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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

INSERÇÃO DO PRESBITERIANISMO NO BRASIL (2)


Os Primeiros Convertidos e as Primeiras Igrejas Protestantes Brasileiras
            Digno de nota é o esforço empreendido por missionários metodistas americanos que entre os anos de 1835 e 1841, além dos estrangeiros residentes, também alcançaram muitos cidadãos brasileiros com sua mensagem protestante. (REILY, 1984, pp. 92-93; COSTA, 2003, pp. 2-5).
            Mas o primeiro missionário a estabelecer uma denominação protestante com brasileiros e para brasileiros foi o Dr. Rev. Robert Reid Kalley (1855) que fora fortemente influenciado pelos livros de Kidder e Fletcher e persuadido por correspondência por este último a se estabelecer no Brasil (VIERIA, 1980, p. 66).
Em 11 de junho de 1858 Kalley batiza o primeiro brasileiro marcando assim a data de fundação da Igreja Evangélica, posteriormente denominada Fluminense. Em 1868 um dos diáconos, Manoel José da Silva Viana, estabelece-se em Recife e em 1873 com a presença de Kalley 12 pessoas são batizadas e organiza-se a Igreja Evangélica Pernambucana. (LÉONARD, 1981, pp. 49-50; VIEIRA, 1980, 116-119; SOARES, 2009, p. 41).
            O Imperador D. Pedro II com seu perfil desenvolvimentista e liberal manteve contatos tanto com Fletcher quanto com Kalley e apreciava e incentivava o espírito progressista do protestantismo americano e europeu o que certamente facilitou em muito a inserção destes no país (VIEIRA, 1980, pp. 64-65 e 121-122; LÉONARD, 1981, pp.47-48).

Mudanças Econômicas e Sociais
            Outro aspecto importante, pré Simonton, é que o país esta em frenética ebulição, saindo de um sistema estritamente agrário-rural e iniciando seu processo de industrialização e urbanização, alterando substancialmente as estruturas sociais e políticas brasileiras.
            Os dados estatísticos fornecidos por Prado Junior (2004, p. 192) revelam a pujança desta mudança de eixo econômico-social que se revelaria irreversível. E conforme Rocha o “... país estava num decênio de importantes reformas e melhoramentos”, o qual ele destaca alguns exemplos: introdução dos vapores marítimos; a Companhia de Gás na Capital; a estrada de ferro Petrópolis-Mauá; o projeto da Estrada de Ferro D. Pedro II; o aumento da propaganda antiescravista; o destaque dado aos Estados Unidos como país que mais atraia imigrantes por causa de sua tolerância e liberdade de culto e consciência em contra partida ao cerceamento constitucional de fundo católico romano no Brasil; a melhoria e ampliação do sistema educacional (1941, p. 24).
            Apesar desta efervescência econômico-social o país vivia um período político calmo, onde os dois partidos, o conservador (governista) e o progressista (oposicionista), tinham estabelecido uma aliança sob a liderança do Marquês de Paraná (KIDDER e FLETCHER, 1941, p. 205).
            A Igreja Católica Romana por sua vez estava fragilizada, tanto pelo sistema regalista[1], quanto por sua crise interna entre os jansenistas[2] e galicanistas[3], de ideias liberais, que almejavam uma Igreja Católica brasileira, autônoma de Roma, e os ultramontanistas[4], de cunho conservador, cujo projeto de recristianização tinha por objetivo confirmar e reafirmar a “divindade do papa” e o poder espiritual da Igreja sobre o mundo. (RIBEIRO, 1973, captos 2 e 3; CLARK, 2005, p. 82-93 ).

