográficas sobre a história do presbiterianismo no Brasil.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/


DOCUMENTO - ESBOÇO DE UMA HISTÓRIA [Presbiterianismo no Brasil]
Pelo Rev Dr. Alexander Latimer Blackford em 1876.

O primeiro missionário de nossa Igreja, Rev. Ashbel Green Simonton, desembarcou no Rio de Janeiro em agosto de 1859. O autor deste esboço, com a esposa, em 1860. Depois de aprender a língua o Sr. Simonton alugou local para a pregação em português, em maio de 1861. Era uma pequena sala no 3º andar[1] de um prédio em rua central.
Sua primeira assistência foram dois homens a quem tinha dado aulas de inglês: compareceram em atenção ao professor. Ficaram in­teressados e na reunião seguinte trouxeram um amigo. Na terceira reunião havia meia dúzia de pessoas; o número de presentes foi cres­cendo, e até hoje tem sempre aumentado.
Em janeiro de 1862, o Sr. Simonton organizou a primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (e do Império); dois homens foram recebidos por profissão de fé. Um deles tinha estado naquele primeiro culto em português; o outro, era um comerciante de Nova Iorque cuja conversão foi resultado dos esforços do Sr. Simonton.
Até o fim de 1875, mais de duzentos pessoas já tinham sido recebidas por profissão de fé e arroladas na Igreja do Rio de Janeiro, quase todas convertidas do Catolicismo.
Temos atualmente, numa das localidades mais centrais da cidade, um prédio de tijolos bem construído, que comportará facilmente 600 pessoas. Na mesma propriedade, pertencente ao Presbitério do Rio de Janeiro, há sala de conferências, sala de aulas, livraria e moradia para uma família de missionários. Além dos cultos regulares na igreja, há cultos e reuniões de oração nos vários subúrbios da cidade, com resul­tados animadores. Além de exemplares das Escrituras, grande número de livros e folhetos são distribuídos anualmente por meio da livraria; e muitos destes alcançam cidades e lugares distantes. Desde 1864, um jornal bimensal, a Imprensa Evangélica, é publicado regularmente, e sua influência tem sido extensa e poderosa. Leva as boas novas a muitos lugares que não poderiam ser alcançados por outro meio ao nosso alcance.
Em outubro de 1863, por ordem da Junta, foi lançada nossa missão em São Paulo. São Paulo tem cerca de 25.000 habitantes, é capital da província do mesmo nome, e sede de uma das faculdades nacionais de direito. Conquanto seja um dos campos mais difíceis para o trabalho evangélico em todo o pais, é provavelmente o segundo em importância, depois da Capital do Império. Foi escolhido com acerto pela Missão como sede de sua escola para o preparo de ministros nacionais e professores. É um centro de influência de onde o poder do Evangelho poderá irradiar-se não só para toda a província, mas também para todo o pais.
A pregação da Palavra naquela cidade, onde a infidelidade e a corrupção prevalecem, logo deu bons frutos, pelo poder de Deus. Foi organizada uma Igreja em 1865, quando vários convertidos foram re­cebidos por profissão de fé.
O progresso do trabalho em São Paulo foi mais lento e, por algum tempo, menos seguro que em outros lugares; mas já está estabelecido. O número de membros arrolados desde o começo se eleva a mais de cem. Fato digno de nota é o grande número de membros que se mudam para outras partes, levando a bênção consigo. Quatro dos primeiros que ali professaram sua fé são ministros ordenados, e dos outros, recebi­dos mais tarde, dois ou três estão se preparando para o ministério. Há vários anos funciona em São Paulo um externato para meninos e me­ninas, anexo à Igreja. Acaba de ser construído um prédio para o uso da missão, bem localizado, no qual há salão de cultos, salas de aulas para a escola e acomodações para o departamento teológico e de treina­mento. Os fundos para este fim obtidos até agora, foram conseguidos principalmente pelos esforços incansáveis do irmão Chamberlain que tem lutado com dificuldades que desanimariam a maioria dos homens. Os primeiros fundos foram angariados pelo 'Memorial Fund Committée" em 1872. Contribuições de membros nacionais da Igreja em São Paulo, e de amigos pessoais do Sr. Chamberlain entre os estrangeiros, elevaram a quantia para cinco mil dólares, com os quais foi comprado o terreno e o material, em I875. Dez mil dólares foram subscritos nos Estados Unidos. Os mil ou dois mil que ainda faltam para completar a obra serão provavelmente doados pelos interessados. Um generoso amigo da Causa, fez doação de três mil dólares pura um fundo permanente; e mais duas doações de trezentos e cinquenta dólares anuais para o susten­to de mais um professor.
