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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

MUDANÇA DE PARADIGMA TEOLÓGICO DO PROTESTANTISMO NO BRASIL E A FUNDAÇÃO DA ASTE [1]

Uma organização muito importante no contexto histórico das décadas de cinquenta e início dos sessenta é a Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE). Ela foi uma fomentadora de propostas ecumênicas e abasteceu os seminários no Brasil de uma literatura teológica pensada na Europa e mais progressista, fugindo assim do padrão norte americano e conservador.
Com apoio do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) ela foi fundada no dia 19 de Dezembro de 1961, em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, São Paulo, numa Assembleia Constituinte, tendo as dependências do Seminário Teológico da Igreja Metodista como sede deste primeiro encontro da ASTE[2] tendo como representantes deste momento histórico: Paul Schelp, Nathanael I. do Nascimento, Aharon Sapsezian, Jaci C. Maraschin, Harding Meyer , Othon G. Dourado, Carlos Cunha, José Del Nero, Isaías F. Sucasas, Martin Regrich, Júlio A. Ferreira, então diretor do Seminário Presbiteriano de Campinas e José Borges dos Santos Jr., então presidente do SC da IPB (cf. identificados na foto ao lado).
Após eleição a primeira diretoria ficou assim constituída: Presidente: Júlio Andrade Ferreira (IPB) Vice-presidente: Oton Guanais Dourado (IPB) Secretário: Jaci Correa Maraschin (Anglicano) Tesoureiro: Nathanael I. Nascimento (Metodista). Também foram eleitas diretorias para três departamentos que funcionariam permanentemente: Depto de Literatura: Pres. A. Bem Oliver, Aharon Sapsezian (Redator da Revista) e dois Membros: Heinrich Tappenbeck, Benedito de Paula Bittencourt e Merval Rosa; o Centro Evangélico de Estudos tendo na presidência: Nathanael Innocêncio do Nascimento e como Membros: Joaquim Beato, João Mizuki, Waldir de Carvalho Luz e Carlos Cunha; Depto de Reconhecimentos e Bolsas sendo o presidente Wilson Guedelha e como Membros:  Paul Schelp, Harding Meyer, Jaci C. Maraschin e José Gonçalves Salvador (LONGUINI NETO, 1991, p. 87).
Os três Seminários Presbiterianos em funcionamento naquele período, Campinas (SP), Recife (PE) e o recém-formado Centenário em Vitória (ES), fizeram parte das instituições teológicas fundadoras da ASTE, bem como instituições[3] de outras denominações como Batista, Congregacional, Presbiteriana Independente, Metodista, Luterana, Episcopal, Igreja Evangélica Armênia.
Na Revista Teológica do Seminário Presbiteriano de Campinas de dezembro de 1962 a ASTE é assim apresentada aos leitores, pelo Rev. Prof. Julio A. Ferreira, que foi seu primeiro presidente:
Essa associação foi fundada em dezembro de 1961, e é, de certo modo, continuadora da Comissão de Literatura Teológica, fundada sob os auspícios do Fundo de Educação Teológica e, no Brasil, da Confederação Evangélica do Brasil. Como já tivemos oportunidade de anunciar por esta Revista, a ASTE através de seus três departamentos, Reconhecimentos e Bolsas, Literatura Teológica e Centro de Estudos Evangélicos é uma organização da qual muito se espera. Estamos informados que neste ano, além dos primeiros passos indispensáveis e complexos para a estruturação da novel Associação, já foram tomados sérios contactos com o Fundo de Educação Teológica, de modo, a obter deste a promessa de um ― major grant. São sim previsíveis as consequências benéficas dessa grande dádiva no levantamento geral do nível da educação teológica em todo o Brasil.
Por outro lado, estão em franco andamento os preparativos para um simpósio sobre a situação atual da Igreja Católica Romana. Espera-se que em princípios de novembro se dê, em S. Paulo, provavelmente na Associação Cristã de Moços (ACM), tal encontro. Para a primeira parte do próximo ano já está sendo planejado um encontro de Seminários para estudo sério de reestruturação de currículos teológicos. (p. 5-6).
Será através dos Simpósios promovidos pela ASTE e de seu Departamento de Literatura que os seminaristas haverão de serem impactados e desafiados a assumirem um posicionamento mais propositivo em relação às questões relevantes da sociedade brasileira. Em 1963 e 1964 o Rev. José Borges dos Santos Jr. foi um dos conferencistas dos Simpósios anuais promovidos pela ASTE; ele ainda 1964 participa de 02 reuniões; em 1966 participa de 01 reunião do Conselho; e a partir de 1967 não constam mais atividades junto a esta organização teológica.
Ao introduzir a teologia dialética de Karl Barth (1886-1968), posteriormente chamada de ―teologia da Palavra de Deus e mais recentemente englobada sob a nomenclatura generalizada de ―neo-ortodoxia, apontando para ação contínua de Deus na história humana e que segundo ele o ser humano torna-se peça fundamental nesta ação divina, somando-se a outros teólogos como Emil Brunner (1889-1966) e Rudolf Bultmann (1884-1976) e um que particularmente impactou com mais força a juventude cristã brasileira, Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) que foi martirizado pelos nazistas alemães e que em suas cartas posteriormente editadas, desafiava os cristãos a vivenciarem a fé no meio da sociedade secularizada indo além de uma religiosidade e mesmo além das estruturas eclesiásticas das igrejas, cuja teologia recebe o título de ―Teologia Radical. Através destas literaturas a ASTE vai começar a mudar o bibliocentrismo teológico conservador cultuado nos seminários, assim como contribuirá para atiçar ainda mais o fogo que começa a incendiar a alma dos jovens estudantes de teologia brasileira, que culminara em um crescente movimento de contestação dentro das instituições teológicas e que se espalhara pelas denominações através de seus departamentos de jovens.
A Mocidade presbiteriana com suas lideranças engajadas, entre eles Waldo César, Cirene Louro, Paulina Steffen, Homero Silva, Esdras Borges Costa, Lysâneas Maciel, Elter Maciel, e sua estrutura organizacional espalhada por todo país, que em 1958 contava com 17.000 membros e 600 sociedades organizadas (União de Mocidade Presbiteriana - UMP), esta intensamente envolvida e acaba assumindo a vanguarda dos movimentos progressistas que estão polvilhando o protestantismo brasileiro.
Evidentemente que tudo isto faz disparar o alarme das autoridades eclesiásticas mais conservadoras, que certamente não estavam preparadas para tantas convulsões ou simplesmente não desejavam mudanças estruturais, pois as estruturas produzem uma sensação de segurança e poder. A reação é imediata, como pudemos constatar em diversos momentos desta pesquisa e que culminara com a extinção da Confederação Nacional de Mocidade e a intervenção e fechamento de seminários e o expurgo de toda a liderança progressista em todos os âmbitos da denominação.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

