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quinta-feira, 15 de junho de 2017

O Centenário do Presbiterianismo no Brasil


O presbiterianismo é um dos primeiros ramos evangélico protestante a se estabelecer no Brasil. Desde a chegada do jovem missionário Rev. Ashbel Green Simonton (12 de agosto de 1859) até a virada do século, ou seja, pouco mais de quarenta anos o presbiterianismo desenvolveu-se de forma extraordinária, levando em conta o número limitado de missionários e pastores. Um dos fatores fundamentais para essa expansão foi a ordenação do ex-sacerdote católico romano José Manoel da Conceição como primeiro pastor presbiteriano brasileiro. Com um trabalho itinerante ininterrupto saindo pelo interior do estado de São Paulo e penetrando no estado de Minas Gerais Conceição vai estabelecendo núcleos presbiterianos que serão organizadas pelos missionários e pastores que vem em sua esteira. O historiador William R. Read em sua excelente coletânea de estatística do protestantismo no Brasil trás os números estatísticos do presbiterianismo publicados em 1890:
47 presbíteros, 62 diáconos, 389 profissões de fé, 3.199 membros comungantes e 1.461 membros não comungantes e contribuições, que atingiam US$13.856,00‖ (1967, p. 55).
Todas as conjecturas – uma mensagem definida, um povo ávido e uma estratégia apropriada - indicavam que presbiterianismo no Brasil continuaria firme e forte em sua expansão no país. Mas a formação de nuvens escuras indicava que uma tempestade aproximava-se rapidamente, de maneira que, ainda no seu nascedouro ela vai experimentar o inicio do triste ciclo de pequenas e grandes divisões eclesiásticas que haverão de minar o entusiasmo e a expansão crescente – culminando na grande ruptura em 1903 que dividira pela primeira vez, infelizmente não única, o presbiterianismo brasileiro em duas denominações: Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e Igreja Presbiteriana Independente (IPI).
Desde esta primeira grande cisão ocorrida em 1903 não se teve uma oportunidade tão grande de uma aproximação, cooperação e até mesmo um anseio de unificação entre os dois maiores segmentos do presbiterianismo brasileiro, do que a comemoração do Centenário do presbiterianismo no Brasil, que aconteceria em 1958.
A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) vinha de um período de letargia preocupante, sua proposta evangélica tão bem recebida na zona rural jamais foi igualmente aceita nos grandes centros urbanos; se ―nas décadas de 1910 e 1920, apontavam um crescimento de 78% por década da Igreja Presbiteriana, de 1931 a 1941, indicaram que o crescimento foi de apenas 31% (PIERSON, 1974, p. 179), e continuava decrescente em sua expansão, agravada cada vez mais por problemas econômicos com déficits contínuos.
Em relação ao decréscimo da membresia da IPB Pierson faz a seguinte leitura:
[...] Batistas e pentecostais, com organizações mais flexíveis e voltadas para as camadas mais baixa da população, cresceram rapidamente, superando os presbiterianos e outros grupos evangélicos tradicionais. Um culto mais informal e emocional se contrapôs às contidas experiências litúrgicas dos presbiterianos. (1974, p. 179, Apud FARIA, 2002, p. 80)
Mas, desde a reunião do SC em 1946, quando é lançada oficialmente a “Campanha do Centenário” na presidência do Rev. Natanael Cortez, ressurgem um entusiasmo contagiante nas possibilidades reais de uma retomada da expansão e recolocação da IPB como referencial do protestantismo brasileiro, com objetivos ambiciosos que Ferreira registra (1959, p. 432-433).
Para alcançar os objetivos propostos foi criada a “Comissão Central do Centenário” em 1948, cujo primeiro presidente foi o Rev. Avelino Boamorte. Mas obstáculos foram surgindo, falta de recursos, meios de comunicação ineficientes, somados a outras duas questões eclesiásticas sérias: os debates acirrados em torno da reforma da Constituição e seu Código de Disciplina, que somente foram resolvidas na reunião do Supremo Concílio em 1950,[1] e a questão fundamentalista produzida pelo Rev. Israel Gueiros[2] a partir do Seminário do Norte.
Um novo impulso da Campanha do Centenário vai ocorrer após a eleição do Rev. Benjamim Moraes Filho a partir de 1950. A Comissão agora tendo como Secretário Executivo o Rev. Antonio Elias[3] reúne-se em São Paulo em 1951, na Alameda Jaú, na recém-criada congregação presbiteriana da IPUSP, com a presença ex oficio do Rev. José Borges dos Santos Jr, que já ocupava uma liderança expressiva na IPB. Nesta ocasião, contando com representantes das agências missionárias norte-americanas operando no Brasil (Brasil Central, Leste, Oeste, Sul e Norte), resolve colocar dois missionários estrangeiros o Dr, Edwyn Orr e o Rev. William Dunlap, evidentemente sustentados pelas missões, para divulgar em tempo integral e por todo o país os objetivos da Campanha e assim contagiar e envolver as igrejas, suas lideranças e membresia. (FERREIRA,1992, v.2, p. 446) no que foram bem sucedidos.
A partir deste momento o Rev. Borges vai participar intensamente de todos os esforços da Campanha do Centenário, primeiramente envolvendo sua igreja em São Paulo a Igreja Presbiteriana de São Paulo (IPUSSP) e depois, após sua primeira eleição à presidência do Supremo concílio (SC) ele vai atraindo cada vez mais apoio incluindo outros seguimentos do protestantismo no Brasil, de maneira que a comissão recebe uma nova nomenclatura: “Comissão Presbiteriana Unida do Centenário” (CPUC), da qual Borges assume a presidência e a relatoria até o final. As mobilizações se multiplicam por todo o país, em Recife, Rio de Janeiro, Londrina e cada uma das grandes capitais estaduais.
Incansável Borges vai agregando novos objetivos à Campanha, entre eles a criação do Museu Presbiteriano e o lançamento de um selo comemorativo pelos Correios, bem como vai ampliando cada vez mais o roteiro de programações comemorativas, bem como o leque de organizações cristãs, como a Aliança Mundial Presbiteriana e a Confederação Evangélica do Brasil, bem como à Igreja Presbiteriana do Japão, que haveria de comemorar seu Centenário no mesmo ano de 1959 e as de Portugal e Chile onde a IPB e particularmente Borges se empenhava arduamente em projetos de implantação e cooperação. Informações mais detalhadas das propostas do Centenário podem ser encontradas no Digesto Presbiteriano (SC-58-181 – Comissão do Centenário - Quanto ao Doc. 64 – edição online).
