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quarta-feira, 15 de junho de 2022

Reforma Protestante: Boêmia - Jerônimo de Praga

 

            A Boêmia pode ser chamada de a terra mais fértil da Reforma. Nenhum outro local geográfico específico produziu tantos reformadores quanto ela – que merece ser até mesmo tratada como um personagem e não apenas como um local da Reforma. O mais conhecido destes reformadores foi John Huss, mas não foi o primeiro, mas um entre muitos, dos quais se sobressai igualmente a figura de Jerônimo de Praga, que manteve acesa a tocha da Reforma Boemia.

            O Reino de Boemia foi estabelecido no século XIII. Consistia na Boêmia e na Morávia e pertencia ao Sacro Império Romano-Germânico.[1] Seu apogeu foi durante o reinado de Carlos V (1345-1378), que foi eleito Imperador do Sacro Império. Poucas regiões desenvolve um sentimento tão arraigado de nacionalidade quanto este povo e será na cidade de Praga, capital da Boêmia, que se institui a primeira universidade nacional nos modelos da universidade medieval (1348). O objetivo primário era estancar a saída dos jovens para estudarem em outros países, de modo que, agora teria em seu próprio país uma Universidade que lhes proporcionaria o melhor em termos acadêmicos. Será nessa instituição acadêmica que se fecundarão os ideais reformistas antes da grande Reforma iniciada pelo alemão Lutero.

            Um fator histórico relevante foi que durante o governo de Carlos IV [Karel IV em tcheco], no século XIV, Praga tornou-se capital do Sacro Império Romano-Germânico, e foi palco de um conjunto de intervenções urbanísticas, econômicas, legais e culturais pela ótica internacional. Simultaneamente o Imperador havia emitido a chamada Bula de Ouro (1536), fortalecendo o papel do rei da Boêmia dentro da estrutura do Sacro Império; as terras tchecas somente podem ser administradas por tchecos e seus cidadãos somente podem ser julgados nos tribunais tchecos; e por fim o arcebispo de Praga tem a incumbência de coroar o rei da Boêmia. Esse conjunto de fatores fez da Boêmia o ambiente mais propicio para o surgimento dos questionamentos sobre os excessos facilmente perceptíveis nas mais diversas instâncias da poderosa Igreja Católica Romana.

            O cristianismo chegou à região da Boêmia pelo viés da Igreja Ortodoxa Grega. Dois missionários gregos, Cirilo e Metódio, vieram de Constantinopla (Istambul) no ano de 863 para a Boêmia e fizeram dessa terra seu campo de trabalho. Aqui eles utilizaram um método totalmente inovador, pois suas liturgias, pregação e ensino eram realizados na língua popular e traduziram a bíblia para a linguagem vernácula, contrariando todo um sistema que exigia que fosse feito utilizando somente o latim. Essa evangelização primária e distintiva permaneceu na mente e corações do povo morávio para sempre.

Jerônimo de Praga (1378? - 30 de maio de 1416)

            Há pouco tempo ocorreu à comemoração dos 600 anos de seu martírio. É lamentável que Jerônimo de Praga permaneça no ostracismo histórico da igreja protestante, visto que ele foi um grande propulsor do movimento reformado na fecunda terra da Boêmia.[2] Coube ao humanista italiano Poggio Bracciolini, que foi testemunha ocular do processo e da sentença condenatória dele no transcorrer do Concílio de Constança, emitir um reconhecimento de suas aptidões – “um homem para ser lembrado”. Mas lamentavelmente Jerônimo foi colocado sempre à sombra de seu amigo João Huss, e sua obra e participação no processo reformado na Boêmia foram sempre minimizadas. Esse sucinto artigo visa trazer à luz esse personagem tão relevante e assim confirmar as palavras de Poggio, escrita seiscentos anos atrás, estimulando a curiosidade do leitor a procurar mais informações sobre Jerônimo de Praga.

Jerônimo de Praga e João Huss

Duas pessoas com histórias e características tão distintas, mas que compartilharam uma amizade profunda e profícua e que enfrentaram igualmente o martírio, unicamente por que desejavam resgatar a pureza e simplicidade da Igreja Cristã de sua época. Jerônimo nasceu em Praga, capital da República Checa, advindo de família nobre, obteve seu título de bacharel na Universidade de Praga em 1398 e no ano seguinte iniciou excursão pelas maiores Universidades da Europa Oxford [1402], (Paris [1405], Colônia e Heidelberg [1406]) onde alcança o grau de Mestre; Huss nasceu no interior e seus pais eram de poucos recursos, praticamente não saiu da Boêmia. Enquanto Huss foi ordenado sacerdote, Jerônimo mesmo tendo a formação teológica optou por permanecer um leigo e dedicou-se às atividades acadêmicas.