Referências Bibliográficas
FILHO, Manoel Bernardino de Santana. A ASTE e a ditadura militar. Mnemosine Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFCG, v.5, n. Especial, 2014. Disponível em: http://www.ufcg.edu.br/~historia/mnemosinerevista/Revistas/Vol%205%20Num%20Especial%20-%202014.pdf. Acesso em: 20/09/2015.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LONGUINI, Luiz. O Novo Rosto da Missão. Viçosa, MG: Ultimato, 2002.

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[1] Aparte do meu livro: O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo (cf. ref. abaixo), com acréscimos e notas de referências.
[2] Houve quatro reuniões do conselho deliberativo da Comissão de Literatura do Fundo de Educação Teológica (FET) criado em 1958 pelo (CMI), como preparativo para esse momento conclusivo: a primeira nos dias 23 e 24 de junho de 1960 e a segunda no dia 07 de setembro do mesmo ano, ambas no Rio de Janeiro; a terceira nos dias 14 a 16 de maio de 1961 e a quarta e última desse conselho sendo a primeira da ASTE no dia 19 de dezembro, em São Bernardo do Campo (SP). Ela nasce independente da CEB (Confederação Evangélica do Brasil) e do FET, ainda que recebia suporte financeiro deste último organismo internacional.
[3] Lista completa dos Seminários fundadores: Seminário Presbiteriano do Norte – Recife/PE; Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil – Recife/PE; Seminário Teológico Presbiteriano do Centenário – Vitória/ES; Seminário Teológico do Rio de Janeiro – Pedra de Guaratiba/RJ; Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil – Rio de Janeiro/RJ; Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente – São Paulo/SP; Faculdade de Teologia da Igreja Metodista Livre – São Paulo/SP; Faculdade da Teologia da Igreja Metodista – Rudge Ramos/SBC/SP; Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas - Campinas/SP; Seminário Concórdia da Igreja Evangélica Luterana – Porto Alegre/RS; Seminário Teológico da Igreja Episcopal do Brasil – Porto Alegre/RS; Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana – São Leopoldo/RS.



