Mesmo
para aqueles que conhecem o mínimo do extraordinário trabalho realizado por
João Calvino, reformador protestante genebrino, que elaborou (e pregou e
lecionou) quase a totalidade dos livros que compõem a Bíblia, resgatar seu
comentário sobre o profeta Ezequiel, toca o coração e a alma, não apenas pela
qualidade de excelência com que ele tratou cada um de seus comentários bíblicos
(e todas suas centenárias obras), mas neste caso em particular pelo fato de
constituir seu último trabalho bíblico, visto que antes de poder envia-lo, após
rígidos critérios de revisão, para ser editado, o amado reformador, que estava
extremamente debilitado fisicamente, veio a falecer, em sua casa, arrodeado
pelos amigos, pastores de Genebra e arredores, bem como de muitos de seus
alunos (detalhes específicos deste momento de despedida leia o artigo indicado
abaixo).
Se
não fosse suficiente a qualidades intrínsecas acadêmica e profundamente pastoral,
o fato de se constituir seu “Canto do Cisne” literário, torna, ainda que
inacabado em sua edição final, parando no capítulo 16, um comentário único em
sua singularidade. Para os mais poéticos como eu, ao ler os textos, é possível
ouvir com o coração e a alma, ainda que distanciados por séculos, o pulsar da
mente e do coração do Mestre (na verdade Doutor) e Pastor João Calvino em seus
últimos esforços de oferecer aos leitores cristãos de sua amada comunidade
genebrina, e aos cristãos reformados espalhados pelo mundo inteiro, irradiados
da Universidade de Genebra por ele iniciada na referida cidade (que ele adotou
e foi adotado, visto sua origem francesa), pois seus escritos continuam sendo lido e
edificando vidas ainda hoje.
Meu
singelo esforço é apenas colocar em porções homeopáticas o conteúdo desta obra,
que, como um bom vinho, quanto mais anos se passam, mais saboroso se torna ao
ser degustado, permitindo que seus aromas sejam apreciados em toda a sua
riqueza e sutileza. Este é um esforço concomitante com sua obra magistral, as Institutas
da Religião Cristã, que você pode acompanhar nos links abaixo.
Com
raríssimas exceções, o propósito maior é deixar o Mestre Calvino falar,
permitindo que seus comentários e mensagens sejam plenamente apreciados. No
entanto, como venho fazendo com as Institutas, inseri algumas poucas
questões para reflexão, com o intuito de oferecer ao leitor uma oportunidade de
pensar um pouco mais sobre os textos por ele apresentados em cada artigo.
Vamos
nos assentar em um dos bancos da Catedral de Saint-Pierre, em Genebra,
Suíça, ou em uma das carteiras da sala de aula de João Calvino na Academia
de Genebra (fundada em 1559, e posteriormente transformada na Universidade
de Genebra após sua morte em 1564, por volta do século XVII). Ali,
com avidez e desejo de sermos edificados, ouviremos suas palavras e cresceremos
na graça e no conhecimento das Escrituras.
Que
o Espírito Santo, que capacitou João Calvino no século XVI, com o mesmo
poder capacitador, ilumine ainda hoje nossos corações e mentes, no século XXI
pós-moderno, para que possamos apreender os princípios e verdades imutáveis da
Palavra de Deus. Amém e amém!
Commentary on Ezekiel
John Calvin
Oração inicial
(modelo inspirado em Calvino)
“Ó Senhor, que
colocas tua mão sobre teus servos, fortalece-nos hoje para que possamos ouvir e
obedecer à tua Palavra. Sustenta-nos em meio às provações, como sustentaste
Ezequiel no exílio. Dá-nos coragem para proclamar tua verdade e humildade para
nos submeter ao teu chamado. Por Cristo nosso Senhor. Amém.”
O
próprio Ezequiel explica, logo no início de seu Livro, em que período ele
cumpriu o ofício profético; e disso depende o conhecimento de seu argumento.