São Paulo tem sido o centro de um vasto trabalho itinerante, que já dá resultados imediatos, e dará mais no futuro.
A população adulta é acessível ao Evangelho em quase toda parte. Por meio dela a geração vindoura poderá ser mais facilmente alcançada. A pregação do Evangelho é o meio ordenado por Deus para a salvação de almas e o estabelecimento do Seu reino entre os homens. Isto o Senhor confirmou-nos por experiência, logo no começo do trabalho da Missão em São Paulo. No fim de 1863, e durante 1864, alguns livros e folhetos e uns poucos exemplares das Escrituras tinham sido distribuídos pelo Rev. J. M. da Conceição, antigo vigário da paróquia do distrito de Brotas, região agrícola a 250 km da Capital. Depois de muitos e urgentes pedidos de que alguém fosse pregar lá, finalmente foram vi­sitados por pregadores em fevereiro e novamente em abril de 1865. Era uma viagem cansativa e penosa a cavalo, por estradas ruins e, às vezes, por caminhos estreitos. O sistema de trabalho era ir de um lugar para outro e de casa em casa, pregando, lendo e explicando trechos da Bíblia. O Espirito de Deus já tinha estado lá, preparando o caminho, e estava presente para selar Sua Palavra no coração dos homens. A ver­dade se apoderou daquelas mentes rústicas, mas inteligentes. Malfei­tores, que tinham sido o terror da região, sentavam-se mansamente aos pés de Jesus; homens e famílias que viviam na mais vil ignorância e corrupção, eram salvos e erguidos do seu estado de decadência. Em novembro do mesmo ano, 1865, foi organizada a igreja, com onze con­vertidos do romanismo, os quais foram batizados em nome de Cristo. A reunião em que foi organizada aquela igreja realizou-se numa choupana feita de paus fincados no chão e coberta de sapé.
Nos fins de 1868, o Rev. R. Lennington foi residir em Brotas onde, apesar de não ter havido até então nenhum pastor ou missionário permanente, o rol da igreja linha aumentado, em três anos, de onze para setenta membros. Duas ou três visitas anuais tinham sido feitas por missionários de São Paulo; mas muitos dos resultados foram obtidos pela leitura da Palavra e pelos esforços dos próprios convertidos. Sendo, por natureza, inteligentes, vivos e ativos, muitos desses homens analfabe­tos, com a Palavra de Deus nas mãos, têm se tornado uma força para o bem nos lugares onde residem. Aquela pequena igreja, organizada no meio do sertão em 1865, já se desdobrara, em 1875, em cinco igrejas entre Rio Claro, 75 km a leste, e Rio Novo, 180 km para o interior, a sudoeste, com uma extensão de 60 a 75 km de norte a sul. Este vasto campo, com suas cinco igrejas e outros pontos de interesse e importância nos arredores, está nas mãos do Rev. J. F. Dagama, que reside no Rio Claro, e do Rev. A. B. Trajano, um dos jovens pastores preparados pela Missão, que reside em Brotas.
As escolas são indispensáveis, onde forem instaladas igrejas.
Em Rio Claro há um grande externato. Em Brotas e em vários pontos dentro dos limites daquela congregação, também em Rio Novo, e, talvez, em mais outros lugares, têm sido organizadas escolas, algumas das quais já vêm funcionando satisfatoriamente há vários anos; e algu­mas já quase se mantêm. A Missão tem casa na vila de Brotas que é usada para moradia, aulas e cultos. Em Alto da Serra, dentro dos limites da congregação de Brotas, apesar de se situar 50 km distante, os crentes construíram uma casa modesta onde funciona a Igreja, a escola e onde reside um professor. O mesmo se dá em Rio Novo. Em alguns lugares, há cursos noturnos para adultos, e tem havido casos de velhos terem querido aprender a ler para poderem ler a Bíblia por si mesmos e para os outros.
Muitos daqueles que aceitaram o Evangelho nos arredores de Brotas tinham vindo da província vizinha de Minas Gerais, a uma distância de 150 ou 300 km. Pois os convertidos de Brotas levaram a verdade a seus amigos e parentes. E temos hoje igrejas organizadas em Borda da Mata, Caldas e Machado. O Rev. M. G. Torres, também fruto de nossa Missão, ministra a essas igrejas além de visitar e pregar em outras localidades, na medida do possível.
