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sexta-feira, 31 de julho de 2015

REFORMA PROTESTANTE: Personagens Concomitantes – Erasmo de Rotterdam

Introdução
A Reforma Religiosa ocorrida no século XVI, também denominada de Reforma Protestante, foi sem dúvida alguma um dos acontecimentos histórico mais impactante na vida de pessoas, nações e do mundo Ocidental. Suas ondas sísmicas ainda se fazem sentir, mesmo que de forma tênue, nos dias iniciais deste nosso século XXI.
Evidentemente que um movimento desta envergadura e abrangência haveria de produzir personagens da mesma magnitude. Nomes como os de Martinho Lutero, João Calvino, Zwínglio tornaram-se de domínio público e ainda hoje inspiram cristãos e não cristãos em todo mundo ocidental.
Mas um movimento com esta dimensão continental, originariamente de cunho religioso, não poderia ter alcançado esta magnitude e expandindo tão rapidamente se não estivesse inserido em uma esfera maior dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos que lhes estão conectados e até mesmo amalgamados.  
Desta forma, ao nos referirmos à Reforma Religiosa e/ou Protestante, a empobreceremos muito se nos restringirmos apenas aos personagens e movimentos eminentemente religiosos. Inúmeros personagens e movimentos paralelos contribuíram de forma efetiva nos movimentos iniciais que culminaram com a Reforma em si, bem como nos múltiplos desdobramentos produzidos em sua esteira no transcorrer dos anos.
Esse singelo espaço será ocupado pelo esforço de resgatarmos esses personagens e movimentos que paralelamente acompanharam desde sua origem a Reforma Protestante e seus desdobramentos na sociedade humana.

ERASMO DE ROTTERDAM: Um Renascentista na Reforma Religiosa e/ou Protestante
Seu nome de batismo era Geer Geertz, de origem holandês, mas posteriormente optou, como tantos outros contemporâneos igualmente influenciados pelo movimento humanista,[1] por um nome de origem latina Desiderius Erasmus, mas o nome que prevaleceu na literatura acabou sendo Erasmo de Rotterdam, vinculado à cidade em que nascera em 1446.[2]
Erasmo nasce no entroncamento de dois séculos, XV e XVI, demarcando uma das mais significativas mudanças de mentalidade na sociedade ocidental. Nada seria mais como antes, as transformações iniciadas no século XV e efetuadas no século XVI não deixariam pedra sobre pedra. Todas as esferas da sociedade, incluindo a até então intocável religião, seriam afetadas profundamente e tomariam formas e dimensões jamais imaginadas por qualquer pessoa ou instituição daqueles dias.
Como filho da Renascença[3] Erasmo assume um papel significante na área do conhecimento e seus escritos filosófico-religioso demonstram sua erudição e lhe outorga o respeito e admiração de seus pares acadêmicos, mais ainda, extrapolando as rígidas fronteiras acadêmica alcança a mentalidade da sociedade. Seu esforço é direcionado em unir o ser humano, a religião e o conhecimento advindo das experiências vivenciais. Esta proposta, aparentemente simples para nós hoje, naqueles dias tornam-se estopim de uma enorme batalha, pois bate de frente com a toda poderosa teologia tomista-aristotélica,[4] mergulhada em discussões e elucubrações intermináveis sobre temas metafísicos e dialéticos totalmente alienados da realidade da sociedade e da vida cotidiana das pessoas.