Na esteira das comemorações do centenário, Borges vai fomentar a criação de um órgão gestor especifico de imprensa, através de um Relatório da SE (janeiro/1958),[4] visando municiar a IPB de adequados e eficientes meios de comunicação, o que vai ocorrer na reunião SC 1958, conforme resolução:
Plano Permanente: 1) Criar um órgão nacional para administração de todas as publicações presbiterianas, que se chamará Departamento Presbiteriano de Imprensa; 2) Nomear uma Comissão Organizadora, de nove membros, sendo cinco da IPB, dentre os quais constarão o Presidente e o Secretário Executivo do SC, dois da Junta de Nova York e dois da Junta de Nashville, encaminhando ao CIP o pedido para que cada Junta nomeie os seus respectivos representantes; (DIGESTO, SC-58-213 - edição online - Itálico meu)
Nesta mesma resolução é definido o nome do novo Jornal oficial da igreja “Brasil Presbiteriano”, substituindo o oficial “O Puritano” e o ex-oficial o “Norte Evangélico”, bem como sua primeira diretoria: Diretor Redator: Pb. prof. José Maurício Wanderley; Redatores: Reverendos: Domício Pereira de Mattos, Eudaldo Lima, Sabatini Lalli, Oswaldo Soeiro Emerich e Pb. David Mendonça. (DIGESTO, 1951-1960, SC-58-213). A partir deste momento a IPB tem seu instrumento de comunicação nacional, que funcionara como caixa de ressonância das opiniões multiformes que compõem o mosaico denominacional, até o ano de 1966, quando se tornara um instrumento unilateral e representara apenas as opiniões favoráveis dos que assumem a liderança eclesiástica da igreja e deste ranço jamais se libertou até hoje, como o famigerado “A Voz do Brasil” continua no ar apesar dos mandatários da política nacional se alternar no poder.
Mas a menina dos olhos das comemorações e particularmente para Borges sem dúvida era a criação do Seminário Presbiteriano do Centenário (SPC), que erigido a um esforço hercúleo e fecundado das maiores expectativas e sonhos, vai sofrer um infanticídio causado pelos movimentos intestinos que convulsionariam a IPB, logo após este momento apoteótico, o qual será abordado em artigo à parte.
Apesar dos percalços e posteriores desdobramentos as comemorações do Centenário foram realmente empolgantes, e praticamente todos os seus objetivos propostos foram alcançados, ainda que alguns como mencionado não perdurassem por muito tempo.
O momento culminante do Centenário foi o culto realizado no dia 12 de agosto de 1959, na Catedral Presbiteriana da Rua Silva Jardim, 23, no centro da cidade do Rio de Janeiro, o marco do inicio das atividades presbiteriana com o seu pioneiro, o jovem missionário Ashbel Green Simonton, que com sua morte tão precoce, acometido de doença tropical, tornou-se a sementeira do presbiterianismo brasileiro.
Pela primeira vez um Presidente da República, Juscelino Kubitschek, participou de uma cerimônia religiosa protestante, permanecendo mais do que o tempo protocolar previa e desta forma tendo a oportunidade de ouvir a pregação. O Supremo Concílio reunido extraordinariamente em 10 de agosto formou uma comissão com mais de 50 membros do plenário, compareceram à Câmara dos Deputados para ouvirem discursos feitos pelos políticos evangélicos alusivos ao Centenário da IPB. Este momento histórico marca o ápice da vida, liderança e ministério do Rev. José Borges dos Santos Jr.
Diferentemente da Igreja proposta por Jesus e esboçada na literatura do Segundo Testamento, onde o amor, o perdão e o companheirismo devem sempre reger suas relações interpessoais, na igreja institucional, predomina a frieza implacável dos interesses pessoais e das intenções nem sempre claras, ainda que nas entrelinhas e nas sutilezas dos fatos revelados se possam perceber algo significativo e passível de ser analisado e interpretado, que se constitui na árdua tarefa do pesquisador.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica


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Rev. José Borges dos Santos Jr. (O Velho Mestre)
Rev. Richard Shaull (O Jovem Mestre)

Referências Bibliográficas
CASTRO, Luís Alberto de. A Trajetória do “Velho Mestre: Uma Biografia do Rev. José Borges dos Santos Júnior – um recorte historiográfico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Dissertação (Mestre em Divindade) – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2011.
FARIA, Eduardo Galasso. Fé e Compromisso – Richard Shaull e teologia no Brasil. São Paulo: ASTE, 2002.
FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, vol. 1 e 2. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1959.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na capital de São Paulo – a Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013. Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira.
KIDDER, D. P. e FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros – esboço histórico e descritivo, v. 1. Brasiliana – Biblioteca Pedagógica Brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941 [Tradução da 6ª. edição em inglês - Elias Dolianiti e Revisão e Notas de Edgard Sussekind de Mendonça].
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MAFRA, Clara Cristina Jost. Os evangélicos; IN: Série Descobrindo o Brasil, ZAHAR, Jorge, ed. Rio de Janeiro: 2001.
PIERSON, Paul E. A Youger Church in Search of Maturity – presbiterianism in Brazil from 1910-1959. San Antonio: Trinity University Press, 1974.
READ, William R. Fermento religioso nas massas do Brasil. São Bernardo Campo (SP): Imprensa Metodista, 1967.
RIVERA, Paulo Barreira. A reinvenção de uma tradição no protestantismo brasileiro – a igreja evangélica brasileira entre a bíblia e a palavra de Deus. IN: PEREIRA, João Baptista Borges (org.). Religiosidade no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade e São Paulo, 2012.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980.
DIGESTO PRESBITERIANO (1951-1960), edição online, Disponível em: http://www.ipb.org.br/download/arquivos/digesto_ipb_1951-1960.pdf. Acesso em 14/05/2013.
_________________________ (1961-1970), edição online. Disponível em: http://www.ipb.org.br/download/arquivos/digesto_ipb_1961-1970.pdf. Acesso em: 15/05/2013.