Em Sorocaba, 90 km a oeste de São Paulo, há uma igreja e uma escola. É o centro natural de um vasto campo. O Sr. Leite, licenciado, reside e trabalha ali.
Em Lorena, meio-caminho entre São Paulo e Rio de Janeiro, há uma igreja organizada desde 1868; e distante 18 km, outra foi organi­zada em 1874. Estas igrejas por enquanto não tem pastor, mas são visitadas de vez em quando pelos irmãos do Rio de Janeiro. Lorena é o centro de um campo importante e promissor.
O Rev. F. J. C. Schneider ocupou a Bahia como campo missionário em 1871. Bahia é uma cidade grande, com cerca de 200000 habitantes, situada a 130º de latitude Sul. Não há lugar que necessite mais do Evangelho. Mas é um campo difícil e o progresso no trabalho é lento. Contudo, tem dado alguns frutos. Cachoeira, a uns 75 a 90 km da Bahia, foi ocupada como campo missionário pelo irmão Houston no princípio de 1875, e no mesmo ano foi organizada igreja. O campo parece pro­missor.
Deveríamos ter mencionado acima que a cidade do Rio de Janeiro, além de contar com uma população dê cerca de 500.000 habitantes, dá acesso a várias outras cidades importantes. Em Petrópolis, residência de verão da Corte, e importante estação de veraneio, temos uma pequena congregação. Seria cansativo enumerar todos os pontos importantes aos quais se tem acesso desse grande centro.
Em 1869, os Srs. Lane e Morton, da Igreja Presbiteriana do Sul, ocuparam o campo missionário de Campinas, na Província de São Paulo, situada a cerca de 100 km a noroeste da Capital. É uma cidade de, talvez, 10000 almas e foi escolhida com acerto como centro dos traba­lhos. O trabalho desses dois missionários tem sido grandemente abençoado. Eles têm uma igreja em Campinas e outra na Penha, à distância de 75 a 90 km; e pontos de pregação muito promissores em outros lugares.[2]
O que eles consideram seu trabalho mais importante ali é um internato que inauguraram com grande esforço, e que funciona regularmen­te há dois anos. Chegaram a contar 150 alunos, na sua maioria filhos de famílias católicas romanas. A instrução religiosa, francamente evan­gélica, é parte essencial de seu programa de ensino. Sua Missão naquela cidade foi reforçada pelo Rev. Boyle e professores enviados dos Estados Unidos.
A Igreja do Sul também estabeleceu campo missionário, no começo de 1873, na cidade de Pernambuco, situada a 8.º de latitude Sul. É a terceira cidade em tamanho, no Império, e, talvez, a segunda em importância. Conta cena de 150.000 habitantes. Ê a capital da província, sede de uma das universidades ou faculdades de direito nacionais e tem um grande comércio estrangeiro. Naquele campo estão os Srs. J. R. Smith e William Le Conte. Embora pareça promissor para o futuro, por en­quanto, aparentemente, só foi realizado o trabalho preliminar.
O Irmão Schneider durante seus primeiros quatro anos dedicou-se ao trabalho entre os alemães e ficou desanimado. Temos verificado que a presença de protestantes alemães sempre atrapalha nosso trabalho com os brasileiros.
Existem dificuldades no trabalho no Brasil. Além daquelas que resultam da depravação, fraqueza e incredulidade humanas em toda parte, há muitas peculiares ao pais.
Há completa tolerância legal mesmo para o trabalho evangelístico mais ativo, tolerância esta que o Governo parece disposto a defender; contudo os protestantes estão sujeitos a restrições civis e embaraços legais. Os crentes, muitas vezes, sofrem perseguições tanto sociais como domésticas. Por exemplo, um membro de uma de nossas igrejas em Minas Gerais, homem de 35 anos e pai de família, levou uma sova de sua mãe por ter abandonado a religião de seus pais. Aguentou a sova com paciência e continuou firme em sua fé em Jesus.
A porta está aberta para o Evangelho no Brasil. O país deveria estar evangelizado nos próximos dez anos. Pode ser e será se a Igreja se levantar e fizer o seu dever. O Senhor foi adiante e maravilhosamente preparou o caminho. Não teríamos tempo para enumerar os pontos importantes a serem ocupados, ou falar dos numerosos e urgentes pedidos que temos recebido para ir pregar, que têm vindo, frequentemente, de lugares distantes, onde uma Bíblia, um livro, um folheto, ou uma Imprensa Evangélica falou a respeito da Palavra ou do trabalho, mas onde nenhum pregador jamais foi e para onde, infelizmente, não temos quem mandar. Em uma população assim preparada e ansiosamente à espera do Evangelho, há apenas um pastor para cada 500.000 almas, enquanto que nos Estados Unidos há para cada 750.