            Jerônimo de Praga, que morreu queimado em uma estaca em Constança em 1416, mesmo antes de sua morte havia se tornado um símbolo para os seguidores do movimento de reforma na Boêmia. No entanto, apesar de serem contemporâneos e companheiros no esforço para resgatar uma igreja nos moldes bíblicos, ele sempre foi visto à sombra de João Huss, que o precedeu cronologicamente no martírio.

            Todavia, no transcurso do movimento reformista Jerônimo desempenha um papel muito relevante para a construção da identidade do movimento quanto da argumentação nas discussões com os oponentes. Por esta razão foi que o seu martírio expressou a força da ideologia reformista que impulsionava este extraordinário movimento o qual nem a toda poderosa Igreja Romana conseguiu dominar, apesar de todo seu poderio político-econômico-bélico.

Oxford e as Teses Críticas de João Wycliffe

            Ainda que não tenha alcançado nenhum título acadêmico em sua passagem na Universidade de Oxford, ele obteve algo muito mais valioso e que nortearia toda a trajetória do restante de sua vida, incluindo o terrível martírio. Em Oxford ele teve acesso às obras de João Wycliffe, as Dialogus e Trialogus, que imediatamente cativou sua mente prodigiosa pelas bases e pensamentos do eminente Doutor Wycliffe do século anterior. De imediato inicia a tradução destas obras para sua língua materna. Completado seu percurso acadêmico e retornando a Boêmia ele começa a divulgar os artigos críticos de Wycliffe, que encontra forte ressonância na voz potente de Huss, de maneira que suas histórias caminham paralelamente, inclusive o desfecho final.

            Assim como seu compatriota Jerônimo tornou-se um crítico contumaz da Igreja Romana e seus desvios e aberrações teológicas e éticas. Toca na menina dos olhos do catolicismo romano – a infalibilidade papal – em que se ensinava que todas as deliberações e documentos papais eram autoridade máxima da igreja, pois os papas gozavam da assistência sobrenatural do Espírito Santo, que o preservava de todo e quaisquer erros (equivalendo-se aos escritores bíblicos). Tal doutrina feria e contrariava todos os ensinos bíblicos e o testemunho histórico dos erros grassos encontrados em muitas das bulas papais apenas depunham contra tal absurdo, sem mencionar que naquele exato momento havia três Papas se digladiando pela primazia – qual deles era “infalível”?

            Jerônimo era teólogo, filósofo e professor. Quando se pronunciava era brilhante, articulado e incisivo, assim como seus escritos. Seus opositores o temiam, pois era extremamente difícil manter um debate com ele e sair vencedor. Quando as pregações e propostas reformistas de Huss atraíram a ira papal e conciliar romana, Jerônimo colocou todo seu talento e saber em defesa do compatriota e suas críticas ao sistema religioso romano.

            Quando as perseguições se tornaram concretas e frequentes, Jerônimo permaneceu firme e resoluto. Mas sua trajetória, como de tantos outros reformadores, seria marcada pela prisão, tortura e martírio nas mãos de seus algozes. Em determinado momento fraquejou, mas logo se refez e morreu defendendo seus princípios reformistas até o acender da fogueira inquisitória.

Chegada em Constança

            Quando João Huss em outubro de 1414, portando um salvo-conduto emitido pelo próprio Imperador Sigismundo, rei da Hungria e chefe do Sacro Império Romano, preocupado com o avanço dos turcos e do islamismo, viaja para o Concílio de Constança, assegurando que ele teria voz no Concílio e que poderia retornar em segurança para a Boêmia. Jerônimo lhe assegura que o seguiria para ajudá-lo, o que aconteceu em 4 de abril de 1415.

Ele chega cerca de poucos meses antes que João Huss fosse condenado e morto, após longo e terrível período de aprisionamento e torturas. Jerônimo entra na cidade discretamente visto que o clima era tenso e os conciliares romanos estavam sedentos de sangue. Após consultar alguns nobres e amigos tchecos, que haviam vindo com Huss, foi convencido de que ele não poderia ser útil para seu amigo.

