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quinta-feira, 6 de abril de 2017

VERBETE: Mártir – Origem e Significado


            A palavra “Mártir” significa literalmente “Testemunha”, assim, Agostinho de Hipona no ano de 416 d.C., portanto, cem anos após as últimas perseguições romanas: “O que dizemos testes (testemunha) em grego, em latim diz martyres (mártir)".
            Desta forma em um primeiro momento o significa desta palavra não necessariamente implicava em morrer por causa do testemunho da fé cristã, ainda que cedo na história do cristianismo se descobrisse que para cumprir o mandato de Jesus haveria de se pagar um alto preço. As páginas da história cristã não foram escritas apenas por palavra, mas também com sangue!
            A associação de testemunho e sangue aparecem logo nas primeiras páginas neotestamentárias do livro de Atos. O recém-eleito diácono Estevão é o primeiro cristão a enfrentar a morte pro causa de seu testemunho da mensagem de Cristo (Atos 6 e 7), de onde se formulara ao longo dos séculos o conceito de mártir cristão: o testemunho auricular confessando Jesus Cristo como Senhor e Salvador é ratificado com o próprio sangue da testemunha.  
            Já para o fim do primeiro século o livro do Apocalipse trás em suas páginas os registros das primeiras grandes perseguições e morte dos cristãos por parte do Império Romano. A carta de Clemente de Roma, dirigida à igreja dos Coríntios, escrita logo após a implacável perseguição por parte de Domiciano, em seu capítulo cinco, refere-se sem dúvida a perseguição anterior de Nero, cujas vítimas mais famosas foram os Apóstolos Paulo e Pedro, que por suas mortes ratificaram seu testemunho com a própria vida. Nesta epístola a palavra “Martírio” já reproduz seu significa pleno “sofrer o martírio” ou melhor “dar testemunho por meio do martírio”.
            No segundo século temos dois documentos essenciais para compreensão do desenvolvimento do conceito de “mártir” no cristianismo primitivo: é a morte de Policarpo (155 d.C.) e os atos dos mártires de Lyon (177 d.C.), sob a perseguição patrocinada por Marco Aurélio. É importante reproduzirmos aqui as palavras do velho presbítero cristão, discípulo do Apóstolo João, pronunciadas pouco antes de acenderem o fogo, onde ele seria queimado vivo:
Oh, senhor, Deus dos anjos e arcanjos, nossa ressurreição e o preço do nosso pecado, reitor do todo e abrigo dos justos: Obrigado por me achar digno de sofrer martírio por vós, assim que receber minha coroa como participante do martírio de Jesus Cristo na unidade do Espírito Santo; e assim, hoje terminou meu sacrifício, e posso ver suas promessas cumpridas. Sou como um abençoado e eternamente exaltado em Jesus Cristo pontífice onipotente e eterno, pois tudo é realizado nele por meio do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.
A palavra “confissão” (homologia) será utilizada em todo o Novo Testamento para preencher e substituir o vazio deixado pelo termo "mártir" para indicar tormento, morte e sofrimento. Assim, os mártires de Lyon não permitiram que fossem chamados de mártires ainda quando na prisão, prontos para serem executados no circo, enquanto eles fazem não selassem seu testemunho através do seu sangue. E então lemos os minutos que antecedem o martírio deles: "depois de ter sido elevado à glória e animado um ao outro, após sofrem muitos gêneros de tormentos, que sabia o que eram bestas e cadeia, que ainda conserva as feridas de queimaduras e corpos cobertos com cicatrizes; aqueles homens, portanto não ousaram serem chamados mártires, nem o poderiam ser. Se alguns de nós, por escrito ou na palavra, se atrevêssemos a chamá-los, eles lhe reprenderiam duramente. Tal título de mártir só deu a Cristo, testemunha fiel, primogênito dos mortos e autor da vida divina, que também concedeu este título para aqueles que tinham morrido na confissão de fé. Eles já estão mártires, eles disseram, porque Cristo recebeu a sua confissão e selou com seu anel. Nós somos apenas confessores pobres e humildes. E com lágrimas nos nossos olhos imploravam ao Senhor que eles também pudessem um dia alcançar tão alto fim”.
Cerca de vinte anos após os acontecimentos sangrentos em Lyon, aparece já pela primeira vez o termo grego “mártir” em um trabalho Latino, a famosa "Exortatio ad Martyres" (exortação aos mártires) de Tertuliano.
No século III é outro famoso cartaginês: Cipriano, quem é martirizado na perseguição de Valeriano (253-260 d.C.) onde se distinguem com muita precisão o termo "mártir" do termo "confessor", o primeiro chama a atenção para quem tem dado sua vida em martírio e a segunda é que, mesmo sofrendo o risco de sua integridade física, ou a sua fortuna ou que quer que seja, não negam a Cristo. No entanto, em outros textos, Cipriano fala de mártires em relação a pessoas que claramente estão vivas, mas que ainda estão debaixo de ameaça de morte, mas não negou seu status como cristãos. Assim, para Cipriano, existem duas categorias de mártires: aqueles que já foram coroados com a morte por Cristo e aqueles que estão prontos para ser. Ao contrário de um “simples” confessor.
Pelas limitações de espaço não ofereço mais textos sobre os mártires. Quando lemos da fé e coragem de nossos (se podemos chama-los) “predecessores na fé”, temos que nos perguntar: o que significa de fato ser um cristão? Será que hoje no século XXI ainda temos a clara compreensão de que cremos e seguimos um homem que o mundo o rejeitou e o matou?
Que o nosso Deus nos perdoe e tenha misericórdia da igreja quando ousamos nos identificarmos como cristãos, sem discernirmos que o verdadeiro cristão segue o cordeiro que foi morto pelo mundo. Somente pela misericórdia dele permaneceremos de pé diante de seu tribunal, quando de sua vinda gloriosa. Amém!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

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