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Romanos 7.14–25 |
Bonhoeffer – Quem sou eu? (poema) (Wer bin ich? – Dietrich
Bonhoeffer, 18 de julho de 1944) |
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Sabemos: a lei é espiritual, Não entendo o que faço: Se faço o que não quero, Eu sei: em minha carne Não faço o bem que quero, Se faço o que não quero, já não sou eu quem faz, mas o pecado que habita em
mim. Acho, então, esta lei: quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo em meus membros
outra lei, que guerreia contra a minha
mente e me faz prisioneiro da lei do pecado. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso
Senhor! Assim, eu mesmo, com a
mente, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado. |
Quem sou eu? Frequentemente me dizem |
Prelúdio
Este artigo está propondo um diálogo entre o testemunho de Paulo em
Romanos 7.14–25 e o poema de Dietrich Bonhoeffer Quem sou eu? que
contém uma profunda convergência existencial. Apesar de estarem separados por
séculos no espaço-tempo, e terem vivido em contextos históricos distintos,
ambos expõem a mesma tensão interior: a luta entre aquilo que se deseja ser e aquilo que de
fato se é. O apóstolo Paulo revela seu conflito entre o desejo sincero
de fazer o bem e a prática do mal, concluindo que mesmo após sua conversão ele
ainda carrega uma natureza pecaminosa. Bonhoeffer,
em sua cela, expõe está fazendo a mesma confissão, ainda que por outro viés, o
da imagem que os outros têm dele e sua realidade íntima de fragilidade,
angústia e contradição.
Creio que a relevância desse diálogo está em demostrar que os
conflitos interiores não é apenas uma questão pessoal ou circunstancial, mas
universal e atemporal. Tanto Paulo quanto Bonhoeffer concluem que a verdadeira
identidade e libertação não se encontram neles próprios ou na capacidade deles
em tratarem desta questão, mas unicamente em Deus. Em Cristo, Paulo encontra a
resposta para sua miséria; semelhantemente, Bonhoeffer encontra a certeza de
ser conhecido e pertencente a Cristo. Desta forma, o encontro desses textos nos
ilumina e aponta para uma mesma esperança: somente na graça divina a luta interior
encontra sentido e resolução.
O Poema
Temos uma pequena edição de obras de Bonhoeffer em português e
algumas também em espanhol. A maioria infelizmente permanecem em alemão e
inglês. Mas este poema é algo significativo em meio suas demais literaturas.
Aqui ele escreve de forma explicita (um pássaro na gaiola etc.) sua situação
pessoal como prisioneiro. Desde as primeiras linhas de sua composição poética é
possível identificar uma tensão premente entre a uma percepção interior e a
percepção exterior.
Ainda que não admitamos, ou o fazemos raramente, esse confronto com
a própria imagem externa é um desafio inevitável para todos nós que expressamos
em frases tais como: sou mais do que aparento ser ou sou mal compreendido e
subestimado. Entretanto Bonhoeffer faz uma inversão neste quesito: aparento
(externa) ser mais do que realmente sou interiormente diante de mim mesmo.
Como se colocando diante de um espelho capaz de refletir seu eu interior e o
lhe permitindo sem artificio ou ilusão confrontar-se com seu eu exterior.
Nas três primeiras estrofes curtas, forma-se a imagem de uma pessoa
marcada por serenidade soberana e liberdade interior, resumida sempre na
terceira linha com qualidades de forte irradiação positiva. Entretanto, na
quarta estrofe, não sem razão a mais longa, esse reflexo é confrontado com a
autopercepção interior.
O que lhe é refletido pelos outros — grandeza, firmeza, serenidade
— não o seduz a ponto de se iludir com aquilo que ele sabe que é interiormente.
A percepção externa positiva não consegue ocultar o fato de que o eu lírico[1]
não se reconhece nesta imagem. A pergunta Quem sou eu? O leva a uma
reflexão profunda e ao conflito inevitável consigo mesmo.
Aquilo que aparento ser seria um papel que estou desempenhando? Tenho
sido diante das pessoas um hipócrita? Essa tensão entre percepção interna e
externa é passível de ser resolvida em algum momento? Não — pois o reflexo externo não
é resultante de uma encenação deliberada.
A percepção de Bonhoeffer é de que a questão da identidade pessoal
não pode ser respondida diretamente. Nem seu reflexo externo pode ser simplesmente
descartada como irrelevante, como também ela não pode substituir a sua
realidade interior.
Mas ele não é um existencialista mórbido. Na sua breve sexta
estrofe, a reflexão assume uma virada espiritual: Teu sou eu, ó Deus! Mas isso não
resolve simplesmente a questão da identidade. A frase não faz evaporar o conflito.
Aqui está o paradoxo - nem a visão interna nem a externa recebem uma resposta direta
de Deus, todavia, continuam sendo validas. Mas Deus continua sendo o balizador
indispensável, e ao mesmo tempo, o capacitador para lidar com esse conflito.