Em nenhum momento Erasmo rompe oficialmente com Tomás de Aquino,[5] o arquiteto do sistema teológico tomista que procurava fazer a junção da filosofia grecolatina clássica (principalmente de Aristóteles)[6] para compreender a revelação religiosa do cristianismo, mas em seus escritos fica claro as discordâncias de Erasmo em relação aos conceitos tomista que castrava qualquer outra forma de pensar e conhecer. Partindo dos princípios fomentado dentro da rigidez escolástica a teologia cristã acabava produzindo uma religiosidade estéril, de maneira que a força vivificadora e transformadora do Evangelho se tornava apenas uma vaga lembrança. Mas é esta concepção aristotélico-tomista que vai predominar na tardia Idade Média e moldar o pensamento da igreja e da sociedade – uma religião especulativa que perdera a capacidade de dar esperança e paz aos corações dos medievos aterrorizados continuamente pelo prisma da morte e do inferno.[7]
A proposta abraçada por Erasmo e por seus contemporâneos humanistas era tão somente retornar às origens. Para ele era preciso urgentemente redescobrir a simplicidade e singeleza do Evangelho; era necessário retornar aos princípios elaborados por Cristo; a religião cristã precisava alcançar a vida das pessoas proporcionando a elas um cristianismo vivencial centrado no tripé da fé sincera, amor sem hipocrisia e esperança que não se envergonha, afastando-se das especulações metafísicas e argumentações dialéticas. Para que este objetivo pudesse ser alcançado se fazia necessário um retorno às fontes primarias do cristianismo – os textos evangélicos do Novo Testamento.[8]
Em sua obra mais profícua – Elogio da loucura (Encomium moriae seu laus stultitiae) – Erasmo expõe todo seu arsenal crítico da religiosidade de seus dias. A leitura desse livro incomoda ainda hoje e deveria ser leitura obrigatória a todos que estão ligados à religião cristã, bem como as instâncias da política e governança. Seus paradoxos e ironias, suas críticas acerbas e diretas contra as lideranças eclesiásticas, sua exposição das hipocrisias e da corrupção, aliada a uma exaltação dos valores transcendentais, fecundadas no tripé da fé, da esperança eterna e da pratica do amor torna a leitura dessa obra obrigatória.[9]
Longe de ser uma obra cômica da vida, ela oferece a oportunidade de um autoexame profundo no que concerne à vida humana em todas as suas dimensões que se revelam em todos os caminhos e descaminhos trilhados pelo ser humano; aquilo que somos transparece de uma forma ou outra, nos atos, fatos, erros e acertos do indivíduo e que retumba com toda intensidade na sociedade em todas as suas dimensões eclesial, civil, política e econômica. As palavras se Luiz Feracine (2011, p. 44) são oportunas:
O que mais encanta nessa obra é a relação dos opostos entre ilusão e verdade, sabedoria e doidice, máscara e autenticidade.
Sabemos que o impacto provocado pela edição daquele texto acusatório contribuiu para a reflexão e mesmo para a reforma interna no âmbito eclesiástico tanto da época como do período posterior a Erasmo.
Em suma, “Elogio da Loucura” concretiza o senso sacro do profetismo sob a modalidade de pilhéria mordaz.

Erasmo e sua Relação com a Reforma Protestante
Erasmo vivenciou dois dos maiores movimentos que eclodiram e transformaram a história ocidental – o Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante.
A situação caótica da sociedade e da Igreja Cristã perfazem o contexto onde prolifera ambos os movimentos: tensões políticas e sociais, catástrofes climáticas, pragas na agricultura, propagação de doenças, sendo a principal delas a peste negra, que sozinha dizimou aproximadamente um terço da população europeia; o juízo final nunca antes foi tão iminente, o pavor da morte aterrorizava as pessoas em todas as esferas da sociedade; a Igreja Cristã que deveria amenizar esse terror e apontar um caminho para sair desta situação caótica e desesperadora, está mergulhada em suas próprias mazelas, tomada pela corrupção moral, econômica e eclesiástica. As imoralidades dos papas, bispos, sacerdotes, o cisma do Ocidente com o cativeiro do papa em Avignon, o comercio das relíquias e das indulgências, a simonia desvairada, o nepotismo exacerbado de bispos e cardeais, tudo contribuía para que a religião fosse banalizada e a autoridade da igreja se tornasse uma peça de ficção. O cristão para ter acesso a Deus precisava trilhar um caminho longo e tortuoso: “pároco, bispo, papa, missa, confissão, comunhão, oração, indulgências, relíquias, rosário, peregrinações, jejuns, abstinências etc.” (MONDIN, 1981, p. 15). Mas na mesma medida em que esse sistema complexo ruía as pessoas paulatinamente tomam consciência de que deveria haver um caminho mais simples e menos oneroso para se chegar a Deus.