Pois, a menos que entendamos como Deus o despertou, podemos com dificuldade
entrar em seu espírito e seremos incapazes de receber qualquer fruto justo de
sua instrução. É necessário, portanto, começar a partir deste ponto: a
saber, o tempo de sua profecia: pois ele diz:
|
CAPÍTULO 1 (almeida) |
CAPUT 1 (vulgata) |
|
Primeira Lição |
Prima Lectio |
|
1. No trigésimo ano, no quarto mês, no quinto dia do mês, estando
eu entre os cativos junto ao rio Quebar, os céus se abriram, e tive visões de
Deus. |
1. Et factum est in tricesimo anno, quarto mense, quinta mensis, cum
essem in medio captivorum juxta fluvium Chobar, aperti sunt caeli, et vidi
visiones Dei. |
|
2. No quinto dia do mês, que foi o quinto ano do cativeiro do rei
Joaquim. |
2. In quinta mensis, ipse est annus quintus transmigrationis regis
Joachin. |
|
3. Veio expressamente a palavra do Senhor a Ezequiel, filho de Buzi,
sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar; e ali esteve sobre ele
a mão do Senhor. |
3. Et factum est verbum Domini ad Ezechielem filium Buzi sacerdotem in
terra Chaldaeorum, super fluvium Chobar: et facta est super eum ibi manus
Domini. |
PRIMEIRA LIÇÃO
Ezequiel
explica logo no início de seu livro o período em que exerceu seu ofício
profético; e a compreensão dessa época é essencial para entender sua mensagem.
Pois, se não entendermos como Deus o despertou, dificilmente conseguiremos
captar seu espírito e obter proveito de seu ensinamento.
Vemos
que o Profeta foi chamado ao ofício de Mestre no quinto ano depois que Joaquim
se entregou voluntariamente ao rei da Babilônia (2 Reis 24:15); e foi arrastado
para o exílio, junto com sua mãe: pois foi, diz ele, "no trigésimo
ano". Pois foi, como ele declara, "no trigésimo ano".
A maioria dos comentaristas segue o parafraseador caldeu, interpretando
que essa contagem começa a partir da descoberta do Livro da Lei. É evidente que
esse ano corresponde ao décimo oitavo ano do reinado de Josias, mas, em
minha análise, não concordo com aqueles que adotam essa data. Afinal, a
expressão "o trigésimo ano" pareceria excessivamente ambígua e
forçada. Em nenhum lugar encontramos registros de que escritores posteriores
adotaram essa data como um padrão. Além disso, não há dúvida de que o método
usual entre os judeus era iniciar a contagem a partir de um Jubileu,
pois esse era o marco inicial para os anos futuros. Por isso, não tenho dúvida
de que esse trigésimo ano foi contado a partir do Jubileu. Minha opinião
não é inédita, pois Jerônimo a menciona, embora a rejeite completamente, por
ter sido levado a erro por uma visão contrária. No entanto, como é certo que os
judeus utilizavam esse método de contagem, iniciando a partir do Jobel,
ou seja, do Jubileu, essa é a explicação mais adequada para o trigésimo
ano. Se alguém objetar que não há registro de que o décimo oitavo ano do
rei Josias tenha sido o ano habitual em que cada um retornava às suas
terras (Levítico 25), em que os escravos eram libertos e toda a
restauração do povo ocorria, a resposta ainda assim é simples.
Embora
não possamos determinar com precisão em que ano ocorreu o Jobel, basta
atribuir o Jubileu a este período, pois os judeus costumavam contar seus
anos a partir dessa instituição. Assim como os gregos tinham suas Olímpiadas
e os romanos seus Cônsules, a partir dos quais faziam a contagem de seus
anais, os hebreus também tinham um sistema de referência: costumavam iniciar a
contagem dos anos a partir do Jobel, o ano do Jubileu, e assim
seguiam até a próxima restauração, como mencionei anteriormente. Portanto, é
provável que este tenha sido um ano de Jubileu — é provável, então, que
este tenha sido o Jubileu.
Diz-se
que Josias celebrou a Páscoa com uma pompa e esplendor tão grandiosos que não
houve nada semelhante desde o tempo de Samuel (2 Crônicas 35:18). A
explicação mais plausível para isso não é que ele sempre realizava a Páscoa com
tamanha magnificência, mas que foi levado a fazê-lo por causa da ocasião
especial: um momento em que o povo foi restaurado, voltou às suas terras e os
escravos foram libertos. Como se tratava do Jubileu, o piedoso rei
sentiu-se motivado a celebrar a Páscoa com um esplendor muito maior do que o
habitual — chegando até mesmo a superar Davi e Salomão. Além disso,
embora tenha reinado por mais treze anos depois desse evento, não há registro
de que Josias tenha celebrado outra Páscoa com um esplendor notável. Não há
dúvidas de que ele realizava a celebração anualmente, pois isso era um costume
estabelecido (2 Reis 23:23). Dessa observação, concluímos que essa
celebração específica foi extraordinária e que o ano em questão foi o Jobel.