Relacionadas com nossa Missão temos 16 igrejas organizadas, com um total de 668 membros. A Missão da Igreja do Sul tem 4 igrejas.

Do Sketch of the Brazil Mission, by Rev. A. L Blaçkford
(apud, Sketches of The Presbyterian Board of Foreign Missions, Mission House, 23 Centre Street, New York, s/d)

Referências Bibliográficas
FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1 e 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1957.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LESSA, Vicente Themudo. Annaes da Primeira Egreja Presbyteriana de São Paulo – Subsídios para a História do Presbiterianismo Brasileiro. São Paulo: Ed. Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, 1938.
LUZ, Waldyr Carvalho. Nem General nem Fazendeiro, Ministro do Evangelho. Campinas: Luz Para o Caminho, 1994.
MATOS, Alderi Souza de. Os pioneiros presbiterianos do Brasil. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
______________________ Uma Igreja Peregrina – história da Igreja presbiteriana do Brasil de 1959 a 2009. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.
OLIVETTI, Odair. Igreja Presbiteriana de São Paulo (1900-2000) – na esteira dos passos de Deus. São Paulo: IPUSP/Editora Cultura Cristã, 2000.
READ, William R. Fermento religioso nas massas do Brasil. São Bernardo Campo (SP): Imprensa Metodista, 1967.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico (1822-1888): aspectos culturais da aceitação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973.
__________________ Protestantismo e cultura brasileira. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981.
SOARES, Caleb. 150 Anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980.

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[1] Era no 2º andar.
[2] Esqueceu-se de mencionar Santa Bárbara, talvez por ser integrada por estrangeiros.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

PROTESTANTISMO BRASILEIRO: As Contribuições de Horace Lane na instrução pública paulista (1890-1910)

O presente trabalho tem como preocupação central mapear as contribuições de Horace Manley Lane na constituição da escola republicana paulista, entre 1890 a 1910. O foco será a ação de Horace Lane junto aos administradores da instrução pública paulista, em especial, Caetano de Campos e Oscar Thompson. Além da revisão dos trabalhos que focam a influência protestante na organização da instrução pública paulista, tomamos como fontes privilegiadas os relatórios oficiais, artigos editados em periódicos educacionais produzidos no período, documentos pessoais de Horace Lane e a edição do livro Education in the State of São Paulo, de autoria do Oscar Thompson, Horace Lane e Carlos Reis, apresentado na Feira Internacional de Saint Louis em 1904. O objetivo central é analisar atuação de Lane na instrução pública e evidenciar a influência da ação protestante em terras paulistas. Esta pesquisa está apoiada nas premissas de Marta Carvalho de uma História Cultural dos Saberes Pedagógicos, dialogando em torno, de suas práticas, seus agentes, suas representações e apropriações para uma nova compreensão da escola. Como resultado, este estudo permite dar visibilidade às contribuições de Horace Lane na consolidação da instrução pública paulista proposta pelos republicanos.

Palavras-chaves: Horace Lane. Instrução pública paulista. Protestantismo.

SANTOS, J.V. As Contribuições de Horace Lane na instrução pública paulista (1890-1910). 2011. 134p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Marília, 2011.



quarta-feira, 4 de maio de 2016

A IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL (IPB) E O CONSELHO MUNDIAL DE IGREJA (CMI)


            O protestantismo transplantado no Brasil e particularmente a sua ramificação presbiteriana se caracterizou por uma dificuldade crônica de ações propositivas com outras ramificações do cristianismo e uma incapacidade de dialogar com qualquer outra forma de religiosidade, fora do contexto cristão.
            No presbiterianismo o que temos são esforços de motivação pessoal no sentido de amalgamar as distintas denominações em atividades comum, como no caso especifico do Rev. Erasmo Braga que durante toda sua trajetória eclesiástica gastou-se e de se deixou gastar no propósito de tornar a IPB uma catalizadora de outras denominações protestantes no Brasil para uma agenda  mínima de ações cooperativas, entretanto, apesar de concretizar alguns de seus projetos ecumênicos, morreu nas proximidades de seu sonho mais acalentado, a formação do Confederação Evangélica do Brasil (CEB), que apesar de uma intensa agenda, foi totalmente esfacelada no período de ditadura militar, com pleno respaldo de todos os ramos protestantes nela representados.