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

UM JOVEM PASTOR PRESBITERIANO CHEGA AO BRASIL: Uma divagação


As primeiras luzes da manhã do dia 12 de agosto de 1859 começam a se espalhar e a movimentação no navio aumenta – foram avisados de que se aproximam da costa. Ele se levanta e troca de roupa; começa a arrumar os poucos pertences pessoais que trouxera em sua mala de mão e enquanto o faz lembra-se de sua mãe[1] que com os olhos lagrimosos o fizera na noite anterior ao seu embarque – a saudade bate forte!
O movimento e barulho aumentam na mesma proporção em que o navio se aproxima da costa. Ainda que já houvesse um grande fluxo de navios à vapor circulando pelos mares[2] e apressando as viagens, ele utilizou para essa grande travessia um navio veleiro,[3] chamado Banshee,[4] assemelhando-se assim a Pedro Alvares Cabral que descortinou esse imenso e majestoso país para o mundo europeu no longínquo ano do 1500; aos navios à velas que também trouxeram o rei D. João VI e toda corte portuguesa, que fugindo da invasão e domínio francês de Bonaparte, desembarcou no porto brasileiro no ano de 1808, transformando a Colônia em Reino, iniciando a modernização do país, bem como preparando-o para que em apenas 14 anos alcançasse sua Independência, quando o então príncipe D. Pedro I rompendo os laços com Portugal em 1822 inicia o processo de autonomia brasileira. Todos esses fatos da História do Brasil, alguns ainda recentes, lhe vem à mente enquanto fecha a mala e verifica pela última vez se não estava esquecendo nenhum pertence seu na cabine.
Acima dele o barulho agora é mais expressivo; toma o corredor e começa a subir os degraus que lhe dá acesso ao convés e à brisa fresca daquela manhã de agosto. Ele contempla as pessoas que entre um misto de alegria e alivio pela chegada tão próxima se cumprimentam e se abraçam, pois, a grande maioria nunca mais se encontraram após o desembarque. Mais uma vez sua mente retrocede 56 dias atrás[5] no momento em que se despedia de sua mãe acompanhada de John um de seus nove irmãos[6] no porto de Baltimore (Maryland).[7] Também com um misto de alegria, pois não apenas sabiam quais eram seus objetivos quando aqui chegasse, mas o apoiavam integralmente, todavia, também havia um sentimento de tristeza pela separação momentânea ou perene que se impunha agora entre eles, bem como as apreensões pela viagem tão perigosa que o aguardava, não sem razão, pois apenas alguns anos depois, esse mesmo navio haveria de naufragar, empurrado por fortes ventos de tempestade, para ser destroçado entre rochas.[8] Sua mãe ao abraça-lo sussurra em seus ouvidos, com voz tremula, palavras de incentivo e afirmando uma vez mais que diariamente estaria orando por ele, pois sabia que o mesmo Deus que o havia vocacionado para o ministério pastoral e que agora o estava enviando para a obra missionária no Brasil, jamais o desampararia e haveria de fazer prosperar sua obra naquele imenso país.[9]
Quando suas lembranças desvanecem seus olhos contemplam a Baia da Guanabara e ele é tomado pelo êxtase das belezas naturais incomparáveis que a formam. Ele havia lido diversos relatos produzidas pelos viajantes que aqui desembarcaram antes deles. Um desses foi o Rev. James Cooley Fletcher (pastor presbiteriano) que estivera no Brasil uns oito ou dez anos antes dele e que registrou suas perspectivas do país e de sua população, editando um livro que ficou muito popular com várias edições nos EUA e também no Brasil em português,[10] e que o motivara muito em vir para essa tão imensa e maravilhosa nação que dava seus primeiros passos na independência. Mas nada se comparava ao que ele estava contemplando com seus próprios olhos.  A entrada da baía é formada por um conjunto de montanhas, no qual se destaca um morro grande e elevado, tendo um formato de pão de açúcar, e que ao seu pé proporciona em caso de necessidade é possível lançar âncora. Certamente é uma das baías mais amplas e cômodas do mundo e as montanhas ao seu redor proporcionam segurança, protegendo as embarcações dos fortes ventos e agitações marítimas. Em toda imensa extensão é possível aquartelar navios de quaisquer dimensões, pois os barcos podem chegar tão próximos da terra, que uma barcaça com facilidade se aproxima para transportar pessoas e mercadorias.
Finalmente o navio entra na Baia da Guanabara e ele percebe a grande quantidade de outros navios com suas bandeiras hasteadas no mastro principal, revelando as inúmeras nações que se fazem presentes na intensa e diversificada relação comercial que o Brasil desenvolveu desde a Abertura dos Portos assinada por D. João VI quando aqui chegou em 1808. O porto do Rio de Janeiro é um dos maiores do país, portanto, o transito de pessoas e mercadorias aumenta anualmente. Tinha conhecimento e fazia parte de suas novas atribuições missionárias, dar assistência pastoral aos milhares de marinheiros americanos que anualmente perpassavam por este imenso porto e também, como alguns colportores[11] e missionários antes dele, fazer do porto uma oportunidade para distribuição de bíblias protestantes, pois soube que uma das estratégias era “esquecer” no cais caixas contendo bíblias, de maneira que muitos acabavam pegando um exemplar para ler.
Sua respiração acelera, seu coração aumenta os batimentos cardíacos, quando começa a desembarcar; quando finalmente seus pés tocam o cais e ele dá seus primeiros passos, é arrebatado pelas grandes expectativas e sonhos que tanto o motivaram a empreender tão grande e temerosa empreitada. Enquanto caminha pela primeira vez no território brasileiro deslumbra em sua mente as imensas possibilidades que tem diante dele: aprender a língua, iniciar uma classe de estudos bíblicos como passo inicial para implantar a primeira Igreja Presbiteriana na crescente cidade do Rio de Janeiro; distribuir e quem sabe abri em outros centros urbanos do país depósitos de literaturas e bíblias de cunho protestante; produzir um jornal onde pudesse expor os conceitos cristão protestante; quem sabe ele não haveria de ver o desenvolvimento e expansão do presbiterianismo no Brasil e seus olhos brilham quando pensa se não seria maravilhoso ter o privilégio de ordenar o primeiro pastor protestante brasileiro.
Tomado por todas essas enormes expectativas Ashbel Green Simonton[12] continua sua caminhada quando ao sair do porto e pisar na rua da cidade pela primeira vez, levanta os olhos aos céus e ora: “Eis me aqui Senhor! Usa a minha vida integralmente na Sua obra! ”

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

Referências Bibliográficas
ATAÍDES, Florêncio Moreira de. Simonton: o missionário que impactou o Brasil. Arapongas, PR: Aleluia, 2008.
CÉSAR, Elben M. Lenz. Mochila nas costas e diário na mão: a fascinante história de Ashbel Green Simonton. Viçosa (MG): Ultimato, 2009.
FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1 e 2, 2ª ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
KIDDER, D. P. e FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros – esboço histórico e descritivo, v. 1. Brasiliana – Biblioteca Pedagógica Brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941 [Tradução da 6ª. edição em inglês - Elias Dolianiti e Revisão e Notas de Edgard Sussekind de Mendonça].
MATOS, Aldery Souza (org.). O Diário de Simonton. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2002.
RIZZO, Maria Amélia. Simonton – inspirações de uma existência. São Paulo: Editora Rizzo, 1962.
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã – IPC, 2009
Artigos
James Cool Fletcher
O Trabalho Desenvolvido por Ashbel Green Simonton e Seus Companheiros