Consulta Jurídica Sobre a Tolerância e Liberdade Religiosa no Brasil
            Uma última questão, de extrema importância, antecede apenas alguns meses da chegada de Simonton, mas vai ser fundamental para as suas atividades missionárias e denominacional, é a consulta jurídica proposta pelo Dr. Rev. Kalley sobre a tolerância e liberdade religiosa no Brasil.
            Kalley estava sendo coagido de várias formas a parar suas atividades religiosas proselitista, pois havia batizado e recebido como membros de sua denominação duas senhoras da alta sociedade. Então faz uma consulta a três dos mais eminentes juristas do Império: Dr. José Nabuco Tomáz de Araujo, então Ministro da Justiça, Dr. Urbano Sabino Pessoa Mello, magistrado e político e Dr. Caetano Alberto Soares, ex-sacerdote católico romano, magistrado e político, solicitando seus pareceres legais e por escrito, conforme um questionário contendo onze pontos relacionados à questão religiosa no país.
            Os pareceres dos juristas foram amplamente favoráveis à causa de Kelley e lhe deram fundamentação legal e constitucional para que continuasse a desenvolver suas atividades religiosas. Encaminha ao Governo Imperial suas documentações e os pareceres que são acolhidos pelo então Ministro do Interior, Conselheiro J. N. da Silva Paranhos, que fica satisfeito com as explicações de Kalley e lhe assegura os direitos constitucionais. A resolução oficial do Governo chega às suas mãos em 13 de agosto de 1859, portanto, um dia após o desembarque de Simonton no Brasil. (ROCHA, 1941, p. 95; VIEIRA, 1980, p. 114).
E Pinto sublinha muito bem a importância deste ponto para a inserção permanente do protestantismo no Brasil, em sua dissertação sobre Kalley e a ampliação da liberdade religiosa:
Os pareceres dos juristas e a resolução governamental foram a jurisprudência necessária para que se tornasse mais efetiva a implantação permanente do protestantismo no Brasil, servindo de referência aos demais grupos que começaram a chegar ao país. [...] Kalley saiu tremendamente fortalecido do episódio, projetando-se nos meios acatólicos e também na elite da sociedade brasileira. Um missionário por conta própria, desvinculado de qualquer denominação, que não representava nenhuma igreja ou sociedade missionária estabelecida no exterior, obteve o parecer importante de que o cidadão tinha o direito de seguir a religião que quisesse, segundo o prescrevia a Constituição de 1824. (2005, p. 111 - Itálico meu). 
            Portanto, quando Simonton desembarca no porto do Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto de 1859 encontra um Brasil, político, social, econômico e religiosamente favorável e maturado para a implantação e desenvolvimento de sua denominação presbiteriana. O que os anos anteriores indicavam apenas possibilidades, os anos posteriores demonstrariam ser uma realidade.








Referências Bibliográficas 

CLARK, Jorge Uilson. Presbiterianismo do Sul em Campinas: primórdio da educação liberal. Tese (Doutorado) Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação: Campinas, 2005. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000351752&opt=4. Acesso em: 21/05/2013.
COSTA, Herminsten Maia Pereira, in A origem da escola dominical no Brasil: Esboço histórico. Disponível em:  http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/EST/DIRETOR/Introducao_a_Educacao_Crista__15__-_Final.pdf. Acesso em 20/04/2013.
KIDDER, Daniel P. e FLETCHER, James C. O Brasil e os brasileiros (esboço histórico e descritivo). São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1941.
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga, o protestantismo e a sociedade brasileira – perspectivas sobre a missão da igreja. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
PINTO, Márcio da Silva. Robert Reid Kalley: a ampliação da liberdade religiosa e a inserção permanente do protestantismo no Brasil. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2005.
PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 46ª reimpressão, 2004.
REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. 2ª impr. rev. São Paulo; ASTE, 1984.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico (1822-1888): aspectos culturais da aceitação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973.
ROCHA, João Gomes. Lembranças do passado – Ensaio histórico do inicio do trabalho evangélico no Brasil, do qual resultou a fundação da Igreja Evangélica Fluminense pelo Dr. Robert Reid Kalley. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade Ltda, vol. 1, 1941.
SOARES, Caleb. 150 Anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009. 
TAVARES, Mauro Dillmann. Progresso e civilização à luz ultramontana - jornais católicos no sul do Brasil - Porto Alegre, século XIX. Disponível em: http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao12/materia03/texto03.pdf Acessado em 11/03/2013.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980.