[1] Em 20/07/1950, na histórica Igreja Presbiteriana Alto Jequitibá, na Zona da Mata mineira, deu-se a promulgação da Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, no interior do templo, contendo a Constituição 152 capítulos que vigora até os dias de hoje. Assinaram a Constituição os Revs. Adolpho Anders, Rev. Domício Mattos, Rev. Benjamim Morais (Presidente do Supremo Concílio), Rev. Natanael Cortez, Rev. Jader Gomes Coelho, Rev. Amantino Adorno Vassão, Rev. Cícero Siqueira e o Presbítero Torquato Santos.  CONSTITUIÇÃO E CÓDIGO DE DISCIPLINA DA IPB. Disponível em:  http://www.ipb.org.br/download/manual_presbiteriano.pdf. Acesso em 15/05/2013.
[2] Cada vez mais sem espaço na IPB, incluindo sua própria região norte, em 1956 ele lidera uma cisão na Igreja Presbiteriana do Recife, tendo apenas três pastores como aliado, sendo um deles seu aparentado e mais três pequenas congregações próximas, fundando a Igreja Presbiteriana Fundamentalista.
[3] Antônio Elias nasceu em 11 de maio de 1910, em Aparecida do Monte Alto (SP), e faleceu no dia 21 de dezembro de 2007, em Niterói (RJ). Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas (SP) em 1943 e foi ordenado ao sagrado ministério pelo Presbitério Oeste de São Paulo, em janeiro de 1944.
[4] Em seu trabalho Castro coloca na integra, em seus anexos, o Destaque 4 deste relatório no qual Borges concluiu: “Aliás, não estaremos inovando, nem inventando, mas apenas imitando o que as outras denominações de publicidade bem organizada no Brasil já faziam. Não será nem o mérito da originalidade, mas, quando muito, o mérito de usar o bom senso” (2011, Anexo n° 6).

terça-feira, 6 de junho de 2017

Síntese da História da Igreja Cristã -1º Século


O Nascimento e Crescimento
O cristianismo emerge lentamente do judaísmo. Os primeiros cristãos são judeus, frequentam o Templo, pregam nas sinagogas e o esforço inicialmente evangelizam os judeus. Somente posteriormente com Saulo/Paulo de Tarso o foco da pregação cristã serão os gentios. Somente após a queda de Jerusalém com a destruição do Templo é que será cada vez mais nítida a distinção entre o judaísmo e o cristianismo, de maneira que ao adentrar o segundo século o cristianismo sua trajetória histórica independente.
Por volta do ano 30/33, em abril, Jesus morre crucificado e ao terceiro dia ressurge dentre os mortos na cidade de Jerusalém.  Sua morte produziu um impacto violento na vida de seus discípulos que com ele haviam andado por toda Palestina judaica anunciando a mensagem evangélica do Reino de Deus e do arrependimento para a salvação e a vida eterna. Toda esperança que os alimentara por três anos entra em colapso. Tomados pelo pânico seus discípulos se escondem, com medo de serem perseguidos pelas autoridades judaicas que viam em Jesus um grande perigo para sua instituição religiosa ou presa pelos romanos, que não gostam de agitadores judeus. Mas na medida em que sua ressurreição vai sendo aferida pelos seus discípulos e demais testemunhas, sua confiança e esperança vão se manifestando em suas pregações cada vez mais ousadas e intrépidas, cumprindo o que Jesus lhes havia ordenado – que anunciassem o Evangelho!
Após a festa do Pentecostes conversões em massa começam acontecer em Jerusalém e se estendem pela Judéia e Samaria. Os primeiros estrangeiros (gentios) começam a serem inseridos nas comunidades cristãs, como o centurião Cornélio e todos de sua casa. Entretanto, nem os mais otimistas dos observadores daqueles primeiros anos poderia imaginar que o cristianismo pudesse vir a ser a potência que se tornou ao longo dos séculos.
 No entanto, a distinção definitiva do cristianismo em relação ao judaísmo de onde havia inicialmente surgido será um processo lento e doloroso. Ainda nos dias de Jesus, o judaísmo é caracterizado por suas divergências e seitas - como os saduceus, os fariseus, os essênios e zelotes – que interagem uns com os outros, muitas vezes desprezando ou ignorando. O movimento de Jesus em pouco menos de três anos atraiu uma multidão de seguidores para compartilharem de sua visão de Deus e da Torá.
Além disso, a pregação (kerigma) apostólica é que Jesus veio para cumprir todas as profecias escatológicas messiânicas anunciadas e preservadas nos escritos dos profetas, que acalentou toda a esperança do coração dos oprimidos judeus durante dois séculos, que viviam sob a tutela das potências estrangeiras.
Em um primeiro momento os primeiros cristãos não tinham qualquer preocupação em se distinguirem dos demais judeus e iam ao Templo para fazerem suas orações, permaneceram na cidade de Jerusalém para anunciarem as boas novas evangélicas. Reúnem-se nas casas para compartilharem seus ensinos e ritos peculiares, como a ceia por exemplo. Pedro assume a liderança do grupo apostólico e as comunidades cristãs se multiplicam por toda grande Jerusalém – então surgem os primeiros conflitos com as autoridades judaicas.
O diácono Estevão, de origem helenista, que vivera fora da Palestina em decorrência da Diáspora, trava um debate com as autoridades judaicas resultado de sua condenação pelo Sinédrio e posterior apedrejamento às portas da cidade (35 d.C.). Expulsos de Jerusalém, os cristãos, principalmente helenistas, não vão ficar parados: eles fundaram comunidades em Antioquia, Chipre, Fenícia, Damasco e serão os primeiros a anunciarem a mensagem evangélica aos povos estrangeiros.
Enquanto isso, Saulo de Tarso, um judeu nascido na Cilícia (atual Turquia), estudante da cultura helenística e com cidadania romana, se dispõe a caçar esses hereges do judaísmo, pois ele é extremamente zeloso da Torá e do Templo. Munido de autoridade e documentos ele inicia suas atividades em Jerusalém e adjacências, logo percebe que precisa atingir os focos cristãos que se espalham foram da Palestina judaica.  
Um dia, quando ele empreende uma viagem para cidade de Damasco com o propósito de dispersar uma comunidade cristã recentemente criada, o próprio Jesus Cristo ressurreto lhe aparece (...) não sabemos muito sobre a conversão do perseguidor, que inclusive havia sido a autoridade representante do Sinédrio no apedrejamento do diácono Estevão. De qualquer forma esse Saulo haverá de se constituir em o Apóstolo Paulo e que agora vai usar o seu zelo no serviço do Evangelho.