[1] Martha Davis (pai William Simonton)
[2] O navio a motor Savannah havia atravessado o Atlântico 40 anos antes.
[3] Esse tipo de navio tem um mastro principal mais alto do que um prédio de quinze andares, contendo 31 velas e cerca de 18 quilômetros de cabos, sendo necessário ao menos 52 marinheiros para manobra-lo em alto mar. Para os curiosos basta conhecer o Cisne Branco, da Marinha Nacional, modelo dos veleiros do século dezenove, utilizado para treinamento de aspirantes à navegação.
[4] O nome não era um alerta para os marinheiros e passageiros, pois vem do folclore irlandês (e celta), sobre uma figura de fada que avisa sobre a proximidade da morte.
[5] Ele embarcou no dia 18 de junho de 1859 e desembarcou no dia 12 de agosto, perfazendo um longo período “entre o céu e o mar” de 56 dias.
[6] Eram em nove irmãos, sendo cinco homens: Simonton, William, John, James Thomas e quatro irmãs: Martha, Jane, Elizabeth (Lillie) e Anna Mary.
[7] O porto somente tinha saída para o mar Atlântico pelo lado sul, portanto, tendo que atravessar toda a baia de Chesapeake-Delaware, uma baia de 300 quilômetros de comprimento. A nossa baia da Guanabara (RJ) tem 412 quilômetros quadrados.
[8] O historiador Laurentino Gomes falando sobre as viagens transatlânticas resume: “quem partia tinha o cuidado de organizar bem a vida e se despedir dos parentes e amigos, pois a chance de nunca mais voltar era enorme”.
[9] A sua mãe no diário dela na data de sua partida: “É difícil separar-se daqueles que talvez não vejamos mais na terra. Mas quando penso no valor das almas imortais que se estão perdendo pela falta do Evangelho puro... Recomendo você com orações e lágrimas ao Senhor, que tudo faz para o bem” (www.missiodei.com.br. In: 25/08/06; negrito meu).
[10] Segundo Alfredo de Carvalho (em sua obra Escritores Exóticos no Brasil), Brazil and the Brazilians [O Brasil e os Brasileiros] é, "ainda hoje, nos Estados Unidos, senão o livro clássico, o mais vulgarizado (popular) sobre o nosso país". Também Marchant (em Handbook of Latin American Studies, 1938) escreve que a obra de Kidder e Fletcher "é, em sua época, certamente, a mais importante obra americana sobre o Brasil".
[11] Tradução do vocábulo anglo-gálico “colporteurs” protestantes que vendiam ou distribuíam literatura evangélica e principalmente bíblias. Simonton nas anotações em seu diário entre 22 de outubro de 1860 a 14 de fevereiro de 1861 menciona ao menos oito referências relacionadas à importância de colocar a Bíblia nas mãos da população brasileira.
[12] Nasceu no dia 20 de janeiro de 1833, em West Hanover, na Pensilvânia, descendente de presbiterianos escoceses-irlandeses que haviam migrado para os Estados Unidos.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

REFORMA PROTESTANTE: Personagens Concomitantes – Erasmo de Rotterdam

Introdução
A Reforma Religiosa ocorrida no século XVI, também denominada de Reforma Protestante, foi sem dúvida alguma um dos acontecimentos histórico mais impactante na vida de pessoas, nações e do mundo Ocidental. Suas ondas sísmicas ainda se fazem sentir, mesmo que de forma tênue, nos dias iniciais deste nosso século XXI.
Evidentemente que um movimento desta envergadura e abrangência haveria de produzir personagens da mesma magnitude. Nomes como os de Martinho Lutero, João Calvino, Zwínglio tornaram-se de domínio público e ainda hoje inspiram cristãos e não cristãos em todo mundo ocidental.
Mas um movimento com esta dimensão continental, originariamente de cunho religioso, não poderia ter alcançado esta magnitude e expandindo tão rapidamente se não estivesse inserido em uma esfera maior dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos que lhes estão conectados e até mesmo amalgamados.  
Desta forma, ao nos referirmos à Reforma Religiosa e/ou Protestante, a empobreceremos muito se nos restringirmos apenas aos personagens e movimentos eminentemente religiosos. Inúmeros personagens e movimentos paralelos contribuíram de forma efetiva nos movimentos iniciais que culminaram com a Reforma em si, bem como nos múltiplos desdobramentos produzidos em sua esteira no transcorrer dos anos.
Esse singelo espaço será ocupado pelo esforço de resgatarmos esses personagens e movimentos que paralelamente acompanharam desde sua origem a Reforma Protestante e seus desdobramentos na sociedade humana.