Quem sou eu? O conflito pode ser tratado, ainda que se mantém como uma realidade,
porque é inserido em um novo contexto. O relacionamento com Deus não elimina a
fragilidade da
própria existência; ele a relativiza de maneira salutar — a razão pela qual o
conflito se torna suportável.
O “Tu me conheces” não elimina a relevância de olharmos para dentro de
nós mesmo, mas cria um espaço seguro para dialogarmos com Deus sem máscaras. As
nossas atitudes e expressões religiosas externas não precisam serem descartadas
ou até mesmo rejeitadas como se fossem apenas teatro diante de uma realidade
interior amedrontada e insegura. Somos livres para admitirmos nossas fraquezas
e expor nossa limitações. Mas aqui está o cerne da questão – os conflitos
interiores não precisam ser a voz final. A identidade não é algo rígido ou que
se possa guardar como propriedade. Ela se revela aos poucos, se experimenta e
se expressa, mas nunca se controla por completo. Nesse aspecto, lembra o
próprio mistério de Deus – que pode ser conhecido, mas jamais controlado. Em
momentos anteriores de sua trajetória, Bonhoeffer declara que costumava
valorizar mais a objetividade da fé, deixando em segundo plano a dimensão
subjetiva — como as emoções, a psicologia e até mesmo a comunhão afetiva.
O poema Quem sou eu? representa uma inversão. Sim, a relação
com Deus relativiza a pergunta sobre si mesmo — mas o faz de maneira curativa,
permitindo que essa pergunta seja feita. Porque a identidade não tem
significado último, ela pode ser levada a sério de forma penúltima.
A fé cristã não se reduz ao que alguém pode afirmar sobre si mesmo
como autêntico. A relação com Deus liberta para uma autenticidade finita. A
relação com Deus não exclui a liberdade de ser quem se é; antes, ela a
fundamenta.
Aqui ele toca um dos pontos fundamentais de sua teologia
existencial em que enfatiza que a fé cristã não é uma ideia abstrata, mas uma
experiência vivida na relação com Cristo, marcada pelo seguimento, pela
responsabilidade ética e pela autenticidade diante de Deus.
Paulo e o conflito interior: a identidade sob a Lei (Romanos
7.14–25)
Em Romanos 7, o apóstolo Paulo descreve com impressionante
honestidade a experiência do ser humano diante da Lei de Deus. Longe de
apresentar um discurso abstrato, ele fala na primeira pessoa, expondo o drama
interior daquele que conhece a vontade divina, mas se percebe incapaz de
cumpri-la plenamente. O conflito não reside no conhecimento do bem, mas na
incapacidade prática de realizá-lo: “porque não faço o bem que prefiro, mas o
mal que não quero, esse faço” (Rm 7.19).
Essa tensão revela uma antropologia profundamente realista. O
apostolo não nega em momento algum a bondade da Lei, nem cobre o fracasso moral
com os mantos da sociologia ou quaisquer outras “ciências humanas” e nem mesmo
o manto da ignorância. O cerne do problema está no pecado que é inerente na
raça humana e que efetua uma divisão interior. O “eu” que
deseja obedecer a Deus não coincide plenamente com o “eu” que
age. Assim, a identidade humana aparece fragmentada: há um querer regenerado e
um agir ainda marcado pela carne.
A exclamação “miserável homem que sou!” não é um grito de
autocomiseração, mas o reconhecimento de que o ser humano não pode fundamentar
sua identidade nem sua obediência em suas próprias forças. A pergunta que segue
— “quem me livrará do corpo desta morte?” — desloca a questão da
identidade do campo da introspecção para o campo da redenção. A resposta não
vem de um novo método, mas de uma pessoa: “Graças a Deus por Jesus Cristo,
nosso Senhor” (Rm 7.25).
Paulo, portanto, não resolve o conflito negando-o, mas situando-o
dentro da esfera da graça. A identidade do cristão permanece marcada pela luta,
mas não é definida por ela. O “quem sou eu?” de Paulo encontra seu eixo
não na vitória moral imediata, mas na libertação prometida em Cristo.
Confluência entre Paulo e Bonhoeffer
Para ambos o conflito estabelecido não uma condição de hipocrisia,
mas uma condição relacionada com queda da raça humana.
Paulo antecipa uma possível acusação: “Sou então um hipócrita?” A
resposta paulina é decisiva: “Ora, se faço o que não quero, já não sou eu
quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7.20). O apostolo não está
fugindo da responsabilidade de seus atos, apenas realiza um diagnóstico
teológico. O “eu” verdadeiro toma conhecimento de sua
realidade pela lei e pela graça, mas ainda vive sob os efeitos de uma natureza
pecaminosa.
Bonhoeffer expressa uma percepção semelhante quando pergunta:
“Sou eu então apenas um hipócrita diante dos
outros,
e diante de mim mesmo um fraco desprezível?”
Ambos recusam reduzir o conflito interior a falsidade moral, pois
entendem que trata-se da condição do ser humano regenerado, porém ainda não
glorificado. Todo aquele que nasce de novo pela ação sobrenatural do Espírito
Santo manifesta este conflito, em menor ou maior grau, no transcorrer de sua
caminhada até alcançar a plenitude da salvação na eternidade.