            Uma das lideranças eclesiásticas, além do Rev. Erasmo Braga, que demandou toda sua energia para inserir a IPB em um âmbito mais amplo e internacional, que lhe possibilitaria maior visibilizacão de suas ações no Brasil e no Mundo, foi sem dúvida alguma a figura do Rev. José Borges dos Santos Jr. Um entre seus muitos esforços de tirar a denominação do isolacionismo em que ela se encontrava foi inseri-la no então recém-criado Conselho Mundial de Igrejas (CMI).[1]
Este Conselho foi fundado em Amsterdã em 1948 dentro de um espírito ecumênico que estava contaminando as mais diversas denominações cristãs na Europa e nos Estados Unidos, do pós-guerra:
Naquele ano de 1948, no pós-guerra, com cidades destruídas, nações dizimadas, milhões de refugiados e esperanças destroçadas, os delegados das igrejas, reunidos em Amsterdam, se reuniram ancorados em sua fé e proclamaram: “É nosso firme propósito permanecermos juntos.” Com esse compromisso renovado, o CMI conclama as igrejas a perseverarem na oração pela unidade. (Altmann, 2008)
O CMI vem na esteira das grandes Conferências Missionárias[2] das quais a maior e a mais significativa para nós (Brasil e América Latina) foi a realizada em Edimburgo em 1910,[3] que segundo Julio Fontana produziu três grandes movimentos:
a) Fé e Ordem é um movimento dedicado a trabalhar pela reconciliação das denominações divididas. As conferências foram realizadas em 1927, Lausanne e em 1937, Edimburgo.
b) Vida e Trabalho é movimento preocupado com a relação da fé cristã com as questões sociais, políticas e econômicas. As conferências foram realizadas em 1925, Estocolmo e em 1937, Oxford.
c) Concílio Missionário Internacional foi formado em 1921 e em 1961 se integrou formalmente ao Conselho Mundial de Igrejas. (2006, p. 01)
Neste momento histórico a IPB tem um representante, Rev. Samuel Rizzo, não como delegado oficial, mas apenas como observador, pois já se encontrava na Europa. Mas ele vai produzir um relatório e o encaminha à Comissão Executiva e sua opinião é que “a fundação do CMI era o evento mais importante para o protestantismo desde a Reforma do século XVI.” (ATAS do SC, 1946, p. 34, Apud, MATOS, 2009, p. 49).  É significativo que justamente neste ano de 1948, que nasce o CMI, é também o ano em que o Rev. José Borges dos Santos Jr. é eleito Presidente do Supremo Concílio da IPB de maneira que seu envolvimento com este Concílio Internacional é imediato e perdurara até o fim de sua vida.
Mas mesmo tendo um parecer tão positivo de seu único observador, a IPB opta por não assinar sua filiação ao CMI, canonizando a famosa frase “se manter equidistante[4] que foi a alternativa encontrada para apazigua as duas correntes que já estavam se cristalizando em seu seio, os liberais, que desejavam a filiação, e os conservadores que não concordavam com as propostas ecumênicas e liberais do CMI. Outra razão para esta postura é que a IPB estava sofrendo com o extremismo do fundamentalismo defendido pelo Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (CIIC), fundado por Carl McIntire, que acabou desencadeando a crise no Seminário do Norte com Rev. Israel Gueiros.[5] Mas esta posição de neutralidade, não será suficiente para manter a unidade da denominação, conforme se revela na continuidade da sua história denominacional.