Na medida em que sua chegada a Constança tornou-se conhecida publicamente, e sendo informado de que o Concílio pretendia prendê-lo, ele achou mais prudente sair da cidade. Assim, no dia seguinte ele foi para Iberling, uma cidade imperial, a cerca de uma milha de Constança. Deste lugar ele escreveu ao imperador, e propôs sua prontidão para comparecer perante o Concílio, se lhe fosse dado um salvo conduto imperial, mas o imperador não se deu ao trabalho de responder, ainda que tal documento tivesse pouca valia como ficou evidente no caso do próprio Huss, portador de tal documento oficial. Ele então se reportou ao próprio Concílio, mas recebeu uma resposta negativa e enfática.

Depois disso, ele partiu em retorno à Boêmia. Ele teve a precaução de levar com ele um certificado, assinado por vários dos nobres boêmios, então em Constança, testemunhando que ele tinha usado todos os meios prudentes em seu poder para obter uma audiência e assim poder defender o compatriota e amigo.

Prisão Arbitrária de Jerônimo

Jerônimo, no entanto, não escapou dos efeitos nefastos da tirania político-eclesiástica. Ainda em território alemão ele foi arbitrariamente preso a mando do Duque de Sulzbach, que, embora não autorizado a agir, tinha o propósito de ganhar os favores do Concílio. Em troca de correspondências o duque de Sulzbach é orientado a enviar o prisioneiro imediatamente para Constança. Acorrentado ao pescoço e mãos, ele foi conduzido de volta como se fosse um perigoso bandido. Entra na cidade cercado por homens a cavalo e um número excessivo de guardas, sendo imediatamente lançado a uma masmorra úmida e repugnante, as mesmas condições deploráveis em que seu contemporâneo Huss havia sido aprisionado.

Antes da sentença final do amigo, o Concílio de Constança ainda se recusou a deixar Jerônimo falar. Eles sabiam que ele era um estudioso persuasivo e inteligente, e tinham medo de sua habilidade de defender a fé cristã, e persuadir os conciliares a mudar a sentença final. Com a repercussão negativa da prisão e decorrente morte de Huss as autoridades temendo uma rebelião popular, mudava constantemente Jerônimo de uma prisão para outra.

Passou um ano confinado nas piores condições possíveis, acorrentado em posições desconfortáveis e doloridas. Adoeceu e úlceras apareceram em seu corpo. Em algum momento o espírito de Jerônimo foi quebrado e nesse momento de extrema fragilidade concorda em assinar documento declarando submissão aos ensinamentos da Igreja Romana e que repudiava as teses “heréticas” de Wycliffe e Huss. Mas a história deste grande homem não termina de forma tão lamentável, ainda que muitos que jamais sofreram qualquer pressão ou sofrimento semelhante aos que ele enfrentou, queiram emitir juízo e menosprezo histórico sobre ele.

Mesmo após assinar tal documento sob as condições mais adversas possíveis, ele foi mantido preso. Mas isso não lhe foi prejudicial, ao contrário, nesse tempo de aprisionamento ele pode refletir, repensar e orar – então encontra o caminho de volta à verdade infalível provinda unicamente das Escrituras.

Em seu momento de fraqueza Jerônimo não está sozinho na história, Thomas Cranmer (1489–1556) e alguns outros que, em seu primeiro terror, ofereceram trocar princípios pela vida, tornaram-se depois, e quase imediatamente depois, mais confiantes na verdade de sua causa, e mais dispostos a sofrer em defesa dele.

Esse retorno ficara evidente nas suas palavras ao ser novamente levado diante do Concilio, em maio de 1416, para sua última audiência:

Confesso e tremo quando penso nisso. Por medo do castigo do fogo, consenti vilmente e contra minha consciência em condenar a doutrina de Wycliffe e Huss. Retrato-me agora completamente deste ato pecaminoso, e estou resolvido a manter os dogmas destes homens até a morte, crendo que eles são a verdadeira e pura doutrina do evangelho, assim como creio que a vida desses santos foram irrepreensíveis (ALMEIDA, 2017).

            E em outro momento ele declara em alto e bom som:

Estou pronto para morrer. Não recuarei diante dos tormentos que me estão preparados por meus inimigos e suas falsas testemunhas, que um dia terão que prestar contas de suas imposturas diante do grande Deus, a quem nada pode enganar (PRAGA, 2021).