Após um período na Arábia coube a Barnabé buscar Saulo e inseri-lo na comunidade de Antioquia, que vai se constituir na base missionária do cristianismo para alcançar a Ásia Menor nos anos 40. A estratégia deles é adentrar primeiramente nas Sinagogas judaicas, mas o resultado normalmente é frustrante e não poucas vezes foram hostilizados e perseguições pelos judeus. Ao serem expulsos das Sinagogas pregavam então aos moradores das cidades onde estavam e que recebem a mensagem cristã de forma positiva.
Ao retornarem da primeira viagem missionária, para a base em Antioquia, e compartilharem a boa recepção por parte dos estrangeiros e da forte rejeição dos judeus, Paulo e Barnabé são confrontados com a chegada a esta cidade de cristãos advindos de Jerusalém (judaico-cristã) que proclamam a necessidade da circuncisão para a salvação. O conflito gera a necessidade de se reunir as lideranças cristãs na Igreja de Jerusalém, que goza de grande autoridade. Tiago, irmão de Jesus, aparece neste momento como o líder carismático e indiscutível desta Igreja. Durante este primeiro Concílio, realizado por volta do ano 49, respaldada por Tiago, Pedro e João sai a resolução apoiando a tese de Paulo e Barnabé de que não há necessidade de colocar sobre os novos convertidos o peso do judaísmo, estabelecendo alguns poucos pontos que serão comuns a todos. Esta é a primeira ruptura com a comunidade judaica, o primeiro sinal de independência da religião que está nascendo.
A década de 60 trás uma série de eventos que colocam em perigo o Cristianismo nascente: Tiago é morto; em 64, Nero desencadeia perseguições contra os cristãos na cidade de Roma; provavelmente nessa onda de violência religiosa/racial Pedro e Paulo são mortos. Em 70, é o drama maior dos judeus, mas também o marco da ruptura definitiva entre judaísmo/cristianismo: a revolta judaica contra os ocupantes romanos, iniciada em 66, levou à queda de Jerusalém e a destruição do Templo pelos exércitos do general romano Tito. A Igreja de Jerusalém perde sua relevância.
Quanto aos judeus, eles cerram fileiras em torno da escola judaica de Jâmnia. Impõe o judaísmo rabínico que sobrevive até hoje. Por volta do ano 90, a escola rejeitou outros movimentos judaicos discordantes. Os cristãos judeus são definitivamente eliminados do mapa do judaísmo. Não temos muitos documentos que possam reconstruir os eventos que levaram os cristãos a encontrar sua própria identidade após o drama do ano 70.
Segundo alguns pesquisadores a literatura cristã do primeiro século, no entanto, sugere que no ano de 100, a consciência de uma identidade cristã já é preeminente. No entanto, somente em meados do segundo século, com o florescimento das primeiras obras teológicas cristãs é que o Cristianismo assume de fato sua autonomia religiosa. Até então, o Cristianismo é mais um estilo de vida do que uma religião no sentido estrito.

Sucinta Cronologia do Primeiro Século da Igreja Cristã
-6 a -4
Nascimento de Jesus de Nazaré
-4
Morte do rei Herodes, o Grande
Por volta de 27-30
Jesus pregando na Judéia e da Galileia
30 de abril ou abril 33
Morte de Jesus
Por volta de 35-36
Martírio de Estêvão, a perseguição contra os cristãos helenistas
Cerca de 37
A conversão de Paulo
Por volta de 49-50
Primeiro Concílio de Jerusalém. A circuncisão não é obrigatória para os estrangeiros convertidos
60
Prisão de Paulo em Cesaréia
Entre 50 e 70
Edição e circulação dos evangelhos segundo Marcos, Mateus e Lucas.
62
Martírio de Tiago, irmão de Jesus e líder da igreja de Jerusalém
64
a perseguição de Nero contra os cristãos
Entre 64 e 68
Morte de Pedro e Paulo em Roma
66-70
Revolta judaica contra os romanos
70
Queda de Jerusalém, a destruição do Templo
90-100
Edição e circulação da literatura joanina

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica


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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Um Protestante e a Primeira História Geral do Brasil - Robert Southey


            A História do Brasil foi sendo escrita sectariamente na media em que seus fatos históricos estavam sendo produzidos. Coube a um historiador e poeta de origem inglesa – Robert Southey – escrever aquela que seria a primeira historia geral do Brasil (Varnhagen produziu sua obra posteriormente). Sua relevância está no fato de que sua obra sobre o Brasil, em três volumes, tornou-se a um primeiro esforço para uma sistematização crítica e objetiva dos fatos da história colonial. A obra de Southey abrange desde o descobrimento até a chegada da família real portuguesa no Brasil (1808).[1]
            Esse historiador inglês nasceu na cidade de Bristol em 1774. Depois de suas desventuras no setor comercial, por razões familiares e um flerte com a carreira eclesiástica anglicana, interrompida por sua expulsão do colégio Westminster School por satirizar os professores e administradores da instituição educacional. Finalmente ingressou na Universidade de Oxford e ali conclui seus estudos, também inicia uma amizade duradoura com Robert Lovell e Samuel Taylor Coleridge que vieram como ele a serem reconhecidos por suas obras literárias[2].
Em 1795 seu tio Herbert Hill, pastor anglicano, vai assumir a função de capelão na comunidade inglesa em Lisboa e leva com ele o irrequieto sobrinho então a idade de 21 anos.[3] É aqui na capital portuguesa que o jovem Southey vai definir sua carreira como escritor e historiador e assume paralelamente sua paixão pela história portuguesa e por consequência do Brasil sua importante colônia americana, mas cuja história era quase que totalmente desconhecida.
            Seu propósito original era escrever uma história geral de Portugal,[4] aproveitando-se da extraordinária biblioteca montado pelo tio contendo preciosas fontes primárias da história portuguesa e, por conseguinte, da sua colônia brasileira. Não conseguiu empreender seu objetivo primário, mas acabou por elaborar a primeira obra histórica sobre o Brasil.[5]
            Em 1813 ocupou o cargo de secretario do Erário, na Irlanda. Após deixar essa função foi residir em Koswcik, a partir de quando se dedica à Literatura e á Historia. Além de sua família assume responsabilidade junto à família de seu amigo Lovell, que havia se casado com a irmã de sua esposa, de maneira que sua situação econômica torna-se muito limitada. Em 1813 foi nomeado “Poeta Laureado”, responsável oficial em escrever peças literárias sobre a família real, passando a receber uma ajuda de custo do governo de trezentas libras.  Mas somente a partir de 1835 passou a receber um suplemento financeiro de mais trezentas libras, que lhe proporcionou um pouco mais de tranquilidade financeira[6].