ERASMO DE ROTTERDAM: Um Renascentista na Reforma Religiosa e/ou Protestante
Seu nome de batismo era Geer Geertz, de origem holandês, mas posteriormente optou, como tantos outros contemporâneos igualmente influenciados pelo movimento humanista,[1] por um nome de origem latina Desiderius Erasmus, mas o nome que prevaleceu na literatura acabou sendo Erasmo de Rotterdam, vinculado à cidade em que nascera em 1446.[2]
Erasmo nasce no entroncamento de dois séculos, XV e XVI, demarcando uma das mais significativas mudanças de mentalidade na sociedade ocidental. Nada seria mais como antes, as transformações iniciadas no século XV e efetuadas no século XVI não deixariam pedra sobre pedra. Todas as esferas da sociedade, incluindo a até então intocável religião, seriam afetadas profundamente e tomariam formas e dimensões jamais imaginadas por qualquer pessoa ou instituição daqueles dias.
Como filho da Renascença[3] Erasmo assume um papel significante na área do conhecimento e seus escritos filosófico-religioso demonstram sua erudição e lhe outorga o respeito e admiração de seus pares acadêmicos, mais ainda, extrapolando as rígidas fronteiras acadêmica alcança a mentalidade da sociedade. Seu esforço é direcionado em unir o ser humano, a religião e o conhecimento advindo das experiências vivenciais. Esta proposta, aparentemente simples para nós hoje, naqueles dias tornam-se estopim de uma enorme batalha, pois bate de frente com a toda poderosa teologia tomista-aristotélica,[4] mergulhada em discussões e elucubrações intermináveis sobre temas metafísicos e dialéticos totalmente alienados da realidade da sociedade e da vida cotidiana das pessoas.
Em nenhum momento Erasmo rompe oficialmente com Tomás de Aquino,[5] o arquiteto do sistema teológico tomista que procurava fazer a junção da filosofia grecolatina clássica (principalmente de Aristóteles)[6] para compreender a revelação religiosa do cristianismo, mas em seus escritos fica claro as discordâncias de Erasmo em relação aos conceitos tomista que castrava qualquer outra forma de pensar e conhecer. Partindo dos princípios fomentado dentro da rigidez escolástica a teologia cristã acabava produzindo uma religiosidade estéril, de maneira que a força vivificadora e transformadora do Evangelho se tornava apenas uma vaga lembrança. Mas é esta concepção aristotélico-tomista que vai predominar na tardia Idade Média e moldar o pensamento da igreja e da sociedade – uma religião especulativa que perdera a capacidade de dar esperança e paz aos corações dos medievos aterrorizados continuamente pelo prisma da morte e do inferno.[7]
A proposta abraçada por Erasmo e por seus contemporâneos humanistas era tão somente retornar às origens. Para ele era preciso urgentemente redescobrir a simplicidade e singeleza do Evangelho; era necessário retornar aos princípios elaborados por Cristo; a religião cristã precisava alcançar a vida das pessoas proporcionando a elas um cristianismo vivencial centrado no tripé da fé sincera, amor sem hipocrisia e esperança que não se envergonha, afastando-se das especulações metafísicas e argumentações dialéticas. Para que este objetivo pudesse ser alcançado se fazia necessário um retorno às fontes primarias do cristianismo – os textos evangélicos do Novo Testamento.[8]
Em sua obra mais profícua – Elogio da loucura (Encomium moriae seu laus stultitiae) – Erasmo expõe todo seu arsenal crítico da religiosidade de seus dias. A leitura desse livro incomoda ainda hoje e deveria ser leitura obrigatória a todos que estão ligados à religião cristã, bem como as instâncias da política e governança. Seus paradoxos e ironias, suas críticas acerbas e diretas contra as lideranças eclesiásticas, sua exposição das hipocrisias e da corrupção, aliada a uma exaltação dos valores transcendentais, fecundadas no tripé da fé, da esperança eterna e da pratica do amor torna a leitura dessa obra obrigatória.[9]
Longe de ser uma obra cômica da vida, ela oferece a oportunidade de um autoexame profundo no que concerne à vida humana em todas as suas dimensões que se revelam em todos os caminhos e descaminhos trilhados pelo ser humano; aquilo que somos transparece de uma forma ou outra, nos atos, fatos, erros e acertos do indivíduo e que retumba com toda intensidade na sociedade em todas as suas dimensões eclesial, civil, política e econômica. As palavras se Luiz Feracine (2011, p. 44) são oportunas:
O que mais encanta nessa obra é a relação dos opostos entre ilusão e verdade, sabedoria e doidice, máscara e autenticidade.
Sabemos que o impacto provocado pela edição daquele texto acusatório contribuiu para a reflexão e mesmo para a reforma interna no âmbito eclesiástico tanto da época como do período posterior a Erasmo.
Em suma, “Elogio da Loucura” concretiza o senso sacro do profetismo sob a modalidade de pilhéria mordaz.