Finalmente foi conduzido à presença do Concílio, e ainda mantinha alguma esperança de que pudesse pleitear sua própria causa, mas como acontecera com seu antecessor lhe foi proibido defender-se, então ele eclodiu na seguinte exclamação:

"Que barbaridade é essa! Por trezentos e quarenta dias estive confinado em várias prisões. Não há miséria, não há dor, que eu não tenha experimentado. Aos meus inimigos, foi permitido que se expusesse todas as acusações, mas para mim vocês negam a menor oportunidade de defesa. Nem uma hora me foi dado para me preparar para o meu julgamento. Vocês engoliram as calunias mais vis contra mim. Vocês me expuseram como um herege, sem conhecer a minha doutrina; como inimigo da fé, antes que soubessem que fé eu professo: como perseguidor de padres antes que você pudesse ter uma oportunidade de esclarecer minhas críticas contra eles. Este é um Concílio Geral: em seu centro todo este mundo pode se comunicar de gravidade, sabedoria e santidade: mas ainda assim vocês são homens, e os homens são seduzíveis pelas aparências. Quanto maior for o seu caráter para a sabedoria, maior deve-se não se desviar para a loucura. A causa que agora eu imploro não é a minha própria causa: é a causa dos homens, é a causa dos cristãos; é uma causa que é afetar os direitos da posteridade, no entanto, o experimento deve ser feito em minha pessoa."

Uma vez mais lhe é oferecido uma oportunidade de perdão se ratificasse o documento assinado anteriormente, o qual agora ele responde com uma postura serena e convicção: “O único favor que exijo é ser convencido pelas Escrituras”. Seus acusadores reagem imediatamente: “Acaso crês ser mais sábio que todo o concílio?” Ao contrario, responde Jerônimo, “estou ansioso por ser instruído pela Santa Escritura, que é a tocha que nos ilumina”. Impossível não ouvir o ressoar das palavras de Martinho Lutero, 100 anos depois, diante de um Concílio semelhante.

Finalmente, quando ameaçado de ser lançado à fogueira, Jerônimo responde agora com a segurança de um apóstolo Paulo e de um Policarpo: “Seria minha vida tão preciosa para mim que me recusaria a entrega-la... por Aquele que deu sua vida por mim?”.

Suas palavras não tiveram efeito algum sobre as decisões do Concílio e Jerônimo ouve as acusações contra ele e a consequente sentença de morte: 1) Que ele era um ridicularizador da dignidade papal; 2) Um opositor do Papa; 3) Um inimigo dos cardeais; 4) Um perseguidor dos prelados; 5) Alguém que odeia a religião cristã.

Declarado a sentença de morte pelo fogo Jerônimo foi entregue ao poder civil: mas como ele era leigo, ele não tinha que passar pela cerimônia de degradação, como foi o caso de Huss. Todavia, seus algozes haviam preparado um chapéu em cone de papel e pintado com demônios vermelhos, que foi colocado em sua cabeça, então ele disse: "Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele sofreu a morte por mim um pecador miserável, usou uma coroa de espinhos sobre Sua cabeça, e por Deus vou usar este chapéu."

Ainda lhe foi dado mais dois dias na expectativa de que ele se retratasse e o cardeal de Florença usou seus esforços máximos para convencê-lo. Mas Jerome não fraquejou uma segunda vez, resoluto sela suas teses reformistas com seu sangue; e ele enfrenta a morte com magnanimidade distinta.

Ao ir para o local da execução, ele cantou vários hinos, e quando ele veio ao local, que era o mesmo onde seu amigo e compatriota João Huss houvera um ano atrás sido queimado, ele se ajoelhou, e orou fervorosamente. Ele abraçou a estaca sem qualquer temor e quando eles se aproximaram por trás para atear o fogo nos gravetos ressequidos e encharcados de óleo, ele disse: "Venham aqui, e acende-o diante dos meus olhos; pois se eu tivesse medo destas chamas, eu não teria vindo para este lugar”. E no dia 30 de maio de 1416, enquanto o fogo estava sendo aceso, ele cantou um hino, mas logo foi interrompido pelas chamas; e as últimas palavras que dele pode ser ouvido foram: "Esta alma em chamas eu ofereço a ti, oh Cristo". Como era mais robusto do que seu compatriota os gritos de agonia de Jerônimo foram ouvidos por um tempo ainda maior.

Depois que Jerônimo morreu suas cinzas, assim como ocorrera como as de Huss e de Wycliffe, foram lançadas no rio Reno, como esforço para apagar qualquer vestígio destes homens. Mas como declara o escritor de Hebreus: mesmo depois de mortos ainda falam – esses homens permaneceram vivos na mente e no coração de milhares boêmios e milhares de cristãos espalhados em toda a Europa medieval e até os dias de hoje no século XXI. Os ensinos e verdade que emanam da Bíblia e somente da Bíblia são inegociáveis e jamais poderão ser silenciadas.