Ainda que isso não esteja explicitamente mencionado nas Escrituras, é
suficiente saber que o profeta calculava os anos conforme o método tradicional
do povo.
Ele
afirma que este foi "o quinto ano do cativeiro do rei Jeconias",
também chamado de Jeoaquim. Jeoaquim sucedeu a Josias e reinou por onze
anos. Se somarmos os treze anos restantes do reinado de Josias e
esses onze anos, chegamos a vinte e quatro anos (2 Reis 23:36).
Seu
sucessor, Jeconias, foi rapidamente entregue ao rei Nabucodonosor
e levado cativo logo no início de seu reinado, governando apenas por três ou
quatro meses (2 Reis 24:8). Depois disso, o último rei, Zedequias,
foi colocado no trono por determinação do rei da Babilônia.
E
agora devemos considerar a intenção de Deus ao designar Ezequiel como
Seu profeta. Jeremias havia proclamado a palavra por trinta e cinco
anos, mas com pouco impacto. Deus, então, desejou dar-lhe um auxiliador,
alguém que confirmasse sua mensagem e amplificasse seu alcance. Foi um grande
alívio para Jeremias saber que o Espírito Santo falava através de outro
profeta, em plena harmonia com ele, fortalecendo a verdade de sua pregação.
Jeremias
iniciou seu ministério profético no décimo terceiro ano do reinado de Josias
(Jeremias 1:2). Se somarmos os dezoito anos restantes de Josias,
os onze anos de Jeoaquim, mais um ano e outros cinco, chegamos aos trinta
e cinco anos em que Jeremias clamou sem cessar, mesmo diante de um povo
indiferente, ou até insensato.
Para
socorrê-lo, Deus levantou Ezequiel como profeta em Babilônia,
proclamando as mesmas mensagens que Jeremias anunciava em Jerusalém. Sua
pregação beneficiava não apenas os cativos, mas também os que
permaneceram na cidade e na terra. Essa confirmação era essencial para os
exilados, pois havia falsos profetas entre eles, como Acabe, filho de
Colaías, e Zedequias, filho de Maaseias (Jeremias 29:21).
Esses homens alegavam possuir o Espírito de revelação, faziam promessas
grandiosas e desprezavam aqueles que haviam deixado sua pátria. Incentivavam
resistência até o fim, afirmando que lutar pela terra prometida era a única
opção digna.
Além
deles, havia Semaías, o nehelamita (Jeremias 29:24), que escreveu
ao sumo sacerdote Sofonias, repreendendo-o por não castigar Jeremias,
acusando-o de falso profeta e impostor. Diante da atuação de tais agentes do engano,
Deus posicionou Ezequiel no exílio, evidenciando o quanto sua missão era
não apenas útil, mas indispensável.
Mas
sua influência ia além dos cativos. Os habitantes de Jerusalém também
foram obrigados a prestar atenção às profecias de Ezequiel, anunciadas
na Caldeia. Ao perceberem que suas mensagens estavam em plena sintonia
com as de Jeremias, inevitavelmente se perguntaram sobre essa
impressionante coincidência. Afinal, não é natural que dois profetas, em
locais distintos, proclamem suas palavras em perfeita harmonia, como dois
cantores unindo suas vozes no mesmo tom.
Essa
sincronia entre Ezequiel e Jeremias forma uma melodia profética
inigualável. Agora compreendemos melhor o significado do que Ezequiel
escreve sobre os anos: "No trigésimo ano, no quarto mês
e no quinto dia do mês, quando eu estava entre os cativos."
Antes
de avançar, farei uma breve abordagem dos temas tratados por Ezequiel.
Como mencionei, ele compartilha muitos aspectos em comum com Jeremias,
mas com uma particularidade: Ezequiel anuncia o último juízo contra o povo,
pois eles continuavam a acumular iniquidade sobre iniquidade, intensificando
ainda mais a ira divina.