Erasmo e sua Relação com a Reforma Protestante
Erasmo vivenciou dois dos maiores movimentos que eclodiram e transformaram a história ocidental – o Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante.
A situação caótica da sociedade e da Igreja Cristã perfazem o contexto onde prolifera ambos os movimentos: tensões políticas e sociais, catástrofes climáticas, pragas na agricultura, propagação de doenças, sendo a principal delas a peste negra, que sozinha dizimou aproximadamente um terço da população europeia; o juízo final nunca antes foi tão iminente, o pavor da morte aterrorizava as pessoas em todas as esferas da sociedade; a Igreja Cristã que deveria amenizar esse terror e apontar um caminho para sair desta situação caótica e desesperadora, está mergulhada em suas próprias mazelas, tomada pela corrupção moral, econômica e eclesiástica. As imoralidades dos papas, bispos, sacerdotes, o cisma do Ocidente com o cativeiro do papa em Avignon, o comercio das relíquias e das indulgências, a simonia desvairada, o nepotismo exacerbado de bispos e cardeais, tudo contribuía para que a religião fosse banalizada e a autoridade da igreja se tornasse uma peça de ficção. O cristão para ter acesso a Deus precisava trilhar um caminho longo e tortuoso: “pároco, bispo, papa, missa, confissão, comunhão, oração, indulgências, relíquias, rosário, peregrinações, jejuns, abstinências etc.” (MONDIN, 1981, p. 15). Mas na mesma medida em que esse sistema complexo ruía as pessoas paulatinamente tomam consciência de que deveria haver um caminho mais simples e menos oneroso para se chegar a Deus.
Após a edição de seu livro “O Elogio da Loucura” publicada pela primeira vez em latim em 1509, mas rapidamente traduzido para outras línguas, inclusive para o inglês em 1549, elevou Erasmo a um dos expoentes do movimento humanista.
O Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante são considerados o prelúdio da Modernidade na Europa e de fato compactuavam em diversos pontos:[10] um retorno à Bíblia, buscando as origens evangélicas; uma religião mais interior, pessoal, tornando desnecessário os intermediários entre Deus e os fiéis e consequente minimização da hierarquia eclesiástica, do culto dos santos e das longas cerimônias católicas. Todavia, também compartilhavam aspectos divergentes que no transcorrer do tempo demonstrariam serem irreconciliáveis. Para não delongar cito apenas os dois aspectos mais significantes que criou um fosso cada vez mais profundo entre os dois grandes movimentos.
O primeiro está justamente no fato de que Erasmo permaneceu um humanista. Assim como os demais amigos da vertente do Humanismo Cristão, advindos do Norte da Europa, que tinham como objeto primário a própria Bíblia para seus estudos filológicos e exegéticos, Erasmo manteve-se neutro[11] em relação ao movimento da Reforma principiada por Lutero e os demais reformadores. Manteve-se firme em seu ideal de uma reforma interna da Igreja sem o espectro da ruptura. Acredita que na medida em que se resgatasse os ensinos dos clássicos, retornando cada vez mais aos princípios originais do ensino bíblico-cristão, se criaria as condições ideais para uma reforma interior da Igreja e que esse movimento ocorreria naturalmente, sem guerra[12] ou ruptura. A melhor exposição desta “filosofia de Cristo” proposta por Erasmo está em seu livro “Manual do soldado cristão” (Enchiridion), escrito em 1503, mas que somente a partir da terceira edição em 1515 (dois anos antes do início da Reforma) produz um forte impacto. Nessa obra ele esboça sua tese revolucionária de que era possível produzir uma reforma na Igreja a partir de um retorno coletivo aos escritos dos pais da Igreja e da Bíblia, pois para ele a vitalidade do cristianismo se encontrava na força leiga e não nas limitações do clero (MATOS, 2008, p. 135).
Para Lutero e seus companheiros reformadores a proposta dos humanistas era insuficiente, pois a deturpação e corrupção desenvolvida nas entranhas da Igreja havia alcançado o nível de metástase, de maneira que, nada menos do que uma cirurgia radical seria necessária para se extrair a parte ainda saudável da Igreja cristã, antes que ela apodrecesse por inteira. Na permanência destas duas interpretações e posturas o distanciamento dos humanistas cristãos e dos reformadores torna-se cada vez mais irreversível.
O segundo aspecto que demarcou definitivamente a distância entre os dois movimentos foi a interpretação irreconciliável da questão sobre o livre arbítrio da vontade humana.