O fato de um poeta se dedicar a escrever História não tem nada de excepcional, visto que tantos outros assim o fizeram. O peculiar de Southey é que ele vai dar atenção a uma remota colônia portuguesa até então quase totalmente desconhecida dos ingleses. Dedicou com afinco grande parte de seu tempo para resgatar do limbo historiográfico este povo que consistia na maior parte da América ao Sul. Evidente que seu propósito original era muito mais ambicioso, pois como indica em seus esboços desejava escrever não somente sobre a nação portuguesa, mas todas suas demais colônias no continente africano. Todavia, do projeto maior restou apenas suas anotações[7].
            Principalmente após sua estadia em Portugal ele passa a ter um interesse permanente pelas literaturas de viagens[8] e em varias ocasiões resenhou livros de ingleses que estiveram no Brasil, como o de Thomas Lindley;[9] lê as obras de John Mawe, de Andrew Grant,[10] de Henderson;[11] mantém contato pessoal a inglesa Maria Graham,[12] com William May, James Gooden; incentiva e orienta a elaboração do material produzido por John Luccock[13] e de Henry Koster,[14] pelo qual nutria sincera amizade.
            E apesar de jamais ter visitado o Brasil demonstra ter uma percepção muito lucida das realidades brasileiras, que se podem aperceber na sua História do Brasil, tais como a questão da mestiçagem, da expansão geográfica, das questões relacionadas ao meio ambiente, a questão sensível dos indígenas e do sistema escravagista, que seriam aprofundadas e arraigadas na historiografia nacional somente a partir de Capistrano de Abreu, Sílvio Romero e Euclides da Cunha. 
            Sua percepção histórica assemelhava-se à “escola histórica” alemã, de Herder[15] acentuadamente, visto que estava à sua disposição na biblioteca do amigo Coleridge, que posteriormente foi incorporada à sua própria biblioteca. Também pode se perceber a influência de diversos pré-românticos ingleses, que permeavam a mente intelectual da Grã Bretanha do século XIX.
            Suas fontes são principalmente o vasto acervo de livros e manuscritos sobre os temas luso-brasileiros construídos ao longo dos anos por seu tio materno, o capelão Hill, que atuou nas igrejas anglicanas no Porto e em Lisboa; por suas breves estadias em Portugal; por seus contatos Koster e Luccock que por vários anos moraram no Brasil; pelo padre João Ribeiro; o conde dos Arcos, último vice-rei do Brasil, que posteriormente foi governador da Bahia e que lhe enviou ao menos duas importantes obras sobre o Brasil: uma cópia da Gramática de Anchieta e por empréstimo, o Valoroso Lucideno de frei Manuel Calado. Além desses outro colaborador continuo foi o comerciante John May.
            Com extrema habilidade literária, que tinha de sobra, Southey vai evitando as generalizações e abstrações, imprimindo em seus textos um movimento natural, de maneira que o leitor torna-se participante dos acontecimentos, o que aumenta e amplia o interesse do leitor por um assunto do qual não está familiarizado – um país tropical no final do mapa da América do Sul.
            Evidentemente que uma obra constituída de três robustos volumes produziu admiradores e críticos. Mas nos parece que os favoráveis foram mais do que os desfavoráveis. Uma expressão muito entusiasta vem do amigo Walter Scott, escritor entre outros da conhecida aventura de Ivanhoé, que apreciou deliciosamente a leitura empolgante das aventuras e desventuras das centenas de personagens que compõe a obra histórica de Southey, e que nas palavras do amigo “acordou um tipo de sensação que em mim eu já imaginava coisa morta”.
            Apesar de compartilharem uma afinidade quanto à imaginação histórica,[16] a obra de Southey mantém sempre a sobriedade e o apresso pela exatidão dos fatos, que são características do historiador criterioso. Em seu meticuloso escrutínio sujeitava todas as informações à crítica e solicitando a opinião de outros que em determinadas áreas tinham mais conhecimento do ele.
            O escritor inglês está inserido em um mundo europeu encharcado de revoluções, entre as quais havia vivenciado a francesa em particular, e percebe que tais movimentos nem sempre produzem o que tão alvoroçadamente se propõe. Suas mudanças de concepções politicas serão alvo constante de critica por parte dos liberais e dos radicais ingleses, que viam nele um apostata que havia se vendido por uma pensão real.[17] Todavia, suas posturas politicas são bem definidas e abalizadas e com uma percepção extremamente avançada ele já está antevendo e criticando o que vem sendo fonte de perturbação para muitos desde então: a sensação de que a sociedade está esmagando o individuo.  
É com essa percepção experimental pessoal que ele faz a leitura dos diversos movimentos revolucionários que demarcam a história inicial brasileiro. É dentro desta compreensão que se deve procurar compreender suas críticas ao movimento da Inconfidência Mineira e seu mentor Tiradentes, ainda que o autor deixe bem claro sua total discordância e repudio à bárbara e ultrajante sentença imposta ao inconfidente.[18] Southey abordava o progresso das sociedades referendando que o movimento ideal da história dava-se por estágios - excluindo possíveis benesses nas revoluções -, que gradualmente iriam substituindo rudes hábitos em prol de refinadas maneiras. Desta forma ele adverte que se o país conseguisse evitar ou minimizar os flagelos da Revolução, cujo exemplo próximo era a fragmentação da América Espanhola, o país haveria de experimentar tempos de glória. Para ele as Revoluções somente traziam anarquia e guerra civil e divisão, de maneira que o Brasil se transformaria em um conglomerado de “nações” mesquinhas e hostis que acabaria por leva-las ao barbarismo com muita miséria e sangue derramado.
            Além de ter constatado os efeitos nocivos da Revolução francesa ele esta vivenciando na própria pele os efeitos corrosivos da Revolução Industrial em seu próprio país, que dentre outras coisas está corroendo as instituições sociais, o que lhe permite olhar para a história da jovem colônia brasileira e deslumbrar algumas peculiaridades quanto a formação mestiça da sociedade brasileira, bem como apontar alguns dos vícios que já estão, e infelizmente permaneceram até hoje, permeando as relações entre a sociedade civil [atualmente empreiteiras, banqueiros, sindicatos] e o Estado (Império) ainda nos dias coloniais. Evidentemente que suas observações críticas não soaram bem nos ouvidos sensíveis daqueles que desde sempre usufruíram dos benefícios desta ligação umbilical nefasta.