[1] Este sistema passou a funcionar a partir do século quinto século em diversas modalidades, até que no século dezesseis passou a ser a autorização, normalmente negociada, da Santa Sé (Papa) para que o rei pudesse exercer autoridade sobre a igreja estabelecida em seus domínios. Os reis de Portugal e Espanha receberam o direito de padroado (outorgados por Leão X em 1514, e por Júlio II em 1550), portanto, tinham direito de recolher os dízimos e nomear bispos, o que na prática proporcionava uma ampla liberdade em relação ao poder papal romano. Em Portugal e posteriormente no Brasil este sistema foi levado ao extremo pelo Marquês de Pombal, aplicando os conceitos galicanistas do poder do Estado sobre a Igreja. D. Pedro II, ainda que não tivesse interesse pessoal em religião ou na igreja, preocupado com as pressões dos ultramontanos, utilizou-se de todos os instrumentos legais do padroado para manter um controle eficaz. Entretanto, na década de 1870 eclode a chamada “Questão Religiosa” que acabara sendo o marco da vitória ultramontana, bem como a queda de D. Pedro II e a proclamação da República. (VIEIRA, 1980, p. 28; MATOS, p. 123-126)
[2] Foi um movimento avivalista dentro do catolicismo, baseada nos conceitos de Fleming Cornelius Otto Jansen, no século XVII na França. Eles se opunham vigorosamente aos jesuítas com seu sistema escolástico. O jansenismo chega ao Brasil através dos padres e prelados que eram preparados na Universidade de Coimbra, que adotara os conceitos deste movimento. O professor Léonard destaca três importantes contribuições dos jansenismo para a entrada e expansão do protestantismo no Brasil: um zelo pela piedade, a leitura da Bíblia como exercício devocional e a autonomia em relação à Roma. (1981, p. 36-39; VIEIRA, 1980, p. 29-32)
[3] Surgiu na França onde tanto a Igreja Católica francesa quanto o Estado defendiam uma autonomia em relação a Roma e ao Papa. Em 1682 na chamada “Declaração do Clero Francês” ficou estabelecido que o poder temporal dos reis era independente do papado e que a autoridade do ensino infalível da Igreja pertencia tanto aos bispos quanto ao papa conjuntamente. (VIEIRA, 1980, p. 28)
[4] Este termo, que significa “além dos montes” pois Roma ficava além dos Alpes, foi empregado desde o século XI para denominar os cristãos que reivindicavam a autoridade absoluta do papa em matéria de doutrinas e governo da igreja, sendo utilizado também a partir do século XVI para se mostrar contrário ao Galicanismo. Entre os principais expositores deste movimento no Brasil, temos inicialmente o bispo de Mariana, D. Viçoso, e D. Antônio Joaquim de Melo, bispo de São Paulo e na década de 1870, surgem dois outros nomes de destaque: o bispo do Pará, D. Macedo Costa e D. Vital, bispo de Pernambuco. Segundo Vieira: “Pode-se dizer que o ultramontanismo do e século  XIX se colocou, não apenas numa posição a favor de uma maior concentração do poder eclesiástico nas mãos do papado, mas também contra uma série de coisas que eram consideradas erradas e perigosas para a Igreja. Entre esses “perigos” estavam o galicanismo, o jansenismo, todos os tipos de liberalismo, o protestantismo, a maçonaria, o deísmo, o racionalismo, o socialismo e certas medidas liberais propostas pelo estado civil, tais como a liberdade de religião, o casamento civil, a liberdade de imprensa e outras mais”. (VIEIRA, 1980, p. 32-33, 38). Para entender a reação ultramontana ver também o bom trabalho de Mauro Dillmann Tavares: “Progresso e civilização à luz ultramontana: jornais católicos no sul do Brasil - Porto Alegre, século XIX”.

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