Após a edição de seu livro “O Elogio da Loucura” publicada pela primeira vez em latim em 1509, mas rapidamente traduzido para outras línguas, inclusive para o inglês em 1549, elevou Erasmo a um dos expoentes do movimento humanista.
O Humanismo Renascentista e a Reforma Protestante são considerados o prelúdio da Modernidade na Europa e de fato compactuavam em diversos pontos:[10] um retorno à Bíblia, buscando as origens evangélicas; uma religião mais interior, pessoal, tornando desnecessário os intermediários entre Deus e os fiéis e consequente minimização da hierarquia eclesiástica, do culto dos santos e das longas cerimônias católicas. Todavia, também compartilhavam aspectos divergentes que no transcorrer do tempo demonstrariam serem irreconciliáveis. Para não delongar cito apenas os dois aspectos mais significantes que criou um fosso cada vez mais profundo entre os dois grandes movimentos.
O primeiro está justamente no fato de que Erasmo permaneceu um humanista. Assim como os demais amigos da vertente do Humanismo Cristão, advindos do Norte da Europa, que tinham como objeto primário a própria Bíblia para seus estudos filológicos e exegéticos, Erasmo manteve-se neutro[11] em relação ao movimento da Reforma principiada por Lutero e os demais reformadores. Manteve-se firme em seu ideal de uma reforma interna da Igreja sem o espectro da ruptura. Acredita que na medida em que se resgatasse os ensinos dos clássicos, retornando cada vez mais aos princípios originais do ensino bíblico-cristão, se criaria as condições ideais para uma reforma interior da Igreja e que esse movimento ocorreria naturalmente, sem guerra[12] ou ruptura. A melhor exposição desta “filosofia de Cristo” proposta por Erasmo está em seu livro “Manual do soldado cristão” (Enchiridion), escrito em 1503, mas que somente a partir da terceira edição em 1515 (dois anos antes do início da Reforma) produz um forte impacto. Nessa obra ele esboça sua tese revolucionária de que era possível produzir uma reforma na Igreja a partir de um retorno coletivo aos escritos dos pais da Igreja e da Bíblia, pois para ele a vitalidade do cristianismo se encontrava na força leiga e não nas limitações do clero (MATOS, 2008, p. 135).
Para Lutero e seus companheiros reformadores a proposta dos humanistas era insuficiente, pois a deturpação e corrupção desenvolvida nas entranhas da Igreja havia alcançado o nível de metástase, de maneira que, nada menos do que uma cirurgia radical seria necessária para se extrair a parte ainda saudável da Igreja cristã, antes que ela apodrecesse por inteira. Na permanência destas duas interpretações e posturas o distanciamento dos humanistas cristãos e dos reformadores torna-se cada vez mais irreversível.
O segundo aspecto que demarcou definitivamente a distância entre os dois movimentos foi a interpretação irreconciliável da questão sobre o livre arbítrio da vontade humana.
Na mesma medida em que o movimento da Reforma tornava-se cada vez mais abrangente e consistente, Erasmo começa a ser pressionado pelas lideranças eclesiásticas da Igreja Romana para que assuma uma posição clara contra Lutero e suas proposições “heréticas”. Tinha ele o direito de se abster, de ser uma testemunha passiva desta "tragédia" que por culpa de uns e de outros, iria em breve dilacerar a sua Igreja?  Mas Erasmo em uma correspondência com seu amigo Wolfgang Capitone deixa claro sua contrariedade em fazê-lo: “Os teólogos pensam que Lutero não pode ser subjugado, exceto pelo seu estilo, e isso ocultamente demandam: que eu escreva contra ele. Mas eu me abstenho como sendo isso insanidade”. (PINTACUDA, 2001, p. 51). Pela similaridade de suas críticas aos erros da Igreja muitos suspeitavam e insinuavam que Erasmo estivesse apoiando o movimento de Lutero.[13] A pressão torna-se insuportável de maneira que o humanista escolhe um tema que sabia de antemão qual seria a reação do reformista – o livre-arbítrio.[14] Esta intenção de Erasmo chega ao conhecimento de Lutero que lhe escreve uma carta, datada de 15 de abril de 1524, onde argumenta que se Erasmo não desejava fazer parte do movimento reformador, que permanecesse neutro e não se colocasse abertamente contra, no que o reformador não foi atendido.