            Ele vê com entusiasmo a vinda da corte portuguesa para o Brasil, sua obra termina justamente nesse momento histórico. Entende que com a presença da realeza serão alavancadas as mudanças, e de fato elas ocorreram, pois as reformas administrativas e judiciárias que foram efetivadas acabaram por garantir a coesão social e o tão desejável progresso da colônia. Sua percepção de nacionalidade ideologicamente conservadora vem de encontro às concepções imperiais portuguesas, até porque a Inglaterra é a grande referência de um Império moderno e progressista.
            A obra de Southey contem muitas das características que serão amplamente percebidas nas obras históricas posteriores produzidas por historiadores brasileiros: as dificuldades de aceitar as mudanças, uma visão euro centrista, a defesa de um poder executivo (imperial e posteriormente republicano) centralizador e autoritário e quando necessário despótico; uma desvalorização da colônia quanto sociedade em prol de uma identidade europeia. Mas nada disso é completamente estranho, visto haver uma pressão diplomática da Grã-Bretanha sempre forte sobre Portugal e suas colônias.
            Desta forma a concepção histórica de Southey se amalgama tranquilamente com os ideais que serão desenvolvidos pelos construtores do então futuro Império e posterior República do Brasil. Ainda que diversas de suas preposições não encontrassem ressonância entre as elites brasileiras, como por exemplo, a civilização dos índios e os riscos crescentes da escravidão e aumento maciço de escravos africanos.[19] Os primeiros por que não se ajustavam ao sistema agrícola e o segundo justamente por que se constituíam na mão de obra fundamental para a expansão do então rico “agronegócio” colonial.
            É preciso lembrar que até o momento da Independência e, portanto o inicio da construção de uma identidade nacional para o novo Império que nasce, predominava um sistema de localismo anárquico, de modo que os novos idealizadores da nacionalidade concordam em grau, gênero e número com a ideologia inglesa de Estado-Nação como um projeto ideal, contido na obra elaborada pelo historiador inglês.
            Outros aspectos menos implícitos no trabalho de Southey como o positivismo e o idealismo alemão, encontram ressonância na historiografia brasileira em obras como a de Gilberto Freyre[20] e Oliveira Viana, que refletem as matrizes ideológicas da historiografia e construção da nacionalidade brasileira.
            Como muitos autores anglo-saxônicos Southey tinha enormes reservas e críticas ao catolicismo. Apesar de que a ‘History of Brazil’ faça elogios ao empenho dos jesuítas[21] a favor da proteção dos indígenas, em geral a maneira como se realizou a colonização portuguesa é condenada, em especial a escravidão e os seus efeitos, bem como sua religião católica romana ilustrada e impregnada de sincretismo.
      A obra de Southey, meticulosamente elaborada é publicada em três tomos entre 1810 e 1819.[22] Em 1822 a obra viveu uma segunda edição e na Grã-Bretanha ficou como obra referência acerca da historia brasileira durante todo o século XIX[23]. Mas essa obra não lhe trouxe significativo ganho financeiro, em relação ao primeiro volume recebeu menos do que por um único artigo escrito para a revista Quartely Review  e pelo segundo, não chegou receber nem metade do que era pago para escrever um prefácio. Em carta ao amigo John May reclama dessa discrepância editorial onde o trivial era mais valorizado do que obras muito mais elaboradas, que exigem muito mais tempo, conhecimento e pesquisa.  
            No Brasil, a obra de Southey foi apreciada principalmente por causa da sua minuciosidade. Em 1840 foi publicado um extrato em tradução portuguesa de qualidade muito ruim, e no mesmo ano de 1840, Southey foi nomeado membro honorário do IHGB.[24] Em 1862 a Livraria Garnier, Rio de Janeiro, lançou a primeira edição completa em seis volumes, com a tradução de Luís Joaquiam de Oliveira e Castro e anotações feitas pelo Cônego Dr. J. C. Fernandes Pinheiro. Uma segunda edição brasileira veio através da Livraria Progresso Editora, Bahia, seguindo fielmente a edição carioca, entre 1948 a 1954. Uma terceira edição em português foi efetivada pela Editora Obelisco, São Paulo, com anotações de J. C. Fernandes Pinheiro, Leonardo Arroyo e Brasil Bandecchi (1965). Esta edição paulista contém inúmeras ilustrações e mapas, bem como fac símiles de documentos, que não são encontradas nas edições anteriores, sendo elaborada graficamente por Pedro J. Fanelli.
            Alguns fatores negativos fizeram com que a obra de Southey fosse mais falada e comentada do que vendida no Brasil. Apesar de ser admirador da obra produzida pelos jesuítas, em relação aos índios, como Anglicano de convicção, manteve críticas contundentes quanto à religião católica romana implantada no país com seu clericalismo de baixo nível e suas cerimônias sincretistas, de modo que, conforme Maria Graham (Journal of a Voyage to Brazil, p. 13) não seguiu a própria regra de que “nem sempre a veemência contra o erro é o melhor caminho para se descobrir a verdade”. Mas além desse outro fator muito negativo para a popularidade do trabalho de Southey é que poucos brasileiros tinham o conhecimento da língua inglesa e entre a primeira edição inglesa e a primeira em português (1862) se passaram mais de trinta anos, quando nesse interim outras obras já haviam sido escritas e editadas no país, como a obra de Porto Seguro (1854) que trazia novos documentos da Torre do Tombo, que Southey não teve acesso, de maneira que a primazia do historiador inglês foi ofuscada. Soma-se ao fato de que naquela época o numero de leitores no Brasil era irrisório, bem como extremamente rara as livrarias nos grades centros urbanos.  
Por ocasião da sua morte elogiaram os seus méritos pela história, geografia, indústria e agricultura do Brasil. Dois anos antes, um membro do IHGB já tinha recomendado a exatidão e imparcialidade do trabalho de Southey. Da mesma forma, mais de 30 anos depois da publicação em inglês, Varnhagen, o futuro autor da almejada ‘História Geral do Brasil’, fez elogios à cientificidade da obra, consistindo no estudo meticuloso das fontes e na quantidade vasta de notas de rodapé, considerando o livro o melhor de seu gênero no seu tempo (VARNHAGEN, 1844).[25]
            Uma característica peculiar da obra de Southey é que ele abrange não apenas a História do Brasil, ampliando suas pesquisas em direção aos demais países da América do Sul, denominada de América Hispânica. Para muitos críticos é um defeito, pois acaba misturando informações e confundindo os leitores, produzindo um efeito caleidoscópico; mas para outros sua obra torna-se mais rica e, portanto mais relevante, pois faz as interpolações históricas com toda a região e não isolando o Brasil como se fosse o único país da região.
