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sábado, 15 de fevereiro de 2020

História da Igreja Cristã: As Mulheres no Contexto do Cristianismo Primitivo


            No desenvolvimento da Igreja Cristã é perceptível a relevância do papel exercido pelas mulheres. Elas estão presentes e ativas em todas as esferas e circunstâncias e muitas delas foram fundamentais em alguns momentos críticos dessa História. A ideia de que ficaram à margem ou foram assistentes passivas dos fatos históricos é totalmente anacrônico e destoante de uma realidade histórica genuína. Deus desde a criação as tratou de forma igualitária ao imprimir nelas a Sua imagem e semelhança s (Gn 1.28-29). Nas narrativas bíblicas do Primeiro Testamento se elas não aparecem em abundância, todavia, elas surgem em momentos decisivos, principalmente no que tange ao Projeto Salvífico estabelecido por Deus (Sara, Débora, Rute, Miriam, Ester).
            Jesus Cristo durante seu ministério terreno não apenas as elevou a uma posição acima do nível em que a tradição religiosa judaica as mantinha como as colocou em pé de igualdade com o homem, nem mais e nem menos. Elas fazem parte integrante daquele grupo de discípulos que acompanham Jesus em seu ministério itinerante por toda a Palestina judaica (Mc 15.41; Lc 8.1-3, 43-49).
Dos evangelistas sinóticos Lucas é denominado o “Evangelho no Feminino”, pois ele destaca a relevância da mulher no começo, meio e fim de sua narrativa. Elas estão na concepção e nascimento (Maria e Isabel); elas seguem a Jesus e contribuem para o sustento dele (8.1-3); na crucificação se fazem presentes (24.9-10; Mt 27.55; Jn 19.25), enquanto os homens se afastam, bem como na ressurreição tendo elas a honra de serem as primeiras a contemplarem e as primeiras a anunciarem a ressurreição de Jesus Cristo (24.1-12). Sem falar no quadro magistral de Maria assentada aos pés de Jesus, postura de discípulo, ouvindo seus ensinos, posição da qual não será tirada, mesmo com a contestação de sua irmã Marta (10.38-42) – no cristianismo a mulher não mais ficara restrita aos afazeres domésticos.  
Mas é na narrativa joanina que temos os mais extraordinários diálogos de Jesus e as mulheres: a mulher samaritana (que deixa escandalizados os discípulos – 4.5-42) e os diálogos com Marta e Maria antes de ressuscitar o irmão delas Lazaro (11.1-44). João esclarece que a primeira a ser enviada a noticiar sua ressurreição foi Maria Madalena – vai aos meus irmãos e dize-lhes que eu subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus – e o evangelista completa – foi Maria Madalena anunciar aos discípulos (20.17,18) – Jesus a comissionou: Vai e anuncia! Jesus dá a ela e suas companheiras autoridade para testemunhar o poder do evangelho.
Na primeira expansão do cristianismo, após o Pentecostes, conforme registrada no segundo volume de Lucas (Atos) elas se destacam e participam efetivamente dos acontecimentos marcantes: “E cada vez mais se agregavam crentes ao Senhor em grande número tanto de homens como de mulheres” (5.14). Alguns nomes femininos se destacam: Dorcas de Jope se destaca pelas ações sociais (9.36-42); Maria, mãe de João Marcos, cuja casa passou a ser ponto de referência para os cristãos Jerusalém (12.12); Lídia foi a primeira convertida na cidade de Filipos (16.14,15) em cuja casa passa a funcionar a comunidade cristã que vai se constituir em um marco pelo fato de ser a primeira comunidade na Europa e  um referencial do cristianismo para toda região da Macedônia, sendo a única igreja a manter vínculos permanentes com o apóstolo Paulo (Fp 4.15); Damaris de Atenas (17.34); as mulheres distintas e nobres de Tessalônica e Beréia (17.4,12).
Em suas correspondências Paulo não tem qualquer pudor em mencionar inúmeros nomes de mulheres e chama-las de companheiras de ministério e declarar que elas são indispensáveis no desenvolvimento da obra missionária, bem como no desenvolvimento das comunidades já estabelecidas (Priscila [Áquila][1] Rm 16.3, ela foi mentora do eloquente pregador Apolo, de origem judaica e convertido ao cristianismo, na cidade de Éfeso (At 18.24,26), deixando claro que nos primórdios não havia restrições que a mulher ensinasse aos homens; Júnias [Andrônico], líderes na comunidade cristã romana (Rm 16.7); Trifena e Trifosa, Persídes e a mãe de Rufo (Rm 16.13) que segundo ele trabalham (mesmo termo que descreve sua atividade apostólica, cf. 1 Co 15.10) no Senhor; Febe de Cencréia (Rm 16.1,2), ela exerce a função diaconal atendendo os necessitados nos quais o próprio Paulo se inclui[2]. A única reprimenda em toda a correspondência endereçada aos filipenses é para que duas mulheres, Evódia e Síntique, resolvam suas desavenças, pois segundo suas próprias palavras “juntas se esforçaram comigo no evangelho, também com Clemente e com os demais cooperadores meus, cujos nomes estão escritos no Livro da Vida” (Fp 4.2,3).