Talvez o mais interessante seja a visão daqueles "homens eruditos" que, segundo um observador, "estavam tristes por Jerome ter que morrer, pois ele era um estudioso muito maior do que Hus". As opiniões dessas pessoas, cuja principal preocupação aparentemente não era política nem teológica, foram registradas para a posteridade por Poggio Bracciolini, um humanista esteta de Florença, secretário de dois papas, e católico zeloso. Em uma correspondência dirigida a Leonard Bruni, logo após os eventos em 23 de maio de 1416, escrita ainda em Constança, deu amplo testemunho das extraordinárias virtudes de Jerônimo a quem ele enfaticamente declara como sendo um homem prodigioso! Em determinado trecho da correspondência ele declara:

Devo confessar que nunca vi alguém que, na defesa de uma causa, especialmente uma causa da qual sua própria vida dependesse, chegasse tão perto daquele padrão de eloquência antiga que tanto admiramos.

Foi impressionante testemunhar com que palavras escolhidas, com que argumentos coesos, com que confiança no semblante ele replicava a seus adversários. Tão marcante foi sua peroração, que é motivo de grane preocupação que homem de tão nobre e excelente gênio tenha se desviado para a heresia. Quanto a isso, contudo, não posso deixar de ter minhas dúvidas. Mas longe de mim ousar decidir questão sobremaneira importante. Aquiescerei com a opinião dos que são mais sábios que eu..., mas ele se defendeu, com tanta graça, discrição e inteligência, que me faltam palavras para descrever-te...Seu nome é digno de glória imortal...” [3]

            Evidente que as palavras elogiosas de Pogge se referem apenas aos aspectos oratórios e argumentativos de Jerônimo e não há vestígio de qualquer concordância dele com as teses do acusado, ainda que ele declare ter suas dúvidas sobre o processo. O que torna ainda mais isenta suas opiniões pessoais sobre Jerônimo.            

            Assim como o sangue dos primeiros mártires cristãos foi a sementeira do Evangelho no primeiro século. A cinza ainda quente de Jerônimo e Huss incendiaram o coração dos cristãos boêmios no século XV e como um abalo sísmico vai produzir rachaduras irreparáveis nas estruturas politico-religiosa da Europa, possibilitando o eclodir da grande Reforma Protestante no século XVI. É o próprio Lutero que dá testemunho da importância dos eventos boêmios ao declarar “somos todos hussitas” em referência direta da influência do movimento religioso produzidos a partir dos martírios de Huss e Jerônimo.

 

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

 

 Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Abraão de. A Reforma Protestante: Edição Ampliada Comemorativa aos 500 Anos da Reforma Protestante. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

ALMEIDA, JORGE. Panorama da história do cristianismo. Clube de Autores, 2021.

AGUIAR, Thiago Borges de. Jan Hus: as cartas de um educador e seu legado imortal. (Tese Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Educação. Área de Concentração: História da Educação e Historiografia. São Paulo Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2010. [Orientadora: Profª Drª Maria Lúcia Spedo Hilsdorf].

AGUIAR, Thiago Borge de e SILVA, Davi Costa da. - Identidade nacional na Boêmia do século XV e a formação de uma paideia tcheca. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 41, n. 02, p. 309-324, abr./jun. 2015.

ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio de Janeiro: Record, 1997.

AZEVEDO, Leandro Villela de. As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no contexto religioso de sua época: Da Suma Teológica de Aquino ao Concilio de Constança, Dos espirituais franciscanos a Guilherme de Ockham.(Tese Doutorado). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010. [Orientador: Prof. Dr. Nachman Falbel].

DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996.

FOXE, John. O livro dos mártires. Tradução de Almiro Pizetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.

FUDGE, Thomas A. Jerome of Prague and the foudations of the hussite movement. Oxford University Press, 2016.

GONZALES, Justo L. Uma história do pensamento cristão – de Agostinho às vésperas da Reforma. Tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Mattos. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

LOSERTH, Johann. Wiclif and Hus. London: Hodder and Stoughton, 1883.

PESSOTTI, Isaias. Aqueles cães malditos de Arquelau. Rio de Janeiro: Editora 34 ltda, 1993, [2005, 5ª edição].

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[1] Após a Primeira Guerra Mundial formou a então Tchecoslováquia composta pelas regiões da Boêmia, Morávia, Silésia e Lusácia.

[2] Sua biografia pode ser reunida principalmente a partir dos dois principais conjuntos de registros de julgamentos, a que foi submetido, o de Viena entre 1410 e 1412 e de Constança em 1415 e 1416.

[3] A integra desta carta longa pode ser encontrada na obra de Thomas A. Fudge, no Anexo 12, conforme referência bibliográfica abaixo.

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