            Era um bibliófilo cuja biblioteca crescia a cada ano chegando a 14.000 volumes. Nunca fez uma viagem em que não trouxesse na bagagem preciosos livros. Os livreiros de Londres o conheciam muito bem e ele dizia que os livros eram alimento, bebida e roupagem para si e para seus familiares. Em todos esses volumes encontram-se marcações e anotações destacando sempre tudo que lhe chamava atenção. E dizia que velhos livros e velhos amigos são a grande riqueza de um homem e nisso ele foi mais rico do a maioria das pessoas.
            Robert Southey morreu em 26 de março de 1843 e o centenário de sua morte foi comemorado no Brasil principalmente pelos Institutos Históricos do Brasil e de São Paulo. Ele notabilizou-se como um especialista em literatura, história e história contemporânea de Portugal e Espanha, o que rendeu inúmeras publicações em notáveis periódicos britânicos: Monthly Magazine, Critical Review, Annual Review, Quartely Review e Edimburgh  Annual Register. Entre suas obras mais conhecidas estão as biografias de Nelson e John Wesley; Joana d’Arc (1796), Poesias (1797), Cartas de Espanha e Portugal (1797), Palmeirim de Inglaterra (1807) Cartas de Espriello (1807), Maldição de Keama (1811), Poemas Para os Soberanos Aliados (1814), Rodrigo o Último dos Gôdos (1814), Sir Thomas Moore, Colóquios de Estado e da Sociedade (1832) e As Vidas dos Almirantes Britânicos (1839), sendo que muitas delas são obras de mais de dois volumes.
Uma história muito conhecida por nós, mas que poucos sabem que Southey é seu autor é a história de Cachinhos Dourados (A História dos Três Ursos, Os Três Ursos, Cachinhos Dourados e os Três Ursos) que é uma história infantil primeiramente registrada em forma de narrativa pelo autor e poeta inglês e publicado pela primeira vez num volume de seus escritos em 1837.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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DIAS, Maria Odila da Silva. O fardo do homem branco: Southey, historiador do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974.
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VARNHAGEN, F.A. Historia Geral do Brazil. Madri, Imprensa da V. de Dominguez, 1857.




[1] A importância dos escritos de Robert Southey (1774-1843) nos últimos anos tem sido retomada com vigor por estudiosos de diferentes disciplinas e nacionalidades (PRATT, 2006; DIAS PINTO, 2007; VARELLA, 2012; CASTANHEIRA, 2011; RAMOS, 2013).
[2] Eles se conheceram (Robert Southey, Robert Lovell e Samuel Taylor Coleridge) em 1794, quando os três jovens entusiastas estavam morando em Bristol, começando suas carreiras poéticas e planejando a fundação de uma colônia pantisocrática - uma forma de organização social utópica em que todos são iguais em posição social e responsabilidade - nas margens do rio Susquhanna, nunca realizado. Posteriormente haveriam de ratificar seus laços de amizade casando-se com três irmãs, tonando-se assim concunhados.
[3] Antes de viajar casou-se secretamente com a jovem Edith Fricker, que permaneceu morando com as irmãs e utilizando o nome de solteira até o retorno de Southey.
[4] Dizia Southey, em carta a Miss Seton (13-6-1804) que a obra se dividiría em três volumes sobre a Europa, Ásia e África, dois ou três volumes sobre as conquistas na Ásia e um volume sobre o Brasil.
[5] Há fortes indicações que foi seu tio que o direcionou a escrever sobre o Brasil, a partir de 1806, diante da cada vez mais eminente transferência da Corte portuguesa para a Colônia americana. O tio percebe o aumento significativo do interesse inglês pelas coisas do Brasil e coloca à disposição do sobrinho sua vasta biblioteca com documentos inéditos que havia recolhido ao longo de quase 25 anos. O tio acreditava que Southey poderia conseguir subsídios junto ao governo inglês para escrever e editar a obra, mas foi frustrado pelo desinteresse demonstrado pelo então Lorde Grenville, primeiro ministro do Reino Unido, que alegou interesse maior nas outras partes da América do Sul.
[6] Southey recebeu algumas pensões em sua vida. A primeira delas foi concedida pelo seu amigo Charles Wynn no valor de £160 por ano, que em 1807 foi substituída por uma pensão do governo no valor de £200 por ano. Juntamente com o título de Poeta Laureado, recebido em 1813, Southey também ganhou uma pensão do governo. Em 1835, Southey ganhou uma nova pensão de £300 ao ano do primeiro ministro Robert Peel, que o tornou financeiramente independente do dinheiro que ganhava com o que escrevia (SPECK, 2006, p. 119 e 230).
[7] Em agosto 1822 Southey escreveu que sua 'História de Portugal' estava substancialmente concluída até a ascensão de D. Sebastião em 1557, e seu genro disse que o manuscrito e materiais adicionais estavam em sua posse, mas nunca chegou a ser publicado.
[8] “Diários e livros de viagens adquirem com o tempo mais valor; são subsídios da história e preservam a memória de muitas coisas, que o historiador deixa de lado, por considerar pouco importante ou trivial, mas que transformam em objetos de curiosidade quando se tornam obsoletos e antigos” (in Dias, 1974, p. 72).
[9] Relatos de viagens, crônicas, entre outros, exerceram um papel crucial na escrita das histórias que buscavam apresentar ao leitor inglês as informações mais acuradas sobre os principais eventos de uma região que despertava cada vez mais a curiosidade europeia – o Brasil e a América Latina. O mesmo haverá de fazer James C. Fletcher em relação aos leitores americanos.
[10] Poucas informações existem sobre a vida e obra de Andrew Grant, nos arquivos ingleses apenas encontramos referência no que diz respeito à Grant a escrita de uma história do Brasil e a menção a sua atividade como físico .
[11] James Henderson era viajante e obteve em 1823 o cargo de cônsul em Bogotá após residir desde 1821 na cidade do Rio de Janeiro. Elaborou além da sua History of Brazil, alguns panfletos avaliando a situação econômica dos territórios da América Espanhola.
[12] Este no Brasil nos anos de 1821-1823 e posteriormente editou uma espécie de Diário dessa sua viagem. Sua relevância está no fato de descrever a vida social do Rio de Janeiro daquela época, bem como pelo fato de constituir um dos raros relatos pela ótica feminina sobre o Brasil. 