Esses parcos exemplos são suficientes para demonstrar a relevância da mulher no desenvolvimento do cristianismo neotestamentário; se destacaram e trabalharam laboriosamente pelo acolhimento e anúncio do evangelho de Jesus Cristo, testemunhando-o com suas vidas: foram discípulas e testemunhas de sua ressurreição; igualmente foram enviadas para anunciar o Evangelho; fizeram parte integrante das primeiras comunidades cristãs; cooperaram com sua sabedoria, riqueza, influência e posição social; foram valentes e ousadas em suas posturas cristãs e por esta razão martirizadas. Podemos afirmar categoricamente de que não há genuína História do Cristianismo sem a participação efetiva e preponderante das mulheres.
A Igreja e Seu Contexto Social
Evidente que havia limites culturais e históricos, mas em momento algum ficaram à margem das ações que impulsionaram o desenvolvimento do cristianismo por todo o Império Romano e por todo o Mundo. Na maioria das vezes elas exerceram autoridade (auctoritas), sem o correspondente poder (potestas) oficial,[3] o que nunca se constituiu em fator inibidor para exercerem suas atividades e funções de liderança diversas com criatividade e de forma frutífera.
Na media em que as mais diversas ciências sociais, vão ampliando e aprofundando seus estudos nos primórdios do cristianismo, mais evidente torna-se o papel das mulheres na sua expansão e estabelecimento como expressão social religiosa. Uma das ciências que mais tem contribuído para o estudo da mulher nos primeiros séculos da igreja cristã tem sido a arqueologia. Os diversos sítios arqueológicos em casas, palácios, templos e túmulos tem evidenciado que a participação da mulher era muito mais relevante do que se pudesse supor. Por exemplo, as inscrições funerárias e as estelas honoríficas revelam um protagonismo feminino surpreendente.
O cristianismo se estabelece nos centros urbanos nos primeiros séculos, onde os papeis dos homens e mulheres são menos rígidos do que nas regiões e pequenas vilas rurais. Aqui as comunidades cristãs vão formando uma rede de relações sociais, econômicas e políticas que lhe permitem se estabelecerem e interagirem com a sociedade. Principalmente nas correspondências paulinas é possível perceber que as comunidades cristãs não ficam restritas aos estratos mais vulneráveis e desfavorecidas, mas que muito cedo tem a participação de todas as camadas sociais, incluindo as mais elevadas e letradas. Dentro dessa sociedade urbana a mulher exerce papeis que extrapolam as suas funções especificas de mãe e cuidadora do lar. Muitas delas desempenhavam funções mercantis e administrativas, não apenas do lar, mas também dos negócios familiares.
Na sociedade grega, com exceção de Esparta, a mulher não possuía plena cidadania, mas as pesquisa vão revelando que elas também não ficam enclausuradas no lar. Elas são proprietárias de terras, gerenciam seus próprios bens e negócios e que vão aos tribunais quando se sentem lesadas. Algumas mulheres acumulam riquezas e tornam-se bem feitoras na sociedade[4]. Desta forma casos que eram apenas esporádicos, hoje vão se avolumando, na medida em que os sítios arqueológicos vão trazendo à tona a vivência daquelas cidades. “Foram encontradas inscrições que falam de mulheres que trabalhavam como sapateiros, carniceiros, pescadores, garçonetes, cabeleireiros... uma lista inteira que abrange a maioria dos negócios” (UBIETA, 2007, p. 29).
A sociedade romana das primeiras comunidades cristãs experimenta uma mudança profunda no papel das mulheres. Diversas leis que cerceavam os direitos das mulheres haviam sido abolidas[5] permitindo desta forma uma participação mais efetiva delas nas mais diversas esferas sociais. Com a helenização do Império Romano, as mulheres passaram a ter mais acesso à educação. Essa ascensão acadêmica acabou potencializando o papel delas como tutoras de seus filhos e filhas e consequentemente uma influência cada vez maior nos centros de poder.
Uma das esferas mais liberais para a participação feminina era a religião. Ainda que elas corressem o risco de serem envolvidas nos cerimoniais sexuais, era a esfera em que elas tinham maior mobilidade e ascensão, pois entre o trono e o templo havia um cordão umbilical. Mulheres começaram a ser cunhada em moedas correntes no Império Romano: Fulvia, esposa de Marco Aurélio e Lívia, mulher de Augusto, como representativos de figuras místicas do panteão das divindades romanas. Em pouco tempo essa prática espalha-se pelas províncias que homenageiam suas benfeitoras, como representativo virtuoso. Na esfera familiar essa ascensão religiosa da mulher torna-se significativa.