Por
isso, ele os ameaça repetidamente, não apenas uma vez, pois o coração
endurecido do povo tornava insuficiente proclamar o juízo de Deus três ou
quatro vezes—era necessário reforçá-lo constantemente. Ao mesmo tempo, Ezequiel
expõe as razões pelas quais Deus decidiu punir severamente Seu povo:
estavam contaminados por superstições, eram perversos, avarentos,
cruéis e corruptos, entregues ao luxo e à depravação. O profeta reúne todos
esses aspectos para demonstrar que o julgamento divino não é excessivo,
pois o povo havia alcançado o ápice da impiedade e da maldade.
Entretanto,
em meio às advertências, Ezequiel também oferece vislumbres da misericórdia
de Deus. Afinal, as ameaças seriam inúteis sem uma promessa de redenção. Se
a ira de Deus se manifestasse sem qualquer esperança, os homens seriam lançados
ao desespero, e este os levaria à loucura. Quando alguém percebe a
severidade do juízo divino, inevitavelmente se angustia e, como uma fera
enraivecida, volta-se contra o próprio Deus.
Por
essa razão, afirmei que todas as advertências são vãs sem um vislumbre da
misericórdia divina. Os profetas não argumentam com os homens senão para levá-los
ao arrependimento—e isso só seria possível se houvesse a certeza de que
Deus poderia se reconciliar com aqueles que dEle haviam se afastado. Assim,
tanto Ezequiel quanto Jeremias, ao repreenderem o povo,
temperam sua severidade com promessas de restauração.
Além
disso, Ezequiel profetiza contra diversas nações pagãs, como Jeremias,
incluindo os amonitas, moabitas, tirios, egípcios e assírios (Jeremias
26-29). A partir do capítulo quarenta, ele passa a tratar
extensivamente sobre a restauração do Templo e da cidade, anunciando que
um novo estado surgiria, no qual a realeza voltaria a florescer e
o sacerdócio recuperaria sua antiga glória. Até o fim do livro, ele
revela as singulares bênçãos de Deus, que seriam concedidas após o
término dos setenta anos de exílio.
Neste
ponto, é útil recordar o que observamos no caso de Jeremias (Jeremias
28): enquanto os falsos profetas prometiam ao povo um retorno imediato,
dentro de três ou cinco anos, os verdadeiros profetas anunciavam o
que realmente aconteceria. Assim, o povo deveria se submeter
pacientemente à correção divina e entender que o longo período de exílio não
deveria abalar sua confiança na justiça de Deus.
Agora
que compreendemos o que nosso profeta está tratando, bem como a direção e o
conteúdo de seu ensinamento, avancemos para o contexto.
Ele
declara: “estando entre os cativos.” Alguns intérpretes procuram
explicar suas palavras de maneira sofisticada, argumentando que Ezequiel
não estava realmente entre os exilados, mas que essa passagem se referiria a
uma visão. Segundo essa leitura, o termo "entre", no sentido
de "no meio", poderia indicar sua participação em uma assembleia
do povo. No entanto, sua intenção é bem diferente: ele emprega essa
expressão para demonstrar que compartilhava do exílio com os demais, e
ainda assim recebeu o espírito profético naquela terra contaminada.
Portanto,
a frase “entre os cativos” ou “no meio dos cativos” não indica
uma reunião pública, mas simplesmente afirma que, embora o profeta estivesse distante
da Terra Sagrada, a mão de Deus ainda se estendia até ele,
concedendo-lhe o dom profético. Isso refuta aqueles que negavam que Ezequiel
já possuía o Espírito de revelação antes do exílio. Esses críticos não
erram apenas por desconhecimento, mas por pura obstinação, pois os
judeus resistiam profundamente à ideia de que Deus pudesse reinar fora da
terra santa.
Até
hoje, muitos ainda mantêm essa rigidez, mesmo dispersos pelo mundo, pois
preservam traços do antigo orgulho. Na época, porém, quando havia
esperança de retorno, considerar a manifestação de Deus fora da Terra
Sagrada parecia um sacrilégio, especialmente se ocorresse fora do
Templo. Ezequiel, então, evidencia que foi chamado ao ofício
profético no meio dos exilados, sendo um deles.
Aqui
se revela a inestimável bondade de Deus, pois Ele chama o profeta do
abismo—e Babilônia, naquele período, era um abismo profundo. Assim,
o Espírito Santo surge com seu instrumento, levantando Ezequiel
como mensageiro e anunciador do juízo, mas também da graça divina.