Em setembro de 1524, no transcorrer da feira de Frankfurt, lança seu livro “De Libero Arbítrio” (FEBVRE, 2012, p. 280). É possível uma tripla divisão desse livro: inicialmente ele propõe algumas questões acerca da importância do tema e os pressupostos metodológicos que deverá utilizar no transcorrer da sua argumentação. Na segunda parte ele faz um levantamento dos textos bíblicos que fundamentam o livre-arbítrio e os textos que são utilizados para nega-lo. Um último bloco é utilizado para analisar a argumentação de Lutero em sua negativa do livre-arbítrio. Erasmo opta por contestar a interpretação antropológica utilizada por Lutero em suas asserções e em outras literaturas do reformador alemão.[15]
A resposta de Lutero vem no ano seguinte quando em dezembro de 1525 publica sua obra “De Servo Arbítrio” (FEBVRE, 2012, p. 280). Sua intenção é contestar cada uma das argumentações de Erasmo. Sua tese é que a Bíblia não pode ter divergências, pois seu autor é apenas um, o Espírito Santo. Para o reformador a vontade humana, corrompida pelo pecado, não tem força suficiente para alcançar a salvação sem ação continua da graça de Deus. Para ilustrar o domínio do pecado sobre a vontade humana utiliza a figura do jumento que é dominado por seu montador, que o dirige para onde quiser, no caso seria Deus ou Satanás. E mais ainda, não é o ser humano que escolhe seu “montador”, mas ele é escolhido. Para Lutero, em termos de salvação ou condenação, o ser humano não possui livre-arbítrio, pois sua vontade esta cativa, escravizada pelo pecado.
É perceptível a irritação e até mesmo uma dose de decepção por parte de Lutero em relação as assertivas de Erasmo. Crítica a definição de livre-arbítrio oferecida pelo humanista, o qual o reformador declara não fazer sentido, pois a única coisa capaz de romper os grilhões do pecado humano são as ações de Deus e Sua palavra. E como era de seu feitio utiliza a ironia dizendo que se Erasmo não desejava abordar esta questão, não deveria ter escrito o livro “De Libero Arbítrio” onde acaba falando mais da graça de Deus do que sobre a vontade livre do homem (LUTERO, 1993, p. 27 e 36). Em relação às leis contidas nas Escrituras, elas são reveladoras da total incapacidade do ser humano em obedece-las ao invés de atestar sua capacidade de escolha.  Quanto ao exemplo utilizado por Erasmo, sobre o endurecimento do coração de Faraó, o reformador acusa o humanista de fazer similitude e deduções que vão além da simplicidade da narrativa bíblica.
Quando Erasmo escolheu a temática do livre arbítrio ele sabia que uma conciliação com Lutero seria impossível, pois ambos partiam de primícias diferentes e, portanto, acabariam chegando a conclusões excludentes. Erasmo como representante do humanismo cristão, entende que a vontade humana é livre para fazer suas próprias escolhas seja o bem ou mal, determinando a questão da salvação. Para ele o ser humano não está totalmente depravado, pois na utilização de suas faculdades racionais ele ainda é capaz de boas ações. A concepção de Lutero é justamente o oposto, pois segundo ele o ser humano está totalmente depravado e, portanto, naturalmente o ser humano não é capaz de fazer o bem, pois todas suas ações são más por natureza, de maneira que não pode determinar sua própria salvação. Assim, Erasmo mantendo seus pressupostos humanistas desenvolve uma visão positiva sobre o ser humano e Lutero coerente com seus pressupostos exegético-teológico mantém sua concepção negativa do ser humano.

