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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PROTESTANTISMO - A Reforma na Inglaterra

Julgamento de Wyclif em Oxford

            O surgimento de vários ramos cristãos acabou contribuindo para o esfacelamento do cristianismo ocidental. As chamadas igrejas reformadas históricas tornaram-se cada vez mais intolerantes com as diferenças encontrando na ruptura um caminho pavimentado para resolver suas questões, do que percorrer o caminho pedregoso da conciliação de outras formas de pensar numa busca continua para manter a essência de seus pressupostos doutrinários e suas formas eclesiásticas. Um dos ramos deste protestantismo fragmentário é o Presbiterianismo. Seu surgimento na Inglaterra já é fruto de divergências dentro da recém-formada Igreja Anglicana.
A Reforma religiosa inglesa que dará origem a Igreja Anglicana tem uma significância peculiar, pois em decorrência de sua difusão mundial por meio de seu comércio e cultura nos séculos 17, 18 e particularmente nos séculos 19 e 20, as missões que emanaram das igrejas inglesas, desempenharam uma influência global nas igrejas emergentes de cunho protestante (LATOURETTE, 2006, p. 1.080). E Azevedo realça ainda mais a importância deste movimento chamando-o de a “Segunda Reforma”, (1996, p.63), pois os embates produzidos pelos diversos grupos separatistas, reunidos debaixo do guarda-chuva do puritanismo,[1] acabaram por reformar a Reforma anglicana, que tinha como objetivo inicial a síntese do protestantismo com o catolicismo.
Desde o século 15 os ingleses já respiravam um ar saturado pelas propostas reformistas. Nomes como Wyclif, John Duns e Guilherme Occan foram fundamentais na pavimentação da futura Reforma inglesa. Em muitos deles pulsava um forte sentimento de formar uma igreja nacional autônoma. O historiador A. F. Pollard[2] destaca que muitos pontos da Reforma inglesa podem ser claramente vista nos escritos destes predecessores: a contestação da supremacia papal com base nas humilhações politicas feitas ao povo inglês; denuncia contra a preguiça, a imoralidade e a riqueza do clero católico Inglês, defesa de um ministério de pregação, e a expectativa de que o poder secular, através de leis, restringiria os vícios e reformaria a moral do clero e da Igreja. Com base nisto muitos historiadores modernos concluem que o rompimento inglês contra Roma, deve pouco a Reforma produzida por Lutero e seus predecessores, e que a força que impulsionou a Reforma inglesa adveio de seus próprios arautos nacionais. (LINDSAY, 1959, p. 255).
Com o inicio da monarquia Tudor,[3] persegue-se por todos os meios o poder absoluto tanto politico quanto religioso, de maneira que as mudanças sociais, politicas, econômicas e religiosas que sopravam violentamente por toda a Europa, associado a um crescente espirito nacionalista e ascensão da classe média inglesa, contribuíram muito para a concretização deste objetivo. De maneira que não se pode pensar inocentemente que tão somente a questão do divórcio de Henrique VIII pudesse produzir tão grande ruptura dos ingleses com Roma. (LINDSAY, 1959, p. 253).
Os centros acadêmicos de Oxford e Cambridge não ficaram isentos da influência dos escritos de Lutero e demais reformadores. Há fortes indícios de que os escritos luteranos estavam sendo amplamente lidos e discutidos tanto nos círculos acadêmicos como fora deles também (LINDSAY, 1959, p. 257; FISHER, 1984, pp. 296-297).  Catedráticos do porte de Thomas Bilney, Hugh Latiner e William Tyndale, sendo que este último produziu uma tradução da bíblia para a língua inglesa, enquanto refugiado em Genebra e portanto fortemente influenciado pelo calvinismo e que veio a ser base da tradução oficial King James Version, no século 17. Estes e tantos outros acadêmicos abraçaram os ideais reformistas, senão estritamente impulsionados por motivos religiosos, mas com certeza impelidos pelos ideais humanistas. E o historiador Zabriskie referindo-se a influência do pensamento humanista inglês afirma:
Esses homens transmitiram a seus sucessores uma largueza de visão para novos estudos e um apelo à erudição sadia como árbitro final em controvérsias sobre a interpretação das Escrituras e das doutrinas; uma atitude funcional, antes que dogmática, para com as instituições do cristianismo; um interesse sem igual, senão maior, pela teologia filosófica, em confronto com a teologia dogmática; e uma incurável disposição para o Platonismo, com sua confiança na intuição espiritual, guia mais seguro para a verdade final do que o seria a lógica”. (1999, p.115-116).
Outro aspecto peculiar da Reforma inglesa é que diferentemente de outros países onde o movimento reformista girava em torno de seus mentores como Lutero, na Alemanha, Calvino em Genebra e Knox na Escócia, na Inglaterra, ainda que houvesse reformadores de grande envergadura religiosa e acadêmica, todavia, foram eclipsados pelos reis e estadistas que assumiram a dianteira do movimento, de maneira que, “a Reform
a inglesa em vez de desarrolar-se como um movimento puramente religioso e intelectual, teve que submeter-se em grau de importância às influências perturbadoras da autoridade e política mundana do governo civil” (FISHER, 1984, p. 297).
Este pano de fundo é indispensável para se compreender melhor o que foi o processo e o resultado final da Reforma na Inglaterra. E como veremos adiante ela terá um impacto grande no Brasil, quer de forma direta, pois a Inglaterra iniciara o processo de abertura religiosa no país, bem como de forma indireta pela transposição dos diversos ramos reformados americanos para o Brasil, visto que os Estados Unidos fora colonizados pelos dissidentes protestantes ingleses que estavam impregnados dos conceitos teológicos forjados nas bigornas do puritanismo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião


Referência Bibliográfica
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio deJaneiro: Record, 1997.
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba; Editora UNIMEP/Exodus, 1996, p.63).
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Européia, 1971.
 DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
DREHER, MARTIN N. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja, v.3).
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
FISHER, Joachim H. Reforma – renovação da igreja pelo evangelho. São Leopoldo: Ed. Sinodal e EST, 2006.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
PEREIRA, João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e
espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005.
POLLARD, Albert Frederick. Thomas Cranmer and the and the english reformation (1489-1556). London : G. P. Putnam’s Sons, 1906.
Zabriskie, Alexander C. Anglican Evangelicalism. Philadelphia, 1999.





[1] Puritanismo , como o nome indica, foi um movimento produzido pelos diversos grupos separatistas (congregacionais, presbiterianos, metodistas) dedicados à purificação da Igreja da Inglaterra (Anglicana) da herança do Catolicismo romano. Bateram de frente com a proposta elaborada por Elizabete I (1558-1603) que propunha uma “via média” entre o calvinismo (reformado) e o catolicismo. Perderam a queda de braço com a rainha, que impôs sua proposta conciliatória. Posteriormente chegaram assumir o poder político na Inglaterra, em meados dos anos 1640 sob a liderança de Oliver Cromwell (1599-1658). O Puritanismo acabou perdendo o poder, e em 1660 a hierarquia episcopal anglicana foi restaurada. Não encontrando espaço para o exercício de suas ideias religiosas, um número crescente de puritanos atravessaram o mar e foram se estabelecer na então colônia Americana. Enquanto no poder os Puritanos produziram a versão da bíblia chamada “King James Version”; entre os anos 1646-1647, através de uma convocação do Parlamento inglês, o clero puritano elaboraram os chamados documentos de Westminster, pois as reuniões ocorriam nas dependências da Abadia de Westminster, dos quais se inclui os documentos: o Diretório de Culto de Westminster, os Catecismos Maior (adultos) e Menor (crianças) , e a Confissão de Westminster; estes documentos se constituem ainda nos fundamentos teológicos das igrejas Presbiterianas e outros ramos protestante calvinista.
[2] Foi um dos primeiros historiadores a interpretar a Reforma produzida por Henrique VIII na Inglaterra, como um evento menos nocivo para o país do que poderia ter sido, como em casos análogos em tantos outros países, como a França e os países baixos.
[3] “A autoridade, centralizadora e absolutista, imposta por Henrique VII, vinha-se afirmando de dia para dia com o filho do fundador: Henrique VIII (1509-1547)”.  (DANIEL-ROPS, 1996, p. 435). 

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