Portanto,
testemunhamos como Deus faz resplandecer a luz nas trevas, ao convocar Ezequiel
ao seu ministério durante o exílio.
Além
disso, embora seu ensinamento fosse útil aos judeus que ainda permaneciam na
terra, Deus não queria que voltassem a Ele sem antes carregarem um sinal
de sua desonra. Afinal, desprezaram as profecias proferidas no Templo,
no Santuário e em Sião. Agora, as revelações brotariam daquela terra
impura, por meio de um mestre que, como mencionei, estava afundado
naquele abismo profundo.
Com
isso, Deus castiga o desprezo do povo por Sua palavra, expondo sua rebeldia.
Por muito tempo, Isaías exerceu o ministério profético, depois veio Jeremias,
mas o povo continuava tão endurecido quanto antes.
Como
desprezaram a profecia quando esta fluía diretamente da fonte, Deus levantou
um profeta na Caldeia. Assim, agora podemos entender o significado
completo dessa passagem.
Ele
menciona "o rio Quebar", que muitos identificam com o Eufrates,
mas sem apresentar razões concretas para isso—apenas porque não encontram outro
rio célebre na região. A justificativa oferecida é que o Tigre perde seu
nome ao desaguar no Eufrates, levando alguns a sugerirem que Quebar
seria, na verdade, o próprio Eufrates. No entanto, não há certeza
sobre a localização exata do exílio do profeta: pode ter sido na Mesopotâmia
ou mesmo além da Caldeia. Além disso, como o Eufrates tem muitos
afluentes, é provável que cada um tivesse seu próprio nome.
Diante
dessas incertezas, prefiro deixar a questão em aberto.
Como
a visão profética ocorreu às margens do rio, alguns interpretam que suas
águas eram, de certa forma, consagradas para revelações. Buscando
justificativas, argumentam que a água é mais leve que a terra, e como um
profeta deve elevar-se acima do mundo material, a água seria um elemento
adequado para as manifestações divinas. Outros relacionam isso à purificação,
sugerindo que o batismo estaria prefigurado nesse episódio.
Contudo,
deixo de lado tais sutilezas, pois elas se dissolvem por si mesmas.
Evito essas especulações porque, ao seguir esse caminho, a Escritura
perderia sua solidez. Embora conjecturas desse tipo pareçam plausíveis,
devemos buscar na Escritura ensinamentos seguros e firmes, nos quais
possamos confiar.
Há
quem distorça, por exemplo, a passagem:
"Junto aos rios de Babilônia, ali nos assentamos e choramos" (Salmo
137:1)—como se o povo tivesse procurado as margens dos rios para orar e
cultuar. No entanto, o texto simplesmente descreve a geografia da região,
destacando seus numerosos cursos d’água, como mencionei anteriormente.
Contudo,
deixo de lado tais sutilezas, pois elas se dissolvem por si mesmas.
Evito essas especulações porque, ao seguir esse caminho, a Escritura
perderia sua solidez. Embora conjecturas desse tipo pareçam plausíveis,
devemos buscar na Escritura ensinamentos seguros e firmes, nos quais
possamos confiar.
Há
quem distorça, por exemplo, a passagem:
"Junto aos rios de Babilônia, ali nos assentamos e choramos" (Salmo
137:1)—como se o povo tivesse procurado as margens dos rios para orar e
cultuar. No entanto, o texto simplesmente descreve a geografia da região,
destacando seus numerosos cursos d’água, como mencionei anteriormente.
Ele
declara: “os céus se abriram, e eu vi visões de Deus”. Quando Deus abre
os céus, isso não significa uma abertura física, mas sim a remoção de todo
obstáculo que impeça os fiéis de contemplarem Sua glória celestial.
Afinal, mesmo que os céus fossem rasgados mil vezes, ainda assim a luz
divina seria imensurável.
O
sol, embora nos pareça pequeno, supera em tamanho a Terra; os demais planetas,
exceto a lua, são como centelhas, e o mesmo vale para as estrelas.
Assim, se até a luz natural enfraquece à medida que tentamos penetrar na
vastidão do cosmos, como então poderíamos vislumbrar a glória
incompreensível de Deus?