Aspecto Crucial da Questão
Tanto Paulo quanto Bonhoeffer chegam a um impasse.
Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24)
Bonhoeffer: “Quem sou eu? Este ou aquele?”
Eles não propõem resolve a questão por meio de introspecção,
disciplina moral ou autoafirmação. A questão da identidade humana não se
esclarece plenamente a partir do próprio eu. O ensino bíblico não oferece uma
identidade autônoma, mas relacional.
A resposta que vem de fora do eu é decisiva. Paulo,
diante da luta interior descrita em Romanos 7, não se detém em si mesmo, mas
responde imediatamente: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!”
(Rm 7.25). Bonhoeffer, em sua reflexão existencial,
conclui de modo semelhante: “Seja quem for eu, Tu me conheces; Teu sou eu, ó
Deus!”.
Em ambos a questão da identidade não é satisfatoriamente resolvida,
mas permanece ancorada em Deus. Não há eliminação da tensão
existencial, mas sim a sua redenção: a luta e a incerteza não desaparecem, mas
são amalgamadas pela confiança. Tanto Paulo quanto Bonhoeffer confessam que não
sabem inteiramente quem são, mas sabem a quem pertencem.
Assim, a questão da identidade não encontra resposta definitiva no
interior do sujeito, mas na relação com o Cristo absoluto.
É nesse deslocamento — da busca por uma essência própria para
a entrega confiante — que se revela a liberdade cristã: não a de possuir uma
identidade absoluta, mas a de viver uma autenticidade finita, sustentada pela
graça.
Convergência Teológica Central
O aspecto teológico central que emerge de Romanos 7 e do
poema Quem sou eu? convergem: a identidade cristã se constrói no espaço
tenso proporcionado pelo já e o ainda não. O cristão vive nesse intervalo
escatológico, onde a realidade da redenção já foi iniciada
em Cristo, mas ainda não se realizou em toda sua plenitude.
Desta forma, o conflito interior não é sinal de incredulidade e/ou hipocrisia,
mas de autenticidade da fé. A experiência da
contradição entre querer o bem e não realizá-lo, não invalida a fé; ao
contrário, confirma que ela é vivida de modo real e honesto diante de Deus e
das pessoas.
A segurança do cristão, portanto, não repousa na coerência
psicológica ou na capacidade de manter uma identidade estável e transparente a
si mesma. A âncora fundamental última está na fidelidade de
Deus, que conhece e sustenta o ser humano em sua fragilidade.
Assim, a identidade cristã não pode ser reduzida à fórmula: “sou
aquilo que consigo ser”. Essa definição está fadada ao fracasso total, pois
é limitada e instável, dependente das forças e fracassos do próprio eu. A
verdadeira identidade é confessada de outra forma: “sou conhecido e possuído
por Deus”. É nessa pertença que se encontra a genuína liberdade, e a fé que
autêntica e dá sustentação a verdadeira esperança.
Implicações Pessoais
1.
Minha
luta interior não é sinal de incredulidade, mas de discernimento espiritual.
2. Meu desejo e busca permanente por uma vida em santificação, não
elimina o conflito, ao contrário, me torna mais consciente da dependência de
Deus.
3.
Minha
identidade cristã não se fundamenta em meu desempenho, mas na graça que opera
continuamente em mim.
4. Posso tranquilamente declarar com Paulo e Bonhoeffer:
o sou fraco,
o sou dividido,
o mas sou do Senhor.
Utilização
livre desde que citando a fonteGuedes,
Ivan PereiraMestre
em Ciências da Religião.Universidade
Presbiteriana Mackenzieme.ivanguedes@gmail.comOutro
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Referências Bibliográficas
BONHOEFFER, Dietrich. Widerstand
und Ergebung: Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft. München: Chr. Kaiser
Verlag, 1951. [obra original em alemão].
BONHOEFFER, Dietrich. Resistência
e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo:
Sinodal/ASTE, 2021. [tradução integral do texto alemão].
BONHOEFFER, Dietrich. Letters and
Papers from Prison. Edited by Eberhard Bethge. Translated by Reginald H.
Fuller. London: SCM Press; New York: Macmillan, 1971.
BONHOEFFER, Dietrich. Letters and
Papers from Prison: Reader's Edition. Edited by Clifford J. Green.
Minneapolis: Fortress Press, 2015.
DUMAS, André. Una teologia de Ia
realidad: Dietrich Bonhoeffer. Bilbao: Desclée de Brouwer, 1971.
(Nueva Biblioteca de Teologia; 15).
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[1] Eu lírico é a
voz que se manifesta em um poema, expressando sentimentos, pensamentos ou
reflexões. Não deve ser confundido com o autor real, pois funciona como uma
figura poética ou personagem que fala dentro do texto. No caso de Bonhoeffer,
embora o poema reflita sua experiência pessoal de prisão, tecnicamente quem
fala é o eu lírico — a voz poética que traduz sua condição interior.

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