Em um primeiro momento está “equidistância” foi muito mais aparente do que de fato, pois muitas lideranças da IPB mantiveram um relacionamento umbilical com o CMI, inclusive o Rev. Borges, então seu Presidente por oito anos consecutivos. Um exemplo ilustrativo desta ambiguidade é que enquanto no jornal oficial Brasil Presbiteriano saia diversos artigos e editoriais contrários a CMI, principalmente por causa da política ecumênica com o catolicismo, a então Secretaria Executiva do SC recomendava o “excelente livrinho editado pelo CMI com muito bem elaborados estudos bíblicos” que estava sendo enviado a todos os ministros. (BP, mar, 1962, p. 12, Apud, MATOS, 2009, p. 49). E o Rev. Julio Ferreira, em seu relatório sobre Shaull, tratando sobre a questão relacionada ao ecumenismo revela esta ambiguidade da igreja:
É sabido que a posição de nossa igreja é de “equidistância”. Essa equidistância é mais de jure do que de fato, visto que através (sic) de organizações estamos ligados ao Concílio Mundial e não ao Internacional. Estamos ligados aos Boards de Nova York e Nashville, à Confederação Evangélica, à Aliança Mundial Presbiteriana, etc. Contudo, a “equidistância" foi uma tentativa de acomodação, creio eu, visto que nossa igreja não estava preparada para isso. (FERREIRA, 1957, p. 50, Apud, CASTRO, 2011, p. 86)
Apesar de promover diversos eventos no mundo todo, a atividade mais importante do CMI sempre foram suas Assembleias Gerais que ocorrem a cada sete anos, onde seus programas são revisados e de onde emanam suas políticas diretivas. A cada assembleia geral é eleito um presidente e indicado um Comitê Central que vai atuar nos interregnos até a próxima assembleia.
            As suas primeiras assembleias foram: a primeira em Amsterdã (Holanda – 1948)[6] cujo tema foi “As desordens humanas e os desígnios de Deus”; a segunda em Illinois (EUA – 1954) e o tema foi “Cristo – esperança do mundo”;[7] a terceira em Nova Deli (Índia – 1961) em que o tema central era “Jesus Cristo – luz do mundo”; a quarta ocorreu na cidade de Uppsala (Suécia – 1968) tendo o tema “Olhem! Eu faço novas todas as coisas”.[8]
O Rev. Borges comparece à 3ª Assembleia (novembro de 1961) que aconteceu na cidade de Nova Delhi (Índia),[9] como representante da Confederação Evangélica quando da sua integração ao Concílio Internacional de Missões, filiando-se desta forma ao CMI; ele participa da Reunião da Conferência Internacional de Migração do CMI, onde vai atuar constantemente e também participa como observador da Assembleia Geral do CMI. Retornando ao Brasil redige um Relatório[10] entusiasta encaminhado ao CE/SC da IPB em fevereiro de 1962.
Neste Relatório Borges procura derrubar algumas “desinformações” que vinham sendo vinculadas pelos Fundamentalistas e que vinha sendo combustível para os discursos dos conservadores presbiterianos para aterrorizar a membresia alienada dos fatos reais. Destaca ele que o CMI mantinha total respeito pelas doutrinas peculiares de cada um de seus membros, e demonstra serem infundadas as informações de que a CMI adotara as doutrinas comunistas, conforme suas palavras:
Essa acusação me parece notabilíssima em face dos estudos realizados pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela qualidade do trabalho de interesse nitidamente missionário que vem procurando promover.
Aliás, convém salientar que o mal muito grande seria se o Conselho Mundial de Igrejas, ou qualquer igreja em particular, fosse anticomunista, anticapitalista, antimonarquista, isto é, contra essa ou contra aquela corrente, para se colocar levianamente, a favor de outra: porque a Igreja não foi instituída para se colocar na defesa de nenhuma ideologia, e sim para ser testemunha de Jesus Cristo. No choque entre a ideologia terrena como, por exemplo, entre Imperialismo e Colonialismo, a Igreja tem de ser apenas a coluna e firmeza da verdade. (p. 03, Apud PAIXÃO JUNIOR, 2000, Anexo A - Itálico meu).
As palavras destacadas serão o norte a guiar o Rev. Borges em todas as suas ações e posicionamentos ecumênicos, que o levou a se colocar em desacordo mesmo com aqueles que o admiravam, caso da Mocidade Presbiteriana, ou companheiros com os quais tinha imensa admiração e afinidades, como o caso de Richard Shaull, como vistas aqui nesta dissertação.