[13] Chegou em meados de 1808, no exato momento da chegada da Corte Portuguesa no Brasil e permaneceu no Brasil durante dez anos, realizando negócios e observando a terra e a sociedade tão diferentes de seu país anotou tudo o que viu e, tempos depois, escreveu um livro - "Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil" - onde comentava, admirado, as mudanças na vida das pessoas que aqui moravam, com o estabelecimento da Corte portuguesa.
[14] Esteve no Brasil para tratamento de saúde. Ao retornar à Inglaterra escreve seu livro sobre o Brasil (Travels in Brazil - 1816), mas um título mais apropriado seria “Viagens ao Nordeste do Brasil”, pois que na verdade havia permanecido em Pernambuco e conheceu as províncias setentrionais: Paraíba. Natal, Aracati, Fortaleza, São Luiz do Maranhão, Alcântara e o Sertão legítimo, com seca, léguas sem fim, gado morrendo, solidão, resistência, heroísmo, primitivismo. Foi incentivado e orientado por Southey para escrever seu livro.
[15] Johann Gottfried Herder (1744 – 1803) é considerado o pai das noções relacionadas ao nacionalismo, historicismo e inspirador do movimento e antecipador dos principais temas tratada pela chamada escola histórica alemã. Que se contrapunha a todos aqueles que acreditavam que a realidade era ordenada em termos de leis universais, eternas, objetivas e inalteráveis, que podiam ser descobertas através da pesquisa racional. Herder destaca a singularidade do fator humano e das ciências que tratam desse objeto, para ele o mundo do homem é histórico. Busca-se a partir de então, e integração entre disciplinas que tratam do homem, ou seja, um saber conjunto que permitisse compreender as diversas esferas da vida em sociedade. Há uma enorme preocupação com a realidade. Herder e demais companheiros estão preocupados com a reforma social e a melhoria da qualidade de vida das massas durante os tempos da industrialização.
[16] “Se o historiador quer tratar com justiça os indivíduos cujos atos registra, deve voltar à sua época e, pondo-se onde eles estiveram, tentar, enquanto possível, ver as coisas, como lhe pareciam aos seus próprios olhos, segundo a visão que tinham deles mesmos, à mesma luz, sob o mesmo ponto de vista a através dos mesmos recursos” (Southey in Dias, 1974, p. 71-72).
[17] Abandonaria projetos utópicos para preocupar-se com reformas concretas. Em 1796, pensava nos radicais Joseph Gerrald, Thomas Holcroft, e no filósofo anarquista William Godwin, como nos três primeiros homens da Inglaterra e talvez do mundo. Já em 1817, substituíra-os por Andrew Bell, que inventou na Índia um novo método de alfabetização das massas; por Thomas Clarkson, quaker, que dedicara a vida ao movimento em prol da extinção do tráfico de escravos; pelo socialista Robert Owen, criador de Nova Lanark. Estava consumada a transição do utopismo revolucionário para o conservadorismo de reformadores filantropos, integrados na ordem constituída.
[18] Southey abordava o progresso das sociedades referendando que o movimento ideal da história dava-se por estágios - excluindo possíveis benesses nas revoluções -, que gradualmente iriam substituindo rudes hábitos em prol de refinadas maneiras.
[19] Personagens influentes na cultura brasileira como José Bonifácio e Hipólito da Costa já preconizavam os perigos inerentes do abandono dos indígenas e da crescente africanização do Brasil. O primeiro preocupa-se da questão indígena: “O outro objeto que me tem merecido muita meditação e desvelo são os pobres índios, assim gentios como domésticos; para que a raça desgraçada desta mísera gente não desapareça de todo, é mais que tempo que o Governo pense seriamente nisto: a povoação do país, a religião e a humanidade bradam há muito tempo pot um sistema sábio, ligado e duradouro..” (Revista de História, 37 (55): 224-5). E o segundo escreve sucessivos artigos (1814) chamando atenção para “a necessidade de abolir o tráfico para não continuar a ‘sujar a raça com a importação de negros’” (Correio Braziliense, 33, jan. 1817) e colocando como opção a priorização de imigração de camponeses e colonos europeus para o Brasil (Correio Braziliense, abr. de 1814; nov. 1815).
[20] A presença da cultura britânica no desenvolvimento do Brasil, no espaço, na paisagem, no conjunto da civilização do Brasil é das que não podem – ou não devem – ser ignorada pelo brasileiro interessado na compreensão e na interpretação do Brasil. Gilberto Freyre.
[21] Ele também trata com deferência as obras produzidas por católicos tais como: Acta Sanctorum, que havia pertencido aos capuchinhos de Gaut, as Revelações de Santa Brígida e as Crônicas dos Frades Franciscanos Descalços.
[22] Quando da publicação do primeiro volume, não imaginava que a obra pudesse ficar tão grande. Em suas correspondências declara que reescrevia de duas a três vezes os textos, acrescentando novas informações, recebidas do tio e outros colaboradores, ou melhorando sua redação conforme sugestões de seu amigo John Rickman. Buscou permanentemente dois objetivos: editar o maior numero possível de informações inéditas e evitar a todo custo generalizações superficiais ou precipitadas.
[23] Mesmo após a publicação, em 1819, do terceiro e último volume sobre o Brasil, o historiador inglês manteve seu interesse pelas coisas do Brasil, o que atestam suas numerosas correspondências no decorrer da década de 20 dos Oitocentos. Os conflituosos anos que se seguiram à Independência brasileira motivaram comentários e observações de Southey nos jornais ingleses, que viam nele a pessoa mais bem informada sobre o Brasil.
[24] O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, frequentado em profusão por historiadores, poetas e literatos, local onde se travaram batalhas intelectuais acerca da definição do que era próprio e impróprio da história como campo de saber, testemunhou algumas das discórdias e aproximações entre a história e a poesia. Em seu segundo ano de atividade “tratou de galardoar, como podia, o serviço que prestara á história nacional o estrangeiro ilustre, elegendo-o em sessão de 7 de março de 1840 seu sócio honorário”.
[25] Muitos membros do IHGB tem uma relação ambígua com a obra de Southey, como é o caso de Varnhagen que tece duras críticas à obra histórica do inglês, mas usa e abusa do trabalho elaborado pelo antecessor, de maneira que no primeiro volume de seu trabalho histórico (1854) Varnhagen faz 18 citações e no segundo volume (1857), oito citações da obra de Southey.