Portanto,
ao abrir os céus, Deus não apenas remove barreiras, mas também concede
nova visão aos seus servos, permitindo-lhes ultrapassar dimensões que
normalmente seriam inalcançáveis. Foi isso que aconteceu com Estêvão,
ao contemplar os céus abertos (Atos 7:56)—seus olhos foram iluminados por
uma percepção extraordinária. Da mesma forma, no batismo de Cristo,
os céus foram abertos (Mateus 3:16) de maneira que João Batista pôde
ter uma visão elevada e sobrenatural.
No
mesmo sentido, Ezequiel emprega essa expressão, dizendo: “os céus se
abriram.”
Ele
acrescenta: “eu vi visões de Deus.” Alguns entendem que isso se refere a
visões extremamente sublimes, porque na Escritura tudo o que é excelente
pode ser chamado de divino—como montes e árvores grandiosas, que
recebem a designação de montes e árvores de Deus. No entanto, essa
interpretação parece limitada. É mais plausível que Ezequiel esteja
se referindo à inspiração profética, declarando assim que foi enviado
por Deus, pois, ao assumir essa missão, ele deixou de lado suas
limitações humanas para se tornar instrumento da revelação divina.
Não
surpreende que ele utilize essa expressão, pois era difícil de acreditar
que um profeta pudesse surgir na Caldeia. Assim como Natanael
questionou se alguma coisa boa poderia vir de Nazaré, (João 1:46),
os judeus não conseguiam conceber que a luz da doutrina celestial
pudesse brilhar na Babilônia ou que um profeta da graça divina
surgisse naquela terra estrangeira.
Essa
incredulidade tornava essencial que o chamado de Ezequiel fosse marcado
de maneira clara e extraordinária.
Ele
então menciona que esta visão ocorreu no quinto ano do cativeiro do rei
Jeconias (Jehoiachin, Jeconias ou Jechanias), destacando a teimosia
do povo. Quando Deus castiga severamente, no início somos
abalados, mas com o tempo acabamos nos submetendo. Contudo, após cinco
anos, os judeus ainda não haviam se humilhado diante de Deus—o que
evidencia sua persistência na rebeldia.
Além
disso, aqueles que permaneceram em Jerusalém se orgulhavam,
acreditando que tinham sido poupados do exílio e por isso desprezavam
seus irmãos cativos. Jeremias frequentemente menciona essa atitude
arrogante entre os judeus que ficaram na terra.
Dessa
forma, Ezequiel enfatiza a data, pois era necessário confrontar essa
arrogância, já que os judeus rejeitaram as profecias de Jeremias.
Agora, Deus levantava um segundo martelo, para parti-los
completamente, e esse martelo era Ezequiel.
Essa
é a razão pela qual ele destaca o quinto ano do cativeiro do rei Jeconias—para
expor a obstinação do povo e tornar evidente a dureza de seu coração
diante do juízo divino.
O
profeta agora acrescenta que a palavra de Deus veio a ele. Ele não repete a
conjunção que foi usada no início, e podemos nos perguntar por que o livro
começa com “e aconteceu”. Pois quando se diz “e aconteceu”,
parece indicar algo que precede, mas nada vem antes.
A
resposta é que o Espírito quis mostrar que está revelação não foi isolada, mas
parte da contínua obra de Deus. Assim, ainda que o templo estivesse destruído e
o povo disperso, Deus não deixou de falar.
Ele
declara que era filho de Buzi, sacerdote. Isso não é sem propósito, pois mostra
que Deus escolheu alguém que já estava separado para o serviço sagrado. Mas,
como o sacerdócio estava suspenso pelo exílio, Deus o chamou para um novo
ofício, para que o povo não pensasse que estava totalmente privado de direção
espiritual.
Finalmente,
ele diz que a mão do Senhor esteve sobre ele. Esta expressão significa que não
foi apenas uma visão, mas uma vocação eficaz. Deus não apenas mostrou imagens,
mas também fortaleceu o espírito de Ezequiel, para que suportasse o peso da
missão. Pois sabemos como é difícil enfrentar um povo obstinado e rebelde.
Portanto, o profeta não teria sido capaz de cumprir sua tarefa sem o poder
divino.
Aprendamos,
então, que quando Deus nos chama, Ele também nos sustenta com sua mão poderosa,
para que não desfaleçamos diante das dificuldades.
Utilização desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referência Bibliográfica
CALVIN, John. Commentary
on Ezekiel - Volume 1. www.reformedontheweb.com/home/.html (Reformed on the
Web)


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