Mas o clima para a reunião do Supremo Concílio de 1962 estava em ebulição, documentos subindo dos presbitérios e artigos no Brasil Presbiteriano, condenando qualquer ligação com o CMI, se multiplicavam. Todavia seu Relatório provocou a nomeação de uma Comissão, conforme registrado no Digesto, para estudar a questão de filiação ao CMI:[11]
CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS - Quanto ao Doc. 145 - Destaque nº 1 do Relatório do Presidente do SC sobre CMI - a CE-SC/IPB resolve: 1) Apreciar o esforço do Rev. José Borges dos Santos Jr., Presidente do SC, no sentido de proporcionar à CE-SC/IPB as preciosas informações contidas no Doc. 145, sobre o Conselho Mundial de Igrejas; 2) Tomar conhecimento das conclusões feitas sobre a 3ª Assembleia Geral do CMI; 3) nomear uma comissão para estudar o assunto em todos os seus ângulos e apresentar a esta CE-SC/IPB os resultados destes estudo. A comissão [e a seguinte, dividida em três grupos: NORTE: Reverendos Dr. Abelardo P. Barreto, Dr. Othon G. Dourado, João Dias de Araújo e Pb. Maurício Wanderley. CENTRO: Reverendos Domício P. de Mattos, Dr. Benjamim Moraes, Thiago Rocha, Rodolfo Anders e Pb. Waldo César. SUL: Reverendos Wilson Lício, Sebastião Machado, Mário de Cerqueira Leite Jr., Francisco Alves e Júlio Ferreira.( CE-62-004 – Itálico meu)
Conforme seus Relatórios: em 1962 ele amplia sua participação junto ao CMI participando das reuniões com o Centro de Estudos, Movimento Ecumênico e o Setor de Migração. Em 1962/63/64 ele vai participar de encontros da “Inter-Church-Aid” em Rochester e em Genebra; em 1966 ele vai participar da Divisão de Auxílios Intereclesiásticos e Subdivisão de Refugiados (Genebra), em 1967 em duas reuniões em New York e Genebra. A partir de 1968, já fora da Comissão Executiva da IPB e às portas da sua jubilação compulsória ele não participa da 4ª Assembleia Geral na Suécia.
            Em decorrência de todas estas participações no exterior, ele teve que solicitar ao Conselho da IPJO sua liberação do campo pastoral conforme registro nas Atas da IPJO: n° 17 (24/09/1962) “Viagem do Rev. Borges aos Estados Unidos da América do Norte no período de 08 a 20 de Outubro de 1962, como representante da IPB”; n° 48 (16/07/1964) “Como membro da comissão de Auxílio Intereclesiástico Internacional do Conselho Mundial de Igrejas, na cidade de Iutzing na Alemanha, bem como na qualidade de Vice-Presidente para a America Latina da Aliança Presbiteriana Mundial, participar da Assembleia que se realizará na cidade de Frankfurt”; n° 80 (28/10/1966) registra-se “viagem do Rev. Borges aos Estados Unidos da América e Europa: ‘Interchurch Aid’ em Genebra e Congresso da ‘National Concil of Churches’ em Nova York”; n° 86 (20/04/1967) registra-se “viagem do Rev. Borges a Nova York para participar da reunião do ‘Interchurch Aid’ e posteriormente para Guatemala para encaminhar anteprojeto para uma Universidade Evangélica” e o último registro na Ata n° 92 (30/10/67) “viagem do Rev. Borges para a Suíça ‘Interchurch Aid’ do Conselho Mundial de Igrejas”.
            Fica evidente em todas estas informações o quanto o CMI tinha na ótica do Rev. Borges uma importância estratégica no seu esforço permanente de inserir a IPB na rota dos grandes movimentos que estavam acontecendo no mundo, bem como o fato de que seu posicionamento ecumênico não era fruto de um entusiasmo juvenil, mas demonstra ser uma caminhada firme dentro de um propósito amadurecido ao longo dos anos de sua vivência eclesiástica e fé.
            Entretanto, a IPB manteve inalterada sua opção de permanecer “equidistante” não apenas dos grandes movimentos internacionais, mas também de qualquer movimento evangélico que a tirasse de sua zona de conforto eclesiástico.
            A ideia perpetuada desta igreja em particular e de suas coirmãs denominacionais, de que cada uma isoladamente se basta; de que o mais importante é manter seu status quo teológico; de erigir e usufruir de seus feudos eclesiásticos são mais importantes e mais relevantes do que a busca e o esforço de uma unidade cristã.
            Quem perdeu com este comportamento eclesiástico narcisista e mesquinho foi a própria igreja cristã que ficou à mercê dos predadores que se apropriaram da mensagem cristã e desde então a têm delapidado e desfigurado; perde a nação brasileira cuja sociedade acaba por ficar sem um referencial social-ético genuinamente cristão, de maneira que a grande massa populacional se torna um rebanho dócil nas mãos de políticos corruptos, cujo discurso são roteiros de ideologias nefastas.