Na mesma medida em que o movimento da Reforma tornava-se cada vez mais abrangente e consistente, Erasmo começa a ser pressionado pelas lideranças eclesiásticas da Igreja Romana para que assuma uma posição clara contra Lutero e suas proposições “heréticas”. Tinha ele o direito de se abster, de ser uma testemunha passiva desta "tragédia" que por culpa de uns e de outros, iria em breve dilacerar a sua Igreja?  Mas Erasmo em uma correspondência com seu amigo Wolfgang Capitone deixa claro sua contrariedade em fazê-lo: “Os teólogos pensam que Lutero não pode ser subjugado, exceto pelo seu estilo, e isso ocultamente demandam: que eu escreva contra ele. Mas eu me abstenho como sendo isso insanidade”. (PINTACUDA, 2001, p. 51). Pela similaridade de suas críticas aos erros da Igreja muitos suspeitavam e insinuavam que Erasmo estivesse apoiando o movimento de Lutero.[13] A pressão torna-se insuportável de maneira que o humanista escolhe um tema que sabia de antemão qual seria a reação do reformista – o livre-arbítrio.[14] Esta intenção de Erasmo chega ao conhecimento de Lutero que lhe escreve uma carta, datada de 15 de abril de 1524, onde argumenta que se Erasmo não desejava fazer parte do movimento reformador, que permanecesse neutro e não se colocasse abertamente contra, no que o reformador não foi atendido.
Em setembro de 1524, no transcorrer da feira de Frankfurt, lança seu livro “De Libero Arbítrio” (FEBVRE, 2012, p. 280). É possível uma tripla divisão desse livro: inicialmente ele propõe algumas questões acerca da importância do tema e os pressupostos metodológicos que deverá utilizar no transcorrer da sua argumentação. Na segunda parte ele faz um levantamento dos textos bíblicos que fundamentam o livre-arbítrio e os textos que são utilizados para nega-lo. Um último bloco é utilizado para analisar a argumentação de Lutero em sua negativa do livre-arbítrio. Erasmo opta por contestar a interpretação antropológica utilizada por Lutero em suas asserções e em outras literaturas do reformador alemão.[15]
A resposta de Lutero vem no ano seguinte quando em dezembro de 1525 publica sua obra “De Servo Arbítrio” (FEBVRE, 2012, p. 280). Sua intenção é contestar cada uma das argumentações de Erasmo. Sua tese é que a Bíblia não pode ter divergências, pois seu autor é apenas um, o Espírito Santo. Para o reformador a vontade humana, corrompida pelo pecado, não tem força suficiente para alcançar a salvação sem ação continua da graça de Deus. Para ilustrar o domínio do pecado sobre a vontade humana utiliza a figura do jumento que é dominado por seu montador, que o dirige para onde quiser, no caso seria Deus ou Satanás. E mais ainda, não é o ser humano que escolhe seu “montador”, mas ele é escolhido. Para Lutero, em termos de salvação ou condenação, o ser humano não possui livre-arbítrio, pois sua vontade esta cativa, escravizada pelo pecado.
É perceptível a irritação e até mesmo uma dose de decepção por parte de Lutero em relação as assertivas de Erasmo. Crítica a definição de livre-arbítrio oferecida pelo humanista, o qual o reformador declara não fazer sentido, pois a única coisa capaz de romper os grilhões do pecado humano são as ações de Deus e Sua palavra. E como era de seu feitio utiliza a ironia dizendo que se Erasmo não desejava abordar esta questão, não deveria ter escrito o livro “De Libero Arbítrio” onde acaba falando mais da graça de Deus do que sobre a vontade livre do homem (LUTERO, 1993, p. 27 e 36). Em relação às leis contidas nas Escrituras, elas são reveladoras da total incapacidade do ser humano em obedece-las ao invés de atestar sua capacidade de escolha.  Quanto ao exemplo utilizado por Erasmo, sobre o endurecimento do coração de Faraó, o reformador acusa o humanista de fazer similitude e deduções que vão além da simplicidade da narrativa bíblica.
Quando Erasmo escolheu a temática do livre arbítrio ele sabia que uma conciliação com Lutero seria impossível, pois ambos partiam de primícias diferentes e, portanto, acabariam chegando a conclusões excludentes. Erasmo como representante do humanismo cristão, entende que a vontade humana é livre para fazer suas próprias escolhas seja o bem ou mal, determinando a questão da salvação. Para ele o ser humano não está totalmente depravado, pois na utilização de suas faculdades racionais ele ainda é capaz de boas ações. A concepção de Lutero é justamente o oposto, pois segundo ele o ser humano está totalmente depravado e, portanto, naturalmente o ser humano não é capaz de fazer o bem, pois todas suas ações são más por natureza, de maneira que não pode determinar sua própria salvação. Assim, Erasmo mantendo seus pressupostos humanistas desenvolve uma visão positiva sobre o ser humano e Lutero coerente com seus pressupostos exegético-teológico mantém sua concepção negativa do ser humano.