No contexto do judaísmo rabínico as mulheres tinham extremo cerceamento de suas áreas de atuação, todavia, em muitas áreas onde o judaísmo floresceu longe do poder dos rabinos as mulheres tiveram uma liberdade para expandir suas atuações sociais e religiosas. As comunidades judaicas na Ásia Menor, que estavam muito mais inseridas na cultura greco-romana, é um exemplo de maior participação da mulher no cotidiano social-religioso.
E neste mosaico social, politico e religioso se estabelece as comunidades cristãs com sua proposta igualitária onde não deve haver qualquer tipo de diferença entre nacionalidades, posição social e entre homens e mulheres. O movimento cristão primitivo tem nas mulheres e suas atuações dentro das comunidades estabelecidas o fator preponderante que alavancou sua rápida expansão. Dentro do contexto social greco-romano as mulheres cristãs usufruem de oportunidades mais amplas e compartilham de uma paridade com as atuações dos homens.
Evidente que nas páginas da História estão os registros dos retrocessos que a Igreja Cristã fará em relação aos seus primórdios. Infelizmente na mesma proporção em que a Igreja se institucionaliza, o ideário igualitário vai se desvanecendo quase ao ponto de desaparecer. Mas as diversas voltas às origens evangélicas mantiveram viva a proposta de uma comunidade onde não deve haver distinção entre homens e mulheres, onde todos são um em Cristo.
É preciso manter o esforço continuo de efetuar a inclusão da mulher de forma proporcional no mundo cristão, pois a igreja cristã tem grande débito com as mulheres, nominadas ou anônimas, que no transcorrer dos séculos foram e continuam sendo sujeitos dessa História, desde suas origens, ainda que em uma permanente relação de ambiguidade - aceitas e rejeitadas, enaltecidas e minimizadas - em sua historiografia.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
BYRNE, B. Paulo e a mulher cristã. São Paulo: Paulinas, 1993.
CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento Interpretado. São Paulo: Milenium, 1997 [vol.3 e 4].
CAIRNS, E.E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995.
D’ORS, Eugenio. Derecho privado romano, Pamplona 1997; apud DOMINGO, R. El binomio auctoritas-potestas en el Derecho romano y moderno, Persona y derecho 37, 1997, p. 184.
FIORENZA, E. S. As origens cristãs a partir da mulher, uma nova hermenêutica. São Paulo: Paulinas, 1992.
LADISLAO, M. G. As mulheres na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1995.
REIMER, Ivoni Richter. Maria, Jesus e Paulo com as mulheres: Textos, interpretações e História. São Paulo: Pia Sociedade de São Paulo - Editora Paulus, 2014.
___________________. Vida de Mulheres na Sociedade e na Igreja: uma exegese feminista de Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1995.
TEIXEIRA, José Luiz Sauer. A atuação das mulheres nas primeiras comunidades cristãs. Revista de Cultura Teológica, v. 18, n. 72 - OUT/DEZ 2010.
UBIETA, Carmen Bernabé (Ed.) Mujeres com autoridade em el cristianismo antiguo. Espanã: Asociación de Te´plogas Esanõlas (ATE) e Editorial Verbo Divino, 2007.



[1] Isso significa que Priscila e Áquila já eram cristãos quando Paulo os conheceu em Corinto. O nome de Priscila foi mencionado quatro vezes antes do nome do seu marido nas seguintes passagens: At 18.18,26; Rm 16.3; 2 Tm 4.19. “Na Antiguidade, as pessoas eram citadas de acordo com sua ordem de importância” (RICHTER REIMER,1995
[2] No caso dela especificamente chama atenção o termo utilizado pelo apóstolo para identifica-la “prostatis” (CHAMPLIN, p. 875) geralmente traduzido por ajudante ou patrona, que na época significava oficial, líder, presidente, governador ou superintendente, dando uma caracterização de que ela exercia algum tipo de autoridade (FIORENZA, E.S., p.217).
[3] Eugenio D’Ors define auctoritas como o “saber socialmente reconhecido” e potestas como “o poder socialmente reconhecido” (D’ORS, Eugenio, 1997, APUD DOMINGO, R., 1997, p. 184).
[4] Essa ação recebe o nome de “Evergetismo” um termo cunhado pelo historiador francês A. Boulanger e deriva do grego εύεργετέω que indica a prática, no mundo clássico, de presentes luxuosos para a comunidade de forma aparentemente desinteressada. 
[5] Dois exemplos: a lei das “Doce Tablas” promulgada no séc. V a. C. onde a mulher era subordinada aos homens de sua família (pai, marido, cunhado e até filho); outra lei contestada era a “Oppia”, que restringia o direito das mulheres à herança familiar.

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