Conclusão
A relevância de Erasmo para o movimento da Reforma Religiosa e/ou Protestante não pode de forma alguma ser desmerecido. Sua análise crítica da Igreja medieval, apontando as suas distorções do Evangelho, enriquecimento financeiro, injustiça social e implacável opressão política, assim como a busca incansável das origens cristãs, seja com uma tradução mais exata dos textos bíblicos evangélicos, seja resgatando a ampla literatura dos pais da igreja, abriram e indicaram o caminho por onde todos os reformadores, incluindo o próprio Lutero, trilharam até o ponto em que rompendo com a Igreja Romana acabam por prosseguirem em direções distintas.
Erasmo de Roterdã, príncipe dos humanistas cristãos, é uma das figuras relevantes que direta e indiretamente contribuíram para o início do movimento reformado, que acabou por transformar completamente não somente a história da igreja, mas a própria história da sociedade ocidental. Depois de Erasmo e seu humanismo e de Lutero e sua reforma o mundo Ocidental jamais seria o mesmo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/


Referências Bibliográficas
BASTOS, Alexandre Frasato. Tempos de angústia Erasmo e Lutero no início da Modernidade. [Monografia Pesquisa Histórica] Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2008.
CUNHA, Samuel. Erasmo, Lutero e o livre-arbítrio. São Bernardo do Campo (SP): DISCERNINDO - Revista Teológica Discente da Metodista,v.2, n.2, p. 53-66, jan. dez. 2014. Disponível em: www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/discernindo/article/viewFile/4746/4032. Acessado em: 19/07/2015.
DELUMEAU, Jean. Nascimento e afirmação da Reforma. Tradução: João Pedro Mendes. São Paulo: Pioneira, 1989. [Biblioteca Pioneira de ciências sociais. História. Série “Nova Clio”; 30].
FEBVRE, Lucien. Martinho Lutero: um destino. São Paulo: Três Estrelas, 2012.
FERACINE, Luiz. Erasmo de Rotterdam – o mais eminente filósofo da renascença. [Coleção Pensamento e Vida]. São Paulo: Editora Escala Ltda, 2011.
LUTERO, Martinho. Da Vontade Cativa. Obras Selecionadas, v.4. São Leopoldo, RS: Concórdia/Sinodal, 1993.
MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da teologia histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. [Coleção teologia brasileira].
MILLI, Adriani. Livre ou servo arbítrio? A vontade humana em Erasmo e Lutero. Acta Científica. v. 15, n. 2, p. 41-54, 2º Semestre de 2008. Disponível em: <http://www.
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MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. [Tradução Benôni Lemos; revisão João Bosco de Lavor Medeiros]. São Paulo: Edições Paulinas, 1981.
NASCIMENTO, Sidnei Francisco do. Erasmo de Roterdam – humanismo e tolerância. Feira de Santana (BA): Revista IDEAÇÃO, Feira de Santana, n. 24, p. 49-63, jan/jun, 2011. Disponível em: http://www.revistaideacao.com/images/revistas/n24-v01-2011-a03.pdf. Acessado em: 05/06/2015.
PINTACUDA, Fiorella de Michelis. Tra Erasmo e Lutero. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 2001. [Instituto Nazionale di Studi Sul Rinascimento]
RODRIGUES, Adriani Milli. Fé x Razão – em busca de fundamentos para re-sigificação religiosa. São Paulo: Kerygma, 2008 [ano 4 – número 2 – 2º semestre, p. 3-16]. Disponível em: http://revistas.unasp.edu.br/kerygma/article/viewFile/230/232. Acessado em 23/07/2015.