Conclusão
A relevância de Erasmo para o movimento da Reforma Religiosa e/ou Protestante não pode de forma alguma ser desmerecido. Sua análise crítica da Igreja medieval, apontando as suas distorções do Evangelho, enriquecimento financeiro, injustiça social e implacável opressão política, assim como a busca incansável das origens cristãs, seja com uma tradução mais exata dos textos bíblicos evangélicos, seja resgatando a ampla literatura dos pais da igreja, abriram e indicaram o caminho por onde todos os reformadores, incluindo o próprio Lutero, trilharam até o ponto em que rompendo com a Igreja Romana acabam por prosseguirem em direções distintas.
Erasmo de Roterdã, príncipe dos humanistas cristãos, é uma das figuras relevantes que direta e indiretamente contribuíram para o início do movimento reformado, que acabou por transformar completamente não somente a história da igreja, mas a própria história da sociedade ocidental. Depois de Erasmo e seu humanismo e de Lutero e sua reforma o mundo Ocidental jamais seria o mesmo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/


Referências Bibliográficas
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DELUMEAU, Jean. Nascimento e afirmação da Reforma. Tradução: João Pedro Mendes. São Paulo: Pioneira, 1989. [Biblioteca Pioneira de ciências sociais. História. Série “Nova Clio”; 30].
FEBVRE, Lucien. Martinho Lutero: um destino. São Paulo: Três Estrelas, 2012.
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MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da teologia histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. [Coleção teologia brasileira].
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[1] Ainda que o termo “Humanismo” tenha sido usado pela primeira vez no início do 800 (F. I. Niethammer) para contrastar as disciplinas dos estudos clássicos em relação às disciplinas cientificas, a palavra humanista já era utilizada no 400 como derivada de humanitas, em que Cícero e Gélio faziam referência a educação e formação espiritual do homem, cujas disciplinas poesia, retórica, história e filosofia eram essenciais e que em seu conjunto eram denominadas de studia humanitatis e studia humaniora, que segundo os gregos (paideia) se relacionava com a educação e formação do homem. Esse conjunto de saberes possibilitava o ser humano conhecer a si mesmo e assim se fortalecer e se potenciaza-se. A partir do século XV as litterae humanae, cujo paradigma eras as obras latina e grega antigas e cujos autores tornaram-se os verdadeiros mestres da humanidade, demarcando o início de um novo período histórico cultural. Reale e Antiseri destacam os representantes das duas formas opostas de se interpretar contemporaneamente a significância do humanismo (2004, p. 06-08).
[2] Há discussões sobre a data de seu nascimento e alguns colocam 1469 como a data mais correta.
[3] O termo se define no oitocentos tendo como referencial bibliográfico a obra de Jacob Burckhardt (1818-1897) que tinha o título “A cultura da Renascença na Itália” (Basileia 1860). Nesse termo há os germes dos movimentos que vão nascendo dentro do espírito de “renovatio” e a redescoberta da antiguidade. O movimento humanista e da reforma religiosa foram possíveis por causa do espírito renascentista. Os oitocentistas foram radicais ao designar o período medieval anterior como sendo um “período de trevas” e o período deles como de “luz”. Hoje há uma percepção mais equilibrada: “Portanto, o ‘renascimento’ que constitui a peculiaridade da ‘renascença’ não é o renascimento da civilização contra a incivilização, da cultura contra a incultura e a barbárie, do saber contra a ignorância: ele é muito mais o nascimento de outra civilização, de outra cultura, de outro saber”. (REALI e ANTISERI, 2004, p. 11). O mesmo se aplica a questão eminentemente religiosa, pois antes da Reforma Protestante, houve inúmeros movimentos reformista que foram suplantados pelo poder que a Igreja Católica Romana detinha.
[4][4] “Nutria grande admiração por Sócrates, enaltecendo-o como modelo da sabedoria natural, assim como Jesus o era da sabedoria e bondade sobrenaturais. ” (MATOS, 2008, p. 134).
[5] São Tomás de Aquino foi um importante teólogo, filósofo e padre dominicano do século XIII. Foi declarado santo pelo papa João XXII em 18 de julho de 1323. É considerado um dos principais representantes da escolástica (linha filosófica medieval de base cristã). Foi o fundador da escola tomista de filosofia e teologia.
[6] Em seu adágio “Os Silenos de Alcebiades” Erasmo reconheciam que seria um crime e sacrilégio diminuir em qualquer ponto a autoridade de Aristóteles que ele o considerava como um homem de um saber excepcional, mas qual luz se radiosa fosse ela não se obscureceria em comparação a sabedoria celeste! (NASCIMENTO, 2011, p. 52)
[7] “[...] após a Peste negra, os artistas acharam uma deleitação mórbida em pormerizar completamente a variedade dos suplícios infernais. [...]. Mais ainda que o juízo final e o inferno, a morte é o grande tema da iconografia da Idade Média a findar. Incessantemente ressoa através da vida o apelo do memento mori. [...] a morte é, nos frescos, na literatura, nas imagens dos livros de horas, o grande personagem do tempo”. (DELUMEAU, 1989, p. 62)
[8] A tradução do NT de Erasmo produziu uma repercussão intensa, pois ele utiliza os manuscritos gregos originais e não o texto latino da Vulgata. Nas duas primeiras edições de 1516 e 1519 alcançou a expressiva tiragem de 3.300 exemplares. A segunda edição já trazendo o título de “Novum Testamentum” foi utilizada por Martinho Lutero como base para sua tradução para o alemão. Mas ele foi fortemente criticado pelos defensores da Latina até então a única tradução oficial. Seus críticos centraram em três questões: 1) as diferenças que havia entre sua nova tradução latina e a consagrada Vulgata; 2) as longas anotações, que justificava sua tradução e 3) a inclusão, entre as notas, de comentários sobre a vida desregrada e corrupta de muitos sacerdotes. Além das críticas nos púlpitos e nas Universidades, como as de Cambridge e Oxford, proibia-se os alunos de lerem e os livreiros de venderem a “herética” tradução. Um dos editores da Poliglota Complutense, Lopes de Stunica, o acusa de não ter incluindo o texto de 1 João 5.7 e 8 (Coma Joanina), o que ele replicou de que não havia encontrado em nenhum manuscrito grego a referida passagem e desafio seu acusador a trazer ao menos um texto grego que a comprovasse. Um manuscrito lhe foi trazido e ele honrou sua promessa e incluiu a referida passagem em sua terceira edição, todavia, incluiu uma longa nota marginal colocando sob suspeita o texto que lhe foi trazido. Muitos críticos textuais entendem que o texto foi fabricado artificialmente em Oxford, em 1520, por um frade franciscano chamado Froy, que ele extraiu da Vulgata Latina.
[9] Ele chegou a ser ordenado sacerdote (1492), todavia, não conseguiu se adaptar à vida religiosa e pediu dispensa do ministério e do hábito, mas jamais se afastou da temática religiosa e seus escritos demonstram o alto apreço que manteve das questões relacionadas à fé.
[10] Muitas das posições esposada por Erasmo, principalmente suas críticas à Igreja e ao clero renascentista, antecipam muitas das posições que haverão de serem esposada por Martinho Lutero que desembocara na Reforma Protestante, inicialmente na Alemanha e depois por toda a Europa.
[11] Se a postura ambígua de neutralidade lhe trouxe algum benefício imediato, ao longo do tempo o deixou isolado e sem seguidores. Sem o apoio dos reformadores acabou angariando a aversão dos católicos e sofrendo duras críticas por parte dos assessores do Papa: Lopes de Zuniga, Egídio de Viterbo e Batista Casali. Posteriormente parte de suas obras foram colocadas no “Index” e recomendando-se cautela em relação às demais e em 1529 um dos tradutores de suas obras, Louis de Berquin, foi queimado na fogueira, em Paris, pela Inquisição.
[12] Erasmo era um pacifista resoluto e para ele a guerra era inaceitável e o maior e mais terrível dos males da humanidade, portanto, injustificável em quaisquer fossem as circunstâncias. Em seu livro “Elogio da Loucura” escreve: “Não existe doidice maior do que a guerra. Seja qual for o resultado, cada um dos opositores colhe prejuízos pesados. O certo mesmo seria imitar Arquílogo que jogou no chão suas armas e desertou”. [negrito meu].
[13] A publicação em 1504 do seu “Manual do Soldado Cristão”, onde tecia fortes críticas, principalmente às autoridades eclesiásticas e à decadência da religião cristã, reforçada posteriormente por sua tradução do Novo Testamento do grego para o latim (1504), independente e crítica da Vulgata, o tornava referencial para as propostas formuladas pelos reformadores. “Lutero? Filho espiritual e êmulo de Erasmo – o realizador de suas veleidades reformadoras” (FEBVRE, 2012, p. 154).
[14] Segundo Roland Bainton, essa temática foi sugerida por muitos daqueles que o pressionavam para se posicionar contra Lutero ([1969?], p. 221, apud RODRIGUES, 2008, p. 6).
[15] Martin Dreher deduz que a obra não representa a posição teológica de Erasmo sobre a questão, servindo mais para marcar posição contra as insinuações de ser luteranizante, do que uma opinião conclusiva sobre o assunto (DREHER, 1993, p. 15, apud CUNHA, 2014, p.56).