            Durante toda sua longa história de mais de 150 anos de atuação no Brasil, os protestantes e seus seguimentos denominacionais, todas as vezes que foram chamados a assumirem papeis de relevância na história nacional, optaram e continuam optando por voltarem as costas para o país e se esconderem no território “seguro” de suas eclesiologias. Pobre Brasil, que carente de líderes dignos, continuará tendo como única opção os espinheiros, porque os grandes carvalhos, e as frutíferas oliveiras e videiras, permanecem “equidistantes”.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

Referências Bibliográficas
ALTMANN, Walter. 60 anos do Conselho Mundial de Igrejas: marcas de um rio vivo. Publicação Virtual de KOINONIA  Ano 3 - Nº 12, Setembro de 2008. Disponível em http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.asp?cod_artigo=238&cod_boletim=13&tipo=Artigo. Acesso em 20/05/2013.
CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.
FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1 e 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1957.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LUZ, Waldyr Carvalho. Nem General nem Fazendeiro, Ministro do Evangelho. Campinas: Luz Para o Caminho, 1994.
MATOS, Alderi Souza de. Uma Igreja Peregrina – história da Igreja presbiteriana do Brasil de 1959 a 2009. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.





[1] O material abaixo faz parte integrante de minha dissertação de Mestrado, posteriormente editada conforme referência bibliográfica (GUEDES, 2013).
[2]As grandes Conferências Missionárias iniciam em 1854 (Nova York), 1860 (Liverpool), 1888 (Londres), onde a América Latina começa a ser pensada como campo missionário, 1900 (Nova York), onde pela primeira vez comparecem missionários que atuam na América Latina. (PIEDRA, 2006, p. 26-27).
[3] Erasmo Braga através do jornal O Puritano, do qual era um dos fundadores e também seu editor, acompanha e divulga o que esta ocorrendo nestas Conferências, particularmente após a de 1900 da qual ele escreve dois editoriais municiado por informações de primeira mão recebidas dos diversos missionários ligados ao Brasil, entre eles George W. Chamberlain e John M. Kyle, que estiveram presentes na Conferência. Na de 1910 a IPB terá um observador oficial, o Rev. Álvaro Reis, que fora eleito neste mesmo ano o primeiro Moderador (Presidente) da Assembleia Geral (Supremo Concílio). Ele observa que a AL esta sendo ignorada na questão missionária internacional.
[4] ATAS do SC, 1950, p. 32, Apud, MATOS, 2009, p. 49; reafirmada na CE-52E-002; SC-62-153 e permanece inalterada ainda hoje.
[5] Conforme analisada em momento anterior da pesquisa.
[6] A Igreja Metodista do Brasil é uma das igrejas membros fundadoras.
[7]Waldo Cesar (IPB), como presidente da União Latino-americano da Juventude Evangélica (ULAJE), Secretário Executivo da Mocidade Presbiteriana e trabalhando na Confederação Evangélica do Brasil desde 1953, participa ativamente dos trabalhos e ainda escreve uma série de reportagens relatando-o e analisando a situação dos protestantes no Brasil, na Revista Cruz de Malta da Igreja Metodista. Ele escreve sobre a omissão da igreja: “[...] Este silêncio da Igreja está durando [...] Por que ela não se pronuncia sobre a situação desconcertante do mundo de hoje? As doutrinas políticas e sociais tomam conta de todos nós, em doses diárias. No entanto, o púlpito nada diz.” (Revista Cruz de Malta, 1955, p. 86). É aqui também que acontecera o encontro dele com Richard Shaull, que também estava presente a convite de Paul Albrecht, um dos organizadores da Conferência, para elaborar um texto sobre as questões religiosas e sociais da América Latina. Nasce aqui uma parceria que permaneceria até o fim de suas vidas, transpassando todas as agruras e intempéries que haveriam de enfrentar.
[8] As demais, inclusive a que ocorreu no Brasil estão fora do recorte histórico desta pesquisa, mas podem ser encontradas informações em Paixão Junior (2000, p. 96), conforme referências bibliográficas.
[9] Muitos pesquisadores seguem a opinião pessoal de Olivetti (2000) de que foi a partir desta Conferência que Borges vai defender um ecumenismo mais amplo, o que não corresponde com os fatos, conforme esta pesquisa demonstra.
[10] Paixão Junior coloca na integra em seus anexos este Relatório de Borges apresentado em fevereiro de 1962 à Comissão Executiva do Supremo Concílio da IPB (2000, Anexo A).
[11] O Professor Rev. Waldyr C. Luz se fazia presente neste Concílio e detalha os bastidores das discussões em plenário, composição da Comissão, entre outros o Rev. José Borges dos Santos Jr e sua proposição final que foi aprovada e perdura até hoje (1994, p. 275-277).