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[1] Ainda que o termo “Humanismo” tenha sido usado pela primeira vez no início do 800 (F. I. Niethammer) para contrastar as disciplinas dos estudos clássicos em relação às disciplinas cientificas, a palavra humanista já era utilizada no 400 como derivada de humanitas, em que Cícero e Gélio faziam referência a educação e formação espiritual do homem, cujas disciplinas poesia, retórica, história e filosofia eram essenciais e que em seu conjunto eram denominadas de studia humanitatis e studia humaniora, que segundo os gregos (paideia) se relacionava com a educação e formação do homem. Esse conjunto de saberes possibilitava o ser humano conhecer a si mesmo e assim se fortalecer e se potenciaza-se. A partir do século XV as litterae humanae, cujo paradigma eras as obras latina e grega antigas e cujos autores tornaram-se os verdadeiros mestres da humanidade, demarcando o início de um novo período histórico cultural. Reale e Antiseri destacam os representantes das duas formas opostas de se interpretar contemporaneamente a significância do humanismo (2004, p. 06-08).
[2] Há discussões sobre a data de seu nascimento e alguns colocam 1469 como a data mais correta.
[3] O termo se define no oitocentos tendo como referencial bibliográfico a obra de Jacob Burckhardt (1818-1897) que tinha o título “A cultura da Renascença na Itália” (Basileia 1860). Nesse termo há os germes dos movimentos que vão nascendo dentro do espírito de “renovatio” e a redescoberta da antiguidade. O movimento humanista e da reforma religiosa foram possíveis por causa do espírito renascentista. Os oitocentistas foram radicais ao designar o período medieval anterior como sendo um “período de trevas” e o período deles como de “luz”. Hoje há uma percepção mais equilibrada: “Portanto, o ‘renascimento’ que constitui a peculiaridade da ‘renascença’ não é o renascimento da civilização contra a incivilização, da cultura contra a incultura e a barbárie, do saber contra a ignorância: ele é muito mais o nascimento de outra civilização, de outra cultura, de outro saber”. (REALI e ANTISERI, 2004, p. 11). O mesmo se aplica a questão eminentemente religiosa, pois antes da Reforma Protestante, houve inúmeros movimentos reformista que foram suplantados pelo poder que a Igreja Católica Romana detinha.
[4][4] “Nutria grande admiração por Sócrates, enaltecendo-o como modelo da sabedoria natural, assim como Jesus o era da sabedoria e bondade sobrenaturais. ” (MATOS, 2008, p. 134).
[5] São Tomás de Aquino foi um importante teólogo, filósofo e padre dominicano do século XIII. Foi declarado santo pelo papa João XXII em 18 de julho de 1323. É considerado um dos principais representantes da escolástica (linha filosófica medieval de base cristã). Foi o fundador da escola tomista de filosofia e teologia.
[6] Em seu adágio “Os Silenos de Alcebiades” Erasmo reconheciam que seria um crime e sacrilégio diminuir em qualquer ponto a autoridade de Aristóteles que ele o considerava como um homem de um saber excepcional, mas qual luz se radiosa fosse ela não se obscureceria em comparação a sabedoria celeste! (NASCIMENTO, 2011, p. 52)
[7] “[...] após a Peste negra, os artistas acharam uma deleitação mórbida em pormerizar completamente a variedade dos suplícios infernais. [...]. Mais ainda que o juízo final e o inferno, a morte é o grande tema da iconografia da Idade Média a findar. Incessantemente ressoa através da vida o apelo do memento mori. [...] a morte é, nos frescos, na literatura, nas imagens dos livros de horas, o grande personagem do tempo”. (DELUMEAU, 1989, p. 62)
[8] A tradução do NT de Erasmo produziu uma repercussão intensa, pois ele utiliza os manuscritos gregos originais e não o texto latino da Vulgata. Nas duas primeiras edições de 1516 e 1519 alcançou a expressiva tiragem de 3.300 exemplares. A segunda edição já trazendo o título de “Novum Testamentum” foi utilizada por Martinho Lutero como base para sua tradução para o alemão. Mas ele foi fortemente criticado pelos defensores da Latina até então a única tradução oficial. Seus críticos centraram em três questões: 1) as diferenças que havia entre sua nova tradução latina e a consagrada Vulgata; 2) as longas anotações, que justificava sua tradução e 3) a inclusão, entre as notas, de comentários sobre a vida desregrada e corrupta de muitos sacerdotes. Além das críticas nos púlpitos e nas Universidades, como as de Cambridge e Oxford, proibia-se os alunos de lerem e os livreiros de venderem a “herética” tradução. Um dos editores da Poliglota Complutense, Lopes de Stunica, o acusa de não ter incluindo o texto de 1 João 5.7 e 8 (Coma Joanina), o que ele replicou de que não havia encontrado em nenhum manuscrito grego a referida passagem e desafio seu acusador a trazer ao menos um texto grego que a comprovasse. Um manuscrito lhe foi trazido e ele honrou sua promessa e incluiu a referida passagem em sua terceira edição, todavia, incluiu uma longa nota marginal colocando sob suspeita o texto que lhe foi trazido. Muitos críticos textuais entendem que o texto foi fabricado artificialmente em Oxford, em 1520, por um frade franciscano chamado Froy, que ele extraiu da Vulgata Latina.
[9] Ele chegou a ser ordenado sacerdote (1492), todavia, não conseguiu se adaptar à vida religiosa e pediu dispensa do ministério e do hábito, mas jamais se afastou da temática religiosa e seus escritos demonstram o alto apreço que manteve das questões relacionadas à fé.
[10] Muitas das posições esposada por Erasmo, principalmente suas críticas à Igreja e ao clero renascentista, antecipam muitas das posições que haverão de serem esposada por Martinho Lutero que desembocara na Reforma Protestante, inicialmente na Alemanha e depois por toda a Europa.
[11] Se a postura ambígua de neutralidade lhe trouxe algum benefício imediato, ao longo do tempo o deixou isolado e sem seguidores. Sem o apoio dos reformadores acabou angariando a aversão dos católicos e sofrendo duras críticas por parte dos assessores do Papa: Lopes de Zuniga, Egídio de Viterbo e Batista Casali. Posteriormente parte de suas obras foram colocadas no “Index” e recomendando-se cautela em relação às demais e em 1529 um dos tradutores de suas obras, Louis de Berquin, foi queimado na fogueira, em Paris, pela Inquisição.
[12] Erasmo era um pacifista resoluto e para ele a guerra era inaceitável e o maior e mais terrível dos males da humanidade, portanto, injustificável em quaisquer fossem as circunstâncias. Em seu livro “Elogio da Loucura” escreve: “Não existe doidice maior do que a guerra. Seja qual for o resultado, cada um dos opositores colhe prejuízos pesados. O certo mesmo seria imitar Arquílogo que jogou no chão suas armas e desertou”. [negrito meu].
[13] A publicação em 1504 do seu “Manual do Soldado Cristão”, onde tecia fortes críticas, principalmente às autoridades eclesiásticas e à decadência da religião cristã, reforçada posteriormente por sua tradução do Novo Testamento do grego para o latim (1504), independente e crítica da Vulgata, o tornava referencial para as propostas formuladas pelos reformadores. “Lutero? Filho espiritual e êmulo de Erasmo – o realizador de suas veleidades reformadoras” (FEBVRE, 2012, p. 154).
[14] Segundo Roland Bainton, essa temática foi sugerida por muitos daqueles que o pressionavam para se posicionar contra Lutero ([1969?], p. 221, apud RODRIGUES, 2008, p. 6).
[15] Martin Dreher deduz que a obra não representa a posição teológica de Erasmo sobre a questão, servindo mais para marcar posição contra as insinuações de ser luteranizante, do que uma opinião conclusiva sobre o assunto (DREHER, 1993, p. 15, apud CUNHA, 2014, p.56).

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